Salmos · 19 de 66 · Antigo Testamento
Salmos — Bloco 10: Confiança e Gratidão: O Refúgio e o Livramento
Capítulos principais
Salmos e versículos: Salmo 11:1-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Salmo 16:1-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Salmo 23:1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Salmo 27:1-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Salmo 30:1-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Salmo 34:1-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Salmo 40:1-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Salmo 62:1-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Salmo 91:1-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Salmo 116:1-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Salmo 118:1-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Salmo 139:1-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
Tema central do bloco
Com este bloco, o estudo entra na terceira fase do Saltério, que Walter Brueggemann chamou de nova orientação. Depois do lamento, da culpa, do clamor por justiça e da crise nacional, aparecem as vozes de quem atravessou a noite e encontrou Deus fiel do outro lado.
Não se trata de uma volta à ingenuidade anterior à crise. A fé que aqui se expressa foi provada. O salmista que descansa no Pastor sabe que existe o vale da sombra da morte (Sl 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que agradece o livramento lembra que esteve preso nos laços da morte (Sl 116 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que canta a vitória foi empurrado para cair e cercado como por abelhas (Sl 118 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O bloco reúne duas famílias de salmos.
Os salmos de confiança (11, 16, 23, 27, 62, 91 e 139) expressam a segurança de quem repousa em Deus em meio ao perigo. Hermann Gunkel os chamou de Vertrauenslieder, "cânticos de confiança". Neles, o lamento está presente apenas como pano de fundo, porque a confiança já venceu.
Os salmos de ação de graças individual (30, 34, 40, 116 e 118) narram um livramento concreto. Claus Westermann os chamou de louvor declarativo: o salmista declara publicamente o que Deus fez por ele. Esses salmos seguem geralmente um padrão. Relatam a angústia vivida e o clamor dirigido a Deus, anunciam que Deus ouviu e livrou, e terminam com o louvor diante da comunidade, muitas vezes junto com a oferta de gratidão no templo.
O fio que une o bloco é a descoberta de que Deus é refúgio e libertador, não em teoria, mas na experiência. E é aqui que o Saltério oferece alguns de seus textos mais amados e mais citados no Novo Testamento: o Pastor que conduz pelo vale, o Santo que não vê corrupção, o Corpo preparado para cumprir a vontade de Deus e a pedra rejeitada que se tornou a pedra angular.
Versículos-chave do Livro estudado
- Salmo 11:1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Aconselhado a fugir porque os fundamentos estão sendo destruídos, o salmista responde que o Senhor está em seu santo templo e seu trono está nos céus.
- Salmo 16:2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O salmista declara que o Senhor é seu Senhor e que fora dele não tem bem algum.
- Salmo 16:5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Senhor é a porção da herança e do cálice do salmista, e sua sorte caiu em lugares agradáveis.
- Salmo 16:8-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Com o Senhor à sua direita, ele não será abalado; Deus não abandonará sua vida ao Sheol nem permitirá que seu Santo veja corrupção, e lhe mostrará o caminho da vida e a plenitude de alegria.
- Salmo 23:1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Senhor é descrito como pastor pessoal que conduz a pastos verdes e águas tranquilas, restaura a alma e guia por caminhos retos por amor do seu nome.
- Salmo 23:4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Mesmo atravessando o vale da sombra profunda, o salmista não teme, porque o Pastor está com ele com sua vara e seu cajado.
- Salmo 23:5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Pastor se torna anfitrião que prepara a mesa diante dos inimigos, unge a cabeça e faz transbordar o cálice, e a bondade e a misericórdia perseguem o salmista todos os dias.
- Salmo 27:1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Senhor é luz, salvação e fortaleza, e por isso o salmista não teme exércitos nem guerras.
- Salmo 27:4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O único desejo do salmista é habitar na casa do Senhor, contemplar sua beleza e buscá-lo em seu templo.
- Salmo 27:8-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O coração responde ao convite de Deus buscando seu rosto; mesmo se pai e mãe o abandonarem, o Senhor o acolherá.
- Salmo 30:4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A ira de Deus dura um momento, seu favor dura a vida inteira; o choro pode durar a noite, mas a alegria vem pela manhã.
- Salmo 30:6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Na prosperidade, o salmista pensou que nunca seria abalado; quando Deus escondeu o rosto, ele ficou perturbado.
- Salmo 30:11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus transformou o lamento em dança e trocou a roupa de luto por vestes de alegria.
- Salmo 34:4-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O salmista buscou o Senhor e foi livrado de todos os temores; o anjo do Senhor acampa ao redor dos que o temem, e todos são convidados a provar a bondade de Deus.
- Salmo 34:18-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Senhor está perto dos que têm o coração quebrantado, livra o justo de suas muitas aflições e guarda todos os seus ossos, sem que nenhum se quebre.
- Salmo 40:1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Depois de esperar com paciência, o salmista foi tirado da cova e do lodo, teve os pés firmados numa rocha e recebeu um cântico novo.
- Salmo 40:6-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus não deseja sacrifícios e ofertas, e sim ouvidos abertos e um servo que tem prazer em fazer a sua vontade, com a lei dentro do coração.
- Salmo 62:1-2, 5-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Somente em Deus a alma do salmista repousa em silêncio, porque só ele é rocha, salvação e fortaleza.
- Salmo 62:9-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os seres humanos são mais leves que um sopro na balança; não se deve confiar em riquezas; o poder e a misericórdia pertencem a Deus, que retribui a cada um segundo suas obras.
- Salmo 91:1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Quem habita no abrigo do Altíssimo encontra refúgio à sombra do Todo-Poderoso e proteção sob suas asas.
- Salmo 91:11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus ordena aos seus anjos que guardem o fiel em todos os seus caminhos.
- Salmo 91:14-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus mesmo fala: porque o fiel o ama e conhece o seu nome, ele o livrará, estará com ele na angústia e lhe mostrará a sua salvação.
- Salmo 116:1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O salmista ama o Senhor porque ele ouviu sua súplica quando os laços da morte o cercavam.
- Salmo 116:12-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Diante da pergunta sobre o que retribuir a Deus, o salmista levantará o cálice da salvação, cumprirá seus votos e reconhece que a morte dos fiéis é preciosa aos olhos do Senhor.
- Salmo 118:5-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Na angústia, o salmista clamou e Deus o colocou em lugar amplo; é melhor refugiar-se no Senhor do que confiar em homens ou príncipes.
- Salmo 118:17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O salmista declara que não morrerá, mas viverá para anunciar as obras do Senhor.
- Salmo 118:22-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A pedra rejeitada pelos construtores tornou-se a principal pedra de esquina, obra maravilhosa do Senhor, e este é o dia que ele fez.
- Salmo 118:25-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A súplica por salvação e a bênção pronunciada sobre quem chega em nome do Senhor.
- Salmo 139:1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus conhece o salmista por completo: quando se senta e se levanta, seus pensamentos e cada palavra antes de ser dita.
- Salmo 139:7-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Não há lugar para onde fugir da presença de Deus, nem nos céus, nem no Sheol, nem nos confins do mar, nem nas trevas.
- Salmo 139:13-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus formou o salmista no ventre materno, de modo admirável, e seus olhos o viram antes que ele tomasse forma.
- Salmo 139:23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O pedido para que Deus sonde o coração, conheça os pensamentos e conduza pelo caminho eterno.
Versículos relacionados em outros capítulos ou Livros da Bíblia
- Levítico 7:11-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A oferta de ação de graças (todah), cuja carne era comida no mesmo dia em refeição de comunhão, pano de fundo dos salmos de gratidão.
- Ezequiel 34:11-16, 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus promete buscar e apascentar ele mesmo suas ovelhas e suscitar um pastor da linhagem de Davi.
- João 10:11-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus se apresenta como o bom pastor, que dá a vida pelas ovelhas e as conhece pelo nome.
- Hebreus 13:20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1 Pedro 2:25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 5:4 — Cristo é chamado o grande Pastor das ovelhas, Pastor e Bispo das almas e Supremo Pastor.
- Apocalipse 7:17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Cordeiro no centro do trono apascentará os redimidos e os conduzirá às fontes da água da vida.
- Mateus 4:5-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lucas 4:9-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O diabo cita o Salmo 91 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) para tentar Jesus, que responde que não se deve pôr Deus à prova.
- Atos 2:25-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Pedro cita Salmo 16:8-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e afirma que Davi, prevendo, falou da ressurreição do Cristo.
- Atos 13:35-37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Paulo aplica Salmo 16:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) a Jesus, que não viu corrupção.
- Hebreus 10:5-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O autor aplica Salmo 40:6-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) a Cristo, que veio ao mundo para fazer a vontade de Deus oferecendo o próprio corpo.
- 2 Coríntios 4:13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Paulo cita Salmo 116:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) para expressar o espírito de fé que o faz falar.
- 1 Pedro 2:3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 3:10-12 — Pedro retoma o convite a provar a bondade do Senhor e cita Salmo 34:12-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) como orientação para a vida cristã.
- João 19:36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Nenhum osso de Jesus foi quebrado, em cumprimento da Escritura (Sl 34:20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Êx 12:46).
- Mateus 21:9, 42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Marcos 11:9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 12:10-11 — A multidão aclama Jesus com palavras do Salmo 118 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e ele se identifica com a pedra rejeitada.
- Atos 4:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1 Pedro 2:4-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Efésios 2:20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Cristo é a pedra rejeitada pelos homens e escolhida por Deus como pedra angular.
- Hebreus 13:5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O crente pode dizer, com o Salmo 118:6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que o Senhor é seu ajudador e que não temerá.
- Romanos 2:6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mateus 16:27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus retribuirá a cada um segundo as suas obras, como afirma Salmo 62:12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Romanos 8:31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Se Deus é por nós, quem será contra nós?, em sintonia com Salmo 118:6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Jeremias 1:5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus conhecia o profeta antes de formá-lo no ventre, em paralelo com o Salmo 139 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Hebreus 4:13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Nenhuma criatura está oculta diante de Deus, tudo está descoberto aos seus olhos.
- João 16:20-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus promete que a tristeza dos discípulos se converterá em alegria, eco temático do Salmo 30:5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
Explicação teológica e bíblica
A confiança provada e a gratidão pública. Os salmos de confiança e os de ação de graças são dois lados da mesma experiência. Os de confiança falam antes ou durante o perigo. Declaram que Deus é refúgio mesmo quando a ameaça ainda está presente. Os de ação de graças falam depois do livramento. Narram o que aconteceu e convidam outros a louvar.
A ação de graças tinha no Israel antigo uma forma litúrgica concreta: a oferta de gratidão, todah (Lv 7:11-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quem havia sido livrado subia ao templo, oferecia um sacrifício e compartilhava a carne numa refeição com familiares e amigos, contando o que Deus havia feito. A gratidão era, portanto, pública e comunitária, e não apenas um sentimento privado. A tradição rabínica valorizava tanto essa oferta que o Midrash Vayikra Rabbah (9:7) afirma que, na era futura, todos os sacrifícios cessarão, exceto a oferta de ação de graças.
Os salmos de confiança (Sl 11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 16; 23; 27; 62; 91; 139).
O Salmo 11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) começa com um conselho de fuga. Alguém diz ao salmista que fuja como um pássaro para os montes, porque os ímpios estão com o arco armado e, se os fundamentos estão sendo destruídos, que pode fazer o justo? (vv. 1-3). A pergunta é de enorme atualidade. O que fazer quando as bases da sociedade, da justiça e da moral parecem ruir? A resposta do salmista não é a fuga, e sim uma mudança de olhar: o Senhor está no seu santo templo, seu trono está nos céus, e seus olhos observam e provam os seres humanos (v. 4). Os fundamentos humanos podem ruir, mas o trono de Deus permanece. O salmo termina com uma promessa: os retos contemplarão o seu rosto (v. 7).
O Salmo 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é um miktam, termo de sentido incerto. É uma das mais profundas declarações de confiança do Saltério e, como se verá, um dos textos centrais da pregação apostólica sobre a ressurreição. O salmista declara que o Senhor é seu Senhor e que não tem bem algum fora dele (v. 2). Ele usa a linguagem da partilha da terra. O Senhor é sua porção e seu cálice, e as linhas de medição da sua herança caíram em lugares agradáveis (vv. 5-6). Como os levitas, que não receberam terra porque o próprio Deus era sua herança (Nm 18:20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o salmista considera Deus o seu maior bem.
Nos versículos 8-11, a confiança atravessa a fronteira da morte. Com o Senhor sempre diante de si e à sua direita, ele não será abalado. Por isso o coração se alegra, e até o corpo repousa em segurança. Deus não abandonará sua vida ao Sheol nem permitirá que seu Santo (chasid, o fiel da aliança) veja a cova ou a corrupção (shachat). O termo hebraico pode significar "cova", "sepultura" ou "decomposição", e a Septuaginta o traduziu por "corrupção". O salmo termina com um horizonte de vida plena: Deus mostrará o caminho da vida, a plenitude de alegria na sua presença e delícias à sua direita para sempre.
O Salmo 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é provavelmente o texto mais conhecido do Antigo Testamento. Sua força vem da simplicidade das imagens e da profundidade do que elas dizem. Ele tem duas grandes imagens.
A primeira é a do Pastor (vv. 1-4). No antigo Oriente, "pastor" era um título comum para reis e deuses, e a imagem era familiar a Israel, povo de pastores (Gn 48:15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 80:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmista a torna pessoal: o Senhor é o meu pastor. As consequências são concretas. Pastos verdes (desheh, a relva tenra), águas de descanso (mê menuchot, águas calmas onde as ovelhas podem beber sem medo) e uma alma restaurada, literalmente "trazida de volta" (yeshovev), como se traz de volta uma ovelha perdida. Os caminhos de justiça são trilhas certas, e o Pastor guia por eles por amor do seu nome, isto é, por causa de sua própria fidelidade, e não pelo mérito da ovelha.
O versículo 4 é o centro do salmo. O vale da tsalmavet, termo tradicionalmente traduzido por "sombra da morte" e que designa a escuridão mais profunda, não é evitado. É atravessado. E nesse ponto o salmista deixa de falar sobre o Pastor e passa a falar com ele: "tu estás comigo". A vara (shevet) servia para defender o rebanho dos predadores, e o cajado (mish'enet), para guiar e resgatar as ovelhas. Ambos consolam, porque indicam proteção e direção.
A segunda imagem é a do Anfitrião (vv. 5-6). O Pastor se torna um hospedeiro generoso que prepara uma mesa diante dos inimigos, sinal de proteção e de vindicação, unge a cabeça com óleo, gesto de honra ao convidado (Lc 7:46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e enche o cálice até transbordar. O versículo 6 traz um detalhe notável. A bondade e a misericórdia (chesed) não apenas acompanham o salmista: elas o perseguem (radaf, o verbo usado para perseguição militar). Os inimigos estão diante da mesa, mas quem corre atrás do salmista é o amor de Deus. O salmo termina com a expectativa de habitar ou, segundo outra vocalização do hebraico, de voltar para a casa do Senhor por longos dias.
O Salmo 27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) começa com uma afirmação de confiança total: o Senhor é luz, salvação e fortaleza, e por isso o salmista não teme ninguém, nem mesmo um exército acampado contra ele (vv. 1-3). O versículo 4 é uma das mais belas expressões de desejo espiritual da Bíblia. Uma só coisa o salmista pede e buscará: habitar na casa do Senhor todos os dias da sua vida, contemplar a beleza (no'am, a amabilidade, a doçura) do Senhor e meditar no seu templo. O desejo mais profundo não é por bens, e sim pela presença.
Na segunda parte (vv. 7-14), o tom muda para a súplica, e alguns estudiosos chegaram a considerar que se trata de dois salmos unidos. A unidade, porém, é defensável: a confiança da primeira parte sustenta a súplica da segunda. O salmista ouve no coração o convite de Deus para buscar o seu rosto e responde que buscará esse rosto (v. 8). Afirma que, mesmo se o pai e a mãe o abandonassem, o Senhor o acolheria (v. 10). E termina exortando a si mesmo e aos outros: esperar no Senhor, ser forte, ter ânimo e esperar no Senhor (v. 14).
O Salmo 62 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o salmo do silêncio e da exclusividade. O salmista declara que somente em Deus a sua alma repousa em silêncio (dumiyyah), e que só ele é rocha, salvação e fortaleza (vv. 1-2). A partícula hebraica 'ak, "somente" ou "certamente", aparece seis vezes no salmo e lhe dá o tom. Não se trata de confiar em Deus e em outras coisas, mas somente nele. O salmo então pesa os seres humanos numa balança. Plebeus e nobres, todos juntos, são mais leves que um sopro (hevel, a mesma palavra de Eclesiastes para "vaidade", "vapor") (v. 9). Por isso o salmista adverte contra confiar na extorsão ou no roubo e contra pôr o coração nas riquezas, mesmo quando elas aumentam (v. 10). O salmo termina com um provérbio numérico: Deus falou uma vez, e o salmista ouviu duas coisas. O poder pertence a Deus, e a misericórdia também, e ele retribui a cada um segundo as suas obras (vv. 11-12). Poder sem misericórdia seria tirania, e misericórdia sem poder seria impotência. Em Deus os dois estão unidos.
O Salmo 91 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o grande salmo da proteção divina. Os dois primeiros versículos acumulam quatro nomes de Deus: 'Elyon (Altíssimo), Shaddai (Todo-Poderoso), YHWH (Senhor) e 'Elohim (Deus). Quem habita no abrigo do Altíssimo pernoita à sombra do Todo-Poderoso. As imagens de proteção se multiplicam: o laço do caçador, a peste mortal, as asas sob as quais o fiel se refugia como um filhote, o escudo, o terror da noite, a flecha do dia, a peste que caminha nas trevas, a epidemia que devasta ao meio-dia. Mil caem ao lado, e o fiel não é atingido (vv. 3-8). Deus ordena aos seus anjos que o guardem em todos os seus caminhos e o carreguem para que não tropece (vv. 11-12), e ele pisará o leão e a serpente (v. 13). Nos versículos finais, o próprio Deus fala. Porque o fiel o ama e conhece o seu nome, Deus o livrará, o protegerá, estará com ele na angústia, o saciará de longos dias e lhe mostrará a sua salvação (vv. 14-16).
Este salmo exige interpretação cuidadosa, porque pode ser mal usado como um amuleto que garantiria imunidade contra todo mal. O próprio Novo Testamento traz a advertência mais forte contra essa leitura. Na tentação no deserto, o diabo cita os versículos 11-12 para convencer Jesus a se lançar do pináculo do templo, e Jesus responde que não se deve pôr Deus à prova (Mt 4:5-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A confiança verdadeira não força Deus a agir para provar sua fidelidade. O próprio salmo diz que Deus estará com o fiel na angústia (v. 15), o que pressupõe que a angústia virá. A promessa não é a ausência de sofrimento, e sim a certeza de que nada separa o fiel do cuidado de Deus e de que sua vida está segura nele, inclusive além da morte. Martinho Lutero, em sua carta pastoral de 1527 sobre se era lícito fugir de uma peste mortal (Ob man vor dem Sterben fliehen möge), escrita quando a peste atingia Wittenberg, recomendou ao mesmo tempo confiança em Deus, cuidados sanitários e permanência no serviço aos doentes. Não era presunção, e sim fé unida à prudência e ao amor.
O Salmo 139 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é a meditação mais profunda do Saltério sobre o conhecimento e a presença de Deus. Tem quatro movimentos.
No primeiro (vv. 1-6), o salmista reconhece que Deus o sonda e o conhece completamente: quando se senta e quando se levanta, seus pensamentos de longe, seus caminhos, e cada palavra antes que ela chegue à língua. Esse conhecimento é maravilhoso e alto demais para ele.
No segundo (vv. 7-12), pergunta para onde poderia fugir da presença de Deus. Nos céus, Deus está lá. No Sheol, também. Nas asas da alvorada, nos confins do mar, a mão de Deus o guiaria. Nem as trevas o ocultariam, porque para Deus a escuridão e a luz são iguais.
No terceiro (vv. 13-16), contempla a própria origem. Deus formou o seu interior e o teceu (sakak) no ventre materno. O salmista louva porque foi feito de modo assombroso e maravilhoso. Seus ossos não estavam ocultos quando foi formado em segredo, e os olhos de Deus viram o seu golem, a massa ainda sem forma do embrião. No livro de Deus estavam escritos todos os dias que lhe foram destinados, antes que qualquer um deles existisse. Esse trecho é frequentemente lembrado nos debates éticos sobre o valor da vida humana desde a sua origem. O texto, em si, é uma confissão de fé no cuidado de Deus sobre cada pessoa desde antes do nascimento, e é nesse registro que deve ser lido.
No quarto movimento (vv. 17-24), o salmista considera preciosos e incontáveis os pensamentos de Deus. Passa por uma imprecação contra os ímpios (vv. 19-22), na linha do Bloco 8, e termina com um pedido que inverte a direção de todo o salmo. Depois de reconhecer que Deus o conhece, pede para ser conhecido: que Deus o sonde, conheça o seu coração, prove os seus pensamentos, veja se há nele algum caminho mau e o conduza pelo caminho eterno (vv. 23-24). O conhecimento de Deus, que poderia ser ameaçador, torna-se refúgio e cura.
Os salmos de ação de graças (Sl 30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 34; 40; 116; 118).
O Salmo 30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) tem no título a indicação de um cântico para a dedicação da casa (chanukkat habayit), provavelmente o templo. Mais tarde a tradição judaica o associou à festa de Hanukkah. É o testemunho de alguém que esteve perto da morte e foi curado (vv. 1-3). O versículo 5 é uma das frases mais consoladoras do Saltério. A ira de Deus dura um instante, e o seu favor, a vida inteira. O choro pode pernoitar, mas pela manhã vem a alegria. O verbo hebraico para "pernoitar" (lin) descreve um hóspede que passa a noite e vai embora.
O salmo traz também uma confissão honesta sobre o perigo da prosperidade. Nos dias tranquilos, o salmista pensou que jamais seria abalado. Quando Deus escondeu o rosto, ele ficou perturbado (vv. 6-7). A segurança que ele sentia estava no conforto, e não em Deus. O salmo termina com imagens de transformação: Deus mudou o pranto em dança, tirou a roupa de luto e o vestiu de alegria, para que sua glória louvasse e não se calasse (vv. 11-12).
O Salmo 34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é um acróstico. Seu título o associa ao episódio em que Davi se fingiu de louco diante do rei filisteu para escapar da morte (1 Sm 21:10-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O título chama o rei de Abimeleque, enquanto 1 Samuel o chama de Aquis. Muitos estudiosos entendem Abimeleque como um título dinástico dos reis filisteus (Gn 20:2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 26:1). É um salmo que une gratidão e ensino. O salmista buscou o Senhor, que lhe respondeu e o livrou de todos os temores (v. 4). Os que olham para Deus ficam radiantes e não se envergonham (v. 5). O anjo do Senhor acampa ao redor dos que o temem (v. 7). Então vem o convite mais sensorial do Saltério: provar e ver que o Senhor é bom (v. 8). A bondade de Deus não é apenas uma ideia a ser aceita, e sim uma realidade a ser experimentada.
A segunda parte (vv. 11-22) é um ensino sapiencial. O salmista convida os filhos a ouvir e ensina o temor do Senhor: guardar a língua do mal, afastar-se do mal, fazer o bem, buscar a paz e segui-la (vv. 12-14). Afirma que o Senhor está perto dos que têm o coração quebrantado (v. 18) e que muitas são as aflições do justo, mas o Senhor o livra de todas (v. 19). O salmo não promete ausência de aflições. Promete livramento dentro delas. O versículo 20 afirma que Deus guarda todos os ossos do justo, de modo que nenhum deles se quebra.
O Salmo 40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) começa com um dos testemunhos mais vivos do Saltério. O salmista esperou com paciência. A expressão hebraica qavvoh qivviti repete o verbo, algo como "esperei, esperei", indicando intensidade e perseverança. Deus se inclinou, ouviu o clamor, tirou-o de uma cova de destruição e de um lodo profundo, firmou seus pés numa rocha e pôs em sua boca um cântico novo (vv. 1-3). O resultado vai além do indivíduo: muitos verão, temerão e confiarão no Senhor.
Os versículos 6-8 contêm uma declaração profética. Deus não deseja sacrifícios e ofertas como substitutos da obediência. O hebraico diz, literalmente, que Deus escavou (karah) os ouvidos do salmista, isto é, abriu seus ouvidos para escutar e obedecer. A Septuaginta traduziu a frase de outro modo, como a preparação de um corpo, e é essa versão que Hebreus 10:5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) citará. O salmista declara então que vem, conforme está escrito no rolo do livro a seu respeito, e que tem prazer em fazer a vontade de Deus, porque a lei está dentro do seu coração. Ele anunciou essa justiça na grande congregação sem conter os lábios (vv. 9-10).
A parte final do salmo (vv. 11-17) volta ao lamento e reaparece quase idêntica como Salmo 70 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). É um lembrete de que a gratidão por um livramento passado não elimina novas lutas. O salmista termina reconhecendo-se pobre e necessitado, confiante de que o Senhor pensa nele.
O Salmo 116 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o testemunho de alguém que esteve à beira da morte. Os laços da morte o cercaram, as angústias do Sheol o alcançaram, e ele encontrou aflição e tristeza (v. 3). Então invocou o nome do Senhor, e foi livrado. O salmo começa com uma declaração de amor motivada pela oração ouvida: o salmista ama o Senhor porque ele ouviu sua voz (v. 1). Em seguida, ele fala à própria alma, convidando-a a voltar ao seu descanso, porque o Senhor lhe fez bem (v. 7). E promete andar diante do Senhor na terra dos viventes (v. 9).
O versículo 10, na versão da Septuaginta, diz que o salmista creu e por isso falou. Paulo cita essa frase em 2 Coríntios 4:13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) para descrever o espírito de fé que o levava a pregar mesmo em meio às tribulações. Os versículos 12-14 formulam a pergunta que todo livramento desperta: o que retribuir ao Senhor por todos os seus benefícios? A resposta não é um pagamento, e sim um gesto de culto. O salmista levantará o cálice da salvação, provavelmente a libação que acompanhava a oferta de gratidão, invocará o nome do Senhor e cumprirá os seus votos diante de todo o povo.
O versículo 15 afirma que a morte dos fiéis é preciosa (yaqar) aos olhos do Senhor. A palavra significa "de alto valor", "custosa". O sentido não é que Deus deseje a morte dos seus, e sim que ela tem para ele um peso tão grande que ele não a permite levianamente. O Salmo 116 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) faz parte do Hallel pascal (Sl 113–118 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), provavelmente cantado por Jesus e seus discípulos na noite da última Ceia (Mt 26:30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O Salmo 118 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) encerra o Hallel e é um dos salmos mais citados no Novo Testamento. Martinho Lutero o chamou de "meu salmo" e escreveu sobre ele a exposição Das schöne Confitemini (1530). Começa e termina com o refrão da misericórdia que dura para sempre (vv. 1-4, 29). O salmista conta que, na angústia, clamou ao Senhor, e ele o respondeu e o colocou em lugar amplo (merchav) (v. 5). O contraste é deliberado: a angústia, em hebraico, é um lugar apertado.
Com o Senhor do seu lado, ele não teme o que um ser humano possa fazer (v. 6). É melhor refugiar-se no Senhor do que confiar em homens, mesmo em príncipes (vv. 8-9). Todas as nações o cercaram como abelhas, mas em nome do Senhor ele as repeliu (vv. 10-12). Foi empurrado para cair, mas o Senhor o ajudou (v. 13). E então vem a afirmação triunfal do versículo 17: não morrerá, mas viverá e anunciará as obras do Senhor. Lutero mandou escrever esse versículo, com notas musicais, na parede de seu quarto no castelo de Coburgo, em 1530, num momento de grande tensão.
Os versículos 19-27 descrevem uma procissão até o templo. O salmista pede que se abram as portas da justiça (vv. 19-20). Declara então que a pedra rejeitada pelos construtores se tornou a principal pedra de esquina, que isso foi obra do Senhor e é maravilhoso aos olhos do povo, e que este é o dia que o Senhor fez (vv. 22-24). Segue-se a súplica hoshi'a na, "salva, por favor", a origem da palavra "hosana". Depois vem a bênção sobre quem chega em nome do Senhor e a ordem de amarrar o sacrifício festivo às pontas do altar (vv. 25-27).
A contribuição do bloco para o livro e para a Bíblia. Este bloco mostra o fruto maduro da fé que passou pela crise. A confiança dos Salmos 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), 62 e 91 não é otimismo: é a certeza de que Deus está presente no vale, no silêncio e no perigo. A gratidão dos Salmos 30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), 40 e 116 não é apenas emoção: é testemunho público que convida a comunidade a louvar. E vários desses salmos, especialmente os Salmos 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), 40 e 118, tornaram-se no Novo Testamento textos centrais para anunciar a ressurreição, a encarnação e a rejeição e exaltação de Jesus.
Visão cristocêntrica
Salmo 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): a ressurreição. No primeiro sermão da Igreja, no dia de Pentecostes, Pedro cita Salmo 16:8-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e faz um argumento direto. Davi morreu e foi sepultado, e seu túmulo ainda estava entre eles. Portanto, não podia estar falando de si mesmo quando disse que o Santo de Deus não veria corrupção. Como profeta, Davi previu a ressurreição do Cristo, e Deus ressuscitou Jesus (At 2:25-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo faz o mesmo argumento em Antioquia da Pisídia: Davi viu corrupção, mas aquele a quem Deus ressuscitou não a viu (At 13:35-37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A confiança do salmista, de que Deus não o abandonaria à morte, encontrou seu cumprimento pleno no túmulo vazio.
Salmo 40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): a encarnação. Hebreus 10:5-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) coloca as palavras de Salmo 40:6-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), na versão grega, na boca de Cristo ao entrar no mundo. Os sacrifícios de animais não agradavam a Deus, mas um corpo foi preparado para o Filho, e ele veio para fazer a vontade de Deus. Por essa vontade, cumprida na oferta do corpo de Jesus uma vez por todas, somos santificados. A obediência perfeita que o salmista desejava foi vivida por Cristo, e seu corpo se tornou o sacrifício definitivo.
Salmo 118 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): a pedra rejeitada e o Rei que chega. Na entrada triunfal em Jerusalém, a multidão aclamou Jesus com as palavras de Salmo 118:25-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): hosana, e a bênção sobre aquele que vem em nome do Senhor (Mt 21:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 11:9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 12:13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Dias depois, após contar a parábola dos lavradores maus, Jesus se identificou com a pedra rejeitada pelos construtores que se tornou pedra angular (Mt 21:42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 12:10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 20:17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pedro repetiu diante do Sinédrio que Jesus era essa pedra desprezada pelos líderes (At 4:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e ensinou que os crentes, como pedras vivas, são edificados sobre ela (1 Pe 2:4-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo afirma que a Igreja está edificada sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, tendo o próprio Cristo como pedra angular (Ef 2:20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Hebreus retoma o versículo 6 para encorajar os cristãos: o Senhor é o ajudador, e não há o que temer (Hb 13:6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Como o Salmo 118 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) encerrava o Hallel pascal, é muito provável que Jesus o tenha cantado na noite da última Ceia, antes de sair para o Getsêmani.
Salmo 34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): os ossos do Cordeiro. João relata que os soldados não quebraram as pernas de Jesus e afirma que isso cumpriu a Escritura segundo a qual nenhum de seus ossos seria quebrado (Jo 19:36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A referência pode ser tanto ao Salmo 34:20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), sobre o justo cujos ossos Deus guarda, quanto a Êxodo 12:46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), sobre o cordeiro pascal. Muitos comentaristas entendem que João tinha as duas passagens em mente: Jesus é ao mesmo tempo o Justo sofredor e o Cordeiro da Páscoa. Pedro também retoma o convite a provar a bondade do Senhor (1 Pe 2:3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e cita Salmo 34:12-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) como orientação para a vida cristã (1 Pe 3:10-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Salmo 91 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): a tentação. O diabo citou este salmo para tentar Jesus (Mt 4:6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A resposta de Jesus revela a verdadeira confiança que o salmo descreve. Ele não precisou provar que Deus o protegeria, porque confiava no Pai. Ironicamente, o Filho a quem o salmo prometia proteção angélica escolheu depois não pedir os anjos que poderia ter recebido (Mt 26:53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e caminhou para a cruz. A promessa do salmo se cumpriu de outro modo: Deus esteve com ele na angústia e lhe mostrou a sua salvação na ressurreição.
Salmo 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): o Bom Pastor. O Novo Testamento não cita o Salmo 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) diretamente, mas a conexão é uma das mais claras de toda a Escritura. Deus havia prometido, por meio de Ezequiel, que ele mesmo apascentaria suas ovelhas e suscitaria um pastor da linhagem de Davi (Ez 34:11-16, 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus declara ser o bom pastor, que conhece suas ovelhas pelo nome e dá a vida por elas (Jo 10:11-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Pastor do Salmo 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que conduz pelo vale da sombra da morte, em Jesus atravessou esse vale no lugar das ovelhas. Ele é chamado o grande Pastor ressuscitado (Hb 13:20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o Pastor e Bispo das almas (1 Pe 2:25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e o Supremo Pastor (1 Pe 5:4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No Apocalipse, o Cordeiro se torna pastor e conduz os redimidos às fontes das águas da vida (Ap 7:17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A mesa preparada evoca a Ceia do Senhor, e a casa onde o salmista deseja habitar aponta para as muitas moradas que Jesus foi preparar (Jo 14:2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Essas últimas conexões são temáticas.
Salmos 116 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 62. Paulo cita Salmo 116:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) para explicar o espírito de fé que o faz falar mesmo em meio à tribulação (2 Co 4:13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o cálice da salvação encontra eco temático no cálice da nova aliança que Jesus ofereceu na Ceia (Lc 22:20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A afirmação de Salmo 62:12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), de que Deus retribui a cada um segundo suas obras, é retomada por Jesus (Mt 16:27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e por Paulo (Rm 2:6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), no contexto do juízo final exercido pelo Filho.
Salmos 27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), 30 e 139 (conexões temáticas). O Senhor que era a luz do salmista (Sl 27:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) se apresenta em Jesus como a luz do mundo (Jo 8:12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O choro que dura uma noite e a alegria que chega pela manhã (Sl 30:5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) ganham seu sentido mais pleno na manhã da ressurreição, quando a tristeza dos discípulos se converteu em alegria, como Jesus havia prometido (Jo 16:20-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o Deus que conhece cada pensamento no Salmo 139 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) se revela em Jesus, que conhecia o que havia no coração humano (Jo 2:24-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e diante de quem nada está oculto (Hb 4:13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Aplicações espirituais e práticas
1. Entender que confiar não é estar imune ao perigo. O Salmo 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não promete que o crente evitará o vale da sombra da morte. Promete que não o atravessará sozinho. O Salmo 91 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), lido corretamente, não é um amuleto, e o próprio Jesus recusou usá-lo para forçar Deus a agir. A confiança madura une fé e prudência, como Lutero ensinou durante a peste. Cuida-se da saúde, das finanças, da segurança e das decisões com responsabilidade, sabendo que a vida está nas mãos de Deus, e não nas nossas precauções.
2. Aprender a repousar em silêncio. O Salmo 62 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) descreve uma alma que encontra descanso somente em Deus. Numa rotina de agenda cheia, notificações constantes e preocupações com resultados, essa é uma prática contracultural. Reservar diariamente alguns minutos de silêncio diante de Deus, sem pedidos e sem pressa, ajuda a reordenar o coração. O mesmo salmo adverte sobre o dinheiro. Quando as riquezas aumentam, o perigo é pôr nelas o coração, porque elas pesam menos que um sopro na balança de Deus.
3. Transformar a gratidão em testemunho. Os salmos de ação de graças mostram que a gratidão bíblica é pública. O salmista não agradece apenas em segredo: conta o que Deus fez na grande congregação (Sl 40:9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Uma aplicação concreta é compartilhar os livramentos e as respostas de oração com a família, com os amigos e com a igreja. Isso honra a Deus e fortalece a fé dos outros. Reunir pessoas para celebrar uma bênção recebida, como na antiga oferta de gratidão, também é uma forma bíblica de agradecer.
4. Vigiar a autossuficiência nos tempos de sucesso. O Salmo 30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) traz uma confissão preciosa. Na prosperidade, o salmista pensou que nunca seria abalado. A segurança que vem dos resultados, dos contratos fechados, da empresa estável ou da saúde em dia pode substituir sem que se perceba a confiança em Deus. A aplicação é cultivar, justamente nos dias bons, a dependência e a gratidão, reconhecendo que tudo o que se tem é favor de Deus.
5. Descansar em ser conhecido por Deus. O Salmo 139 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) oferece uma identidade firme. Cada pessoa foi formada por Deus com cuidado, é conhecida por inteiro e não pode se esconder nem se perder da presença dele. Isso liberta da necessidade de construir uma imagem para ser aceito. Ao mesmo tempo, o salmo termina com um pedido de exame: que Deus sonde o coração e mostre o que precisa ser mudado. Uma prática útil é encerrar o dia orando os versículos 23-24, pedindo que Deus revele qualquer caminho errado e conduza pelo caminho eterno.
6. Ver a mão de Deus nas rejeições. O Salmo 118 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) celebra a pedra rejeitada que se tornou a principal pedra do edifício. Na vida profissional e pessoal, há portas fechadas, projetos recusados e momentos de rejeição que parecem definitivos. O salmo lembra que Deus tem o hábito de construir justamente com o que os outros descartaram, e que isso é obra dele, maravilhosa aos nossos olhos. Isso também muda o modo de olhar para os outros: a pessoa ou a ideia que hoje é desprezada pode ser a que Deus pretende usar.
7. Responder ao livramento com entrega. O Salmo 116 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) pergunta o que retribuir a Deus por seus benefícios. Não se pode pagar a graça, mas pode-se responder a ela: invocando o nome do Senhor, cumprindo os compromissos feitos nos momentos de aflição e colocando a vida a serviço dele. Muitas pessoas fazem promessas a Deus na hora da crise e as esquecem quando a crise passa. O salmista cumpre os seus votos diante de todo o povo.
Mensagem de reflexão
Sabedoria para o Cotidiano
A confiança que o Saltério ensina não é a de quem nunca passou pelo vale, e sim a de quem o atravessou de mãos dadas com o Pastor. Esse Pastor, em Cristo, desceu ao vale mais escuro em nosso lugar, venceu a morte e se tornou a pedra que sustenta o edifício da nossa vida. Descanse nele em silêncio, conte aos outros o que ele já fez por você e lembre-se, quando a noite parecer longa, de que o choro é apenas um hóspede de passagem: a alegria chega pela manhã.