Isaías · 23 de 66 · Antigo Testamento
Isaías — Bloco 11: O Clamor do Remanescente e os Novos Céus e Nova Terra
Capítulos principais
Capítulos e versículos: Isaías 63:1–66 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba):24.
Tema central do bloco
O último bloco de Isaías conduz o livro à sua consumação. Depois da glória de Sião anunciada nos capítulos 60–62, a seção final parece dar um passo atrás: o povo ainda espera, o templo está em ruínas, os inimigos ainda existem e a comunidade está dividida entre fiéis e rebeldes. É desse realismo que nasce a esperança final.
O bloco tem quatro movimentos. Abre com o Guerreiro que vem de Edom (63:1-6), com vestes tingidas de vermelho, que pisou sozinho o lagar do juízo porque não havia ninguém para ajudar. Segue o clamor do remanescente (63:7–64:12), uma das orações comunitárias mais longas e comoventes do Antigo Testamento. Nela, o povo recorda as misericórdias antigas, confessa que suas justiças são como trapo imundo, chama Deus de Pai e implora que ele rasgue os céus e desça. A resposta de Deus (cap. 65) faz uma separação nítida: dentro de Israel, há os "servos" fiéis e os rebeldes, e o destino de cada grupo será diferente. Para os servos, Deus anuncia a criação de novos céus e nova terra, onde não haverá choro, o trabalho não será em vão e o lobo e o cordeiro pastarão juntos. O livro termina (cap. 66) com o Deus que tem o céu por trono, mas olha para o humilde que treme diante da sua Palavra. Ele faz nascer uma nação num só dia, consola como uma mãe, envia mensageiros às nações distantes para anunciar sua glória e reúne todos os povos para adorá-lo. A última imagem, sóbria e grave, mostra o destino dos rebeldes.
Estes capítulos fecham uma grande moldura com o capítulo 1. O livro começou com céus e terra convocados como testemunhas contra filhos rebeldes, com festas e luas novas rejeitadas por Deus e com jardins idólatras. Termina com novos céus e nova terra, com toda a humanidade adorando de lua nova em lua nova e de sábado em sábado, e com os rebeldes separados para sempre. A pergunta que o livro deixa ao leitor é a mesma do primeiro capítulo: de que lado você estará?
Versículos-chave do Livro estudado
- Isaías 63:1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Quem vem de Edom, de Bozra, com vestes vermelhas? É o que fala com justiça, poderoso para salvar; ele pisou sozinho o lagar, e ninguém dos povos estava com ele.
- Isaías 63:4-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O dia da vingança estava no seu coração, e chegou o ano dos seus redimidos; olhou e não havia quem ajudasse, e seu próprio braço lhe trouxe a salvação.
- Isaías 63:7-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O remanescente recorda as misericórdias do Senhor; ele disse que eram seu povo e se tornou seu Salvador; em toda a angústia deles, ele também se angustiou, e o anjo da sua presença os salvou.
- Isaías 63:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Mas eles se rebelaram e entristeceram o seu Santo Espírito, e ele se tornou inimigo deles.
- Isaías 63:11-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O povo lembra os dias de Moisés: onde está aquele que os fez passar pelo mar e pôs no meio deles o seu Santo Espírito?
- Isaías 63:15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Olha do céu e vê; onde está o teu zelo? Tu és nosso Pai, ainda que Abraão não nos conheça; tu, Senhor, és nosso Pai, nosso Redentor desde sempre.
- Isaías 63:17-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Por que nos deixas desviar dos teus caminhos? Volta por amor dos teus servos.
- Isaías 64:1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Ah! se rasgasses os céus e descesses, e os montes tremessem diante de ti, como quando fizeste coisas terríveis que não esperávamos.
- Isaías 64:4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Nunca se ouviu nem se viu outro Deus além de ti, que age em favor de quem nele espera.
- Isaías 64:6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Todos nos tornamos como coisa impura, e todas as nossas justiças como trapo imundo; murchamos como folha, e nossas iniquidades nos levam como o vento.
- Isaías 64:8-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Mas tu, Senhor, és nosso Pai; nós somos o barro e tu o oleiro; não te ires demais nem lembres para sempre a iniquidade.
- Isaías 64:10-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — As cidades santas são um deserto, e o templo onde os pais te louvavam foi queimado; ficarás em silêncio diante disso?
- Isaías 65:1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus se deixou buscar por quem não perguntava e se deixou achar por quem não o procurava; o dia todo estendeu as mãos a um povo rebelde.
- Isaías 65:3-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O povo provoca Deus com sacrifícios nos jardins, consultas aos mortos e alimentos impuros, e ainda diz aos outros que não se aproximem, porque são mais santos.
- Isaías 65:8-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Como quando se acha suco num cacho de uvas e se diz que não o destruam, porque há bênção nele, assim Deus não destruirá todos, por amor dos seus servos.
- Isaías 65:11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os que abandonam o Senhor preparam mesa para Gade e Meni, os deuses da sorte e do destino; Deus os destinará à espada.
- Isaías 65:13-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os servos de Deus comerão, beberão e se alegrarão, enquanto os rebeldes terão fome, sede e vergonha; quem se abençoar o fará pelo Deus da verdade.
- Isaías 65:17-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus cria novos céus e nova terra; as coisas passadas não serão lembradas; Jerusalém será alegria, e nela não se ouvirá mais choro.
- Isaías 65:20-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Não haverá criança que viva poucos dias; construirão casas e as habitarão, plantarão vinhas e comerão seus frutos; não trabalharão em vão.
- Isaías 65:24-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Antes que clamem, Deus responderá; o lobo e o cordeiro pastarão juntos, e não haverá dano nem destruição no monte santo.
- Isaías 66:1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O céu é o trono de Deus e a terra o estrado dos seus pés; que casa lhe construiriam? Mas ele olha para o humilde, o contrito de espírito, que treme diante da sua palavra.
- Isaías 66:3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O culto de quem escolheu os próprios caminhos é abominação para Deus.
- Isaías 66:5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os que tremem diante da palavra de Deus são odiados e expulsos por seus irmãos, que zombam em nome do Senhor; mas estes serão envergonhados.
- Isaías 66:7-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Sião dá à luz antes de sentir as dores; uma nação nasce num só dia; Deus não fará chegar ao parto sem fazer nascer.
- Isaías 66:10-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Alegrem-se com Jerusalém; Deus estenderá sobre ela a paz como um rio; como uma mãe consola o filho, assim Deus os consolará.
- Isaías 66:15-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Senhor vem com fogo e julga toda a humanidade.
- Isaías 66:18-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus reunirá todas as nações e línguas para verem sua glória; enviará sobreviventes às nações distantes que nunca ouviram falar dele; trarão os irmãos como oferta, e alguns serão tomados como sacerdotes e levitas.
- Isaías 66:22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Como os novos céus e a nova terra permanecerão, assim permanecerão a descendência e o nome do povo; toda a humanidade virá adorar diante de Deus.
- Isaías 66:24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os que saírem verão os cadáveres dos que se rebelaram contra Deus, cujo verme não morrerá e cujo fogo não se apagará.
Versículos relacionados em outros capítulos ou Livros da Bíblia
- Isaías 34:5-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O juízo sobre Edom e o grande sacrifício em Bozra, desenvolvidos em Is 63:1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Isaías 59:16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Senhor vê que não há intercessor, e seu braço traz a salvação, retomado quase literalmente em Is 63:5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Isaías 61:2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O ano da graça e o dia da vingança, retomados em Is 63:4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Apocalipse 14:19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 19:13-15 — O lagar da ira de Deus e o Cavaleiro cujo manto está tingido de sangue, que pisa o lagar, retomada de Is 63:1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Salmos 44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), 74, 79 e 89 e o livro de Lamentações — Lamentos comunitários paralelos a Is 63:7–64 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba):12.
- Êxodo 14–15 e Números 11:17, 25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A travessia do mar sob Moisés e o Espírito colocado sobre os líderes do povo, recordados em Is 63:11-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Salmo 51:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Uma das três únicas ocorrências da expressão "Santo Espírito" no Antigo Testamento, junto com Is 63:10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Efésios 4:30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Paulo exorta a não entristecer o Espírito Santo de Deus, eco de Is 63:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Mateus 6:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Romanos 8:15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A oração ao Pai e o Espírito que nos faz clamar "Abba, Pai", desenvolvimento de Is 63:16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 64:8.
- Marcos 1:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — No batismo de Jesus, os céus se rasgam, verbo que muitos estudiosos ligam ao pedido de Is 64:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- 1 Coríntios 2:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Paulo retoma Is 64:4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): o que olhos não viram nem ouvidos ouviram, Deus preparou para os que o amam.
- Romanos 3:10-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Tito 3:5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Ninguém é justo, e Deus salva não por obras de justiça, mas por sua misericórdia, eco de Is 64:6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Jeremias 18:1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Romanos 9:20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus como oleiro e o povo como barro, imagem de Is 64:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Romanos 10:20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Paulo cita Is 65:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) sobre os gentios que acharam a Deus sem procurá-lo e Is 65:2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) sobre Israel, a quem Deus estendeu as mãos.
- Apocalipse 3:14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Cristo é chamado o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, eco do "Deus do Amém" de Is 65:16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Deuteronômio 28:30-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A maldição de construir sem habitar e plantar sem colher, revertida em Is 65:21-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- 1 Coríntios 15:58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O trabalho no Senhor não é em vão, eco de Is 65:23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- 2 Pedro 3:13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Apocalipse 21:1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os novos céus e a nova terra onde habita a justiça e onde não haverá morte, choro nem dor, retomada de Is 65:17-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 66:22.
- Isaías 11:6-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A paz entre os animais no monte santo, retomada em Is 65:25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Atos 7:48-50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Estêvão cita Is 66:1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) em seu discurso: o Altíssimo não habita em templos feitos por mãos humanas.
- João 2:19-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 4:21-24 — Jesus fala do templo do seu corpo e da adoração em espírito e verdade, desenvolvimento de Is 66:1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- João 16:2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Lucas 6:22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os discípulos serão expulsos e odiados por causa do nome de Cristo, paralelo de Is 66:5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- João 16:21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Gálatas 4:26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A mulher que se alegra depois do parto e a Jerusalém do alto, nossa mãe, ecos de Is 66:7-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Lucas 13:34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus deseja reunir os filhos de Jerusalém como a galinha reúne os pintinhos, imagem materna paralela a Is 66:13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Mateus 28:19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Atos 1:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O envio dos discípulos a todas as nações, desenvolvimento de Is 66:19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Romanos 15:16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Paulo descreve seu ministério como serviço sacerdotal, para que os gentios sejam uma oferta aceitável, eco de Is 66:20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- 1 Pedro 2:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Apocalipse 5:9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Pessoas de todas as nações feitas sacerdotes para Deus, cumprimento de Is 66:21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Marcos 9:43-48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus cita Is 66:24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ao falar da Geena, onde o verme não morre e o fogo não se apaga.
Explicação teológica e bíblica
O Guerreiro que vem de Edom (Is 63:1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))
O bloco abre com um diálogo dramático. Uma sentinela vê alguém se aproximar e pergunta quem é aquele que vem de Edom, de Bozra, com vestes de cor vermelha, majestoso em suas roupas e avançando com grande força (63:1a). Há jogos de palavras no hebraico: Edom ('Edom) soa como "vermelho" ('adom), e Bozra (Botsrah) lembra "vindima" (batsir). A resposta vem do próprio guerreiro: sou eu, que falo com justiça, poderoso para salvar (63:1b).
A sentinela insiste: por que suas vestes estão vermelhas, como as de quem pisa uvas no lagar (63:2)? A resposta é solene. Ele pisou sozinho o lagar, e ninguém dos povos estava com ele. Pisou-os na sua ira e os esmagou no seu furor, e o sangue deles salpicou suas vestes (63:3). O dia da vingança estava no seu coração, e chegou o ano dos seus redimidos (63:4). A expressão retoma 61:2, onde o Ungido proclama o ano da graça e o dia da vingança. O versículo 5 repete quase palavra por palavra 59:16: ele olhou e não havia quem ajudasse, se espantou de não haver quem o sustentasse, e então seu próprio braço lhe trouxe a salvação, e seu furor o sustentou.
Edom aqui é mais do que um povo histórico. Como em Is 34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), representa todos os inimigos que se levantam contra Deus e seu povo. A imagem é dura, mas o texto é claro quanto ao seu sentido: a redenção do povo de Deus inclui o fim definitivo dos poderes que o oprimem. E o mais importante: Deus faz isso sozinho, porque não havia ninguém capaz de fazê-lo. O Apocalipse retomará essa cena ao descrever o Cavaleiro chamado Fiel e Verdadeiro, cujo manto está tingido de sangue e que pisa o lagar do furor da ira de Deus (Ap 19:13-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); cf. 14:19-20).
O clamor do remanescente: memória da misericórdia (Is 63:7-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))
Depois da visão do Guerreiro, o tom muda completamente. Começa uma longa oração do povo (63:7–64:12), que muitos estudiosos consideram um dos lamentos comunitários mais belos do Antigo Testamento, comparável aos Salmos 44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), 74 e 79 e ao livro de Lamentações.
A oração começa não com queixa, mas com memória. O orante quer recordar as misericórdias (chasdei, plural de chesed, o amor fiel da aliança) e os louvores do Senhor, segundo tudo o que ele fez pelo povo, a grande bondade que lhe mostrou segundo sua compaixão (63:7). Deus havia dito que eles eram seu povo, filhos que não mentiriam, e por isso se tornou seu Salvador (63:8). O versículo 9 contém uma das afirmações mais tocantes sobre o coração de Deus: em toda a angústia deles, ele também se angustiou, e o anjo da sua presença os salvou. No seu amor e na sua compaixão, ele os redimiu, os levantou e os carregou todos os dias antigos.
Há aqui uma questão textual. O texto hebraico escrito (ketiv) pode ser lido como "ele não se angustiou", mas a tradição de leitura judaica (qere) e a maioria das versões leem "ele se angustiou". A segunda leitura é a mais aceita e coerente com o contexto. O Deus de Israel não é indiferente ao sofrimento de seu povo: ele sofre junto.
O versículo 10 traz o contraste: mas eles se rebelaram e entristeceram o seu Santo Espírito, e ele se tornou inimigo deles e lutou contra eles. A expressão "Santo Espírito" (ruach qodsho) aparece apenas três vezes no Antigo Testamento: aqui, em 63:11 e no Salmo 51:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O Espírito é apresentado como alguém que pode ser entristecido, linguagem pessoal que Paulo retoma ao exortar os efésios a não entristecer o Espírito Santo de Deus (Ef 4:30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Em 63:11-14, o povo se lembra dos dias antigos, de Moisés. Onde está aquele que os fez subir do mar com o pastor do seu rebanho? Onde está aquele que pôs no meio deles o seu Santo Espírito, que fez o seu braço glorioso andar à direita de Moisés, que dividiu as águas diante deles para fazer um nome eterno, que os conduziu pelos abismos como um cavalo no deserto, sem tropeçar? Como o gado que desce ao vale, o Espírito do Senhor lhes deu descanso. A memória do Êxodo é a base da esperança: o Deus que agiu assim no passado pode agir de novo.
O clamor do remanescente: "Tu és nosso Pai" (Is 63:15–64 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba):12)
A partir de 63:15, a memória se transforma em súplica. O povo pede que Deus olhe do céu, da sua morada santa e gloriosa. Onde estão o seu zelo e o seu poder? A comoção das suas entranhas e a sua compaixão se retraíram (63:15)?
Vem então uma das afirmações mais notáveis do Antigo Testamento (63:16): tu és nosso Pai. Ainda que Abraão não nos conheça e Israel não nos reconheça, tu, Senhor, és nosso Pai; nosso Redentor desde sempre é o teu nome. É raro, no Antigo Testamento, Deus ser invocado diretamente como "Pai" numa oração. Aqui o povo se apoia nessa paternidade de modo radical: mesmo que os ancestrais humanos os rejeitassem, Deus continuaria sendo o Pai deles. A mesma invocação volta em 64:8.
Em 63:17, o povo faz uma pergunta difícil: por que, Senhor, nos deixas desviar dos teus caminhos e endureces o nosso coração para não te temer? A pergunta retoma o tema do endurecimento de 6:9-10. O povo não nega a própria culpa, mas pede que Deus intervenha e quebre o ciclo: volta, por amor dos teus servos, das tribos da tua herança. Por pouco tempo o povo santo possuiu o santuário, e os adversários o pisaram (63:18). O povo se sente como se nunca tivesse sido governado por Deus, como se nunca tivesse sido chamado pelo seu nome (63:19).
O capítulo 64 começa com um dos pedidos mais intensos da Bíblia (64:1-3): ah! se rasgasses os céus e descesses, e os montes tremessem diante de ti, como o fogo que queima o mato e faz a água ferver, para dar a conhecer o teu nome aos teus adversários e fazer as nações tremerem diante de ti. O povo lembra as coisas terríveis que Deus fez quando eles não esperavam e os montes tremeram, evocando o Sinai (Êx 19:18). Nas Bíblias hebraicas, este versículo é o último do capítulo 63 (63:19b), o que reforça sua ligação com a súplica anterior. Muitos estudiosos veem um eco intencional dessa oração em Marcos 1:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). No batismo de Jesus, Marcos diz que os céus se rasgaram (schizomenous, um verbo forte, que o evangelista só voltará a usar para o véu do templo rasgado na morte de Jesus, Mc 15:38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O versículo 4 traz uma confissão de fé: desde a antiguidade, ninguém ouviu, nenhum ouvido percebeu, nenhum olho viu outro Deus além de ti, que age em favor de quem nele espera. Paulo retomará essa linguagem em 1 Coríntios 2:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) para falar do que Deus preparou para os que o amam. Deus vai ao encontro de quem pratica a justiça com alegria e se lembra dele nos seus caminhos (64:5).
Mas o povo reconhece sua condição (64:5b-7). Deus se irou, porque o povo pecou, e por muito tempo permaneceu nos pecados; como seriam salvos? Todos nos tornamos como coisa impura, e todas as nossas justiças são como trapo imundo (beged 'iddim, literalmente pano manchado, provavelmente pano menstrual, a imagem mais forte de impureza ritual da época). Todos murcham como folha, e as iniquidades os arrastam como o vento. Ninguém invoca o nome de Deus nem se esforça para se apegar a ele, porque Deus escondeu o rosto e os entregou ao poder das suas iniquidades. A confissão é radical: até o que parecia bom no povo estava contaminado.
No entanto, a oração não termina em desespero (64:8-12). Mas agora, Senhor, tu és nosso Pai; nós somos o barro, e tu és o oleiro; todos somos obra das tuas mãos (64:8). A imagem do oleiro, que em 29:16 e 45:9 servia para repreender quem questionava a Deus, aqui se torna fundamento de esperança: se Deus é o oleiro, ele pode refazer o vaso quebrado (Jr 18:1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O povo pede que Deus não se ire demais nem se lembre da iniquidade para sempre, e que olhe para eles, porque todos são o seu povo (64:9). Em seguida, descreve a devastação: as cidades santas viraram deserto, Sião é um deserto, Jerusalém uma desolação. O templo santo e glorioso, onde os pais louvavam a Deus, foi queimado, e todas as coisas preciosas foram destruídas (64:10-11). A descrição sugere o período posterior à destruição de 586 a.C. A oração termina com uma pergunta aberta (64:12): diante de tudo isso, Deus vai se conter? Vai ficar calado e afligir o povo além da medida?
A resposta de Deus: os servos e os rebeldes (Is 65:1-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))
O capítulo 65 é a resposta de Deus ao clamor. Ela começa de forma surpreendente (65:1-2). Deus diz que se deixou buscar por quem não perguntava por ele e se deixou achar por quem não o procurava. A uma nação que não se chamava pelo seu nome, ele disse: eis-me aqui, eis-me aqui (hinneni, hinneni). O dia todo estendeu as mãos a um povo rebelde, que anda por um caminho que não é bom, seguindo os próprios pensamentos. Paulo cita esses dois versículos em Romanos 10:20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Aplica o primeiro aos gentios, que encontraram a Deus sem procurá-lo, e o segundo a Israel, a quem Deus continua estendendo as mãos.
Os versículos 3-7 descrevem os pecados do povo rebelde: sacrifícios em jardins e altares de tijolo, noites passadas em sepulcros e lugares secretos para consultar os mortos, consumo de carne de porco e de caldo impuro. E acrescentam uma atitude particularmente ofensiva: eles dizem aos outros que fiquem longe, que não se aproximem, porque são mais santos (65:5). Deus diz que essas pessoas são como fumaça no seu nariz, fogo que arde o dia todo. É o retrato da arrogância religiosa, a mesma que Jesus denunciará nos que confiavam em si mesmos por se considerarem justos e desprezavam os outros (Lc 18:9-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Em 65:8-10, aparece a imagem da uva com suco. Quando se encontra suco num cacho de uvas, diz-se que não o destruam, porque há bênção nele. Assim Deus fará por amor dos seus servos: não destruirá a todos. De Jacó fará sair descendência, e de Judá herdeiros dos seus montes. Seus escolhidos herdarão a terra, e seus servos habitarão nela. A planície de Sarom será pasto de ovelhas, e o vale de Acor, lugar de descanso de rebanhos. O vale de Acor, cujo nome significa "perturbação", era o lugar onde Acã foi julgado (Js 7:24-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Oseias já havia prometido que se tornaria uma porta de esperança (Os 2:15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O versículo 11 descreve os que abandonam o Senhor, se esquecem do monte santo e preparam mesa para Gade e enchem taças para Meni. Gade e Meni eram divindades da sorte e do destino, cultuadas no mundo semítico antigo. Há um trocadilho no versículo seguinte: os que serviam a Meni (Meni, "destino") serão "destinados" (maniti) à espada (65:12). Os que confiavam na sorte terão um destino amargo, porque Deus chamou e eles não responderam, falou e não ouviram, e escolheram o que lhe desagrada.
Os versículos 13-16 mostram o contraste entre os dois grupos com uma série de pares. Os servos de Deus comerão, e os rebeldes terão fome; os servos beberão, e eles terão sede; os servos se alegrarão, e eles serão envergonhados; os servos cantarão de alegria, e eles gritarão de dor. O nome dos rebeldes será usado como maldição, mas os servos de Deus receberão outro nome. Quem se abençoar na terra o fará pelo Deus da verdade (Elohei 'amen, literalmente "o Deus do Amém"), e quem jurar o fará pelo Deus da verdade, porque as angústias passadas serão esquecidas (65:16). O Apocalipse chamará Cristo de "o Amém, a testemunha fiel e verdadeira" (Ap 3:14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Os novos céus e a nova terra (Is 65:17-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))
Chegamos a um dos textos mais importantes da escatologia bíblica. Deus declara: eis que crio novos céus e nova terra, e as coisas passadas não serão lembradas nem virão à mente (65:17). O verbo "criar" (bara') é o mesmo de Gênesis 1:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), usado na Bíblia hebraica apenas para a ação de Deus. A salvação final não é apenas a restauração de Jerusalém, mas uma nova criação.
O povo deve se alegrar e exultar para sempre no que Deus cria, porque ele cria Jerusalém para ser alegria e seu povo para ser júbilo (65:18). Deus mesmo se alegrará em Jerusalém e terá prazer no seu povo, e nunca mais se ouvirá nela voz de choro nem voz de clamor (65:19). O Apocalipse retomará essa promessa: Deus enxugará toda lágrima, e não haverá mais morte, nem pranto, nem dor (Ap 21:4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Os versículos 20-23 descrevem a vida nessa nova realidade com imagens concretas. Não haverá mais criança que viva poucos dias, nem idoso que não complete seus dias; quem morrer aos cem anos será considerado jovem (65:20). O povo construirá casas e as habitará, plantará vinhas e comerá o seu fruto. Não construirão para outros habitarem, nem plantarão para outros comerem; como os dias de uma árvore serão os dias do povo, e os escolhidos desfrutarão do trabalho de suas mãos (65:21-22). Essas promessas revertem diretamente as maldições da aliança em Deuteronômio 28:30-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em que o povo construiria sem habitar e plantaria sem colher. Não trabalharão em vão, nem terão filhos para a calamidade, porque serão descendência abençoada pelo Senhor (65:23).
A menção à morte aos cem anos (65:20) suscita debate. Os intérpretes pré-milenaristas leem o texto como descrição de um reino terreno de longa duração antes da consumação final, em que a morte ainda existe, mas é rara. Os amilenaristas e muitos outros intérpretes leem a linguagem como poética: o profeta descreve a plenitude da vida com as imagens mais fortes que seus ouvintes podiam entender, uma vida tão longa que a morte aos cem anos seria precoce, e o Apocalipse completará o quadro anunciando que a morte não existirá mais (Ap 21:4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ambas as leituras concordam que o texto anuncia uma transformação radical da existência humana.
O capítulo termina com duas promessas (65:24-25). A primeira é de uma comunhão perfeita com Deus: antes que clamem, ele responderá; enquanto ainda estiverem falando, ele os ouvirá. A segunda retoma a paz cósmica de 11:6-9: o lobo e o cordeiro pastarão juntos, o leão comerá palha como o boi, e o pó será o alimento da serpente, numa alusão à maldição de Gênesis 3:14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Não haverá dano nem destruição em todo o monte santo.
O trono, o estrado e o humilde que treme (Is 66:1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))
O capítulo final abre com uma declaração que relativiza qualquer templo humano (66:1-2). O céu é o trono de Deus e a terra é o estrado dos seus pés. Que casa lhe construiriam? Que lugar seria o seu descanso? Todas essas coisas foram feitas por suas mãos. A pergunta não condena a existência do templo, mas lembra que Deus não pode ser contido nele, como Salomão já reconhecera (1 Rs 8:27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Estêvão citará estes versículos em seu discurso diante do Sinédrio (At 7:48-50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o versículo 2 aponta onde Deus realmente fixa o olhar: para o humilde e contrito de espírito, que treme diante da sua palavra. O texto retoma 57:15. O verdadeiro lugar da habitação de Deus não é um edifício, mas um coração humilde e reverente.
Os versículos 3-4 condenam o culto feito sem esse coração. Quem sacrifica um boi é como quem mata um homem; quem oferece um cordeiro é como quem quebra o pescoço de um cão; quem apresenta oferta de cereais é como quem oferece sangue de porco. O culto exterior, separado da obediência, se torna tão abominável quanto as práticas pagãs. Eles escolheram os próprios caminhos e se deleitaram em suas abominações, e por isso Deus escolherá para eles o que temem.
Em 66:5, Deus se dirige aos que tremem diante da sua palavra. Seus irmãos os odeiam e os expulsam por causa do nome de Deus, e ainda zombam deles, dizendo que o Senhor seja glorificado para que vejam a alegria deles. Mas os perseguidores serão envergonhados. O texto mostra uma divisão dentro do próprio povo, em que os fiéis sofrem rejeição de quem se considera religioso. Jesus advertirá os discípulos de que seriam expulsos das sinagogas por pessoas que pensariam estar prestando culto a Deus (Jo 16:2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O parto de Sião e o consolo materno de Deus (Is 66:7-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))
Os versículos 7-9 descrevem um parto milagroso. Antes de sentir as dores, Sião deu à luz; antes que lhe viessem as dores, nasceu-lhe um filho. Quem já ouviu ou viu algo assim? Pode uma terra nascer num só dia, ou uma nação ser dada à luz de uma só vez? Mas Sião, mal sentiu as dores, deu à luz os filhos. E Deus pergunta: faria ele chegar ao momento do parto sem fazer nascer? A imagem retoma o lamento de 26:17-18 e 37:3, em que o povo estava em dores de parto, mas sem forças para dar à luz. Agora, Deus mesmo faz nascer o povo novo.
Todos os que amam Jerusalém são convidados a se alegrar com ela (66:10-11), a mamar e se saciar nos seios da sua consolação. Deus estenderá sobre ela a paz como um rio e a glória das nações como uma torrente que transborda (66:12). É a resposta ao lamento de 48:18, em que Deus dizia que, se o povo tivesse ouvido, sua paz seria como um rio. O que foi perdido pela desobediência é agora dado pela graça. E vem uma das imagens mais ternas sobre Deus em toda a Escritura (66:13): como alguém a quem sua mãe consola, assim eu vos consolarei, e em Jerusalém sereis consolados. Ao lado das imagens de Deus como Pai (63:16; 64:8), o livro termina com Deus consolando como uma mãe, retomando 49:15. O povo verá, e o coração se alegrará, e os ossos florescerão como a erva; a mão do Senhor será conhecida pelos seus servos, e sua indignação pelos seus inimigos (66:14).
O juízo pelo fogo e o envio às nações (Is 66:15-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))
Os versículos 15-17 anunciam o juízo final. O Senhor virá em fogo, com seus carros como tempestade, para descarregar sua ira e sua repreensão com chamas de fogo. Com fogo e com espada, julgará toda a humanidade, e serão muitos os mortos pelo Senhor. Os que se consagram e se purificam para os jardins idólatras, comendo carne de porco e de rato, terão seu fim (66:17), retomando os jardins de 1:29 e 65:3.
Os versículos 18-21 trazem o horizonte mais amplo de todo o livro. Deus conhece as obras e os pensamentos de todos e virá reunir todas as nações e línguas, e elas virão e verão a sua glória (66:18). E então um anúncio surpreendente: Deus porá um sinal entre elas e enviará os sobreviventes às nações: a Társis (provavelmente na Espanha), a Pul e Lude (na África), a Tubal e Javã (na Ásia Menor e Grécia) e às ilhas distantes, que nunca ouviram falar dele nem viram a sua glória. Esses mensageiros anunciarão a glória de Deus entre as nações (66:19). É um dos textos mais claramente missionários do Antigo Testamento: em vez de apenas esperar que as nações venham a Sião, o povo de Deus é enviado às nações. Os enviados trarão todos os seus irmãos, de todas as nações, como oferta ao Senhor, em cavalos, carros, liteiras, mulas e camelos, ao monte santo, como os israelitas trazem ofertas em vasos puros (66:20). Paulo descreverá seu ministério como um serviço sacerdotal para que os gentios sejam uma oferta aceitável a Deus (Rm 15:16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o versículo 21 vai ainda mais longe: Deus tomará alguns deles como sacerdotes e levitas. Estrangeiros, antes excluídos do santuário, servirão no culto de Deus.
A permanência e o destino final (Is 66:22-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))
O livro se encerra com duas declarações finais. A primeira é de esperança (66:22-23). Como os novos céus e a nova terra que Deus faz permanecerão diante dele, assim permanecerão a descendência e o nome do povo de Deus. E de lua nova em lua nova, de sábado em sábado, toda a humanidade virá adorar diante de Deus. As luas novas e os sábados, rejeitados em 1:13-14 porque eram celebrados com mãos manchadas, agora são o tempo de adoração universal.
A segunda declaração é grave (66:24). Os adoradores sairão e verão os cadáveres dos que se rebelaram contra Deus. O verme deles não morrerá, o fogo deles não se apagará, e serão objeto de horror para toda a humanidade. O verbo "rebelar-se" (pasha') é o mesmo de 1:2, onde Deus acusa os filhos que se rebelaram contra ele. O livro termina, assim, com o destino dos rebeldes, fechando a moldura aberta no primeiro capítulo. Jesus citará esse versículo ao falar da Geena, onde o verme não morre e o fogo não se apaga (Mc 9:48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A tradição judaica sentiu o peso dessa conclusão. Na leitura pública na sinagoga, quando o último capítulo de Isaías é lido, costuma-se repetir o versículo 23 depois do 24, para que a leitura termine com a esperança da adoração universal, e não com a imagem do juízo. O mesmo costume é seguido em outros livros que terminam com palavras duras, como Malaquias e Lamentações.
A contribuição do bloco para o livro e para a Bíblia
Os capítulos 63–66 fecham Isaías com uma visão que abrange toda a história. Em primeiro lugar, completam a grande moldura com o capítulo 1: céus e terra, filhos rebeldes, culto rejeitado e jardins idólatras dão lugar a novos céus e nova terra, culto universal e separação final dos rebeldes. Em segundo lugar, deixam claro que o verdadeiro povo de Deus não se define apenas pela origem, mas pela fidelidade: dentro de Israel há "servos" e "rebeldes", e das nações vêm adoradores e até sacerdotes. Em terceiro lugar, oferecem à Bíblia algumas de suas imagens mais duradouras: o Guerreiro que pisa o lagar, a oração "rasga os céus e desce", Deus como Pai e como mãe que consola, os novos céus e a nova terra, o envio missionário às nações e o destino eterno dos rebeldes. O Apocalipse de João, em seus capítulos finais, é em grande parte uma releitura cristológica destes capítulos.
Visão cristocêntrica
Conexão direta e explícita. Jesus cita Is 66:24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) em sua advertência mais séria sobre o destino eterno, ao falar da Geena, onde o verme não morre e o fogo não se apaga (Mc 9:43-48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Novo Testamento leva a sério o desfecho grave de Isaías. Paulo cita Is 65:1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) para explicar que os gentios encontraram a Deus por meio do evangelho, enquanto Deus continua estendendo as mãos a Israel (Rm 10:20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Estêvão cita Is 66:1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) para mostrar que Deus não está preso a um templo feito por mãos humanas (At 7:48-50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Jesus anuncia que o templo verdadeiro é o seu próprio corpo (Jo 2:19-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que a adoração em espírito e verdade não depende de um lugar (Jo 4:21-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pedro e João retomam explicitamente a promessa de novos céus e nova terra (2 Pe 3:13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 21:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o Apocalipse associa sua realização ao trono de Deus e do Cordeiro (Ap 21:22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 22:1-3). O Cavaleiro de Apocalipse 19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), chamado Fiel e Verdadeiro e Verbo de Deus, com o manto tingido de sangue, que pisa o lagar da ira de Deus (Ap 19:11-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), é a retomada direta do Guerreiro de Is 63:1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), agora identificado com Cristo.
Conexão temática. O Guerreiro que pisa sozinho o lagar porque não havia quem ajudasse (63:3, 5) prefigura Cristo, que enfrentou sozinho a cruz, abandonado pelos discípulos (Mc 14:50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e venceu os poderes do mal (Cl 2:15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O pedido "rasga os céus e desce" (64:1) encontra uma resposta notável no batismo de Jesus, quando Marcos diz que os céus se rasgaram e o Espírito desceu sobre ele (Mc 1:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Deus respondeu ao clamor do remanescente descendo em seu Filho. A confissão de que todas as nossas justiças são como trapo imundo (64:6) prepara o evangelho da justiça que vem de Deus pela fé em Cristo, e não das obras (Rm 3:21-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Fp 3:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Tt 3:5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A invocação de Deus como Pai (63:16; 64:8) se torna o centro da oração cristã, quando Jesus ensina os discípulos a orar ao Pai (Mt 6:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e o Espírito nos faz clamar "Abba, Pai" (Rm 8:15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Deus do Amém (65:16) ganha rosto em Cristo, o Amém, a testemunha fiel e verdadeira (Ap 3:14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em quem todas as promessas de Deus têm o seu "sim" (2 Co 1:20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A nação nascida num só dia (66:8) evoca o nascimento da igreja no Pentecostes, quando cerca de três mil pessoas foram acrescentadas num único dia (At 2:41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O consolo materno de Deus (66:13) se reflete no lamento de Jesus sobre Jerusalém, como a galinha que deseja reunir os pintinhos sob as asas (Lc 13:34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O envio às nações distantes (66:19) se cumpre na Grande Comissão (Mt 28:19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 1:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e os gentios tomados como sacerdotes (66:21) encontram cumprimento na igreja de todas as nações, feita reino de sacerdotes pelo sangue do Cordeiro (1 Pe 2:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 5:9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Leitura prudente. Muitos pais da igreja, como Orígenes e outros, leram o sangue nas vestes do Guerreiro de Is 63 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) como o sangue do próprio Cristo na paixão. A leitura é devocionalmente rica, mas o texto de Isaías fala claramente do sangue dos inimigos, e o próprio Apocalipse mantém essa ambiguidade. Também o anjo da sua presença (63:9) foi identificado por alguns intérpretes com uma manifestação do Filho antes da encarnação. A leitura é antiga, mas o texto isolado não permite afirmá-la com segurança. Convém apresentar ambas como leituras tradicionais, e não como o sentido primário do texto.
Aplicações espirituais e práticas
Deus enfrenta o mal que ninguém mais pode enfrentar. O Guerreiro de Isaías 63 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) pisa sozinho o lagar porque não havia quem ajudasse. Para quem sofre injustiças que nenhum tribunal humano resolve, para vítimas de violência e para povos oprimidos, essa imagem é um consolo: o mal não terá a última palavra, e Deus mesmo fará justiça. Isso também liberta o cristão do desejo de vingança pessoal (Rm 12:19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não precisamos carregar sozinhos o peso de fazer justiça a todo custo, porque o Juiz justo não esquece.
Começar a oração pela memória da misericórdia. O clamor do remanescente começa recordando as misericórdias de Deus (63:7) antes de apresentar a crise. Em tempos de dor, a tendência é olhar apenas para o problema. Uma prática concreta é registrar e relembrar as intervenções de Deus na própria história e na da família ou da comunidade. A memória da fidelidade passada sustenta a esperança no presente.
Um Deus que sofre junto. Isaías 63:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) revela um Deus que se angustia com a angústia do seu povo. Isso muda a forma de enfrentar o sofrimento. Deus não é um espectador distante das nossas dores. Para quem acompanha doentes, enfrenta luto ou ampara pessoas em crise, o texto também é um modelo: a compaixão verdadeira envolve se deixar afetar pela dor do outro.
Não entristecer o Espírito. O povo entristeceu o Santo Espírito com sua rebeldia (63:10). Paulo aplica essa verdade a atitudes muito práticas: palavras que destroem, amargura, ira, gritaria, maledicência e malícia (Ef 4:29-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A pergunta para cada dia é se nossas palavras e atitudes alegram ou entristecem o Espírito que habita em nós.
Orar com honestidade e com intimidade. A oração de Isaías 63–64 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é ao mesmo tempo honesta e íntima. O povo pergunta por que Deus está calado, reconhece que suas justiças são trapo imundo e, mesmo assim, chama Deus de Pai e pede que ele rasgue os céus e desça. A espiritualidade bíblica não exige que escondamos nossas dúvidas e frustrações. O lamento honesto, dirigido ao Pai, é uma forma legítima e madura de oração.
Humildade em vez de arrogância religiosa. Isaías 64:6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 65:5 colocam lado a lado duas atitudes opostas: a confissão de quem reconhece que suas justiças são como trapo imundo e a arrogância de quem diz aos outros que não se aproximem porque é mais santo. A primeira atrai a misericórdia de Deus; a segunda é fumaça no seu nariz. A vida cristã saudável cultiva humildade, reconhecendo que tudo o que temos de bom vem da graça.
Confiar na providência, e não na sorte. Os rebeldes preparavam mesa para Gade e Meni, os deuses da sorte e do destino (65:11). Hoje, a cultura da sorte aparece em muitas formas: apostas, jogos, horóscopos, promessas de enriquecimento rápido e a busca de "boa sorte" como estratégia de vida. Isaías convida a uma confiança diferente: não na sorte, mas no Deus fiel, que governa a história e cuida dos seus. Isso tem consequências práticas na forma de administrar dinheiro, planejar o futuro e tomar decisões.
O trabalho não será em vão. A promessa de que o povo construirá casas e as habitará, plantará e colherá, e não trabalhará em vão (65:21-23), é uma esperança para todos os que trabalham. Na realidade presente, muito trabalho é frustrado, explorado ou perdido. Mas a fé cristã afirma que o trabalho feito no Senhor tem valor eterno (1 Co 15:58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que a nova criação vai redimir o esforço humano. Isso dá sentido ao trabalho diário de professores, empresários, agricultores, profissionais e cuidadores.
Tremer diante da Palavra. Deus olha para quem treme diante da sua palavra (66:2). Numa época de leitura rápida e superficial, essa atitude de reverência é contracultural. Ler a Bíblia com atenção, disposição de obedecer e humildade para ser corrigido é o lugar onde Deus fixa o olhar. Não se trata de medo servil, mas de respeito profundo por aquilo que Deus diz.
Enviados às nações. O livro termina com mensageiros enviados a povos que nunca ouviram falar de Deus (66:19). A missão não é tarefa de poucos especialistas, mas vocação de todo o povo de Deus. Cada cristão, em seu lugar, tem "ilhas distantes" que ainda não conhecem a glória de Deus: colegas, clientes, alunos, vizinhos. O testemunho de vida e de palavra é parte dessa missão.
A seriedade do destino final. A última palavra de Isaías é grave e não deve ser suavizada. A história não termina em indiferença: há um destino de alegria para os que se apegam a Deus e um destino de separação para os que persistem na rebeldia. Essa verdade não deve ser usada para manipular pelo medo, mas também não deve ser silenciada. Ela dá urgência ao convite de Isaías 55 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): buscar o Senhor enquanto se pode achar.
Sabedoria para o Cotidiano
Quando parecer que Deus está calado, faça como o remanescente: lembre-se das misericórdias antigas, confesse com honestidade e chame-o de Pai, pedindo que ele rasgue os céus e desça. Ele já desceu em Cristo, enfrentou sozinho o mal que ninguém podia vencer e prepara novos céus e nova terra, onde não haverá choro e o trabalho não será em vão. Viva hoje como alguém que treme diante da Palavra de Deus, que é consolado como um filho nos braços da mãe e que é enviado para anunciar a glória de Deus a quem ainda não a conhece. O fim da história já está escrito, e toda a humanidade redimida se prostrará diante dele.