Pular para o conteúdo
Farol Bíblico
Início

← Lucas

Lucas · 42 de 66 · Novo Testamento

Lucas — Capítulo 17

Infográfico de “Lucas 17 — Capítulo a capítulo”, gerado automaticamente a partir do estudo publicado, com 6 partes: O tropeço dos pequenos e o perdão sete vezes; A fé como um grão de mostarda e os servos sem crédito; Dez purificados, um que volta; O Reino que não se calcula; O relâmpago, Noé e Ló; A mulher de Ló, um levado e outro deixado….

Título do capítulo: O estrangeiro que voltou agradecido
Gênero literário: Evangelho (narrativa da viagem a Jerusalém, com ditos aos discípulos sobre o tropeço, o perdão, a fé e o serviço; a cura dos dez leprosos, própria de Lucas; a pergunta dos fariseus sobre o Reino; e o discurso sobre o dia do Filho do Homem, com Noé, Ló e a mulher de Ló)
Número de versículos: 37

Nota de precisão: este estudo segue a numeração das Bíblias em português. O v. 36 não está nos manuscritos mais antigos de Lucas e é tratado no lugar próprio; a numeração o conserva. As palavras de Jesus são resumidas com outras palavras, nunca transcritas. O estudo de Lucas 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) apresenta o livro inteiro (autoria, data, destinatários, estrutura e temas); aqui se pressupõe essa apresentação. O capítulo não oferece calendário do fim, e este estudo também não.

Uma palavra pastoral: os vv. 1-4 falam de quem faz cair os pequenos e do perdão repetido. Frases deste trecho já foram usadas para calar vítimas e devolvê-las a quem as feriu. Jesus diz o contrário: o mal feito aos pequenos é gravíssimo, o pecado deve ser chamado pelo nome, e o perdão não apaga a justiça nem obriga ninguém a continuar em perigo. O estudo segue o espírito dos estudos de Mateus 18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Marcos 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).


🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural

Na estrada de Jerusalém

Desde Lc 9.51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), quando Jesus firma o rosto para subir a Jerusalém, Lucas conta uma longa viagem, a chamada seção central do Evangelho, com muito material que só ele guardou. De tempos em tempos, o narrador lembra para onde a estrada leva (Lc 9.51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 13.22; 17.11), e este capítulo traz a terceira dessas lembranças. Não é um itinerário para traçar no mapa; é o caminho do Filho do Homem para a cruz, e quem o acompanha aprende no caminho o que é ser discípulo.

Depois do rico e de Lázaro (Lc 16.19-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), Jesus se volta para os discípulos com quatro ditos sobre a vida da comunidade (vv. 1-10); vêm então os dez leprosos, e a pergunta dos fariseus abre o discurso sobre o dia do Filho do Homem, que segue em Lc 18.1-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).

Os leprosos e os samaritanos

O que as Bíblias chamam de lepra corresponde ao hebraico tsaraʿat, que cobria várias afecções da pele e não coincide necessariamente com a hanseníase, como mostra o estudo de 2 Reis 5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O doente era declarado impuro, vivia afastado e devia avisar de longe quem se aproximasse (Lv 13.45-46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); curado, apresentava-se ao sacerdote para os ritos de purificação antes de voltar ao convívio e ao culto (Lv 14.1-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A doença era sofrimento do corpo e exílio social e religioso.

Os samaritanos se consideravam descendentes das tribos do norte e guardiões fiéis da Lei de Moisés, e adoravam no monte Gerizim, onde tinham tido um templo, destruído pelo governante judeu João Hircano no fim do século II a.C. Muitos judeus, lendo 2Rs 17.24-41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), viam neles um povo misturado, e a hostilidade era recíproca (Jo 4.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 9.52-53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Uma pequena comunidade samaritana guarda até hoje as suas tradições. Lucas trata os samaritanos com respeito: põe-nos no centro de duas das suas histórias mais luminosas (Lc 10.30-37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 17.11-19) e mostra a Samaria recebendo a palavra com alegria (At 8.5-8, 14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A espera do Reino

Muitos judeus piedosos esperavam o reinado de Deus, como Simeão, Ana e José de Arimateia (Lc 2.25, 38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 23.51), e alguns grupos calculavam tempos a partir de Daniel. Noé e Ló eram exemplos clássicos do juízo que chega sem aviso, e a tradição os aproximou: o livro da Sabedoria lembra Ló e a coluna de sal (Sb 10.6-7), e a segunda carta de Pedro põe os dois lado a lado (2Pe 2.5-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Lucas é o único Evangelho que acrescenta Ló ao exemplo de Noé.


📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo

Jesus avisa os discípulos de que quedas vão acontecer, mas lamenta a sorte de quem as provoca: afundar no mar com uma pedra de moinho em volta do pescoço seria destino mais leve do que fazer cair um destes pequenos. Eles devem vigiar a si mesmos. O irmão que peca deve ouvir a correção e, arrependido, receber o perdão, ainda que a ofensa se repita sete vezes num só dia e sete vezes ele volte reconhecendo o erro (vv. 1-4).

Os apóstolos pedem ao Senhor um acréscimo de fé. Ele responde que uma fé pequena como a semente de mostarda bastaria para dar ordem a uma amoreira de mudar-se, com raiz e tudo, para dentro do mar (vv. 5-6). E conta de um servo que volta do campo: o senhor não o põe logo à mesa, mas lhe pede que prepare a ceia e o sirva, e não lhe fica devendo favor por isso. Assim os discípulos, cumprida toda a ordem, devem reconhecer que nada têm a cobrar, porque só fizeram o que lhes cabia (vv. 7-10).

Entre a Samaria e a Galileia, dez leprosos param de longe e gritam pedindo misericórdia a Jesus, a quem chamam de Mestre. Ele os manda apresentar-se aos sacerdotes, e no caminho ficam limpos. Um deles, ao perceber a cura, volta louvando a Deus em voz alta e se lança aos pés de Jesus, agradecendo; era samaritano. Jesus pergunta pelos outros nove e lamenta que só o estrangeiro tenha voltado para glorificar a Deus; manda-o erguer-se e seguir, e declara que a fé dele o salvou (vv. 11-19).

Os fariseus perguntam quando vem o Reino de Deus. Jesus responde que ele não chega de um modo que se possa rastrear, nem se apontará um lugar, porque o Reino já está entos hymōn (vv. 20-21).

Aos discípulos, Jesus anuncia dias em que desejarão ver um só dos dias do Filho do Homem e não verão. Não devem correr atrás de quem o anunciar aqui ou ali: a vinda dele será como o relâmpago que clareia o céu de ponta a ponta. Antes, porém, ele precisa sofrer muito e ser recusado pela gente do seu tempo (vv. 22-25). Será como no tempo de Noé, quando a vida corria normal até a arca se fechar e o dilúvio destruir a todos; e como no tempo de Ló, com compras, vendas, plantios e obras, até o dia em que ele saiu de Sodoma e caiu do céu fogo e enxofre. Assim será quando o Filho do Homem se revelar (vv. 26-30).

Nesse dia, quem estiver no terraço não deve descer atrás dos bens, nem quem estiver no campo deve voltar. Jesus manda ter presente o que aconteceu à mulher de Ló: agarrar-se à própria vida é o caminho de perdê-la, e entregá-la é o de guardá-la. De dois na mesma cama, de duas mulheres no mesmo moinho, um é levado e o outro fica. [O v. 36, ausente dos manuscritos mais antigos, traz a mesma imagem com dois homens no campo.] Os discípulos perguntam onde, e Jesus responde com um provérbio sobre as aves de rapina que se juntam onde há um corpo (vv. 31-37).


🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)

Versículos 1-4 — O tropeço dos pequenos e o perdão sete vezes

A primeira frase é realista: é anendekton, impossível, que não venham os skandala. Skandalon era a peça da armadilha que dispara ao toque, e depois a pedra em que se tropeça. Quedas vão acontecer, mas o realismo não desculpa ninguém: o ouai, o ai dos profetas, recai sobre aquele por quem o tropeço vem.

Lucas fala de um lithos mylikos, uma pedra de moinho (v. 2); Mateus e Marcos, da grande mó movida por jumento (Mt 18.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 9.42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus não manda aplicar esse castigo; mede a gravidade do pecado diante de Deus. Os mikroi, pequenos, aqui não aparecem ao lado de uma criança em cena, como em Mateus e Marcos (a criança esteve ao lado de Jesus em Lc 9.46-48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o contexto aponta para os frágeis da comunidade, como os publicanos e pecadores que se achegavam para ouvi-lo (Lc 15.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas a palavra não deixa as crianças de fora, e o capítulo seguinte as traz nos braços de Jesus (Lc 18.15-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Como mostram os estudos de Mateus 18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Marcos 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), nenhum tropeço destrói mais do que o abuso cometido contra uma criança por quem devia protegê-la. A criança vem em primeiro lugar.

O v. 3 começa com prosechete heautois, a ordem de vigiar a si mesmos: não se tornar a pedra de tropeço e cuidar do modo de tratar o irmão que erra. Se o irmão hamartē, peca, a ordem é epitimēson, a de repreender. Lucas não manda fingir que nada aconteceu; a Lei já proibia odiar o irmão no coração e mandava corrigi-lo abertamente (Lv 19.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Se ele metanoēsē, se arrepende, vem o aphes, a ordem de perdoar.

O v. 4 leva o perdão ao limite: sete vezes no mesmo dia. A repetição torna a sinceridade difícil de crer, e Jesus não pede que se meça o arrependimento com régua de desconfiança; pede que não se guarde conta. Mateus põe a palavra em resposta a Pedro, com o número levado a setenta vezes sete (Mt 18.21-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Lucas a dá sem pergunta e com a condição explícita do arrependimento. Em Mateus, o centro é a dívida que o próprio discípulo recebeu perdoada; em Lucas, o caminho da reconciliação, que passa pela correção, pelo arrependimento e pelo perdão.

Aqui o cuidado pastoral é indispensável. Perdoar sete vezes no dia não é tolerar sete vezes o abuso. O perdão solta a dívida e renuncia à vingança; não dispensa a justiça, não restabelece de imediato a confiança, não devolve a quem abusou o cargo ou o acesso que usou para ferir, e não obriga a vítima a ficar perto de quem a põe em perigo. A correção vem antes, e a reconciliação supõe um arrependimento que se mostra em mudança.

Versículos 5-10 — A fé como um grão de mostarda e os servos sem crédito

Agora falam os apostoloi, termo que Lucas usa mais que os outros Evangelhos para os Doze (Lc 6.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 9.10; 22.14), e falam ao kyrios. Lucas chama Jesus de Senhor também na narração (Lc 7.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 10.1; 13.15). Diante do perdão sem conta, sentem que lhes falta fé e pedem prosthes hēmin pistin, um acréscimo, como quem pede porção maior.

A resposta muda a pergunta (v. 6). Não é questão de quantidade. Bastaria uma fé como o kokkos sinapeōs, o grão de mostarda, proverbial como a menor das sementes (veja o estudo de Mateus 13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A sykaminos é provavelmente a amoreira, de raízes fundas; alguns pensam no sicômoro, que a antiga tradução grega chama pelo mesmo nome. Mateus e Marcos falam de um monte que se move (Mt 17.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 11.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Lucas, de uma árvore plantada no mar, impossível duas vezes. A frase grega mistura uma condição real, a fé que eles já têm, com uma consequência irreal, e alguns veem aí um sorriso: a fé que têm basta, porque o poder não está nela, mas em Deus. Como diz o estudo de Mateus 17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), a fé pequena que se lança em Deus é a fé de que Jesus fala.

Os vv. 7-10, só de Lucas, parecem duros. Jesus pergunta tis ex hymōn, qual de vocês, fórmula com que convida o ouvinte a julgar pela própria experiência (Lc 11.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 14.28; 15.4). Quem tem um doulos que volta de arotrian, arar, ou de poimainein, pastorear, não o põe logo à mesa: manda-o, perizōsamenos, cingido, preparar e servir a ceia, e só depois ele come. E o senhor não echei charin, não fica devendo favor (v. 9). A parábola usa a escravidão doméstica do tempo, que não aprova nem discute, para falar da relação com Deus. No v. 10, os discípulos devem reconhecer-se douloi achreioi. A palavra não quer dizer imprestáveis, como se o trabalho nada valesse; quer dizer servos sem crédito a cobrar. O alvo são os que aram e pastoreiam no campo de Deus (Lc 9.62 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 20.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Pe 5.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): nenhum líder transforma o serviço em direito sobre Deus ou sobre os irmãos.

Mas não é a última palavra de Lucas. Pouco antes, Jesus falou do senhor que encontra os servos acordados e, cingindo-se, os faz sentar e os serve (Lc 12.37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e na última ceia dirá que está entre os seus como quem serve (Lc 22.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O discípulo não tem créditos diante de Deus; e o Senhor, que nada nos deve, escolhe servir-nos à mesa.

Versículos 11-19 — Dez purificados, um que volta

O v. 11 põe Jesus dia meson Samareias kai Galilaias, talvez pela fronteira entre as duas regiões, rumo ao vale do Jordão. Os estudiosos discutem a geografia; o que a frase faz é situar a cena numa terra de fronteira.

Dez leproi andres param porrōthen, de longe (v. 12), como a Lei mandava, e gritam chamando Jesus pelo nome e de Epistata, Mestre, título só de Lucas, que fora daqui sai sempre da boca dos discípulos (Lc 5.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 8.24, 45; 9.33, 49). O pedido é eleēson, misericórdia (v. 13), o mesmo do cego de Jericó (Lc 18.38-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A doença juntou judeus e ao menos um samaritano: a exclusão comum apagou, por um tempo, a velha fronteira.

Jesus os vê (v. 14) e não os toca, como tocou o leproso de Lc 5.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); manda-os aos sacerdotes, o passo que a Lei previa para quem já estava curado (Lv 14.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); cf. Lc 5.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Partem ainda doentes, e en tō hypagein, enquanto vão, ficam limpos. O leitor lembra Naamã, que desceu ao Jordão por ordem do profeta antes de ver a carne restaurada (2Rs 5.10-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e que Jesus citou em Nazaré como o único leproso purificado no tempo de Eliseu (Lc 4.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Então o relato se divide. Um deles, vendo-se curado, hypestrepsen, voltou (v. 15). Lucas gosta desse verbo, que fecha muitas das suas cenas (Lc 2.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 8.39; 24.33, 52). Volta com a mesma voz alta com que gritara, agora doxazōn ton theon, glorificando a Deus, a resposta que Lucas registra diante das obras divinas (Lc 5.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 7.16; 13.13; 18.43). Cai com o rosto em terra aos pés de Jesus, eucharistōn autō, agradecendo-lhe (v. 16). Dar glória a Deus e agradecer a Jesus, aos pés dele, são o mesmo movimento. Eucharisteō é o verbo que Jesus usará sobre o cálice e o pão na última ceia (Lc 22.17, 19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e que deu nome à Eucaristia.

E, no fim do versículo, como quem guarda o golpe para a última palavra: ele era Samaritēs. Como na parábola do capítulo 10, Lucas põe no lugar do exemplo a figura que os ouvintes menos esperavam, não para humilhar os judeus da história, mas para quebrar a fronteira que dizia quem estava perto de Deus.

As perguntas de Jesus (vv. 17-18) se dirigem aos que estão em volta e ao leitor. Ele faz a conta diante de todos, dez purificados e um de volta, e nota que o único a glorificar a Deus foi o allogenēs. Allogenēs, de outra raça, é a palavra da inscrição grega, encontrada no século XIX, que proibia aos estrangeiros passar da balaustrada do pátio interno do templo. O homem a quem o templo fechava a porta encontrou, aos pés de Jesus, o lugar de dar glória a Deus.

Não convém ser injusto com os nove, que obedeceram à ordem e à Lei; mas a cura os devolveu à vida de antes, e o samaritano entendeu que ela era um encontro.

O v. 19 dá ao samaritano mais do que ele tinha. Anastas, o verbo de pôr-se de pé, o mesmo da ressurreição, e poreuou, a ordem de seguir caminho; e a sentença hē pistis sou sesōken se, a fé dele o salvou. Lucas a repete para a mulher que ungiu os pés de Jesus (Lc 7.50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), para a mulher curada da hemorragia (Lc 8.48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e para o cego de Jericó (Lc 18.42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os dez foram purificados, mas só a ele se diz que foi salvo: a purificação lhe abriu a porta da aldeia; a fé que voltou e agradeceu o fez entrar na salvação, que em Lucas é cura, perdão e comunhão com Deus.

Versículos 20-21 — O Reino que não se calcula

Os fariseus perguntam pote, quando, vem o Reino (v. 20). Em Lucas, eles não formam um bloco hostil: convidam Jesus à mesa (Lc 7.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 11.37; 14.1), avisam-no do perigo (Lc 13.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e alguns, nos Atos, creem (At 15.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Paulo se apresenta como fariseu (At 23.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A pergunta é a de quem espera.

A resposta recusa o cálculo. O Reino não vem meta paratērēseōs, palavra que só aparece aqui no Novo Testamento e significa observação atenta de sinais. Lucas usa o verbo da mesma família para os que espreitavam Jesus a fim de acusá-lo (Lc 6.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 14.1; 20.20), e Paulo, para a observância de dias e estações (Gl 4.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Nem se apontará um lugar (v. 21). E vem a frase que atravessou os séculos, que situa o Reino entos hymōn. A preposição entos só aparece mais uma vez no Novo Testamento, para o interior de um copo (Mt 23.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Há três leituras, e nenhuma merece desdém.

A primeira entende que o Reino está no interior das pessoas, a soberania de Deus acolhida no coração. Muitos autores espirituais, desde Orígenes, leram assim, e Liev Tolstói tirou dessa leitura o título de um livro de 1894. A dificuldade é que Jesus fala aos fariseus que o interrogam, e em Lucas o Reino é sobretudo realidade que se recebe e em que se entra.

A segunda, que a maioria dos estudiosos hoje prefere, entende que o Reino está no meio deles, presente na pessoa e nas obras de Jesus: se ele expulsa demônios pelo dedo de Deus, o Reino chegou (Lc 11.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Perguntam quando virá, e ele lhes diz que já está ali, diante dos olhos. Alguns, a partir de usos em papiros, acrescentam a nuance de ao alcance de vocês, à disposição de quem o acolhe.

A terceira, menos comum, dá à frase um sentido de futuro: quando vier, o Reino estará de repente no meio deles, o que prepararia os vv. 22-37.

A segunda é a que melhor respeita o contexto, sem negar a verdade da primeira: o Reino presente em Jesus só é recebido por quem se converte por dentro. E o Reino já presente ainda será revelado no dia do Filho do Homem.

Versículos 22-30 — O relâmpago, Noé e Ló

Aos discípulos (v. 22), Jesus fala de dias em que desejarão ver mian tōn hēmerōn tou huiou tou anthrōpou, um só dos dias do Filho do Homem. Pode ser saudade dos dias com Jesus, ou anseio pelo seu reinado manifesto em tempos de perseguição; a segunda leitura combina melhor com o que segue. Haverá quem o anuncie ali ou aqui, e não devem ir (v. 23): como em Mt 24.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), os messias do deserto e os dos esconderijos. A resposta é a astrapē, o relâmpago (v. 24): a vinda do Filho do Homem não será segredo de iniciados.

O v. 25 interrompe a glória: prōton de dei, antes é necessário que ele sofra muito e seja rejeitado pela genea hautē, a gente do seu tempo. O dei é a palavra com que Lucas fala do plano de Deus para a Paixão (Lc 9.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 13.33; 22.37; 24.7, 26). Não há glória do Filho do Homem que não passe pela cruz.

Os vv. 26-27 lembram Noé. O texto não destaca a maldade daquela gente (Gn 6.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas a rotina: comer, beber, casar, até o dia em que Noé entrou na arca e o dilúvio apōlesen pantas, destruiu a todos. Comer e casar não são pecados; o erro é viver como se Deus não fosse intervir. Os vv. 28-29, só de Lucas, acrescentam Ló, e a lista ganha o ritmo da economia: comprar, vender, plantar, construir. Sodoma é lembrada pela segurança de quem fazia negócios e planos como se o amanhã estivesse garantido, o erro do rico dos celeiros (Lc 12.16-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No dia em que Ló saiu, choveu fogo e enxofre (Gn 19.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Assim será quando o Filho do Homem apokalyptetai, for revelado (v. 30): o que hoje está escondido à direita de Deus será mostrado a todos.

Versículos 31-37 — A mulher de Ló, um levado e outro deixado, e as aves sobre o corpo

O conselho do v. 31 está em Marcos e Mateus para a fuga de Jerusalém cercada (Mc 13.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 24.17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): não descer do dōma, o terraço plano, atrás dos skeuē, os bens, nem voltar do campo eis ta opisō, para trás. Lucas guarda a fuga de Jerusalém para outro discurso (Lc 21.20-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e põe o conselho aqui, no dia do Filho do Homem. A mudança de lugar muda o sentido: já não é técnica de fuga, é desapego.

A ordem do v. 32 é das mais breves de Jesus: ter na memória a mulher de Ló. Os anjos mandaram a família fugir sem olhar para trás (Gn 19.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); ela olhou e virou coluna de sal (Gn 19.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Gênesis não explica o gesto; a tradição viu nele o coração preso à cidade. Lucas registrara a palavra sobre quem põe a mão no arado e olha para trás (Lc 9.62 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ela saiu de Sodoma com os pés, não com o coração.

O v. 33 dá a regra, dita em Lucas pela segunda vez (Lc 9.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e guardada nos quatro Evangelhos (Mc 8.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 10.39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 12.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): quem procura peripoiēsasthai, assegurar para si, a própria vida, a perde; quem a perde a zōogonēsei, conserva viva. O verbo é raro e forte: Lucas o usa nos Atos para os recém-nascidos hebreus que o faraó não queria deixar viver (At 7.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Perder a vida por Jesus é tê-la guardada como Deus guarda uma criança da morte.

Nos vv. 34-35, dois na mesma cama, duas mulheres no moinho de mão: um é paralēmphthēsetai, levado consigo, o outro aphethēsetai, deixado. Gente que parecia igual será separada sem tempo para preparativos.

Quem é levado, e para onde? As leituras se dividem. Uma entende que o levado é recolhido para a salvação, como os escolhidos reunidos pelos anjos (Mt 24.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e lembra que paralambanō é o verbo de Jesus que promete tomar os seus para junto de si (Jo 14.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Outra observa que, com Noé e Ló, os levados foram os destruídos e os que ficaram foram os poupados; e que, em Lucas, a pergunta pou, onde (v. 37), parece querer saber para onde vão os levados, e a resposta fala de aves sobre um corpo, o que sugere o juízo. O estudo de Mateus 24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) registra as duas e conclui que o ponto não depende delas.

Muitos chamam essa separação de arrebatamento, palavra que vem de 1Ts 4.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e os cristãos divergem sobre a ordem dos acontecimentos: alguns, sobretudo dispensacionalistas, esperam que a igreja seja retirada antes de uma grande tribulação, num arrebatamento secreto; a maior parte da tradição entende que o encontro com o Senhor acontece na sua única vinda gloriosa. Em Lucas, o dia é visível como o relâmpago (v. 24) e público como as aves sobre o corpo (v. 37), e muitos intérpretes, também entre os que esperam um arrebatamento antes da tribulação, não leem aqui um evento oculto. Lucas não escreveu para decidir essa divergência entre irmãos, mas para que ninguém seja apanhado dormindo.

O v. 36, sobre dois homens no campo, não está nos manuscritos mais antigos, como o P75, o Sinaítico e o Vaticano; aparece no de Beza e em outros testemunhos antigos, e muitos estudiosos pensam que copistas o trouxeram de Mt 24.40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) para completar o par. Por isso muitas Bíblias o põem entre colchetes ou em nota. A frase é palavra de Jesus em Mateus; provavelmente não pertencia a este lugar de Lucas. Nada do ensino muda.

O capítulo termina com a pergunta dos discípulos, pou, kyrie, pelo lugar (v. 37), e com um provérbio sobre o sōma, o corpo, e os aetoi. A palavra é a da águia, mas junto ao corpo morto muitos traduzem por abutres, porque os antigos nem sempre distinguiam as aves de rapina, como diz o estudo de Mateus 24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jó já falava da ave que vai aonde estão os mortos (Jó 39.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O sentido mais provável é o da evidência e da inevitabilidade: como as aves no céu mostram a todos onde está o corpo, o juízo virá onde for devido, sem que ninguém precise indicar o lugar. A pergunta pelo onde, como a dos fariseus pelo quando, devolve o discípulo à vigilância.


✨ 4. Versículos-Chave

Lc 17.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A correção, o arrependimento e o perdão sem conta. Sem a correção, viram licença para encobrir; sem o perdão, contabilidade de ofensas.

Lc 17.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os servos sem crédito a cobrar. O versículo desmonta toda religião de mérito, e os reformadores o usaram contra a ideia de obras que sobram para crédito diante de Deus. Só se entende ao lado de Lc 12.37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 22.27: o Senhor a quem nada podemos cobrar escolhe servir os seus.

Lc 17.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O samaritano volta, glorifica a Deus e agradece aos pés de Jesus. Lucas une num só gesto a glória dada a Deus e a gratidão dirigida a Jesus, e o põe num estrangeiro: a salvação que alcança os de fora e a alegria que vira louvor.

Lc 17.20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Reino que não vem com sinais rastreáveis e que já está no meio dos que perguntam. A frase corrige os que querem calcular o Reino e os que o esperam só para depois: ele chegou em Jesus e será revelado no dia do Filho do Homem.


⛪ 5. Temas Teológicos Centrais

A responsabilidade pelos pequenos e a disciplina do perdão. A comunidade de Jesus leva a sério quem faz cair os pequenos e corrige e perdoa o irmão que peca. As duas coisas vêm juntas desde a Lei (Lv 19.17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Paulo as repete: restaurar com mansidão quem caiu (Gl 6.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e perdoar como Deus perdoou em Cristo (Ef 4.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A fé que confia e o serviço que não cobra. A fé do grão de mostarda não é força própria, e o serviço não é investimento para cobrar de Deus. Os dois desviam o olhar do discípulo para o Senhor. Se a salvação fosse salário, já não seria graça (Rm 4.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 11.6).

A gratidão que reconhece o doador. Dez foram curados, um voltou. No Evangelho do louvor, a resposta à graça é glorificar a Deus e voltar a Jesus. Para Paulo, a ingratidão está no começo do afastamento humano de Deus (Rm 1.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a vida cristã é ação de graças contínua (Cl 3.15-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Ts 5.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O Reino presente e o dia que vem. O Reino já está no meio de nós, em Jesus (v. 21), e ainda será revelado (v. 30). Entre os dois há sofrimento (v. 25), saudade (v. 22), enganadores (v. 23) e a tentação de viver como se nada fosse acontecer (vv. 26-30). A esperança cristã não é cálculo de datas nem indiferença.


✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo

6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?

Lucas 17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) está no tempo da Redenção que caminha para se consumar: Jesus sobe a Jerusalém, e o v. 25 lembra que a rejeição vem antes da glória. A Queda aparece no tropeço que destrói os pequenos, no irmão que peca sete vezes, na doença que exclui, nos que recebem e não voltam, e no mundo de Noé e de Sodoma, que vive como se Deus não existisse. A Criação está presente de modo discreto: comer, casar, plantar e construir são bens, e o erro é fazer deles o horizonte último. A Nova Criação se anuncia na carne limpa do leproso e no dia em que o Filho do Homem se revelará e todos verão quem ele é.

6.2 — Quem Ele é: o Senhor, o Mestre aos pés de quem se dá glória a Deus, o Filho do Homem rejeitado e revelado

Nos Evangelhos, não se trata de procurar Cristo nas sombras do texto, mas de vê-lo diretamente. Ao anunciar o nascimento, o anjo deu ao menino três títulos: Salvador, Cristo e Senhor (Lc 2.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Este capítulo ilumina dois deles e acrescenta outros.

O Senhor. É ao Kyrios que os apóstolos pedem fé (v. 5), e a narração o chama assim. Na antiga tradução grega do Antigo Testamento, Kyrios traduzia o nome de Deus, e é ao Senhor que se pede o que só Deus dá.

O Mestre que purifica. Na Lei, o sacerdote só podia declarar limpo quem já estava curado; a palavra de Jesus cura à distância. E o samaritano volta para glorificar a Deus caindo aos pés de Jesus. Em Lucas, o lugar de dar glória a Deus passou a ser os pés de Jesus, e o evangelista registra o gesto sem correção.

O Salvador. A última palavra ao samaritano é a da salvação (v. 19). O sōtēr anunciado em Belém salva agora um estrangeiro que voltou com fé.

O Filho do Homem. O título aparece quatro vezes no discurso (vv. 22, 24, 26, 30). É a figura de Dn 7.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que recebe um reino eterno, mas o v. 25 põe a rejeição antes da glória, e o capítulo seguinte ligará às palavras dos profetas o destino que o espera em Jerusalém (Lc 18.31-33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O Reino em pessoa. Quando os fariseus perguntam quando vem o Reino, a resposta mais provável é que ele já está no meio deles (v. 21). O Reino tem rosto.

6.3 — Como Lucas lê o Antigo Testamento neste capítulo

Os paralelos. Os listados na seção 7 mostram o que Lucas partilha com Mateus e Marcos. São próprios de Lucas os servos sem crédito, os dez leprosos, a resposta sobre o Reino, os dias de Ló e a lembrança da mulher dele. João não tem estes episódios, mas a promessa de tomar os seus para junto de si (Jo 14.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) está no fundo de uma das leituras dos vv. 34-35.

6.4 — A missão, o Reino e o que Ele pede

A missão. É necessário que o Filho do Homem sofra e seja rejeitado (v. 25), e no caminho para isso ele faz o que veio fazer: devolve à vida os excluídos e chama um estrangeiro à salvação. Nenhum leproso podia purificar-se; a palavra de Jesus os limpa de graça, e o seu caminho para a cruz é o preço de uma purificação mais funda, a dos pecados (At 10.43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Jo 1.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O Reino. Já está no meio dos homens na pessoa de Jesus, visível nos leprosos limpos e no estrangeiro que glorifica a Deus; ainda haverá dias de espera e engano até a revelação do Filho do Homem. Os Atos abrem com a mesma tensão: os tempos pertencem ao Pai, e aos discípulos cabem o Espírito e a missão até os confins da terra, passando pela Samaria (At 1.6-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O que Ele pede. Cuidar dos pequenos, perdoar sem conta, servir sem cobrar, voltar para agradecer e esperar o dia dele de mãos soltas.

6.5 — O Evangelho no capítulo

Lucas 17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) pode ser pregado a partir de um homem duas vezes excluído, pela doença e pela origem, que grita de longe, é purificado no caminho e volta. Ele não tinha nada a apresentar: nem pureza, nem pertença, nem mérito. É dele que Jesus diz que a fé o salvou. O evangelho está aí: a graça chega primeiro, de graça, aos que estão longe, e a fé é a mão vazia que a recebe e volta para agradecer.

Os servos dos vv. 7-10 completam o quadro. Ninguém tem créditos diante de Deus, nem os apóstolos. Mas o Senhor a quem nada podemos cobrar é o mesmo que sobe a Jerusalém para ser rejeitado e que, na noite da ceia, estará entre os seus como quem serve. Pregar este capítulo é levar o ouvinte a desistir de cobrar e começar a agradecer, a perdoar porque foi perdoado e a esperar sem medo o dia do Filho do Homem, porque quem virá como o relâmpago é o mesmo que parou à entrada de uma aldeia para ouvir dez leprosos.


🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)


🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico

Fazer da igreja um lugar seguro para os pequenos. O ai do v. 1 se dirige a quem faz cair os frágeis, e a forma mais terrível disso é o abuso de crianças e de pessoas vulneráveis. A comunidade que leva Jesus a sério escolhe e acompanha quem trabalha com crianças, evita situações de isolamento, ouve quem denuncia e não protege o nome de ninguém às custas de uma vítima. O abuso é crime, que deve ser comunicado às autoridades, como o Conselho Tutelar e a polícia, com a criança acolhida e protegida. Encobrir é fazer o pequeno tropeçar de novo.

Perdoar sem confundir perdão com tolerância ao abuso. Perdoar é soltar a dívida, renunciar à vingança e entregar a Deus o direito de cobrar (Rm 12.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não é negar o mal, dispensar a justiça, voltar para quem agride ou devolver a quem abusou o poder que usou para ferir. A correção do v. 3 lembra que o pecado deve ser nomeado, e o arrependimento verdadeiro se mostra em mudança. Quem sofre violência em casa, na igreja ou no trabalho pode perdoar e, ao mesmo tempo, procurar proteção, pessoas de confiança e ajuda profissional.

Servir sem cobrar. Depois de anos de serviço, é fácil sentir que Deus ou a igreja nos devem reconhecimento ou privilégios. Jesus pede que se reconheça que só se cumpriu o que cabia. Isso não desvaloriza o trabalho; liberta-o da contabilidade. E o Senhor que nada nos deve se cinge para nos servir.

Voltar para agradecer. Muitos pedem em voz alta e esquecem de voltar. O samaritano faz da gratidão um caminho de volta: reconhecer o que recebeu, dizê-lo, cair aos pés de Jesus. O Brasil ainda registra muitos casos novos de hanseníase a cada ano, e a doença tem tratamento gratuito na rede pública de saúde; a igreja que se lembra dos leprosos de Lucas pode ajudar a vencer o estigma que ainda afasta tanta gente do tratamento e do convívio.

Esperar sem calendário e sem apego. Diante de crises, há sempre quem anuncie o fim aqui ou ali, e quem viva como se ele nunca viesse. Jesus responde aos dois. Lembrar a mulher de Ló é perguntar o que, na nossa casa, ainda nos faz olhar para trás.


🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo

  1. Quem são os pequenos na sua comunidade, e o que ela faz, de fato, para protegê-los?
  2. Como a correção, o arrependimento e o perdão se relacionam nos vv. 3-4? Por que perdoar não significa tolerar o abuso ou permanecer em perigo?
  3. O que muda quando se entende a fé do grão de mostarda como confiança em Deus, e não como força própria? O que a parábola dos vv. 7-10 diz sobre o seu serviço?
  4. Dez foram purificados e só um voltou. O que significa, para Lucas, que o samaritano tenha glorificado a Deus aos pés de Jesus?
  5. Compare as leituras de entos hymōn no v. 21. Por que o contexto favorece a de que o Reino está presente em Jesus?
  6. Para meditação e oração: coloque-se com os dez, de longe, pedindo misericórdia; depois, como o samaritano, volte aos pés de Jesus e agradeça aquilo de que ele já o purificou. Peça a graça de esperar o dia dele sem medo e sem apego ao que ficou para trás.

📚 10. Para Aprofundamento

Cristocêntrica / Teologia Bíblica:

  • G. K. Beale e D. A. Carson (orgs.) — Comentário do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento (Vida Nova)
  • N. T. Wright — Jesus and the Victory of God (Fortress, 1996)
  • Anthony A. Hoekema — A Bíblia e o futuro (Cultura Cristã)

Comentários de Lucas:

  • I. Howard Marshall — The Gospel of Luke (New International Greek Testament Commentary, Eerdmans, 1978)
  • Joel B. Green — The Gospel of Luke (série de comentários NICNT, Eerdmans, 1997)
  • Darrell L. Bock — Luke, vol. 2 (Baker Exegetical Commentary on the New Testament, Baker, 1996)
  • Joseph A. Fitzmyer — The Gospel According to Luke X–XXIV (Anchor Bible, Doubleday, 1985)
  • Leon Morris — Lucas: introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)

Sobre as parábolas, o perdão e a proteção dos vulneráveis:

  • Klyne Snodgrass — Stories with Intent (Eerdmans, 2008)
  • Miroslav Volf — Exclusion and Embrace (Abingdon, 1996)
  • Diane Langberg — Redeeming Power: Understanding Authority and Abuse in the Church (Brazos, 2020)

Sabedoria para o Cotidiano
Dez gritaram por misericórdia e foram purificados no caminho, mas só um voltou, louvando a Deus, e caiu aos pés de Jesus; foi a ele que Jesus disse que a fé o tinha salvado. Proteja os pequenos e chame o mal pelo nome; perdoe sem guardar conta, sem confundir perdão com voltar ao perigo; sirva sem cobrar de Deus o que ele nunca lhe deveu. E não gaste a vida adivinhando o dia nem segurando o que terá de deixar no terraço: o Reino já chegou em Jesus, e o Filho do Homem que virá como o relâmpago é o mesmo que parou à entrada de uma aldeia para ouvir quem gritava de longe.

Ficou com alguma dúvida sobre este capítulo?

Pergunte ao Farol

Interpretação e comentários da Bíblia. Esta página não reproduz texto bíblico protegido: traz referência, interpretação e comentário.

Conteúdo criado com os recursos de inteligência artificial da plataforma, com a curadoria do Pastor Mário Levy. Ainda assim, a IA pode cometer erros — na dúvida, confira na própria Bíblia.