Apocalipse · 66 de 66 · Novo Testamento
Apocalipse — Capítulo 17
Título do capítulo: A cidade sedutora e o Cordeiro vencedor
Gênero literário: Apocalipse profético — visão de juízo com interpretação angélica (a grande prostituta sentada sobre a besta, o mistério das sete cabeças e dos dez chifres, a guerra contra o Cordeiro, que vence como Senhor dos senhores e Rei dos reis, e a cidade devorada pelos próprios aliados)
Número de versículos: 18
Nota de precisão: este estudo segue a numeração das Bíblias em português. A apresentação do livro inteiro (autoria, data, gênero, estrutura, cânon e escolas de interpretação) está no estudo do capítulo 1; o estudo do capítulo 16 apresentou as sete taças, e uma delas está nas mãos do anjo que guia esta visão. Nenhum versículo é transcrito: o nome escrito na fronte da mulher, a explicação do anjo e as alusões a Jeremias 51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Isaías 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Ezequiel 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 23, Naum 3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Daniel 7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) são resumidos e explicados. O ponto de texto do v. 8 é tratado no lugar próprio. As datas são aproximadas, e as ligações com imperadores romanos são hipóteses de estudiosos, não afirmações do texto.
Uma palavra pastoral: este capítulo usa a imagem de uma prostituta para falar de uma cidade e de um sistema de poder, e ao longo da história ela foi usada como arma: contra mulheres, contra a Igreja Católica e outras igrejas, contra o povo judeu, contra nações e governos de cada época. Nenhum desses usos é fiel ao texto. A imagem denuncia a sedução do poder e do dinheiro, na linguagem dos profetas de Israel; não é um retrato das mulheres, e a violência do v. 16 é imagem do mal que se destrói a si mesmo, nunca um modelo. Se você vive uma situação de violência em casa, saiba que ela é crime e pecado, e que a Lei Maria da Penha existe para proteger você; procure ajuda.
🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural
Duas cidades, duas mulheres
O capítulo 16 terminou com Deus se lembrando de Babilônia, a grande, para lhe dar a taça da sua ira (16.19). Os capítulos 17 a 19 desdobram essa linha: o 17 mostra quem é Babilônia, o 18 canta a sua queda e o lamento dos que lucravam com ela, e o 19 abre com o aleluia do céu e com as bodas do Cordeiro. A visão começa com uma fórmula que o livro repetirá quase igual: um dos sete anjos das taças chama João para lhe mostrar uma mulher (17.1). Em 21.9, outro desses anjos usa o mesmo convite para mostrar a noiva, a esposa do Cordeiro. Muitos estudiosos, como Richard Bauckham e Barbara Rossing, leem o final do Apocalipse como a história de duas cidades: Babilônia, a prostituta, e a nova Jerusalém, a noiva. A primeira seduz e explora; a segunda é dom de Deus, e nela as nações encontram cura.
A forma também é própria. Na maior parte do livro, João vê e conta; aqui, um anjo explica a visão, como o intérprete que explicou as feras a Daniel (Dn 7.15-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e os anjos que respondiam a Zacarias (Zc 1–6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A explicação, porém, é ela mesma enigmática, e pede a sabedoria que o v. 9 menciona.
A cidade das sete colinas
Para os primeiros leitores, havia uma cidade que reinava sobre os reis da terra (v. 18) e que poetas latinos, como Virgílio e Horácio, chamavam de cidade das sete colinas (v. 9): Roma. Na Ásia, Roma era também uma deusa. Pérgamo tinha desde 29 a.C. um templo dedicado à deusa Roma e a Augusto, e uma moeda de Vespasiano, do ano 71, mostra a deusa Roma sentada sobre sete colinas junto ao Tibre. Muitos comentaristas veem no capítulo uma inversão deliberada dessa imagem: a deusa venerada nas cidades da Ásia aparece, aos olhos de João, como uma cortesã de luxo que vende favores aos reis e embriaga as nações.
O nome Babilônia vem dos profetas. A Babilônia de Nabucodonosor destruiu Jerusalém e o templo em 586 a.C.; depois que Roma destruiu Jerusalém e o segundo templo no ano 70, escritos judaicos como o 2 Baruc, o 4 Esdras e o quinto livro dos Oráculos Sibilinos passaram a chamar Roma de Babilônia, como faz também 1 Pedro, segundo a leitura mais comum (1Pe 5.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em acordo com o estudo de 1 Pedro 5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
Nero, o que voltaria
A comunidade de João guardava a memória de Nero. Depois do incêndio de Roma, em 64, ele lançou a culpa sobre os cristãos e mandou matar muitos deles com crueldade, como conta Tácito (Anais 15.44); a tradição põe nesse tempo o martírio de Pedro e de Paulo. Em 68, deposto, Nero se matou. Logo correu o boato de que não tinha morrido, ou de que voltaria, vindo do Oriente à frente dos partos, para retomar o poder. Apareceram falsos Neros: Tácito conta de um em 69 (Histórias 2.8-9), e Suetônio, de outro, apoiado pelos partos, cerca de vinte anos depois (Nero 57). Os livros 4 e 5 dos Oráculos Sibilinos falam do Nero que voltaria do além do Eufrates, e Agostinho ainda registra, com reserva, quem esperava a sua volta (A Cidade de Deus XX, 19). O satirista Juvenal chamou Domiciano de Nero calvo (Sátiras 4.38). Muitos estudiosos pensam que a lenda está por trás da besta ferida de morte que volta a viver (13.3) e da besta que era, não é e vai subir (17.8, 11). É uma hipótese bem fundamentada, mas uma hipótese.
As leituras de Babilônia
As escolas de interpretação, apresentadas no estudo do capítulo 1, leem a prostituta de modos diferentes. A leitura preterista a entende como Roma no primeiro século; uma minoria pensou em Jerusalém, por causa das cores sacerdotais e do sangue dos profetas, e, mesmo aí, o texto nunca autoriza fazer do povo judeu Babilônia (ver o estudo do capítulo 16). A leitura historicista dominou entre muitos reformadores, que, seguindo movimentos dissidentes da Idade Média, identificaram a prostituta com a Roma papal; Lutero chamou um tratado de 1520 de Do cativeiro babilônico da Igreja, e polemistas católicos devolveram a acusação. Este estudo recusa explicitamente essa identificação: a prostituta não é a Igreja Católica nem igreja alguma, e o diálogo das últimas décadas entre católicos, ortodoxos e protestantes, que levou, por exemplo, à Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação, entre luteranos e católicos (1999), ensina outro modo de tratar os irmãos. A leitura futurista espera uma Babilônia do fim: uma cidade reconstruída às margens do Eufrates (a reconstrução de parte das ruínas, no Iraque dos anos 1980, alimentou essa expectativa), uma religião mundial apóstata ou um sistema econômico global. Ao longo do tempo, a prostituta foi identificada também com Nova York, com Washington, com Moscou, com Bruxelas, com a ONU e com o Islã; todas essas identificações fracassaram e espalharam medo e ódio. A leitura idealista vê em Babilônia toda cidade e todo sistema que seduz, enriquece com a exploração e mata os que não se dobram. Muitos comentaristas hoje combinam as leituras: Babilônia era Roma, e Roma é o modelo de algo que volta em toda época.
📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo
Um dos sete anjos das taças chama João para lhe mostrar a sentença da grande prostituta instalada sobre águas numerosas, com quem os reis da terra se prostituíram e com cujo vinho se embriagaram os habitantes da terra (vv. 1-2). Levado pelo Espírito a um deserto, João vê uma mulher sentada sobre uma besta cor de escarlate, de sete cabeças e dez chifres, toda coberta de nomes que insultam a Deus (v. 3). A mulher veste púrpura e escarlate, brilha de ouro, pedras preciosas e pérolas, e segura uma taça de ouro cheia das abominações e das impurezas da sua prostituição (v. 4). Na testa traz um nome que é um mistério: Babilônia, a grande, origem de todas as que se prostituem e de todas as abominações da terra (v. 5). João a vê bêbada, e a bebida é o sangue dos santos e dos que deram testemunho de Jesus; e fica tomado de espanto (v. 6).
O anjo pergunta por que ele se espanta e promete explicar o mistério da mulher e da besta que a carrega (v. 7). A besta existiu, agora não existe e vai subir do abismo, mas o seu caminho é a perdição; e os habitantes da terra que não têm o nome no livro da vida, registrado antes que o mundo fosse fundado, vão ficar maravilhados ao vê-la (v. 8). É preciso sabedoria: as sete cabeças são sete colinas sobre as quais a mulher está sentada, e também sete reis; cinco pertencem ao passado, o sexto está no poder, e o sétimo, ainda por vir, terá um reinado breve. A besta é um oitavo rei, que vem dos sete e também vai para a perdição (vv. 9-11).
Os dez chifres representam dez reis ainda sem reino, que vão governar por uma hora, ao lado da besta. Têm um só propósito e entregam à besta o seu poder. Vão fazer guerra ao Cordeiro, mas a vitória será dele, porque é Senhor dos senhores e Rei dos reis, e com ele vencerão os chamados, escolhidos e fiéis (vv. 12-14).
As águas sobre as quais a prostituta se instala são a humanidade inteira, em toda a variedade de povos e de línguas (v. 15). Os dez chifres e a besta vão odiar a prostituta, deixá-la arrasada e nua, devorar as suas carnes e queimá-la no fogo, porque Deus pôs no coração deles realizar o propósito dele e entregar o reino à besta, até que se cumpram as palavras de Deus (vv. 16-17). E a mulher que João viu é a grande cidade que reina sobre os reis da terra (v. 18).
🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)
Versículos 1-2 — O convite para ver a sentença
Quem chama João é heis ek tōn hepta angelōn tōn echontōn tas hepta phialas, um dos sete anjos das taças. A ligação com o capítulo 16 é direta: a sétima taça fez a grande cidade cair (16.19), e agora o leitor vê quem ela era. O convite, deuro, deixō soi, vem, vou te mostrar, é o mesmo que abrirá a visão da noiva (21.9). O que João vai ver é o krima, a sentença, da pornē hē megalē, a grande prostituta. O capítulo começa pelo veredito: antes de ver o esplendor dela, o leitor sabe que ele já foi julgado.
Ela está kathēmenē epi hydatōn pollōn, instalada sobre águas numerosas. É a linguagem de Jeremias sobre a Babilônia histórica, cidade que morava junto a muitas águas, os canais do Eufrates (Jr 51.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em acordo com o estudo de Jeremias 51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O anjo dará outro sentido às águas no v. 15.
Com ela os reis da terra eporneusan, se prostituíram, e os habitantes da terra se embriagaram com o vinho da sua porneia. A metáfora é antiga nos profetas, sempre aplicada a cidades e povos. Isaías chamou Jerusalém infiel de prostituta (Is 1.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e descreveu Tiro, cidade do comércio marítimo, como uma prostituta que volta a vender-se a todos os reinos, sendo o seu lucro chamado de salário (Is 23.15-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em acordo com o estudo de Isaías 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Naum chamou Nínive de prostituta sedutora, mestra de feitiçarias, que vendia nações (Na 3.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em acordo com o estudo de Naum 3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Ezequiel e Oseias usaram a mesma imagem para a infidelidade de Israel e de Judá (Ez 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 23; Os 1–3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E Jeremias disse que a Babilônia era uma taça de ouro que embriagava a terra (Jr 51.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A prostituição, nos profetas, é a idolatria e as alianças que trocam a confiança em Deus pela segurança do poder e da riqueza. Os reis que se prostituem com Babilônia são os que se aliam a ela para lucrar e governar; os habitantes da terra que se embriagam são os que se deixam entorpecer pela prosperidade que ela promete. O capítulo 18 mostra o lado econômico: reis, mercadores e marinheiros enriquecidos por ela (18.3, 9-19).
É preciso dizer com clareza o que a imagem não é. A prostituta é uma cidade (v. 18), como Tiro, Nínive e Jerusalém nos profetas; não é um retrato das mulheres nem das pessoas que vivem da prostituição. Jesus disse aos líderes religiosos que publicanos e prostitutas entrariam antes deles no Reino (Mt 21.31-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), acolheu a mulher que lhe ungiu os pés (Lc 7.36-50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Raabe está na genealogia de Jesus e entre os heróis da fé (Mt 1.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 11.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Tg 2.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Muitas mulheres em situação de prostituição são vítimas da Babilônia, não a Babilônia: exploradas pela pobreza, pelo tráfico e pela violência, como mostra a carga do capítulo 18, que termina em corpos e almas humanas (18.13).
Versículos 3-6 — A mulher sobre a besta no deserto
O anjo apēnenken me eis erēmon en pneumati, levou João, pelo Espírito, a um deserto. O deserto lembra o oráculo de Isaías sobre o deserto do mar, que anuncia a queda de Babilônia (Is 21.1-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E lembra a outra mulher do livro, a vestida de sol, que fugiu para o deserto e lá foi sustentada por Deus (12.6, 14). Para ver a noiva, João será levado a um monte alto (21.10); para ver a prostituta, ao deserto, lugar de onde se enxerga a verdade de uma cidade que, por dentro, já é ruína.
Ele vê uma mulher sentada epi thērion kokkinon, sobre uma besta escarlate, de sete cabeças e dez chifres, toda coberta de onomata blasphēmias, nomes que insultam a Deus: é a besta do mar do capítulo 13 (13.1-8), que recebeu o trono do dragão. A mulher monta a besta: a cidade se apoia no poder político e militar e o conduz, e por um tempo os dois parecem um só.
No v. 4, ela está vestida de porphyroun kai kokkinon, púrpura e escarlate, as tintas mais caras do mundo antigo, cores da elite e do poder imperial, que voltam na lista de mercadorias de Babilônia (18.12, 16). Está kechrysōmenē, dourada de ouro, pedras preciosas e pérolas. O leitor que chega ao capítulo 21 percebe a paródia: a noiva também brilha de ouro, pedras preciosas e pérolas (21.11, 18-21), mas o seu brilho é a glória de Deus, e o seu vestido de linho são as obras justas dos santos (19.8). Púrpura e escarlate eram também cores do tabernáculo e das vestes do sumo sacerdote (Êx 28.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e alguns veem aqui uma religião de fachada.
Na mão, ela tem um potērion chrysoun, uma taça de ouro, cheia de bdelygmata, abominações, e das impurezas da sua prostituição. Bdelygma é a palavra bíblica para o ídolo e para o culto que profana (Dn 9.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 11.31; Mt 24.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A taça de ouro é a de Jr 51.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): o exterior tem valor, o conteúdo é veneno. Babilônia oferece às nações uma bebida que parece riqueza e é idolatria. No capítulo anterior, a mesma cidade recebeu da mão de Deus outra taça (16.19).
No v. 5, sobre a metōpon, a testa, ela tem um nome escrito, um mystērion: a palavra pode fazer parte do nome ou avisar que o nome é simbólico, e a maioria prefere a segunda leitura. O nome é Babilônia, a grande, como se gabava Nabucodonosor no terraço do palácio, pouco antes de perder o juízo (Dn 4.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e ela é apresentada como a mãe, a origem, de todas as que se prostituem e de todas as abominações da terra. A testa marcada lembra a acusação de Jeremias a Judá, que tinha a testa de quem não se envergonha mais (Jr 3.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e faz contraste com os servos de Deus, que levam na testa o selo e o nome do Cordeiro e do Pai (7.3; 14.1; 22.4), e com os adoradores da besta, que levam a marca dela (13.16). Toda testa, no Apocalipse, diz a quem a pessoa pertence.
No v. 6, João vê a mulher bêbada, e a bebida é o sangue dos hagioi e dos martyres Iēsou, as testemunhas de Jesus. Para os leitores, era memória viva: os cristãos mortos em Roma sob Nero, Antipas morto em Pérgamo (2.13), as almas debaixo do altar (6.9). O capítulo 18 dirá que nela se encontrou o sangue dos profetas, dos santos e de todos os que foram mortos na terra (18.24). A cidade que oferece vinho às nações bebe o sangue dos que não bebem do seu vinho.
E João ethaumasa thauma mega, se espantou com grande espanto. O verbo é o mesmo que descreve a terra inteira maravilhada com a besta (13.3) e os habitantes da terra no v. 8. O espanto de João pode ser horror ou perplexidade; muitos intérpretes pensam que há nele também fascínio, e que o anjo o corrige justamente por isso. Mais tarde João cairá aos pés de um anjo e será repreendido (19.10; 22.8-9). Se até o vidente podia ser deslumbrado pelo brilho do poder, o leitor também pode.
Versículos 7-11 — O mistério da besta e as sete cabeças
O anjo pergunta dia ti ethaumasas, por que você se espantou?, e promete contar o mistério da mulher e da besta que a carrega (v. 7). A explicação começa pela besta, e o v. 8 a descreve numa fórmula estranha: ela ēn kai ouk estin, existiu e não existe, kai mellei anabainein ek tēs abyssou, vai subir do abismo, kai eis apōleian hypagei, e caminha para a perdição. É uma paródia do nome de Deus, aquele que é, que era e que vem (1.4, 8; 4.8): a besta tem um passado, falta-lhe o presente, e o seu futuro é a ruína. É também uma imitação do Cordeiro, que esteve morto e vive (1.18; 2.8), como a ferida mortal curada imitava a ressurreição (13.3, 12, 14). O abismo é o lugar de onde subiram os gafanhotos e a besta que matou as testemunhas (9.1-2; 11.7), e para onde o dragão será lançado (20.1-3).
Os habitantes da terra thaumasthēsontai, vão se maravilhar, ao ver que a besta existiu, não existe e parestai, estará presente de novo. Manuscritos posteriores e a edição impressa que se tornou comum no Ocidente trazem, por uma leitura errada de poucas letras, uma forma que diz "e no entanto existe", e ela passou a traduções antigas; a forma dos manuscritos mais antigos fala da volta da besta. Os que se maravilham são aqueles cujo nome não está escrito no biblion tēs zōēs, o livro da vida, apo katabolēs kosmou, desde a fundação do mundo, expressão que já apareceu em 13.8. As tradições leem o livro da vida de modos diferentes: a reformada, como a eleição eterna de Deus; a arminiana e wesleyana, como o conhecimento antecipado de Deus, que respeita a resposta humana, lembrando que Cristo promete não apagar o nome do vencedor (3.5); a católica e a ortodoxa, como o desígnio de Deus que inclui a liberdade. Nenhuma delas faz do versículo uma ameaça a quem deseja Cristo. O texto quer firmar os fiéis: quem pertence ao Cordeiro não se deslumbra com a besta, e o convite continua aberto a quem tem sede (22.17).
No v. 9, o anjo chama: hōde ho nous ho echōn sophian, aqui é preciso entendimento com sabedoria, como diante do número da besta (13.18). As sete cabeças são hepta orē, sete colinas sobre as quais a mulher está sentada: para os leitores, Roma. E são também sete reis: o símbolo tem dois sentidos, o lugar e a sucessão do poder. Dos sete, cinco pertencem ao passado, o sexto está no poder, e o sétimo, ainda por vir, terá um reinado oligon, breve (v. 10). E a besta que existiu e não existe é ela mesma um oitavo, mas ek tōn hepta, vem dos sete, e caminha para a perdição (v. 11).
Os estudiosos tentaram muitas contas com a lista dos imperadores, e nenhuma se encaixa sem forçar. Começando por Augusto e pulando os três breves de 68 e 69 (Galba, Otão e Vitélio), os cinco que caíram seriam Augusto, Tibério, Calígula, Cláudio e Nero; o que reina seria Vespasiano; o que dura pouco, Tito, que reinou só dois anos; e o oitavo, Domiciano, visto como um Nero que voltou. Começando por Júlio César, o sexto seria Nero, e o breve, Galba. Outras listas começam em outros nomes. Por isso muitos intérpretes entendem o sete, como em todo o livro, como número da totalidade: a sucessão inteira do poder imperial, já perto do fim no tempo de Deus. A leitura futurista vê nas sete cabeças sete impérios da história (Egito, Assíria, Babilônia, Pérsia, Grécia, Roma e um último), e o oitavo como o governante final. O estudo não decide, e nenhuma dessas leituras autoriza cálculos de datas nem identificar o oitavo com um político de hoje. A sabedoria que o anjo pede não é aritmética: é enxergar que o poder que se faz deus sempre volta com outra cara, e sempre caminha para a perdição.
Versículos 12-14 — Os dez reis e o Cordeiro que vence
Os dez chifres representam dez reis ainda sem reino, que vão receber exousian hōs basileis, autoridade como reis, mian hōran, por uma hora, com a besta (v. 12). A imagem vem de Daniel, em que os dez chifres da quarta fera são dez reis (Dn 7.7, 20, 24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em acordo com o estudo de Daniel 7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Para os primeiros leitores, podiam ser os reis aliados e os governadores das províncias, que deviam o poder a Roma, ou os chefes que acompanhariam o Nero que voltaria do Oriente. Muitos leem o dez como plenitude: todos os poderes da terra aliados ao império. A hora é curta, como a hora em que Babilônia cai (18.10, 17, 19). A leitura dispensacionalista espera uma confederação de dez nações; quando a Comunidade Europeia chegou a dez membros, em 1981, livros populares anunciaram o cumprimento, e depois ela cresceu muito além de dez. A lição é a mesma das outras tentativas: o texto não é uma lista de países.
Esses reis têm mian gnōmēn, um só propósito, e entregam à besta o poder e a autoridade (v. 13). E meta tou arniou polemēsousin, vão guerrear contra o Cordeiro (v. 14). A frase reúne a história inteira: os poderes da terra contra o Cordeiro, como no Sl 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Kai to arnion nikēsei autous: a vitória será do Cordeiro. A razão vem logo: hoti kyrios kyriōn estin kai basileus basileōn, porque ele é Senhor dos senhores e Rei dos reis. O título aparecerá de novo, na ordem inversa, escrito no manto e na coxa do cavaleiro (19.16). Deus é o Deus dos deuses e o Senhor dos senhores (Dt 10.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Nabucodonosor confessou o Deus de Daniel como Senhor dos reis (Dn 2.47 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); a antiga tradução grega de Daniel 4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) tem uma forma muito próxima do título, aplicada a Deus, e Paulo o usa para o Deus que se manifestará na vinda de Cristo (1Tm 6.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os reis da Babilônia e da Pérsia se chamavam rei dos reis (Ez 26.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ed 7.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Cordeiro toma o título dos imperadores, e com ele, a divindade.
Com o Cordeiro estão klētoi kai eklektoi kai pistoi, chamados, escolhidos e fiéis. São os mesmos que o seguem por onde quer que vá (14.4) e o exército vestido de linho branco que o acompanha (19.14). Os dois primeiros adjetivos falam da graça de Deus, que chama e escolhe; o terceiro, da resposta de quem permanece. Eles não lutam com armas: o livro já disse que os fiéis venceram o acusador pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do testemunho (12.11). E o próprio Cordeiro vence como venceu desde o capítulo 5, quando o Leão de Judá apareceu como um Cordeiro de pé, como imolado (5.5-6). Bauckham mostrou como o Apocalipse retoma a linguagem da guerra santa judaica e a transforma: a vitória vem pela morte e pelo testemunho, não pela espada humana. Nenhum cristão pode usar este versículo para justificar guerra religiosa, cruzada, terrorismo ou milícia. A guerra contra o Cordeiro é descrita, mas a batalha nem chega a acontecer: o resultado já foi decidido na cruz.
Versículos 15-18 — As águas, o ódio dos aliados e a cidade
O anjo explica as águas: são laoi kai ochloi kai ethnē kai glōssai, povos, multidões, nações e línguas (v. 15). É a fórmula quádrupla do livro para a humanidade inteira (5.9; 7.9; 10.11; 13.7; 14.6). A prostituta reina sobre os povos e os explora; o Cordeiro, com o seu sangue, resgata gente de todos eles (5.9). As mesmas nações são disputadas pelas duas cidades.
O v. 16 traz a reviravolta. Os dez chifres e a besta misēsousin tēn pornēn, vão odiar a prostituta, deixá-la ērēmōmenēn kai gymnēn, arrasada e nua, devorar as suas carnes e queimá-la no fogo. As imagens vêm de Ezequiel, em que os amantes de Jerusalém se voltam contra ela, a despem e a queimam (Ez 16.37-41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 23.25-29), em acordo com os estudos de Ezequiel 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 23, e da morte de Jezabel, cujas carnes os cães devoraram (1Rs 21.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Rs 9.30-37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em acordo com o estudo de 2 Reis 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). A mensagem é a autodestruição do mal: o poder militar que a cidade montava se volta contra ela, e os aliados de ontem a devoram. Para os primeiros leitores, a memória podia ser a guerra civil de 69, quando o próprio Capitólio, em Roma, foi incendiado por romanos (Tácito, Histórias 3.71-72). Em toda época, os sistemas de poder que vivem de usar acabam usados, e os aliados da exploração se devoram uns aos outros.
Este versículo pede cuidado especial. Ezequiel 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 23, Oseias 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e este capítulo usam a violência contra uma mulher como metáfora do juízo sobre uma cidade, e muitos leitores, sobretudo mulheres, percebem com razão o peso dessas imagens. Elas são metáforas de aliança e de política, ditas na linguagem de um mundo antigo, e o próprio Apocalipse deixa claro que a mulher é uma cidade (v. 18). Nunca podem ser lidas como autorização ou modelo para qualquer violência contra mulheres. A violência doméstica é crime e pecado; a Lei Maria da Penha (Lei 11.340, de 2006) existe para proteger as vítimas, e a igreja que lê o Apocalipse deve estar ao lado delas, acolhendo e protegendo.
O v. 17 explica o que está por trás. Ho gar theos edōken eis tas kardias autōn, Deus pôs no coração deles realizar a sua gnōmē, o seu propósito, e chegar a uma só gnōmē para entregar o reino à besta, até que telesthēsontai hoi logoi tou theou, se cumpram as palavras de Deus. O jogo de palavras é intencional: os reis têm um só propósito (v. 13), mas, sem saber, servem ao propósito de Deus. A Bíblia conhece esse modo de Deus governar a história: a Assíria foi vara nas mãos dele, sem deixar de ser julgada pela própria arrogância (Is 10.5-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Nabucodonosor foi chamado de servo de Deus (Jr 25.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o coração do rei está na mão do Senhor (Pv 21.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E a comunidade de Jerusalém viu Herodes e Pilatos, reunidos contra Jesus, fazerem o que a mão de Deus tinha determinado (At 4.27-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Deus não aprova o mal; ele o põe a serviço do seu fim e o deixa durar só até que a sua palavra se cumpra.
O v. 18 dá a chave de tudo: a mulher é hē polis hē megalē, a grande cidade, hē echousa basileian epi tōn basileōn tēs gēs, que reina sobre os reis da terra. No tempo de João, só uma cidade cabia nessa descrição. Isaías chamou a Babilônia histórica de senhora dos reinos (Is 47.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em acordo com o estudo de Isaías 47 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). A identificação do primeiro século não esgota o texto: em toda época há cidades e sistemas que reinam pela sedução, pelo dinheiro e pela força, e o capítulo ensina a reconhecê-los. Mas ele não autoriza apontar para uma igreja, um povo, uma religião ou uma nação de hoje e dizer: é ela. O que o texto denuncia é um modo de exercer o poder, e esse modo pode habitar também o coração de quem acusa.
✨ 4. Versículos-Chave
Ap 17.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — João vê a mulher bêbada, e o que ela bebeu foi o sangue dos santos e dos que testemunharam Jesus; e o espanto o toma. O versículo revela o que o luxo da cidade escondia: a sua riqueza tem por baixo o sangue dos que não se dobraram. E o espanto de João avisa o leitor de que o brilho do poder fascina até os que deveriam enxergá-lo.
Ap 17.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os reis guerreiam contra o Cordeiro, e o Cordeiro os vence, porque é Senhor dos senhores e Rei dos reis, e com ele vencem os chamados, escolhidos e fiéis. É o centro do capítulo e uma das confissões mais altas de Cristo no livro: o título dos imperadores pertence ao Cordeiro imolado. A vitória dele não vem pela espada humana, e os seus vencem com ele pela fidelidade.
Ap 17.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus pôs no coração dos reis realizar o propósito dele, até que se cumprissem as suas palavras. Mesmo as alianças do mal estão sob o governo de Deus, que não as aprova, mas as limita e as faz servir ao seu fim. Para igrejas pequenas diante de um império, era a garantia de que nada escapava das mãos de Deus.
⛪ 5. Temas Teológicos Centrais
Duas cidades, duas mulheres. O capítulo prepara o contraste final do livro: Babilônia, a prostituta, e a nova Jerusalém, a noiva (21.9-10). As duas brilham de ouro e pedras, as duas atraem as nações, mas uma seduz para explorar e a outra é dom de Deus, onde as nações encontram cura (22.2). Entre elas está ainda a mulher vestida de sol do capítulo 12, perseguida e guardada no deserto. A pergunta do livro ao leitor é a que cidade ele pertence. A tradição cristã deu a esse tema forma clássica em Agostinho, A Cidade de Deus, com as duas cidades formadas por dois amores.
O poder que se faz deus e o dinheiro que seduz. Babilônia é poder político apoiado em força militar, prosperidade econômica e religião imperial, e é essa mistura que o capítulo chama de prostituição. O tema percorre a Bíblia, de Babel, a cidade construída para fazer um nome (Gn 11.1-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), às denúncias dos profetas contra Tiro e a Babilônia, e chega a Jesus, que disse que ninguém pode servir a Deus e ao dinheiro (Mt 6.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O capítulo desmonta a teologia da prosperidade, que promete riqueza como sinal de bênção: o luxo de Babilônia é bebida misturada com sangue.
O mal que se destrói e a soberania de Deus. A besta e os reis devoram a cidade que os montava (v. 16), e tudo dura só até que se cumpram as palavras de Deus (v. 17). O mal não é eterno nem coeso; ele se divide e se consome. E Deus continua governando a história, sem ser autor do mal.
A vitória do Cordeiro e dos que estão com ele. O Cordeiro vence porque é Senhor dos senhores e Rei dos reis (v. 14), e vence como Cordeiro: pela cruz, não pela espada. Os que estão com ele vencem pela fidelidade, e a promessa ao vencedor, repetida nas sete cartas (2–3), se cumpre aqui.
✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo
6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?
A Criação aparece nas águas e nos povos, a humanidade inteira que Deus fez e que as duas cidades disputam. A Queda tem aqui a sua forma política: Babel, a cidade que quis chegar ao céu e fazer um nome (Gn 11.1-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), cresce até a Babilônia que destruiu Jerusalém e até a Roma que matou os santos. A Redenção em andamento está no êxodo de Babilônia anunciado pelos profetas (Is 48.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 51.6, 45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e no reino que Daniel viu substituir os impérios (Dn 2.44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 7.13-14, 26-27). A Redenção consumada é o Cordeiro, Senhor dos senhores e Rei dos reis (v. 14). E a Nova Criação se anuncia no contraste: depois da prostituta, a noiva (21.9-10).
6.2 — Tipologias: a cidade contrária, Jezabel e a noiva
Babilônia é o tipo contrário da cidade de Deus, e Cristo é o rei da outra cidade. O fim da prostituta repete o de Jezabel (2Rs 9.30-37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), nome que o livro já usou para a profetisa de Tiatira que ensinava a acomodação à idolatria (2.20-23); a lição é a mesma: o caminho da sedução termina em ruína. E a noiva tem atrás de si a história de Deus como esposo do seu povo (Os 2.14-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 54.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 62.4-5), que o Novo Testamento aplica a Cristo e à igreja (2Co 11.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ef 5.25-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A cidade sedutora não ama ninguém; o esposo dá a vida pela noiva.
6.3 — Promessas e profecias: o reino que vence os impérios
Daniel viu as feras saírem do mar e os reinos se sucederem, até que o Filho do Homem recebeu um reino que não passa e os santos o receberam com ele (Dn 7.13-14, 26-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e viu a pedra que não foi cortada por mão humana esmagar a estátua dos impérios (Dn 2.44-45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No cumprimento histórico, Babilônia caiu, e Roma, a que perseguia os cristãos, também passou. No cumprimento em Cristo, o Filho do Homem recebeu toda a autoridade no céu e na terra (Mt 28.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a sua ressurreição é a sentença sobre a besta. No cumprimento escatológico, sem data, o Cordeiro vencerá todo poder que se levanta contra ele (19.11-21), e os seus reinarão com ele.
6.4 — A Pessoa e a Obra de Cristo iluminando este Capítulo
O capítulo se ilumina quando se lembra que o mesmo império que João vê como besta crucificou Jesus. A prostituta veste púrpura e escarlate (v. 4); na noite da Paixão, os soldados romanos vestiram Jesus de púrpura e escarlate, puseram nele uma coroa de espinhos e zombaram dele como rei (Mc 15.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 27.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 19.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O império usou as suas cores para escarnecer do verdadeiro Rei dos reis. No capítulo 17, as cores voltam a quem as merece: à cidade que se vestiu delas para seduzir, enquanto o Rei que foi escarnecido com elas é declarado Senhor dos senhores.
Há outro contraste. A prostituta está bêbada do sangue dos outros (v. 6); o Cordeiro deu o seu próprio sangue para resgatar gente de todos os povos (1.5; 5.9). Ela oferece às nações uma taça de ouro cheia de abominações (v. 4); Cristo oferece aos seus a taça da nova aliança no seu sangue (Lc 22.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Co 11.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo disse aos coríntios que não se pode beber a taça do Senhor e a dos demônios (1Co 10.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A ceia do Senhor é, desde sempre, um ato de saída de Babilônia: quem bebe da taça do Cordeiro recusa a taça da cidade sedutora. E o Cordeiro vence (v. 14) como venceu na cruz, onde despojou os poderes e os expôs publicamente (Cl 2.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
6.5 — O Evangelho no Capítulo
Pregar Apocalipse 17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é desmascarar o encanto do poder e do dinheiro e apresentar outro Senhor. Babilônia promete prosperidade, segurança e pertença em troca de adoração, e cobra com sangue. O Cordeiro não promete luxo; dá a si mesmo, chama e escolhe gente de todas as nações e a faz fiel. A boa notícia do capítulo é que a cidade que parecia eterna já foi julgada, que o seu fim vem de dentro dela mesma, e que ninguém precisa continuar bebendo da sua taça. Há outra mesa, outra taça e outra cidade, e o convite a elas parte do Cordeiro que venceu morrendo.
🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)
- Gn 11.1-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dn 4.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 47.5-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 51.7, 13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Pe 5.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Babel, Babilônia, a senhora dos reinos e a taça de ouro; ver os estudos de Daniel 4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Isaías 47 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Jeremias 51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 1 Pedro 5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Is 1.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 23.15-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Na 3.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ez 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 23; Os 1–3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 3.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a cidade como prostituta nos profetas; ver os estudos de Isaías 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Naum 3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Ezequiel 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 23 e Oseias 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Dn 7.7-8, 13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), 20-27; Dn 2.44-47 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 13.1-8, 18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — as feras, os dez chifres, o reino do Filho do Homem e a sabedoria pedida ao leitor; ver os estudos de Daniel 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 7.
- Dt 10.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dn 2.47 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ez 26.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Tm 6.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 19.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Senhor dos senhores e Rei dos reis.
- Sl 2.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 12.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 14.1-5; 19.11-21 — os reis contra o Cordeiro e os que vencem com ele; ver o estudo do Salmo 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Is 10.5-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 25.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Pv 21.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 4.27-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus que governa até as alianças do mal; ver o estudo de Jeremias 25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- 1Rs 21.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Rs 9.30-37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 2.20-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jezabel e o fim da sedução; ver o estudo de 2 Reis 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Os 2.14-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 54.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 62.4-5; 2Co 11.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ef 5.25-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 19.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 21.2, 9-21 — a noiva e o esposo, contraponto da prostituta.
- Mt 21.31-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 7.36-50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 1.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 11.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus e as mulheres que a sociedade desprezava.
- Mc 15.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 19.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 22.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Co 10.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Cl 2.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a púrpura do escárnio, a taça da nova aliança e a vitória da cruz.
🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico
Reconhecer a sedução de Babilônia. O capítulo não pergunta primeiro onde está Babilônia no mapa, mas onde ela está no coração. A cidade seduz com prosperidade, conforto, prestígio e segurança, e pede em troca a lealdade que pertence a Deus. Ela aparece no consumo que nunca se satisfaz, na corrupção que se justifica pelo lucro, no evangelho que promete riqueza como prova de bênção. Quem pertence ao Cordeiro aprende a viver com simplicidade, a não se deslumbrar com o brilho do poder e a perguntar quem paga, com o próprio sangue, a riqueza que se oferece.
Não transformar o texto em arma contra pessoas. A prostituta não é a Igreja Católica, nem uma denominação, nem o povo judeu, nem os muçulmanos, nem uma nação, nem uma instituição internacional. Essas identificações foram feitas, refeitas e desmentidas, e fizeram mal: dividiram cristãos, alimentaram ódio religioso e espalharam medo. O cristão fiel ao Cordeiro trata os irmãos de outras tradições como irmãos e respeita as pessoas de outras religiões, mesmo quando discorda.
Defender a dignidade das mulheres. Use o capítulo para combater, e não para alimentar, o desprezo pelas mulheres. As mulheres exploradas pela prostituição e pelo tráfico são vítimas do sistema que o capítulo denuncia; merecem acolhida, proteção e caminhos de saída, não condenação. E a violência contra a mulher, que nenhuma metáfora bíblica autoriza, deve ser denunciada e enfrentada, com o apoio da Lei Maria da Penha e da rede de proteção.
Vencer como o Cordeiro. Os que estão com o Cordeiro são chamados, escolhidos e fiéis, e vencem pela fidelidade, não pela força. Diante de poderes injustos, o caminho cristão é o testemunho, a recusa da idolatria, a busca da justiça por meios legítimos e a disposição de sofrer sem devolver a violência. Nenhum versículo do Apocalipse sustenta guerra santa, milícia ou armamento em nome de Deus.
Recusar as contas do fim. As sete cabeças e os dez chifres não são um código para descobrir datas, imperadores do futuro ou países da vez. Desconfie de quem faz dessas imagens um cálculo; a sabedoria que o anjo pede é reconhecer o poder que se faz deus e continuar adorando somente a Deus.
🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo
- Que semelhanças e que diferenças você vê entre a prostituta (17.3-6), a mulher vestida de sol (12.1-6) e a noiva (21.9-11)? O que cada uma revela sobre a cidade a que pertencemos?
- Por que os profetas usaram a imagem da prostituição para falar de idolatria, alianças políticas e comércio? Como ler essas imagens sem que elas se voltem contra as mulheres?
- O que o espanto de João (v. 6) ensina sobre o fascínio do poder e da riqueza? Onde esse fascínio aparece hoje na sua vida e na sua comunidade?
- Por que as tentativas de calcular os sete reis e os dez chifres fracassaram? Que tipo de sabedoria o anjo pede no v. 9?
- Como a púrpura e o escarlate da Paixão (Mc 15.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 27.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e a taça da nova aliança iluminam o título de Senhor dos senhores e Rei dos reis dado ao Cordeiro?
- Para meditação e oração: peça ao Senhor que o livre do encanto de Babilônia e o mantenha entre os chamados, escolhidos e fiéis que seguem o Cordeiro.
📚 10. Para Aprofundamento
Teologia do Apocalipse:
- Richard Bauckham — The Theology of the Book of Revelation (Cambridge University Press, 1993)
- Richard Bauckham — The Climax of Prophecy: Studies on the Book of Revelation (T&T Clark, 1993)
- Barbara R. Rossing — The Choice Between Two Cities: Whore, Bride, and Empire in the Apocalypse (Trinity Press International, 1999)
- J. Nelson Kraybill — Imperial Cult and Commerce in John's Apocalypse (Sheffield Academic Press, 1996)
Comentários do Apocalipse:
- Leon Morris — Apocalipse: introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
- G. K. Beale — The Book of Revelation (New International Greek Testament Commentary, Eerdmans, 1999)
- David E. Aune — Revelation (Word Biblical Commentary, 3 vols., 1997-1998)
- Craig R. Koester — Revelation (Anchor Yale Bible, 2014)
O texto e a história:
- Bruce M. Metzger — A Textual Commentary on the Greek New Testament (Sociedades Bíblicas Unidas, 2.ª ed., 1994)
- Agostinho — A Cidade de Deus
Sabedoria para o Cotidiano
Babilônia continua oferecendo a sua taça de ouro: prosperidade, prestígio e segurança em troca do coração. O capítulo tira a máscara da cidade sedutora e mostra que o seu brilho tem sangue por baixo e que o seu fim vem de dentro dela mesma. Não aponte o dedo para pessoas, igrejas ou povos; examine a que mesa você se senta, e beba da taça do Cordeiro, que venceu morrendo e chama você para estar com ele entre os fiéis.
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