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Atos · 44 de 66 · Novo Testamento

Atos — Capítulo 9

Infográfico de “Atos 9 — Capítulo a capítulo”, gerado automaticamente a partir do estudo publicado, com 7 partes: A luz que derruba o perseguidor; Ananias, o medo e o irmão Saulo; O pregador descido pelo muro; Barnabé abre a porta em Jerusalém; A igreja em paz; Eneias se levanta em Lida; Tabita, as túnicas e a casa do curtidor.

Título do capítulo: O perseguidor alcançado pelo Perseguido
Gênero literário: Narrativa histórica (historiografia antiga: a conversão e o chamado de Saulo no caminho de Damasco, o primeiro dos três relatos do livro; Ananias, o medo e o batismo; Saulo pregando nas sinagogas e a fuga pelo muro de Damasco; Barnabé e a acolhida em Jerusalém; a partida para Tarso; o resumo da paz da igreja; Pedro em Lida, com a cura de Eneias, e em Jope, onde Tabita é levantada; a hospedagem na casa de Simão, o curtidor)
Número de versículos: 43

Nota de precisão: este estudo segue a numeração das Bíblias em português. A apresentação do livro inteiro (autoria, data, gênero, estrutura e o texto dos manuscritos) está no estudo do capítulo 1. O capítulo traz o primeiro dos três relatos da conversão de Paulo; os outros dois, contados por ele mesmo, estão em At 22.3-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 26.9-18 e são comparados aqui sem forçar harmonia. Em manuscritos posteriores, os vv. 5-6 receberam palavras tiradas dos outros relatos; a questão é tratada no lugar próprio. As datas são aproximadas.


🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural

Onde o capítulo está no livro

Se o livro de Atos tem um centro de gravidade humano, ele começa aqui. O homem que aprovou a morte de Estêvão e devastou a igreja (At 8.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) será, da metade do livro em diante, o principal portador do nome de Jesus às nações. Lucas sabe o peso do episódio: conta-o três vezes, primeiro como narrador (capítulo 9), depois pela boca de Paulo diante do povo de Jerusalém (At 22.3-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e diante do rei Agripa (At 26.9-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Nenhum outro acontecimento do livro, fora a conversão de Cornélio, recebe tal repetição.

O capítulo tem duas metades: Saulo, de Damasco a Tarso, e Pedro, da planície da costa a Jope, com o resumo da paz da igreja entre elas (v. 31). Lucas apresenta o apóstolo das nações antes de narrar a primeira entrada oficial de gentios na igreja, e deixa Pedro, ao fim do capítulo, hospedado na casa de um homem de ofício malvisto, a um passo da casa de um centurião romano.

Saulo de Tarso

Saulo nasceu em Tarso, na Cilícia, cidade grega de cultura e comércio no sudeste da atual Turquia (At 21.39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 22.3). Era judeu da tribo de Benjamim, fariseu e filho de fariseu (Fp 3.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 23.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), formado em Jerusalém junto a Gamaliel (At 22.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e, segundo Atos, cidadão romano de nascimento (At 22.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Tinha dois nomes, como muitos judeus da diáspora: Saulo, o do rei de Benjamim, e Paulo, nome romano, que Lucas começa a usar em At 13.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Não houve troca de nome na conversão, como se diz às vezes.

Ele mesmo descreve o zelo daquele tempo: avançava no judaísmo além dos da sua idade, defendia com ardor as tradições dos pais e perseguia a igreja (Gl 1.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Fp 3.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Saulo não era um homem sem fé que encontrou a fé; era um homem de fé intensa que descobriu estar lutando contra o Deus que queria servir.

Damasco e as cartas do sumo sacerdote

Damasco, cerca de duzentos e vinte quilômetros ao norte de Jerusalém, era uma cidade antiga da Síria, com numerosa comunidade judaica, segundo Josefo, e várias sinagogas. Que autoridade tinha o sumo sacerdote, provavelmente ainda Caifás, sobre sinagogas fora da Judeia? Não era jurisdição civil, mas autoridade religiosa reconhecida pelas comunidades; alguns lembram uma carta romana do século II a.C. que pedia aos reis a entrega de fugitivos ao sumo sacerdote (1Mc 15.21, livro das Bíblias católicas e ortodoxas), mas não se sabe se valia no século I. As cartas pediam a colaboração das sinagogas para levar presos a Jerusalém os que pertencessem ao Caminho.

Hodos, o Caminho, é o primeiro nome que Atos dá ao movimento dos seguidores de Jesus (At 9.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 19.9, 23; 22.4; 24.14, 22). Pode ecoar o caminho do Senhor preparado no deserto (Is 40.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 3.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), texto que também a comunidade de Qumran aplicava a si mesma. Antes de receberem o nome de cristãos, em Antioquia (At 11.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), eram gente de um caminho.

Conversão ou chamado?

Saulo não mudou de Deus: continuou a adorar o Deus de Abraão e a se dizer israelita (Rm 11.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Co 11.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Por isso Krister Stendahl, num estudo de 1976, propôs falar de chamado, e não de conversão: Paulo descreve a experiência com a linguagem dos profetas, separado desde o ventre materno e chamado pela graça (Gl 1.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), como Jeremias (Jr 1.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e o Servo de Isaías (Is 49.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A observação afasta a caricatura de alguém que abandona o judaísmo por outra religião. Mas a palavra conversão também diz algo verdadeiro: Saulo mudou de direção, viu como perda o que antes contava como ganho (Fp 3.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e passou a crer que o crucificado era o Messias e Senhor. As duas palavras se completam: foi a conversão de um judeu ao Messias de Israel e o chamado de um profeta às nações.

Os três relatos

Os relatos de At 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), 22 e 26 concordam no essencial: a luz do céu, a queda, a voz que chama Saulo pelo nome e pergunta por que ele a persegue, a identificação de Jesus, a missão. Diferem nos detalhes. Aqui os companheiros ouvem a voz e não veem ninguém (v. 7); em At 22.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), veem a luz e não ouvem a voz de quem falava; em At 26.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), todos caem por terra. Aqui e no capítulo 22 a missão vem por meio de Ananias; no capítulo 26, diante de Agripa, Ananias não aparece, e a missão é dita pelo próprio Jesus, com um provérbio grego sobre o boi que escoiceia o ferrão. Só os relatos de Paulo dizem que era meio-dia (At 22.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 26.13).

Houve quem resolvesse a diferença pela gramática, distinguindo ouvir um som (v. 7) e entender as palavras (At 22.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas a distinção não é segura no grego da época. Mais simples é reconhecer que Lucas, como os historiadores antigos, varia o relato conforme o ouvinte; quem conta a mesma história três vezes no mesmo livro não ignorava as diferenças, e o núcleo é o mesmo nas três.

A cronologia e as cartas de Paulo

A data mais provável da conversão fica entre 31 e 36, e muitos estudiosos se inclinam por 33 ou 34. Uma âncora vem de fora: Paulo conta que, em Damasco, o etnarca do rei Aretas vigiava a cidade para prendê-lo e que fugiu num cesto descido pelo muro (2Co 11.32-33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aretas IV, rei dos nabateus, morreu por volta de 40; a fuga foi antes disso. Se os nabateus controlavam a cidade ou se o etnarca apenas os representava ali, discute-se.

Gálatas acrescenta o que Atos não diz: depois da revelação, Paulo foi à Arábia, isto é, ao reino nabateu, voltou a Damasco e, três anos depois, subiu a Jerusalém para conhecer Cefas, com quem ficou quinze dias, sem ver outro apóstolo senão Tiago, irmão do Senhor (Gl 1.17-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Muitos situam a Arábia entre os vv. 22 e 23 do capítulo, nos muitos dias de que fala Lucas. Por que a Arábia? Uns pensam em retiro e oração; outros, como Martin Hengel e Jerome Murphy-O'Connor, em pregação, o que explicaria a hostilidade do rei; N. T. Wright sugeriu uma ida ao Sinai, que Paulo situa na Arábia (Gl 4.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), como Elias foi ao monte de Deus (1Rs 19.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As propostas são compatíveis com o texto, e nenhuma é certa.

O texto dos manuscritos

Nos vv. 5-6, cópias posteriores, sobretudo latinas, acrescentam o provérbio do ferrão e a pergunta de Saulo, trêmulo, sobre o que o Senhor queria dele, palavras tiradas de At 26.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 22.10; neste lugar, elas quase não têm apoio nos manuscritos gregos. Erasmo as traduziu do latim para a sua edição impressa do texto grego, e daí passaram a Bíblias antigas; as edições atuais as deixam de fora ou em nota. Nada se perde, porque as palavras estão nos outros relatos. No v. 31, os manuscritos mais antigos falam da igreja, no singular, onde muitos posteriores dizem as igrejas.


📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo

Saulo, que ainda só pensa em prender e matar discípulos, pede ao sumo sacerdote cartas para as sinagogas de Damasco, a fim de levar presos a Jerusalém os homens e as mulheres do Caminho. Perto da cidade, uma luz do céu o envolve; ele cai e ouve uma voz que o chama pelo nome e lhe pergunta por que a persegue. Ele pergunta quem fala, e a voz se apresenta: é Jesus, o alvo da perseguição de Saulo, que o manda seguir para a cidade e esperar instruções. Os companheiros, atônitos, escutam a voz mas não enxergam quem fala. Saulo se levanta cego, é conduzido a Damasco e ali passa três dias no escuro, em jejum completo (vv. 1-9).

O Senhor fala em visão a Ananias, um discípulo de Damasco, e o manda à rua Reta, à casa de Judas, procurar Saulo de Tarso, que está orando e viu Ananias impor-lhe as mãos. Ananias objeta: conhece a fama das violências de Saulo em Jerusalém e sabe a que ele veio a Damasco. O Senhor insiste: escolheu Saulo como portador do seu nome diante de povos estrangeiros, de governantes e de Israel, e lhe fará ver o preço que pagará por isso. Ananias vai, impõe-lhe as mãos, trata-o como irmão e explica que Jesus o mandou para lhe devolver a vista e para que o Espírito Santo o encha. Uma espécie de película se desprende dos olhos de Saulo; ele volta a ver, é batizado, alimenta-se e se refaz (vv. 10-19).

Logo, nas sinagogas de Damasco, Saulo anuncia Jesus como Filho de Deus e Messias, para espanto de quem o conhecia como perseguidor, e deixa sem resposta os judeus da cidade. Depois de muitos dias, tramam matá-lo e vigiam as portas noite e dia; os discípulos o descem de noite pelo muro, num cesto (vv. 20-25).

Em Jerusalém, procura os discípulos e esbarra na desconfiança de todos. Barnabé o apresenta aos apóstolos e lhes narra o encontro de Saulo com o Senhor e a coragem dele em Damasco. Saulo circula com eles pela cidade, anunciando o Senhor sem medo, e discute com os judeus de língua grega, que tentam matá-lo. Os irmãos o levam a Cesareia e o mandam para Tarso (vv. 26-30). Pela Judeia, pela Galileia e pela Samaria, a igreja atravessa um tempo de paz: firma-se, vive em reverência ao Senhor e cresce, animada pelo Espírito (v. 31).

Pedro, visitando os santos, chega a Lida e encontra Eneias, paralítico e acamado havia oito anos. Diz-lhe que Jesus Cristo o cura e que se levante; ele se levanta, e os moradores de Lida e de Sarona se convertem ao Senhor (vv. 32-35). Em Jope morre Tabita, ou Dorcas, discípula conhecida pelas boas obras e pela ajuda aos pobres. Os discípulos chamam Pedro, e as viúvas o rodeiam em lágrimas, com as roupas que Dorcas lhes costurara. Pedro manda todos saírem, ajoelha-se, ora e manda Tabita levantar-se; ela abre os olhos, senta-se, e ele a apresenta viva aos santos e às viúvas. Muitos em Jope passam a crer, e Pedro se demora ali, na casa de Simão, um curtidor (vv. 36-43).


🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)

Versículos 1-9 — A luz que derruba o perseguidor

O capítulo retoma Saulo onde o deixou: eti, ainda (v. 1). Ele vai empneōn apeilēs kai phonou, e o verbo diz que ameaça e matança eram o próprio fôlego dele. Os perseguidos são os mathētai tou kyriou, discípulos do Senhor. Ele pede cartas (v. 2) para trazer presos, dedemenous, amarrados, os que pertencessem ao Caminho, andras te kai gynaikas, homens e mulheres. As mulheres também eram consideradas perigosas o bastante para serem presas, sinal do lugar que tinham na igreja.

Perto de Damasco, exaiphnēs, de repente, uma luz do céu periēstrapsen, relampejou em volta dele (v. 3). Ele cai por terra (v. 4). A pintura consagrou um cavalo, como na Conversão de São Paulo de Caravaggio; o texto não fala de cavalo. Fala de luz, queda e voz, os elementos das teofanias e das visões dos profetas: Ezequiel cai com o rosto em terra diante da glória e ouve uma voz (Ez 1.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Daniel cai e ouve a voz do mensageiro (Dn 10.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A voz o chama duas vezes pelo nome, na forma hebraica Saoul, como Deus chamou Abraão, Jacó, Moisés e Samuel nos momentos decisivos (Gn 22.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 46.2; Êx 3.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Sm 3.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e lhe pergunta a razão de persegui-la. Não pergunta por que ele persegue os discípulos, mas por que persegue a quem fala. Saulo responde com kyrie (v. 5), palavra que pode ser apenas senhor, como tratamento respeitoso, ou o título divino; diante da luz do céu, ele pressente que é o segundo e não sabe quem é. A resposta é um nome, Iēsous, e uma revelação que é também acusação: o perseguido é ele. Para um fariseu que acreditava que um crucificado estava sob a maldição da Lei (Dt 21.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gl 3.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), saber que o crucificado falava do céu era ver o mundo virar do avesso: Deus o tinha vindicado. E saber que perseguir os discípulos era persegui-lo foi o embrião do que Paulo ensinará sobre a igreja como corpo de Cristo (1Co 12.12, 27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Agostinho voltou muitas vezes a essa pergunta para falar do Cristo inteiro, cabeça no céu e corpo na terra.

A ordem é simples (v. 6): levantar-se e seguir para a cidade, onde saberá o que dei, é necessário, fazer. O homem das cartas de autoridade entra em Damasco à espera de instruções.

Os companheiros ficam eneoi, mudos de espanto: escutam a voz, mas não enxergam quem fala (v. 7); a diferença com At 22.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) foi tratada na seção 1. Saulo se levanta com os olhos abertos e no escuro (v. 8), e precisa ser conduzido, cheiragōgountes, como se conduz um cego. Passa três dias cego e em jejum completo (v. 9). A cegueira não é dita como castigo; é a escuridão de quem precisa ser refeito antes de ver de novo. O jejum pode ser luto, arrependimento ou preparação, e a Igreja antiga, como se lê na Didaquê, pediria jejum antes do batismo. Os três dias lembram outros três dias da história da salvação, mas Lucas não o sublinha.

Versículos 10-19 — Ananias, o medo e o irmão Saulo

Em Damasco há tis mathētēs, um discípulo, chamado Ananias (v. 10), nome hebraico que quer dizer o SENHOR mostrou graça; não é o marido de Safira (At 5.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) nem o sumo sacerdote de At 23.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). No capítulo 22, Paulo o descreve como homem piedoso segundo a Lei, bem visto por todos os judeus da cidade (At 22.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não se sabe como a fé chegou a Damasco, talvez com os dispersos do capítulo 8. O Senhor o chama em visão, e Ananias responde com idou egō, a fórmula de prontidão de Samuel e dos profetas (1Sm 3.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

As instruções são de uma precisão rara (vv. 11-12): a rua Eutheia, a Reta, que muitos identificam com a grande via que atravessa a cidade velha de leste a oeste; a casa de um certo Judas; um homem de Tarso, que proseuchetai, está orando. O perseguidor ora, e já viu em visão um homem chamado Ananias impondo-lhe as mãos. As duas visões se encaixam, como as de Cornélio e de Pedro no capítulo seguinte: Deus prepara os dois lados do encontro.

Ananias tem medo, e diz isso ao Senhor (vv. 13-14). Tem notícias, por muitos, das violências de Saulo contra os hagioi, santos, de Jerusalém, primeira vez que Atos chama assim os crentes; e sabe que ele traz autoridade dos chefes dos sacerdotes para prender os que epikaloumenous to onoma, invocam o nome do Senhor, expressão de Jl 2.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), citada por Pedro em Pentecostes (At 2.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A objeção lembra a de Moisés e a de Jeremias diante do chamado (Êx 4.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 1.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não é falta de fé; é realismo. Ananias não fingiu coragem diante de Deus, e Deus não o repreendeu.

A resposta do Senhor (vv. 15-16) é o centro da segunda cena. Saulo é skeuos eklogēs, um utensílio de escolha, um vaso que o Senhor separou para si. O verbo bastasai, carregar, sugere que o nome de Jesus será levado como quem leva um peso ou um tesouro (2Co 4.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os destinatários são três: os ethnē, as nações, os reis e os filhos de Israel. Atos mostrará cada um, das sinagogas de todas as cidades aos governadores Sérgio Paulo, Félix e Festo e ao rei Agripa. E vem o dei do sofrimento: o Senhor fará Saulo ver o tamanho do que o nome lhe custará. É a palavra das predições da Paixão (Lc 9.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 24.26). O perseguidor será perseguido; a lista de 2Co 11.23-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o comentário de Paulo a este versículo.

Ananias vai, entra, impõe as mãos e diz Saoul adelphe, chamando-o de irmão na forma hebraica do nome (v. 17). A primeira palavra que Saulo ouve da igreja que perseguia é essa. Ananias explica que o Senhor, Iēsous, o mesmo da aparição na estrada, o mandou para devolver a Saulo a vista e para que o Espírito Santo o encha. Logo se desprendem dos olhos de Saulo hōs lepides, algo semelhante a escamas (v. 18), palavra que só aparece aqui no Novo Testamento; o livro de Tobias, das Bíblias católicas e ortodoxas, usa verbo da mesma família para a película que sai dos olhos de Tobit curado (Tb 11.13). Lucas não descreve o momento do dom do Espírito, que se supõe ligado à imposição das mãos e ao batismo; também aqui, como em Samaria, não há ordem fixa. Saulo se levanta e é batizado; em At 22.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Ananias o exorta a receber o batismo e lavar os pecados invocando o nome do Senhor. Só depois come e recobra as forças (v. 19).

Versículos 20-25 — O pregador descido pelo muro

Saulo fica alguns dias com os discípulos de Damasco e, eutheōs, logo, proclama nas sinagogas que Jesus é ho huios tou theou, o Filho de Deus (v. 20). É a única vez em Atos que o título aparece assim, na pregação, e é de propósito que Lucas o põe na boca de Paulo: o Filho que Deus revelou nele (Gl 1.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) é o centro da sua mensagem, e o Salmo 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que fala do Filho entronizado, será citado por ele em Antioquia da Pisídia (At 13.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), como mostra o estudo do Salmo 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).

Os que ouvem existanto, ficam fora de si (v. 21), e perguntam se aquele não é o homem que, em Jerusalém, porthēsas, devastava os que invocavam o nome. O verbo é o mesmo com que Paulo descreve a si mesmo em Gl 1.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 1.23, o que muitos tomam como sinal de que Lucas conhece a tradição das igrejas sobre o perseguidor. Saulo enedynamouto, ganhava vigor (v. 22), e deixava sem resposta os judeus de Damasco, symbibazōn, pondo lado a lado as Escrituras e os fatos, para mostrar que Jesus é o Cristo. O método será o mesmo em Tessalônica e em Bereia (At 17.2-3, 11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Passam-se hēmerai hikanai, muitos dias (v. 23), expressão elástica que pode incluir a ida à Arábia de que fala Gálatas. Os judeus de Damasco tramam matá-lo. Lucas fala de judeus de uma cidade, num conflito local entre judeus a respeito do Messias; Saulo também é judeu, como Ananias e os discípulos da cidade. Ler estes versículos como acusação ao povo judeu é desfigurá-los, e a história desse mau uso, que a Igreja rejeitou com a declaração Nostra Aetate e com documentos de várias igrejas protestantes, é motivo de arrependimento, não de orgulho. Paulo dirá depois que a dor pelos seus irmãos segundo a carne não o deixava (Rm 9.1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que Deus não rejeitou o seu povo (Rm 11.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A trama chega a Saulo (v. 24). Vigiam as portas noite e dia; os mathētai autou, os discípulos dele, segundo os manuscritos mais antigos, o tomam de noite e o descem pela muralha, en spyridi, num cesto (v. 25), palavra dos cestos grandes que sobraram na multiplicação dos pães para os quatro mil (Mc 8.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo conta a mesma fuga, mas atribui a vigilância ao etnarca do rei Aretas e fala de uma janela no muro e de um cesto de corda, sarganē (2Co 11.32-33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os dois relatos podem combinar-se, com autoridades e opositores agindo juntos; o que Paulo escolhe lembrar é significativo. Ele põe a fuga no fim da lista dos seus sofrimentos, no lugar onde se esperaria um feito heroico: o homem que entrara em Damasco para prender os outros sai da cidade num cesto, pela janela, como um fugitivo.

Versículos 26-30 — Barnabé abre a porta em Jerusalém

Em Jerusalém, Saulo epeirazen kollasthai, tentava juntar-se aos discípulos (v. 26), e esbarrava na desconfiança geral: quem acreditaria na conversão do perseguidor? O medo era razoável: a memória das prisões estava fresca, e um falso convertido seria a melhor forma de achar os que se reuniam nas casas.

Então entra Barnabé (v. 27). O leitor o conhece: José, levita de Chipre, que vendeu um campo e pôs o valor aos pés dos apóstolos, e a quem os apóstolos chamaram filho da consolação, ou do encorajamento (At 4.36-37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele epilabomenos, toma Saulo pela mão, por assim dizer, leva-o aos apóstolos e diēgēsato, narra em detalhe, três coisas: o encontro de Saulo com o Senhor na estrada, a palavra que ouviu dele e o modo como, em Damasco, eparrēsiasato, anunciou Jesus de cara aberta. A parrēsia, a fala aberta e corajosa, é a marca dos apóstolos em Atos (At 4.13, 29, 31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Barnabé a reconhece em Saulo. Mais tarde, será ele quem irá buscar Saulo em Tarso para Antioquia (At 11.25-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Gálatas conta essa visita de outro ângulo: Paulo foi conhecer Cefas, ficou com ele quinze dias e não viu nenhum outro apóstolo, a não ser Tiago, irmão do Senhor; e jura que não mente (Gl 1.18-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Lucas fala em levá-lo aos apóstolos, no plural, e diz que Saulo andava com eles, eisporeuomenos kai ekporeuomenos, entrando e saindo em Jerusalém (v. 28). Muitos entendem que Lucas resume em termos gerais o que Paulo, que precisava provar não depender de Jerusalém, descreve com precisão; outros veem aqui uma tensão real entre as fontes. Em qualquer leitura, foi uma visita breve, com Pedro no centro.

Saulo falava e discutia com os Hellēnistai, os judeus de língua grega (v. 29). São os mesmos círculos das sinagogas que tinham debatido com Estêvão, entre eles os da Cilícia, a terra de Saulo (At 6.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O perseguidor de Estêvão ocupa o lugar de Estêvão, e eles epecheiroun, procuravam matá-lo. Os adelphoi, os irmãos, sabendo disso, o levam a Cesareia, o porto, e o enviam a Tarso (v. 30). No capítulo 22, Paulo acrescenta outra razão: orando no templo, teve uma visão em que o Senhor o mandava sair depressa de Jerusalém, porque o enviaria às nações distantes (At 22.17-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As duas razões, a humana e a divina, não se excluem. Seguem-se anos de que Atos não fala, passados nas regiões da Síria e da Cilícia (Gl 1.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Versículo 31 — A igreja em paz

O v. 31 é um dos resumos de crescimento que marcam o livro, e o primeiro que olha para além de Jerusalém. Hē men oun ekklēsia, a igreja, no singular nos manuscritos mais antigos, de toda a Judeia, da Galileia e da Samaria: uma só igreja espalhada por três regiões, a mesma de Jerusalém e a das aldeias samaritanas. É a única menção de comunidades da Galileia em Atos, onde tudo começara.

A igreja eichen eirēnēn, atravessava um tempo de paz. A paz vem depois da conversão do perseguidor, e Lucas a descreve por dentro, com quatro traços: a igreja oikodomoumenē, era edificada; poreuomenē, caminhava com reverência diante do Senhor; contava com a paraklēsis, o ânimo e o consolo, que vem do Espírito, a mesma palavra do nome de Barnabé; e eplēthyneto, multiplicava-se.

Versículos 32-35 — Eneias se levanta em Lida

A narrativa volta a Pedro, que dierchomenon dia pantōn, passava por toda parte (v. 32), visitando as comunidades, como fizera em Samaria. Desce aos santos de Lida, a antiga Lod do Antigo Testamento (1Cr 8.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), na planície, a caminho do mar. Ali encontra Eneias (v. 33), nome grego, o do herói de Troia, que poderia ser de um judeu de cultura grega; Lucas não diz se era discípulo. Estava katakeimenon epi krabattou, deitado num catre, ex etōn oktō, expressão que pode significar havia oito anos ou desde os oito anos de idade; a maioria prefere a primeira, mas as duas são possíveis. Era paralelymenos, paralítico.

A palavra de Pedro é curta (v. 34): diz a Eneias, pelo nome, que Jesus Cristo o cura, com o verbo no presente, iatai, como algo que está acontecendo, e manda que se levante e arrume a própria cama. O curador não é Pedro, é Jesus; Pedro já dissera, diante do coxo do templo, que não fora pelo próprio poder que o homem andara (At 3.12, 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A cena lembra a cura do paralítico de Cafarnaum, a quem Jesus mandou levantar-se e tomar o catre (Lc 5.24-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 2.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): o que o Senhor fazia na Galileia, faz agora pelos seus. Eneias se levanta eutheōs, imediatamente.

Todos os que moravam em Lida e em Sarona, a planície costeira de Sarom, o viram e epestrepsan, se voltaram para o Senhor (v. 35). O todos é a hipérbole própria das narrativas de Atos, e o ponto é claro: o sinal não termina no homem curado; leva pessoas ao Senhor que cura. As curas de Atos são sinais do Reino que vem, não promessa de que toda doença será curada aqui e agora. O próprio Paulo deixará Trófimo doente em Mileto (2Tm 4.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e aconselhará Timóteo a cuidar do estômago (1Tm 5.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Versículos 36-43 — Tabita, as túnicas e a casa do curtidor

Em Jope, o porto antigo da costa, a atual Jafa, junto a Tel Aviv, havia tis mathētria, uma discípula (v. 36), a única vez que o Novo Testamento usa a forma feminina da palavra discípulo. Chamava-se Tabita, nome aramaico que quer dizer gazela, em grego Dorkas. Lucas a descreve como plērēs ergōn agathōn kai eleēmosynōn: a vida dela era feita de obras boas e de esmolas, isto é, de ajuda concreta aos pobres. O verbo vem no imperfeito: ela fazia isso de modo contínuo.

Ela adoece e morre (v. 37). Lavam o corpo, como mandava o costume judaico, e o põem no hyperōon, o quarto de cima, palavra que a antiga tradução grega usa para o quarto onde Elias pôs o filho da viúva de Sarepta (1Rs 17.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Lida fica perto de Jope (v. 38), e os discípulos mandam dois homens pedir a Pedro que venha sem demora. Talvez esperassem só consolo; talvez soubessem do que acontecera com Eneias. O texto não diz.

Pedro vai com eles (v. 39). No quarto de cima, as viúvas o cercam chorando e lhe mostram os chitōnas kai himatia, as túnicas e os mantos, que Dorcas fazia quando estava com elas. O gesto delas é um testemunho comovido: aqui está o que ela foi para nós. As viúvas eram das pessoas mais vulneráveis daquele mundo, e a igreja de Jerusalém já precisara organizar o cuidado com elas (At 6.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Tabita fazia, com agulha e linha, o que o capítulo 6 confiou aos sete. O texto não lhe dá cargo nem título; dá-lhe um nome, uma descrição de discípula e o luto de uma comunidade inteira. A dignidade dela não está numa posição, mas na fidelidade de uma vida que vestia os pobres, e Lucas, que cuidou de nomear as mulheres em todo o Evangelho, a inscreve no livro com o mesmo cuidado.

Pedro ekbalōn exō pantas, põe todos para fora (v. 40), com a expressão que Marcos usa para Jesus na casa de Jairo (Mc 5.40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); como lembra o estudo de Marcos 5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), ali só Pedro, Tiago e João entraram com os pais. Pedro estava naquele quarto, e agora repete os gestos que viu. Mas há diferenças. Jesus tomou a mão da menina e deu a ordem; Pedro primeiro theis ta gonata, põe-se de joelhos, e ora, como Elias e Eliseu oraram antes de devolver as crianças (1Rs 17.20-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Rs 4.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O poder não é dele. Depois se volta para o corpo e diz Tabitha, anastēthi, Tabita, levante-se. O nome Tabitha difere de talitha, menina, por uma só letra, e em aramaico a ordem de Pedro teria soado quase igual à de Jesus na casa de Jairo, Talita cum (Mc 5.41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Muitos leitores ouvem o eco de propósito: Lucas, que no Evangelho deixou de lado as palavras aramaicas (Lc 8.54 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), deixa-o ouvir aqui.

Ela abre os olhos, vê Pedro e anekathisen, senta-se, o mesmo verbo do filho da viúva de Naim (Lc 7.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), como mostra o estudo de Lucas 7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Pedro lhe dá a mão e a levanta (v. 41), chama os santos e as viúvas e a parestēsen zōsan, apresenta-a viva, com a palavra que Lucas usou para Jesus que se apresentou vivo aos apóstolos depois da Paixão (At 1.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não é ainda a ressurreição final: Tabita voltaria a morrer um dia, como a filha de Jairo e o rapaz de Naim. É um sinal, devolvido a uma comunidade, de que o Senhor da vida venceu a morte e de que a última palavra sobre os seus será a ressurreição. Para quem hoje chora uma pessoa querida sem que ela volte, o texto não promete o mesmo milagre; promete o mesmo Senhor, e chora com quem chora, como as viúvas de Jope.

O fato se espalha por toda Jope, e muitos passam a crer no Senhor (v. 42). Pedro fica ali hēmeras hikanas, muitos dias (v. 43), na casa de um certo Simão, byrseus, curtidor de couro. O ofício lidava com peles de animais mortos e substâncias malcheirosas; a Mishná, compilada por volta de 200 d.C., trata-o como um dos ofícios repugnantes, que davam à mulher motivo para pedir o divórcio, e manda afastar os curtumes das cidades. Há quem veja na hospedagem um primeiro passo de Pedro além das fronteiras da pureza; outros lembram que o contato com o couro não fazia de Simão um impuro permanente e que Pedro, no capítulo seguinte, ainda dirá nunca ter comido nada impuro (At 10.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Lucas não comenta, mas o leitor nota onde Pedro está quando a visão vier: na casa de um homem de ofício malvisto, à beira-mar (At 10.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em Jope, de onde, séculos antes, Jonas fugiu num navio para não pregar aos estrangeiros (Jn 1.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O apóstolo que Jesus chamou de Simão, filho de Jonas (Mt 16.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), receberá na mesma cidade a ordem de ir aos gentios, e irá.


✨ 4. Versículos-Chave

At 9.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A voz do céu chama Saulo pelo nome, pergunta por que ele a persegue e se identifica como Jesus. O versículo mostra que o Crucificado vive e reina, e que ele se une de tal modo aos seus que o que se faz a eles se faz a ele (Mt 25.40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 10.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É a raiz da doutrina paulina do corpo de Cristo e uma das palavras mais consoladoras para a igreja que sofre.

At 9.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Senhor escolhe Saulo como portador do seu nome diante das nações, dos governantes e de Israel, e lhe anuncia sofrimento por causa desse nome. A eleição não é privilégio, mas serviço, e o caminho do servo passa pela cruz, como o do Senhor. O versículo resume o restante do livro.

At 9.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A igreja espalhada pela Judeia, pela Galileia e pela Samaria atravessa um tempo de paz, firma-se, vive em reverência ao Senhor e cresce animada pelo Espírito. É o retrato de uma igreja saudável: unida através das fronteiras, reverente e consolada.

At 9.40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Pedro se ajoelha, ora e dá a ordem a Tabita, que se senta. O Senhor que levantou a filha de Jairo continua a agir pelos seus, e a vida devolvida a uma discípula das viúvas anuncia a ressurreição que virá.


⛪ 5. Temas Teológicos Centrais

Cristo e o seu corpo. O Jesus elevado não está distante: a perseguição contra os discípulos o atinge. A união entre Cristo e a igreja, que Paulo ensinará com a imagem do corpo (1Co 12.12-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ef 1.22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), nasce, em Atos, nesta pergunta. Ela consola os perseguidos e julga os perseguidores, inclusive os que perseguiram em nome de Cristo.

A graça que alcança o inimigo. Saulo não buscava Jesus; Jesus o buscou. Paulo dirá que o Senhor teve misericórdia do maior dos pecadores para mostrar nele toda a sua paciência (1Tm 1.13-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e que é o que é pela graça (1Co 15.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ninguém está longe demais para ser alcançado, nem mesmo quem está zelosamente errado.

A comunidade que vence o medo. A conversão de Saulo só se completa porque Ananias vai e Barnabé o apresenta. Deus age pela luz do céu e também por discípulos comuns, que confessam o medo e obedecem. A igreja acolhe o ex-perseguidor sem ingenuidade e sem rancor, e o chama de irmão.

O nome de Jesus que cura e levanta. Em Lida e em Jope, Pedro não age por poder próprio: é Jesus Cristo quem cura, e é a oração que precede a palavra a Tabita. As curas e o levantamento de uma morta são sinais do Reino e da ressurreição, que levam as pessoas a crer no Senhor.


✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo

6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?

Atos 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) está na Redenção consumada, no tempo em que o Cristo ressuscitado e elevado continua a agir e a ensinar pelo Espírito (At 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Queda aparece no zelo que se torna violência, na cegueira de quem luta contra Deus pensando servi-lo, na doença que prende um homem a um catre e na morte que leva uma mulher amada pela comunidade. A Redenção em andamento está no chamado dos profetas, que Saulo revive, e nas crianças devolvidas por Elias e Eliseu, que Pedro relembra. A Nova Criação se anuncia na luz que brilha no caminho, como a luz do primeiro dia (Gn 1.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Co 4.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e no corpo que se levanta, amostra da ressurreição em que a morte não existirá mais (Ap 21.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

6.2 — O Cristo que continua a agir: o Senhor que aparece, chama, cura e levanta

O Senhor vivo e glorificado. O Jesus que aparece a Saulo não é uma lembrança; é o Senhor que fala do céu, com a glória que os profetas viram em Deus. Paulo contará essa aparição como a última do Ressuscitado, a de alguém nascido fora do tempo (1Co 15.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e dirá que viu Jesus, o Senhor (1Co 9.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A sua pregação começa ali: Jesus é o Filho de Deus e o Messias (vv. 20, 22).

O Senhor que se identifica com os seus. Jesus não diz a Saulo que ele persegue os seguidores de Jesus; diz que o persegue. O Cristo da glória é o mesmo que se identificou com os famintos, os nus e os presos (Mt 25.35-40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O Senhor que escolhe, envia e dá vida. Ananias vai porque o Senhor o manda, e Saulo é escolhido por ele: a missão de Atos é o Cristo elevado governando a história, escolhendo até inimigos para servi-lo. E é Jesus Cristo quem cura Eneias e quem, pela oração de Pedro, levanta Tabita: o Senhor que andou pela Galileia continua, pela igreja, a mostrar sinais do Reino.

6.3 — Como Atos lê o Antigo Testamento neste capítulo

O chamado dos profetas. A luz, a queda, a voz que chama pelo nome e a missão retomam as cenas de vocação de Isaías, Jeremias e Ezequiel (Is 6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 1.4-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ez 1–2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Nos relatos dos capítulos 22 e 26, a missão de abrir os olhos das nações e de levá-las das trevas à luz ecoa o Servo de Isaías, luz para as nações (Is 42.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 49.6), texto que Paulo citará em Antioquia da Pisídia (At 13.47 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), como mostra o estudo de Isaías 49 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Saulo, cego por três dias, tem os olhos abertos pelo Senhor que o enviará a abrir os olhos de outros.

Invocar o nome. Os crentes são os que invocam o nome do Senhor (vv. 14, 21), a expressão de Jl 2.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) aplicada por Pedro a Jesus em Pentecostes (At 2.21, 36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), como mostra o estudo de Joel 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O nome que Israel invocava para ser salvo é agora o nome de Jesus, e é esse nome que Saulo levará.

Elias, Eliseu e o Senhor da vida. O quarto de cima, a oração e o morto devolvido aos que choram ecoam Sarepta e Suném (1Rs 17.17-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Rs 4.32-37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), como em Naim e na casa de Jairo. Os profetas oraram; Jesus ordenou com autoridade própria; Pedro ora e ordena no nome de Jesus. A cadeia mostra quem é a fonte da vida.

6.4 — A missão, o Reino e o que Ele pede da igreja

O capítulo prepara os confins da terra: o apóstolo das nações é chamado, e Pedro chega a Jope, às portas de Cesareia. O Reino chega como reviravolta: o perseguidor vira pregador, o paralítico arruma a cama, a morta se senta, a igreja que tremia vive em paz. Mas não chega sem cruz; o primeiro anúncio feito a Saulo sobre o futuro é de sofrimento.

O que Ele pede. Pede obediência mesmo com medo, como a de Ananias; acolhida corajosa ao irmão improvável, como a de Barnabé; ousadia para anunciar Jesus, como a de Saulo; dependência da oração, como a de Pedro; e o serviço discreto aos vulneráveis, como o de Tabita. E pede que nunca se esqueça que perseguir pessoas em nome de Deus é perseguir o próprio Cristo.

6.5 — O Evangelho no capítulo

Atos 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) mostra o evangelho em sua forma mais radical: Cristo salva o inimigo. Saulo não estava indiferente; estava armado de cartas para prender os discípulos de Jesus. O Senhor não esperou que ele se arrependesse para lhe aparecer; apareceu-lhe no caminho da perseguição, derrubou-o, cegou-o e, em vez de destruí-lo, mandou-lhe um irmão. Quem perseguira Jesus na pessoa dos seus discípulos recebeu o perdão do Crucificado. Pregar este capítulo é anunciar que nenhum passado está além da graça de Cristo e que a mesma voz que pergunta por que o perseguimos é a que nos chama pelo nome, nos abre os olhos e nos envia. E é anunciar que o Senhor que fez Saulo levantar-se do chão e Tabita levantar-se do leito é o mesmo que levantará os mortos no último dia.


🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)


🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico

Ninguém está longe demais. A história de Saulo impede que a igreja desista dos mais hostis à fé ou ore por eles sem esperança. Mas impede também o orgulho: a fé de quem crê não nasceu de mérito próprio, e sim da mesma graça que alcançou Saulo no caminho.

O zelo que precisa de luz. Saulo agia com sinceridade e com violência, convencido de servir a Deus. Ainda hoje se pode ferir pessoas com a Bíblia na mão. O encontro com o Cristo que se identifica com os perseguidos é o critério de todo zelo religioso: se ele machuca os pequenos, não é dele.

Obedecer com medo e acolher com sabedoria. Ananias tinha razões para temer, e Barnabé assumiu um risco por um homem de quem todos desconfiavam. A igreja é chamada a receber quem se converte de um passado de violência, chamando-o de irmão. Acolher, porém, não é expor as vítimas nem apagar a verdade: Barnabé contou o que tinha acontecido, e a confiança se construiu com testemunho e tempo. Quem sofreu nas mãos de alguém tem direito a proteção e a cuidado, e a reconciliação em Cristo não exige que esqueça o que viveu.

Sofrer pelo nome. Em muitos lugares, hoje, seguir Jesus custa prisão, perda e morte. O capítulo lembra que esse sofrimento não é sinal de abandono: o Senhor sente a perseguição dos seus como dirigida a ele mesmo, e ele próprio a anunciou a Saulo. A igreja que vive em paz é chamada a orar e agir pelos irmãos perseguidos.

A grandeza escondida das obras simples. Tabita não pregou nas sinagogas nem fez milagres; fazia roupas para as viúvas. Lucas a chama de discípula, e a comunidade a chorou como se chora quem sustentava a vida de todos. No Reino de Cristo, que veio para servir, costurar para os pobres é obra de discípulo.


🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo

  1. Compare os três relatos da conversão de Paulo (At 9.1-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 22.3-16; 26.9-18). O que permanece igual e o que muda? Por que Lucas teria contado a história três vezes?
  2. O que significa que perseguir os discípulos é perseguir Jesus (v. 4)? Como isso consola quem sofre e adverte quem faz sofrer?
  3. Ananias disse ao Senhor que tinha medo (vv. 13-14). Que lugar há para a honestidade na oração e na obediência?
  4. Barnabé arriscou a reputação para apresentar Saulo (v. 27). Há alguém, hoje, que precisa de que você o apresente e o acolha?
  5. Como o capítulo mostra Cristo como a fonte da cura e da vida, em Lida e em Jope? De que modo isso protege a igreja de exaltar os seus líderes?
  6. Para meditação e oração: ouça a voz que chamou Saulo pelo nome. Peça a Cristo que lhe mostre onde você luta contra ele sem perceber, que lhe abra os olhos e que lhe dê, como a Tabita, obras simples de amor para fazer hoje.

📚 10. Para Aprofundamento

Cristocêntrica / Teologia Bíblica:

  • G. K. Beale e D. A. Carson (orgs.) — Comentário do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento (Vida Nova), na parte sobre Atos (de I. Howard Marshall)
  • Seyoon Kim — The Origin of Paul's Gospel (Mohr Siebeck, 1981; Eerdmans, 1982)

Comentários de Atos:

  • John Stott — A mensagem de Atos (ABU Editora, série A Bíblia Fala Hoje)
  • I. Howard Marshall — Atos: introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
  • F. F. Bruce — The Book of the Acts (NICNT, Eerdmans, edição revista, 1988)
  • Darrell L. Bock — Acts (Baker Exegetical Commentary on the New Testament, Baker Academic, 2007)
  • Craig S. Keener — Acts: An Exegetical Commentary (4 vols., Baker Academic, 2012–2015)

Sobre Paulo, a conversão e a cronologia:

  • Martin Hengel e Anna Maria Schwemer — Paul Between Damascus and Antioch (SCM, 1997)
  • Krister Stendahl — Paul Among Jews and Gentiles (Fortress, 1976)
  • Rainer Riesner — Paul's Early Period: Chronology, Mission Strategy, Theology (Eerdmans, 1998)

Sobre o texto dos manuscritos:

  • Bruce M. Metzger — A Textual Commentary on the Greek New Testament (Sociedades Bíblicas Unidas, 2ª ed., 1994)

Sabedoria para o Cotidiano
Atos 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) começa com um homem que respira ameaças e termina com uma mulher que costurava para os pobres sentada de novo entre as viúvas. No meio está o Senhor que derruba o perseguidor no caminho, chama-o pelo nome e manda um irmão com medo abrir-lhe os olhos. Ninguém está longe demais para ser alcançado, e ninguém é pequeno demais para servir: Ananias obedeceu tremendo, Barnabé estendeu a mão, Tabita costurou túnicas. Se você tem lutado contra Deus pensando servi-lo, ouça a voz que o chama pelo nome; e se Deus lhe pedir que acolha alguém improvável, vá, porque o mesmo Cristo que transformou Saulo pode transformar quem você menos espera.

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