Romanos · 45 de 66 · Novo Testamento
Romanos — Bloco 7: Israel e a Fidelidade de Deus às Suas Promessas
Capítulos principais
Capítulos e versículos: Romanos 9:1–11:36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
Tema central do bloco
Durante muito tempo, os capítulos 9 a 11 foram lidos como um parêntese na carta, uma digressão sobre predestinação ou sobre o futuro de Israel entre a doutrina (1–8) e a ética (12–16). A exegese do século XX, com Krister Stendahl, C. E. B. Cranfield, James Dunn e N. T. Wright, mostrou que essa leitura é equivocada. Para muitos estudiosos, estes capítulos são o ponto para o qual a carta inteira se dirige. A razão é simples: o capítulo 8 terminou afirmando que nada pode separar os escolhidos do amor de Deus. Mas Israel, o povo escolhido por excelência, a quem pertenciam as promessas, rejeitou majoritariamente o Messias. Se as promessas a Israel falharam, que garantia têm os cristãos de que as promessas de Romanos 8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não falharão também? O que está em jogo é a fidelidade de Deus, a confiabilidade da sua palavra.
O tema central é declarado em 9:6: a palavra de Deus não falhou. Paulo o demonstra em três grandes movimentos, cada um com um ângulo diferente, e termina em adoração:
- Capítulo 9 — a liberdade soberana de Deus. A promessa nunca dependeu da descendência física ou do mérito humano, mas da escolha graciosa de Deus. Isso está na própria história de Israel: Isaque e não Ismael, Jacó e não Esaú. Deus é livre para ter misericórdia e para chamar um povo dentre judeus e gentios.
- Capítulos 9:30–10:21 — a responsabilidade humana. Israel tropeçou porque buscou a justiça pelas obras, e não pela fé, e não se submeteu à justiça de Deus revelada em Cristo, o fim e o alvo da lei. A salvação está próxima de todos: basta confessar Jesus como Senhor e crer na ressurreição. Mas para crer é preciso ouvir, e para ouvir é preciso que alguém anuncie.
- Capítulo 11 — a esperança do futuro. Deus não rejeitou o seu povo. Há um remanescente escolhido pela graça, como nos dias de Elias. O tropeço de Israel não é definitivo: abriu a porta para os gentios e servirá para provocar Israel ao ciúme. Os gentios são ramos enxertados numa oliveira cujas raízes são judaicas e não têm motivo para arrogância. E há um mistério: o endurecimento parcial de Israel durará até que entre a plenitude dos gentios, e assim todo Israel será salvo.
- A doxologia (11:33-36). O argumento termina num hino à profundidade da riqueza, da sabedoria e do conhecimento de Deus.
Este é o bloco mais controvertido da carta. Nele se apoiam alguns dos debates mais intensos da história cristã: a eleição individual ou coletiva, a relação entre soberania divina e liberdade humana, o lugar de Israel no plano de Deus e a relação entre a igreja e o povo judeu. O estudo apresentará as principais leituras com equilíbrio, lembrando que o próprio Paulo encerra a discussão não com uma fórmula, mas com adoração diante de um mistério.
Versículos-chave do Livro estudado
- Romanos 9:1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Paulo expressa profunda tristeza e diz que desejaria ser separado de Cristo em favor dos seus irmãos israelitas.
- Romanos 9:4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os privilégios de Israel: adoção, glória, alianças, lei, culto, promessas, patriarcas e, segundo a carne, o próprio Cristo, que está acima de tudo, Deus bendito para sempre.
- Romanos 9:6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A tese: a palavra de Deus não falhou, porque nem todos os descendentes de Israel são Israel.
- Romanos 9:7-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A descendência da promessa vem por Isaque, não simplesmente pela linhagem física de Abraão.
- Romanos 9:10-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Antes de nascerem ou de fazerem bem ou mal, Deus anunciou que o mais velho serviria ao mais novo, para que o propósito da eleição dependesse de quem chama.
- Romanos 9:14-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Não há injustiça em Deus; ele tem misericórdia de quem quer, e a salvação não depende de quem quer ou corre, mas de Deus que tem misericórdia.
- Romanos 9:17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus levantou o faraó para mostrar o seu poder e tornar o seu nome conhecido.
- Romanos 9:20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A imagem do oleiro, que tem direito sobre o barro.
- Romanos 9:22-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus suportou com paciência os vasos da ira para manifestar a riqueza da glória nos vasos de misericórdia, chamados dentre judeus e gentios.
- Romanos 9:25-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Oseias e Isaías anunciam o povo que não era povo e o remanescente que seria salvo.
- Romanos 9:30-33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os gentios alcançaram a justiça pela fé; Israel, buscando-a pelas obras, tropeçou na pedra de tropeço.
- Romanos 10:1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Paulo ora pela salvação de Israel, cujo zelo não está fundado no conhecimento e que buscou estabelecer a própria justiça.
- Romanos 10:4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Cristo é o fim e o alvo da lei, para justiça de todo aquele que crê.
- Romanos 10:8-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A palavra da fé está perto: quem confessa Jesus como Senhor e crê que Deus o ressuscitou será salvo.
- Romanos 10:12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Não há distinção entre judeu e grego; o mesmo Senhor é generoso com todos, e todo aquele que invocar o seu nome será salvo.
- Romanos 10:14-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A cadeia da missão: invocar, crer, ouvir, pregar e ser enviado.
- Romanos 10:17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo.
- Romanos 10:21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus estendeu as mãos o dia todo a um povo desobediente.
- Romanos 11:1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus não rejeitou o seu povo; como nos dias de Elias, há um remanescente escolhido pela graça.
- Romanos 11:11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O tropeço de Israel não é queda definitiva; trouxe salvação aos gentios, e a sua plenitude trará ainda mais riqueza.
- Romanos 11:17-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os gentios foram enxertados na oliveira e não devem se orgulhar, pois não sustentam a raiz; é a raiz que os sustenta.
- Romanos 11:25-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O mistério: o endurecimento parcial de Israel durará até que entre a plenitude dos gentios, e assim todo Israel será salvo.
- Romanos 11:28-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Quanto à eleição, Israel é amado por causa dos patriarcas, porque os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis.
- Romanos 11:32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus encerrou todos na desobediência para usar de misericórdia com todos.
- Romanos 11:33-36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A doxologia final: de Deus, por meio dele e para ele são todas as coisas; a ele a glória para sempre.
Versículos relacionados em outros capítulos ou Livros da Bíblia
- Êxodo 32:31-32 — Moisés pede para ser riscado do livro de Deus se o povo não for perdoado: paralelo da angústia de Rm 9:3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Êxodo 4:22 — Israel é chamado filho primogênito de Deus: a adoção de Rm 9:4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Gênesis 21:12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A descendência de Abraão será chamada por meio de Isaque, citado em Rm 9:7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Gênesis 25:21-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os gêmeos no ventre de Rebeca e o oráculo de duas nações, o mais velho servindo ao mais novo.
- Malaquias 1:2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O amor por Jacó e a rejeição de Esaú, aplicados aos povos de Israel e Edom.
- Êxodo 33:19 — Deus terá misericórdia de quem ele quiser ter misericórdia, citado em Rm 9:15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Êxodo 9:16 — Deus levantou o faraó para mostrar o seu poder, citado em Rm 9:17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Isaías 29:16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 45:9 e Jeremias 18:1-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A imagem do oleiro e do barro; em Jeremias, o oleiro refaz o vaso conforme a resposta do povo.
- Oseias 1:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2:23 — O povo que não era povo passa a ser chamado povo de Deus.
- Isaías 8:14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 28:16 — A pedra de tropeço e a pedra angular, combinadas em Rm 9:33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- 1 Pedro 2:6-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Salmo 118:22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Cristo como pedra rejeitada pelos construtores e pedra de tropeço.
- Levítico 18:5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Deuteronômio 30:11-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A vida pela prática da lei e a palavra que está perto, na boca e no coração, relidas em Rm 10:5-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Joel 2:32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo, aplicado a Jesus em Rm 10:13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Isaías 52:7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A beleza dos pés de quem anuncia boas-novas, citada em Rm 10:15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Isaías 53:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A pergunta sobre quem creu na mensagem, citada em Rm 10:16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Deuteronômio 32:21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus provocaria Israel ao ciúme por meio de um não povo.
- Isaías 65:1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus foi achado pelos que não o buscavam e estendeu as mãos a um povo rebelde.
- 1 Reis 19:10-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Elias se julga sozinho, mas Deus preservou sete mil fiéis.
- Jeremias 11:16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Oseias 14:6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Israel descrito como oliveira.
- Isaías 59:20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 27:9 — O Redentor que virá de Sião e afastará a impiedade de Jacó.
- Isaías 40:13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Jó 41:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Ninguém conhece a mente do Senhor nem lhe deu algo primeiro: ecos da doxologia de Rm 11:34-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Efésios 2:11-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os gentios, antes estrangeiros às alianças, agora são concidadãos dos santos e membros da família de Deus.
- Mateus 23:37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus lamenta sobre Jerusalém, que não quis ser acolhida: a mesma dor de Paulo.
- Atos 13:46-48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 28:23-28 — A pregação primeiro aos judeus e depois aos gentios, e o endurecimento citado de Isaías 6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
Explicação teológica e bíblica
Primeiro subtema — A angústia de Paulo e os privilégios de Israel (9:1-5)
A dor do apóstolo. O tom muda abruptamente. Depois do hino triunfal de 8:31-39, Paulo confessa grande tristeza e dor incessante no coração (9:2), e o faz com juramento: fala a verdade em Cristo, sem mentir, com testemunho da consciência no Espírito Santo. Chega a dizer que desejaria ser anátema, separado de Cristo, em favor dos seus irmãos segundo a carne (9:3). É um eco direto de Moisés, que pediu para ser riscado do livro de Deus se o povo não fosse perdoado (Ex 32:32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A teologia de Paulo sobre Israel nasce do amor e da dor, não de frieza doutrinária. Quem discute estes capítulos sem compartilhar essa dor ainda não os entendeu.
A lista dos privilégios (9:4-5). Paulo enumera oito dons de Deus a Israel:
| Privilégio | Referência de fundo |
|---|---|
| A adoção | Israel como filho de Deus (Ex 4:22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Os 11:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) |
| A glória | A presença visível de Deus no tabernáculo e no templo (Ex 40:34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) |
| As alianças | Com Abraão, Moisés e Davi |
| A legislação | A lei dada no Sinai |
| O culto | O serviço no tabernáculo e no templo |
| As promessas | Sobretudo as messiânicas |
| Os patriarcas | Abraão, Isaque e Jacó |
| O Cristo, segundo a carne | Jesus, judeu da tribo de Judá |
Nenhum desses dons foi retirado. Paulo os descreve no presente: são deles.
Cristo é Deus? (9:5). O final do versículo traz uma questão de pontuação. O grego antigo não tinha pontuação, e o texto pode ser lido de duas formas:
- Cristo é chamado Deus. "Deles descende o Cristo segundo a carne, o qual está acima de todos, Deus bendito para sempre." É a leitura da maioria dos comentaristas, como Cranfield, Moo e Schreiner, e do comitê editorial do texto grego da UBS, segundo Bruce Metzger. A frase seria então uma das afirmações mais diretas da divindade de Cristo nas cartas de Paulo.
- Uma doxologia separada a Deus. "Deles descende o Cristo segundo a carne. Deus, que está acima de todos, seja bendito para sempre." Alguns estudiosos, como James Dunn, consideram essa leitura possível. Argumentam que Paulo raramente chama Cristo diretamente de "Deus".
A gramática favorece a primeira leitura. A frase "segundo a carne" também pede um complemento ("mas, segundo outro aspecto, Deus"), como em 1:3-4. E as doxologias independentes em Paulo costumam ter outra ordem de palavras.
Segundo subtema — A palavra de Deus não falhou: eleição e soberania (9:6-29)
A tese e a distinção (9:6-9). A palavra de Deus não falhou, porque nem todos os que descendem de Israel são Israel. Paulo não está inventando dois Israéis para escapar do problema. Mostra que sempre houve, dentro da descendência física, uma linha definida pela promessa. Abraão teve dois filhos, Ismael e Isaque, mas a promessa seguiu por Isaque (Gn 21:12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os filhos da carne não são automaticamente filhos de Deus; os filhos da promessa é que são contados como descendência.
Jacó e Esaú (9:10-13). O exemplo seguinte é ainda mais forte. Ismael e Isaque tinham mães diferentes; Jacó e Esaú eram gêmeos, do mesmo pai e da mesma mãe. Antes de nascerem e de fazerem bem ou mal, Deus anunciou que o mais velho serviria ao mais novo (Gn 25:23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O propósito é explícito: que o propósito da eleição permanecesse, não por obras, mas por aquele que chama. Paulo cita então Malaquias 1:2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), sobre o amor por Jacó e a rejeição de Esaú. Dois esclarecimentos são importantes:
- "Odiar" é uma expressão semítica de preferência ou escolha, não necessariamente uma emoção hostil. O mesmo uso aparece quando Jacó "odeia" Lia em comparação com Raquel (Gn 29:30-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e quando Jesus fala de "odiar" pai e mãe em comparação com segui-lo (Lc 14:26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- Tanto Gênesis 25:23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) quanto Malaquias 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) falam de nações, Israel e Edom, e não apenas de indivíduos. Isso está no centro do debate sobre a natureza da eleição.
Há injustiça em Deus? (9:14-18). Paulo antecipa a objeção e a rejeita com mē genoito. Ele cita a palavra de Deus a Moisés, que terá misericórdia de quem quiser ter misericórdia (Ex 33:19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A conclusão é que a salvação não depende de quem quer nem de quem corre, mas de Deus que tem misericórdia. O exemplo do faraó (Ex 9:16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) mostra o outro lado: Deus o levantou para manifestar nele o seu poder. O relato do Êxodo descreve o endurecimento do coração do faraó de duas formas. Às vezes é o próprio faraó que endurece o coração (Ex 8:15, 32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); outras vezes é Deus quem o endurece (Ex 9:12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 10:1). Muitos intérpretes veem aqui um juízo divino que confirma uma escolha humana já feita, padrão semelhante ao de Romanos 1:24-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
O oleiro e o barro (9:19-23). A segunda objeção é mais aguda: se ninguém resiste à vontade de Deus, por que ele ainda culpa alguém? Paulo responde com a imagem do oleiro (Is 29:16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 45:9; Jr 18:1-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), que tem direito de fazer do mesmo barro um vaso para honra e outro para uso comum. Alguns pontos merecem atenção:
- A resposta de Paulo não é uma explicação filosófica completa, mas uma afirmação do lugar da criatura diante do Criador. Há perguntas que a criatura não está em posição de fazer como juiz de Deus.
- Em Jeremias 18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), a imagem do oleiro enfatiza que Deus refaz o vaso conforme a resposta do povo, o que introduz a dimensão da responsabilidade.
- Em 9:22-23 há uma assimetria gramatical notada por muitos comentaristas, como Cranfield. Deus preparou de antemão (voz ativa, proētoimasen) os vasos de misericórdia para a glória. Os vasos da ira, porém, estavam preparados (katērtismena, particípio passivo ou médio) para a destruição, sem que Paulo diga por quem. E Deus os suportou com muita paciência (9:22).
- Os vasos de misericórdia são chamados dentre judeus e também dentre gentios (9:24). O tema não é apenas o destino de indivíduos, mas a formação de um povo novo.
Oseias e Isaías (9:25-29). Paulo aplica aos gentios as palavras de Oseias sobre o povo que não era povo e passa a ser chamado povo de Deus (Os 2:23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1:10). Originalmente se referiam a Israel restaurado depois do juízo; Paulo vê nelas o padrão da graça que alcança os de fora. Em seguida cita Isaías sobre o remanescente (Is 10:22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e sobre a descendência preservada, sem a qual Israel teria sido como Sodoma (Is 1:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O tema do remanescente prepara o capítulo 11.
O grande debate sobre a eleição. Romanos 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o principal texto bíblico do debate sobre predestinação. As leituras principais são:
1. Eleição individual e incondicional para a salvação. Deus escolhe soberanamente, antes da criação, quem será salvo, não com base em qualquer coisa que preveja nas pessoas. Representantes: Agostinho, Calvino, a tradição reformada, John Piper (The Justification of God, 1983), Thomas Schreiner e Douglas Moo. Argumentos: a ênfase de 9:11, 16 na independência em relação às obras e à vontade humana, a imagem do oleiro, e a objeção de 9:19. Essa objeção, dizem, só faria sentido se Paulo estivesse ensinando uma soberania que parece eliminar a responsabilidade.
2. Eleição coletiva e histórico-vocacional. Paulo trata da escolha de povos e linhagens para funções na história da salvação (Israel, e depois a igreja de judeus e gentios), e não do destino eterno de cada indivíduo. Representantes: a tradição arminiana, F. Leroy Forlines, William W. Klein e, com nuances próprias, N. T. Wright e James Dunn. Argumentos: Gênesis 25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Malaquias 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) falam de nações; o foco do capítulo é Israel como povo; a conclusão em 9:30-10:21 enfatiza a fé e a responsabilidade; e 11:23 afirma que os endurecidos podem ser enxertados de novo se não permanecerem na incredulidade.
3. A leitura cristológica de Karl Barth. Na Dogmática Eclesiástica (II/2, 1942), Barth propôs que Jesus Cristo é ao mesmo tempo o Deus que elege e o homem eleito. Nele Deus escolheu para si a rejeição e escolheu para a humanidade a eleição.
Apesar das diferenças, alguns pontos são comuns a todas as leituras: Deus é livre e não está obrigado a ninguém; a salvação é misericórdia, não direito; a identidade do povo de Deus sempre foi definida pela promessa, não pela genealogia; e a soberania de Deus não anula a responsabilidade humana, como o próprio Paulo mostrará em seguida.
Terceiro subtema — A responsabilidade de Israel e a palavra da fé (9:30–10:21)
O paradoxo (9:30-33). Paulo resume a situação com um paradoxo. Os gentios, que não buscavam a justiça, a alcançaram pela fé. Israel, que buscava uma lei de justiça, não chegou a ela, porque a buscou como se fosse pelas obras, e não pela fé. Tropeçou na pedra de tropeço. Paulo combina duas passagens de Isaías: a pedra que faz tropeçar (Is 8:14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e a pedra fundamental posta em Sião, na qual quem crê não será envergonhado (Is 28:16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A mesma pedra, Cristo, é fundamento para uns e tropeço para outros (cf. 1Pe 2:6-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 21:42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Zelo sem conhecimento (10:1-3). A atitude de Paulo é de oração: o desejo do seu coração é a salvação de Israel. Ele reconhece o zelo do seu povo por Deus, mas um zelo sem conhecimento verdadeiro (epignōsis). Paulo sabia do que falava, porque fora um zeloso perseguidor da igreja (Fp 3:6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gl 1:13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O problema não é falta de sinceridade, mas direção errada: ignorando a justiça que vem de Deus e procurando estabelecer a própria, não se submeteram à justiça de Deus.
Cristo, o telos da lei (10:4). A palavra grega telos pode significar "fim", isto é, término, ou "alvo", finalidade, cumprimento. As duas dimensões estão presentes:
- Fim, porque a lei como caminho para obter justiça chega ao término com Cristo;
- Alvo, porque toda a lei apontava para ele e nele alcança o seu propósito. Robert Badenas, em Christ the End of the Law (1985), defendeu que este é o sentido principal.
O resultado é justiça para todo aquele que crê, judeu ou gentio.
A palavra está perto (10:5-10). Paulo contrasta duas vozes. A justiça baseada na lei se expressa em Levítico 18:5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): quem pratica os mandamentos viverá por eles. A justiça baseada na fé fala com as palavras de Deuteronômio 30:12-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), onde Moisés diz que o mandamento não está no céu nem além do mar, mas perto, na boca e no coração. Paulo relê o texto à luz de Cristo. Ninguém precisa subir ao céu para trazer Cristo para baixo, porque ele já veio na encarnação. Ninguém precisa descer ao abismo para trazê-lo dos mortos, porque ele já ressuscitou. A palavra da fé está perto.
O conteúdo dessa palavra é uma das confissões mais antigas do cristianismo (10:9-10): confessar com a boca que Jesus é Senhor (Kyrios) e crer no coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos. Num império onde os cidadãos eram chamados a proclamar César como senhor, a confissão tinha também peso público e político. Boca e coração não são duas etapas separadas, mas as duas faces de uma mesma fé, interior e pública.
O mesmo Senhor de todos (10:11-13). Paulo retoma Isaías 28:16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): quem crê não será envergonhado. Não há distinção entre judeu e grego, porque o mesmo Senhor é Senhor de todos e é rico para com todos os que o invocam. A citação de Joel 2:32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é teologicamente decisiva. No original, invocar o nome do "Senhor" é invocar o nome de YHWH, o Deus de Israel. Paulo aplica o texto a Jesus. Invocar Jesus como Senhor é invocar o próprio Deus de Israel.
A cadeia da missão (10:14-17). Paulo constrói uma sequência de perguntas que vai do fim para o começo. Como invocarão sem crer? Como crerão sem ouvir? Como ouvirão sem quem pregue? Como pregarão sem serem enviados? A salvação depende de invocar; invocar depende de crer; crer depende de ouvir; ouvir depende de alguém que anuncie; e anunciar depende de alguém que envie. Isaías 52:7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) celebra a beleza dos pés dos que anunciam boas-novas. A conclusão é que a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo (10:17). A eleição de Deus, afirmada no capítulo 9, não torna a missão desnecessária. Ela opera por meio da pregação.
Israel ouviu (10:18-21). Israel não pode alegar que não ouviu. A mensagem saiu por toda a terra, diz Paulo, aplicando o Salmo 19:4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Israel não pode alegar que não entendeu. Moisés já anunciara que Deus provocaria Israel ao ciúme por meio de um povo que não era povo (Dt 32:21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Isaías, que Deus seria achado pelos que não o buscavam (Is 65:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O capítulo termina com uma das imagens mais comoventes do Antigo Testamento: Deus estendendo as mãos o dia inteiro a um povo desobediente e rebelde (Is 65:2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A rejeição de Israel não foi falta de convite. O Deus soberano de Romanos 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o mesmo Deus que suplica de mãos estendidas em Romanos 10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
Soberania e responsabilidade. Paulo coloca lado a lado a eleição soberana (capítulo 9) e a responsabilidade humana (capítulo 10) sem tentar harmonizá-las numa fórmula. J. I. Packer, em Evangelização e Soberania de Deus (1961), chamou essa relação de antinomia: duas verdades que parecem contraditórias para a mente humana, mas que são ambas ensinadas pelas Escrituras e devem ser mantidas juntas. Packer advertia contra resolver a tensão sacrificando uma das verdades.
Quarto subtema — O remanescente pela graça e o endurecimento parcial (11:1-10)
Deus rejeitou o seu povo? (11:1-2). A resposta é, mais uma vez, mē genoito. A primeira prova é o próprio Paulo: israelita, descendente de Abraão, da tribo de Benjamim. Se Deus tivesse rejeitado Israel, Paulo não estaria salvo. Deus não rejeitou o povo que conheceu de antemão, expressão que retoma a linguagem de 8:29.
O exemplo de Elias (11:2-6). Paulo recorda o episódio de 1 Reis 19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Elias, perseguido por Jezabel, queixou-se de ter ficado sozinho como profeta fiel. A resposta de Deus foi que havia preservado sete mil que não se dobraram diante de Baal. Assim também no tempo de Paulo há um remanescente escolhido pela graça (11:5). E se é pela graça, não é pelas obras, porque, do contrário, a graça já não seria graça (11:6). Mesmo nos momentos de maior apostasia, Deus nunca ficou sem povo.
O endurecimento (11:7-10). O que Israel buscava, não alcançou; os escolhidos o alcançaram, e os demais foram endurecidos (pōroō, "tornar insensível", como um calo). Paulo cita Deuteronômio 29:4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Isaías 29:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) sobre olhos que não veem e ouvidos que não ouvem, e o Salmo 69:22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O endurecimento é real e é juízo, mas os versículos seguintes mostrarão que ele é parcial e temporário.
Quinto subtema — A oliveira, os ramos e o enxerto (11:11-24)
Tropeçar não é cair para sempre (11:11-15). Israel tropeçou para cair definitivamente? Paulo nega mais uma vez. Pelo tropeço de Israel, a salvação chegou aos gentios, e isso tem um propósito: provocar Israel ao ciúme (Dt 32:21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O raciocínio é do menor para o maior: se o tropeço de Israel trouxe riqueza ao mundo, quanto mais a sua plenitude (plērōma). Se a sua rejeição trouxe reconciliação ao mundo, a sua aceitação será como vida dentre os mortos. Paulo diz que valoriza o seu ministério entre os gentios também com a esperança de despertar o ciúme dos seus compatriotas e salvar alguns deles. A missão aos gentios e a esperança para Israel não competem; estão entrelaçadas.
As primícias e a raiz (11:16). Paulo usa duas imagens de santidade. Se a primeira porção da massa é santa, toda a massa também é (Nm 15:17-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Se a raiz é santa, os ramos também são. A raiz representa provavelmente os patriarcas, Abraão em particular, a quem as promessas foram feitas.
A oliveira (11:17-24). Israel é descrito como oliveira no Antigo Testamento (Jr 11:16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Os 14:6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo desenvolve a imagem com cuidado:
- Alguns ramos naturais foram cortados, os israelitas incrédulos.
- Ramos de oliveira brava foram enxertados, os gentios crentes, e passaram a participar da raiz e da seiva da oliveira cultivada.
- Os gentios não devem se orgulhar sobre os ramos cortados: não são eles que sustentam a raiz, mas a raiz que os sustenta (11:18).
- A causa do corte foi a incredulidade, e a do enxerto, a fé. Por isso os gentios não devem ser arrogantes, mas temer (11:20).
- Bondade e severidade de Deus. Severidade para com os que caíram, bondade para com os que permanecem nela. Também os gentios podem ser cortados se não permanecerem (11:22).
- Os ramos naturais podem ser enxertados de novo se não persistirem na incredulidade, porque Deus tem poder para isso. E será mais fácil, por serem naturais (11:23-24).
Paulo reconhece que o enxerto de ramo bravo em oliveira cultivada é contrário à natureza (para physin, 11:24). Alguns estudiosos lembram que o agrônomo romano Columela (De Re Rustica V.9.16) menciona uma prática semelhante para revigorar árvores velhas. De todo modo, a ênfase de Paulo está no caráter surpreendente da graça: os gentios foram incluídos de forma inesperada.
Uma advertência com peso histórico. A advertência de 11:18-21 contra a arrogância dos gentios ganhou peso trágico ao longo da história. Por séculos, setores da cristandade alimentaram desprezo e hostilidade contra o povo judeu, o que contribuiu para perseguições, expulsões e massacres e, no século XX, para o ambiente cultural que tornou possível o Holocausto. A reflexão cristã posterior reconheceu essa ferida. A declaração Nostra Aetate (1965), do Concílio Vaticano II, cita Romanos 11:28-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ao afirmar que os judeus continuam amados por Deus por causa dos patriarcas. Diversas igrejas protestantes fizeram declarações semelhantes. Romanos 11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é, nesse sentido, um antídoto bíblico contra todo antissemitismo cristão.
Sexto subtema — O mistério: todo Israel será salvo (11:25-32)
O mistério revelado (11:25-27). Paulo usa a palavra mystērion, que em seus escritos não designa algo incompreensível, mas um plano de Deus antes oculto e agora revelado. O mistério tem três partes:
- um endurecimento parcial veio sobre Israel;
- até que entre a plenitude dos gentios;
- e assim (kai houtōs) todo Israel será salvo.
A expressão kai houtōs significa principalmente "e desta maneira", descrevendo o modo, e não simplesmente "e depois", uma sequência no tempo. Paulo cita Isaías 59:20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 27:9 sobre o Redentor que virá de Sião e afastará a impiedade de Jacó, e sobre a aliança pela qual Deus tirará os seus pecados.
Quem é "todo Israel"? É uma das questões mais debatidas do Novo Testamento:
| Leitura | "Todo Israel" significa | Representantes |
|---|---|---|
| Eclesiológica | A igreja inteira, formada por judeus e gentios crentes, o Israel de Deus (cf. Gl 6:16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) | Calvino; N. T. Wright |
| Remanescente | A soma dos judeus eleitos ao longo de toda a história, salvos ao lado dos gentios | Herman Bavinck; O. Palmer Robertson |
| Conversão futura em larga escala | Uma conversão ampla do povo judeu a Cristo no fim da era, depois da entrada da plenitude dos gentios | Cranfield; Moo; Schreiner; Dunn; muitos comentaristas modernos |
| Caminho separado (Sonderweg) | Israel seria salvo por sua própria aliança, sem precisar crer em Jesus | Krister Stendahl; Lloyd Gaston; John Gager |
A terceira leitura é hoje a mais adotada entre os comentaristas. Ela tem o apoio do contraste entre Israel e os gentios em 11:25 e da referência ao futuro. A quarta é rejeitada pela grande maioria dos intérpretes, de diversas tradições, porque contradiz 10:9-13 (não há distinção, e todos são salvos invocando Jesus como Senhor) e 11:23 (os ramos naturais serão enxertados se não persistirem na incredulidade). Também a leitura da conversão futura não precisa significar que cada judeu individualmente será salvo, mas que o povo, como povo, voltará ao seu Messias.
Vale ainda uma observação de prudência: Romanos 11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não trata da política do Estado moderno de Israel. As opiniões de cristãos sobre essa questão variam muito, e o texto de Paulo não deve ser usado como base direta para posições geopolíticas.
Amados por causa dos patriarcas (11:28-29). Quanto ao evangelho, Israel é tratado como inimigo, por causa dos gentios. Quanto à eleição, é amado, por causa dos patriarcas. A razão é uma das frases mais firmes da carta: os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis (ametamelēta, "sem arrependimento"). Aqui está a resposta final à pergunta que abriu o bloco. A palavra de Deus não falhou, porque Deus não volta atrás no que prometeu.
Misericórdia para todos (11:30-32). Os gentios eram desobedientes e receberam misericórdia por causa da desobediência de Israel. Israel agora é desobediente para que também receba misericórdia por meio da misericórdia mostrada aos gentios. Deus encerrou todos na desobediência para ter misericórdia de todos. A frase retoma o diagnóstico de 3:9-20, todos debaixo do pecado, e o leva à sua conclusão: todos dependem exclusivamente da misericórdia. A palavra "todos" aqui não promete salvação universal automática, mas afirma que judeus e gentios, sem exceção de grupo, só podem ser salvos pela mesma misericórdia.
Sétimo subtema — A doxologia: de Deus, por meio dele e para ele (11:33-36)
Depois de três capítulos de argumentação densa, Paulo não encerra com uma conclusão lógica, mas com um hino. Ele exclama diante da profundidade da riqueza, da sabedoria e do conhecimento de Deus, cujos juízos são insondáveis e cujos caminhos não se podem rastrear. Faz três perguntas retóricas que ecoam Isaías 40:13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Jó 41:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba):
- quem conheceu a mente do Senhor?
- quem foi o seu conselheiro?
- quem lhe deu primeiro alguma coisa, para que Deus tenha de lhe retribuir?
A resposta implícita a todas é "ninguém". O hino termina com uma fórmula de rara densidade: dele, por meio dele e para ele são todas as coisas. A ele a glória para sempre. Deus é a origem, o meio e o destino de toda a realidade, inclusive da complexa história de Israel e das nações.
A lição de método é profunda. A teologia verdadeira não termina em especulação orgulhosa, mas em adoração humilde. Diante dos temas mais difíceis, como eleição, endurecimento e o destino de povos, Paulo não pretende ter resolvido todos os mistérios. Termina confessando que os caminhos de Deus são maiores que a nossa capacidade de rastreá-los, e louvando-o por isso.
Como o bloco se conecta ao restante do livro
| Elemento do bloco | Relação com o restante da carta |
|---|---|
| A fidelidade de Deus (9:6; 11:29) | Responde à pergunta de 3:3-4 e garante as promessas de 8:28-39 |
| A eleição pela graça (9:11; 11:5-6) | Desenvolve o propósito de Deus de 8:28-30 |
| Cristo, telos da lei (10:4) | Retoma a justiça à parte da lei de 3:21 |
| A confissão de Jesus como Senhor (10:9) | Retoma a fé que justifica de 3:21–4:25 |
| Não há distinção (10:12) | Retoma 3:22-23 |
| A advertência contra a arrogância (11:18-20) | Prepara a humildade de 12:3 e a acolhida mútua de 14:1–15:13 |
| O Messias para judeus e gentios | Prepara a corrente de citações sobre os gentios em 15:8-12 |
| A doxologia (11:33-36) | Introduz o culto racional de 12:1, em resposta às misericórdias de Deus |
Visão cristocêntrica
Romanos 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) a 11 é, antes de tudo, uma reflexão sobre Deus e sua fidelidade. Mas Cristo está no centro de cada movimento, e a conexão é direta e explícita.
Cristo, o Messias de Israel e Deus bendito. A lista dos privilégios de Israel culmina em Cristo, que vem de Israel segundo a carne (9:5). Na leitura mais provável, ele é também chamado Deus bendito para sempre. O maior privilégio de Israel não é a lei nem o templo, mas ter dado ao mundo o Messias. Jesus não é um estranho a Israel; ele é a coroa da sua história.
Cristo, a pedra angular e a pedra de tropeço. A pedra de Isaías 28:16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 8:14 é Cristo (9:33). O Novo Testamento repete a imagem (1Pe 2:6-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 21:42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 4:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): rejeitado pelos construtores, ele se torna a pedra angular. A divisão entre os que creem e os que tropeçam não passa pela etnia, mas pela atitude diante dessa pedra.
Cristo, o fim e o alvo da lei. Toda a lei apontava para ele, e nele alcança o seu propósito (10:4). O próprio Jesus disse que não veio abolir a lei, mas cumpri-la (Mt 5:17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Cristo, a palavra que está perto. A releitura de Deuteronômio 30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) em 10:6-8 é cristológica. Ninguém precisa escalar os céus ou descer ao abismo, porque Cristo desceu na encarnação e subiu na ressurreição. A salvação não é uma conquista distante, mas uma palavra próxima, que se confessa e se crê.
Cristo, o Senhor de Joel. Ao aplicar Joel 2:32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) a Jesus (10:13), Paulo coloca Jesus no lugar do YHWH invocado pelos profetas. Invocar Jesus é invocar o Deus de Israel. Esta é uma das afirmações cristológicas mais altas da carta, expressa não em tratado, mas na prática da oração.
Cristo, o Redentor que vem de Sião. O Redentor de Isaías 59:20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), citado em 11:26, é entendido pela maioria dos intérpretes como Cristo, quer na sua primeira vinda, quer na segunda. A salvação final de Israel não acontece à parte de Jesus, mas por meio dele.
Cristo, o verdadeiro Israel e o eleito por excelência. Há uma conexão temática importante, que não é dita explicitamente nestes capítulos. Os Evangelhos apresentam Jesus revivendo a história de Israel: chamado do Egito (Mt 2:15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), citando Os 11:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), provado no deserto (Mt 4:1-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e fiel onde o povo falhou. Isaías chama o Servo de "Israel" (Is 49:3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E Efésios 1:4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) afirma que a eleição acontece "em Cristo". Karl Barth desenvolveu essa linha ao ver em Jesus o eleito por excelência, em quem toda eleição tem seu fundamento. Por qualquer caminho de leitura, é em Cristo que a eleição, a promessa e a fidelidade de Deus a Israel se encontram.
A doxologia e o Filho. A fórmula de 11:36, que atribui ao Pai ser a origem, o meio e o fim de todas as coisas, aparece em outros textos aplicada também ao Filho. Em 1 Coríntios 8:6, o Pai é a origem de todas as coisas e Cristo é o meio pelo qual tudo existe. Em Colossenses 1:16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), todas as coisas foram criadas por ele e para ele. O louvor que encerra Romanos 11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é dirigido ao Deus que se revela plenamente em Cristo.
Aplicações espirituais e práticas
1. Dor pelos que estão longe de Deus. A angústia de Paulo em 9:1-3 e sua oração em 10:1 são um modelo para a vida cristã. Quem está seguro no amor de Deus (Rm 8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) não se acomoda; sente dor pelos que ainda não conhecem esse amor. Na prática, isso inclui orar regularmente e pelo nome por familiares, amigos, colegas e clientes que não creem, e tratar com compaixão, não com superioridade, quem pensa diferente. A doutrina que não produz lágrimas pelos perdidos ainda não chegou ao coração.
2. Zelo com conhecimento. Israel tinha zelo por Deus, mas sem conhecimento (10:2). O alerta vale para todos os religiosos sinceros. Sinceridade não basta; é possível ser fervoroso e estar na direção errada. Isso leva a uma vida de estudo humilde das Escrituras, à disposição de corrigir convicções à luz da Palavra e à desconfiança de qualquer zelo, inclusive o próprio, que dispense Cristo e a graça. O antídoto é submeter-se à justiça de Deus, e não tentar estabelecer a própria.
3. A simplicidade da salvação e a urgência da missão. A salvação está perto e é acessível: confessar Jesus como Senhor e crer na ressurreição (10:9-10). Mas a cadeia de 10:14-15 mostra que essa palavra precisa ser levada. Toda pessoa que crê ouviu de alguém. Isso convoca cada cristão a participar da missão, seja como quem anuncia no seu ambiente, seja como quem envia e sustenta, com oração, recursos e apoio a missionários e projetos de evangelização. A soberania de Deus não dispensa a missão; ela a torna esperançosa.
4. Humildade dos gentios e rejeição de todo antissemitismo. A advertência de 11:18-21 é direta: os cristãos de origem gentia não sustentam a raiz; são sustentados por ela. A fé cristã tem raízes judaicas: o Deus de Abraão, as Escrituras de Israel, o Messias judeu, os apóstolos judeus. Isso exige conhecer e valorizar essas raízes, rejeitar com firmeza toda forma de desprezo ou hostilidade contra o povo judeu e manter, no diálogo e no testemunho, o respeito e o amor que Paulo demonstra. A arrogância espiritual é sempre um sinal de que a graça foi esquecida.
5. Esperança nos tempos de minoria. Elias se sentia sozinho, e Deus tinha sete mil (11:2-5). Em tempos em que a fé parece minoritária no trabalho, na universidade, na família ou na cultura, a lição é dupla. Deus sempre preserva um povo, mesmo quando não o vemos. E nunca devemos tratar a situação presente como a última palavra de Deus sobre uma pessoa, uma família ou um povo. O endurecimento de hoje pode ser a porta para a misericórdia de amanhã.
6. Manter juntas a soberania de Deus e a responsabilidade humana. Romanos 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 10 ensinam a não sacrificar nenhuma das duas verdades. A soberania de Deus traz humildade, porque a salvação é misericórdia, e segurança, porque Deus completa o que começa. A responsabilidade humana traz seriedade, porque cada um responde por sua resposta ao evangelho, e urgência, porque é preciso anunciar e suplicar. Na vida pessoal, isso significa orar como se tudo dependesse de Deus e agir como quem leva a sério a própria responsabilidade.
7. Fazer da teologia um caminho para a adoração. A doxologia de 11:33-36 ensina que o estudo das Escrituras, mesmo sobre os temas mais difíceis, deve terminar em louvor. Quando um tema bíblico gerar mais orgulho intelectual, debates ásperos ou divisões do que adoração e humildade, algo se perdeu no caminho. Uma prática concreta é encerrar o estudo bíblico, pessoal ou em grupo, com oração e louvor, reconhecendo os limites do nosso entendimento diante da sabedoria de Deus.
Mensagem de reflexão
Sabedoria para o Cotidiano
Romanos 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) a 11 nos lembra que a nossa segurança não está na força da nossa fé, mas na fidelidade de um Deus que não volta atrás no que promete, nem com Israel nem conosco. O Senhor que escolhe livremente é o mesmo que estende as mãos o dia inteiro a um povo rebelde, e a palavra que salva está ao alcance de qualquer um que confesse Jesus como Senhor. Diante dos caminhos de Deus que não conseguimos rastrear, a resposta sábia não é a arrogância de quem acha que entendeu tudo, mas a humildade de quem foi enxertado por graça numa oliveira que não plantou. Hoje, ore com amor por quem ainda está longe, trate com respeito as raízes que o sustentam e termine cada pergunta difícil como Paulo terminou: em adoração ao Deus de quem, por quem e para quem são todas as coisas.