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João · 43 de 66 · Novo Testamento

João — Bloco 11: A Oração do Filho pela Glória e pela Unidade

Tema central do bloco:

Depois de falar aos discípulos (13–16), Jesus se volta para o Pai. O discurso de despedida se encerra com uma oração, a mais longa oração de Jesus registrada nos Evangelhos. Durante séculos ela foi lida como um santuário dentro do Evangelho: os discípulos e, por meio deles, os leitores são admitidos a ouvir o Filho falando com o Pai na véspera da cruz. O teólogo luterano David Chytraeus (1531-1600) a chamou de oração sacerdotal (precatio summi sacerdotis), e o nome permaneceu. Muito antes dele, Cirilo de Alexandria já lia o capítulo como a intercessão de Cristo, o sumo sacerdote. Outros a chamam de oração da consagração, por causa do verbo "santificar", que aparece no centro do texto.

A oração se organiza em três círculos que se ampliam:

  1. Jesus ora por si mesmo (17:1-5). Pede que o Pai glorifique o Filho na hora que chegou, para que o Filho glorifique o Pai, e que lhe restitua a glória que tinha com ele antes que o mundo existisse.
  2. Jesus ora pelos discípulos presentes (17:6-19). Pede que o Pai os guarde em seu nome, os proteja do Maligno, os santifique na verdade e os mantenha unidos, enquanto ele os envia ao mundo.
  3. Jesus ora por todos os que crerão pela palavra dos discípulos (17:20-26). Pede que sejam um, como o Pai e o Filho são um, para que o mundo creia, e que estejam com ele onde ele estiver, para verem a sua glória.

O tema central é a glória de Deus manifestada na obra do Filho e comunicada aos que ele recebeu do Pai. Essa glória gera vida eterna, que é conhecer o único Deus verdadeiro e Jesus Cristo. Gera também a santificação na verdade, a missão no mundo e uma unidade que reflete a própria comunhão entre o Pai e o Filho. A oração reúne, em linguagem de intimidade com o Pai, os grandes temas do Evangelho: a hora, a glória, o envio, o nome, a palavra, a verdade, o mundo, a vida, o amor e a unidade. É, ao mesmo tempo, uma síntese do que Jesus fez e uma ponte para o que acontecerá. Nas palavras dele, a obra já está consumada (17:4), embora a cruz ainda esteja à frente.

Para o leitor, há um detalhe comovente: em 17:20, Jesus ora pelos que crerão por meio da palavra dos apóstolos. Todo cristão que lê este capítulo está, literalmente, entre aqueles por quem Jesus orou naquela noite.

Versículos-chave do Livro estudado:

Versículos relacionados em outros capítulos ou Livros da Bíblia:

Explicação teológica e bíblica:

Antes dos subtemas, duas observações ajudam a ler o capítulo.

A primeira é sobre o pano de fundo sacerdotal. No Dia da Expiação (Lv 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o sumo sacerdote fazia expiação primeiro por si mesmo, depois por sua casa e, por fim, por toda a congregação. Alguns comentaristas notaram que a oração de João 17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) segue uma estrutura semelhante: Jesus ora por si, pelos discípulos e por todos os que crerão. A diferença é decisiva. Jesus não precisa de expiação por si mesmo; ele ora para ser glorificado no cumprimento da obra. A correspondência não deve ser forçada, mas ajuda a perceber o caráter sacerdotal da cena. Há ainda uma imagem do Êxodo: o sumo sacerdote levava os nomes das tribos gravados em pedras sobre os ombros e sobre o peitoral, junto ao coração, quando entrava na presença do Senhor (Êx 28:9-12, 29). Na oração, Jesus leva os seus diante do Pai, chamando-os repetidamente de "os que me deste".

A segunda é sobre a relação com o Pai Nosso. João não registra a oração que Jesus ensinou aos discípulos, mas vários estudiosos, entre eles Raymond Brown, notaram paralelos impressionantes:

  • a invocação do Pai (17:1, 5, 11, 21, 24-25);
  • a santificação do nome (17:6, 11, 26);
  • o cumprimento da obra e da vontade do Pai (17:4);
  • o pedido de proteção contra o Maligno (17:15);
  • o tema da glória (17:1-5, 22, 24).

Se o Pai Nosso é a oração que Jesus ensinou aos discípulos, João 17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é a oração que o próprio Filho faz, com os mesmos temas, vividos em plenitude.

1. Jesus ora por si: a hora da glória (17:1-5)

Jesus ergue os olhos ao céu, como fizera diante do túmulo de Lázaro (11:41), e diz: Pai, chegou a hora. A palavra "Pai" aparece seis vezes no capítulo, às vezes com qualificativos: "Pai santo" (17:11) e "Pai justo" (17:25). É a linguagem de uma relação íntima, mas não informal. A "hora", anunciada desde Caná e proclamada em 12:23, agora está presente.

O primeiro pedido é que o Pai glorifique o Filho, para que o Filho glorifique o Pai (17:1). A glória, em João, não é fama nem brilho exterior. É a manifestação visível do que Deus é, seu amor, sua santidade e sua verdade. O paradoxo é que essa glorificação acontecerá pela cruz. Jesus não pede para ser poupado da cruz, como já deixara claro em 12:27. Pede que, na cruz e por meio dela, a glória de Deus seja revelada. E a glória do Filho e a do Pai não competem: uma serve à outra.

O Pai deu ao Filho autoridade sobre toda carne, isto é, sobre toda a humanidade. O propósito dessa autoridade é conceder vida eterna a todos os que o Pai lhe deu (17:2). A expressão "os que me deste" aparece várias vezes no capítulo (17:2, 6, 9, 24) e retoma o ensino de 6:37-39 e 10:29: os discípulos são um dom do Pai ao Filho, guardado com cuidado.

Então vem a definição mais famosa da vida eterna em toda a Bíblia (17:3): a vida eterna é conhecer o único Deus verdadeiro e Jesus Cristo, a quem ele enviou. Dois pontos merecem atenção:

  • O sentido de "conhecer". No pensamento bíblico, especialmente no hebraico (yada), conhecer não é apenas ter informação, mas ter uma relação pessoal, íntima e transformadora. Jeremias anunciara que, na nova aliança, todos conheceriam o Senhor (Jr 31:34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o mesmo profeta apresenta esse conhecimento como o único motivo legítimo de glória (Jr 9:23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A vida eterna, portanto, não é apenas uma vida que dura para sempre. É uma qualidade de vida: comunhão com Deus que começa agora e não termina.
  • O monoteísmo e a pessoa de Jesus. O texto afirma o monoteísmo bíblico ("o único Deus verdadeiro") e, no mesmo fôlego, coloca Jesus Cristo como objeto do mesmo conhecimento que dá vida. É uma das poucas vezes em que Jesus fala de si mesmo usando o nome completo "Jesus Cristo".

Jesus declara que glorificou o Pai na terra, consumando (teleiōsas) a obra que o Pai lhe deu para fazer (17:4). O verbo, da mesma raiz de tetelestai (19:30), mostra que Jesus fala da cruz como se ela já estivesse cumprida: sua obediência é tão completa que a obra já está, aos olhos dele, consumada. E pede (17:5): agora, Pai, glorifica-o junto de ti com a glória que ele tinha junto de ti antes que o mundo existisse. É uma afirmação clara da preexistência do Filho, em harmonia com o Prólogo (1:1-2). E é também uma afirmação de sua divindade. Em Isaías, o Senhor declara que não dá a sua glória a outro (Is 42:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 48:11). Se o Filho partilhava a glória do Pai antes da criação, ele não é "outro" fora de Deus.

2. Jesus ora pelos discípulos: guardados, santificados e enviados (17:6-19)

A revelação do nome (17:6-10). Jesus diz que manifestou o nome do Pai aos homens que o Pai lhe deu do mundo. Na Bíblia, o nome de Deus representa sua identidade revelada, como na sarça (Êx 3:13-15) e no Sinai, quando Deus proclamou seu nome e seu caráter misericordioso (Êx 34:5-7). Jesus revelou quem Deus é. E o fez, sobretudo, ao revelá-lo como Pai, com a intimidade que só o Filho conhece.

Os discípulos pertenciam ao Pai, o Pai os deu a Jesus, e eles guardaram a palavra de Deus. Jesus os descreve com uma generosidade surpreendente, considerando suas falhas: receberam as palavras que o Pai lhe deu, souberam verdadeiramente que ele saiu do Pai e creram que o Pai o enviou. Não há uma palavra sobre a lentidão deles para entender, nem sobre a negação iminente de Pedro. Jesus apresenta ao Pai o que a graça já fez neles.

Então ele diz algo que pode surpreender (17:9): ora por eles, e não pelo mundo. Isso não contradiz o amor de Deus pelo mundo (3:16). Aqui Jesus faz uma intercessão específica por aqueles que lhe foram dados e que ele vai deixar. O mundo não fica fora de seu horizonte, pois mais adiante ele pedirá que o mundo creia e conheça (17:21, 23). Mas a oração por proteção, santificação e unidade é pelos seus.

Jesus acrescenta (17:10) que tudo o que é dele é do Pai, e tudo o que é do Pai é dele, e que ele é glorificado neles. Muitos comentaristas citam uma observação frequentemente atribuída a Lutero em seus sermões sobre este capítulo: qualquer criatura pode dizer a Deus "tudo o que é meu é teu", mas só o Filho pode dizer "tudo o que é teu é meu". A frase de Jesus pressupõe uma igualdade que nenhum ser criado poderia reivindicar.

Guardados no nome (17:11-12). Jesus explica a situação dos discípulos: ele não está mais no mundo, porque vai ao Pai, mas eles permanecem no mundo. Por isso pede: Pai santo, guarda-os no teu nome, que lhe deste, para que sejam um, como o Pai e o Filho são um. O título "Pai santo" é único nos Evangelhos e prepara o pedido de santificação (17:17). A unidade dos discípulos aparece aqui pela primeira vez, e tem como modelo a unidade entre o Pai e o Filho.

Enquanto estava com eles, Jesus os guardava no nome do Pai e os protegia (ephylaxa, verbo usado para a guarda de um pastor ou sentinela). Nenhum deles se perdeu, exceto o filho da perdição, para que se cumprisse a Escritura. A expressão "filho da perdição" é um semitismo para designar alguém marcado pela destruição, e reaparece em 2 Tessalonicenses 2:3. A referência é a Judas, e a Escritura cumprida é provavelmente o Salmo 41:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), já citado em 13:18. O texto preserva duas verdades: a fidelidade de Jesus em guardar os seus, que se confirmará no jardim, quando ele pede que deixem os discípulos irem (18:8-9), e a responsabilidade de Judas, que não foi perdido por falha do pastor.

No mundo, mas não do mundo (17:13-16). Jesus diz essas coisas ainda no mundo, para que os discípulos tenham em si a sua alegria completa. Ele lhes deu a palavra do Pai, e o mundo os odiou, porque não são do mundo, assim como ele não é do mundo (cf. 15:18-19). Então faz um pedido decisivo (17:15): não pede que o Pai os tire do mundo, mas que os guarde do Maligno. A expressão ek tou ponērou provavelmente se refere a uma pessoa, o Maligno, Satanás, e não ao mal em abstrato, em harmonia com 1 João 5:18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e com o Pai Nosso (Mt 6:13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A frase define a posição cristã no mundo. Os discípulos não devem fugir do mundo, isolando-se em comunidades fechadas, nem se confundir com ele, adotando seus valores. Devem permanecer no mundo sem serem do mundo, guardados pela proteção do Pai.

Santificados na verdade e enviados (17:17-19). Jesus pede: santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade (17:17). "Santificar" (hagiazō) significa separar para Deus, consagrar para um propósito santo. Inclui a purificação moral, mas vai além dela: é ser colocado à disposição de Deus. O meio dessa santificação é a verdade, que é a palavra de Deus (cf. Sl 119:142, 160 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a revelação que Jesus trouxe e que ele mesmo é (14:6).

O propósito da santificação é a missão (17:18): assim como o Pai enviou Jesus ao mundo, Jesus também os envia ao mundo. O verbo está no passado (apesteila), como se o envio já tivesse ocorrido, embora só seja formalizado em 20:21. Os discípulos são separados do mundo justamente para serem enviados a ele. A santidade cristã não é retirada, é preparação para a missão.

E Jesus conclui (17:19): por eles ele se santifica a si mesmo, para que também eles sejam santificados na verdade. O verbo é o mesmo, hagiazō, mas aplicado a Jesus tem um sentido especial. Na Lei, consagravam-se ao Senhor os sacerdotes para o serviço (Êx 28:41; 29:1) e os primogênitos dos animais para o sacrifício (Dt 15:19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus se consagra como sacerdote e, ao mesmo tempo, como oferta. É uma referência à cruz: ele se separa inteiramente para a morte sacrificial "por eles" (hyper, a mesma preposição sacrificial de 6:51; 10:11; 11:50-52). A santificação dos discípulos nasce da autoconsagração de Jesus na cruz.

3. Jesus ora por todos os que crerão: unidade, glória e amor (17:20-26)

Por nós (17:20). Jesus amplia o círculo: não ora somente pelos discípulos presentes, mas também por aqueles que crerão nele por meio da palavra deles. "Palavra" aqui é o testemunho apostólico, que chegou às gerações seguintes pela pregação e pelos escritos do Novo Testamento. Cada leitor que creu por meio desse testemunho foi incluído nessa oração. Jesus orou por nós antes de morrer por nós.

A unidade (17:21-23). O pedido central para esses futuros crentes é a unidade: que todos sejam um. O texto define essa unidade de três maneiras:

  • Seu modelo. Assim como o Pai está no Filho e o Filho no Pai, que também eles estejam no Pai e no Filho. A unidade da Igreja tem como modelo a comunhão trinitária: pessoas distintas, unidas no amor, na vontade e na missão. Não é uniformidade, em que todos são iguais, nem mera cooperação, em que todos apenas trabalham juntos. É comunhão.
  • Sua fonte. A unidade não é produzida pelo esforço humano, mas pela participação na vida de Deus. Os discípulos são um porque estão no Pai e no Filho. Jesus diz também que deu aos seus a glória que o Pai lhe deu, para que sejam um. A glória compartilhada é a presença e o caráter de Deus revelados em Cristo e comunicados aos crentes.
  • Seu propósito. Que o mundo creia que o Pai enviou o Filho (17:21), e que o mundo conheça que o Pai os amou como amou o Filho (17:23). A unidade dos cristãos é uma forma de testemunho. Uma igreja dividida contradiz a mensagem que anuncia; uma igreja unida no amor torna visível o evangelho da reconciliação.

A expressão de 17:23 é intensa: que sejam aperfeiçoados (teteleiōmenoi, da mesma raiz de telos) na unidade. A unidade é algo que cresce em direção à plenitude.

O versículo 21 tornou-se o lema do movimento ecumênico no século XX. A encíclica Ut Unum Sint ("Que todos sejam um"), do papa João Paulo II (1995), tem seu título tirado deste texto, e o Conselho Mundial de Igrejas também o adota como inspiração. As tradições cristãs entendem de modos diferentes a forma que essa unidade deve assumir:

  • Para a Igreja Católica, ela inclui a comunhão visível e institucional.
  • Para a Igreja Ortodoxa, a comunhão na mesma fé e nos mesmos sacramentos.
  • Para muitas tradições protestantes, a unidade espiritual de todos os que estão em Cristo, que deve se tornar visível no amor, na cooperação e no testemunho comum.

Todas reconhecem que a divisão entre cristãos é uma ferida que contradiz a oração de Jesus.

Com ele, na glória (17:24). Jesus faz então um pedido em tom de vontade, e não apenas de súplica: Pai, ele quer (thelō) que, onde ele estiver, estejam também com ele aqueles que o Pai lhe deu, para que vejam a sua glória, a glória que o Pai lhe deu porque o amou antes da fundação do mundo. É a promessa de 14:3 transformada em oração. O destino final dos discípulos não é apenas um lugar, mas estar com Cristo e contemplar a sua glória. É a visão de Deus que a tradição cristã chamou de "visão beatífica" e que o Apocalipse descreve: os servos de Deus verão a sua face (Ap 22:4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o fundamento dessa glória é o amor eterno entre o Pai e o Filho, anterior à criação. A Trindade não começou a amar quando criou o mundo; o amor é eterno em Deus, e os discípulos são convidados a contemplá-lo e participar dele.

O amor do Pai nos discípulos (17:25-26). A oração termina com a invocação "Pai justo". O mundo não conheceu o Pai, mas Jesus o conheceu, e os discípulos conheceram que o Pai o enviou. Jesus lhes deu a conhecer o nome do Pai e continuará a dá-lo a conhecer, com a cruz, a ressurreição e o envio do Espírito. O propósito final da revelação é que o amor com que o Pai amou o Filho esteja neles, e o próprio Filho esteja neles. A última palavra da oração é a presença: Cristo nos discípulos. É o que Paulo chamará de "Cristo em vós, a esperança da glória" (Cl 1:27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Contribuição do bloco para o livro e para a Bíblia

O capítulo 17 é o ponto culminante do discurso de despedida e a ponte para a narrativa da Paixão. Logo depois dele, Jesus sai para o jardim onde será preso (18:1). A oração mostra que Jesus enfrenta a cruz não como vítima surpreendida, mas como o Filho que se consagra voluntariamente, em perfeita comunhão com o Pai. Para a teologia cristã, o capítulo é fonte fundamental da doutrina da Trindade (a unidade e a distinção entre o Pai e o Filho), da cristologia (a preexistência e a glória eterna do Filho), da eclesiologia (a unidade e a missão da Igreja) e da escatologia (a esperança de estar com Cristo e ver sua glória). No conjunto da Bíblia, a oração cumpre a figura do sumo sacerdote que leva o povo diante de Deus e antecipa o ministério de intercessão que Cristo exerce continuamente à direita do Pai (Rm 8:34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 7:25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Visão cristocêntrica:

A conexão com Cristo é direta e total: é o próprio Jesus orando. O capítulo revela algumas das dimensões mais profundas de sua pessoa e obra:

  • O Filho eterno, que tinha glória junto do Pai antes da fundação do mundo (17:5, 24) e é amado pelo Pai desde a eternidade.
  • O revelador do nome, que manifestou aos homens quem Deus é (17:6, 26), cumprindo e superando a revelação do Sinai.
  • O sumo sacerdote que intercede, levando os seus diante do Pai, como Aarão levava os nomes das tribos sobre os ombros e o coração (Êx 28). Hebreus dirá que ele vive sempre para interceder por eles (Hb 7:25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
  • O sacerdote e a oferta, que se consagra por eles (17:19), unindo em sua pessoa as figuras do sacerdote e do sacrifício.
  • O bom pastor que guarda, de cujas mãos nenhum dos que lhe foram dados se perde (17:12; cf. 6:39; 10:28; 18:9).
  • O doador da vida eterna, que consiste em conhecer o Pai e a ele mesmo (17:2-3).
  • O enviado que envia, que coloca a Igreja no mundo como ele foi colocado pelo Pai (17:18).
  • O fundamento da unidade da Igreja, que se realiza nele e no Pai (17:21-23).
  • O Senhor da glória, cuja presença e cuja glória serão a alegria eterna dos seus (17:24).

Aplicações espirituais e práticas:

  1. A segurança de ser objeto da oração de Cristo. Jesus orou pelos que creriam por meio da palavra dos apóstolos (17:20), e o Novo Testamento afirma que ele continua intercedendo pelos seus (Rm 8:34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 7:25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O pregador escocês Robert Murray M'Cheyne (1813-1843) costumava dizer que, se pudesse ouvir Cristo orando por ele no quarto ao lado, não temeria um milhão de inimigos, e que a distância não muda nada, porque Cristo de fato está orando. Para quem atravessa uma fase de luta espiritual, de culpa ou de fraqueza, essa verdade é um apoio sólido. A perseverança na fé não depende apenas das nossas orações, mas da intercessão daquele que o Pai sempre ouve (11:42).

  2. Dar à vida eterna o lugar que ela merece. Se a vida eterna é conhecer a Deus e a Jesus Cristo (17:3), então ela não é apenas algo que se espera para depois da morte. É uma relação que começa agora e deve ser cultivada. Muitas pessoas investem anos em conhecer profundamente uma profissão, um mercado, uma língua ou uma arte, e pouco tempo em conhecer a Deus. A aplicação prática é reservar tempo de qualidade para a oração, a leitura das Escrituras e a adoração, não como obrigação religiosa, mas como o cultivo da relação mais importante da vida.

  3. Estar no mundo sem ser do mundo. Jesus não pede que os discípulos sejam tirados do mundo. Isso exclui duas tentações. A primeira é o isolamento, a ideia de que a santidade exige fugir da cultura, da política, dos negócios e das artes. A segunda é a assimilação, a ideia de que, para ser relevante, é preciso adotar os valores dominantes. O caminho de Jesus é a presença santificada: estar plenamente no mundo (na empresa, no escritório, na universidade, na família, na cidade) como alguém que pertence a outro Reino e é guardado pelo Pai. Na prática, isso significa trabalhar com excelência e integridade, participar da vida pública com responsabilidade e manter, ao mesmo tempo, critérios que vêm da Palavra, e não da pressão do ambiente.

  4. Santificação pela verdade. Jesus pede que os seus sejam santificados na verdade, que é a Palavra de Deus (17:17). A transformação do caráter não vem apenas de esforço moral ou de regras externas, mas da exposição constante à verdade de Deus, que ilumina, corrige e renova. Uma pergunta prática é se a Escritura tem moldado nossas decisões, nossos valores e nosso modo de ver as pessoas, ou se ela é apenas uma referência ocasional.

  5. Trabalhar e orar pela unidade. A unidade dos cristãos não é um detalhe: é um pedido central da oração de Jesus e tem um propósito missionário, que o mundo creia. Divisões por orgulho, disputas de poder, competição entre igrejas e ministérios e intolerância diante de diferenças secundárias ferem o testemunho de Cristo. Na prática, isso significa buscar a reconciliação quando há conflito, cooperar com cristãos de outras igrejas em ações de serviço e evangelização, distinguir as convicções essenciais das preferências e orar pela unidade da Igreja. A unidade verdadeira não exige abrir mão da verdade, mas exige amor, humildade e disposição de ver Cristo nos irmãos.

  6. Ser enviado como Jesus foi enviado. Jesus coloca a missão dos discípulos no mesmo padrão da sua própria missão (17:18). Isso significa que todo cristão, em sua família, profissão e comunidade, é um enviado. A missão não é apenas tarefa de missionários profissionais ou de líderes religiosos. Assim como Jesus foi enviado para revelar o Pai, dar a vida e servir, os discípulos são enviados para tornar Cristo conhecido pelas palavras e pelo modo de viver.

  7. Aprender a orar com Jesus. A oração de João 17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é um modelo. Ela começa pela glória de Deus, não pelas necessidades pessoais. Apresenta a Deus o que ele já fez. Intercede pelos outros por nome e por necessidade. Pede proteção, santificação, unidade e missão. Termina no amor de Deus e na sua presença. Muitas orações se limitam a listas de pedidos pessoais. Orar como Jesus é ampliar o círculo: orar pela família, pelos líderes da igreja, pelos cristãos perseguidos, pela unidade da Igreja e por aqueles que ainda vão crer.

  8. A esperança de estar com Cristo e ver sua glória. O último desejo de Jesus pelos seus é que estejam com ele e vejam a sua glória (17:24). Essa promessa muda o modo de encarar a morte, o envelhecimento, a doença e a perda de pessoas queridas. A esperança cristã não é uma vaga ideia de "algum lugar melhor", mas a presença pessoal de Cristo e a contemplação da glória do amor eterno entre o Pai e o Filho. Quem vive com essa esperança encontra força para atravessar os sofrimentos do presente com serenidade.

Sabedoria para o Cotidiano
Na véspera da cruz, Jesus ergueu os olhos ao céu e levou os seus diante do Pai, um por um, como o sumo sacerdote levava os nomes das tribos sobre o coração. Ele pediu que fôssemos guardados do Maligno, santificados na verdade, unidos uns aos outros e enviados ao mundo, e orou também por nós, que viríamos a crer muito tempo depois. Quando sua fé parecer pequena, lembre-se de que ela é sustentada pela oração do Filho, que deseja, acima de tudo, que você esteja com ele e veja a sua glória.

Interpretação e comentários da Bíblia, sob direção editorial de José Carlos Fortes. Conteúdo elaborado com apoio de inteligência artificial, sob curadoria e revisão editorial. Esta página não reproduz texto bíblico protegido: traz referência, interpretação e comentário.