Ester · 17 de 66 · Antigo Testamento
Ester — Resumo do livro

Ester é o livro da providência escondida. Passa-se inteiramente na corte persa de Susã, entre banquetes, decretos, intrigas palacianas e uma rainha que esconde sua origem. Um alto oficial do império convence o rei a decretar o extermínio de todos os judeus num único dia; uma jovem órfã, levada ao harém real, arrisca a vida para interceder por seu povo; e, numa noite de insônia do rei, a história inteira começa a virar ao contrário. O homem que preparou uma forca para o judeu Mardoqueu é enforcado nela; o dia marcado para a destruição dos judeus se torna o dia de sua libertação; o luto se transforma em festa.
O traço mais conhecido do livro é que o nome de Deus não aparece uma única vez no texto hebraico. Não há menção explícita a oração, templo, aliança, lei ou sacrifício. E, ainda assim, poucas narrativas bíblicas deixam tão clara a mão de Deus governando a história. O leitor aprende a enxergar o Deus que age por trás das coincidências, das escolhas humanas e até da insônia de um rei. O grande eixo do livro pode ser assim nomeado: a providência oculta de Deus que preserva seu povo e transforma o luto em alegria.
1. Contexto e Autor
Na tradição judaica, Ester é chamado de Megillat Ester, o "rolo de Ester". É um dos cinco Megillot — os cinco rolos lidos em festas judaicas — e é lido publicamente na festa de Purim, cuja origem o livro narra. Na Bíblia Hebraica, está entre os Escritos (Ketuvim); nas Bíblias cristãs, fecha os livros históricos do Antigo Testamento.
O autor é desconhecido. O Talmude (Bava Batra 15a) atribui a escrita do livro aos "homens da Grande Assembleia", o grupo de sábios que a tradição associa ao período pós-exílico. O próprio texto informa que Mardoqueu registrou os acontecimentos e enviou cartas a todos os judeus do império (Et 9.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o que levou alguns a atribuí-lo a ele. O conhecimento detalhado dos costumes da corte persa, o uso de palavras persas e a ausência de influências gregas indicam que o livro foi escrito no período persa ou no início do período helenístico, provavelmente entre 400 e 300 a.C.
O rei Assuero é identificado pela maioria dos estudiosos com Xerxes I (486–465 a.C.). O nome hebraico Ahashverosh corresponde ao persa Khshayarsha, que os gregos transliteraram como Xerxes. O livro diz que ele reinava da Índia à Etiópia, sobre cento e vinte e sete províncias (Et 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O grande banquete do terceiro ano (Et 1.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), por volta de 483 a.C., coincide com o período em que, segundo Heródoto (Histórias 7.8), Xerxes reuniu os nobres do império para planejar a invasão da Grécia. Ester é levada ao rei no sétimo ano de seu reinado (Et 2.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em 479 a.C. — depois das derrotas persas em Salamina (480) e Plateia (479). O intervalo de quatro anos entre a deposição de Vasti e a escolha de Ester corresponde, assim, ao período da campanha grega.
Há também dificuldades históricas. Heródoto menciona Amestris como esposa de Xerxes, e não Vasti nem Ester; os estudiosos discutem se Vasti poderia ser Amestris, se Ester poderia ser uma esposa não mencionada pelas fontes gregas, ou se a narrativa tem um caráter mais literário. Por outro lado, o livro reflete com precisão aspectos conhecidos da corte persa: o palácio de Susã, cuja sala do trono (apadana) foi escavada por Marcel Dieulafoy no século XIX; o sistema de correios a cavalo descrito por Heródoto (8.98); a importância dos registros oficiais; a ideia de que as leis dos medos e dos persas não podiam ser revogadas (Et 1.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 8.8; cf. Dn 6.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Um tablete cuneiforme publicado por Arthur Ungnad em 1940 menciona um oficial chamado Marduka na corte de Susã no início do reinado de Xerxes; alguns o identificam com Mardoqueu, embora a identificação não seja segura. A palavra pur ("sorte"), da qual deriva o nome da festa de Purim (Et 3.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 9.24-26), vem do acadiano puru, e dados de sorte desse tipo são conhecidos na arqueologia mesopotâmica.
A história do texto e da canonicidade de Ester é singular. É o único livro da Bíblia Hebraica do qual não se identificou nenhum fragmento entre os manuscritos do mar Morto, e a comunidade de Qumran não parece ter celebrado Purim. O Talmude registra debates sobre se o livro "tornava as mãos impuras", expressão usada para indicar livros sagrados (Megillah 7a). Entre os cristãos, Melitão de Sardes (c. 170 d.C.) não o incluiu em sua lista, e Atanásio (367 d.C.) o colocou entre os livros úteis para leitura, mas fora do cânon; os concílios africanos do fim do século IV o reconheceram como canônico. Martinho Lutero, em suas Conversas à Mesa, chegou a dizer que gostaria que Ester e 2 Macabeus não existissem, por considerá-los excessivamente judaizantes.
A Septuaginta contém uma versão ampliada de Ester, com seis acréscimos (107 versículos): um sonho de Mardoqueu e sua interpretação, orações de Mardoqueu e de Ester, o texto dos decretos reais e outros trechos. Nesses acréscimos, Deus é mencionado dezenas de vezes. Eles fazem parte das Bíblias católica e ortodoxa, como seções deuterocanônicas, mas não do texto hebraico nem das Bíblias protestantes. Este estudo segue o texto hebraico, no qual o silêncio sobre Deus é intencional.
Comentários de referência incluem os de Karen Jobes (NIV Application Commentary, 1999), Joyce Baldwin (Tyndale, 1984), Frederic Bush (Word Biblical Commentary, 1996), Jon Levenson (Old Testament Library, 1997), Carey Moore (Anchor Bible, 1971) e Michael Fox, Character and Ideology in the Book of Esther (1991). Muitos estudiosos destacam a estrutura do livro organizada em torno de banquetes — a palavra hebraica mishteh aparece cerca de vinte vezes — e o padrão de inversões que culmina na expressão de Ester 9.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): tudo "se virou ao contrário".
O movimento geral do livro vai do banquete do rei ao banquete dos judeus, do decreto de morte ao decreto de vida e do luto à festa.
2. Propósito e Mensagem Central
Ester foi escrito para os judeus da diáspora — os que permaneceram fora da terra de Israel depois do exílio — e para explicar a origem da festa de Purim. Esses leitores viviam sem rei, sem templo por perto, sob governos estrangeiros e expostos à hostilidade de povos vizinhos. Poderiam perguntar se Deus ainda cuidava deles longe de Jerusalém. O livro responde: sim, Deus continua presente e ativo, ainda que de forma oculta.
A mensagem central é a providência de Deus. O livro está repleto de "coincidências": Vasti é deposta justamente quando uma judia está disponível; Ester é escolhida rainha; Mardoqueu descobre um complô contra o rei, e o fato é registrado, mas não recompensado; a sorte lançada por Hamã adia o massacre por quase um ano; o rei não consegue dormir exatamente na noite em que Hamã pretende pedir a morte de Mardoqueu; a leitura das crônicas recai precisamente sobre o registro esquecido; Hamã entra no pátio exatamente no momento em que o rei pensa em honrar Mardoqueu. O autor não comenta, não explica, não menciona Deus — mas a sucessão dos acontecimentos fala por si. A tradição rabínica percebeu isso e fez um jogo de palavras entre o nome de Ester e a expressão de Deuteronômio 31.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em que Deus diz que esconderá o rosto (haster astir): no livro de Ester, Deus está escondido, mas não ausente (Chullin 139b).
O livro também afirma a responsabilidade humana. Deus age por trás dos acontecimentos, mas Ester e Mardoqueu precisam agir. Mardoqueu lembra a Ester que, se ela se calasse, o socorro viria de outro lugar, mas ela e sua família pereceriam; e pergunta se ela não teria chegado à realeza exatamente para aquele momento (Et 4.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A providência não elimina a coragem, a decisão e o risco; ela os inclui.
Outra mensagem importante é a inversão do destino. O livro é construído com paralelos e reviravoltas: Hamã planeja ser honrado e acaba honrando Mardoqueu; prepara uma forca para Mardoqueu e é enforcado nela; os inimigos que esperavam dominar os judeus são dominados por eles (Et 9.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o dia de luto se torna dia de festa (Et 9.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Esse padrão ecoa o cântico de Ana, que celebrava o Deus que abate os soberbos e exalta os humildes (1Sm 2.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Por fim, o livro trata da sobrevivência do povo de Deus. O decreto de Hamã não visava apenas indivíduos, mas o extermínio de todos os judeus do império. Se tivesse sido bem-sucedido, a linhagem de Abraão, de Davi e, portanto, do Messias prometido teria sido destruída. Ester mostra Deus preservando seu povo para cumprir suas promessas.
A linha do livro pode ser assim sintetizada: Banquete do rei → queda de Vasti → escolha de Ester → Mardoqueu salva o rei → ascensão de Hamã → decreto de extermínio → luto dos judeus → Ester arrisca a vida → primeiro banquete → a forca preparada → a noite sem sono → Mardoqueu honrado → segundo banquete → Hamã desmascarado e enforcado → novo decreto → vitória dos judeus → festa de Purim → Mardoqueu exaltado.
3. Principais Temas
A providência oculta de Deus. Ester é o grande livro bíblico sobre a providência — a ação de Deus que governa a história por meio de acontecimentos aparentemente comuns. Deus não abre mares nem faz descer fogo do céu; ele trabalha por meio de decisões humanas, atrasos, esquecimentos, insônias e coincidências. Isaías fala de um Deus que se esconde e, ao mesmo tempo, é o Salvador de Israel (Is 45.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ester narra essa realidade.
Inversão e reviravolta. A estrutura do livro é marcada por reversões. Muitos estudiosos observam que ele gira em torno do capítulo 6, especialmente do versículo 1, quando o rei não consegue dormir; a partir daí, os acontecimentos da primeira metade se invertem na segunda. Hamã sobe e depois cai; Mardoqueu é ameaçado e depois exaltado; o anel do rei sela um decreto de morte e depois um decreto de vida; os judeus jejuam e depois festejam.
Coragem e intercessão. Ester, inicialmente passiva, torna-se protagonista. Arrisca a vida ao entrar na presença do rei sem ser chamada e intercede por seu povo. Sua decisão — se perecer, pereceu (Et 4.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) — é uma das declarações de coragem mais conhecidas da Escritura. Mas sua coragem é acompanhada de sabedoria: ela prepara o momento, organiza dois banquetes e escolhe cuidadosamente quando e como revelar a verdade.
Identidade e fidelidade na diáspora. Mardoqueu e Ester vivem integrados ao império persa. Ester esconde sua origem por um tempo, participa do harém e se casa com um rei pagão; Mardoqueu trabalha à porta do rei. Ao mesmo tempo, Mardoqueu se recusa a se curvar diante de Hamã, e Ester, no momento decisivo, se identifica com seu povo. O livro retrata a difícil tarefa de viver a fé em meio a uma cultura estrangeira, com prudência e, quando necessário, com resistência.
O antigo conflito com Amaleque. O livro apresenta Mardoqueu como benjamita, descendente de Quis (Et 2.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Hamã como "agagita" (Et 3.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O leitor bíblico lembra imediatamente de Saul, filho de Quis, que poupou Agague, rei dos amalequitas, contra a ordem de Deus (1Sm 15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Amaleque atacou Israel no deserto, e Deus declarou guerra contra ele de geração em geração (Êx 17.8-16; Dt 25.17-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em Ester, o antigo conflito reaparece: um descendente de Quis enfrenta um descendente de Agague. E há um detalhe significativo: os judeus, ao se defenderem, não tocam no despojo (Et 9.10, 15, 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), justamente o erro que custara o reino a Saul.
Poder, orgulho e queda. Hamã é o retrato do orgulho. Tem riqueza, filhos, honra e acesso ao rei, mas tudo isso lhe parece nada enquanto um judeu se recusar a se curvar diante dele (Et 5.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Seu orgulho o leva a planejar o genocídio de um povo inteiro e a erguer uma forca de cinquenta côvados. O livro confirma o provérbio de que a soberba precede a ruína (Pv 16.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A lei irrevogável. Um decreto persa, uma vez selado com o anel do rei, não podia ser revogado (Et 1.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 8.8). Isso cria o grande impasse do livro: mesmo depois da queda de Hamã, o decreto de morte continuava valendo. A solução não foi anulá-lo, mas emitir um segundo decreto que permitisse aos judeus se defenderem. Esse detalhe jurídico tem grande valor teológico, como se verá na conexão cristocêntrica.
Banquetes e alegria. O livro começa com banquetes e termina com banquetes. Os primeiros são banquetes de ostentação e poder; os últimos, de alegria e gratidão. Purim é instituído como dia de banquete, de troca de presentes e de ofertas aos pobres (Et 9.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A salvação produz celebração e generosidade.
4. Síntese Narrativa
Capítulo 1: o banquete do rei e a queda de Vasti
No terceiro ano de seu reinado, Assuero oferece um banquete a todos os seus príncipes e servos, aos chefes dos exércitos da Pérsia e da Média e aos governadores das províncias. Durante cento e oitenta dias, exibe as riquezas e o esplendor de seu reino (Et 1.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Depois, oferece um banquete de sete dias no jardim do palácio a todo o povo de Susã, com cortinas de linho, argolas de prata, colunas de mármore, divãs de ouro e prata e vinho real em abundância (Et 1.5-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A rainha Vasti oferece um banquete às mulheres.
No sétimo dia, quando o rei estava alegre por causa do vinho, ordena que Vasti seja trazida com a coroa real para mostrar sua beleza aos convidados. Vasti se recusa. O rei se enfurece e consulta os sábios, que conheciam os tempos (Et 1.10-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Memucã argumenta que o exemplo da rainha levaria todas as mulheres do império a desprezar seus maridos e propõe um decreto irrevogável destituindo Vasti e determinando que todo homem seja senhor em sua casa (Et 1.16-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O decreto é enviado a todas as províncias, em suas próprias línguas. A cena tem tons de ironia: o rei que governa cento e vinte e sete províncias não consegue governar sua própria casa e precisa de um decreto imperial para afirmar a autoridade dos maridos.
Capítulo 2: Ester se torna rainha
Passada a ira, o rei se lembra de Vasti. Seus servos sugerem que se procurem jovens virgens bonitas em todas as províncias e que sejam levadas ao harém em Susã, sob os cuidados de Hegai, eunuco do rei; a que agradasse ao rei seria rainha no lugar de Vasti (Et 2.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O narrador apresenta então Mardoqueu, um judeu da tribo de Benjamim, filho de Jair, filho de Simei, filho de Quis, cuja família havia sido levada ao exílio com o rei Jeconias (Et 2.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). (A frase pode se referir ao bisavô Quis, já que Mardoqueu teria idade avançada demais se ele mesmo tivesse sido deportado em 597 a.C.) Mardoqueu havia criado Hadassa, isto é, Ester, filha de seu tio, que era órfã de pai e mãe. Hadassa significa "murta"; o nome Ester pode derivar do persa stara, "estrela", ou estar relacionado ao nome da deusa babilônica Ishtar. A jovem era bela de formas e de aparência (Et 2.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Ester é levada ao palácio e confiada a Hegai, conquista seu favor e recebe tratamentos de beleza, alimentos especiais, sete servas e o melhor lugar no harém (Et 2.8-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Seguindo a orientação de Mardoqueu, não revela seu povo nem sua família (Et 2.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mardoqueu passeia diariamente diante do pátio do harém para saber como ela estava.
Cada jovem passava doze meses de preparação antes de ir ao rei: seis meses com óleo de mirra e seis com especiarias e perfumes. Podia levar consigo o que quisesse. Quando chega a vez de Ester, ela não pede nada além do que Hegai recomendou, e conquista o favor de todos os que a veem (Et 2.12-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É levada ao rei no décimo mês, o mês de Tebete, no sétimo ano de seu reinado. O rei a ama mais do que a todas as outras, coloca a coroa real sobre sua cabeça e a faz rainha no lugar de Vasti, oferecendo um grande banquete em sua honra (Et 2.16-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O capítulo termina com um episódio aparentemente secundário. Mardoqueu, sentado à porta do rei, descobre que dois eunucos, Bigtã e Teres, planejam matar Assuero. Ele informa Ester, que avisa o rei em nome de Mardoqueu. O caso é investigado, os conspiradores são enforcados, e o fato é registrado no livro das crônicas, na presença do rei (Et 2.21-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mardoqueu não recebe recompensa — por enquanto.
Capítulo 3: Hamã e o decreto de extermínio
Algum tempo depois, o rei promove Hamã, filho de Hamedata, o agagita, e coloca seu assento acima de todos os príncipes. Todos os servos do rei que estavam à porta se curvam e se prostram diante dele, por ordem do rei. Mardoqueu, porém, não se curva nem se prostra (Et 3.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os servos lhe perguntam por que transgride a ordem do rei; ele lhes havia dito que era judeu (Et 3.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O texto não explica plenamente o motivo da recusa. A prostração diante de autoridades não era proibida em si mesma em Israel (cf. Gn 23.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Sm 24.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a razão parece estar ligada à identidade de Hamã como agagita, inimigo histórico do povo de Deus, ou a honras que beiravam a adoração.
Quando Hamã descobre a atitude de Mardoqueu, enche-se de fúria. Mas, considerando pouco matar apenas um homem, decide destruir todos os judeus, o povo de Mardoqueu, em todo o reino de Assuero (Et 3.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
No primeiro mês, o mês de Nisã, do décimo segundo ano do rei, lança-se o pur — a sorte — diante de Hamã, dia após dia e mês após mês, para escolher a data do extermínio. A sorte cai no décimo segundo mês, o mês de Adar (Et 3.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quase um ano de intervalo. O narrador não comenta, mas o leitor percebe: a própria sorte usada para destruir os judeus lhes concede tempo.
Hamã apresenta ao rei uma acusação cuidadosamente formulada: há um povo espalhado e disperso entre os povos de todas as províncias, cujas leis são diferentes das de todos os outros povos, que não cumpre as leis do rei; não convém ao rei tolerá-lo. Propõe um decreto para destruí-lo e oferece dez mil talentos de prata ao tesouro real (Et 3.8-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Hamã não menciona o nome do povo. O rei tira o anel do dedo e o entrega a Hamã, chamado de "inimigo dos judeus", e lhe diz que ficasse com a prata e fizesse com aquele povo o que bem entendesse (Et 3.10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
No décimo terceiro dia do primeiro mês — véspera da Páscoa, a festa da libertação do Egito —, os escribas do rei redigem o decreto em todas as línguas do império, selado com o anel real. A ordem é destruir, matar e aniquilar todos os judeus, jovens e velhos, crianças e mulheres, num único dia, o décimo terceiro do mês de Adar, e saquear seus bens (Et 3.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os mensageiros partem às pressas. O rei e Hamã se sentam para beber, enquanto a cidade de Susã fica perplexa (Et 3.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Capítulo 4: "Para um momento como este"
Quando Mardoqueu fica sabendo de tudo, rasga suas vestes, veste pano de saco e cinza e sai pela cidade clamando em alta voz e com amargura, até chegar à porta do rei, onde não podia entrar vestido assim. Em todas as províncias, onde chegava o decreto, havia entre os judeus grande luto, jejum, choro e lamentação, e muitos se deitavam em pano de saco e cinza (Et 4.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O texto não menciona oração, mas o jejum e o lamento, no contexto bíblico, estão tradicionalmente associados à súplica a Deus.
Ester, informada de que Mardoqueu estava de luto, fica muito angustiada e lhe envia roupas, que ele recusa. Ela manda Hatá, um eunuco do rei, saber o motivo. Mardoqueu relata tudo o que acontecera, incluindo a quantia prometida por Hamã, entrega-lhe uma cópia do decreto e pede que Ester vá ao rei para suplicar por seu povo (Et 4.4-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Ester responde lembrando uma lei conhecida por todos: quem entrasse no pátio interno do rei sem ser chamado seria morto, a menos que o rei lhe estendesse o cetro de ouro. E ela não era chamada à presença do rei havia trinta dias (Et 4.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A resposta de Mardoqueu é o centro teológico do livro. Ele adverte Ester a não pensar que escaparia por estar no palácio do rei. Se ela se calasse naquele momento, socorro e livramento surgiriam para os judeus de outro lugar, mas ela e a casa de seu pai pereceriam. E acrescenta: quem sabe se não foi para um momento como este que ela chegou à realeza? (Et 4.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A expressão "de outro lugar" aponta discretamente para Deus, sem nomeá-lo. (Na literatura rabínica posterior, Makom, "o Lugar", tornou-se um dos modos de se referir a Deus, e alguns intérpretes veem aqui uma alusão velada.) Mardoqueu tem certeza de que o povo seria salvo; o que está em jogo é se Ester participaria desse livramento.
Ester responde com decisão: pede que Mardoqueu reúna todos os judeus de Susã para jejuarem por ela durante três dias e três noites, sem comer nem beber; ela e suas servas fariam o mesmo. Depois, entraria à presença do rei, contra a lei; e, se perecesse, pereceria (Et 4.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mardoqueu faz tudo o que Ester ordenou. A jovem que, no capítulo 2, seguia as instruções de todos agora dá ordens.
Capítulo 5: o cetro estendido e a forca preparada
No terceiro dia, Ester veste suas vestes reais e se põe no pátio interno do palácio, diante da sala do rei. Quando o rei a vê, ela alcança favor aos seus olhos, e ele estende para ela o cetro de ouro. Ester se aproxima e toca a ponta do cetro (Et 5.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O rei pergunta o que ela deseja e promete dar-lhe até metade do reino. Ester não faz o pedido imediatamente; apenas convida o rei e Hamã para um banquete que havia preparado (Et 5.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
No banquete, o rei repete a pergunta e a promessa. Ester pede que o rei e Hamã voltem a um segundo banquete no dia seguinte, quando então ela faria seu pedido (Et 5.6-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O adiamento aumenta a tensão narrativa e, como se verá, dá tempo para que outros acontecimentos se desenrolem.
Hamã sai do banquete alegre e de bom humor, mas, ao ver Mardoqueu à porta do rei sem se levantar nem se mover diante dele, enche-se de fúria. Contém-se e vai para casa. Reúne seus amigos e sua mulher, Zeres, e se gaba de suas riquezas, de seus muitos filhos, de todas as honras que o rei lhe dera e de ter sido o único convidado da rainha, além do rei, para o banquete, e também para o dia seguinte. Mas conclui que tudo isso de nada lhe valia enquanto visse o judeu Mardoqueu sentado à porta do rei (Et 5.9-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Zeres e os amigos sugerem que ele mande fazer uma forca — ou estaca, pois a palavra hebraica 'ets significa árvore ou madeira — de cinquenta côvados de altura (cerca de vinte e dois metros) e peça ao rei, pela manhã, que Mardoqueu seja pendurado nela. Hamã gosta da ideia e manda preparar a forca (Et 5.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Capítulo 6: a noite em que o rei não dormiu
O capítulo 6 é o ponto de virada do livro. Naquela noite, o rei não conseguiu dormir (Et 6.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele manda trazer o livro das memórias, as crônicas do reino, e elas são lidas diante dele. A leitura chega exatamente ao registro de que Mardoqueu havia denunciado a conspiração de Bigtã e Teres. O rei pergunta que honra e distinção tinham sido concedidas a Mardoqueu por isso. Os servos respondem: nenhuma (Et 6.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O rei pergunta quem está no pátio. Naquele exato momento, Hamã acabava de chegar ao pátio exterior do palácio para pedir ao rei que mandasse pendurar Mardoqueu na forca que preparara (Et 6.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O rei manda que ele entre e pergunta: o que se deve fazer ao homem a quem o rei deseja honrar? Hamã pensa consigo mesmo que o rei não poderia querer honrar ninguém mais do que ele (Et 6.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Então sugere que esse homem vista uma roupa real que o próprio rei já tenha usado, monte um cavalo que o rei já tenha montado, com uma coroa real na cabeça, e que um dos príncipes mais nobres o conduza pela praça da cidade, proclamando diante dele que assim se faz ao homem a quem o rei deseja honrar (Et 6.7-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O rei responde imediatamente: que Hamã se apresse, tome a roupa e o cavalo e faça tudo isso ao judeu Mardoqueu, que está sentado à porta do rei, sem omitir nada do que dissera (Et 6.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Hamã é obrigado a vestir Mardoqueu, fazê-lo montar e conduzi-lo pela praça, proclamando a honra que pensara para si mesmo (Et 6.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Depois, Mardoqueu volta à porta do rei, e Hamã corre para casa, de luto e com a cabeça coberta (Et 6.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Hamã conta tudo à mulher e aos amigos. Seus conselheiros e Zeres lhe dizem que, se Mardoqueu, diante de quem começara a cair, era de descendência judaica, ele não prevaleceria contra ele, mas certamente cairia diante dele (Et 6.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ainda estão falando quando chegam os eunucos do rei para levar Hamã às pressas ao banquete de Ester (Et 6.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Capítulo 7: a queda de Hamã
No segundo banquete, o rei pergunta pela terceira vez qual é o pedido de Ester, prometendo até metade do reino. Ester finalmente fala: pede que sua vida lhe seja dada e que seu povo seja poupado. Ela e seu povo haviam sido vendidos para serem destruídos, mortos e aniquilados. Se tivessem sido vendidos apenas como escravos, ela se calaria, pois essa aflição não justificaria incomodar o rei (Et 7.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ester usa a mesma sequência de verbos do decreto de Hamã (Et 3.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), revelando que conhecia o texto.
O rei pergunta quem é e onde está o homem que ousou fazer isso. Ester responde: o adversário e inimigo é este mau Hamã (Et 7.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Hamã fica aterrorizado diante do rei e da rainha. O rei se levanta furioso do banquete e vai ao jardim do palácio. Hamã fica para implorar pela vida à rainha Ester, porque percebe que o rei havia decidido sua ruína (Et 7.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Quando o rei volta do jardim, encontra Hamã caído sobre o divã em que Ester estava reclinada e exclama se ele ainda pretendia violentar a rainha em sua própria presença, dentro do palácio. Assim que o rei diz isso, cobrem o rosto de Hamã — gesto que indicava condenação (Et 7.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Harbona, um dos eunucos, informa que havia uma forca de cinquenta côvados na casa de Hamã, preparada para Mardoqueu, o homem que falara em favor do rei. O rei ordena: pendurem-no nela. E Hamã é pendurado na forca que havia preparado para Mardoqueu. Então a ira do rei se aplaca (Et 7.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Capítulo 8: o segundo decreto
Naquele mesmo dia, o rei dá a Ester a casa de Hamã. Ester revela que Mardoqueu é seu parente, e o rei entrega a Mardoqueu o anel que havia tirado de Hamã; Ester o coloca sobre a casa de Hamã (Et 8.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O perigo, porém, ainda não havia passado. O decreto de extermínio continuava em vigor. Ester volta à presença do rei, prostra-se a seus pés e, chorando, suplica que ele anule o plano maligno de Hamã contra os judeus. O rei estende novamente o cetro de ouro, e ela pede que sejam escritas cartas revogando as ordens de Hamã, pois não suportaria ver a destruição de seu povo e de sua família (Et 8.3-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O rei explica o impasse: um documento escrito em nome do rei e selado com seu anel não pode ser revogado. Mas autoriza Ester e Mardoqueu a escreverem, em nome do rei, o que lhes parecer bom em favor dos judeus e a selarem com o anel real (Et 8.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No dia vinte e três do terceiro mês, o mês de Sivã, os escribas redigem um novo decreto, nas línguas de todos os povos e também na língua dos judeus. O decreto permite aos judeus de todas as cidades se reunirem e defenderem suas vidas, destruindo, matando e aniquilando qualquer força armada de qualquer povo ou província que os atacasse, incluindo mulheres e crianças, e saqueando seus bens, no mesmo dia treze de Adar (Et 8.9-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O texto do segundo decreto reproduz, em espelho, a linguagem do primeiro. Os mensageiros partem às pressas, montados nos cavalos velozes do rei (Et 8.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Mardoqueu sai da presença do rei com vestes reais azuis e brancas, uma grande coroa de ouro e um manto de linho fino e púrpura. A cidade de Susã exulta e se alegra. Para os judeus, há luz, alegria, júbilo e honra. Em todas as províncias, onde chega o decreto, há alegria, festa e dia de celebração. E muitos dentre os povos da terra se tornam judeus, porque o temor dos judeus havia caído sobre eles (Et 8.15-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Capítulo 9: o dia que se virou ao contrário e a festa de Purim
Chega o décimo terceiro dia do mês de Adar, o dia em que os inimigos dos judeus esperavam dominá-los. Mas aconteceu o contrário: os judeus dominaram os que os odiavam (Et 9.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A expressão hebraica venahafokh hu, "e isso foi revertido", resume o livro inteiro. Os judeus se reúnem em suas cidades para enfrentar os que buscavam seu mal, e ninguém consegue resistir-lhes. Os príncipes e governadores das províncias os ajudam, por medo de Mardoqueu, cuja fama crescia em todo o império (Et 9.2-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Em Susã, os judeus matam quinhentos homens, além dos dez filhos de Hamã, cujos nomes são listados; mas não tocam no despojo (Et 9.6-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O rei relata a Ester os números e pergunta o que mais ela deseja. Ester pede que os judeus de Susã tenham permissão para agir também no dia seguinte e que os corpos dos dez filhos de Hamã sejam pendurados na forca (Et 9.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O pedido é atendido: no dia catorze, os judeus de Susã matam mais trezentos homens, sem tocar no despojo (Et 9.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Nas províncias, os judeus se defendem, matam setenta e cinco mil de seus inimigos e também não tocam no despojo (Et 9.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Esses capítulos levantam questões morais que os intérpretes discutem. Alguns entendem a ação dos judeus como legítima defesa, nos termos do segundo decreto, contra inimigos armados que pretendiam executar o primeiro; o próprio texto enfatiza que atacaram os que buscavam seu mal (Et 9.2, 5, 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Outros veem com reserva o pedido de Ester por um dia adicional em Susã e a exposição pública dos corpos dos filhos de Hamã. O narrador não aprova nem reprova explicitamente cada gesto. A insistência repetida de que não tocaram no despojo mostra, porém, que não se tratava de enriquecimento, e sim de sobrevivência — em contraste deliberado com a desobediência de Saul diante de Agague (1Sm 15.9, 19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Os judeus das províncias descansam no dia catorze de Adar e o transformam em dia de banquete e alegria; os de Susã descansam no dia quinze (Et 9.17-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mardoqueu registra esses acontecimentos e envia cartas a todos os judeus das províncias, próximas e distantes, determinando que celebrem anualmente os dias catorze e quinze de Adar como dias em que obtiveram descanso de seus inimigos, e o mês em que a tristeza se transformou em alegria e o luto em dia de festa. Deveriam ser dias de banquete e de alegria, de troca de porções de comida entre amigos e de presentes aos pobres (Et 9.20-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A festa recebe o nome de Purim, por causa do pur, a sorte que Hamã lançara para destruir os judeus (Et 9.24-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os judeus assumem o compromisso de celebrar esses dias em todas as gerações, famílias, províncias e cidades, para que a memória desses acontecimentos nunca desaparecesse de seus descendentes (Et 9.27-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A rainha Ester, junto com Mardoqueu, escreve com toda autoridade uma segunda carta confirmando Purim, com palavras de paz e verdade, e estabelece também o costume de jejum e lamentação (Et 9.29-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Até hoje, a tradição judaica observa o "Jejum de Ester" no dia 13 de Adar, véspera de Purim.
Capítulo 10: Mardoqueu, o segundo do rei
O livro termina brevemente. O rei Assuero impõe tributo à terra e às ilhas do mar. Os atos de seu poder e o relato da grandeza de Mardoqueu estão registrados no livro das crônicas dos reis da Média e da Pérsia (Et 10.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mardoqueu, o judeu, torna-se o segundo depois do rei Assuero, grande entre os judeus, estimado por muitos de seus irmãos. Ele procurava o bem de seu povo e falava de paz a toda a sua descendência (Et 10.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O órfão escondido e o homem ameaçado de morte terminam, respectivamente, como rainha e como primeiro-ministro, instrumentos da preservação do povo de Deus.
5. Conexão Cristocêntrica
O Deus que se esconde e governa
Ester não menciona Deus, mas mostra Deus. A ausência do nome não é ausência de presença. Isaías resume essa verdade ao declarar que o Deus de Israel é o Deus que se esconde e, ao mesmo tempo, o Salvador (Is 45.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O ponto mais alto dessa realidade está na cruz. Quando Jesus clama por que o Pai o abandonou (Mt 27.46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), tudo parecia indicar que Deus estava ausente. No entanto, aquele era exatamente o momento em que Deus realizava sua maior obra de salvação. Pedro afirma que Jesus foi entregue pelo propósito determinado e pela presciência de Deus, ainda que por mãos iníquas (At 2.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Assim como Deus governou o palácio de Susã sem aparecer, ele governou o Calvário, transformando o maior crime da história no maior ato de redenção. Paulo expressa essa confiança ao afirmar que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus (Rm 8.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e José já havia reconhecido que Deus transformou em bem aquilo que outros planejaram para o mal (Gn 50.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A mediadora que arrisca a vida
Ester entra na presença do rei sem ser chamada, sabendo que poderia morrer, para interceder por seu povo condenado. Sua decisão — se perecer, pereceu — antecipa, em forma humana e limitada, a obra de Cristo. Jesus não apenas arriscou a vida; ele a entregou. Não disse "se eu perecer"; disse que daria sua vida pelas ovelhas (Jo 10.11, 15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Caifás, sem entender o alcance de suas palavras, profetizou que convinha que um homem morresse pelo povo, e não que toda a nação perecesse (Jo 11.50-52 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ester esperava ser poupada pelo cetro do rei; Cristo foi atingido pelo juízo para que seu povo fosse poupado.
Há também uma diferença quanto ao acesso. Ester precisou arriscar a vida para se aproximar de um rei terreno. Por meio de Cristo, os crentes podem se aproximar com confiança do trono da graça (Hb 4.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e entrar no santuário pelo novo e vivo caminho aberto por seu sangue (Hb 10.19-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O cetro de ouro estendido a Ester é uma imagem da graça que, em Cristo, é estendida a todos os que creem. E, como Ester intercedeu por seu povo diante do rei, Cristo vive sempre para interceder pelos seus (Hb 7.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
No terceiro dia
Ester jejuou três dias e, no terceiro dia, vestiu as vestes reais, entrou na presença do rei e encontrou favor (Et 4.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 5.1). O que estava sob sentença de morte recebeu vida. Muitos intérpretes cristãos veem aqui um eco do padrão bíblico do terceiro dia como dia de livramento — de Abraão no monte Moriá (Gn 22.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) a Jonas (Jn 1.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e Oseias (Os 6.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo afirma que Cristo ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras (1Co 15.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A conexão é temática, não uma profecia direta, mas se encaixa num padrão real da Escritura: no terceiro dia, Deus transforma a sentença de morte em vida.
A árvore preparada para outro
Hamã preparou uma forca — literalmente uma "árvore" ou "madeira" — para Mardoqueu, e acabou pendurado nela (Et 7.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A reviravolta ilustra o princípio de que o ímpio cai na cova que cavou (Sl 7.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas a cruz de Cristo apresenta um contraste ainda mais profundo. Hamã foi pendurado na madeira por causa de sua própria culpa; Cristo foi pendurado no madeiro por causa da culpa dos outros. Paulo afirma que Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós, pois está escrito que é maldito todo aquele que for pendurado no madeiro (Gl 3.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); cf. Dt 21.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 5.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Pe 2.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Ao mesmo tempo, a cruz também é o lugar da derrota do grande inimigo. Paulo afirma que Cristo despojou os principados e potestades e triunfou sobre eles na cruz (Cl 2.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e que, se os poderosos deste mundo tivessem entendido a sabedoria de Deus, não teriam crucificado o Senhor da glória (1Co 2.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Assim como o plano de Hamã se voltou contra ele mesmo, o plano das trevas para destruir Cristo se tornou o instrumento de sua derrota.
O decreto irrevogável e o decreto de vida
O grande impasse do livro é jurídico: o decreto de morte, selado com o anel do rei, não podia ser revogado (Et 8.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A solução foi um segundo decreto, selado com o mesmo anel, que concedia aos judeus o direito de viver e vencer. Essa estrutura oferece uma poderosa ilustração do evangelho. A lei de Deus é santa, e a sentença contra o pecado é justa: o salário do pecado é a morte (Rm 6.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Deus não anula sua justiça. Mas, em Cristo, promulga uma nova palavra de vida. Paulo afirma que a lei do Espírito da vida em Cristo Jesus nos libertou da lei do pecado e da morte (Rm 8.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e que Deus cancelou o escrito de dívida que era contra nós, removendo-o e cravando-o na cruz (Cl 2.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O primeiro decreto não é ignorado; ele é respondido de forma justa e vitoriosa.
O segundo decreto também precisava ser levado rapidamente a todas as províncias, em todas as línguas, por mensageiros apressados (Et 8.9-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os judeus só podiam se beneficiar dele se o conhecessem. De modo semelhante, o evangelho precisa ser anunciado a todos os povos. Paulo cita Isaías: quão belos são os pés dos que anunciam boas-novas (Rm 10.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 52.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A missão da igreja é levar às nações o decreto de vida selado pelo sangue de Cristo.
Mardoqueu, o justo exaltado
Mardoqueu é o judeu fiel que se recusa a se curvar, é condenado à morte, humilhado e ameaçado, mas termina revestido de vestes reais, com a coroa e o anel do rei, exaltado como o segundo depois do rei, buscando o bem de seu povo e falando de paz a toda a sua descendência (Et 8.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 10.3). Sua trajetória lembra a de José, também exaltado como segundo do faraó depois da humilhação (Gn 41.40-43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Esse padrão encontra sua plenitude em Cristo. Jesus se recusou a se curvar diante do tentador que lhe oferecia os reinos do mundo (Mt 4.8-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Foi condenado, humilhado e crucificado, mas Deus o exaltou soberanamente e lhe deu o nome que está acima de todo nome (Fp 2.8-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele está sentado à direita do Pai, e toda autoridade lhe foi dada (Mt 28.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E, como Mardoqueu, procura o bem de seu povo e anuncia a paz: veio e anunciou a paz aos que estavam longe e aos que estavam perto (Ef 2.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Amaleque e a guerra antiga
Hamã, o agagita, representa o antigo inimigo de Israel, Amaleque, contra quem Deus prometera guerra de geração em geração (Êx 17.16). Em termos bíblicos mais amplos, sua tentativa de exterminar os judeus se insere numa longa sequência de ataques contra o povo por meio do qual viria o Messias: o faraó que mandou matar os meninos hebreus (Êx 1.16-22), Atalia que tentou destruir a descendência real (2Rs 11.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), Herodes que ordenou a morte dos meninos de Belém (Mt 2.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Apocalipse descreve essa hostilidade em termos cósmicos: o dragão que tenta devorar o filho da mulher e depois persegue a sua descendência (Ap 12.4, 17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Desde a promessa de Gênesis 3.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), há inimizade entre a descendência da serpente e a descendência da mulher. Se Hamã tivesse vencido, não haveria Belém, nem Calvário, nem túmulo vazio. Ester é mais um capítulo da preservação da linhagem messiânica.
Onde Saul, filho de Quis, falhou ao poupar Agague e tomar o despojo, Mardoqueu, descendente de Quis, e os judeus do império permaneceram firmes e não tocaram no despojo. Mas a vitória definitiva sobre o inimigo antigo não é conquistada por Mardoqueu. Ela pertence a Cristo, que esmaga a cabeça da serpente (Gn 3.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Rm 16.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e triunfa sobre todos os poderes que se opõem a Deus.
Muitos se tornaram judeus
Depois do segundo decreto, muitos dos povos da terra se tornaram judeus (Et 8.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O texto sugere que se juntaram ao povo de Deus, ainda que movidos pelo temor. É um prenúncio discreto do que acontecerá no evangelho, quando gentios de todas as nações serão incorporados ao povo de Deus pela fé em Cristo (At 10.34-48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ef 2.11-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em Cristo, os que estavam longe são aproximados, não pelo medo, mas pela graça.
Do luto à alegria
Purim celebra a transformação da tristeza em alegria e do luto em festa (Et 9.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus usou essa mesma imagem ao falar de sua morte e ressurreição: os discípulos chorariam e se lamentariam, mas sua tristeza se transformaria em alegria, uma alegria que ninguém lhes tiraria (Jo 16.20-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Nas bem-aventuranças, promete que os que choram agora rirão (Lc 6.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o Apocalipse anuncia o dia em que Deus enxugará toda lágrima, e não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor (Ap 21.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os banquetes de Purim, com porções compartilhadas e presentes aos pobres, antecipam o grande banquete do Reino, a ceia das bodas do Cordeiro (Ap 19.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A sorte lançada e a soberania de Deus
Hamã lançou a sorte para escolher o dia da destruição dos judeus, e o próprio lançamento da sorte trouxe o intervalo necessário para o livramento. Provérbios afirma que a sorte é lançada no colo, mas a decisão vem do Senhor (Pv 16.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No Calvário, os soldados lançaram sortes sobre as vestes de Jesus, cumprindo sem saber o Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (Jo 19.23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Até o que parece acaso está sob o governo de Deus.
Até a metade do reino
O rei Assuero promete três vezes a Ester dar-lhe até a metade do reino (Et 5.3, 6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 7.2). A mesma expressão reaparece no Novo Testamento, quando Herodes Antipas, numa festa, promete à filha de Herodias dar-lhe o que quisesse, até metade de seu reino; ela, a pedido da mãe, pede a cabeça de João Batista (Mc 6.22-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O eco verbal cria um contraste marcante: num banquete persa, o pedido de uma rainha salva a vida de um povo; num banquete herodiano, o pedido de uma jovem tira a vida do precursor do Messias. O contraste também aponta para Cristo, que não pede metade de um reino para salvar sua própria vida, mas entrega a vida para dar a seu povo o Reino inteiro (Lc 12.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 22.29).
O rei que não dorme e o Deus que não dorme
O ponto de virada do livro é a insônia do rei. O rei mais poderoso do mundo não conseguiu dormir, e isso mudou a história. O Salmo 121 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) afirma que o guarda de Israel não cochila nem dorme (Sl 121.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Por trás da noite sem sono de Assuero estava o Deus que nunca dorme. Em Cristo, esse cuidado se torna pessoal: o bom pastor conhece suas ovelhas, e ninguém as arrebatará de suas mãos (Jo 10.27-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
6. Relação entre Antigo e Novo Testamento
Ester está profundamente ligado à história de Israel. O conflito entre Mardoqueu e Hamã retoma o conflito entre Israel e Amaleque, iniciado no deserto (Êx 17.8-16), ordenado em Deuteronômio 25.17-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e agravado pela desobediência de Saul diante de Agague (1Sm 15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A figura de Mardoqueu, judeu fiel exaltado na corte estrangeira, lembra José no Egito (Gn 39–41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e Daniel na Babilônia e na Pérsia (Dn 1–6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A tentativa de exterminar o povo de Deus retoma o padrão de Êxodo 1. A data do decreto de Hamã, na véspera da Páscoa, liga implicitamente a história de Ester ao Êxodo, a grande libertação de Israel. O livro se situa cronologicamente entre Esdras 6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Esdras 7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), no tempo em que a maioria dos judeus ainda vivia na diáspora, e ajuda a entender por que as comunidades judaicas espalhadas pelo império permaneceram vivas.
A teologia do livro dialoga com a sabedoria de Provérbios, especialmente na queda do orgulhoso (Pv 16.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e na soberania de Deus sobre a sorte (Pv 16.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e com os Salmos, que celebram o Deus que frustra os planos dos ímpios (Sl 7.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 33.10-11) e guarda seu povo sem dormir (Sl 121 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O Novo Testamento não cita Ester diretamente, mas há conexões significativas:
- Marcos 6.22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) retoma a expressão "até a metade do meu reino" (Et 5.3, 6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 7.2), criando um contraste entre o banquete de Assuero e o de Herodes.
- João 5.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) menciona uma "festa dos judeus" sem identificá-la; alguns estudiosos sugerem que seria Purim, embora a maioria prefira outras festas.
- João 11.49-52 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) registra a profecia involuntária de Caifás sobre um homem que morreria para que o povo não perecesse.
- João 16.20-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) fala da tristeza transformada em alegria, tema central de Purim.
- Atos 2.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) afirma que o maior crime da história aconteceu segundo o propósito determinado de Deus.
- Romanos 8.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) expressa a confiança na providência que o livro narra.
- Romanos 8.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Colossenses 2.14-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) mostram como a sentença de morte é respondida pela vida em Cristo e como o inimigo é derrotado na cruz.
- Gálatas 3.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) apresenta Cristo pendurado no madeiro, em contraste com Hamã.
- Hebreus 4.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 10.19-22 falam do acesso ao trono que Ester só obteve arriscando a vida.
- Apocalipse 12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) descreve a hostilidade do dragão contra a descendência da mulher, da qual Hamã é um instrumento histórico.
7. Aplicação Espiritual e Teológica
Ester ensina, antes de tudo, que Deus está presente mesmo quando parece ausente. Há períodos da vida em que não vemos milagres, não ouvimos respostas claras e não sentimos a presença de Deus. O livro de Ester foi escrito para esses tempos. Ele mostra que Deus continua trabalhando nos bastidores, organizando circunstâncias, preparando pessoas e conduzindo os acontecimentos. Para quem atravessa o silêncio de Deus, Ester oferece uma esperança sóbria e firme: o silêncio não é abandono.
O livro também ensina que nenhuma posição é por acaso. Ester chegou ao palácio por caminhos que ela não escolheu e que envolviam dor, perda e dificuldade. Mardoqueu a ajudou a perceber que talvez estivesse ali para um momento como aquele. Cada pessoa ocupa lugares — na família, na empresa, na igreja, na sociedade — onde pode ser usada por Deus. A pergunta não é apenas por que estamos onde estamos, mas o que Deus quer fazer por meio de nós ali.
A decisão de Ester mostra que a fé às vezes exige coragem e risco. Ela poderia ter permanecido em silêncio e confiado na segurança do palácio. Mardoqueu lembrou que a omissão também tem consequências. Há momentos em que falar, interceder ou defender os vulneráveis pode custar reputação, estabilidade ou segurança. Mas a fidelidade a Deus e o amor ao próximo às vezes exigem exatamente esse preço.
Ao mesmo tempo, o livro valoriza a sabedoria e a preparação. Ester não entrou precipitadamente. Jejuou, pediu que o povo jejuasse, preparou banquetes e escolheu o momento certo para falar. Coragem não é impulsividade. A ação sábia combina oração, discernimento, estratégia e tempo oportuno.
Hamã é um alerta sobre o poder destrutivo do orgulho e do ressentimento. Ele tinha tudo, mas nada lhe bastava enquanto uma pessoa não o reverenciasse. O orgulho ferido transformou-se em ódio, e o ódio, em planos de destruição. Muitos conflitos pessoais, familiares, empresariais e até nacionais nascem dessa mesma raiz. O caminho de Deus é a humildade, e a queda de Hamã mostra que a soberba prepara a própria ruína.
A cena da noite de insônia ensina que Deus pode usar pequenos detalhes para mudar grandes histórias. Um registro esquecido, uma boa ação não recompensada e uma noite sem sono foram usados para salvar um povo inteiro. Nenhum ato de fidelidade é inútil, mesmo quando parece esquecido. Mardoqueu não recebeu reconhecimento imediato, mas Deus sabia exatamente quando trazer sua ação à memória.
Por fim, Purim ensina que a salvação deve ser lembrada, celebrada e compartilhada. Os judeus foram instruídos a festejar, enviar porções uns aos outros e dar presentes aos pobres. A gratidão pela libertação se transforma em generosidade. Para o cristão, a Ceia do Senhor e a vida em comunidade cumprem esse papel: lembramos a libertação conquistada por Cristo, celebramos juntos e compartilhamos com os necessitados aquilo que recebemos pela graça.
Sabedoria para o Cotidiano
Ester ensina que Deus trabalha mesmo quando seu nome não é pronunciado e sua mão não é vista. Quando o céu parecer silencioso, lembre-se de que ele continua governando as noites, os registros esquecidos e as decisões dos poderosos. Pergunte-se se você não chegou ao lugar onde está para um momento como este; ore, prepare-se e aja com coragem e sabedoria. Não alimente o orgulho que destruiu Hamã, e não desanime quando o bem que você fez parecer esquecido. Em Cristo, o decreto de vida já foi selado, o inimigo foi vencido na cruz e todo luto será transformado em alegria.