Salmos · 19 de 66 · Antigo Testamento
Salmos — Capítulo 118
Título do capítulo: A pedra descartada e as portas abertas
Gênero literário: Poesia/Salmo (ação de graças individual em moldura litúrgica coletiva: uma procissão de festa que sobe ao templo, com o testemunho de quem foi cercado e salvo, a entrada pelas portas, a aclamação do povo e a bênção dos sacerdotes; salmo real na leitura de muitos estudiosos e o último do Hallel egípcio, Sl 113–118 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))
Número de versículos: 29
Nota de precisão: a numeração segue a tradição das Bíblias em português. Este salmo não tem inscrição, de modo que, no hebraico impresso, os números coincidem com os nossos; na antiga tradução grega, que junta os Salmos 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 10, ele é o salmo cento e dezessete. Há palavras discutidas no v. 10 (o verbo que descreve a vitória sobre as nações), no v. 12 (o fogo dos espinhos) e, sobretudo, no v. 27 (o que se ata ao altar e com quê); as questões são tratadas no lugar próprio. A afirmação de que este foi o hino cantado por Jesus e pelos discípulos antes de saírem para o monte das Oliveiras é uma probabilidade bem fundamentada, não uma certeza, e o estudo a apresenta como tal.
🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural
O Salmo 118 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) fecha um pequeno conjunto de seis salmos, do 113 ao 118, que a tradição judaica chama de Hallel, palavra ligada ao verbo do louvor, e, mais precisamente, de Hallel egípcio. O nome vem do Salmo 114 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que canta a saída de Israel do Egito, e do tom de libertação que atravessa o grupo. Segundo a Mishná, a coletânea da tradição oral judaica posta por escrito por volta do ano 200 d.C., esses salmos eram cantados nas grandes festas de peregrinação, e na refeição da Páscoa eram divididos em duas partes: os Salmos 113 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 114 antes da refeição, os Salmos 115 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) a 118 depois dela, ao fim da noite. A Mishná é posterior ao tempo de Jesus, mas muitos estudiosos entendem que ela registra, nesse ponto, um costume já antigo.
É por isso que o salmo tem um lugar tão especial na leitura cristã. Mateus e Marcos contam que, terminada a ceia, Jesus e os discípulos cantaram um hino e saíram para o monte das Oliveiras (Mt 26.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 14.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os Evangelhos não dizem qual hino foi. Se a ceia foi a refeição pascal, como os três primeiros Evangelhos a apresentam, o mais provável é que o canto tenha sido a segunda parte do Hallel, e as últimas palavras cantadas por Jesus antes do Getsêmani teriam sido as deste salmo. A cronologia de João levanta uma discussão conhecida sobre a natureza daquela ceia, cujo caráter pascal Joachim Jeremias defendeu num estudo clássico; mas, mesmo para quem hesita, a última semana de Jesus está saturada deste salmo, como se verá.
O salmo não tem inscrição: nem autor, nem indicação musical, nem ocasião declarada, nem selá. A data fica em aberto. Alguns leem nele a voz de um rei de Judá que volta de uma batalha e sobe ao templo para cumprir o voto de ação de graças; a menção a todas as nações que o cercaram (vv. 10-12) e a figura de quem entra pelas portas à frente de uma procissão combinam bem com um rei. Outros o situam depois do exílio, quando o povo reconstruía o templo cercado de vizinhos hostis; Esdras conta que, ao lançarem os alicerces, sacerdotes e levitas cantaram a bondade e o amor leal do Senhor com a mesma fórmula que abre e fecha este salmo (Ed 3.10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Há ainda quem ouça no "eu" do salmo o próprio Israel. Nenhuma leitura se impõe sozinha, e o salmo pode ter servido a mais de um momento da história do povo.
O que se pode dizer com mais segurança é a forma. O texto supõe um ritual, com vozes que se alternam: quem convoca o refrão (vv. 1-4), o orante que conta o que viveu (vv. 5-18), o diálogo à porta (vv. 19-20), o coro maravilhado (vv. 22-24), a aclamação e a bênção dada da casa do Senhor (vv. 25-26), a ordem sobre o altar (v. 27). É um salmo para ser cantado em movimento, de fora para dentro do templo, da mesma família das liturgias de entrada dos Salmos 15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 24 (Sl 15.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 24.3-10).
A festa em que esse movimento se fazia com mais pompa era a dos Tabernáculos, quando o povo morava em cabanas e levava ramos às mãos (Lv 23.40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ne 8.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Segundo a Mishná, os peregrinos agitavam os ramos em pontos determinados deste salmo, inclusive no pedido do v. 25, e no sétimo dia davam voltas ao redor do altar repetindo esse pedido. O pano de fundo ilumina os ramos da chegada de Jesus a Jerusalém, embora ela tenha acontecido perto da Páscoa (Jo 12.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Por fim, o salmo é um tecido de memórias do Êxodo. O v. 14 repete, quase palavra por palavra no hebraico, o começo do cântico de Moisés depois da travessia do mar (Ex 15.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a destra do Senhor que age com poder, nos vv. 15-16, é a mesma do cântico (Ex 15.6, 12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Isaías retoma a mesma confissão ao falar da salvação futura (Is 12.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Hallel egípcio termina, assim, com alguém que conta a própria libertação na linguagem da grande libertação de Israel.
📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo
O salmo começa convocando todos à ação de graças, com dois motivos: a bondade do Senhor e o seu amor leal, que não conhece fim (v. 1). Em seguida, três grupos são chamados a repetir essa confissão: Israel (v. 2), a casa de Arão, isto é, os sacerdotes (v. 3), e os que temem o Senhor (v. 4). Os três grupos são os mesmos que o Salmo 115 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) chama a confiar no Senhor (Sl 115.9-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Então o orante conta a sua história. Apertado pela angústia, clamou ao Senhor, que lhe respondeu e o levou a um lugar largo (v. 5). Daí a certeza: com o Senhor ao seu lado, o medo perde o domínio, e nenhum ser humano tem sobre ele poder definitivo (vv. 6-7). Buscar abrigo no Senhor vale mais que confiar no homem ou nos poderosos (vv. 8-9).
Vem o perigo. Todas as nações o cercaram, uma vez e outra, como um enxame, e no nome do Senhor ele as repeliu; elas se apagaram como fogo em mato espinhoso (vv. 10-12). Empurrado com violência para cair, foi socorrido pelo Senhor (v. 13), e confessa, com a linguagem do cântico do Êxodo, que do Senhor lhe vêm a força, o canto e a salvação (v. 14).
Ouve-se então a festa nas tendas dos justos, que celebram três vezes o poder da destra do Senhor (vv. 15-16). O orante declara que a morte não o levará: o tempo que lhe resta servirá para narrar as obras de Deus (v. 17). O Senhor o disciplinou com dureza, mas não o entregou à morte (v. 18).
A procissão chega ao templo. O orante pede que se abram para ele as portas da justiça, para entrar e dar graças (v. 19), e uma voz responde identificando a porta como pertencente ao Senhor e reservada aos justos (v. 20). Já dentro, ele agradece a Deus por tê-lo ouvido e salvo (v. 21).
Agora o povo fala. Uma pedra posta de lado pelos que construíam acabou ocupando o lugar principal do edifício (v. 22); a inversão veio do Senhor, e todos a contemplam maravilhados (v. 23). O dia é apresentado como obra do Senhor, e todos são convidados a alegrar-se (v. 24). Sobe um pedido urgente de salvação e de prosperidade (v. 25), e da casa do Senhor se pronuncia a bênção sobre quem chega trazendo o nome do Senhor (v. 26). Confessa-se que o Senhor é Deus e fez brilhar a sua luz sobre o povo, e manda-se atar a oferta da festa até as pontas do altar (v. 27). O orante chama o Senhor de seu Deus e lhe promete gratidão e exaltação (v. 28), e o salmo termina com o mesmo convite do começo (v. 29).
🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)
Versículos 1-4 — O refrão que todos devem cantar
O salmo abre com uma das fórmulas litúrgicas mais repetidas do Antigo Testamento: hodu laYHWH ki-tov, ki le'olam ḥasdo. O verbo hodu vem de yadah, que significa louvar e também confessar, reconhecer publicamente; a ação de graças bíblica é sempre um testemunho dado diante de outros. O motivo é duplo: o Senhor é tov, bom, e o seu ḥesed, o amor leal da aliança, dura le'olam, até o horizonte mais distante do tempo. A fórmula forma o refrão do Salmo 136 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e soa quando a glória enche o templo de Salomão (2Cr 5.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 7.3), quando o exército de Josafá marcha cantando (2Cr 20.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e quando se lançam os alicerces do segundo templo (Ed 3.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Jeremias anuncia que ela voltará às ruas desoladas de Jerusalém (Jr 33.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É o canto do povo de Deus nos seus recomeços.
Os vv. 2-4 transformam a fórmula numa resposta coral: Israel, os sacerdotes e os tementes ao Senhor, cada grupo por sua vez, confessam que o amor leal de Deus não acaba. Muitos estudiosos entendem que o terceiro grupo inclui estrangeiros que se uniam ao culto de Israel; outros pensam simplesmente em todos os fiéis. Em qualquer caso, o círculo se alarga. Antes de ouvir a história do orante, a congregação já sabe qual é a sua moral: tudo o que será contado é prova do ḥesed.
Versículos 5-9 — Do aperto ao lugar largo
A história começa no metsar, o aperto, o lugar estreito. A palavra é parente de tsarah, angústia, e descreve uma situação em que não se tem espaço para respirar nem para se mover. O contraste é com merḥav, o lugar espaçoso, amplo, aberto. Na linguagem dos salmos, a salvação muitas vezes é descrita como espaço: Deus tira o orante do sufoco e o põe num campo largo (Sl 4.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 18.19; 31.8). O v. 5 diz isso com grande economia: o clamor subiu a Yah, e a resposta veio em forma de espaço. A forma abreviada do nome divino, Yah, aparece aqui pela primeira vez no salmo e voltará em momentos decisivos (vv. 14, 17, 18, 19); é a forma usada no cântico do Êxodo (Ex 15.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e na exclamação haleluyah.
O v. 6 tira a conclusão: o Senhor está li, do meu lado. Daí a ausência de medo e a pergunta retórica, que o Salmo 56 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) também faz (Sl 56.4, 11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), sobre o que um ser humano, 'adam, poderia de fato fazer contra ele. O orante não nega que os homens ferem; acaba de contar que foi apertado por eles. Mede o poder humano diante do de Deus: o homem pode muito, mas não pode a última coisa. Hebreus citará este verso para encorajar cristãos tentados pela insegurança material e pela perseguição (Hb 13.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 7 repete a certeza: o Senhor está entre os que o ajudam, não como um aliado entre outros, mas, segundo a maioria dos comentaristas, como o auxílio que vale por todos. E o orante espera ver, er'eh, o fim dos inimigos; o verbo é o de quem assiste à justiça de Deus, não o de quem a executa.
Os vv. 8-9 formam um pequeno díptico de sabedoria, com a estrutura do "melhor é… do que…" de Provérbios: buscar refúgio, ḥasot, no Senhor vale mais que confiar, betoaḥ, no homem, e mais que confiar nos nedivim, os nobres, os príncipes. O paralelismo é progressivo: do ser humano em geral passa-se aos poderosos, em quem mais se costuma pôr a esperança (Sl 146.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 17.5-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Para um rei que voltava de uma guerra, o verso teria uma ponta política: a vitória não veio de alianças com potências estrangeiras.
Versículos 10-14 — Cercado pelas nações, socorrido pelo nome
Esta é a estrofe mais dramática do salmo, e a sua força vem da repetição. O verbo sabab, cercar, aparece quatro vezes em três versos, e o refrão beshem YHWH ki 'amilam, que atribui a vitória ao nome do Senhor, três vezes. O cerco se fecha camada após camada, e a resposta permanece a mesma. O verbo 'amilam é discutido: a forma lembra mul, o verbo da circuncisão, e alguns intérpretes viram aqui uma alusão ao corte; a maioria prefere um verbo homônimo, com o sentido de repelir, rechaçar. O sentido geral é claro: ele resistiu e venceu, e a vitória não foi dele, foi do nome.
O nome é a presença do próprio Deus revelada e invocada; Davi enfrentou Golias com a mesma convicção (1Sm 17.45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A menção a todas as nações é provavelmente uma hipérbole poética, mas uma hipérbole que só faz sentido na boca de alguém que representa o povo inteiro, como um rei ou o próprio Israel. O cerco por muitos povos é tema dos salmos reais e de Sião (Sl 2.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 48.4-6).
O v. 12 traz duas imagens. Os inimigos o cercam como abelhas, enxame que pica e não deixa fugir (Dt 1.44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); mas se apagam como fogo de espinhos, que pega depressa, faz barulho e logo vira cinza (Ec 7.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O hebraico diz que se apagaram; a antiga tradução grega leu que arderam, leitura que alguns estudiosos preferem. O inimigo é feroz e ruidoso, mas a sua força é breve.
No v. 13 o orante se volta, de repente, para o adversário e fala com ele na segunda pessoa, lembrando-lhe o empurrão que deveria tê-lo derrubado. O verbo daḥoh daḥitani é enfático, empurrar e voltar a empurrar. A frase conta o momento em que ele quase sucumbiu. Mas o Senhor o 'azarani, socorreu. A queda não aconteceu.
O v. 14 é a chave do salmo inteiro. Três palavras dizem o que o Senhor é para o orante: 'ozzi, força, zimrat, canto, e yeshu'ah, salvação, que ele se tornou. É a citação do cântico do mar, quando Israel viu os egípcios mortos à beira da água (Ex 15.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O orante não encontra palavras melhores do que as de Moisés para dizer o que lhe aconteceu. A sua libertação pessoal é lida como um novo Êxodo, e o Deus que agiu no mar é o mesmo que agiu no cerco. A palavra yeshu'ah, salvação, que reaparecerá nos vv. 15 e 21 e ecoa no pedido do v. 25, é da mesma raiz do nome Josué, em hebraico, e Jesus, em grego. Não se deve fazer disso um argumento, mas o leitor cristão não pode ouvir a palavra sem perceber o nome.
Versículos 15-18 — A destra do Senhor e a vida devolvida
A cena se amplia. Ouve-se o qol rinnah wishu'ah, o som de gritos de alegria e de vitória, nas tendas dos justos, talvez as cabanas da festa dos Tabernáculos. O grito tem três membros, todos começando pela destra do Senhor: o primeiro e o terceiro celebram os seus feitos de valentia, ḥayil, e o do meio diz que ela se ergueu. É a forma de uma aclamação de guerra, e a destra é a do cântico do mar, que se mostrou gloriosa em força e despedaçou o inimigo (Ex 15.6, 12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 17 é talvez o mais pessoal do salmo. O orante afirma que a morte não terá a palavra sobre ele: continuará vivo, e o tempo que lhe resta será dedicado a narrar os feitos de Yah. A vida salva se torna testemunho. Martinho Lutero, que chamou este salmo de seu predileto e lhe dedicou a exposição Das schöne Confitemini (1530), segundo relatos antigos teria escrito este verso na parede do seu quarto no castelo de Coburgo, nos meses tensos da Dieta de Augsburgo.
O v. 18 é de uma honestidade notável. O verbo yasar, disciplinar, corrigir, educar, aparece em forma enfática: por trás do cerco, o orante reconhece a mão pedagógica de Yah, que o disciplinou com dureza. É a linguagem da correção paterna de Provérbios (Pv 3.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), que Hebreus aplicará aos cristãos (Hb 12.5-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas há um limite: Deus não o entregou à morte. A disciplina não é rejeição. Paulo, ao descrever os ministros do evangelho como homens castigados e não mortos, parece ecoar este verso (2Co 6.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Versículos 19-21 — As portas da justiça
A procissão chegou ao templo. O orante pede que lhe sejam abertas as sha'arei-tsedeq, as portas da justiça, porque quer entrar e agradecer a Yah. As portas são chamadas assim porque guardam o lugar santo, onde só pode entrar quem está em ordem com Deus; o Salmo 15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e o Salmo 24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) perguntam quem pode subir ao monte do Senhor e respondem com a descrição de uma vida íntegra (Sl 15.1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 24.3-6). Isaías anuncia um cântico do futuro em que as portas se abrem para que entre a nação justa, que guarda a fidelidade (Is 26.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 20 parece ser a resposta de quem guarda a entrada, sacerdote ou levita: a porta é do Senhor, e quem passa por ela são os justos. É Deus quem define quem entra. O orante entra, e a pergunta implícita é decisiva: com que direito? A resposta não está numa lista de virtudes, como nos Salmos 15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 24, mas no que acaba de ser contado. Ele entra como alguém que foi respondido e salvo; a justiça que lhe abre a porta é, antes de tudo, a fidelidade de Deus que o livrou.
O v. 21 confirma isso. Já do lado de dentro, ele agradece a Deus diretamente, na segunda pessoa, retomando o vocabulário do v. 5 (a resposta) e do v. 14 (a salvação). O testemunho está completo; agora fala a comunidade.
Versículos 22-24 — A pedra descartada e o dia que é obra do Senhor
O v. 22 é o verso mais citado do salmo no Novo Testamento. A imagem é tirada do canteiro de obras. Os bonim, os construtores, examinam as pedras e põem de lado uma delas, julgada imprópria; pois foi essa a que se tornou ro'sh pinnah, literalmente cabeça de ângulo. A expressão pode designar a pedra angular, posta no alicerce para alinhar duas paredes e sustentar o peso, ou a pedra de remate, posta no alto para fechar um arco ou coroar a obra; alguns estudiosos aproximam o texto da pedra principal trazida entre aclamações quando o templo reconstruído é concluído (Zc 4.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em qualquer leitura, a pedra rejeitada ocupa o lugar mais importante do edifício.
No contexto do salmo, a pedra é provavelmente o próprio orante, ou o povo que ele representa: desprezado e cercado pelas nações, que se julgavam os construtores da história, e posto por Deus no lugar central. Uma antiga paráfrase aramaica dos Salmos, segundo os estudiosos que a examinaram, lê aqui o menino desprezado entre os filhos de Jessé, isto é, Davi (1Sm 16.11-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): a história do rei improvável.
O v. 23 diz quem fez a inversão: ela veio do Senhor e é uma maravilha, nifla'ot, aos olhos de todos, o termo das obras extraordinárias do Êxodo (Ex 3.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 15.11). Os construtores não a previram, nem poderiam prever.
O v. 24 tira a conclusão litúrgica, apontando o dia presente como obra do Senhor. O verbo 'asah, fazer, pode ter aqui o sentido de agir: trata-se do dia em que o Senhor agiu. O verso não fala, em primeiro lugar, de todos os dias em geral, como costuma ser usado, mas do dia da libertação que acaba de ser celebrada; a aplicação a cada dia não é errada, mas o sentido próprio é mais forte. O convite é a exultar bo, palavra que pode significar nele, no dia, ou nele, no Senhor, e talvez a ambiguidade seja intencional.
Versículos 25-29 — Hosana, bênção e o altar da festa
O v. 25 é uma súplica dupla, marcada pela partícula na', que dá urgência e humildade ao pedido: na primeira metade, hoshi'ah na', pede-se salvação; na segunda, hatsliḥah na', êxito, prosperidade. Da primeira vem a palavra hosana. Depois de celebrar uma salvação recebida, o salmo volta a pedir salvação, porque a vitória do passado alimenta a súplica do presente. Com o tempo, o hosana tornou-se também uma aclamação festiva, e é assim que aparece nos Evangelhos.
O v. 26 traz a bênção dada da casa do Senhor sobre quem chega trazendo o nome do Senhor; na liturgia original, parece ser a acolhida dos sacerdotes ao orante e, no plural, a toda a procissão. A figura de quem vem, que o grego dos Evangelhos chamará de ho erchomenos, ganhou com o tempo um tom de expectativa messiânica: João Batista mandou perguntar a Jesus se era ele o que viria, ou se a espera devia continuar (Mt 11.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 27 começa com uma confissão breve, 'el YHWH, que afirma a divindade do Senhor, e acrescenta wayya'er lanu, a declaração de que ele fez brilhar a sua luz sobre o povo, eco da bênção sacerdotal (Nm 6.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A segunda metade é a mais difícil do salmo. A palavra ḥag, festa, parece designar aqui a vítima da festa ou a própria procissão; 'avotim pode significar cordas ou ramos frondosos. Daí duas leituras: ou se manda atar a vítima com cordas até as pontas do altar, ou se manda conduzir a procissão, com ramos, até elas. As pontas, os chifres do altar, eram as saliências dos quatro cantos, onde se aplicava o sangue do sacrifício (Ex 27.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lv 4.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e onde um fugitivo buscava asilo (1Rs 1.50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Na primeira leitura, o verso descreve o sacrifício de ação de graças, a todah, que coroava o voto; na segunda, a procissão ao redor do altar que a Mishná descreve na festa dos Tabernáculos. A dúvida é real e não deve ser escondida.
O v. 28 volta à voz individual e retoma, mais uma vez, o cântico do mar, em que Moisés chama o Senhor de seu Deus e promete exaltá-lo (Ex 15.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o orante faz a mesma confissão, acrescentando a ação de graças. E o v. 29 repete o v. 1, fechando o salmo numa moldura perfeita, uma inclusio. A história contada dentro dessa moldura serviu como prova do que a moldura afirma: a bondade de Deus e o seu amor que não se esgota.
Vista no conjunto, a estrutura acompanha o movimento da procissão: fora do templo, o convite (vv. 1-4) e o testemunho (vv. 5-18); à porta, o pedido e a resposta (vv. 19-21); dentro, o comentário do povo (vv. 22-24), a súplica e a bênção (vv. 25-27) e a ação de graças final (vv. 28-29). Em termos poéticos, o salmo usa intensamente a repetição: o refrão dos vv. 1-4, o cerco dos vv. 10-12, a destra dos vv. 15-16, os dois "melhor é" dos vv. 8-9. A repetição não é monotonia; é o ritmo de uma assembleia que canta em resposta.
✨ 4. Versículos-Chave
Sl 118.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A certeza de quem tem Deus do seu lado. O verso não promete que o fiel não sofrerá; o salmo inteiro conta o contrário. Promete que nenhum poder humano terá a última palavra. A carta aos Hebreus o toma como a resposta confiante do cristão à promessa de que Deus jamais o deixará, num contexto que fala de dinheiro, de prisões e de perseguição (Hb 13.3-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo, sem citá-lo, faz pergunta semelhante no fim de Romanos 8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), quando indaga quem poderia prevalecer contra os que têm Deus a seu favor (Rm 8.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Sl 118.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A vida que se torna testemunho. O orante saiu da proximidade da morte e entende que a vida que lhe resta é para contar as obras de Yah. Na história da Igreja, o verso foi lido como a palavra de Cristo ressuscitado e como a palavra de todo crente que atravessa a doença ou a perseguição. A sua força está na finalidade: viver não é apenas sobreviver, é narrar.
Sl 118.22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A pedra rejeitada que se tornou a principal, um dos textos do Antigo Testamento mais citados no Novo. Jesus o aplica a si mesmo no fim da parábola dos lavradores maus, dentro do templo (Mt 21.42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 12.10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 20.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Pedro, diante do Sinédrio, diz que os construtores eram eles e que a pedra desprezada é o Jesus que Deus ressuscitou (At 4.10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); e a primeira carta de Pedro descreve Cristo como pedra viva, de grande valor para quem crê e ocasião de tropeço para quem o recusa (1Pe 2.4-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Sl 118.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A bênção sobre quem chega trazendo o nome do Senhor. Na liturgia, era a acolhida dos sacerdotes à procissão. Nos Evangelhos, é o grito das multidões quando Jesus entra em Jerusalém montado num jumentinho (Mt 21.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 11.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 19.38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 12.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E é também a frase com que Jesus encerra o seu lamento sobre Jerusalém, dizendo que a cidade não o verá até que o receba com essa bênção (Mt 23.39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 13.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O verso, assim, olha ao mesmo tempo para a primeira chegada de Cristo e para a última.
⛪ 5. Temas Teológicos Centrais
O amor leal sem fim. O tema que emoldura o salmo é o ḥesed de Deus. A palavra designa o amor que se compromete, que é fiel à aliança, que não desiste mesmo quando o parceiro falha. O salmo não define esse amor em abstrato; mostra-o numa história: alguém foi apertado, cercado, empurrado, disciplinado, e Deus não o abandonou. A prova do ḥesed é a vida do orante. Esse amor se revela de modo definitivo em Cristo, em quem Deus deu a prova do seu amor ao entregá-lo por gente que ainda vivia no pecado (Rm 5.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e do qual nada pode separar os que estão nele (Rm 8.38-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A salvação como novo Êxodo. O salmo lê a libertação de um indivíduo, ou de um rei, na linguagem do mar atravessado (v. 14; Ex 15.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); vv. 15-16; Ex 15.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Deus da Bíblia abre caminho onde não havia e transforma o aperto em lugar largo, e esse padrão chega ao ponto máximo na morte e ressurreição de Cristo, que Lucas chama de êxodo ao narrar a transfiguração (Lc 9.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A inversão divina dos julgamentos humanos. Deus escolhe o caçula, o estéril, o desprezado, o que não conta (1Sm 2.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Co 1.27-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmo o diz numa imagem arquitetônica que se tornou central para a fé cristã: o Cristo rejeitado e crucificado fora da cidade é aquele sobre quem Deus constrói a sua nova casa.
A entrada no lugar santo. O salmo é uma liturgia de entrada: o orante pede que as portas se abram, e uma voz diz que por elas entram os justos. A pergunta de quem pode se aproximar de Deus atravessa a Bíblia, do jardim fechado de Gênesis às portas sempre abertas da nova Jerusalém (Gn 3.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 21.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A resposta do Novo Testamento é que temos acesso ao santuário pelo sangue de Jesus, pela via que ele mesmo inaugurou através do véu, que é a sua carne (Hb 10.19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo
6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?
O Salmo 118 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) pertence à Redenção em andamento. Olha para trás, para o Êxodo, e para a frente, para alguém que virá no nome do Senhor; canta uma libertação parcial e pede ainda salvação (v. 25). A Queda é o pano de fundo: um mundo de cercos, morte iminente e disciplina divina. A Redenção consumada é o lugar do cumprimento pleno: na última semana em Jerusalém, Jesus é aclamado com este salmo, aplica-o a si mesmo e, muito provavelmente, canta-o antes do Getsêmani. E a Nova Criação é o horizonte: as portas abertas aos justos (vv. 19-20; Ap 22.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e a multidão de todas as nações com ramos nas mãos, atribuindo a salvação a Deus e ao Cordeiro (Ap 7.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
6.2 — Tipologias: o rei que passa pela morte, a pedra e o altar
A primeira tipologia é a do rei representante. Se o salmo foi a ação de graças de um rei de Judá que subiu ao templo à frente do povo, temos aqui um homem que carrega em si o destino da comunidade: cercado, quase derrubado, disciplinado, poupado da morte, recebido com bênção. Jesus, o Filho de Davi, cumpre esse padrão de forma definitiva. É cercado pela força combinada de Herodes, Pilatos, dos gentios e do povo (At 4.25-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E, diferente do rei do salmo, não escapa da morte: passa por ela e a vence de dentro.
A segunda tipologia é a da pedra. No salmo, ela é o orante desprezado e exaltado; Jesus a aplica a si mesmo (Mt 21.42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o padrão, o desprezado que Deus põe no centro, encontra nele a sua realização mais radical. Os construtores do Evangelho são os líderes responsáveis pela casa de Deus, que examinaram Jesus e o julgaram imprestável. Deus o ressuscitou e o pôs como pedra principal do novo templo, a Igreja (Ef 2.19-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Pe 2.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O espanto do v. 23 é o espanto da Páscoa.
A terceira tipologia, mais discreta, é a do altar do v. 27. Se a leitura da vítima atada às pontas do altar estiver correta, o salmo termina com um sacrifício de ação de graças, e a tradição cristã viu aqui, por vezes, uma imagem de Cristo que se deixou atar. A conexão pede prudência: o texto é incerto, e o Novo Testamento não cita este verso. O que se pode afirmar é o que Hebreus ensina, no mesmo capítulo que cita o v. 6: os cristãos têm um altar, o sacrifício de Cristo, que sofreu fora da porta da cidade, e por meio dele oferecem a Deus, sem cessar, o louvor de lábios que confessam a Cristo (Hb 13.10-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A todah tornou-se a vida inteira do povo de Deus.
6.3 — Promessas cumpridas: a chegada, a rejeição e a volta
O Salmo 118 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não é uma profecia no sentido estrito: não anuncia um acontecimento futuro em forma de oráculo. Mas o Novo Testamento o lê como cumprido em Cristo em três momentos distintos, e convém distingui-los.
O primeiro é a entrada em Jerusalém. Os quatro Evangelhos contam que as multidões receberam Jesus gritando o hosana do v. 25 e a bênção do v. 26 (Mt 21.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 11.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 19.38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 12.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), acrescentando o Filho de Davi, o reino de Davi, o título de rei e, em João, os ramos de palmeira. A liturgia de peregrinação virou aclamação messiânica: quem chega no nome do Senhor é o rei esperado. Aos fariseus que pediam silêncio, Jesus respondeu que, se os discípulos parassem, as próprias pedras levantariam o louvor (Lc 19.39-40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); e, no templo, defendeu as crianças que repetiam o hosana (Mt 21.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aqui há cumprimento histórico: o salmo encontra a pessoa a quem a sua linguagem melhor se aplica.
O segundo momento é a rejeição. Poucos dias depois, no mesmo templo, Jesus conta a parábola dos lavradores que mataram o filho do dono da vinha e a encerra com os vv. 22-23 (Mt 21.33-46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele sabe que os construtores vão descartá-lo, e diz isso com o salmo nas mãos. Depois da ressurreição, Pedro anuncia que a inversão aconteceu: a pedra rejeitada já foi posta como cabeça de ângulo, e a salvação só se acha no nome dele (At 4.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O nome que no v. 10 repelia as nações é, agora, o nome de Jesus.
O terceiro momento é futuro. No fim do seu lamento sobre Jerusalém, Jesus anuncia que a cidade não voltará a vê-lo até pronunciar sobre ele a bênção do v. 26 (Mt 23.37-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 13.34-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os intérpretes divergem sobre o alcance da palavra: alguns veem nela a promessa de uma conversão futura de Israel, à luz de Romanos 11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); outros, o reconhecimento que todos terão de prestar quando Cristo voltar. Em qualquer leitura, o v. 26 aguarda ainda um cumprimento escatológico.
Temos, assim, as três camadas: o cumprimento histórico parcial na vida do rei ou do povo que primeiro cantou o salmo; o cumprimento pleno em Cristo, rejeitado e exaltado; e o cumprimento escatológico futuro, quando o Cristo voltar e for recebido com a bênção que o salmo pronuncia.
6.4 — O Cristo que cantou este salmo antes do Getsêmani
Se o hino cantado depois da ceia foi o Hallel, então Jesus terminou aquela noite cantando este salmo com os discípulos (Mt 26.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Vale a pena ler o salmo com essa cena diante dos olhos.
Ele cantou o refrão do ḥesed que não acaba poucas horas antes de ser abandonado pelos amigos. Cantou que é melhor refugiar-se no Senhor do que nos príncipes (vv. 8-9) a caminho de ser julgado pelos príncipes do seu povo e pelo governador romano. Cantou o cerco (vv. 10-12) sabendo que, naquela noite, homens armados viriam buscá-lo, e o empurrão para a queda (v. 13) sabendo que cairia de rosto em terra no jardim (Mt 26.39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Cantou a disciplina que não termina na morte (v. 18), e foi entregue à morte para que nós não o fôssemos; ele foi castigado para que tivéssemos paz (Is 53.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E cantou que viveria para narrar as obras do Senhor (v. 17), sabendo que ia morrer e confiando que viveria.
Hebreus conta que Jesus, durante a sua vida mortal, levou pedidos entre gritos e lágrimas ao Deus que tinha poder para livrá-lo da morte, e que a sua piedade foi atendida (Hb 5.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O clamor no aperto do v. 5 se cumpre nele: foi ouvido, não sendo poupado da morte, mas sendo tirado dela. O lugar largo é o túmulo vazio.
Há ainda o v. 24. A Igreja, desde muito cedo, cantou este verso na liturgia da Páscoa. Se o sentido original é o de um dia específico em que Deus agiu, não há dia em que ele tenha agido de modo mais decisivo do que o primeiro dia da semana, quando a pedra rejeitada se tornou a principal. É por isso que os cristãos se reúnem no domingo.
Por fim, Pedro, no Pentecostes, diz que Jesus foi exaltado pela destra de Deus (At 2.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e alguns estudiosos ouvem aí um eco da destra que se ergue no salmo; logo depois, diante do Sinédrio, cita o v. 22 (At 4.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Jesus que cantou o salmo é o Jesus que o salmo descreve.
6.5 — O Evangelho no capítulo
Pregar o Salmo 118 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) cristocentricamente é contar uma história em três tempos.
Primeiro, a do ser humano no aperto: a doença, a perseguição, a culpa, o medo da morte. O salmo não finge que esse lugar não existe, e sabe que nenhum príncipe consegue tirar alguém de lá.
Depois, a do Cristo que entrou no aperto por nós. Aclamado com o hosana, foi rejeitado pelos construtores e crucificado; a disciplina dura caiu sobre ele por causa de nós. A pedra foi descartada.
Por fim, a da inversão de Deus. No terceiro dia, o Senhor fez o que nenhum construtor previu: pôs a pedra rejeitada como fundamento e coroa de uma casa nova. Essa é a maravilha diante dos nossos olhos. E agora as portas da justiça estão abertas, não porque sejamos justos por nós mesmos, mas porque Cristo, o justo, entrou por elas e nos leva consigo. Quem crê nele pode dizer, com o orante, que o Senhor se tornou a sua salvação, e pode juntar-se ao coro que, de geração em geração, confessa a bondade de Deus e o seu amor leal que não se esgota.
🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)
- Ex 15.2, 6, 12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 12.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o cântico do mar, citado no v. 14 e no v. 28 e ecoado na destra dos vv. 15-16; a salvação do orante lida como novo Êxodo.
- 1Cr 16.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Cr 5.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Cr 7.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ed 3.10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 33.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 136 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o refrão do amor leal nos grandes momentos do culto de Israel.
- Sl 15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 24.3-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 26.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — as liturgias de entrada e as portas que se abrem para os justos.
- Is 28.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 8.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Zc 4.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — as outras pedras do Antigo Testamento: a pedra de fundamento posta em Sião, a pedra de tropeço e a pedra principal da reconstrução.
- Mt 21.9, 15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), 42; Mc 11.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 12.10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 19.38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 20.17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 12.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o salmo na última semana de Jesus em Jerusalém: a aclamação na entrada e a pedra na parábola dos lavradores.
- Mt 23.39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 13.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a bênção do v. 26 como condição para que Jerusalém volte a ver o Cristo.
- Mt 26.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 14.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o hino depois da ceia, muito provavelmente a segunda parte do Hallel.
- At 4.10-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Rm 9.32-33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ef 2.19-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Pe 2.4-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a pedra rejeitada como Cristo ressuscitado e fundamento da Igreja.
- Hb 13.5-6, 10-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o v. 6 citado como confiança do cristão, ao lado do altar de Cristo e do sacrifício de louvor.
- Ap 7.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 22.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a multidão com palmas que atribui a salvação a Deus e ao Cordeiro, e as portas da cidade abertas aos que lavaram as suas vestes.
- Na história da Igreja, o v. 24 tornou-se a antífona do dia da Páscoa na liturgia antiga, o hosana e a bênção do v. 26 entraram na oração eucarística de muitas tradições, e Lutero fez deste salmo o seu predileto.
🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico
Conte a sua história como prova do amor leal. O salmo começa e termina com uma afirmação geral sobre Deus e, no meio, coloca uma história concreta. É assim que a fé se transmite: com doutrina e com testemunho. Cada crente precisa aprender a dizer o que o Senhor fez na sua vida, sempre apontando para a obra maior de Cristo, que dá sentido a todas as outras.
Meça o poder humano diante de Deus. O v. 6 não é um convite à imprudência, mas à proporção. Pessoas podem ferir, demitir, caluniar, perseguir; o salmista conhece isso. Mas não podem a última coisa. Em Cristo, que venceu a morte, o crente pode enfrentar a ameaça humana com uma serenidade que não vem da força própria, mas da certeza de que Deus está do seu lado. Hebreus aplica isso ao contentamento com o que se tem: quem confia no Deus que não abandona não precisa viver ansioso por dinheiro (Hb 13.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Receba a disciplina sem confundi-la com abandono. O v. 18 olha o sofrimento com duas lentes: houve inimigos que empurraram, e houve a mão de Deus que disciplinou. Isso não explica todo sofrimento, mas consola: a disciplina de Deus tem limite e propósito. Cristo levou sobre si o castigo final, e o que resta são as correções de um Pai que ama (Hb 12.5-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Não despreze o que Deus escolheu. A Igreja que adora um Cristo descartado pelos construtores não pode reproduzir o desprezo dos construtores. Ela é chamada a acolher os que o mundo põe de lado, porque Deus tem o hábito de construir com as pedras que ninguém quis.
Viva o domingo como o dia em que o Senhor agiu. Para o cristão, o v. 24 tem endereço: o dia da ressurreição. Reunir-se no primeiro dia da semana é confessar que, num dia da história, Deus agiu de forma irreversível, e a alegria do culto nasce daí, não de um dia que simplesmente correu bem.
🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo
- O salmo descreve a angústia como um lugar estreito e a salvação como um lugar largo (v. 5). Em que situações da sua vida você experimentou esse contraste? Como você descreveria o "lugar largo" que Deus lhe deu?
- Os vv. 8-9 dizem que é melhor buscar refúgio no Senhor do que confiar nos poderosos. Em quem ou em que você tende a pôr a sua confiança quando está apertado?
- O v. 18 diz que o Senhor disciplinou duramente o orante, mas não o entregou à morte. Como essa ideia se relaciona com Hebreus 12.5-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)? E como a cruz de Cristo muda o modo como o crente entende a disciplina de Deus?
- Jesus aplicou a si mesmo a imagem da pedra rejeitada (Mt 21.42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que a sua rejeição pelos construtores revela sobre os critérios humanos de valor? O que significa, para a Igreja, ser construída sobre essa pedra (1Pe 2.4-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))?
- Imagine Jesus cantando este salmo com os discípulos antes de sair para o Getsêmani (Mt 26.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Que versos ganham um sentido novo nessa cena?
- Para meditação e oração: releia os vv. 19-21 e agradeça a Cristo por ter aberto para você as portas da justiça. Depois, repita, em oração, o refrão do v. 29, lembrando-se de três maneiras concretas pelas quais o amor leal de Deus o acompanhou.
📚 10. Para Aprofundamento
Cristocêntrica / Teologia Bíblica:
- Sidney Greidanus — Preaching Christ from the Old Testament (Eerdmans, 1999)
- Christopher J. H. Wright — Conhecendo Jesus através do Antigo Testamento (Ultimato) / Knowing Jesus Through the Old Testament (IVP, 1992)
- G. K. Beale e D. A. Carson (orgs.) — Commentary on the New Testament Use of the Old Testament (Baker Academic, 2007), sobre o uso do salmo nos Evangelhos, em Atos, em Hebreus e em 1 Pedro
- Joachim Jeremias — The Eucharistic Words of Jesus (SCM, 1966), sobre a última ceia e o canto do Hallel
- Dietrich Bonhoeffer — Das Gebetbuch der Bibel (1940), sobre os salmos como oração de Cristo com a Igreja
Comentários dos Salmos:
- Derek Kidner — Salmos 73–150 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
- Leslie C. Allen — Psalms 101–150 (Word Biblical Commentary, 1983; edição revista, 2002)
- Nancy deClaissé-Walford, Rolf A. Jacobson e Beth LaNeel Tanner — The Book of Psalms (NICOT, Eerdmans, 2014)
- Frank-Lothar Hossfeld e Erich Zenger — Psalms 3: A Commentary on Psalms 101–150 (Hermeneia, Fortress, 2011)
- James L. Mays — Psalms (Interpretation, John Knox, 1994)
- Martinho Lutero — Das schöne Confitemini (1530), a exposição do Salmo 118 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)
- Agostinho — Comentário aos Salmos (Paulus, coleção Patrística)
Sabedoria para o Cotidiano
Há dias em que a vida aperta por todos os lados, e as forças que nos cercam parecem um enxame; o Salmo 118 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não nega isso, mas lembra que nenhum poder humano tem a última palavra quando o Senhor está do nosso lado. Busque abrigo nele antes de buscá-lo nos poderosos, e conte aos outros o que ele já fez por você, porque a vida salva é para ser narrada. E quando você se sentir pedra descartada, lembre-se de Cristo, rejeitado pelos construtores e posto por Deus no lugar mais alto: ele cantou este salmo a caminho da cruz, e por causa dele as portas estão abertas e o amor leal de Deus não acaba.
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