Salmos · 19 de 66 · Antigo Testamento
Salmos — Capítulo 40
Título do capítulo: Do poço à rocha, com ouvidos abertos
Gênero literário: Poesia/Sabedoria (salmo composto: ação de graças individual nos vv. 1-10, seguida de um lamento com súplica nos vv. 11-17; os vv. 6-8 são aplicados a Cristo em Hebreus, e os vv. 13-17 reaparecem quase iguais como o Salmo 70 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))
Número de versículos: 17
Nota de precisão: o estudo segue a numeração tradicional das Bíblias em português, em que a inscrição do salmo não é contada como versículo; no hebraico impresso ela recebe o número 1, e a contagem fica um número à frente do começo ao fim. O salmo não traz selá. Há uma diferença conhecida entre o hebraico do v. 6, que fala de ouvidos que Deus abriu, e a antiga tradução grega, que fala de um corpo preparado; é essa forma que Hebreus cita. O estudo trata dela com cautela na análise e na seção cristocêntrica.
🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural
O Salmo 40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) parece andar ao contrário. A maioria dos salmos de lamento começa na angústia e termina no louvor; este começa no louvor e termina na angústia. Os dez primeiros versículos celebram uma libertação já recebida: o orante esperou, Deus se inclinou, tirou-o de um poço de lama e pôs na sua boca um cântico novo. Os últimos sete versículos voltam ao perigo: males sem número o cercam, as culpas o alcançam, os inimigos zombam, e ele pede socorro com pressa. O salmo termina com um pedido que não admite demora.
Essa forma tem intrigado os estudiosos. Muitos pensam que o salmo resulta da união de duas composições originalmente separadas, e há um argumento forte para isso: os vv. 13-17 aparecem, com pequenas variações, como o Salmo 70 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que é independente. Outros defendem a unidade do salmo e notam as palavras que ligam as duas partes. O orante diz que não reteve os lábios ao anunciar a justiça de Deus (v. 9) e pede que Deus não retenha dele a sua compaixão (v. 11), com o mesmo verbo, kala'. As maravilhas de Deus são numerosas demais para contar (v. 5), e os males que o cercam também são incontáveis (v. 12). Muitos verão o que Deus fez (v. 3), e o orante, agora, já não consegue ver (v. 12). O amor leal e a fidelidade de Deus aparecem nas duas partes (vv. 10, 11). Seja qual for a história da composição, o salmo foi lido como uma unidade, e é como unidade que Hebreus o cita.
Essa unidade tem uma lógica conhecida da experiência dos crentes: a libertação de ontem não garante a ausência de perigo hoje, mas dá base para pedir de novo. O orante se lembra do que Deus fez para ter coragem de pedir que faça outra vez.
A inscrição é curta: ao regente do coro, salmo de Davi. Nenhuma ocasião é indicada. A imagem do poço de lama foi relacionada por alguns intérpretes à cisterna em que Jeremias foi lançado, onde não havia água, só lama, e na qual o profeta afundou (Jr 38.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmo é atribuído a Davi, que viveu muito antes de Jeremias, e não depende desse episódio; mas a cena de Jeremias mostra que a imagem tinha raízes concretas. As cisternas escavadas na rocha, que guardavam a água da chuva, eram comuns em Israel; vazias, tornavam-se prisões ou armadilhas, como a cisterna em que os irmãos jogaram José (Gn 37.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A palavra bor, cisterna, poço, aparece também nos salmos como imagem do mundo dos mortos (Sl 28.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 30.3; 88.4, 6). Sair do poço é escapar da morte.
O salmo está perto do fim do primeiro livro do Saltério (Salmos 1–41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), que se encerra com a bênção do Salmo 41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O Salmo 40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) retoma palavras importantes da abertura do livro: a bem-aventurança de quem confia no Senhor (v. 4), que lembra a do Salmo 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (Sl 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a lei de Deus no interior do orante (v. 8), que lembra o justo que medita na lei dia e noite (Sl 1.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O primeiro livro, que começou com o justo que ama a lei, termina com um orante que a tem dentro de si.
📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo
O orante conta que esperou pelo Senhor com perseverança, e que o Senhor se voltou para ele e ouviu o seu clamor (v. 1). Tirou-o de um poço onde tudo era ruína e barulho, de um atoleiro de lama, firmou os seus pés sobre a pedra e deu segurança aos seus passos (v. 2). Pôs em seus lábios um cântico novo, um louvor ao nosso Deus; muitos verão o que aconteceu, encherão de reverência e confiarão no Senhor (v. 3).
Feliz é quem põe no Senhor a sua confiança e não se volta para os arrogantes nem para os que se desviam atrás da mentira (v. 4). O orante se admira: são muitas as maravilhas que Deus realizou e os planos que tem para o seu povo; ninguém se compara a ele, e, se quisesse anunciá-los todos, seriam mais do que se pode contar (v. 5).
No v. 6 o salmo dá um passo inesperado. Deus não se agradou de sacrifícios nem de ofertas, mas abriu os ouvidos do orante; não pediu holocaustos nem ofertas pelo pecado. Então o orante se apresentou, dizendo que estava ali, e que no rolo do livro estava escrito a respeito dele (v. 7). Ele tem prazer em fazer a vontade do seu Deus, e a lei de Deus está no mais íntimo do seu ser (v. 8).
Ele anunciou a justiça de Deus na grande assembleia, sem fechar os lábios, e Deus sabe disso (v. 9). Não escondeu no coração a justiça divina; falou da fidelidade e da salvação de Deus; não ocultou da grande assembleia o seu amor leal e a sua verdade (v. 10).
No v. 11 o tom muda. O orante pede que Deus não retenha dele a sua compaixão e que o amor leal e a fidelidade divinas o guardem sempre. Porque males sem conta o rodeiam, as suas culpas o alcançaram, e ele já não consegue enxergar; elas são mais numerosas que os cabelos da sua cabeça, e o seu coração desfalece (v. 12).
Seguem-se os pedidos finais. Que o Senhor se agrade de livrá-lo e venha depressa socorrê-lo (v. 13). Que fiquem envergonhados e confusos os que procuram tirar-lhe a vida, e que recuem humilhados os que desejam o seu mal (v. 14). Que fiquem atônitos de vergonha os que zombam dele com interjeições de deboche (v. 15). Que se alegrem em Deus todos os que o buscam, e que os que amam a sua salvação proclamem sempre a grandeza do Senhor (v. 16). E o salmo termina com uma confissão e um pedido: o orante é pobre e necessitado, mas o Senhor pensa nele; Deus é o seu socorro e o seu libertador; que não tarde (v. 17).
🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)
Versículos 1-3 — Do poço de lama à rocha e ao cântico novo
O salmo abre com uma construção enfática: qawwoh qiwwiti, literalmente "esperar, esperei". O hebraico repete o verbo para intensificá-lo, e o sentido é o de uma espera paciente e persistente. O verbo qawah tem uma imagem por trás: a de uma corda esticada, a tensão de quem aguarda. Não é a espera passiva de quem desistiu, mas a de quem continua olhando para a porta. Isaías dirá que quem espera no Senhor recebe forças novas (Is 40.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Lamentações, que vale a pena aguardar quieto o socorro do Senhor (Lm 3.25-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A resposta de Deus vem em dois verbos. Ele se inclinou (wayyet), como alguém que se abaixa para ouvir uma voz fraca ou para alcançar alguém no fundo de um buraco; e ouviu (wayyishma') o clamor. O orante não descreve quanto tempo esperou, mas a construção do primeiro verso sugere que foi longo.
O v. 2 descreve a libertação. O lugar de onde o orante foi tirado é um bor sha'on. O bor é a cisterna ou o poço; sha'on designa o estrondo, o tumulto das águas, e também a devastação. Pode-se entender um poço de águas que rugem ou um poço de ruína. O segundo termo é tit hayyawen, o lodo do lamaçal, a lama funda que prende os pés. O Salmo 69 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) usa a mesma imagem para o orante que afunda num lodo sem chão firme (Sl 69.2, 14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É a imagem de quem não consegue sair sozinho: quanto mais se mexe, mais afunda.
E Deus inverte tudo. Tira o orante do poço, coloca os seus pés sobre uma rocha (sela'), e firma (konen) os seus passos ('ashurai). Da lama à pedra, do movimento inútil ao caminho seguro. A rocha é uma das imagens mais frequentes de Deus nos salmos (Sl 18.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 31.2-3; 62.2): o que o orante pisa, no fim das contas, é a fidelidade de Deus.
O v. 3 traz o fruto da libertação: Deus deu ao orante um shir ḥadash, um cântico novo, um louvor ao nosso Deus. O cântico não nasce do orante; é posto na sua boca. A expressão cântico novo aparece em vários salmos (Sl 33.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 96.1; 98.1; 144.9; 149.1) e em Isaías (Is 42.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), sempre ligada a uma nova ação de Deus que exige um novo louvor. E a libertação não fica privada: yir'u rabbim weyira'u, muitos verão e temerão. O hebraico faz um jogo de sons entre os dois verbos, ver e temer, que soam quase iguais. Quem vê o que Deus fez se enche de reverência e passa a confiar nele. A experiência de um se torna testemunho para muitos.
Versículos 4-5 — A felicidade de quem confia e as maravilhas sem conta
O v. 4 é uma bem-aventurança: 'ashrê haggever, feliz o homem. A palavra gever designa o homem na sua força, o adulto vigoroso. A felicidade não está na força, mas na confiança posta no Senhor (mivṭaḥo). Em contraste, o salmo menciona dois grupos a quem o feliz não se volta: os rehavim, os arrogantes, os que se impõem com soberba, e os satê khazav, os que se desviam para a mentira. Muitos estudiosos entendem esta última expressão como uma referência aos falsos deuses ou aos falsos apoios, aos que trocam o Deus verdadeiro por ilusões. A palavra rahav também é o nome de um monstro do caos e um apelido poético do Egito (Is 30.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 89.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas aqui o sentido mais provável é simplesmente o de pessoas orgulhosas.
O v. 5 passa da experiência pessoal para a história do povo. O orante fala das nifle'ot, as maravilhas, palavra que designa os atos extraordinários de Deus, especialmente os do êxodo (Êx 3.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 78.4, 11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e das maḥashavot, os pensamentos, os planos que Deus tem 'elenu, em nosso favor. A primeira pessoa do plural é significativa: a libertação de um faz parte da história de todos. Ninguém se compara a Deus ('ein 'arokh 'elekha; o verbo pode significar comparar ou também pôr em ordem, enumerar diante de alguém). E, se o orante quisesse anunciar e contar essas obras, elas seriam mais numerosas do que é possível relatar. O Salmo 139 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) terá a mesma admiração diante dos pensamentos de Deus, mais numerosos que a areia (Sl 139.17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Versículos 6-8 — Ouvidos abertos e a lei no coração
Esta é a passagem mais estudada do salmo, e uma das mais importantes do Saltério para a fé cristã. O orante, depois de agradecer, pergunta-se implicitamente como responder ao que Deus fez. A resposta comum seria um sacrifício de gratidão no templo, como prescrevia a Lei (Lv 7.11-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas o salmo diz algo surpreendente.
O v. 6 enumera quatro tipos de oferta: o zevaḥ, o sacrifício de comunhão, em que parte do animal era comida pelo ofertante; a minḥah, a oferta de cereais; a 'olah, o holocausto, inteiramente queimado; e a ḥata'ah, a oferta pelo pecado. Juntos, os quatro termos cobrem praticamente todo o sistema sacrificial. E o salmo afirma que Deus não teve prazer (lo' ḥafatsta) neles e não os pediu (lo' sha'alta).
No meio do versículo, entre as duas listas de sacrifícios, está a frase central: 'oznayim karita li. Literalmente, ouvidos cavaste para mim. O verbo karah significa cavar, escavar, como quem abre um poço. A imagem é a de Deus abrindo passagem nos ouvidos do orante para que ele possa ouvir de verdade. O sentido é claro no contexto bíblico: ouvir, em hebraico, inclui obedecer. O que Deus quer não é o animal no altar, mas o ouvido aberto à sua palavra. O Servo do Senhor, em Isaías, dirá que, dia após dia, o Senhor o despertava para escutar como aprendiz, e que ele não resistiu nem voltou atrás (Is 50.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Alguns intérpretes lembram também o rito do servo que, por amor, decidia permanecer para sempre com o seu senhor e tinha a orelha furada junto à porta (Êx 21.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); a ligação é sugestiva, mas o verbo e o gesto são diferentes, e por isso a leitura deve ser feita com cautela.
É preciso entender bem o que o salmo diz sobre os sacrifícios. Ele não declara que a Lei estava errada, nem que os sacrifícios eram inúteis. Está na linha dos profetas e dos salmos que denunciavam o culto sem obediência. Samuel disse a Saul que obedecer e prestar atenção à voz de Deus vale mais do que os melhores sacrifícios (1Sm 15.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Oseias falou do amor leal que Deus prefere aos sacrifícios (Os 6.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), também atribuído a Davi, dirá que o que Deus aceita não é o animal queimado, mas a pessoa que se reconhece despedaçada diante dele (Sl 51.16-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) mostrará Deus recusando a ideia de que precisa da carne dos animais (Sl 50.8-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O sacrifício sem obediência é vazio; a obediência é o que dá sentido a todo o culto.
O v. 7 começa com 'az, então: no momento em que os ouvidos foram abertos, o orante respondeu. A sua resposta é a expressão hinneh-va'ti, a fórmula de quem se apresenta, como um servo que se põe à disposição. O orante não traz um animal; traz a si mesmo. E acrescenta que bimgillat-sefer, no rolo do livro, katuv 'alai, está escrito a seu respeito ou prescrito para ele. O sentido é discutido. Pode ser a Lei, que contém a vontade de Deus para o orante. Se o salmo é de um rei davídico, há uma possibilidade atraente: Deuteronômio determinava que o rei de Israel fizesse para si uma cópia da Lei e a lesse todos os dias (Dt 17.18-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O rei se apresentaria, então, com o livro que lhe prescreve o caminho. Outros pensam num registro escrito do voto de gratidão do orante. A primeira leitura é a mais provável.
O v. 8 completa o pensamento com um paralelismo sinônimo. Fazer a vontade (retson) de Deus é o prazer do orante (ḥafatsti), e a lei de Deus está betokh me'ai, no meio das suas entranhas, no mais íntimo do seu ser. O jogo de palavras é deliberado: Deus não tem prazer (ḥafatsta, v. 6) em sacrifícios, e o orante tem prazer (ḥafatsti, v. 8) em fazer a vontade de Deus. O que agrada a Deus é o que passa a agradar ao orante. E a lei interiorizada lembra a promessa da nova aliança, em que Deus escreveria a sua lei no coração do seu povo (Jr 31.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a ordem de Deuteronômio de guardar as palavras de Deus no coração (Dt 6.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O justo do Salmo 37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) também tinha a lei de Deus no coração, e por isso os seus passos não vacilavam (Sl 37.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Versículos 9-10 — A boa notícia anunciada na grande assembleia
Depois de oferecer a si mesmo, o orante oferece a sua palavra. O v. 9 diz que ele bissarti, anunciou como boa notícia, a justiça (tsedeq) na grande assembleia (qahal rav). O verbo basar é o verbo da boa notícia, o mesmo que Isaías usa para o mensageiro que anuncia a paz e a salvação sobre os montes (Is 52.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que a antiga tradução grega verteu com a família de palavras de que vem evangelho. O orante não guardou para si o que Deus fez: não fechou os lábios, e Deus é testemunha disso.
O v. 10 repete a ideia com quatro palavras centrais da aliança: a justiça (tsedaqah), a fidelidade ('emunah), a salvação (teshu'ah), o amor leal (ḥesed) e a verdade ('emet). O orante não escondeu nada disso no coração. A gratidão verdadeira não é muda; torna-se testemunho público no meio do povo de Deus. O Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) terminava da mesma forma, com o orante libertado contando o nome de Deus aos irmãos no meio da assembleia (Sl 22.22, 25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Versículos 11-12 — Cercado de novo
O v. 11 é a ponte entre as duas partes do salmo. O orante pede que Deus não retenha (lo' tikhla') dele a sua compaixão (raḥamim). O verbo é o mesmo do v. 9, em que ele disse que não reteve os lábios. Há uma reciprocidade: eu não retive o testemunho do teu amor, não retenhas de mim esse amor. E pede que o amor leal e a verdade de Deus, que ele anunciou (v. 10), o guardem continuamente.
O v. 12 explica a urgência. Males (ra'ot) sem número o cercam. As suas iniquidades ('awonot) o alcançaram, como inimigos que perseguem e apanham a presa, e ele não consegue ver, talvez porque os olhos se escureceram, talvez porque a culpa o impede de enxergar uma saída. Elas são mais numerosas que os cabelos da sua cabeça, e o seu coração o abandonou. O Salmo 69 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) usa a mesma comparação dos cabelos para os que odeiam o orante sem razão (Sl 69.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A estrofe é desconcertante depois dos vv. 6-10. O mesmo orante que tinha a lei no coração reconhece agora que as suas culpas são incontáveis. A contradição é só aparente: a obediência sincera não elimina a consciência do pecado; ao contrário, a aguça. Quanto mais alguém deseja fazer a vontade de Deus, mais percebe o quanto falha. E há um contraste deliberado com o v. 5: as maravilhas de Deus eram numerosas demais para contar; agora são os males e as culpas que ultrapassam a conta. O orante vive entre duas multidões.
Versículos 13-17 — O clamor que se tornou o Salmo 70 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)
A última estrofe reaparece no Saltério como o Salmo 70 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), com pequenas diferenças: em alguns versos o Salmo 70 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) usa a palavra Deus onde o Salmo 40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) usa o nome do Senhor, o que é característico da coleção a que ele pertence, e o fim muda de tom, como se verá. A repetição mostra que esses versos eram usados como uma oração independente, um clamor curto para os momentos de perigo, que podia ser recitado sozinho ou ligado a outro salmo.
O v. 13 abre com retseh, agrada-te, que faz eco à vontade (ratson) de Deus no v. 8: o orante que tem prazer em fazer a vontade de Deus pede que seja da vontade de Deus livrá-lo. E pede pressa: ḥushah, apressa-te, como no fim do Salmo 38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (Sl 38.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Os vv. 14-15 voltam-se contra os inimigos. Que sejam envergonhados e confundidos, que recuem e sejam humilhados os que procuram tirar-lhe a vida e desejam o seu mal. A linguagem lembra o Salmo 35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (Sl 35.4, 26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O pedido não é de vingança pessoal, mas de que os planos dos ímpios fracassem e se voltem contra eles mesmos: a vergonha que queriam impor ao orante deve cair sobre eles. No v. 15, os inimigos são descritos pelo que dizem: he'aḥ he'aḥ, uma interjeição de escárnio, o riso de quem se diverte com a desgraça alheia (Sl 35.21, 25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ez 25.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 16 traz o contraponto. Que se alegrem e exultem em Deus todos os que o buscam, e que os que amam a sua salvação digam sempre que o Senhor é grande. O orante, mesmo cercado, pensa na comunidade dos fiéis. A sua libertação será motivo de alegria para todos os que buscam a Deus, como no v. 3.
O v. 17 fecha o salmo com uma confissão de pobreza: wa'ani 'ani we'evyon, eu sou pobre e necessitado. As duas palavras descrevem, nos salmos, quem não tem recursos nem defesa, e que só pode contar com Deus (Sl 86.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 109.22). Mas logo vem a certeza: 'Adonai yaḥashov li, o Senhor pensa em mim. O verbo é da mesma raiz dos planos (maḥashavot) do v. 5: os pensamentos de Deus, incontáveis, incluem o pobre que ora. No Salmo 70 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o fim é diferente: em vez dessa confissão de confiança, há um novo pedido de pressa (Sl 70.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aqui, o Senhor é chamado de socorro ('ezrah) e libertador (mefalleṭ), e a última palavra é um pedido: 'al-te'aḥar, não tardes, meu Deus. O salmo que começou com uma espera paciente termina pedindo que a espera não seja longa.
✨ 4. Versículos-Chave
Sl 40.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A libertação do poço de lama e a firmeza sobre a rocha são uma das imagens mais vivas da salvação em toda a Bíblia. Ela descreve alguém incapaz de sair sozinho e um Deus que se inclina para tirá-lo. A imagem do poço, ligada ao mundo dos mortos em outros salmos, ganha na fé cristã a dimensão da ressurreição: o Pai não deixou o Filho no poço da morte (At 2.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e os que estão nele são tirados da lama do pecado e postos sobre a rocha que é Cristo (Mt 7.24-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Co 10.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Sl 40.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O cântico novo é dom de Deus, e o testemunho do libertado leva muitos à reverência e à confiança. O Apocalipse mostra os redimidos entoando diante do trono um cântico novo, celebrando o Cordeiro imolado, cujo sangue adquiriu para Deus um povo vindo de todas as nações (Ap 5.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 14.3). O cântico novo do salmo é uma antecipação do louvor dos redimidos.
Sl 40.6-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus prefere ouvidos abertos e um coração que se deleita na sua vontade a sacrifícios oferecidos sem obediência. Hebreus põe esses versículos na boca de Cristo ao entrar no mundo e conclui que, pela vontade de Deus cumprida por ele, os crentes foram santificados pela entrega do seu corpo, num ato que não precisa repetir-se (Hb 10.5-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É um dos textos centrais do Novo Testamento para entender o fim dos sacrifícios antigos e o valor da obediência de Cristo.
Sl 40.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A confissão de que o orante é pobre e necessitado, mas que o Senhor pensa nele, é a última palavra de confiança do salmo. O Deus das maravilhas incontáveis não esquece o pobre que ora. Paulo dirá que Cristo abriu mão da sua riqueza e assumiu a pobreza por nossa causa, para que dela nos viesse a verdadeira riqueza (2Co 8.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
⛪ 5. Temas Teológicos Centrais
A espera paciente e a fidelidade de Deus. O salmo começa com uma espera longa e termina pedindo que Deus não tarde. Entre as duas coisas está toda a vida de fé: a lembrança das libertações passadas sustenta a oração diante dos perigos presentes. A Bíblia inteira ensina a esperar no Senhor (Sl 27.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 40.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lm 3.25-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o Novo Testamento chama essa espera de perseverança, a paciência de quem confia que Deus cumprirá o que prometeu (Rm 8.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Tg 5.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A obediência acima do ritual. O centro do salmo afirma que Deus não quer sacrifícios sem obediência, mas ouvidos abertos e um coração que se deleita na sua vontade. Esse é um tema profético constante (1Sm 15.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 1.11-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Os 6.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mq 6.6-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Novo Testamento leva o tema adiante de duas maneiras: Cristo é aquele que obedeceu perfeitamente, e a sua obediência tornou-se o sacrifício definitivo; e os crentes entregam a Deus não animais, mas a própria vida concreta, o corpo inclusive, como a oferta que lhe agrada (Rm 12.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A lei escrita no coração. O orante tem a lei de Deus no mais íntimo de si (v. 8). É a promessa da nova aliança (Jr 31.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ez 36.26-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), que Hebreus cita logo depois de comentar o Salmo 40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (Hb 10.15-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A obediência que Deus deseja não é uma conformidade exterior, mas uma transformação interior, e essa transformação é obra do Espírito nos que estão em Cristo.
O testemunho público da salvação. O orante anuncia a justiça de Deus na grande assembleia e não fecha os lábios (vv. 9-10). A salvação recebida não fica privada; transforma-se em boa notícia para os outros (v. 3). É a vocação de todo o povo de Deus: tornar conhecidos os atos poderosos do Deus que o fez passar da escuridão para a claridade dele (1Pe 2.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo
6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?
O Salmo 40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) pertence à Redenção em andamento e olha para o seu ponto culminante. O orante vive sob a Lei de Moisés, com o seu sistema de sacrifícios, mas percebe que o que Deus deseja vai além do altar: ouvidos abertos, uma vontade rendida, a lei no coração. O salmo pressupõe a Queda, porque há poço, lama, males sem número e culpas mais numerosas que os cabelos. E aponta para a Redenção consumada, quando aquele que se apresentou para fazer a vontade de Deus ofereceu o próprio corpo de uma vez por todas, pondo fim aos sacrifícios antigos. A Nova Criação aparece no horizonte do cântico novo, que os redimidos de todas as nações cantarão ao Cordeiro (Ap 5.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
6.2 — Hebreus 10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): o salmo na boca de Cristo
O uso mais explícito do Salmo 40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) no Novo Testamento está em Hb 10.5-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e ele é decisivo para a leitura cristã do salmo. O autor de Hebreus vinha mostrando que os sacrifícios da antiga aliança, repetidos ano após ano, não podiam aperfeiçoar os adoradores nem remover pecados, porque o sangue de animais não tem esse poder (Hb 10.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em seguida, introduz o salmo de modo surpreendente: diz que são palavras de Cristo ao entrar no mundo. O momento da encarnação é apresentado como o momento em que o Filho fala ao Pai com as palavras dos vv. 6-8.
Hebreus cita o salmo na forma da antiga tradução grega, e aqui aparece a diferença já mencionada. Onde o hebraico diz que Deus abriu, ou cavou, os ouvidos do orante, a maior parte dos manuscritos gregos conhecidos fala de um corpo que Deus aparelhou para ele. Os estudiosos discutem como surgiu essa diferença. Alguns pensam numa tradução interpretativa: o tradutor teria entendido os ouvidos como uma parte que representa o todo, isto é, a pessoa inteira posta à disposição de Deus. Outros pensam num acidente de cópia, porque, nos manuscritos antigos, escritos em letras maiúsculas e sem separação entre as palavras, as formas gregas de ouvidos e de corpo, ligadas ao verbo anterior, podiam ser confundidas. Há também manuscritos gregos que trazem ouvidos, e algumas edições modernas da antiga tradução grega preferem essa forma como a original. A questão não tem solução segura, e não é preciso resolvê-la para entender o argumento.
O que importa é que as duas formas convergem. Os ouvidos abertos significam a obediência; o corpo preparado é o instrumento dessa obediência. Um ouvido que ouve sem um corpo que obedece não basta; um corpo oferecido sem um ouvido que escuta também não. Em Cristo, as duas coisas se unem: ele ouviu perfeitamente a vontade do Pai e a cumpriu no corpo que recebeu na encarnação. Hebreus explora justamente a palavra corpo: o Filho recebeu um corpo para poder oferecê-lo.
O argumento do autor segue em três passos. Primeiro, observa que o salmo nomeia os sacrifícios previstos pela Lei e declara que Deus não se agradou deles (Hb 10.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Segundo, nota que logo depois vem a disposição de fazer a vontade de Deus, e conclui que o primeiro regime sai de cena para dar lugar ao segundo (Hb 10.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): os sacrifícios dão lugar à obediência. Terceiro, afirma que é por essa vontade, cumprida por Cristo, que os crentes foram santificados, mediante a entrega do corpo de Jesus Cristo, num único ato que não se repete (Hb 10.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O raciocínio é profundo. O salmo dizia que Deus preferia a obediência aos sacrifícios. Hebreus mostra que, em Cristo, a obediência perfeita se tornou o sacrifício perfeito. Jesus não ofereceu um animal no lugar de si mesmo, nem ofereceu a si mesmo no lugar da obediência: ofereceu-se em obediência. A vontade que ele veio fazer era a de entregar o próprio corpo. Por isso Hebreus pode dizer, pouco depois, que a sua oferta, uma só, levou à plenitude, de modo permanente, os que ele vai santificando (Hb 10.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e que, concedido o perdão, nenhuma outra oferta pelo pecado é necessária (Hb 10.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
6.3 — O rolo do livro e a vontade do Pai
O v. 7 fala do que está escrito no rolo do livro a respeito do orante. No sentido original, a referência mais provável é a Lei que prescreve o caminho do rei e do justo. Hebreus lê a frase em sentido mais amplo: as Escrituras inteiras falam de Cristo. É a mesma convicção de Jesus, que, a caminho de Emaús, percorreu com os discípulos a Lei e os Profetas, mostrando-lhes o que neles se referia a ele (Lc 24.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e que disse aos que o contestavam que as Escrituras apontavam para ele (Jo 5.39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 8 encontra na vida de Jesus o seu cumprimento mais pleno. Ele comparou a obediência ao Pai, que o enviara, com o alimento que o sustentava, e disse que vivia para levar a termo a obra dele (Jo 4.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Afirmou que viera do céu para cumprir o querer do Pai, e não um projeto próprio (Jo 6.38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E no Getsêmani, diante do cálice, rendeu a própria vontade à do Pai (Mt 26.39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 22.42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A lei de Deus no mais íntimo do ser, que no salmo é o ideal do justo, foi em Jesus uma realidade completa. Ele foi o primeiro ser humano a ter a lei inteiramente no coração, e por isso pôde inaugurar a nova aliança, em que Deus a escreve no coração do seu povo (Hb 10.15-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
6.4 — Do poço à rocha: a ressurreição e o cântico novo
Hebreus cita apenas os vv. 6-8, e é preciso respeitar essa medida: o Novo Testamento não aplica todo o Salmo 40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) a Cristo. Mas, uma vez que o centro do salmo foi posto na boca de Cristo, é natural que a leitura cristã veja também o resto do salmo à luz dele, distinguindo o que é aplicação direta do que é analogia.
A libertação do poço (vv. 1-3) pode ser lida, por analogia, à luz da ressurreição. Jesus esperou no Pai até o fim. Hebreus diz que, nos dias da sua vida terrena, ele dirigiu ao Pai, que tinha poder para livrá-lo da morte, súplicas em alta voz e com choro, e que a sua reverência lhe valeu ser atendido (Hb 5.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele desceu ao poço da morte, e o Pai o tirou de lá, porque a morte não tinha força para segurá-lo (At 2.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O cântico novo que se segue à libertação é o louvor da Igreja ressuscitada com ele, e os muitos que veem e passam a confiar no Senhor (v. 3) são as multidões que creram a partir do testemunho da ressurreição.
A proclamação na grande assembleia (vv. 9-10) também ganha sentido cristológico. Hebreus aplica a Cristo as palavras do Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em que o orante libertado anuncia o nome de Deus aos irmãos no meio da assembleia (Hb 2.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Cristo ressuscitado é aquele que anuncia a justiça de Deus ao seu povo reunido.
E os vv. 11-12, em que o orante fala das suas culpas incontáveis? Aqui é preciso cuidado. Cristo não tinha pecado (Hb 4.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 7.26). Agostinho, nos seus comentários, propôs que Cristo fala nesses versos em nome do seu corpo, a Igreja, ou assumindo como suas as culpas que carregava pelos outros, conforme o Servo de Isaías, sobre quem foram postas as culpas de todos (Is 53.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Essa leitura tem fundamento na ideia de que Deus tratou o Filho sem pecado como portador do pecado (2Co 5.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas não deve ser imposta ao salmo como se o Novo Testamento a ensinasse diretamente. O mais seguro é reconhecer que os vv. 11-17 são a oração de um pecador que confia em Deus, e que Cristo, o justo, se fez pobre e necessitado (v. 17) para que essa oração fosse respondida. A zombaria dos que dizem a interjeição de deboche (v. 15) lembra os que passavam diante da cruz balançando a cabeça e insultando Jesus (Mc 15.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); e o pobre e necessitado que conta com o Senhor (v. 17) lembra aquele que trocou a riqueza pela pobreza por amor dos seus (2Co 8.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
6.5 — O Evangelho no capítulo
O Salmo 40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) prega o evangelho em duas direções. Primeiro, mostra a impotência humana: o orante está num poço de lama e não consegue sair. As suas culpas o alcançaram e são mais que os cabelos. Nenhum sacrifício que ele pudesse oferecer resolveria a situação; o salmo mesmo diz que Deus não os quer. Segundo, mostra a iniciativa de Deus: ele se inclina, tira do poço, firma os pés na rocha, abre os ouvidos e escreve a sua lei no coração.
Hebreus revela como isso acontece. O sacrifício que resolve a culpa não é um animal, nem a obediência imperfeita do orante, mas a obediência perfeita de Cristo, que se apresentou ao Pai para fazer a sua vontade e ofereceu o próprio corpo uma vez por todas. Pregar este salmo cristocentricamente é convidar o ouvinte a deixar de tentar sair do poço com as próprias forças, ou de oferecer a Deus as próprias obras como se pudessem pagar a dívida, e a confiar naquele que já fez a oferta definitiva. Quem está em Cristo foi tirado da lama e posto sobre a rocha, e a resposta que lhe cabe é a do salmo: ouvidos abertos, prazer na vontade de Deus, e um cântico novo que leve outros a confiar no Senhor.
🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)
- Hb 10.1-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a citação dos vv. 6-8 na boca de Cristo ao entrar no mundo, e o fim dos sacrifícios pela oferta única do seu corpo.
- Sl 70.1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a repetição quase literal dos vv. 13-17 como oração independente.
- 1Sm 15.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 50.8-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 51.16-17; Os 6.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mq 6.6-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a obediência e a misericórdia acima do sacrifício.
- Is 50.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o Servo cujo ouvido o Senhor abre a cada manhã.
- Jr 31.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ez 36.26-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a lei escrita no coração e o Espírito que faz andar nos caminhos de Deus.
- Jo 4.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 6.38; Lc 22.42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus, para quem cumprir o querer do Pai era sustento, até o Getsêmani.
- Jr 38.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 69.1-2, 14-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a cisterna de lama e o orante que afunda no lodo.
- Sl 33.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 96.1; Is 42.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 5.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 14.3 — o cântico novo, da criação à redenção.
- Sl 22.22-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 2.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a proclamação de Deus na grande assembleia.
- 2Co 8.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Cristo que se fez pobre para enriquecer os seus.
- Na história da Igreja, os vv. 6-8 foram lidos desde os primeiros séculos como palavras do Filho na encarnação, e na liturgia romana o salmo e a passagem de Hebreus que o cita são lidos na festa da Anunciação, que celebra o anúncio da encarnação.
🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico
Aprenda a esperar sem desistir. A cultura atual não sabe esperar; tudo deve ser imediato. O Salmo 40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) começa com uma espera longa e paciente, e só depois vem a libertação. Esperar no Senhor não é ficar parado, mas continuar clamando e confiando enquanto a resposta não chega. Cristo, que esperou no Pai até a cruz e foi ouvido, é a garantia de que a espera do crente não é vã.
Não tente sair do poço sozinho. Muitas pessoas vivem presas num atoleiro de culpa, vício, tristeza ou medo, e quanto mais lutam com as próprias forças, mais afundam. O salmo descreve um Deus que se inclina e tira do poço. A resposta do evangelho não é um método de autoajuda, mas uma pessoa: Cristo, que desceu ao poço da morte para tirar os que estavam lá. Pedir ajuda a ele, e aceitar a ajuda das pessoas que ele põe no caminho, é o primeiro passo.
Ofereça a si mesmo, não só as coisas. É fácil transformar a fé em uma série de ofertas: frequentar o culto, contribuir, cumprir obrigações religiosas. Tudo isso tem valor, mas o salmo lembra que Deus quer ouvidos abertos e um coração que se alegra na sua vontade. Paulo pede que os cristãos entreguem a Deus o próprio corpo, a vida inteira, como oferta viva (Rm 12.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Isso só é possível porque Cristo ofereceu primeiro o seu corpo por nós.
Não feche os lábios. O orante anunciou na assembleia o que Deus fez por ele. Muitos crentes guardam a fé como um assunto privado. O Salmo 40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ensina que a salvação recebida se torna testemunho, e que o testemunho leva outros a confiar no Senhor (v. 3). Contar o que Deus fez, com simplicidade e verdade, é parte do cântico novo.
Leve a história passada para a oração presente. O salmo mostra que a libertação de ontem não impede o perigo de hoje, mas sustenta a oração. Quando novas angústias chegarem, lembre-se das vezes em que Deus o tirou do poço. O Deus que o fez antes é o mesmo que o fará de novo, porque em Cristo ele se comprometeu definitivamente com os seus.
🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo
- O salmo começa com louvor e termina em lamento, ao contrário da maioria dos salmos. O que essa ordem ensina sobre a vida de fé? Você reconhece essa experiência na sua história?
- O v. 2 descreve um poço de lama de onde o orante não consegue sair sozinho. Que poços você conhece, na sua vida ou na de pessoas próximas? Como o evangelho responde a essas situações?
- Por que Deus prefere ouvidos abertos a sacrifícios (v. 6)? Isso significa que o culto exterior não importa? Como os profetas e o próprio salmo equilibram essas coisas?
- Leia Hb 10.5-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ao lado de Sl 40.6-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Como o autor de Hebreus mostra que, em Cristo, a obediência e o sacrifício se tornaram uma coisa só?
- O orante que tinha a lei no coração (v. 8) reconhece que as suas culpas são incontáveis (v. 12). Como essas duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo na vida do crente?
- Para meditação e oração: agradeça a Cristo, que se apresentou ao Pai para fazer a sua vontade e ofereceu o próprio corpo por você. Peça que ele abra os seus ouvidos e ponha no seu coração o prazer de fazer a vontade de Deus, e um cântico novo nos seus lábios.
📚 10. Para Aprofundamento
Cristocêntrica / Teologia Bíblica:
- G. K. Beale e D. A. Carson (orgs.) — Commentary on the New Testament Use of the Old Testament (Baker Academic, 2007), especialmente o capítulo sobre Hebreus
- Christopher J. H. Wright — Conhecendo Jesus através do Antigo Testamento (Ultimato) / Knowing Jesus Through the Old Testament (IVP, 1992)
- Dietrich Bonhoeffer — Psalms: The Prayer Book of the Bible (Augsburg, 1970)
Comentários dos Salmos:
- Derek Kidner — Salmos 1–72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
- Peter C. Craigie — Psalms 1–50 (Word Biblical Commentary, 1983; 2ª ed. 2004)
- Nancy deClaissé-Walford, Rolf A. Jacobson e Beth LaNeel Tanner — The Book of Psalms (NICOT, Eerdmans, 2014)
- John Goldingay — Psalms, Volume 1: Psalms 1–41 (Baker Commentary on the Old Testament Wisdom and Psalms, Baker Academic, 2006)
Comentários de Hebreus:
- F. F. Bruce — The Epistle to the Hebrews (NICNT, Eerdmans, ed. revista 1990)
- William L. Lane — Hebrews 9–13 (Word Biblical Commentary, 1991)
Sabedoria para o Cotidiano
O Salmo 40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) começa com uma espera longa e termina pedindo pressa, e no meio está o segredo: Deus não quer apenas as suas ofertas, quer os seus ouvidos abertos e um coração que se alegra na vontade dele. Quando você estiver no poço, não se debata sozinho; clame e espere no Deus que se inclina. E, quando ele o tirar de lá, não feche os lábios: conte o que ele fez. Cristo se apresentou ao Pai para fazer a sua vontade e ofereceu o próprio corpo de uma vez por todas; por isso os seus pés podem estar firmes na rocha, mesmo quando novos males chegarem.
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