Salmos · 19 de 66 · Antigo Testamento
Salmos — Capítulo 93
Título do capítulo: O trono acima do bramido das águas
Gênero literário: Poesia/Salmo (hino da realeza do Senhor: a aclamação do Rei vestido de majestade, firme acima das águas que se levantam, e a confissão da fidelidade dos seus testemunhos e da santidade da sua casa; abre o grupo dos salmos do Senhor que reina, 93–99)
Número de versículos: 5
Nota de precisão: o Salmo 93 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não tem inscrição no texto hebraico, de modo que a numeração dos versículos é a mesma no hebraico impresso e nas Bíblias em português. Na antiga tradução grega, que junta os Salmos 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 10, ele é o salmo noventa e dois, e ali recebe um título que não está no hebraico, ligando-o ao dia anterior ao sábado e atribuindo-o a Davi. O v. 4 tem uma construção difícil, e o v. 3 traz uma palavra que só aparece aqui em toda a Bíblia; as duas questões são tratadas no lugar próprio.
🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural
O Salmo 93 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é um dos poemas mais curtos e concentrados do Saltério. Em cinco versículos, afirma que o Senhor é rei, que o seu trono é mais antigo que o mundo, que as águas do caos se levantaram e não prevaleceram, e que a palavra e a casa desse Rei são dignas de confiança e de reverência para sempre. Não há pedido, não há queixa, não há inimigo humano nomeado. Há apenas o Rei, as águas e o povo que o confessa.
O lugar do salmo no livro ajuda a ler o seu peso. O Saltério foi organizado em cinco livros, e o quarto deles (Sl 90–106 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) começa com a única oração atribuída a Moisés (Sl 90 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Logo antes, o terceiro livro termina com o Salmo 89 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que celebra a aliança com Davi e depois pergunta, com dor, onde estão as misericórdias prometidas ao rei, agora que a coroa foi lançada por terra (Sl 89.38-51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Gerald H. Wilson, num estudo muito influente sobre a organização do Saltério, propôs que o quarto livro responde a essa crise: se o trono de Davi caiu, o trono do Senhor continua de pé. Nem todos aceitam todos os detalhes da proposta, mas a sequência é eloquente: depois da monarquia perdida, Moisés, o homem de antes dos reis, e em seguida os salmos que proclamam a realeza do próprio Deus.
Esses salmos formam um grupo reconhecido desde há muito. Os Salmos 93 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), 95, 96, 97, 98 e 99 giram em torno da aclamação de que o Senhor reina, e o Salmo 94 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), intercalado entre eles, pede ao Juiz da terra que se levante, o que combina com o tema. A expressão hebraica que abre o Salmo 93 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), YHWH malakh, reaparece no começo dos Salmos 97 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 99 e no centro do 96 (Sl 96.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os estudiosos chamam esse conjunto de salmos da realeza do Senhor, ou salmos de entronização.
O segundo nome vem de uma hipótese célebre. No começo do século XX, o norueguês Sigmund Mowinckel propôs que Israel celebrava, na festa do outono, uma cerimônia em que o Senhor era aclamado rei de novo, à semelhança das festas de ano-novo de outros povos do antigo Oriente Próximo, que celebravam a vitória do deus sobre o caos e a sua subida ao trono. A hipótese iluminou o caráter litúrgico desses salmos e a sua ligação com a criação, mas precisa ser tratada com cautela: o Antigo Testamento não descreve nenhuma festa de entronização do Senhor, e a ideia de um Deus que todo ano volta a ser rei é estranha a uma fé para a qual o trono do Senhor é eterno, como o próprio v. 2 afirma. Outros estudiosos preferiram ler esses salmos com tom profético e escatológico, próximos do anúncio de que o Deus de Sião reina (Is 52.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O mais prudente é dizer que eles foram cantados no culto do templo e celebram uma realeza ao mesmo tempo eterna e manifestada em atos, cujo horizonte se estende até o dia em que toda a terra a reconhecerá.
A tradição judaica guardou um uso litúrgico preciso. Segundo a Mishná, no tratado que descreve o serviço diário do templo, os levitas cantavam um salmo próprio para cada dia da semana, e o do sexto dia era o Salmo 93 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). A explicação rabínica é que, no sexto dia, Deus terminou a criação e passou a reinar sobre ela, e o título grego do salmo vai na mesma direção. Até hoje, na liturgia da sinagoga, o Salmo 93 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é recitado na sexta-feira e no acolhimento do sábado, logo depois do Salmo 92 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que é o salmo do sábado.
O pano de fundo das imagens também importa. Nos textos encontrados em Ugarit, na costa da Síria, escritos alguns séculos antes da monarquia israelita, o deus Baal enfrenta o Mar, chamado também de Rio, e o vence; depois disso recebe um palácio e é aclamado rei. O par mar e rios, a voz das águas, a vitória e o trono, o palácio construído: os elementos são parecidos com os do Salmo 93 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O salmo provavelmente conhece essa linguagem e a usa com intenção polêmica: em Israel, as águas não são um deus rival, e o Senhor não precisou conquistar o trono, que é dele desde sempre. As águas apenas fazem barulho; o Rei já estava sentado antes de elas se levantarem.
📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo
O salmo abre com a aclamação de que o Senhor reina. Ele aparece vestido de majestade, como um rei com o manto real, e cingido de força, como um guerreiro com o cinto apertado. E porque ele reina, o mundo está firmado e não será abalado (v. 1).
O v. 2 volta-se para o próprio Rei e fala-lhe diretamente: o seu trono está estabelecido desde a antiguidade, e ele mesmo existe desde a eternidade. A estabilidade do mundo repousa sobre algo mais antigo que o mundo.
Os vv. 3-4 introduzem a ameaça. As correntes se erguem, e o salmista volta três vezes ao mesmo verbo, somando a cada vez o som e o embate das ondas, como vagas que chegam uma após outra (v. 3). Mas, acima do estrondo das muitas águas e das ondas que arrebentam no mar, o Senhor nas alturas é mais poderoso (v. 4).
O último versículo muda de assunto, aparentemente, e fala dos testemunhos do Senhor, que são inteiramente dignos de confiança, e da santidade que convém à sua casa por toda a extensão dos dias (v. 5).
🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)
Versículos 1-2 — O Rei vestido de majestade
O salmo começa sem preparação, com as duas palavras YHWH malakh. A tradução é discutida. O verbo está numa forma que, em hebraico, pode indicar um estado (o Senhor é rei, o Senhor reina) ou um acontecimento (o Senhor tornou-se rei, assumiu o reinado). Quando outros reis são aclamados no Antigo Testamento, a fórmula aparece com a ordem inversa, o verbo antes do nome, e marca o momento da subida ao trono (2Sm 15.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Rs 9.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aqui o nome vem primeiro, o que põe a ênfase no sujeito: é o Senhor, e nenhum outro, que reina. A maior parte dos intérpretes hoje entende que o salmo celebra uma realeza permanente, que se manifesta em atos e é reconhecida de novo no culto: o povo, ao cantar, proclama o que sempre foi verdade.
A seguir vêm duas imagens de vestimenta. O Senhor está vestido de ge'ut, majestade, palavra ligada à raiz que significa elevar-se, ser alto. O verbo labesh, vestir, aparece duas vezes, e na segunda ele se cinge, hit'azzar, de 'oz, força. A primeira imagem é a de um rei em trajes de corte; a segunda, a de um guerreiro que aperta o cinto antes da luta. O Rei do Salmo 93 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não é um soberano decorativo: a majestade e a força são aquilo que se vê dele. O Salmo 104 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) usa a mesma linguagem de vestimenta ao descrever o Criador trajado de esplendor e fazendo da luz a sua roupa (Sl 104.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A consequência vem logo: 'af-tikkon tevel bal-timmot, também o mundo está firmado e não vacila. A palavra tevel designa a terra habitada. O verbo mot, vacilar, cambalear, é o mesmo que os salmos usam para o justo que não será abalado (Sl 15.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 16.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e para a cidade de Deus que não será abalada mesmo quando os montes se precipitam no mar (Sl 46.2-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Porque o trono está firme, o chão está firme.
O v. 2 confirma isso falando ao Rei em segunda pessoa. O seu trono, kis'akha, está nakhon me'az, firmado desde então, desde a antiguidade. O mesmo verbo kun, firmar, estabelecer, aparece no v. 1 para o mundo e aqui para o trono: o mundo foi firmado porque o trono já estava firmado. E a segunda linha sobe ainda mais: me'olam 'attah, desde a eternidade tu és. O Salmo 90 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), poucos salmos antes, havia dito o mesmo antes de falar da fragilidade humana: antes de os montes nascerem, Deus já era Deus (Sl 90.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Versículos 3-4 — As águas que se erguem e o Senhor nas alturas
O v. 3 é um dos exemplos mais claros do chamado paralelismo em escada, ou paralelismo climático, uma técnica que a poesia de Ugarit também conhecia. A frase recomeça três vezes com o mesmo verbo, nas'u, levantaram, e o mesmo sujeito, os rios, e a cada vez acrescenta um elemento: primeiro só o movimento, depois o som, por fim o embate. O efeito é sonoro e visual. Lido em voz alta, imita as ondas que chegam uma atrás da outra. A palavra final, dokhyam, só aparece aqui em toda a Bíblia; pela raiz, que significa bater, esmagar, entende-se que designa o embate das ondas, a arrebentação, o barulho da água que se lança contra a rocha.
No meio dessa escada há um vocativo, YHWH: o salmista não narra friamente um perigo; conversa com o Rei no meio do barulho.
Quem são esses rios, neharot? Israel não tem rios caudalosos que ameacem o mundo, e o paralelo com o mar no v. 4 mostra que o salmo pensa nas águas primordiais, a massa desordenada que, na cosmovisão do antigo Oriente Próximo, representava o caos. Em Gênesis, as águas profundas cobriam tudo antes de a palavra de Deus lhes pôr limites (Gn 1.2, 6-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em outros salmos, o Senhor domina o orgulho do mar (Sl 89.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), está sentado acima do dilúvio como rei (Sl 29.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e repreende as águas, que fogem ao som da sua voz (Sl 104.6-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); e as águas tumultuosas tornam-se imagem das nações que se agitam contra Deus (Is 17.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 46.2-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 93 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não especifica, e por isso a imagem serve para todo caos: o da natureza, o da história, o da alma.
O v. 4 traz a resposta e, com ela, uma pequena dificuldade gramatical. A construção hebraica acumula três expressões no começo do verso: mais do que as vozes de muitas águas, poderosas, as ondas do mar. Os intérpretes discutem se a palavra 'addirim, poderosas, qualifica as águas ou as ondas, e como a frase se organiza; alguns propõem pequenas correções no texto. O sentido geral, porém, é claro e não depende dessas soluções: acima de todo esse estrondo, 'addir bammarom YHWH, poderoso nas alturas é o Senhor. A mesma palavra, 'addir, é aplicada às águas e ao Senhor. As águas são de fato poderosas; o salmo não as despreza. Mas há um poder maior, e ele está bammarom, nas alturas, acima delas.
Há também um contraste de vozes: o v. 3 fala da voz dos rios, qolam, e o v. 4, das vozes, qolot, das muitas águas. O Salmo 29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) faz trovejar a voz do Senhor sobre as muitas águas (Sl 29.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); no Salmo 93 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o Senhor nem precisa falar. Basta estar onde está.
Versículo 5 — A palavra fiel e a casa santa
O último versículo parece mudar de assunto, e alguns leitores modernos estranharam a transição. Depois do mar e do trono, o salmo fala de 'edotekha, os teus testemunhos, e da bayit, a casa. A transição, porém, segue a lógica que o salmo herda e transforma: nos relatos sobre o deus que vence o caos, a vitória é seguida pela construção de um palácio e pela proclamação de decretos. O Salmo 93 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) diz o mesmo à maneira de Israel: o Senhor que está acima das águas deu ao seu povo a sua palavra e escolheu morar no meio dele.
A palavra 'edot, testemunhos, designa no Pentateuco e nos Salmos as estipulações da aliança, a palavra que Deus deu e que testemunha a respeito dele e da relação com o seu povo. As tábuas da lei são chamadas de testemunho (Êx 25.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Êx 31.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a arca que as guardava, de arca do testemunho. O Salmo 19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) usa a mesma palavra ao passar dos céus que falam à palavra que Deus deu (Sl 19.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No Salmo 93 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), os testemunhos ne'emnu me'od, são muito firmes, inteiramente confiáveis. O verbo é da raiz 'mn, a mesma de 'emunah, fidelidade, e do nosso amém. O jogo é sutil e importante: o mundo está firmado (v. 1), o trono está firmado (v. 2), e a palavra é firme (v. 5). Quem ouve as ondas pode confiar na palavra.
A segunda linha fala da casa: lebeytkha na'awah-qodesh, à tua casa convém a santidade. A casa é o templo, o lugar onde o Rei celeste fixou a sua presença na terra. O verbo na'ah indica o que é adequado, o que fica bem, o que corresponde à natureza de algo. A santidade não é um enfeite acrescentado à casa; é o que lhe convém, porque é a casa do Santo. E tudo isso vale le'orekh yamim, pela extensão dos dias, para sempre. A expressão fecha também o Salmo 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (Sl 23.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
✨ 4. Versículos-Chave
Sl 93.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A aclamação que dá nome a todo o grupo de salmos. A realeza do Senhor não é apresentada como uma doutrina a ser demonstrada, mas como um fato a ser proclamado, e o seu efeito imediato é a estabilidade do mundo. Para Israel, que tinha visto cair o trono de Davi, cantar que o Senhor reina era um ato de fé contra as aparências. O Novo Testamento retoma essa aclamação no cântico da grande multidão do Apocalipse, cuja voz é comparada ao barulho de muitas águas e de fortes trovões, celebrando que o Deus todo-poderoso tomou posse do seu reino (Ap 19.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A imagem das águas, que no salmo eram a ameaça, torna-se no Apocalipse a voz do louvor.
Sl 93.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O centro poético do salmo. As águas são levadas a sério: o seu barulho cresce, a escada do v. 3 sobe, as ondas arrebentam. Mas o Senhor está acima delas. Os discípulos de Jesus viram essa cena acontecer diante dos olhos, quando, numa noite de tempestade no lago, o Mestre se levantou, repreendeu o vento, deu ordem ao mar, e o lago ficou em completa quietude (Mc 4.39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A pergunta assombrada que eles fizeram em seguida, sobre quem seria aquele que dava ordens ao vento e era atendido pelo mar (Mc 4.41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), é a pergunta que o Salmo 93 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) prepara.
Sl 93.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A ponte entre o poder de Deus sobre o cosmo e a vida do povo. A firmeza do trono se traduz na firmeza da palavra, e o Rei de majestade tem uma casa onde a santidade é o que convém. Para o leitor cristão, a palavra firme encontra a sua forma definitiva no Filho, em quem Deus, depois de falar de muitos modos, disse a sua palavra definitiva (Hb 1.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a casa santa é aquela que Cristo governa como Filho, formada pelo povo que persevera na esperança (Hb 3.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
⛪ 5. Temas Teológicos Centrais
A realeza eterna de Deus. A soberania de Deus, que não começa nem termina, atravessa a Bíblia inteira. O cântico do mar, depois da travessia, termina proclamando que o Senhor reinará para sempre (Êx 15.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e esse texto também celebra a vitória sobre as águas. Os profetas anunciam o dia em que o Senhor será rei sobre toda a terra (Zc 14.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Daniel vê o reino que não será destruído (Dn 2.44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dn 7.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E Jesus começa a sua pregação anunciando que o Reino de Deus chegou (Mc 1.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 93 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não fala de um reino que precisa ser conquistado, mas de um reino que precisa ser reconhecido, e o Apocalipse antevê o dia em que as vozes do céu anunciarão que o domínio sobre o mundo passou às mãos de Deus e do seu Ungido (Ap 11.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A criação firmada e o caos limitado. O mundo está firmado porque Deus reina, e isso tem duas faces. O caos existe e se manifesta: as águas se levantam, e continuarão a se levantar; a fé bíblica não é ingênua quanto à força do que ameaça a vida. Mas o caos tem limites, postos por Deus. O livro de Jó descreve Deus fechando o mar com portas e dizendo-lhe até onde podia chegar (Jó 38.8-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O tumulto é real, mas não é a última palavra; a última palavra é o trono.
A palavra fiel e a presença santa. O v. 5 liga a realeza cósmica à aliança e ao culto. O Deus que governa o mar não fica distante: ele fala e habita. A sua palavra participa da sua estabilidade, e a sua casa, da sua santidade. O tabernáculo e o templo foram a forma dessa presença no Antigo Testamento; no fim, a nova Jerusalém já não precisará de templo, porque a presença de Deus e do Cordeiro ocupará a cidade inteira (Ap 21.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo
6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?
O Salmo 93 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) olha para trás, para a Criação, quando Deus firmou o mundo e pôs limite às águas (Gn 1.2, 9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas o faz a partir de um mundo afetado pela Queda, em que as forças do caos continuam a se levantar: a violência das nações, a instabilidade da história, a fragilidade da vida. No arco da Redenção em andamento, o salmo mantém viva a confissão de que o Senhor reina, mesmo quando o trono de Davi caiu e Israel não tem rei. Na Redenção consumada, essa realeza se manifesta em Jesus, que domina as águas, vence a morte e é exaltado à direita do Pai. E a Nova Criação é o momento em que a aclamação do v. 1 será cantada sem nenhuma voz contrária, e o mar, imagem do caos, deixará de existir (Ap 21.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
6.2 — Cristo, o Senhor das águas
O Salmo 93 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não é citado diretamente no Novo Testamento, e não se deve forçá-lo a ser uma profecia. Mas os evangelistas narram episódios em que Jesus faz exatamente aquilo que, no Antigo Testamento, só Deus faz, e deixam o leitor tirar a conclusão.
Na tempestade no lago, Jesus dorme no barco enquanto as ondas o invadem. Acordado pelos discípulos aterrorizados, ele repreende o vento e manda o mar se aquietar, e o mar obedece (Mc 4.35-41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O verbo grego que Marcos usa para essa repreensão é o mesmo que a antiga tradução grega emprega quando Deus repreende o mar Vermelho (Sl 106.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A pergunta dos discípulos ao fim, sobre a identidade de quem dá ordens às águas, fica sem resposta explícita no texto; mas qualquer leitor que conheça o Salmo 93 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) sabe responder.
Em outro episódio, Jesus vem ao encontro dos discípulos andando sobre o mar, de noite, enquanto eles remavam com dificuldade contra o vento (Mc 6.45-52 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No livro de Jó, andar sobre as ondas do mar é descrito como prerrogativa do Criador (Jó 9.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E, para acalmá-los, Jesus se identifica com uma fórmula que, em grego, ecoa o nome com que Deus se revelou a Moisés (Êx 3.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mateus acrescenta que, depois de ele subir ao barco e o vento cessar, os discípulos se prostraram diante dele e o confessaram como Filho de Deus (Mt 14.32-33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Não se trata de tipologia em sentido estrito, mas de algo mais direto: os evangelhos mostram Jesus exercendo a realeza que o Salmo 93 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) atribui ao Senhor. O Rei que estava acima do bramido das águas está agora dentro do barco, dormindo sobre um travesseiro, e basta uma palavra sua para que o mar se cale.
6.3 — Cristo, o Rei entronizado
O tema da entronização, que Mowinckel viu nesses salmos, encontra no Novo Testamento uma forma inesperada. O trono do Senhor é eterno (v. 2); mas o Filho eterno, que se fez homem, foi exaltado como homem, depois da cruz e da ressurreição, e tomou assento no lugar de honra junto ao trono de Deus (Hb 1.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Hebreus aplica ao Filho as palavras do Salmo 45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) sobre o trono de Deus que permanece para sempre (Hb 1.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e as do Salmo 102 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) sobre aquele que lançou os fundamentos da terra e permanece o mesmo quando tudo envelhece como roupa (Hb 1.10-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que o Salmo 93 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) diz do Senhor, o Novo Testamento diz de Cristo, que não muda com a passagem dos tempos (Hb 13.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): é a forma cristã do me'olam 'attah do v. 2.
Há, porém, uma tensão que o Novo Testamento não esconde. O Rei já reina, mas ainda não se vê tudo submetido a ele (Hb 2.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As águas ainda se levantam: a perseguição, a injustiça, a morte. Paulo ensina que Cristo há de reinar até que nenhum adversário lhe resista, e que a morte será o derradeiro a cair (1Co 15.25-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Por isso o Apocalipse, que fala tanto de tronos e de águas, se encaminha para o fim com a grande multidão celebrando que Deus tomou posse do seu reino (Ap 19.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que o Salmo 93 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) proclama no culto será um dia visto por todos.
Uma imagem do Apocalipse merece ser destacada. Na primeira visão de João, a voz do Cristo glorificado é comparada ao barulho de muitas águas (Ap 1.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A expressão é a mesma do v. 4 do salmo. No salmo, as muitas águas eram a voz do caos, e o Senhor estava acima delas; no Apocalipse, a voz de Cristo é que tem a força das muitas águas. O poder que ameaçava foi absorvido pelo Rei.
6.4 — Cristo, a palavra firme e a casa santa
O v. 5 ganha em Cristo uma profundidade nova. Os testemunhos do Senhor são fiéis, e o Apocalipse apresenta o próprio Jesus como aquele que testemunha com inteira fidelidade (Ap 1.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 3.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), aquele que deu testemunho da verdade (Jo 18.37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele é a palavra definitiva de Deus, e Paulo diz que todas as promessas de Deus encontram nele o seu sim (2Co 1.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A firmeza que o salmo atribui aos testemunhos é a firmeza de Cristo, que garantiu que as suas palavras durariam mais que o próprio universo (Mt 24.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A casa santa também tem rosto. Jesus falou de si como o templo que seria destruído e levantado em três dias (Jo 2.19-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o autor de Hebreus mostra Cristo, como Filho, à frente da casa de Deus, formada pelos que creem (Hb 3.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A santidade que convém à casa de Deus passa a ser a santidade do povo que ele habita (1Co 3.16-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Pe 2.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o le'orekh yamim, a extensão dos dias, encontra o seu cumprimento na cidade em que Deus habitará com o seu povo para sempre (Ap 21.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
6.5 — O Evangelho no capítulo
O Salmo 93 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) pode ser pregado como evangelho para quem ouve o barulho das águas. O salmo não diz que as águas são imaginárias; diz que há alguém acima delas. A boa notícia cristã vai além: esse alguém entrou no barco. O Rei de majestade vestiu-se de carne humana e desceu às águas mais profundas, as da morte. Na cruz, as ondas passaram sobre ele, como a oração de Jonas descreve o abismo que o cercava (Jn 2.3-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Jesus usou a história de Jonas como sinal da sua morte e ressurreição (Mt 12.40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ao terceiro dia, ele saiu das águas da morte, e agora reina.
Pregá-lo cristocentricamente é mostrar que a realeza de Deus não é uma ideia fria, mas uma pessoa que dorme no barco e se levanta para acalmar o mar; que a firmeza do mundo e da palavra repousa sobre o trono daquele que foi crucificado e vive; e que a casa santa está aberta, pelo sangue de Cristo, a pecadores que nunca poderiam entrar nela por conta própria (Hb 10.19-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmo convida a ouvir o barulho do mar e, por cima dele, a confissão: o Senhor reina.
🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)
- Gn 1.2, 6-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jó 38.8-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — as águas primordiais e os limites que Deus lhes impõe na criação.
- Êx 15.1-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o cântico do mar, que celebra a vitória sobre as águas e termina com a realeza eterna do Senhor.
- Sl 29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 89.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 104.1-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o Senhor acima das muitas águas, a cidade firme no meio do tumulto, o domínio sobre a soberba do mar e o Deus vestido de majestade.
- Sl 95–99 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — os salmos vizinhos, que retomam a aclamação de que o Senhor reina e a estendem a toda a terra.
- Is 52.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o mensageiro que anuncia a Sião que o seu Deus reina, um anúncio que o Novo Testamento liga ao evangelho (Rm 10.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- Mc 4.35-41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 6.45-52 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 14.22-33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus acalma o mar e anda sobre as águas.
- Hb 1.3, 8, 10-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 13.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o Filho entronizado, o Criador que permanece, aquele que não muda.
- Ap 1.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 19.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 21.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a voz de Cristo como muitas águas, o cântico da realeza de Deus e a nova criação sem mar.
- Na liturgia, a sinagoga continua a cantá-lo no sexto dia, em memória do Rei que terminou a criação, e a Igreja, ao rezá-lo, ouve nele a realeza do Cristo ressuscitado.
🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico
Ouça o barulho, mas não confunda o barulho com o trono. O Salmo 93 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não pede que finjamos que as águas estão calmas. As notícias, as crises, as doenças e as perdas fazem barulho, e o barulho cresce como a escada do v. 3. A fé não é surdez; é saber que há um trono acima do barulho. Jesus, que dormia no barco, não desprezou o medo dos discípulos, mas os chamou à fé (Mc 4.40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A pergunta que ele lhes fez é a que o salmo nos faz: por que tanto medo, se o Rei está aqui?
Firme os pés na palavra que não vacila. O salmo liga a estabilidade do mundo à estabilidade dos testemunhos de Deus (v. 5). Num tempo em que quase tudo parece provisório, opiniões, empregos, relações, instituições, o crente tem algo firme onde apoiar a vida: a palavra de Deus, que encontra o seu sim em Cristo. Jesus comparou quem ouve e pratica as suas palavras a alguém que construiu a casa sobre a rocha, de modo que as águas vieram e a casa não caiu (Mt 7.24-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Cante a realeza de Deus antes de vê-la por inteiro. Israel cantava que o Senhor reina num tempo em que não tinha rei e via as nações se agitarem. O cristão canta que Cristo reina num mundo em que ainda não se vê tudo submetido a ele (Hb 2.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O louvor, nesse sentido, é um ato de esperança: proclamar no culto o que será visto por todos no fim.
🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo
- O salmo descreve o Senhor vestido de majestade e cingido de força (v. 1). O que cada uma dessas imagens comunica sobre o modo como Deus reina?
- O v. 3 repete três vezes que os rios se levantaram. Que águas têm se levantado na sua vida ou no mundo ao seu redor? Como o v. 4 muda o modo de olhar para elas?
- Por que o salmo passa do mar e do trono (vv. 1-4) para os testemunhos e a casa (v. 5)? Que relação existe entre a soberania de Deus sobre o mundo e a confiança na sua palavra?
- Leia Mc 4.35-41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Como o episódio da tempestade responde à pergunta sobre quem é Jesus à luz do Salmo 93 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)?
- No Apocalipse, a voz de Cristo é como o barulho de muitas águas (Ap 1.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a nova criação já não tem mar (Ap 21.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que essas imagens dizem sobre a esperança cristã diante do caos?
- Para meditação e oração: leia o salmo devagar, em voz alta, e nomeie diante de Deus as águas que o assustam hoje. Depois, confesse a ele, com as suas palavras, que Cristo reina acima delas, e peça a paz de quem descansa no barco com ele.
📚 10. Para Aprofundamento
Cristocêntrica / Teologia Bíblica:
- Sidney Greidanus — Preaching Christ from the Old Testament (Eerdmans, 1999)
- Christopher J. H. Wright — Conhecendo Jesus através do Antigo Testamento (Ultimato) / Knowing Jesus Through the Old Testament (IVP, 1992)
- James L. Mays — The Lord Reigns: A Theological Handbook to the Psalms (Westminster John Knox, 1994)
Comentários e estudos dos Salmos:
- Derek Kidner — Salmos 73–150 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
- Marvin E. Tate — Psalms 51–100 (Word Biblical Commentary, 1990)
- Nancy deClaissé-Walford, Rolf A. Jacobson e Beth LaNeel Tanner — The Book of Psalms (NICOT, Eerdmans, 2014)
- Frank-Lothar Hossfeld e Erich Zenger — Psalms 2: A Commentary on Psalms 51–100 (Hermeneia, Fortress, 2005)
- Sigmund Mowinckel — The Psalms in Israel's Worship (Blackwell/Abingdon, 1962), para a hipótese da festa de entronização
- Gerald H. Wilson — The Editing of the Hebrew Psalter (Scholars Press, 1985), sobre a organização dos cinco livros
- Agostinho — Comentário aos Salmos (Paulus, coleção Patrística)
Sabedoria para o Cotidiano
As águas se levantam, e às vezes o barulho delas parece maior que tudo; o Salmo 93 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não manda tapar os ouvidos, mas levantar os olhos para o trono que estava firme antes de a primeira onda se erguer. Quando a vida se agitar, apoie-se na palavra que não vacila e lembre-se de que o Rei acima das águas entrou no barco em Jesus Cristo e, com uma palavra, fez o mar se calar. O tumulto é real, mas não reina; quem reina é ele.
Ficou com alguma dúvida sobre este capítulo?
Pergunte ao Farol