João · 43 de 66 · Novo Testamento
João — Bloco 13: O Ressuscitado: Fé, Paz, Missão e Restauração
- Capítulos principais: capítulos — João 20–21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (20:1–21:25).
Tema central do bloco:
O sepultamento no jardim encerrou o capítulo 19 num silêncio pesado. O capítulo 20 começa no mesmo jardim, ainda no escuro, no primeiro dia da semana. O Evangelho que começou evocando o primeiro dia da criação (1:1-5) agora narra o primeiro dia da nova criação. O Rei crucificado é vindicado, a hora da glória se completa, e todas as promessas do discurso de despedida começam a se cumprir:
- a tristeza se transforma em alegria (16:20-22);
- Jesus volta para os seus e lhes dá a paz (14:18-19, 27);
- os discípulos são chamados irmãos e conhecem o Pai como seu Pai;
- o Espírito é soprado sobre eles;
- e são enviados ao mundo como Jesus foi enviado (17:18).
Os dois capítulos têm funções distintas e complementares.
O capítulo 20 narra quatro encontros com o Ressuscitado ou com o sinal da ressurreição: Maria Madalena descobre o túmulo aberto; Pedro e o discípulo amado correm ao túmulo, e o discípulo amado vê os panos e crê; Jesus aparece a Maria e a chama pelo nome; Jesus aparece aos discípulos reunidos, dá-lhes a paz, o Espírito e a missão. Uma semana depois, aparece a Tomé, que faz a maior confissão de fé do Evangelho: Senhor meu e Deus meu. O capítulo termina com a declaração de propósito do livro (20:30-31): estas coisas foram escritas para que o leitor creia que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e, crendo, tenha vida em seu nome.
O capítulo 21 funciona como epílogo. Às margens do mar da Galileia, Jesus aparece a sete discípulos depois de uma noite de pesca infrutífera, enche-lhes a rede de peixes e lhes prepara uma refeição junto a um fogo de brasas. Ali, com três perguntas, restaura Pedro, que o negara três vezes junto a outro fogo, e lhe confia o pastoreio de suas ovelhas. Anuncia também o tipo de morte com que Pedro glorificaria a Deus e esclarece o destino do discípulo amado. O livro se encerra com o selo do testemunho desse discípulo, que escreveu estas coisas.
O tema central é a ressurreição de Jesus como fundamento da fé, da paz, da missão e da restauração. O Ressuscitado não é um fantasma nem uma lembrança. Ele tem corpo marcado pelas feridas, come com os discípulos, chama as pessoas pelo nome, perdoa e envia. Encontra cada personagem onde ele está:
- Maria nas lágrimas;
- os discípulos no medo;
- Tomé na dúvida;
- Pedro na culpa e no fracasso;
- todos no trabalho cotidiano.
E conduz cada um da tristeza à alegria, do medo à paz, da dúvida à adoração, da culpa à missão.
Versículos-chave do Livro estudado:
- João 20:1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — No primeiro dia da semana, ainda escuro, Maria Madalena encontra a pedra removida e corre a avisar Pedro e o discípulo amado.
- João 20:3-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os dois correm ao túmulo; Pedro entra e vê os panos de linho e o lenço dobrado à parte; o discípulo amado entra, vê e crê.
- João 20:11-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Maria chora junto ao túmulo, não reconhece Jesus, que ela pensa ser o jardineiro, até ouvir seu nome pronunciado por ele.
- João 20:17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus envia Maria aos seus irmãos para anunciar que sobe para o seu Pai e Pai deles, seu Deus e Deus deles; ela anuncia que viu o Senhor.
- João 20:19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Com as portas trancadas por medo, Jesus aparece no meio dos discípulos, lhes dá a paz e mostra as mãos e o lado.
- João 20:21-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Como o Pai o enviou, Jesus envia os discípulos, sopra sobre eles o Espírito Santo e lhes confia o ministério do perdão.
- João 20:24-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Tomé declara que só crerá se vir e tocar as marcas dos cravos e do lado.
- João 20:26-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Oito dias depois, Jesus convida Tomé a tocar as feridas; Tomé confessa: Senhor meu e Deus meu; felizes os que creem sem ter visto.
- João 20:30-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O livro foi escrito para que os leitores creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e, crendo, tenham vida em seu nome.
- João 21:3-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Depois de uma noite sem pesca, os discípulos lançam a rede à direita do barco, como Jesus manda, e não conseguem puxá-la de tantos peixes.
- João 21:7-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O discípulo amado reconhece o Senhor; Pedro se lança ao mar; a rede, com 153 grandes peixes, não se rompe.
- João 21:12-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Junto a um fogo de brasas, Jesus serve pão e peixe aos discípulos, na terceira manifestação depois da ressurreição.
- João 21:15-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus pergunta três vezes a Pedro se ele o ama e três vezes o comissiona a apascentar suas ovelhas.
- João 21:18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus anuncia a morte com que Pedro glorificaria a Deus e o chama: segue-me.
- João 21:20-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Diante da pergunta de Pedro sobre o discípulo amado, Jesus responde que o que importa é que Pedro o siga.
- João 21:24-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O discípulo amado é quem dá testemunho e escreveu estas coisas, e seu testemunho é verdadeiro; muitas outras obras de Jesus não caberiam em livros.
Versículos relacionados em outros capítulos ou Livros da Bíblia:
- Gênesis 1:1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2:7-8 — O primeiro dia da criação, o sopro de vida no ser humano e o jardim do Éden.
- Ezequiel 37:9-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O sopro do Espírito que dá vida aos ossos secos.
- Salmo 16:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus não deixará o seu Santo ver a corrupção, texto lido pela Igreja primitiva como profecia da ressurreição (At 2:27-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- Isaías 53:10-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Depois do sofrimento, o Servo verá a luz e prolongará os seus dias.
- Oseias 6:2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Ao terceiro dia ele nos levantará.
- Êxodo 25:18-22 — Os dois querubins sobre o propiciatório, um em cada extremidade, imagem evocada pelos dois anjos no túmulo.
- Cântico dos Cânticos 3:1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A amada que procura de madrugada aquele que sua alma ama e o encontra.
- Rute 1:16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O teu Deus será o meu Deus, eco da fórmula de 20:17.
- Mateus 16:19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 18:18 — A autoridade de ligar e desligar confiada aos discípulos.
- Atos 2:1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A efusão do Espírito em Pentecostes.
- Mateus 28:1-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Marcos 16:1-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lucas 24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os relatos sinóticos do túmulo vazio e das aparições.
- 1 Coríntios 15:3-8, 14-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A lista de testemunhas da ressurreição e a afirmação de que, sem ela, a fé seria vã.
- 1 Pedro 1:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os que amam e creem em Cristo sem tê-lo visto.
- Lucas 5:1-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A primeira pesca milagrosa e o chamado de Pedro.
- Ezequiel 47:9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os pescadores à beira do rio que brota do templo, com peixes em grande quantidade e de muitas espécies.
- Lucas 24:30-31, 41-43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Ressuscitado parte o pão e come peixe diante dos discípulos.
- Marcos 14:29-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Pedro afirma que, mesmo que todos o abandonem, ele não o abandonará.
- 1 Pedro 5:1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O próprio Pedro exorta os presbíteros a apascentar o rebanho de Deus até a vinda do Supremo Pastor.
- 2 Pedro 1:13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Pedro sabe que deixará em breve o seu corpo, como o Senhor lhe revelara.
- Apocalipse 1:17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O que estava morto vive para sempre e tem as chaves da morte.
Explicação teológica e bíblica:
1. O túmulo vazio: ver os panos e crer (20:1-10)
No primeiro dia da semana, Maria Madalena vai ao túmulo de madrugada, quando ainda estava escuro. O detalhe é temporal e simbólico: a luz da ressurreição ainda não havia penetrado o coração dela. Ela vê que a pedra fora removida da entrada e corre a Simão Pedro e ao discípulo que Jesus amava. Diz a eles que tiraram o Senhor do túmulo e que "não sabemos" onde o puseram. O plural sugere que ela não estava sozinha, em harmonia com os sinóticos, que mencionam outras mulheres (Mc 16:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 24:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A primeira interpretação de Maria é a mais natural para alguém de luto: o corpo foi roubado ou removido.
O fato de o primeiro testemunho do túmulo vazio vir de uma mulher é historicamente significativo. Na sociedade judaica e romana do século I, o testemunho feminino tinha pouco valor legal. Josefo registra que, na tradição judaica, o testemunho de mulheres não era admitido em juízo (Antiguidades Judaicas 4.219). Se os relatos da ressurreição fossem uma invenção posterior para convencer o público, dificilmente colocariam mulheres como primeiras testemunhas. Os historiadores chamam isso de "critério do embaraço": um detalhe que os autores não teriam motivo para inventar e que, por isso, reforça a credibilidade do relato.
Pedro e o outro discípulo saem correndo para o túmulo. O discípulo amado corre mais depressa e chega primeiro, mas não entra. Inclina-se e vê (blepei) os panos de linho no chão. Pedro chega depois, entra e observa com atenção (theōrei) os panos e o lenço que estivera sobre a cabeça de Jesus. O lenço não estava com os panos, mas enrolado (entetyligmenon) num lugar à parte. Então entra também o outro discípulo, vê (eiden) e crê (20:8). A sequência de verbos de "ver" (olhar, observar, ver com compreensão) sugere, para muitos comentaristas, uma progressão do olhar físico para o olhar da fé.
O detalhe dos panos é decisivo por dois motivos:
- Não foi roubo. Ladrões não teriam desenrolado um corpo coberto de dezenas de quilos de mirra e aloés (19:39), nem deixado os panos e o lenço cuidadosamente dispostos. João Crisóstomo já fazia essa observação no século IV (Homilias sobre João 85.4).
- O contraste com Lázaro. Lázaro saiu do túmulo ainda envolto nas faixas e com o rosto coberto pelo lenço (11:44), porque voltaria a morrer. Jesus deixou para trás os panos da morte, porque sua ressurreição não é um retorno à vida mortal, mas a entrada numa vida nova e definitiva.
O discípulo amado é o primeiro a crer na ressurreição, sem ter visto ainda o Ressuscitado. Ele antecipa a bem-aventurança de 20:29. O narrador acrescenta (20:9) que eles ainda não haviam compreendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos. A Igreja primitiva leria à luz da ressurreição textos como o Salmo 16:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (cf. At 2:27-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), Isaías 53:10-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Oseias 6:2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Os discípulos voltam para casa.
2. Maria Madalena: chamada pelo nome e enviada (20:11-18)
Maria, porém, permanece junto ao túmulo, chorando. Ela se inclina e vê dois anjos vestidos de branco, sentados onde o corpo de Jesus tinha sido colocado, um à cabeceira e outro aos pés. Alguns comentaristas veem aí uma alusão aos dois querubins colocados nas extremidades do propiciatório, sobre a arca da aliança (Êx 25:18-22). O lugar onde jazia o corpo de Jesus se torna o novo propiciatório, o lugar onde Deus encontra o seu povo. Os anjos perguntam por que ela chora, e ela repete: levaram o seu Senhor, e ela não sabe onde o puseram.
Ao dizer isso, Maria se volta e vê Jesus de pé, mas não sabe que é ele. Jesus também pergunta por que ela chora e a quem procura (tina zēteis). É a mesma pergunta que dirigiu aos primeiros discípulos (1:38) e aos soldados no jardim da prisão (18:4). Maria pensa que é o jardineiro (kēpouros) e pede que, se ele o levou, lhe diga onde o pôs, e ela o buscará. A confusão é profundamente simbólica: ela está num jardim, diante do novo Adão, o jardineiro da nova criação. O primeiro Adão foi colocado no jardim para cultivá-lo e guardá-lo (Gn 2:15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Também se ouve aqui um eco do Cântico dos Cânticos (3:1-4), em que a amada procura de madrugada aquele que sua alma ama.
Então Jesus diz apenas: Maria (Mariam, na forma aramaica). E ela, voltando-se, responde: Rabbouni, que o evangelista traduz como "Mestre" (20:16). O reconhecimento não vem pela aparência, mas pela voz que a chama pelo nome. É o cumprimento exato de 10:3-4: o bom pastor chama as suas ovelhas pelo nome, e elas conhecem a sua voz.
Jesus lhe diz (20:17) que não o retenha, porque ainda não subiu para o Pai. O imperativo grego (mē mou haptou) está no presente e sugere "pare de me segurar" ou "não continue agarrada a mim". Jesus não está proibindo qualquer toque; uma semana depois, convidará Tomé a tocá-lo. Ele está dizendo que a relação com ele não voltará a ser a de antes, presa à presença física. Agora começa uma nova forma de presença, ligada à sua glorificação junto ao Pai e ao envio do Espírito.
Em seguida, Jesus a envia com uma mensagem: que vá aos seus irmãos e lhes diga que ele sobe para o seu Pai e Pai deles, para o seu Deus e Deus deles. É a primeira vez no Evangelho que Jesus chama os discípulos de "irmãos" (adelphoi). A cruz e a ressurreição criaram uma nova família, já anunciada ao pé da cruz (19:26-27). A formulação mantém ao mesmo tempo a união e a distinção. O Pai de Jesus é agora Pai dos discípulos, mas Jesus não diz "nosso Pai": ele é Filho por natureza, e eles, filhos por graça (1:12). A frase lembra Rute, que disse a Noemi que o povo dela seria o seu povo e o Deus dela, o seu Deus (Rt 1:16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Maria Madalena vai e anuncia aos discípulos: ela viu o Senhor (heōraka ton kyrion), e conta o que ele lhe disse. Ela se torna a primeira testemunha e a primeira anunciadora da ressurreição. Por isso a tradição a chamou de "apóstola dos apóstolos". A ideia já aparece em Hipólito de Roma, no século III, que fala das mulheres enviadas como apóstolas aos apóstolos, e o título foi usado por Tomás de Aquino em seu comentário a João.
3. A paz, o Espírito e o envio (20:19-23)
Na tarde daquele mesmo dia, o primeiro da semana, os discípulos estão reunidos com as portas trancadas, por medo das autoridades. Jesus vem, fica de pé no meio deles e diz: paz a vocês (eirēnē hymin). Era a saudação comum (shalom), mas, na boca do Ressuscitado, depois da negação, do abandono e da fuga, ela é a declaração de que não há condenação, mas reconciliação. As portas trancadas não impedem a presença de Jesus. O corpo ressuscitado é real, mas tem uma nova forma de existência, não mais sujeita às limitações da vida mortal (cf. 1 Co 15:42-44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Jesus lhes mostra as mãos e o lado (20:20). As feridas permanecem no corpo glorificado. Elas o identificam: o Ressuscitado é o mesmo que foi crucificado. E mostram que a cruz não é apagada na glória, mas permanece como a marca eterna do amor. O Apocalipse apresentará o Cristo glorificado como o Cordeiro que parece ter sido imolado (Ap 5:6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os discípulos se alegram ao ver o Senhor, e a promessa de 16:22 se cumpre: a tristeza se transforma em alegria, e ninguém a tirará deles.
Jesus repete a saudação de paz e acrescenta (20:21): assim como o Pai o enviou, ele também os envia. A missão dos discípulos tem o mesmo padrão e a mesma origem da missão de Jesus (cf. 17:18). Tudo o que o Evangelho disse sobre o envio do Filho pelo Pai define agora o envio da Igreja pelo Filho: revelar o Pai, dar testemunho da verdade, amar até o fim, servir e dar a vida.
Então, Jesus sopra sobre eles (enephysēsen) e diz: recebam o Espírito Santo (20:22). O verbo é raro. É o mesmo usado na Septuaginta para o sopro de Deus nas narinas do primeiro homem, que se tornou um ser vivente (Gn 2:7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e para o sopro do Espírito sobre os ossos secos no vale de Ezequiel (Ez 37:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus age como o Criador: sopra a vida nova sobre os discípulos, inaugurando a nova criação. A promessa do Paráclito (14–16) começa a se cumprir.
Os estudiosos discutem a relação entre este dom do Espírito e o Pentecostes narrado em Atos 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Há três posições principais:
- Dois relatos do mesmo dom. Alguns entendem que João e Lucas narram, de perspectivas teológicas diferentes, o mesmo dom fundamental do Espírito.
- Um dom antecipado. Outros veem aqui um dom inicial, simbólico ou parcial, que antecipa a efusão plena e pública de Pentecostes.
- Duas dimensões complementares. Outros ainda distinguem as funções: em João, o Espírito comunica a vida nova e capacita para a missão e o perdão; em Atos, o Espírito vem com poder público para o testemunho às nações.
Em todas as leituras, o essencial é que a missão da Igreja não depende da força humana, mas do Espírito soprado pelo Ressuscitado.
Jesus confia aos discípulos uma autoridade ligada ao perdão (20:23): de quem eles perdoarem os pecados, estarão perdoados; de quem os retiverem, estarão retidos. A frase tem paralelos em Mateus 16:19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 18:18 e foi entendida de modos diferentes pelas tradições cristãs:
- Igrejas católica e ortodoxa. Veem aqui o fundamento do ministério sacramental da reconciliação, ou confissão. O Concílio de Trento citou explicitamente este texto em sua sessão sobre a penitência (1551).
- Tradições protestantes. Em geral, entendem a autoridade como dada à Igreja inteira e exercida principalmente pela proclamação do evangelho. Quando o evangelho é anunciado, os que creem recebem a declaração do perdão de Deus, e os que o rejeitam permanecem em seus pecados. O texto também fundamenta a disciplina da igreja.
Em qualquer leitura, o ponto central é que a Igreja é enviada como portadora do perdão de Deus, conquistado na cruz, e não do seu próprio perdão.
4. Tomé: da dúvida à confissão máxima (20:24-29)
Tomé, chamado Dídimo, um dos Doze, não estava com eles quando Jesus veio. Os outros discípulos lhe dizem que viram o Senhor, a mesma frase de Maria Madalena. Mas Tomé responde com uma exigência rigorosa (20:25): se não vir nas mãos dele o sinal (typos) dos cravos, se não puser o dedo no lugar dos cravos e a mão no lado dele, de modo nenhum crerá. Tomé não quer apenas ver; quer verificar. O texto é, de passagem, o único do Novo Testamento que menciona explicitamente os cravos da crucificação.
Oito dias depois, de novo no primeiro dia da semana, os discípulos estão reunidos, e Tomé com eles. O detalhe dos "oito dias" mostra que, desde o início, os discípulos se reuniam no primeiro dia da semana, o dia da ressurreição, que viria a ser o "dia do Senhor" (Ap 1:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus vem, com as portas trancadas, fica no meio deles e repete a saudação de paz. Então se dirige diretamente a Tomé (20:27). Ele conhece as palavras exatas que Tomé dissera e lhe oferece exatamente o que ele pediu: que coloque o dedo ali e veja as suas mãos, que estenda a mão e a coloque no seu lado. E acrescenta: não seja incrédulo (apistos), mas crente (pistos).
O texto não diz que Tomé tocou as feridas. Ao que tudo indica, o encontro bastou. Tomé responde com a confissão mais alta de todo o Evangelho (20:28): Senhor meu e Deus meu (ho kyrios mou kai ho theos mou). Essa confissão:
- Fecha a moldura do livro. O Evangelho começou afirmando que o Logos era Deus (1:1) e que o Filho único, que é Deus, revelou o Pai (1:18). Agora, na boca de um discípulo, essa afirmação se torna confissão pessoal: "meu" Senhor e "meu" Deus.
- Ecoa a linguagem dos Salmos. Combina os nomes de Deus no Antigo Testamento, YHWH (traduzido por Kyrios, "Senhor", na Septuaginta) e Elohim (Theos, "Deus"), como no Salmo 35:23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em que o salmista chama Deus de "meu Deus e meu Senhor".
- Tem um contraste histórico. O historiador romano Suetônio registra que o imperador Domiciano, que governou no período provável da composição do Evangelho, exigia ser chamado de "nosso senhor e deus" (dominus et deus noster) (Domiciano 13). Para os leitores de João, havia apenas um a quem esse título pertencia.
Jesus responde com uma pergunta e uma bem-aventurança (20:29): porque o viu, Tomé creu? Felizes os que não viram e creram. É a segunda bem-aventurança do Evangelho (a primeira está em 13:17). Ela não diminui Tomé, mas se volta para os leitores de todas as gerações, que não verão Jesus como os primeiros discípulos viram. A fé deles não é inferior. Eles creem por meio do testemunho dos que viram, e são chamados felizes. Pedro escreverá algo semelhante aos cristãos da Ásia Menor: eles amam Jesus sem tê-lo visto e creem nele sem vê-lo agora (1 Pe 1:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
5. O propósito do livro (20:30-31)
O capítulo termina com uma das declarações mais importantes do Evangelho. Jesus fez muitos outros sinais na presença dos discípulos que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para que o leitor creia que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenha vida em seu nome.
O versículo revela três coisas:
- A seleção. O evangelista escolheu, entre muitas obras de Jesus, aquelas que melhor revelam sua identidade. Os sete sinais e os discursos foram selecionados com um propósito.
- O objetivo. Gerar ou fortalecer a fé de que Jesus é o Cristo, o Messias esperado por Israel, e o Filho de Deus, em sua relação única com o Pai. Como foi visto no panorama, há uma variante textual no verbo "crer", que pode ser lido como "comecem a crer" ou "continuem a crer". Por isso, o livro serve tanto aos que ainda não creem quanto aos que já creem.
- O fruto. A vida, isto é, a vida eterna, que já começa agora para quem crê (3:16; 5:24; 17:3).
A confissão de Marta (11:27) e a de Tomé (20:28) mostram que esse propósito já se realizou nos personagens do livro. O leitor é convidado a fazer o mesmo caminho.
6. O epílogo: a pesca milagrosa e a refeição junto ao fogo (21:1-14)
O capítulo 21 tem caráter de epílogo, depois do encerramento solene de 20:30-31. Todos os manuscritos gregos conhecidos incluem o capítulo, que nunca circulou separado do Evangelho. Os estudiosos discutem se foi escrito pelo mesmo autor dos capítulos anteriores, num segundo momento, ou acrescentado pelo círculo de seus discípulos, que dão testemunho dele em 21:24 ("sabemos que o seu testemunho é verdadeiro"). Em qualquer hipótese, o epílogo é parte integrante do Evangelho canônico e completa os temas abertos nele, sobretudo a restauração de Pedro e o papel do discípulo amado.
A cena se passa no mar de Tiberíades, isto é, o mar da Galileia. Estão juntos sete discípulos: Simão Pedro, Tomé, Natanael de Caná, os filhos de Zebedeu (única menção a eles neste Evangelho) e outros dois. Pedro diz que vai pescar, e os outros vão com ele. Não está claro se a decisão é um retorno à antiga profissão, por desânimo, ou simplesmente a necessidade de trabalhar enquanto esperavam. Naquela noite não pescam nada.
Ao amanhecer, Jesus está na praia, mas os discípulos não o reconhecem. Ele os chama de "filhinhos" (paidia) e pergunta se têm algo para comer. Respondem que não. Ele lhes diz que lancem a rede do lado direito do barco e encontrarão peixe. Eles obedecem e não conseguem mais puxar a rede, por causa da grande quantidade de peixes. Lucas narra uma pesca semelhante no início do ministério, por ocasião do chamado de Pedro (Lc 5:1-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O epílogo de João evoca esse começo: o chamado é renovado no mesmo cenário em que começou.
O discípulo amado é o primeiro a reconhecer: é o Senhor! Como no túmulo, ele vê primeiro e crê primeiro. Pedro, ao ouvir, veste a túnica, porque estava sem a roupa de cima para trabalhar, e se lança ao mar para chegar mais depressa até Jesus. É a impulsividade de sempre, agora movida pelo desejo de estar com o Senhor. Os outros chegam de barco, arrastando a rede, pois estavam a cerca de duzentos côvados da terra, uns noventa metros.
Ao desembarcar, veem um fogo de brasas (anthrakia), com peixe sobre ele, e pão. A palavra é a mesma de 18:18, o fogo junto ao qual Pedro negou Jesus. O Ressuscitado prepara a cena da restauração com um eco deliberado do lugar da queda. Jesus pede que tragam alguns dos peixes que acabaram de pescar. Pedro sobe ao barco e puxa a rede para a terra, cheia de 153 grandes peixes, e, mesmo sendo tantos, a rede não se rompe (ouk eschisthē). O verbo é da mesma raiz de schisma, "divisão", usada para as divisões da multidão em relação a Jesus (7:43; 9:16; 10:19) e para a túnica sem costura que os soldados decidiram não rasgar (19:24).
O número 153 tem fascinado os intérpretes desde a Antiguidade:
- Todas as espécies de peixes. Jerônimo, em seu comentário a Ezequiel 47 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), afirma que os naturalistas gregos contavam 153 espécies de peixes. Assim, o número simbolizaria a totalidade das nações alcançadas pela missão. Os estudiosos modernos, no entanto, não encontraram essa contagem exata nas fontes citadas.
- Um número triangular. Agostinho observou que 153 é a soma de todos os números de 1 a 17, e associou o 17 aos dez mandamentos da Lei e aos sete dons do Espírito (Tratados sobre o Evangelho de João 122.8).
- Gematria. Outros propuseram cálculos baseados no valor numérico das letras hebraicas. J. A. Emerton, por exemplo, relacionou o número aos nomes de lugares de Ezequiel 47:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), onde os pescadores lançam as redes num rio que brota do templo.
- A memória de uma testemunha. Muitos comentaristas, como D. A. Carson, consideram que o número pode ser simplesmente a lembrança precisa de uma testemunha ocular, que contou os peixes depois de uma pesca inesquecível.
Seja qual for a intenção, o simbolismo geral é claro: a missão confiada aos discípulos alcançará uma grande quantidade de pessoas, e a "rede" que as reúne não se romperá, em harmonia com a oração de Jesus pela unidade (17:21).
Jesus os convida a comer, e nenhum dos discípulos ousa perguntar quem ele é, porque sabiam que era o Senhor. Jesus se aproxima, toma o pão e o dá a eles, e faz o mesmo com o peixe. O gesto ecoa a multiplicação dos pães (6:11). O Ressuscitado continua sendo o anfitrião que alimenta os seus, e o cuidado com uma refeição matinal para pescadores cansados mostra que nada da vida cotidiana está fora de sua atenção. O narrador conclui que essa foi a terceira vez que Jesus se manifestou aos discípulos depois de ressuscitar.
7. A restauração de Pedro: "Tu me amas?" (21:15-19)
Depois da refeição, Jesus se dirige a Simão Pedro. Chama-o pelo nome original, "Simão, filho de João", o mesmo nome com que o chamou no primeiro encontro (1:42), e não de Pedro, o nome novo. E pergunta se ele o ama mais do que estes. A expressão "mais do que estes" pode significar "mais do que estes outros discípulos o amam", uma lembrança da antiga autoconfiança de Pedro, que afirmara que, ainda que todos o abandonassem, ele não o abandonaria (Mc 14:29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Também pode significar "mais do que estas coisas", isto é, o barco, as redes e a antiga profissão. A primeira leitura é a mais comum.
Pedro responde que sim, que o Senhor sabe que ele o ama. Jesus lhe diz que apascente os seus cordeiros. A pergunta se repete uma segunda vez, e Pedro responde do mesmo modo. Jesus lhe diz que pastoreie as suas ovelhas. Na terceira vez, Jesus pergunta de novo se ele o ama, e Pedro se entristece. Responde: o Senhor sabe todas as coisas; sabe que ele o ama. E Jesus lhe diz que apascente as suas ovelhas.
Há um debate conhecido sobre os verbos usados no diálogo. Nas duas primeiras perguntas, Jesus usa agapaō; na terceira, phileō. Pedro responde as três vezes com phileō.
- Leitura de Trench e Westcott. Comentaristas do século XIX viram nessa alternância uma diferença significativa. Agapaō indicaria o amor mais elevado e incondicional, e phileō, uma afeição humana mais modesta. Pedro, humilde depois da queda, não ousaria afirmar mais do que esse amor de amigo, e Jesus, na terceira pergunta, desceria ao nível dele.
- Leitura majoritária moderna. A maioria dos estudiosos modernos, como Raymond Brown, D. A. Carson e Leon Morris, entende que em João os dois verbos são usados como sinônimos, numa variação de estilo. O próprio Evangelho usa agapaō e phileō indistintamente para o amor do Pai pelo Filho (3:35; 5:20), para o amor de Jesus por Lázaro (11:3, 5) e para o amor de Jesus pelo discípulo amado (13:23; 20:2). A mesma variação ocorre no diálogo com outros pares de palavras: apascentar e pastorear, cordeiros e ovelhas, saber e conhecer.
Nessa leitura, o centro do diálogo não está na diferença entre os verbos, mas no número três.
As três perguntas correspondem às três negações. Junto a um fogo de brasas, Pedro tinha negado três vezes conhecer Jesus (18:17, 25-27); junto a outro fogo de brasas, ele confessa três vezes o seu amor. A tristeza de Pedro na terceira pergunta mostra que ele percebeu a correspondência. Jesus não o humilha nem exige que ele recite a sua culpa. Dá-lhe a oportunidade de afirmar o amor tantas vezes quantas negara. E a cada confissão responde com uma missão: apascentar, pastorear, cuidar do rebanho.
Isso mostra três verdades importantes:
- A restauração vem pela graça. Pedro não é readmitido por méritos, mas pela iniciativa de Jesus, que o procura, o alimenta e o pergunta.
- O critério do ministério é o amor a Cristo. Antes de confiar as ovelhas, Jesus não pergunta sobre a competência, a coragem ou o conhecimento de Pedro, mas sobre o seu amor.
- As ovelhas pertencem a Jesus. Ele diz "meus cordeiros" e "minhas ovelhas". Pedro é pastor de um rebanho que não lhe pertence, servindo ao Bom Pastor que deu a vida por elas (10:11).
Anos depois, Pedro escreverá aos presbíteros das igrejas exortando-os a pastorear o rebanho de Deus, não por obrigação nem por ganância, mas de boa vontade e como exemplo, até a vinda do Supremo Pastor (1 Pe 5:1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É o eco desta manhã à beira do lago.
Jesus então anuncia o futuro de Pedro (21:18-19), com um solene "amém, amém". Quando era mais jovem, Pedro se vestia sozinho e ia para onde queria. Quando for velho, estenderá as mãos, e outro o vestirá e o levará para onde ele não quer ir. O narrador explica que Jesus disse isso para indicar com que morte Pedro glorificaria a Deus. A expressão "estender as mãos" era usada na Antiguidade para descrever a crucificação, e Tertuliano a aplica a Pedro (Escorpiaco 15). A tradição antiga afirma que Pedro foi martirizado em Roma, durante a perseguição de Nero, por volta de 64-67 d.C. (Eusébio, História Eclesiástica 2.25.5). Orígenes, citado por Eusébio, acrescenta que ele pediu para ser crucificado de cabeça para baixo (História Eclesiástica 3.1.2). Aquele que tinha prometido dar a vida por Jesus (13:37) e falhou, de fato a dará, mas agora não pela autoconfiança, e sim pela graça. E a sua morte "glorificará a Deus", com o mesmo vocabulário usado para a morte de Jesus (12:23; 13:31).
E Jesus lhe diz: segue-me (21:19). É o mesmo chamado do início (1:43). Na noite da ceia, Jesus dissera que Pedro não podia segui-lo agora, mas o seguiria mais tarde (13:36). Agora chegou o "mais tarde". Seguir Jesus, para Pedro, incluirá o pastoreio e o martírio.
8. O discípulo amado e o testemunho final (21:20-25)
Pedro se volta e vê o discípulo amado seguindo-os, aquele que, na ceia, se reclinara sobre o peito de Jesus. Ele pergunta: e este, o que lhe acontecerá? A resposta de Jesus é firme (21:22): se ele quiser que esse discípulo permaneça até que ele volte, o que Pedro tem com isso? Que Pedro o siga. Cada discípulo tem o seu caminho, e a comparação com o caminho dos outros não é assunto do discípulo. A única ordem é seguir.
O narrador corrige um boato que se espalhara entre os irmãos (21:23): o de que aquele discípulo não morreria. Jesus não disse que ele não morreria, mas apenas "se eu quiser que ele permaneça até que eu venha". A correção sugere que, quando o capítulo foi escrito, o discípulo amado já era muito idoso ou já havia morrido, e a sua morte pode ter causado perplexidade em quem acreditava naquele boato. A tradição antiga afirma que o apóstolo João viveu até idade avançada em Éfeso, até o tempo do imperador Trajano (Ireneu, Contra as Heresias 2.22.5; 3.3.4).
Então vem o selo do livro (21:24): este é o discípulo que dá testemunho destas coisas e que as escreveu, e sabemos que o seu testemunho é verdadeiro. O "nós" provavelmente representa a comunidade ou o círculo de discípulos que conheceu o discípulo amado e confirma a veracidade do seu testemunho. O Evangelho termina como começou: com testemunho. No início foi o testemunho de João Batista (1:7, 15, 19); no fim, o testemunho do discípulo amado.
O último versículo (21:25) é uma hipérbole: Jesus fez muitas outras coisas, e, se todas fossem escritas uma por uma, o evangelista supõe que nem o mundo inteiro poderia conter os livros que seriam escritos. A frase reconhece que nenhum livro pode esgotar a pessoa de Jesus. O que foi escrito é suficiente para crer e ter vida (20:31), mas a realidade de Cristo é infinitamente maior do que qualquer registro.
Contribuição do bloco para o livro e para a Bíblia
Os capítulos 20 e 21 são a coroação do Evangelho. A ressurreição confirma tudo o que Jesus disse sobre si mesmo: ele é a ressurreição e a vida (11:25), tem autoridade para dar e retomar a vida (10:18), e o templo destruído foi reerguido em três dias (2:19-22). As promessas do discurso de despedida começam a se cumprir: paz, alegria, Espírito, missão, nova relação com o Pai. A confissão de Tomé fecha a moldura iniciada no Prólogo. O epílogo mostra a Igreja em missão, alimentada por Cristo, unida numa rede que não se rompe, conduzida por pastores restaurados pela graça e sustentada pelo testemunho verdadeiro dos que viram. No conjunto da Bíblia, a ressurreição inaugura a nova criação prometida pelos profetas e antecipa a ressurreição final (1 Co 15:20-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e o novo céu e a nova terra (Ap 21–22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Visão cristocêntrica:
A conexão com Cristo é direta: os dois capítulos são inteiramente sobre o Ressuscitado. Eles revelam:
- O Senhor ressuscitado em corpo real e glorificado, marcado pelas feridas da cruz, que come com os discípulos e atravessa portas trancadas. O Crucificado é o mesmo que vive para sempre (Ap 1:17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- O novo Adão e o jardineiro da nova criação, que aparece num jardim no primeiro dia da semana e sopra a vida nova sobre os seus, como Deus soprou a vida em Adão (Gn 2:7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- O bom pastor que chama pelo nome (20:16), que alimenta o rebanho (21:12-13) e confia suas ovelhas a pastores restaurados (21:15-17).
- O irmão primogênito que torna os discípulos irmãos e partilha com eles o seu Pai e o seu Deus (20:17; Rm 8:29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- O Senhor da paz, que reconcilia os discípulos depois do abandono (20:19-21).
- O enviado que envia a Igreja ao mundo e lhe dá o Espírito (20:21-22).
- O doador do perdão, conquistado na cruz e anunciado pelos discípulos (20:23).
- Senhor e Deus (20:28), na confissão que resume todo o Evangelho.
- O Senhor da missão e da provisão, cuja palavra enche as redes vazias (21:6).
- O Senhor da história, que conhece e determina o destino de Pedro e do discípulo amado, e que voltará (21:22).
Aplicações espirituais e práticas:
-
A ressurreição como fundamento da fé. O cristianismo não se apoia apenas em ensinamentos morais ou experiências interiores, mas num fato: o túmulo vazio e as aparições do Ressuscitado a testemunhas concretas. Paulo afirma que, se Cristo não ressuscitou, a fé cristã é vã (1 Co 15:14-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Isso dá à fé uma base sólida diante das crises e das dúvidas. Na prática, vale conhecer as razões históricas da fé na ressurreição, como o testemunho das mulheres, a transformação dos discípulos e o túmulo vazio, não para substituir a fé, mas para mostrar que ela não é irracional. E, sobretudo, viver como quem sabe que a morte foi vencida.
-
Cristo nos encontra nas lágrimas e nos chama pelo nome. Maria estava tão tomada pela dor que não reconheceu Jesus diante dela. Muitas vezes, no luto, na decepção ou na crise, também não percebemos a presença de Cristo. O texto mostra que ele vem ao nosso encontro mesmo quando o procuramos no lugar errado, e que nos alcança chamando-nos pessoalmente. A aplicação é levar as lágrimas a ele, sem esconder a dor, e estar atento à sua voz nas Escrituras, na oração e na comunhão da Igreja.
-
A paz que atravessa portas trancadas. Os discípulos estavam escondidos por medo. O Ressuscitado entrou no meio deles e lhes deu paz, sem repreender a covardia que haviam demonstrado na Paixão. Muitas pessoas vivem trancadas: por medo do futuro, de perseguição, de rejeição ou da própria culpa. A presença de Cristo não depende de portas abertas. A paz que ele oferece não é a ausência de problemas, mas a reconciliação com Deus, que permite enfrentar o que vier.
-
Enviados como ele foi enviado. A ressurreição não termina numa celebração fechada, mas numa missão. Todo discípulo é enviado ao mundo com o mesmo padrão de Cristo: revelar o Pai, servir, amar até o fim e anunciar o perdão. E não vai sozinho, mas com o Espírito soprado pelo Ressuscitado. Na prática, isso se aplica à família, ao trabalho, à vizinhança, à cidade: são os campos de missão onde cada cristão foi colocado.
-
Portadores do perdão. A Igreja recebeu o ministério do perdão. Isso significa anunciar o perdão de Deus aos que se arrependem e creem, mas também viver como comunidade que perdoa. Pessoas perdoadas pelo Ressuscitado são chamadas a romper ciclos de ressentimento e vingança, e a criar espaços onde a reconciliação é possível: no casamento, entre pais e filhos, entre irmãos de igreja, entre colegas de trabalho.
-
A dúvida honesta levada a Cristo. Tomé não é um vilão: é alguém que não queria acreditar em algo tão grande sem ter certeza. Jesus não o rejeita; vai ao encontro dele e lhe oferece exatamente o que ele precisava. A Igreja deve ser um lugar onde as dúvidas sinceras podem ser expressas e acolhidas, e não reprimidas. Ao mesmo tempo, Tomé mostra que a dúvida não é o destino final: o encontro com Cristo leva à confissão e à adoração.
-
A felicidade de crer sem ver. Todos os leitores do Evangelho, depois da geração apostólica, estão na situação descrita em 20:29: creem sem ter visto. Isso não é uma fé de segunda classe. O Evangelho foi escrito justamente para gerar essa fé (20:31). Na prática, isso valoriza a leitura das Escrituras como o meio pelo qual Cristo continua a se revelar e a gerar fé. Ler o Evangelho de João é ser colocado diante das testemunhas que viram.
-
Restauração depois do fracasso. A história de Pedro é uma das mais consoladoras da Bíblia. Ele negou Jesus três vezes, e Jesus o procurou, o alimentou e o restaurou com três perguntas sobre o amor. Isso fala a todos os que carregam a memória de uma grande falha: um casamento desfeito, uma traição, um abandono da fé, um pecado público. Cristo não ignora a falha, mas não a torna definitiva. Ele pergunta sobre o amor e confia uma missão. E também desafia a Igreja a restaurar os que caíram, em vez de descartá-los.
-
O amor como critério para servir. Antes de confiar as ovelhas a Pedro, Jesus perguntou três vezes sobre o seu amor. Em igrejas, organizações e lideranças em geral, costuma-se olhar primeiro para competência, carisma ou resultados. Esses fatores têm o seu lugar, mas, no Reino, a qualificação fundamental para servir é o amor a Cristo. Quem lidera sem amar a Cristo pode até ser eficiente, mas acabará tratando as pessoas como recursos, e não como ovelhas do Senhor.
-
Cada um no seu caminho: não se comparar. A pergunta de Pedro sobre o discípulo amado expressa uma tentação comum: comparar a própria vocação, o próprio sofrimento ou as próprias bênçãos com os dos outros. A resposta de Jesus é libertadora: o caminho do outro não é assunto nosso; a nossa tarefa é segui-lo. Isso protege contra a inveja, o ressentimento e a sensação de injustiça. Também liberta para servir fielmente no lugar e no tempo que Deus nos deu, inclusive na velhice, como Pedro e João, cada um a seu modo.
-
Cristo no trabalho cotidiano. A última cena do Evangelho não acontece num templo, mas num lago, depois de uma noite de trabalho sem resultado. Jesus se interessa pela pesca e pelo café da manhã dos discípulos. Isso mostra que nenhuma área da vida está fora do cuidado dele. Nos dias de esforço sem fruto, a palavra de Cristo pode mudar o resultado. E, mesmo quando não muda imediatamente, ele continua sendo aquele que prepara a mesa e alimenta os seus.
Sabedoria para o Cotidiano
No primeiro dia da nova criação, o Ressuscitado chamou Maria pelo nome, entrou pelas portas trancadas do medo, soprou o Espírito sobre os seus e mostrou a Tomé as feridas que se tornaram sinais de amor eterno. Depois, junto a um fogo de brasas, transformou a negação de Pedro em três confissões de amor e lhe confiou suas ovelhas. Nenhuma lágrima, dúvida ou fracasso está fora do alcance do Senhor vivo. Ele continua a perguntar se o amamos, e continua a dizer a cada um: segue-me.