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Salmos · 19 de 66 · Antigo Testamento

Salmos — Capítulo 22

Infográfico de “Salmos 22 — Capítulo a capítulo”, gerado automaticamente a partir do estudo publicado, com 6 partes: O clamor sem resposta e a memória dos pais; O verme desprezado e o Deus do ventre materno; Cercado de feras, o corpo desfeito e as vestes sorteadas; O pedido final e a resposta que irrompe; O louvor no meio dos irmãos; Os confins da terra e as gerações por nascer.

Título do capítulo: Do abandono ao louvor das nações
Gênero literário: Poesia/Salmo (lamento individual que se converte em ação de graças e em hino; salmo messiânico, o mais citado nas narrativas da paixão)
Número de versículos: 31

Nota de precisão: este estudo segue a numeração tradicional das Bíblias em português, em que a inscrição do salmo não é contada como versículo. No hebraico impresso, a inscrição é o versículo 1, e por isso todos os números ali ficam uma unidade acima dos usados aqui; na antiga tradução grega, que junta os Salmos 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 10, este é o salmo vinte e um. Há também duas dificuldades de texto que o estudo trata com cuidado: a segunda metade do v. 16, em que o hebraico tradicional e as versões antigas divergem, e a última linha do v. 21, em que o hebraico traz um verbo de resposta que nem todas as traduções mantêm.


🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural

O Saltério é o hinário e o livro de orações de Israel, reunido ao longo de vários séculos. Os seus cento e cinquenta poemas foram organizados em cinco livros, como um eco dos cinco livros de Moisés, e o Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) pertence ao primeiro deles (Sl 1–41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a coleção em que quase todos os poemas trazem o nome de Davi na inscrição. O Salmo 21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) celebra o rei que recebe vitória e coroa das mãos de Deus; o Salmo 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) descansa na confiança do pastor que conduz e do anfitrião que acolhe. Entre a coroa e a mesa, o Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) desce ao fundo do abismo. Quem lê os três em sequência atravessa a glória, a cruz e a paz.

A inscrição traz três elementos. O primeiro, lamnatseaḥ, aparece em mais de cinquenta salmos e costuma ser entendido como indicação dirigida ao responsável pela música no culto; o sentido exato não é seguro. O segundo é uma expressão que significa algo como "sobre a corça da aurora" ('ayyelet hashshaḥar). A maior parte dos estudiosos pensa no nome de uma melodia conhecida, com a qual o salmo seria cantado. Outros veem ali uma imagem do próprio sofredor, um animal frágil caçado ao amanhecer; no v. 19, o salmista chama Deus de sua força com uma palavra rara ('eyaluti) que soa parecida com a corça da inscrição. A hipótese é sugestiva, mas incerta. O terceiro elemento, mizmor ledawid, foi entendido pela tradição judaica e cristã como indicação de autoria davídica, embora a preposição também admita os sentidos de "dedicado a Davi" ou "da coleção de Davi".

Nenhum episódio conhecido da vida de Davi corresponde ao que o salmo descreve. Ele foi perseguido por Saul e expulso de Jerusalém por Absalão, mas as narrativas de Samuel nunca o mostram cercado por uma multidão que o despreza enquanto o corpo se desfaz e as roupas são sorteadas diante dele. Alguns comentaristas leem no salmo a oração de um justo gravemente doente, tratado pelos vizinhos como condenado, e entendem as imagens como hipérbole poética. Outros observam que a linguagem ultrapassa a experiência de qualquer orante conhecido e que o desfecho, com as nações adorando e as gerações futuras ouvindo o que Deus fez, não cabe na libertação de um homem só. Pedro, ao comentar outro salmo de Davi, afirmou que o rei, por ser profeta, falou de antemão do Messias (At 2.29-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A leitura cristã do Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) caminha nessa direção, sem negar que o poema nasceu como oração real de alguém em aflição real.

O salmo pertence ao gênero do lamento individual, a forma mais frequente do Saltério, com as suas partes conhecidas: o clamor, a queixa, a lembrança das ações de Deus, o pedido, a confiança e o voto de louvor. O Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) leva cada parte ao extremo. A queixa é das mais intensas do livro; a virada para o louvor, a mais ampla. Nenhum outro lamento termina com uma visão que abraça os confins da terra, os poderosos, os que descem ao pó e os que ainda não nasceram.

A segunda metade tem um pano de fundo litúrgico. Em Israel, quem era libertado de um grande perigo cumpria os votos feitos na hora da angústia oferecendo no santuário um sacrifício de ação de graças, a todah, cuja carne era comida no mesmo dia pelo ofertante e pelos seus convidados (Lv 7.11-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Era uma festa de testemunho: enquanto se comia, contava-se o que Deus tinha feito. Os vv. 25-26 parecem pressupor esse banquete. A fé do salmista não termina num sentimento interior, mas numa mesa partilhada e numa história contada em público.


📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo

O salmo começa no fundo do poço. O orante chama Deus de seu, duas vezes, e na mesma frase pergunta por que foi deixado sozinho; Deus parece distante do socorro e alheio ao gemido, e a oração, repetida de dia e de noite, não obtém resposta (vv. 1-2). Ele se agarra então ao que sabe: Deus é santo, reina em meio aos louvores de Israel, e os antepassados que nele se apoiaram nunca ficaram sem livramento (vv. 3-5). A lembrança, em vez de consolar, torna o silêncio mais pesado.

O orante se vê reduzido a quase nada, menos que um homem, alvo do desprezo do próprio povo (v. 6). Quem passa faz troça com gestos de desdém e transforma a piedade dele em piada: já que se apoiava tanto no Senhor, que o Senhor venha buscá-lo (vv. 7-8). A resposta do salmista é voltar-se de novo para Deus, que o acompanha desde o parto e lhe deu segurança ainda no colo da mãe, e pedir que não se afaste agora que o perigo encostou e ninguém mais ajuda (vv. 9-11).

Segue a parte mais dura. Os inimigos aparecem como touros de Basã e como leões de boca aberta (vv. 12-13); o corpo do orante se desmancha, sem forças, ressequido, com a língua presa pela sede, a caminho do pó da morte (vv. 14-15). Um bando de cães e de malfeitores o cerca e atinge as suas mãos e os seus pés, num verso de texto discutido (v. 16). Magro a ponto de exibir os ossos, ele é observado com prazer pelos que o rodeiam, e as suas roupas já são repartidas e sorteadas, como se estivesse morto (vv. 17-18).

O pedido final retoma o clamor: que o Senhor não fique longe, que se apresse, que livre a única vida do salmista da espada, dos cães, do leão e dos búfalos (vv. 19-21). E, no meio dessa última súplica, o hebraico anuncia de repente que Deus respondeu (v. 21).

Daí em diante tudo é louvor. O salmista contará aos irmãos quem Deus é e o celebrará na assembleia; convoca Israel inteiro a honrá-lo, porque Deus não fez pouco do sofrimento do pobre nem lhe virou o rosto, mas o escutou (vv. 22-24). Na grande congregação ele cumprirá os votos, e os humildes comerão até se fartar (vv. 25-26). O louvor ultrapassa então as fronteiras de Israel: os confins da terra e as famílias das nações voltam-se para o Senhor, que é o Rei (vv. 27-28); ricos e moribundos se curvam diante dele (v. 29); e as gerações seguintes, até um povo que ainda não nasceu, ouvirão contar que foi Deus quem realizou a obra (vv. 30-31).


🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)

Versículos 1-5 — O clamor sem resposta e a memória dos pais
O salmo abre com o vocativo 'Eli, "meu Deus", repetido. O orante, no exato momento em que se sente abandonado, continua chamando Deus de seu: a queixa é feita de dentro da relação, não de fora dela. O verbo central é 'azav, deixar, largar, o mesmo usado para o povo que abandona a aliança (Dt 31.16-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aqui, quem parece ter abandonado é Deus. A pergunta (lamah, por quê) não pede uma teoria; é o grito de quem não entende o silêncio de quem sempre respondeu. O v. 1 chama o próprio clamor de sha'agah, palavra que em outros textos designa o rugido do leão (Is 5.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o salmista não sussurra, ruge de dor. O v. 2 insiste na duração: dia e noite, sem resposta e sem sossego.

O v. 3 começa com o pronome enfático we'attah, "e tu", "mas tu". É o primeiro dos três contrastes que estruturam a primeira metade (vv. 3, 9 e 19). Deus é qadosh, santo, e está sentado como rei sobre os louvores (tehillot) de Israel. A imagem é ousada: o trono de Deus era associado à arca e aos querubins (Sl 80.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 99.1), mas aqui ele é feito dos louvores do povo. Os vv. 4-5 repetem três vezes o verbo batakh, confiar, sempre seguido de livramento. O paralelismo sinonímico funciona como um martelo: a história de Israel é uma sequência de orações respondidas. O salmista não duvida da fidelidade de Deus; é justamente a certeza dela que torna o silêncio insuportável.

Versículos 6-11 — O verme desprezado e o Deus do ventre materno
O segundo movimento abre com outro pronome enfático, we'anokhi, "e eu". Os pais foram livrados; o salmista é tola'at, um verme, a criatura que se pisa sem perceber (Is 41.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e não 'ish, um homem. Tornou-se ḥerpah, motivo de vergonha pública, desprezado pelo povo. No mundo antigo, a desgraça não era só dor: era desonra, sinal aparente de que Deus estava contra o sofredor.

O v. 7 descreve gestos de escárnio, o esgar dos lábios e o balançar da cabeça, reação diante de uma ruína que parece merecida (Jó 16.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lm 2.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O v. 8 usa o verbo gol, rolar: o salmista "rolou" a sua causa sobre o Senhor. Os zombadores conhecem a linguagem da piedade e a usam como arma. O silêncio de Deus vira, na boca deles, prova contra o justo.

O v. 9 traz de novo o contraste com Deus. Agora o salmista não recorre à história do povo, mas à sua própria. Deus foi como a parteira que o fez sair do ventre (giḥi) e lhe deu confiança desde o peito materno; desde o nascimento ele foi lançado sobre Deus (v. 10). A vida inteira, desde o primeiro fôlego, foi sustentada por ele. Dessa intimidade nasce o pedido do v. 11, construído sobre a palavra raḥoq, longe, que já aparecera no v. 1, em oposição a qerovah, perto: a angústia está perto, Deus parece longe. Esse jogo atravessa o salmo inteiro.

Versículos 12-18 — Cercado de feras, o corpo desfeito e as vestes sorteadas
A seção alterna imagens de inimigos que cercam (vv. 12-13 e 16) com as de um corpo que se desfaz (vv. 14-15 e 17), e termina no despojamento (v. 18). Os primeiros inimigos são touros e animais fortes de Basã, a região a leste do Jordão famosa pelas pastagens e pelo gado robusto (Dt 32.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Am 4.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Depois vem o leão, que abre a boca, despedaça e ruge (v. 13). O salmista já não descreve pessoas; descreve como a hostilidade é sentida por quem está no centro dela.

Os vv. 14-15 voltam-se para o corpo, numa sequência de imagens de dissolução: a água que se derrama e não se recolhe, as juntas que cedem (hitparedu), o coração, sede da coragem, que perde a firmeza como cera ao calor, a força ressequida como um caco de barro cozido (ḥeres), a língua presa pela sede. E então vem uma frase espantosa: é Deus quem deita o salmista no pó da morte ('afar mawet). Ele não atribui o seu fim apenas aos inimigos; vê-o, misteriosamente, dentro do governo de Deus.

O v. 16 retoma o cerco com kelavim, os cães semisselvagens que viviam em bandos na periferia das cidades antigas, e com uma 'adat mere'im, uma assembleia de malfeitores. A palavra 'edah é a mesma usada para a congregação de Israel; aqui é uma congregação às avessas, reunida para destruir.

A segunda metade do v. 16 é um dos pontos textuais mais discutidos do Saltério. O texto hebraico tradicional, transmitido pelos massoretas, traz ka'ari, que normalmente significaria "como o leão", seguido das palavras para mãos e pés. Lida assim, a linha fica sem verbo e é difícil de entender, talvez no sentido de que os inimigos atacam as mãos e os pés como um leão. A antiga tradução grega, feita por judeus antes da era cristã, traz um verbo que significa furar ou cavar, e outras versões antigas também leem um verbo, com sentidos variados. Entre os manuscritos achados no deserto da Judeia, um fragmento dos Salmos, segundo a leitura de vários especialistas, traz uma forma com uma letra diferente no final, que daria um verbo e não a palavra "leão"; a leitura do fragmento também é debatida. Os sentidos propostos para esse verbo vão de furar a cavar, amarrar ou encolher.

O que se pode dizer com segurança basta. A leitura com verbo é antiga, anterior ao cristianismo, e não foi inventada por intérpretes cristãos. A leitura tradicional do hebraico também é antiga e merece respeito, sem acusações de má-fé a quem a transmitiu. E o Novo Testamento nunca cita o v. 16: os evangelistas narram a crucificação sem apelar a ele, e a leitura cristológica do salmo não depende dele. Quando o Ressuscitado mostra aos discípulos as mãos e os pés (Lc 24.39-40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 20.25-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o leitor do Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) sente a ressonância, mas ela nasce do salmo como um todo, não de uma palavra disputada.

O v. 17 volta ao corpo, tão emagrecido que os ossos podem ser contados, enquanto os outros o contemplam com o olhar de quem se diverte com o espetáculo. O v. 18 fecha a seção com o gesto mais humilhante: as vestes (begadim) são repartidas e a roupa (levush) vai a sorteio. O gesto só se faz com quem já é dado como morto; as roupas do condenado ficavam com os executores. O salmista assiste à partilha dos seus bens como quem assiste ao próprio enterro.

Versículos 19-21 — O pedido final e a resposta que irrompe
O terceiro contraste, de novo com o pronome we'attah, abre o pedido final. As palavras do começo voltam: Deus não deve ficar longe ('al-tirḥaq), e o salmista lhe pede pressa. Os vv. 20-21 retomam os animais em ordem inversa: os touros e o leão vieram primeiro, os cães depois (vv. 12-16); agora o pedido nomeia primeiro a espada e o cão, depois o leão e os búfalos (re'emim). O espelho, um quiasmo, amarra a súplica à descrição do perigo. A vida do salmista é chamada de yeḥidati, "a minha única", palavra usada para o filho único (Gn 22.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jz 11.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Então acontece a virada. A última palavra do v. 21, no hebraico tradicional, é 'anitani, um verbo no passado que significa "tu me respondeste". Algumas traduções a tratam como continuação do pedido, outras a mantêm como afirmação, e a antiga tradução grega leu ali uma palavra que significa "a minha humilhação". A forma hebraica, abrupta e sem preparação, combina com o que vem logo depois. O salmista ainda está entre os chifres dos búfalos quando percebe que Deus respondeu. A resposta que faltava no v. 2 chega com o mesmo verbo, 'anah. O salmo não explica como Deus respondeu; o que importa é que o silêncio foi quebrado.

Versículos 22-26 — O louvor no meio dos irmãos
A segunda metade do salmo é tão ampla quanto a primeira foi funda. O salmista, que estava isolado e cercado, agora tem irmãos ('aḥay) e uma assembleia (qahal). Promete narrar o nome de Deus, isto é, contar quem Deus mostrou ser (v. 22). A assembleia de malfeitores do v. 16 dá lugar à assembleia dos que louvam.

O v. 23 convoca, em paralelismo triplo, os que temem ao Senhor e a descendência de Jacó e de Israel. O v. 24 dá a razão com três negações e uma afirmação. Deus não desprezou (bazah, o mesmo verbo do v. 6, onde o salmista era desprezado pelo povo), não teve repulsa da aflição ('enut) do aflito ('ani), não escondeu dele o rosto, mas o escutou. O que os homens desprezaram, Deus não desprezou. O que parecia abandono era uma escuta que ainda não se tinha mostrado.

O v. 25 diz que até o louvor do salmista vem de Deus (me'itteka): a boca que se abre para agradecer foi aberta por quem libertou. Na grande assembleia ele cumprirá os seus votos (nedarim). O v. 26 descreve o banquete da ação de graças: os humildes ('anawim) comem e ficam saciados, e o anfitrião deseja aos convidados que o seu coração viva para sempre. Quem estava no pó da morte se tornou anfitrião de uma mesa de vida.

Versículos 27-31 — Os confins da terra e as gerações por nascer
O último movimento rompe as fronteiras. No espaço, o louvor alcança os confins da terra ('afse-'arets) e as famílias das nações (mishpeḥot goyim), expressão que lembra a promessa de bênção a todas as famílias da terra feita a Abraão (Gn 12.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os verbos do v. 27 são de conversão: lembrar (zakar) e voltar (shuv), como se o conhecimento de Deus fosse uma memória perdida que retorna. O fundamento vem no v. 28: o reinado (melukah) é do Senhor. O salmo de um homem abandonado termina como hino ao Rei do mundo.

O v. 29 é difícil, e as traduções divergem. O hebraico fala dos "gordos da terra", os prósperos, que comem e se prostram, e, em paralelo, dos que descem ao pó ('afar, a palavra do v. 15) e não conseguem manter a própria vida. Para alguns, o verso abarca toda a humanidade, dos mais ricos aos moribundos; para outros, diz algo ainda mais ousado, que até os mortos se dobrarão diante de Deus. Em qualquer leitura, ninguém fica fora do alcance desse louvor.

Os vv. 30-31 estendem o alcance no tempo: uma descendência (zera') servirá a Deus, a geração seguinte (dor) ouvirá falar dele, e a sua justiça (tsidqato) será anunciada a um povo que ainda vai nascer ('am nolad). O conteúdo do anúncio cabe nas duas palavras finais do salmo, ki 'asah: que ele agiu. O lamento que começou perguntando pelo silêncio de Deus termina proclamando a sua obra.

Vista no todo, a estrutura tem duas metades desiguais. A primeira (vv. 1-21) é um lamento em três ciclos de queixa e confiança, marcados pelos pronomes enfáticos e pela palavra "longe". A segunda (vv. 22-31) é uma ação de graças que se expande em círculos: a assembleia, Israel, as nações, os poderosos e os mortos, as gerações futuras. O movimento vai do grito solitário ao coro de toda a terra.


✨ 4. Versículos-Chave

Sl 22.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O clamor de abertura é a frase mais desesperada do salmo e, ao mesmo tempo, uma das mais confiantes: fala de abandono, mas se dirige a Deus como seu e espera dele resposta. O peso histórico do versículo vem sobretudo do Calvário. Mateus e Marcos registram que Jesus, por volta da hora nona, clamou em alta voz com as palavras deste versículo. Os dois guardam o som do clamor numa forma aramaica, a língua que Jesus falava (Mateus a aproxima do hebraico), e em seguida a traduzem para os seus leitores (Mt 27.46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 15.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É a única palavra de Jesus na cruz registrada por esses dois evangelhos, e o mal-entendido dos presentes, que pensaram ouvir um chamado a Elias (Mt 27.47 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 15.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mostra como o som do clamor foi guardado com fidelidade.

Sl 22.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A divisão das roupas e o sorteio da túnica são registrados pelos quatro evangelhos (Mt 27.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 15.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 23.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 19.23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). João é o único que cita explicitamente o versículo e explica o detalhe: os soldados dividiram as vestes em quatro partes, mas a túnica não tinha costura, era tecida de alto a baixo numa só peça, e por isso decidiram sorteá-la. O evangelista vê nisso o cumprimento da Escritura. Os executores cumprem o salmo sem saber que ele existe.

Sl 22.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A promessa de anunciar o nome de Deus aos irmãos marca a virada do salmo e é citada pela Carta aos Hebreus como palavra do próprio Cristo (Hb 2.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O autor de Hebreus argumenta que aquele que santifica e os que são santificados têm a mesma origem, e que por isso o Filho não se envergonha de chamá-los de irmãos. O versículo do salmo, lido assim, é a voz do Cristo ressuscitado no meio da igreja reunida. Há também um eco nos evangelhos: depois da ressurreição, Jesus manda dizer aos discípulos, a quem chama de seus irmãos, que ele está voltando para o Pai (Jo 20.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 28.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Sl 22.27-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A conversão dos confins da terra e a afirmação de que o reino pertence ao Senhor dão ao salmo o seu horizonte final. O sofrimento de um justo resulta na adoração das nações. Esse movimento é exatamente o da missão cristã: o Cristo crucificado e ressuscitado envia os discípulos a todas as nações (Mt 28.18-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o Apocalipse celebra o dia em que o reino do mundo passa a pertencer ao Senhor e ao seu Cristo (Ap 11.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).


⛪ 5. Temas Teológicos Centrais

A oração honesta diante do silêncio de Deus. O Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) legitima uma forma de fé que muitos cristãos têm medo de praticar: a queixa dirigida a Deus. O salmista não suaviza o abandono nem se acusa para proteger a reputação de Deus: pergunta pelo porquê e continua chamando Deus de seu. Essa tradição de lamento atravessa as Escrituras (Sl 13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jó 3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lm 3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hc 1.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e chega ao Getsêmani, onde Jesus confessa aos discípulos uma tristeza que o leva à beira da morte (Mt 26.38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quem ora o Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) aprende que o grito pode ser um ato de fé.

O justo sofredor e a vindicação de Deus. O salmo pertence a uma linha de textos sobre o justo que sofre nas mãos dos ímpios e é, no fim, vindicado por Deus. José é vendido pelos irmãos e exaltado no Egito; o servo de Isaías é desprezado, ferido e depois exaltado e satisfeito com o fruto do seu sofrimento (Is 52.13–53.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o livro da Sabedoria, escrito já na época grega e recebido no cânon católico e no ortodoxo, descreve os ímpios que armam ciladas ao justo e o desafiam a provar que Deus o socorre (Sb 2.12-20). O Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é um dos pilares dessa tradição: o sofrimento do justo não prova que Deus o abandonou, e a última palavra é de Deus. Essa linha culmina em Cristo, o Justo por excelência, crucificado pelos homens e ressuscitado por Deus (At 2.23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 3.14-15).

Do individual ao universal: o sofrimento que gera louvor. A libertação de um homem não fica guardada como experiência privada; vira testemunho na assembleia, banquete para os pobres e anúncio às nações e às gerações futuras. Na mão de Deus, o sofrimento de um se torna bênção para muitos. Esse padrão aparece em José (Gn 50.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), no servo de Isaías (Is 53.10-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e, de modo pleno, em Cristo, cuja morte e ressurreição trazem salvação a gente de todos os povos e línguas (Ap 5.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O reinado universal de Deus. O salmo termina afirmando que o reino pertence ao Senhor e que ele governa as nações (v. 28). É uma das grandes afirmações do Saltério (Sl 47 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 93 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 96–99 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e o tema central da pregação de Jesus (Mc 1.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) associa esse reinado ao sofrimento do justo: é por meio do abandonado vindicado que as nações se voltam para Deus. No Novo Testamento, o trono e a cruz se encontram: o Cordeiro imolado é aclamado digno de todo poder e glória (Ap 5.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).


✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo

6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?

O Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) está no coração da Redenção em andamento e aponta, com uma clareza rara no Antigo Testamento, para o seu centro: a cruz e a ressurreição. Ele pressupõe a Queda, porque só num mundo marcado pelo pecado o justo é desprezado, cercado e entregue ao pó da morte; o "pó" do v. 15 lembra a sentença de Gn 3.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Ele vive da promessa feita a Abraão, de que todas as famílias da terra seriam abençoadas (Gn 12.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a vê realizada no v. 27. Na Redenção consumada, o salmo encontra o seu cumprimento na paixão de Cristo, narrada pelos evangelistas com as palavras e as imagens deste poema. E a sua última seção, com as nações adorando e as gerações futuras ouvindo o que Deus fez, olha para a Nova Criação, quando a multidão de todas as nações estará diante do trono (Ap 7.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e o domínio sobre o mundo for entregue ao Senhor e ao seu Ungido (Ap 11.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

6.2 — O clamor de Jesus na cruz: o Filho que ora o salmo

O fato decisivo para a leitura cristã do Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é que o próprio Jesus o orou na cruz (Mt 27.46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 15.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele não foi apenas descrito pelo salmo; tomou-o nos lábios. O Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não é só profecia sobre Cristo, mas oração de Cristo. E o sentido desse clamor tem sido lido de modos que não se excluem.

Muitos intérpretes lembram que citar o começo de um texto bíblico podia evocar o texto inteiro, como hoje o primeiro verso de um hino lembra o hino todo. Ao clamar o v. 1, Jesus poria diante de Deus e dos presentes o salmo inteiro, com a sua virada para a resposta divina e o louvor das nações. A observação impede que se leia o clamor como desespero sem esperança, mas não deve ser usada para esvaziá-lo. Jesus não recitou um texto para consolar a plateia; ele gritou, em alta voz, com a dor de quem experimentava aquilo que as palavras diziam.

A teologia cristã viu nesse grito a expressão do que Cristo carregou na cruz. Paulo ensina que Deus tratou como pecado, em nosso favor, aquele que nunca pecou (2Co 5.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e que Cristo carregou a maldição em nosso lugar (Gl 3.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O abandono que o salmista sentiu, Jesus o viveu no grau mais profundo, porque carregava não a sua própria culpa, mas a dos outros (1Pe 2.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O clamor é o som da separação que o pecado produz, sofrida por aquele que não tinha pecado.

É preciso, porém, falar disso com reverência e com cuidado. A fé da Igreja confessa que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são um só Deus, e que a unidade da Trindade não se rompeu no Calvário. Jesus continua chamando Deus de seu no momento do abandono, e Lucas registra que, logo depois, ele entregou o seu espírito nas mãos do Pai, com palavras do Sl 31.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (Lc 23.46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O abandono foi real na experiência humana de Jesus, que provou a ausência do consolo e o peso do juízo sobre o pecado; mas não foi a dissolução do amor eterno entre o Pai e o Filho. O mistério ultrapassa as nossas categorias, e a Igreja sempre o contemplou mais com adoração do que com explicações.

Há também um aspecto pastoral. Ao orar o Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Jesus se pôs ao lado de todos os que algum dia se sentiram abandonados por Deus. Hebreus lembra que, nos dias da sua carne, ele levou a Deus, entre brados e lágrimas, súplicas por livramento da morte, e foi atendido por causa da sua reverente submissão (Hb 5.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); e que o nosso sumo sacerdote passou pelas mesmas provas que nós, sem pecar, e por isso sabe sofrer conosco (Hb 4.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quem ora hoje o Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não ora sozinho: ora com Cristo, que o orou antes.

6.3 — A paixão narrada com as palavras do salmo

Os evangelistas não se limitaram ao v. 1. Narraram a crucificação com uma série de alusões discretas ao Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).

O escárnio do v. 7 aparece em Mateus e Marcos: os que passavam balançavam a cabeça e insultavam Jesus (Mt 27.39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 15.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Lucas acrescenta que as autoridades zombavam dele (Lc 23.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e usa para isso um verbo raro, o mesmo que a antiga tradução grega empregou no v. 7.

O desafio do v. 8 é retomado, muito de perto, pelos chefes dos sacerdotes, escribas e anciãos, que o aplicam a Jesus e à sua pretensão de ser o Filho de Deus (Mt 27.43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os inimigos de Jesus, sem perceber, repetem o papel dos inimigos do salmista.

A sede do v. 15 pode estar por trás da palavra de Jesus registrada por João, quando ele diz que tem sede para que a Escritura se cumprisse (Jo 19.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os intérpretes discutem se o evangelista pensava no Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ou no Sl 69.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que fala de vinagre dado ao sedento; é possível que os dois estejam no horizonte.

Alguns comentaristas observam ainda que as últimas palavras do salmo, que anunciam que Deus agiu e realizou a sua obra (v. 31), dialogam com a palavra de Jesus em João, quando ele declara que tudo chegou ao seu termo, logo antes de entregar o espírito (Jo 19.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A aproximação é sugestiva, mas não é afirmada pelo texto do evangelho, e deve ser apresentada como possibilidade.

Somadas à partilha das vestes (v. 18), que os quatro evangelhos registram, essas alusões dizem que Jesus sofreu como o justo do Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e que o seu sofrimento não foi acidente, mas parte do plano de Deus anunciado nas Escrituras. E nenhum evangelista força o texto: o salmo é o pano de fundo que dá sentido à cena, sem comentários exagerados.

6.4 — Tipologia e profecia: o justo abandonado e o Messias

O Novo Testamento oferece dois caminhos, que se completam, para ligar o salmo à paixão. O primeiro é a tipologia. Davi, o rei ungido, era perseguido e sofria como representante do povo. O justo do Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é um tipo do Messias: alguém cuja experiência de abandono e de vindicação prefigura, em escala menor, o que o Filho de Davi viveria em escala plena. O salmo nasceu como oração real de um sofredor real e se aplica a Cristo porque nele o padrão do justo sofredor atinge a sua forma definitiva.

O segundo caminho é a profecia, no sentido em que Pedro a aplicou a Davi: o rei, por ser profeta, viu de antemão e falou do Messias (At 2.30-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Há elementos do Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) que ultrapassam a experiência de qualquer rei de Israel. Nenhum sofredor do Antigo Testamento teve as suas roupas sorteadas enquanto morria, nem viu a sua libertação provocar a conversão dos confins da terra. Esses traços apontam além de Davi.

A leitura responsável combina as duas perspectivas e reconhece os seus limites: o salmo não é um roteiro da crucificação em que cada imagem tenha um correspondente exato. Os touros de Basã e os búfalos são imagens poéticas da hostilidade, não descrições de animais presentes no Gólgota. A força do salmo está no seu movimento global: o justo, desprezado e entregue à morte, é ouvido por Deus, e a sua libertação se torna louvor universal.

6.5 — O Evangelho no capítulo: do abandono à assembleia

A segunda metade do salmo é tão cristológica quanto a primeira. Hebreus põe o v. 22 na boca de Cristo (Hb 2.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A palavra grega que Hebreus usa para "assembleia" é ekklēsia, a mesma que designa a igreja. O Cristo ressuscitado está no meio do seu povo reunido, conduzindo o louvor. A igreja é a assembleia do Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), a comunidade dos que foram reunidos pela vitória do justo abandonado.

O banquete dos vv. 25-26, em que os pobres comem e ficam saciados, ganha também uma ressonância cristã. Na antiga ação de graças, o libertado oferecia um sacrifício e partilhava a carne com os convidados, contando o que Deus fizera. Desde a Antiguidade, intérpretes cristãos viram aqui uma figura da mesa do Senhor, em que a comunidade celebra a libertação conquistada por Cristo. A aproximação pede prudência, mas tem apoio no próprio padrão do salmo: sofrimento, libertação, mesa e testemunho.

E o horizonte final, com as nações se voltando para Deus e as gerações futuras ouvindo que ele agiu, é exatamente o horizonte da missão cristã. A boa notícia é que Deus ouviu o Crucificado e o vindicou na ressurreição, e que essa vitória é anunciada a cada povo que nasce; cada geração que ouve o evangelho vive o v. 31.

Pregar o Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é, portanto, levar o ouvinte a três lugares. Ao lugar do abandono, onde ele descobre que pode ser honesto com Deus e que Cristo esteve lá antes dele. Ao lugar da cruz, onde ele vê o Justo carregar o abandono que o pecado merece, para que os injustos não sejam abandonados para sempre. E ao lugar da assembleia, onde ele é recebido como irmão pelo Cristo ressuscitado e se junta ao coro das nações que proclamam que Deus agiu.


🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)


🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico

Leve a Deus a sua queixa, sem fingimento. Muitos cristãos acham que a fé exige esconder de Deus a dor e a sensação de abandono. O Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ensina o contrário. O salmista não desiste de orar; transforma o próprio silêncio de Deus em matéria de oração. E Jesus, ao tomar este salmo nos lábios, mostrou que a pergunta pelo porquê pode ser feita sem soltar a mão de Deus. Quem atravessa uma noite escura não precisa de frases prontas; precisa saber que pode falar com Deus de onde está.

Lembre-se de quem Deus foi para os outros e para você. Nos piores momentos, o salmista recorre à memória: a dos antepassados que confiaram e foram livrados (vv. 4-5) e a da sua própria vida, sustentada por Deus desde o ventre materno (vv. 9-10). Para o cristão, a memória central é a cruz e a ressurreição: se Deus não abandonou para sempre o Filho que clamou na cruz, também não abandonará os que estão nele (Rm 8.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Não se junte aos que zombam do sofredor. O salmo mostra a crueldade de quem interpreta o sofrimento alheio como prova de que Deus está contra a pessoa. Diante de alguém que sofre, a resposta cristã não é diagnosticar a sua culpa, mas estar ao seu lado. Cristo foi o sofredor zombado; os seus discípulos são chamados a partilhar as lágrimas dos que sofrem (Rm 12.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Transforme o livramento em testemunho e em mesa. O salmista não guarda para si a resposta de Deus: conta-a na assembleia, cumpre os votos, abre a mesa aos pobres. Quem foi ouvido por Deus tem algo a contar aos irmãos e algo a oferecer aos que têm fome, e a igreja reunida em torno da mesa do Senhor é o lugar onde isso acontece.

Olhe para além de si mesmo, até as nações e as gerações. O salmo termina com os confins da terra e com um povo que ainda vai nascer. A vitória de Cristo é anunciada para que pessoas de toda nação a conheçam, e cada geração tem a tarefa de contá-la à seguinte.


🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo

  1. O salmista continua chamando Deus de seu no mesmo momento em que se sente abandonado (v. 1). O que essa combinação ensina sobre a natureza da fé em tempos de crise?
  2. Compare os vv. 4-5 com os vv. 9-10. Por que o salmista recorre primeiro à história do povo e depois à sua própria história? Que lembranças da fidelidade de Deus sustentam você nos momentos difíceis?
  3. Leia Mt 27.35-46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Jo 19.23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ao lado do salmo. Que detalhes chamam a sua atenção, e o que revelam sobre o sentido da morte de Jesus?
  4. Hebreus põe o v. 22 na boca de Cristo (Hb 2.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que significa, para a sua vida e para a sua igreja, que o Cristo ressuscitado chame os seus de irmãos e conduza o louvor no meio deles?
  5. O salmo passa do sofrimento de um só para a adoração das nações e das gerações futuras (vv. 27-31). De que maneira a sua própria história com Deus pode se tornar testemunho para outros, especialmente para os mais jovens?
  6. Para meditação e oração: leia o salmo inteiro devagar, lembrando que Jesus o orou na cruz. Entregue a Deus as suas próprias noites sem resposta e agradeça porque o Filho foi abandonado para que você fosse recebido.

📚 10. Para Aprofundamento

Cristocêntrica / Teologia Bíblica:

  • Dietrich Bonhoeffer — Psalms: The Prayer Book of the Bible (Augsburg, 1970), sobre os salmos como oração de Cristo que a igreja aprende a orar
  • Sidney Greidanus — Preaching Christ from the Old Testament (Eerdmans, 1999)
  • Christopher J. H. Wright — Conhecendo Jesus através do Antigo Testamento (Ultimato) / Knowing Jesus Through the Old Testament (IVP, 1992)
  • Agostinho — Comentário aos Salmos (Paulus, coleção Patrística)

Comentários dos Salmos:

  • Derek Kidner — Salmos 1–72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
  • Peter C. Craigie — Psalms 1–50 (Word Biblical Commentary, 1983; 2ª ed. 2004)
  • Nancy deClaissé-Walford, Rolf A. Jacobson e Beth LaNeel Tanner — The Book of Psalms (NICOT, Eerdmans, 2014)
  • James L. Mays — Psalms (Interpretation, John Knox, 1994)
  • Tremper Longman III — Psalms (Tyndale Old Testament Commentaries, IVP, 2014)

Sobre o uso do Antigo Testamento no Novo:

  • G. K. Beale e D. A. Carson (orgs.) — Commentary on the New Testament Use of the Old Testament (Baker Academic, 2007)

Sabedoria para o Cotidiano
O Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) começa com um grito de abandono e termina com as nações adorando, e entre os dois extremos está um Deus que não desprezou a aflição do aflito. Quando o céu parecer calado, continue chamando Deus de seu, mesmo que a única oração que lhe reste seja a pergunta pelo porquê; esse clamor foi feita antes de você, na cruz, por aquele que conheceu o abandono para que você nunca fosse abandonado para sempre. E quando a resposta vier, não a guarde só para si: conte-a aos irmãos, abra a mesa aos que têm fome e diga aos que ainda vão nascer que foi Deus quem agiu.

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