Salmos · 19 de 66 · Antigo Testamento
Salmos — Capítulo 35
Título do capítulo: A causa do justo odiado sem motivo
Gênero literário: Poesia/Salmo (lamento individual de um inocente perseguido, com pedidos imprecatórios; três ciclos de queixa e voto de louvor, construídos com imagens do tribunal e do campo de batalha)
Número de versículos: 28
Nota de precisão: a numeração segue a tradição das Bíblias em português, em que a inscrição ("de Davi") não é contada como versículo; no hebraico impresso ela faz parte do versículo 1, e por isso, neste salmo, os números coincidem. Na antiga tradução grega, que junta os Salmos 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 10, este é o salmo trinta e quatro. Há algumas palavras raras e de sentido discutido, sobretudo no v. 3 (o nome de uma das armas), no v. 15 (o termo para os agressores) e no v. 16 (a expressão sobre os zombadores), tratadas na análise com a devida cautela.
🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural
O Salmo 35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) pertence ao primeiro livro do Saltério (Sl 1–41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a coleção em que quase todos os poemas trazem o nome de Davi. A inscrição é a mais curta possível: ledawid, "de Davi". Não há indicação de ocasião, nem termo musical, nem pausa marcada com selá. O que o salmo oferece, em lugar disso, é uma situação humana reconhecível: um homem que fez o bem a pessoas próximas e recebeu delas, em troca, calúnia, armadilhas e zombaria. Ele não pede a Deus que o livre de um exército estrangeiro, mas de gente que se sentava à sua mesa e por quem ele já jejuara.
A tradição associou o poema aos anos em que Davi foi perseguido por Saul, e há bons motivos para a associação, desde que tratada como hipótese. Quando Davi poupou a vida do rei na caverna de En-Gedi, pediu em voz alta que o Senhor fosse juiz entre os dois, examinasse a sua causa e o livrasse da mão de Saul (1Sm 24.12-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o vocabulário é o mesmo de Sl 35.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 35.23, com o verbo riv, pleitear, defender uma causa. E o próprio Saul, comovido, reconheceu que Davi lhe pagara com o bem enquanto ele lhe pagara com o mal (1Sm 24.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), exatamente a queixa de Sl 35.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Outros pensam no tempo da revolta de Absalão, quando Davi foi traído por conselheiros próximos, como Aitofel (2Sm 15.12, 31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmo, porém, não amarra a sua oração a nenhum episódio, e por isso serve a qualquer pessoa caluniada que se vê sem defesa diante dos homens.
Dois mundos se sobrepõem no poema. O primeiro é o do tribunal. Em Israel, a justiça era feita à porta da cidade, diante dos anciãos, e dependia em grande medida de testemunhas. A Lei proibia o falso testemunho (Êx 20.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 23.1) e determinava que a testemunha mentirosa sofresse o mal que pretendia causar ao acusado (Dt 19.16-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o termo que Deuteronômio usa para ela, 'ed ḥamas, testemunha de violência, é o mesmo de Sl 35.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Um homem pobre, sem parentes influentes, ficava à mercê de quem soubesse manipular a assembleia, e a única saída era apelar ao juiz que não se deixa comprar. O segundo mundo é o da guerra: escudos, lança, perseguição pelos caminhos. O salmista mistura os dois porque, para ele, a acusação injusta é uma forma de violência, e a defesa de que precisa é ao mesmo tempo jurídica e militar.
Vale notar o lugar do salmo na coleção. O Salmo 34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o único outro poema do Saltério que fala do anjo do Senhor, acampado ao redor dos que temem a Deus para livrá-los (Sl 34.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o Salmo 35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) o mostra do outro lado, dispersando e perseguindo os agressores (Sl 35.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o salmo termina chamando o orante de servo do Senhor (Sl 35.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), enquanto o Salmo 36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) traz na inscrição o título de Davi como servo do Senhor. Alguns estudiosos veem nesses fios um sinal da costura cuidadosa com que os salmos vizinhos foram reunidos.
Por fim, o poema é um dos chamados salmos imprecatórios, em que o orante pede que o mal recaia sobre os seus inimigos. Desde já se observe que o salmista não pega em armas: leva a sua causa a Deus. A imprecação, aqui, é oração, e não plano de vingança.
📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo
O salmo abre convocando o Senhor para dois papéis de uma vez: o de advogado que enfrenta os acusadores do orante e o de guerreiro que luta contra quem o ataca (v. 1). Pede que Deus apanhe o escudo pequeno e o grande, que empunhe a lança e barre o caminho dos perseguidores, e, sobretudo, que diga a ele, pessoalmente, que é o seu socorro (vv. 2-3).
Seguem os primeiros pedidos contra os adversários: que fiquem envergonhados e recuem os que querem a sua vida (v. 4), que sejam como palha diante do vento, com o anjo do Senhor a empurrá-los (v. 5), que o caminho deles fique escuro e escorregadio, com o mesmo anjo no seu encalço (v. 6). A razão vem em seguida: sem nenhum motivo eles esconderam uma rede e cavaram uma cova para ele (v. 7). Que a ruína os apanhe de surpresa e que caiam na própria armadilha (v. 8). Então o orante promete alegria no Senhor e confessa, com o corpo inteiro, que não há ninguém como Deus, defensor do pobre contra o mais forte (vv. 9-10).
No segundo ciclo, a queixa se torna mais pessoal. Testemunhas violentas se levantam e o interrogam sobre coisas de que ele nada sabe (v. 11); pagam o bem com o mal e deixam a sua vida desamparada como a de quem perdeu os filhos (v. 12). Ele lembra o que fizera por eles: quando estavam doentes, vestira pano de saco, jejuara e orara de cabeça inclinada (v. 13); andara de luto como por um amigo ou um irmão, curvado como quem chora a própria mãe (v. 14). Mas, quando ele tropeçou, os mesmos se alegraram e se juntaram contra ele, com gente estranha que o despedaçava sem parar (v. 15), zombando e rangendo os dentes (v. 16). Ele pergunta ao Senhor até quando ficará só olhando e pede que lhe salve a vida dos leões (v. 17), prometendo louvá-lo diante da grande assembleia (v. 18).
O terceiro ciclo começa pedindo que os que o odeiam sem razão não se alegrem com a sua queda nem troquem piscadelas de cumplicidade (v. 19). Eles não falam de paz, mas tramam palavras enganosas contra os pacíficos da terra (v. 20), e abrem a boca para gritar o seu triunfo, dizendo que viram com os próprios olhos (v. 21). O salmista responde que o Senhor também viu e lhe pede que não se cale nem se afaste (v. 22), que desperte para julgar a sua causa (v. 23) e lhe faça justiça segundo a sua própria justiça (v. 24), para que os inimigos não possam dizer que conseguiram o que queriam e o engoliram (v. 25). Que sejam cobertos de vergonha os que se engrandecem contra ele (v. 26). O salmo termina com os amigos do justo celebrando a grandeza do Senhor, que se agrada da paz do seu servo (v. 27), e com o orante prometendo falar da justiça de Deus e louvá-lo o dia inteiro (v. 28).
🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)
Versículos 1-3 — O Senhor chamado ao tribunal e à batalha
O salmo abre com um jogo de palavras que o português mal consegue imitar. O verbo riv significa contender, pleitear, defender uma causa num processo; o salmista pede que o Senhor pleiteie contra os que pleiteiam contra ele (rivah YHWH et-yerivai). Na linha seguinte, o verbo é laḥam, combater: que Deus combata os que o combatem (leḥam et-loḥamai). O paralelismo é sinonímico, mas também progressivo: do tribunal passa-se ao campo de batalha. A repetição da mesma raiz no verbo e no substantivo dá ao pedido um tom de justiça exata, como quem diz que a medida usada pelos adversários deve ser a medida da resposta.
O v. 2 é uma imagem ousada. O orante pede que Deus segure o magen, o escudo redondo e leve, e a tsinnah, o escudo grande que cobria o corpo inteiro. Nenhum soldado empunhava os dois ao mesmo tempo; a sobreposição é poética e quer dizer proteção completa, de todos os lados. O pedido seguinte usa o verbo qum, levantar-se, que aparece em vários salmos como o grito para que Deus entre em ação (Sl 3.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 7.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
No v. 3, o Senhor deve sacar a ḥanit, a lança, e segor. Esta última palavra é discutida. Pode ser um imperativo, "fecha", e então Deus barraria o caminho dos perseguidores; ou pode ser o nome de uma arma, e alguns estudiosos a aproximam de um machado de guerra conhecido de povos vizinhos. As duas leituras dão sentido; a primeira é a mais comum nas traduções.
O ponto mais alto do trecho vem no fim do v. 3. Depois de pedir armas, o salmista pede uma palavra: que Deus diga à sua nefesh, à sua vida, que ele é a sua salvação (yeshu'atekh 'ani). O perseguido precisa de proteção, mas precisa ainda mais de ouvir, da boca de Deus, que não está sozinho. A palavra yeshu'ah, salvação, socorro, vem da mesma raiz que o nome Josué e, mais tarde, o nome de Jesus, sobre quem o anjo dirá a José que salvaria o seu povo dos seus pecados (Mt 1.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Versículos 4-10 — A rede que apanha o caçador
A primeira série de pedidos contra os inimigos usa quatro verbos de humilhação: que sejam envergonhados (bosh), confundidos (kalam), façam meia-volta (sug 'aḥor) e fiquem desapontados (ḥafer) os que procuram a vida do orante e planejam a sua desgraça (v. 4). O que se pede, antes de tudo, é que o plano deles fracasse. A vergonha, no mundo bíblico, não é apenas um sentimento; é a perda pública da honra, o desmascaramento de quem parecia forte.
Os vv. 5-6 trazem duas imagens ligadas pelo anjo do Senhor. Na primeira, os inimigos são mots, a palha leve que o vento leva na eira quando se joeira o trigo; é a mesma imagem que descreve os ímpios no Sl 1.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O anjo do Senhor os empurra (doḥeh). Na segunda, o caminho deles fica ḥoshekh waḥalaqlaqqot, trevas e lugares escorregadios, e o anjo os persegue (rodefam). O perseguidor torna-se perseguido. O mal'akh YHWH é, no Antigo Testamento, uma figura misteriosa, que às vezes fala como o próprio Deus (Gn 16.7-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Êx 3.2-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que, na noite do êxodo e na campanha de Senaqueribe, aparece como executor do juízo (2Rs 19.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmista pede que esse mensageiro faça com os seus inimigos o que eles queriam fazer com ele.
O v. 7 explica o pedido, e introduz a palavra que vai marcar o salmo: ḥinnam, de graça, sem motivo. Ela aparece duas vezes no versículo: sem razão esconderam para ele a sua rede, sem razão cavaram uma cova para a sua vida. A imagem é a do caçador que arma a rede no chão, disfarçada, e cava um buraco no caminho da presa. A palavra ḥinnam voltará no v. 19, e será justamente ela que Jesus aplicará a si mesmo.
O v. 8 pede que a ruína (sho'ah, devastação repentina, quase uma tempestade) venha sobre o inimigo sem que ele perceba, e que a rede que escondeu o apanhe. É a lógica que atravessa a sabedoria de Israel: quem cava uma cova cairá nela (Pv 26.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 7.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 9.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O mal tem um retorno embutido; a armadilha preparada para o outro acaba fechando-se sobre quem a armou. A história de Hamã, enforcado na forca que levantara para Mardoqueu (Et 7.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), é a ilustração mais conhecida. O pedido, portanto, não inventa um castigo novo: pede que Deus permita que a injustiça colha o que plantou, o que corresponde também à regra de Dt 19.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) sobre a testemunha falsa.
Os vv. 9-10 fecham o primeiro ciclo com um voto de louvor. A nefesh do orante se alegrará no Senhor e na sua salvação, e todos os seus ossos (kol 'atsmotai) dirão uma frase que ecoa o cântico do mar (Êx 15.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): quem se compara ao Senhor? A pergunta retórica é uma confissão. O que torna Deus incomparável, aqui, não é primeiramente o seu poder sobre os astros, mas o seu cuidado com o fraco: ele livra o 'ani, o pobre, o oprimido, de quem é mais forte do que ele, e o 'evyon, o necessitado, de quem o despoja.
Versículos 11-16 — O bem pago com o mal
O segundo ciclo começa no tribunal. Levantam-se 'ede ḥamas, testemunhas de violência, e perguntam ao orante coisas de que ele não tem conhecimento (v. 11). É a situação do réu que não consegue se defender porque as acusações são inventadas; quanto mais responde, mais se enreda. O v. 12 diz o essencial: eles retribuem mal por bem, e deixam a sua alma em shekhol, a condição de quem perdeu os filhos, o desamparo mais completo que a língua hebraica conhecia.
Os vv. 13-14 são o centro afetivo do salmo, e é por causa deles que a imprecação precisa ser lida com cuidado. Quando os que agora o acusam estavam doentes, o salmista vestiu pano de saco (saq), a roupa áspera do luto e da penitência. Ele humilhou a sua alma com jejum ('inneti vatsom nafshi), a mesma expressão que a Lei usa para o jejum do Dia da Expiação (Lv 16.29, 31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E a sua oração voltava ao seu peito. A frase é discutida: pode descrever a postura de quem ora com a cabeça inclinada sobre o peito, em profunda tristeza; ou pode significar que a oração, sem resposta para os doentes, voltava a ele como bênção, à maneira da paz que, segundo Jesus, retorna aos discípulos quando a casa não a recebe (Mt 10.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A primeira leitura é a mais natural no contexto.
No v. 14, ele lembra que andou de luto como por um amigo ou um irmão, e que se curvava, sombrio, como quem chora a morte da própria mãe. A palavra qoder sugere o escurecido, o enlutado vestido de roupas escuras e sem se lavar. O salmista não fez o mínimo; carregou a dor dos que hoje o odeiam como se fosse sua. É isso que torna o v. 15 tão amargo. Quando ele tropeçou (tsal'i, palavra que pode indicar o mancar, a queda de quem perdeu o passo), os mesmos se alegraram e se reuniram. Juntaram-se contra ele nekhim, termo raro, que pode designar agressores, gente que fere, ou, como querem alguns, gente desprezível; e outros que ele nem conhecia. Eles o despedaçavam sem descanso, com a língua, que é como se fere num tribunal.
O v. 16 é dos mais difíceis do salmo. A expressão hebraica parece falar de ímpios que zombam por um pedaço de bolo, isto é, parasitas de banquete, bufões que fazem graça à custa de outro em troca de comida. A tradução exata é incerta, mas o quadro é claro: o sofrimento do justo virou diversão. O gesto final, ranger os dentes contra ele, é sinal de ódio e de ameaça (Jó 16.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lm 2.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o mesmo que os membros do conselho farão contra Estêvão (At 7.54 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Versículos 17-18 — Até quando, Senhor?
O segundo ciclo termina com dois versículos curtos, de oração e de voto. O orante chama Deus de 'Adonay, Senhor, e pergunta kammah, por quanto tempo, ficará só olhando. É o grito que atravessa os lamentos do Saltério (Sl 13.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 6.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que ressoa até as almas debaixo do altar no Apocalipse (Ap 6.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A queixa é fé que sabe que Deus vê e, por isso mesmo, não entende a sua demora.
O pedido usa uma palavra delicada: yeḥidati, a minha única, a minha vida preciosa, insubstituível. É o mesmo termo do Sl 22.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), também ao lado da imagem dos leões (Sl 22.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os inimigos, aqui, são kefirim, leões jovens, os mais vorazes. E o voto do v. 18 também ecoa o Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): o orante promete dar graças ao Senhor na qahal rav, na grande assembleia, e louvá-lo no meio de um povo numeroso (Sl 22.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A experiência pessoal de livramento se tornará testemunho público; aquele que foi difamado diante do povo será ouvido pelo povo louvando a Deus.
Versículos 19-26 — O olhar que zomba e o Deus que vê
O terceiro ciclo começa com a palavra que dá nome ao salmo. O orante pede que não se alegrem por causa dele os seus inimigos sheqer, os que o são por mentira, sem fundamento, e que não pisquem os olhos os que o odeiam ḥinnam, sem razão (v. 19). O piscar de olhos (qarats 'ayin) é, em Provérbios, gesto de quem trama o mal em silêncio e se comunica com cúmplices (Pv 6.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 10.10). A expressão sone'ai ḥinnam, os que me odeiam sem razão, aparece de novo no Sl 69.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e o mesmo pensamento está no Sl 109.3-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
O v. 20 descreve a linguagem desses homens: eles não falam de shalom, não procuram a paz, mas tramam palavras enganosas contra os rig'e-'erets, expressão única no Antigo Testamento, que significa os tranquilos da terra, os pacíficos, os que vivem quietos e sem poder. O conflito do salmo não é entre dois partidos iguais; é entre os que mentem e os que só querem viver em paz.
No v. 21, eles abrem a boca contra ele e soltam a interjeição he'aḥ, he'aḥ, um grito de triunfo maldoso, e afirmam que os seus olhos viram. O que viram? A queda do justo, talvez a falta que lhe atribuíram. O v. 22 responde com um contraponto perfeito: o Senhor também viu (ra'itah YHWH). Os inimigos viram e se alegraram; Deus viu, e o que ele vê é a verdade. O pedido seguinte é para que Deus não fique calado ('al-teḥerash) nem permaneça longe ('al-tirḥaq), o mesmo pedido do justo abandonado do Sl 22.11, 19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
O v. 23 acumula verbos de despertar: ha'irah e haqitsah, acorda, desperta, para o meu julgamento (mishpati) e para a minha causa (rivi). A palavra riv fecha a moldura aberta no v. 1. E o orante chama Deus de 'Elohai wa'Donai, meu Deus e meu Senhor, um par raro de títulos com o pronome possessivo. O v. 24 pede que Deus o julgue segundo a sua justiça (ketsidqekha). O salmista não pede um favor contra a justiça, mas justiça; está tão seguro da sua inocência nesta causa que aceita ser julgado pelo padrão do próprio Deus.
Os vv. 25-26 retomam os pedidos do v. 4, numa moldura. Que os inimigos não digam no coração que conseguiram o que desejavam, que não digam que o engoliram (billa'anuhu), verbo que descreve o devorar de uma fera ou o tragar do abismo. Que fiquem envergonhados e confundidos os que se alegram com o seu mal; que se vistam de vergonha (boshet) e ignomínia os que se engrandecem contra ele. Eles queriam ver o justo coberto de vergonha; que essa roupa lhes sirva.
Versículos 27-28 — O louvor da justiça o dia inteiro
O salmo termina com uma cena oposta à do v. 21. Lá, os inimigos gritavam o seu triunfo; aqui, gritam de alegria os ḥafetse tsidqi, os que se agradam da justiça do orante, isto é, os que desejam vê-lo vindicado. Eles dirão continuamente que o Senhor é grande, que ele se agrada (heḥafets) do shalom do seu servo (v. 27). O verbo ḥafets, agradar-se, aparece duas vezes: os amigos se agradam da justiça do salmista, e Deus se agrada da paz dele. Os inimigos não falavam de paz (v. 20); Deus a deseja para o seu servo. E o título 'avdo, o seu servo, coloca o orante na linhagem dos que pertencem inteiramente a Deus.
O v. 28 é o voto final: a sua língua meditará (tehgeh) a justiça de Deus e o seu louvor o dia inteiro. O verbo hagah é o mesmo do Sl 1.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o murmurar constante de quem medita. A língua que fora alvo de mentiras será usada para proclamar a justiça de Deus. Os três ciclos do salmo terminam todos assim, em louvor (vv. 9-10, 18, 27-28): a queixa nunca é a última palavra.
✨ 4. Versículos-Chave
Sl 35.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — No meio de um pedido cheio de armas, o salmista pede uma palavra: que Deus diga à sua vida que é ele o seu socorro. A segurança que ele procura não está só no escudo, mas na voz de Deus que o assegura pessoalmente. A palavra yeshu'ah, salvação, carrega a raiz do nome de Jesus, e o Novo Testamento anunciará que, nele, Deus disse de modo definitivo ao seu povo que é a sua salvação (Mt 1.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 2.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Sl 35.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O salmista retribuiu com jejum e luto a doença dos que agora o perseguem, e recebeu mal em troca do bem. Esses versículos são decisivos para entender as imprecações: quem as pronuncia não é um vingativo, mas alguém que amou os inimigos e foi traído. A cena antecipa, de modo surpreendente, a experiência de Jesus, que fez o bem e curou (At 10.38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e foi entregue por aqueles a quem servira (Jo 10.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Sl 35.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os inimigos sem fundamento e os que odeiam sem razão. Jesus, no discurso de despedida, disse que o ódio do mundo contra ele e contra o Pai cumpria a palavra escrita na Lei deles, de que o odiaram sem motivo (Jo 15.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O texto de João pode ecoar este versículo e o Sl 69.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que têm a mesma expressão. O justo do salmo torna-se, assim, figura daquele que foi plenamente inocente e plenamente rejeitado.
Sl 35.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Senhor se agrada da paz do seu servo. O salmo que começou em guerra termina no shalom de Deus. A vingança não é o alvo final; o alvo é a paz do servo e a grandeza de Deus proclamada pelos que amam a justiça. Para o leitor cristão, o servo de quem Deus se agrada aponta para o Servo em quem o Pai declarou ter prazer (Mt 3.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 42.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
⛪ 5. Temas Teológicos Centrais
Deus como advogado e guerreiro do inocente. O Salmo 35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) apresenta Deus em dois papéis que se completam: ele pleiteia a causa do justo e combate os seus agressores. A imagem de Deus como defensor dos que não têm defesa atravessa a Escritura. Ele é o protetor do órfão, da viúva e do estrangeiro (Dt 10.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 68.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o redentor que pleiteia a causa do órfão contra os que lhe tomam a terra (Pv 23.10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o que defende a causa do seu povo (Jr 50.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No Novo Testamento, essa defesa ganha um rosto: Cristo é o advogado que temos junto ao Pai (1Jo 2.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Paulo pergunta, com segurança, quem poderia acusar os escolhidos de Deus, se é Deus quem os declara justos e Cristo quem intercede por eles (Rm 8.33-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O ódio gratuito e a inocência ferida. A palavra ḥinnam, sem motivo, é o fio do salmo. O mal que o salmista sofre não é consequência de um erro seu, mas de uma hostilidade que não se explica. A Bíblia leva a sério essa experiência: Jó foi atingido sem causa, como o próprio Deus reconhece (Jó 2.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), onde aparece a mesma palavra), e o Servo do Senhor foi entregue sem ter cometido violência nem havido engano na sua boca (Is 53.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O ódio gratuito tem o seu ponto máximo na cruz, onde o único inteiramente justo foi rejeitado sem razão (Jo 15.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A justiça que devolve ao mal o seu próprio peso. As imprecações do salmo pedem, em grande parte, que a armadilha apanhe o caçador e que a vergonha vista quem queria envergonhar. É uma justiça de correspondência, a mesma que a Lei pedia contra a testemunha falsa (Dt 19.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que os sábios observavam na vida (Pv 26.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Novo Testamento não a abole: diz que cada um colhe o que semeia (Gl 6.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que Deus retribuirá com aflição os que afligem os seus (2Ts 1.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas o Novo Testamento acrescenta onde essa justiça se cumpre de modo surpreendente: na cruz, onde o juízo contra o mal caiu sobre quem não o merecia, para que os culpados pudessem ser perdoados.
O louvor como fim da queixa. Os três ciclos do salmo terminam em louvor: a alegria dos ossos (vv. 9-10), a ação de graças na assembleia (v. 18), a meditação da justiça o dia inteiro (v. 28). O lamento bíblico é sempre uma oração dirigida a alguém que pode ouvir, e por isso se abre à esperança. Hebreus mostra o Filho louvando o Pai no meio da assembleia dos seus irmãos, com palavras do Sl 22.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (Hb 2.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o justo que sofreu é o que lidera o louvor dos libertos.
✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo
6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?
O Salmo 35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) pertence à Redenção em andamento, num mundo profundamente marcado pela Queda. O ódio sem razão, a calúnia, a ingratidão e o prazer com a desgraça alheia são o fruto do pecado que entrou no mundo com a desconfiança em Deus e se manifestou cedo no ódio de Caim contra Abel, a quem matou porque as obras do irmão eram justas (Gn 4.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Jo 3.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmo é um pedido para que Deus intervenha nessa história e restabeleça a justiça. Ele aponta para a Redenção consumada, quando o Justo odiado sem motivo será rejeitado, morto e vindicado por Deus na ressurreição. E olha para a Nova Criação, quando o Juiz julgará com justiça, toda lágrima será enxugada e a vergonha cairá sobre o mal para sempre (Ap 21.4, 8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O grito do v. 17, até quando, ainda é o grito da igreja (Ap 6.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas é um grito com resposta prometida.
6.2 — Odiado sem motivo: o justo do salmo e o Justo do evangelho
O próprio Jesus fez a ligação. No discurso que fez aos discípulos na noite em que foi traído, ele explicou que o mundo os odiaria porque antes o odiara, e que esse ódio acontecia para que se cumprisse a palavra escrita na Lei, de que o odiaram sem motivo (Jo 15.18-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A palavra grega usada por João, dōrean, de graça, sem razão, corresponde exatamente ao ḥinnam do Sl 35.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Como o Sl 69.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) tem a mesma expressão, não se pode dizer com certeza qual dos dois Jesus tinha em mente; é provável que os dois, e o Sl 109.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), formem juntos o fundo da frase. O que importa é que Jesus leu a experiência do justo perseguido do Saltério como uma descrição da sua própria.
Essa leitura não é forçada, e os evangelhos mostram muitos pontos de contato. Como o salmista, Jesus fez o bem: andou por toda parte curando e libertando (At 10.38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e, quando seus adversários se preparavam para apedrejá-lo, perguntou por qual das muitas obras boas que mostrara da parte do Pai eles queriam matá-lo (Jo 10.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Como o salmista, ele chorou pelos que o rejeitariam, lamentando sobre Jerusalém que não reconheceu o tempo em que Deus a visitou (Lc 19.41-44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Como o salmista, ele enfrentou testemunhas falsas: os chefes dos sacerdotes procuraram depoimentos mentirosos contra ele, e muitos se apresentaram, sem que os relatos combinassem (Mt 26.59-61 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 14.55-59 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Como o salmista, ele foi alvo da alegria maldosa dos que viam a sua queda: os que passavam diante da cruz balançavam a cabeça e zombavam, e os líderes do povo o desafiavam a salvar a si mesmo (Mt 27.39-44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Há, porém, uma diferença que não se pode apagar. O salmista era inocente na causa específica que levava a Deus, mas não era sem pecado; o Saltério tem outros poemas em que Davi confessa culpas graves (Sl 32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus era inocente em sentido absoluto. Pedro o descreve como alguém que não cometeu pecado e em cuja boca não se achou engano (1Pe 2.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), ecoando Is 53.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O ódio contra ele foi gratuito em grau máximo. Por isso o Salmo 35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é uma tipologia no sentido próprio: o justo perseguido do Antigo Testamento antecipa, em escala menor e imperfeita, o Justo perseguido em quem o padrão se realiza por inteiro.
6.3 — Da imprecação à intercessão: como Cristo ora este salmo
O ponto delicado do Salmo 35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) são os pedidos contra os inimigos. Como um cristão, que recebeu a ordem de amar os inimigos e orar pelos que o perseguem (Mt 5.44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), pode orar este salmo? A resposta exige três movimentos.
O primeiro é ler o salmo com honestidade. O orante não toma vingança com as próprias mãos; entrega a sua causa a Deus. E ele fez exatamente o que Jesus mandará fazer: jejuou e chorou pelos que agora o perseguem (vv. 13-14). A imprecação nasce da dor de um amor traído, não do ódio. Paulo, ao proibir os cristãos de se vingarem, não diz que o mal ficará impune; diz que se deixe lugar para a ira de Deus, porque a ele pertence a vingança, e cita a Lei (Rm 12.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), retomando Dt 32.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) faz precisamente isso: deixa lugar para Deus.
O segundo movimento é ver como Jesus orou diante dos seus inimigos. Pedro diz que, insultado, ele não respondeu com insultos, e, sofrendo, não fez ameaças, mas se entregou àquele que julga com justiça (1Pe 2.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É a postura essencial do Salmo 35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): entregar a causa ao juiz. Mas Jesus foi além. Na cruz, enquanto o despedaçavam com zombarias, ele pediu ao Pai que perdoasse os que o crucificavam, porque não sabiam o que estavam fazendo (Lc 23.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Estêvão, cercado por homens que rangiam os dentes contra ele como os zombadores do v. 16, orou da mesma forma, pedindo que o Senhor não lhes imputasse aquele pecado (At 7.54-60 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os primeiros cristãos aprenderam com Jesus a entregar a causa a Deus e, ao mesmo tempo, a interceder pelos que os feriam.
O terceiro movimento é perceber onde a justiça pedida pelo salmo encontra o seu cumprimento. O salmista pediu que a ruína caísse sobre os ímpios. Na cruz, a ruína devida ao mal caiu sobre o único que não a merecia. Dietrich Bonhoeffer, refletindo sobre os salmos que pedem vingança, entendeu que eles se cumprem na cruz: Deus não deixou o pecado impune, mas executou o seu juízo sobre ele em Cristo, para poder perdoar os inimigos. Quem ora o Salmo 35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) em Cristo pede que Deus não seja indiferente ao mal, e ao mesmo tempo sabe que o próprio Cristo suportou o juízo por todos os que se arrependem. Para os que recusam esse perdão, o juízo continua real, e o Novo Testamento não o esconde (2Ts 1.6-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 6.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 19.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A imprecação, assim, não é abolida; é transformada. Ela passa pela cruz e sai dali como clamor por justiça e oração pela conversão dos inimigos ao mesmo tempo.
6.4 — O advogado vindicado: a causa do justo julgada na ressurreição
O salmo pede repetidamente que Deus julgue a causa do orante (vv. 1, 23-24) e o vindique diante dos que o difamam. Na história de Jesus, o tribunal humano o condenou, e a condenação parecia definitiva. Os inimigos podiam dizer, como no v. 25, que o tinham engolido. Mas Deus reverteu a sentença. Pedro anuncia, no Pentecostes, que aquele homem entregue e morto pelas mãos de gente sem lei foi ressuscitado por Deus, porque era impossível que a morte o retivesse (At 2.23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A ressurreição é a sentença de Deus no processo de Jesus. Paulo diz que ele foi declarado Filho de Deus com poder, pela ressurreição dentre os mortos (Rm 1.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e um antigo hino citado em 1Tm 3.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) fala dele como vindicado no Espírito.
Há uma página do profeta Isaías que forma a ponte entre o Salmo 35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Cristo. O Servo do Senhor, que ofereceu as costas aos que o feriam e não escondeu o rosto dos insultos, diz que Deus o ajuda e que está perto quem lhe faz justiça; e desafia: quem contenderá com ele? (Is 50.6-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A linguagem é a do tribunal, como no Salmo 35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e a confiança é a mesma. Paulo retoma essa confiança e a estende aos que estão em Cristo: se Deus justifica, quem condenará? Cristo morreu, ressuscitou, está à direita de Deus e intercede por nós (Rm 8.33-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O justo que no Salmo 35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) pedia um advogado tem agora, em Cristo, um advogado que venceu o processo. E a causa dos que estão nele foi julgada no julgamento dele.
Alguns comentaristas notam ainda que o par de títulos do v. 23, meu Deus e meu Senhor, reaparece na confissão de Tomé diante do Ressuscitado (Jo 20.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não há citação explícita, mas a convergência é sugestiva.
6.5 — O Evangelho no capítulo
O Salmo 35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) prega o evangelho de dois modos. Primeiro, mostra que Deus não é indiferente ao mal. Os que foram caluniados, traídos, explorados ou humilhados sem motivo têm um juiz a quem recorrer, que vê o que os outros fingem não ver (v. 22). Isso é boa notícia para todas as vítimas, e o evangelho a confirma ao anunciar que Deus marcou um dia para julgar o mundo com justiça por meio do homem que ressuscitou (At 17.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Segundo, e de modo mais profundo, o salmo nos coloca diante de uma pergunta incômoda: de que lado estamos? Todos nós, em algum momento, fomos os que se alegraram com a queda de alguém, os que trocaram piscadelas, os que pagaram o bem com o mal. Diante de Deus, também nós retribuímos com ingratidão o bem que ele nos fez. O evangelho anuncia que Jesus, o Justo odiado sem razão, morreu também pelos que o odiavam, e que da cruz pediu perdão para eles. Pregar este salmo cristocentricamente é levar o ouvinte a encontrar refúgio naquele que defende a causa dos fracos e, ao mesmo tempo, a reconhecer que precisa ser perdoado por ele. Quem foi alcançado por esse perdão pode orar pelos seus inimigos, entregando a Deus a sua causa e desejando que eles também sejam alcançados.
🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)
- 1Sm 24.12-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Davi pede que o Senhor julgue a sua causa contra Saul, e o rei reconhece que Davi lhe pagou o mal com o bem; o vocabulário e a situação mais próximos do salmo.
- Êx 23.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 19.16-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a proibição do falso testemunho e a regra de que a testemunha mentirosa sofra o que planejou contra o inocente.
- Sl 7.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 9.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Pv 26.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Et 7.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a cova que engole quem a cavou; o mal que volta sobre a cabeça de quem o planejou.
- Sl 22.11, 19-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 69.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 109.3-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — os salmos irmãos do justo perseguido: o Deus que não deve ficar longe, a vida única entregue aos leões, os que odeiam sem causa, o amor pago com acusação.
- Is 50.6-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o Servo que confia em quem lhe faz justiça e desafia os acusadores no tribunal.
- Jo 15.18-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus aplica a si o ódio sem razão do Saltério.
- Mt 26.59-61 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 27.39-44 — as testemunhas falsas no processo de Jesus e a zombaria diante da cruz.
- Lc 23.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 7.54-60 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Pe 2.21-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus e Estêvão oram pelos que os ferem; Cristo entrega a sua causa ao Juiz justo.
- Rm 8.31-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 12.14-21 — Deus que justifica e Cristo que intercede; a proibição da vingança pessoal, que deixa lugar ao juízo de Deus.
- Lc 18.1-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 6.9-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a viúva que insiste com o juiz e as almas que perguntam até quando; a promessa de que Deus fará justiça aos seus escolhidos.
- Na história da Igreja, Agostinho, fiel ao seu modo de ler o Saltério, ouviu nestes lamentos a voz de Cristo, cabeça e corpo, unida à da Igreja perseguida; e os salmos imprecatórios suscitaram, de lá até Bonhoeffer, reflexões cuidadosas sobre como orá-los em Cristo.
🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico
Leve a sua causa a Deus, não às próprias mãos. Há quem sofra calúnias no trabalho, na família, nas redes sociais ou na própria igreja. A tentação é responder na mesma moeda, montar a contra-acusação, ferir de volta. O Salmo 35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ensina outro caminho: dizer a Deus, com toda a franqueza, o que está acontecendo, e deixar com ele o julgamento. Jesus fez isso diante dos seus acusadores, entregando-se ao que julga com justiça. Isso não impede que se procure a justiça pelos meios legítimos; impede que a vingança se torne o motor da vida.
Não tenha vergonha de dizer a Deus que dói. O salmista fala abertamente da sua mágoa: fiz o bem e recebi o mal. A fé cristã não pede que se finja serenidade. Os salmos dão ao crente palavras para a dor da traição, e Cristo, que foi traído por um dos seus, entende essa dor por dentro. A oração honesta é o lugar onde a ferida começa a ser tratada.
Examine se você não está do lado dos que zombam. O salmo descreve com precisão quem se alegra com a queda alheia, quem pisca o olho para os cúmplices, quem repete uma acusação sem saber se é verdade. Num tempo de linchamentos públicos e comentários anônimos, é fácil participar sem perceber. Quem segue Cristo, que foi vítima desse tipo de multidão, não pode juntar-se a ela.
Ore pelos que o feriram. O salmista jejuou pelos que, depois, o perseguiram. Jesus orou pelos que o crucificavam. Orar pelos inimigos não significa negar o mal que fizeram, mas entregá-los a Deus pedindo a conversão deles. Essa oração não nasce do esforço moral, mas da consciência de que nós também fomos perdoados quando éramos inimigos (Rm 5.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Espere a palavra de Deus no meio da luta. O pedido mais bonito do salmo é o do v. 3: que Deus diga à sua vida que é ele o seu socorro. Quando a perseguição continua e a vindicação demora, o crente pode pedir a Deus, mais do que a solução imediata, a certeza da sua presença. Em Cristo, essa palavra já foi dita, e o Espírito a repete ao coração (Rm 8.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo
- O salmo mistura imagens do tribunal e da guerra (vv. 1-3, 11, 23-24). Por que a acusação injusta pode ser sentida como uma forma de violência? Que situações atuais se parecem com a do salmista?
- Os vv. 13-14 mostram o salmista jejuando e chorando pelos que depois o perseguiram. Como esses versículos mudam a maneira de ler os pedidos contra os inimigos nos vv. 4-8 e 26?
- Jesus aplicou a si a expressão do ódio sem motivo (Jo 15.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em que pontos a história da paixão se parece com o Salmo 35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e em que ela o ultrapassa?
- Compare o pedido de juízo do salmo com a oração de Jesus na cruz (Lc 23.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e com Rm 12.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). É possível pedir justiça e, ao mesmo tempo, orar pela conversão de quem nos feriu? Como?
- Os três ciclos do salmo terminam em louvor. O que isso ensina sobre o lugar da queixa na oração cristã?
- Para meditação e oração: leve a Deus, pelo nome, alguém que o feriu sem motivo. Entregue a ele a sua causa, peça-lhe que diga à sua vida que ele é a sua salvação e, se puder, ore pelo bem dessa pessoa.
📚 10. Para Aprofundamento
Cristocêntrica / Teologia Bíblica:
- Dietrich Bonhoeffer — Das Gebetbuch der Bibel (1940), com a leitura dos salmos de vingança à luz da cruz (há edições em português)
- John N. Day — Crying for Justice: What the Psalms Teach Us About Mercy and Vengeance in an Age of Terrorism (Kregel, 2005)
- Christopher J. H. Wright — Conhecendo Jesus através do Antigo Testamento (Ultimato) / Knowing Jesus Through the Old Testament (IVP, 1992)
Comentários dos Salmos:
- Derek Kidner — Salmos 1–72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
- Peter C. Craigie — Psalms 1–50 (Word Biblical Commentary, 1983; 2ª ed. 2004)
- Nancy deClaissé-Walford, Rolf A. Jacobson e Beth LaNeel Tanner — The Book of Psalms (NICOT, Eerdmans, 2014)
- Agostinho — Comentário aos Salmos (Paulus, coleção Patrística)
Sobre os salmos imprecatórios:
- C. S. Lewis — Reflections on the Psalms (1958), com o capítulo sobre as maldições nos Salmos (em português, Lendo os Salmos)
- Gordon J. Wenham — Psalms as Torah: Reading Biblical Song Ethically (Baker Academic, 2012)
Sabedoria para o Cotidiano
O Salmo 35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é a oração de quem pagou o bem e recebeu o mal, e ensina que a mágoa da injustiça não precisa virar vingança: pode virar uma causa entregue ao Juiz que vê tudo. Quando a calúnia o alcançar, fale com Deus antes de falar com os outros, peça-lhe que diga à sua alma que ele é a sua salvação e deixe com ele a sentença. Lembre-se de que Jesus foi odiado sem motivo e, mesmo assim, orou pelos que o feriam; em Cristo, você também pode clamar por justiça e, ao mesmo tempo, desejar o perdão para quem o machucou.
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