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Salmos · 19 de 66 · Antigo Testamento

Salmos — Bloco 8: O Clamor por Justiça: Os Salmos Imprecatórios

Capítulos principais

Salmos e versículos: Salmo 35:1-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Salmo 58:1-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Salmo 69:1-36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Salmo 109:1-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Salmo 137:1-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).

Tema central do bloco

Este é o bloco mais difícil do Saltério. Os salmos aqui reunidos são chamados imprecatórios, de imprecação: um pedido para que Deus faça cair o juízo, a desgraça ou a maldição sobre alguém. Neles, o salmista não apenas lamenta o mal sofrido. Ele pede que Deus puna, confunda e destrua os que o praticaram, às vezes com imagens de violência que chocam o leitor moderno.

Imprecações aparecem em muitos salmos (por exemplo, Sl 5:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 7:6-9; 28:4; 55:15; 59:11-13; 79:6, 12; 83:9-18; 139:19-22; 140:9-11). Mas em cinco deles ocupam lugar central. O Salmo 35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o clamor de um inocente perseguido por falsas testemunhas. O Salmo 58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) acusa juízes corruptos. O Salmo 69 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o lamento de quem sofre por zelo pela casa de Deus. O Salmo 109 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) traz a série mais extensa de maldições do Saltério. O Salmo 137 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o grito dos exilados às margens dos rios da Babilônia.

O problema teológico é evidente. Jesus ensinou a amar os inimigos e orar pelos que perseguem (Mt 5:44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e na cruz pediu perdão para seus executores (Lc 23:34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo manda abençoar os que perseguem e não amaldiçoar (Rm 12:14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Como, então, esses salmos fazem parte da Escritura cristã, e como podem ser orados?

Este bloco não oferece uma resposta simplista. Apresenta, com honestidade, o que os textos dizem, as principais leituras que a tradição e os estudiosos propõem e o modo como o Novo Testamento os retoma. Esse último ponto é surpreendente: o Novo Testamento cita dois deles (Sl 69 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 109) ao falar da paixão de Jesus e da traição de Judas.

O fio que une o bloco é a sede de justiça. Por baixo da linguagem violenta está a convicção de que o mal é real, de que as vítimas importam e de que Deus não é indiferente. E está algo que muitos leitores não percebem: o salmista entrega a vingança a Deus, em vez de executá-la com as próprias mãos.

Versículos-chave do Livro estudado

Versículos relacionados em outros capítulos ou Livros da Bíblia

Explicação teológica e bíblica

O problema, nomeado com honestidade. C. S. Lewis dedicou a esses salmos um capítulo inteiro de Reflections on the Psalms (1958), intitulado "The Cursings" ("As Maldições"). Ele não os suavizou. Chamou partes deles de diabólicas e afirmou que o ódio neles expresso é real e que seria errado imitá-lo. Mas acrescentou duas observações que se tornaram clássicas. A primeira é que esses salmos mostram o efeito natural da injustiça sobre a vítima: o mal praticado contra alguém tende a produzir ódio, e isso é também uma forma de medir a gravidade do mal cometido. A segunda é que a ausência completa de indignação diante da injustiça pode ser um sinal pior do que a indignação excessiva. Pode revelar indiferença moral, uma incapacidade de levar a sério a diferença entre o bem e o mal. Os antigos israelitas, dizia Lewis, amaldiçoavam com mais intensidade do que os povos vizinhos justamente porque levavam o certo e o errado mais a sério.

A pergunta, então, não é apenas o que fazer com esses salmos, mas o que eles revelam: sobre o mal, sobre as vítimas e sobre o Deus a quem se dirigem.

As principais leituras. Estudiosos e teólogos propuseram diferentes caminhos para compreender esses textos. Eles não se excluem necessariamente, e vários podem ser combinados.

1. Expressão honesta levada a Deus. Para muitos intérpretes, como Walter Brueggemann e Erich Zenger (A God of Vengeance? Understanding the Psalms of Divine Wrath, 1996), as imprecações são antes de tudo a verbalização de uma raiva real diante de uma injustiça real. O ponto decisivo é o destinatário. O salmista não fala aos inimigos nem age contra eles: fala a Deus. A oração se torna o lugar onde a fúria é depositada em vez de executada. Zenger argumenta que esses salmos são, no fundo, um protesto contra a violência e uma renúncia à vingança pessoal, porque transferem o direito de julgar para Deus.

2. A lógica da aliança e da justiça. Outros, como Derek Kidner em seu comentário aos Salmos (1973), lembram que as imprecações se inserem na lógica da aliança. Deus prometeu a Abraão amaldiçoar os que o amaldiçoassem (Gn 12:3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a própria aliança do Sinai incluía bênçãos e maldições (Dt 27–28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmista, especialmente quando é o rei, pede que Deus cumpra o que prometeu. Nessa linha, o termo hebraico traduzido por "vingança", naqam, não significa necessariamente um desejo pessoal de revanche. George Mendenhall, em The Tenth Generation (1973), mostrou que em muitos contextos naqam designa a ação de uma autoridade legítima para restaurar a justiça e vindicar o inocente. É linguagem de tribunal, não de rancor.

3. A entrega da vingança a Deus. Esta leitura destaca algo presente no próprio texto: o salmista não toma a vingança nas próprias mãos. Isso é coerente com a lei (Dt 32:35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), com a sabedoria (Pv 20:22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e com a vida de Davi, que duas vezes teve Saul à sua mercê e se recusou a matá-lo, entregando a causa ao juízo de Deus (1 Sm 24:12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 26:9-11). O Salmo 35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) mostra o mesmo homem que pede o juízo de Deus sobre seus perseguidores relembrando que, quando eles estavam doentes, ele jejuou, orou e chorou por eles como por um irmão (35:13-14). A imprecação não nasce de um coração sem compaixão. Nasce de quem pagou o mal com o bem e foi traído.

4. A leitura cristológica e escatológica. Dietrich Bonhoeffer, num sermão sobre o Salmo 58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) pregado em 1937, sob o regime nazista, propôs a leitura mais profunda e mais exigente. Para ele, a vingança de Deus contra o pecado é real e não pode ser eliminada da Bíblia. Mas essa vingança caiu, na cruz, sobre o próprio Cristo, que a suportou em lugar dos pecadores e, por isso, pôde pedir perdão para seus inimigos. Assim, o cristão só pode orar esses salmos por meio da cruz: entregando a Deus a justiça e sabendo que o juízo que ele pede caiu primeiro sobre Jesus. Ao mesmo tempo, as imprecações apontam para o juízo final, quando Deus fará justiça definitiva a todas as vítimas da história. O próprio Novo Testamento mantém essa esperança nos mártires que perguntam até quando Deus deixará de julgar (Ap 6:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e no céu que se alegra com a queda da Babilônia (Ap 18:20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 19:1-2).

Uma posição mais antiga, hoje pouco defendida, considerava esses salmos simplesmente "sub-cristãos", expressão de uma ética superada que deveria ser rejeitada. O problema dessa leitura é que ela não explica por que o Novo Testamento cita os Salmos 69 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 109 como Escritura que aponta para Cristo.

O inocente diante do tribunal (Sl 35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é construído com linguagem jurídica e militar. O verbo inicial, riv, significa "pleitear", "defender uma causa em juízo". O salmista pede que o Senhor seja seu advogado e seu guerreiro, que tome escudo e lança contra os perseguidores e diga à sua alma que ele é a sua salvação (vv. 1-3). O centro do salmo é a acusação de injustiça. Testemunhas violentas o interrogam sobre coisas que ele não sabe e lhe pagam o mal pelo bem (vv. 11-12). E, quando esses mesmos adversários estavam doentes, ele vestiu pano de saco, humilhou-se com jejum e orou por eles como por um amigo ou irmão, andando curvado como quem chora a própria mãe (vv. 13-14). Agora, porém, eles zombam de sua queda. O salmista pede que não se alegrem sobre ele os que o odeiam sem motivo (v. 19), expressão que Jesus retomará. O salmo termina com o voto de louvor: a língua do salmista falará da justiça de Deus o dia inteiro (v. 28).

Contra os juízes corruptos (Sl 58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é dirigido contra os que exercem autoridade judicial. O versículo 1 pergunta se eles realmente falam com justiça e julgam com retidão. O termo hebraico que designa os destinatários é discutido: alguns leem 'elim, "poderosos" ou "deuses", uma referência irônica a governantes que se consideram divinos; outros leem uma palavra que significa "em silêncio". De qualquer modo, o alvo são os que deveriam defender a justiça e a pervertem, tramando a iniquidade no coração e pesando violência com as próprias mãos (v. 2). Eles são comparados a uma serpente surda que não ouve o encantador (vv. 4-5).

As imagens dos versículos 6-9 são duras: pedem que Deus quebre os dentes dos leões, faça os ímpios escorrerem como água, murcharem como a lesma que se desfaz, desaparecerem como um aborto que não vê o sol. A intenção é pedir que Deus desarme o poder dos opressores e o faça desaparecer. O versículo 10 fala da alegria dos justos ao ver a vingança. A conclusão, no versículo 11, revela o motivo teológico de tudo: que os homens reconheçam que há recompensa para o justo e que há um Deus que julga na terra. O salmo é, no fundo, um clamor contra a impunidade dos poderosos e pela restauração da confiança na justiça.

O sofredor consumido pelo zelo (Sl 69 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Depois dos Salmos 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 110, o Salmo 69 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o mais citado do Saltério no Novo Testamento. Começa como um lamento profundo. O salmista está afundando em águas que chegam ao pescoço, no lodo sem apoio. Está cansado de clamar, com a garganta seca e os olhos gastos de esperar (vv. 1-3). Os que o odeiam sem motivo são mais numerosos que os cabelos da sua cabeça (v. 4). Ele reconhece suas próprias faltas diante de Deus (v. 5), mas a razão principal de seu sofrimento é outra: ele suporta afronta por causa de Deus. Tornou-se estranho para os irmãos, porque o zelo pela casa de Deus o consome, e as afrontas dirigidas a Deus caíram sobre ele (vv. 7-9). Ele buscou compaixão e não encontrou, consoladores e não os achou. Em vez disso, deram-lhe fel como alimento e vinagre para a sede (vv. 20-21).

Só então vêm as imprecações (vv. 22-28): que a mesa dos perseguidores se torne armadilha, que seus olhos escureçam, que a ira de Deus os alcance, que sua morada fique deserta, que sejam riscados do livro da vida. E, de novo, o salmo se volta para o louvor (vv. 30-36). O salmista louvará o nome de Deus com cântico, o que agradará ao Senhor mais do que um sacrifício de touro. Os humildes verão e se alegrarão. Deus salvará Sião, e os que amam seu nome habitarão nela.

A oração em resposta ao ódio (Sl 109 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 109 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) tem a série de maldições mais longa do Saltério (vv. 6-19): que o acusador seja julgado e condenado, que seus dias sejam poucos, que outro tome o seu cargo, que seus filhos fiquem órfãos e sua memória seja apagada. A passagem é perturbadora. No entanto, há dois elementos no salmo que mudam o modo de lê-la.

O primeiro está no versículo 4. Em troca do seu amor, os adversários o acusam, e o salmista diz, literalmente em hebraico, wa'ani tefillah: "e eu sou oração". Ele não responde ao ódio com ódio ativo, e sim transformando-se em oração.

O segundo é uma questão de interpretação debatida. Nos versículos 1-5 e 20-31, o salmista fala dos inimigos no plural. Nos versículos 6-19, a maldição se dirige a um indivíduo no singular. O versículo 20 diz que essa é a recompensa dos seus acusadores. Por isso, estudiosos como Hans-Joachim Kraus propuseram que os versículos 6-19 sejam uma citação das maldições que os inimigos lançaram contra o salmista, que ele leva a Deus pedindo que recaiam sobre quem as proferiu. Algumas traduções modernas chegam a introduzir a passagem com uma expressão como "eles dizem". A hipótese é plausível mas não consensual. A leitura tradicional entende as maldições como palavras do próprio salmista.

O salmo termina com uma imagem de grande beleza: o Senhor se põe à direita do necessitado para salvá-lo dos que o condenam (v. 31). No tribunal antigo, o acusador ficava à direita do réu (Zc 3:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aqui, quem se coloca ali é o próprio Deus, como defensor.

Às margens dos rios da Babilônia (Sl 137 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 137 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o único salmo situado explicitamente no exílio. Começa com uma das cenas mais comoventes da Bíblia. Às margens dos rios e canais da Babilônia, os exilados se sentam e choram ao lembrar de Sião. Penduram as harpas nos salgueiros. Seus captores exigem que cantem os cânticos de Sião, como quem pede entretenimento aos vencidos, e eles perguntam como poderiam cantar o cântico do Senhor em terra estrangeira (vv. 1-4). Segue-se um juramento solene: que a mão direita perca a habilidade e a língua se cole ao céu da boca se o salmista esquecer Jerusalém ou não a colocar acima de sua maior alegria (vv. 5-6).

Os versículos 7-9 mudam de tom. O primeiro pedido é que Deus se lembre dos edomitas, que no dia da queda de Jerusalém incitavam a destruição até os alicerces, uma traição de um povo aparentado a Israel que o profeta Obadias também denuncia (Ob 10-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O versículo 8 se dirige à Babilônia, destinada à destruição, e declara feliz quem lhe retribuir o que ela fez. O versículo 9 estende essa bem-aventurança a quem destruir as crianças babilônicas, uma prática de guerra do antigo Oriente que os próprios babilônios haviam praticado (2 Rs 8:12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Os 13:16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Na 3:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que Isaías já anunciara contra a Babilônia (Is 13:16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Este é talvez o versículo mais difícil de toda a Bíblia, e deve ser tratado com seriedade. Ele não é um mandamento nem uma norma moral. É o grito de um povo traumatizado que viu seus próprios filhos mortos, sua cidade queimada e seu templo destruído, e que pede a Deus que a violência recaia sobre quem a praticou, na lógica da retribuição proporcional do mundo antigo. A Escritura registra esse grito com fidelidade, porque ele é real. Mas a própria Escritura não o apresenta como a última palavra. A última palavra está na cruz e no ensino de Jesus sobre os inimigos.

A contribuição do bloco para o livro e para a Bíblia. Os salmos imprecatórios cumprem pelo menos três funções no conjunto da Escritura. Levam a sério o mal: não permitem que a injustiça seja minimizada, espiritualizada ou esquecida. Dão voz às vítimas: autorizam quem sofreu violência a expressar diante de Deus o que sente, sem precisar fingir um perdão que ainda não amadureceu. E afirmam a justiça de Deus: sustentam a esperança de que haverá um dia em que o mal será julgado e a verdade vindicada. Ao mesmo tempo, lidos à luz de todo o cânon, esses salmos precisam da cruz para serem entendidos. É nela que a justiça que eles pedem e a misericórdia que Jesus ensinou se encontram.

Visão cristocêntrica

Conexões diretas: o Salmo 69 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e a paixão. O Novo Testamento lê o Salmo 69 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) como uma oração que se cumpre em Jesus.

O mais significativo é que Jesus assumiu o sofrimento do salmista, mas não reproduziu suas imprecações. Na cruz, em vez de pedir que a mesa de seus inimigos se tornasse armadilha, pediu ao Pai que os perdoasse (Lc 23:34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

As imprecações aplicadas no Novo Testamento. O Novo Testamento também cita os trechos imprecatórios. Pedro aplica Salmo 69:25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Salmo 109:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) a Judas e à necessidade de escolher outro para ocupar seu lugar entre os apóstolos (At 1:16-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo cita Salmo 69:22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) para descrever o endurecimento de parte de Israel diante do evangelho (Rm 11:9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas logo acrescenta que esse endurecimento é parcial e temporário e que Deus tem um propósito de misericórdia para todos (Rm 11:25-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Novo Testamento, portanto, não descarta a realidade do juízo de Deus. O que muda é o papel do crente: ele não executa o juízo, entrega-o a Deus e, enquanto isso, ama e ora pelos inimigos.

Cristo, o que se fez maldição. A conexão mais profunda é teológica. As imprecações pedem que a maldição caia sobre os culpados. O evangelho anuncia que Cristo se fez maldição por nós para nos resgatar da maldição (Gl 3:13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Bonhoeffer via nisso a chave para ler esses salmos: a vingança de Deus é real, mas caiu sobre Jesus. Por isso o cristão, que também é culpado diante de Deus, não pode orar esses salmos como quem se coloca do lado inocente de uma linha que separa bons e maus. Precisa orá-los reconhecendo que o juízo que pede para os outros cairia sobre ele mesmo, não fosse a cruz.

O Juiz que vem. As imprecações esperam que Deus faça justiça na terra (Sl 58:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Novo Testamento confirma que essa justiça será feita por meio de Cristo, a quem o Pai confiou todo o julgamento (Jo 5:22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 17:31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O mesmo Jesus que ordenou amar os inimigos pronunciou ais contra os líderes religiosos hipócritas (Mt 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e advertiu sobre o juízo. O amor cristão pelos inimigos não nasce da indiferença ao mal. Nasce da confiança de que Deus fará justiça, o que liberta o crente da necessidade de fazê-la por conta própria (Rm 12:19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Apocalipse mostra que a oração dos mártires por justiça será respondida (Ap 6:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 19:1-2), e que o lamento dos exilados da Babilônia terá sua resposta na queda da "Babilônia" final, símbolo de todo poder opressor.

Aplicações espirituais e práticas

1. Levar a raiva a Deus, em vez de agir sobre ela. Os imprecatórios ensinam que a raiva diante da injustiça não precisa ser negada nem escondida. Pode e deve ser levada a Deus. Quem foi traído por um sócio, caluniado, lesado num negócio ou ferido por alguém próximo pode dizer a Deus exatamente o que sente. O salmista mostra o caminho: a fúria é depositada na oração, e não despejada sobre o outro. Muitas vezes, depois de dita a Deus, a raiva perde parte de seu poder destrutivo.

2. Não se tornar indiferente à injustiça. Lewis tinha razão: um cristianismo que nunca se indigna diante do mal corre o risco de se tornar cúmplice dele. O Salmo 58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é um clamor contra a corrupção dos que deveriam fazer justiça. Os cristãos são chamados a amar os inimigos, mas também a defender as vítimas, apoiar instituições justas, denunciar a corrupção e exigir responsabilidade dos poderosos. Amor e justiça não se opõem.

3. Buscar justiça pelos meios legítimos, sem vingança pessoal. A entrega da vingança a Deus não significa passividade. O Novo Testamento reconhece que as autoridades existem para punir o mal (Rm 13:3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quem foi lesado pode recorrer aos tribunais, às instâncias de controle e aos meios legais de reparação. O que o crente não deve fazer é transformar a busca de justiça em vendeta pessoal, desejando a destruição do outro além do que a justiça exige. Uma pergunta útil diante de um conflito é: estou buscando reparação ou estou buscando ferir?

4. Caminhar da imprecação para a intercessão. O Salmo 109 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) mostra alguém que responde ao ódio fazendo-se oração. A experiência de muitos cristãos confirma um processo: primeiro se consegue orar com honestidade sobre o inimigo; com o tempo, torna-se possível orar pelo inimigo. Não é preciso começar pelo fim. Mas também não é bom parar no começo. O caminho vai do Salmo 109 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) a Lucas 23:34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).

5. Acolher as vítimas sem apressar o perdão. O Salmo 137 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o grito de pessoas traumatizadas. Diante de vítimas de violência, abuso ou injustiça grave, os imprecatórios ensinam que não se deve exigir um perdão imediato nem condenar a dor e a raiva que elas sentem. O perdão cristão é real e necessário, mas costuma ser um processo que leva tempo. Acompanhar alguém nesse caminho exige escuta, paciência e, muitas vezes, apoio pastoral e profissional.

6. Examinar-se diante desses salmos. Uma aplicação humilde é ler as imprecações perguntando não apenas "quem são meus inimigos?", mas também "em que situações eu fui o opressor, o juiz injusto, o acusador, o traidor?". O Salmo 58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) fala também a quem exerce poder: juízes, gestores, pais, líderes. Antes de pedir que Deus julgue os outros, convém pedir que ele sonde o próprio coração (Sl 139:23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Mensagem de reflexão

Sabedoria para o Cotidiano
Deus não pede que você finja que o mal não doeu nem que a injustiça não importa. Ele recebe o seu grito, a sua raiva e o seu pedido de justiça, e promete que nenhuma lágrima das vítimas será esquecida. Mas na cruz você vê para onde foi o juízo que todos merecíamos: sobre o próprio Cristo, que pediu perdão por quem o feria. Entregue a Deus a causa que você não consegue resolver, busque justiça sem sede de vingança e deixe que, com o tempo, a sua imprecação se transforme em oração pelo inimigo.

Interpretação e comentários da Bíblia, sob direção editorial de José Carlos Fortes. Conteúdo elaborado com apoio de inteligência artificial, sob curadoria e revisão editorial. Esta página não reproduz texto bíblico protegido: traz referência, interpretação e comentário.