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Lucas · 42 de 66 · Novo Testamento

Lucas — Capítulo 19

Infográfico de “Lucas 19 — Capítulo a capítulo”, gerado automaticamente a partir do estudo publicado, com 5 partes: Um sicômoro em Jericó e a salvação que entra em casa; O nobre que parte para receber um reino; O Rei no jumentinho e o louvor que as pedras assumiriam; O pranto sobre a cidade que não reconheceu a visita; A casa de oração e o povo preso às palavras do Mestre.

Título do capítulo: O hoje da visita e as lágrimas do Rei
Gênero literário: Evangelho (narrativa do fim da viagem a Jerusalém: o encontro com Zaqueu em Jericó, próprio de Lucas; a parábola das minas, com o nobre que parte para receber um reino; a entrada em Jerusalém num jumentinho, com o louvor dos discípulos; o pranto de Jesus sobre a cidade, próprio de Lucas; o gesto no templo e o ensino diário)
Número de versículos: 48

Nota de precisão: este estudo segue a numeração das Bíblias em português. Nenhum versículo do capítulo falta nos manuscritos mais antigos, e as pequenas variantes de cópia não mudam o sentido. O estudo do capítulo 1 apresenta o livro inteiro (autoria, data, destinatários, estrutura e temas de Lucas); aqui se pressupõe essa apresentação. Pontos discutidos são tratados no lugar próprio: o tempo dos verbos de Zaqueu no v. 8, o eco da viagem de Arquelau a Roma na parábola das minas, a dureza do v. 27 e a relação entre o pranto dos vv. 41-44 e a destruição de Jerusalém em 70 d.C. As datas e os valores das moedas são aproximados.


🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural

O fim da viagem

Em Lc 9.51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Jesus firmou o rosto para ir a Jerusalém, e desde então o Evangelho é uma longa caminhada, a chamada seção central. O capítulo 19 é o ponto de chegada: Jesus atravessa Jericó, aproxima-se de Jerusalém, vê a cidade e entra no templo, onde Lucas começou o livro (Lc 1.8-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e onde o terminará (Lc 24.53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O capítulo está montado sobre um contraste: em Jericó, um homem malvisto reconhece a passagem de Jesus e o recebe em casa; em Jerusalém, a cidade não reconhece o tempo em que Deus a visitava (v. 44). Entre as duas cenas, uma parábola sobre um rei que parte e volta.

Jericó e os publicanos

A Jericó do tempo de Jesus não era a das muralhas de Josué, então um monte de ruínas, mas a cidade-jardim ao lado, com palácios de inverno construídos por Herodes, o Grande, que ali morreu, segundo Flávio Josefo, por volta de 4 a.C. Ficava na estrada que vinha do Jordão: quem chegava da Pereia, território de Herodes Antipas, entrava ali na Judeia, e muitos estudiosos supõem que houvesse na cidade um posto importante de cobrança de taxas. Dali a Jerusalém eram cerca de 25 quilômetros, numa subida de cerca de mil metros, como lembra o estudo de Mateus 20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).

Os telōnai, publicanos, cobravam taxas e pedágios, e o direito de cobrar costumava ser arrematado por contratadores, com larga margem para abusos. Tidos por colaboradores e desonestos, aparecem no Evangelho ao lado dos pecadores (Lc 5.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 15.1). Lucas tem um olhar particular para eles (Lc 3.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 5.27-32; 18.9-14). Zaqueu é architelōnēs, chefe dos publicanos, palavra que não aparece em nenhum outro lugar do Novo Testamento.

Arquelau em Roma

A parábola dos vv. 11-27 fala de um nobre que viaja a um país distante para receber um reino, enquanto uma embaixada dos seus concidadãos vai atrás dele dizer que não o querem como rei. Os ouvintes conheciam uma história assim. Josefo conta que, morto Herodes, o seu filho Arquelau foi a Roma pedir a Augusto a confirmação do testamento, e que uma delegação de judeus foi também, para pedir que não o dessem como governante. Augusto lhe deu a Judeia, a Samaria e a Idumeia, com o título de etnarca, e não de rei, como lembra o estudo de Mateus 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); o seu governo foi tão duro que Roma o depôs em 6 d.C. Josefo diz ainda que Arquelau reconstruiu o palácio real de Jericó. O eco é provável, mas a parábola não é uma alegoria de Arquelau.


📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo

Jesus está atravessando Jericó. Zaqueu, rico e chefe dos cobradores de impostos, quer descobrir quem é aquele homem, mas é baixo, e a multidão lhe tapa a vista; adianta-se correndo e trepa num sicômoro, no trecho por onde Jesus haveria de passar. Jesus para ao pé da árvore, chama-o pelo nome e explica que a parada daquele dia tem de ser na casa dele. Zaqueu desce e, cheio de alegria, leva-o para casa, enquanto quem assiste reclama que Jesus vai pousar com um pecador. Zaqueu se põe de pé e anuncia ao Senhor que metade do que possui vai para os pobres, e que quem ele lesou por extorsão receberá o quádruplo. Jesus declara que a salvação chegou naquele dia àquela casa, devolve a Zaqueu o lugar de filho de Abraão e diz para que o Filho do Homem veio: ir atrás de quem se perdeu e resgatá-lo (vv. 1-10).

Como os ouvintes contavam com o aparecimento do Reino de Deus a qualquer momento, Jesus conta uma parábola. Um nobre viaja para uma terra distante, onde será investido rei, e deixa a cada um de dez servos uma mina, para negociarem com ela até a sua volta; os da sua cidade, que o detestam, mandam atrás dele uma comitiva recusando-o como rei. De volta, ele pede contas: quem multiplicou a mina por dez recebe dez cidades; quem a multiplicou por cinco, cinco. Um terceiro devolve a mina embrulhada num lenço, alegando medo de um patrão severo; o senhor toma essas palavras como base da sentença e dá a mina ao que tem dez, porque quem fez render recebe ainda mais. Os inimigos que recusaram o seu reinado são trazidos e executados na sua presença (vv. 11-27).

Jesus segue à frente na subida. Perto de Betfagé e Betânia, manda dois discípulos buscar na aldeia em frente um jumentinho que ninguém montou, invocando, se questionados, a necessidade do Senhor. Jogam os mantos sobre o animal, põem Jesus em cima, e forram a estrada com mantos. Na descida do monte, a multidão dos discípulos louva a Deus pelos milagres que tinha visto, com a bênção do Sl 118.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) sobre o rei que chega e com palavras de paz e de glória. Alguns fariseus pedem a Jesus que os faça calar; ele responde que o silêncio deles faria as pedras gritarem (vv. 28-40).

Quando a cidade aparece diante dele, Jesus rompe em pranto. Lamenta que ela não tenha percebido, naquele dia, o que a conduziria à paz, e anuncia um tempo em que inimigos a rodearão de obras de cerco e a lançarão ao chão com os filhos que vivem nela, porque não percebeu o momento em que Deus a visitava (vv. 41-44).

No templo, Jesus põe para fora os que vendiam, lembrando a Escritura que destina a casa de Deus à oração e acusando-os de tê-la feito esconderijo de bandidos, e passa a ensinar ali todos os dias. Os chefes buscam um jeito de acabar com ele, mas não acham como, porque o povo inteiro está agarrado ao que ele diz (vv. 45-48).


🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)

Versículos 1-10 — Um sicômoro em Jericó e a salvação que entra em casa

Jesus diērcheto, estava atravessando a cidade (v. 1), sem intenção de parar. Lucas acabou de contar a cura de um cego na entrada de Jericó (Lc 18.35-43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e as duas histórias se completam: um mendigo que não vê e um rico que não consegue ver. A riqueza de Zaqueu (v. 2) o liga ao capítulo anterior, em que um chefe rico foi embora triste e Jesus disse que é difícil aos ricos entrar no Reino, mas que o impossível para os homens é possível para Deus (Lc 18.18-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Zaqueu é esse impossível acontecendo.

Ele ezētei idein, procurava ver quem era Jesus (v. 3). O sicômoro, sykomorea (v. 4), é uma espécie de figueira de tronco curto e galhos baixos e largos, comum nas terras baixas e quentes de Israel (1Rs 10.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Am 7.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), fácil de subir. Muitos estudiosos lembram que, naquele mundo, um homem rico não corria em público nem subia em árvores; Zaqueu aceita ser ridículo para ver.

O v. 5 inverte a cena: quem procurava é encontrado. Jesus anablepsas, olha para cima, e chama Zaqueu pelo nome antes que ele diga uma palavra. O motivo da pressa vem com duas palavras de peso em Lucas. Sēmeron, hoje, é o hoje do anúncio aos pastores (Lc 2.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), da sinagoga de Nazaré (Lc 4.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e do malfeitor na cruz (Lc 23.43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o tempo em que a salvação deixa de ser promessa. Dei, é necessário, é o verbo com que o menino falou da casa do Pai (Lc 2.49 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e com que Jesus anunciou que o Filho do Homem precisava sofrer (Lc 9.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 24.26). Pousar na casa de Zaqueu entra na mesma necessidade divina da cruz. Zaqueu o recebe chairōn, alegrando-se (v. 6), a alegria que no capítulo 15 era de quem achava e aqui é do próprio achado.

No v. 7, pantes, todos, diegongyzon, murmuravam, o verbo dos fariseus e escribas diante de Jesus à mesa com publicanos (Lc 5.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 15.2). A queixa usa katalysai, hospedar-se, da família de katalyma, a sala de hóspedes que não teve lugar para Maria (Lc 2.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): o Filho que nasceu sem lugar na sala de hóspedes escolhe pousar na casa de um pecador, e, para quem olhava, isso era aprovar a extorsão.

Zaqueu responde de pé, statheis, e chama Jesus de kyrie, Senhor (v. 8). Metade dos bens vai para os ptōchoi, os pobres a quem Jesus foi ungido para anunciar a boa notícia (Lc 4.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E, se esykophantēsa, se extorquiu alguém, o verbo que João Batista usou com os soldados (Lc 3.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), devolverá o quádruplo. A medida chama a atenção. A Lei mandava quem confessava um dano restituir o valor com um quinto a mais (Lv 6.1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Nm 5.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); quatro vezes era a pena do ladrão de ovelha (Êx 22.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a que Davi decretou diante da parábola de Natã sem saber que falava de si (2Sm 12.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Zaqueu se aplica a pena mais dura.

Os verbos estão no presente, e o sentido é discutido. A leitura tradicional entende uma decisão tomada ali, a história de uma conversão. Alguns estudiosos, entre eles Joseph Fitzmyer, propõem um presente de costume: Zaqueu se defenderia da murmuração dizendo o que já fazia. A maioria prefere a primeira leitura, porque o v. 10 fala de alguém perdido e achado. Em qualquer caso, a generosidade não compra a salvação, porque Jesus pediu pouso antes de qualquer promessa; e não há regra fixa: ao chefe rico Jesus pediu tudo (Lc 18.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Zaqueu dá metade e repara os danos. Em Lucas, a conversão sempre mexe no dinheiro, mas não do mesmo modo em todos.

No v. 9, a sōtēria, a salvação, entra hoje no oikos, a casa inteira, como acontecerá em Atos com Cornélio e o carcereiro (At 11.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 16.31-34). E Zaqueu é huios Abraam, filho de Abraão, como a mulher encurvada é filha de Abraão (Lc 13.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): Lucas usa essa linguagem para quem a comunidade empurrara para fora. Zaqueu recebe de volta o lugar que a murmuração lhe negava no povo da promessa.

O v. 10 é, para muitos, o resumo do Evangelho de Lucas. O Huios tou anthrōpou, o Filho do Homem, ēlthen, veio, com dois verbos, zētēsai, procurar, e sōsai, salvar, e o objeto é to apolōlos, o que está perdido, a palavra da ovelha, da moeda e do filho do capítulo 15. Zaqueu procurava ver Jesus, mas quem procurava de verdade era Jesus. O eco é de Ez 34.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em que Deus, contra os pastores que exploravam o rebanho, promete ir ele mesmo atrás da ovelha perdida.

Versículos 11-27 — O nobre que parte para receber um reino

O v. 11 dá o motivo da parábola: os ouvintes achavam que o Reino de Deus ia aparecer parachrēma, imediatamente. A correção atravessa os dois livros de Lucas: depois da ressurreição, os discípulos ainda perguntarão se é agora que o reino será restaurado a Israel, e Jesus lhes falará do Espírito e do testemunho até os confins da terra (At 1.6-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O protagonista é um anthrōpos eugenēs, homem de nascimento nobre, que vai a uma chōra makra, terra distante, receber um reino kai hypostrepsai, e voltar (v. 12). Entre a investidura e o exercício há um tempo de ausência. Para o leitor de Lucas, é a imagem do Filho do Homem que, levado ao céu, recebe do Pai o domínio (Lc 22.69 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 2.33-36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); cf. Dn 7.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e voltará (At 1.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). N. T. Wright a lê, antes de tudo, como anúncio da volta de Deus a Sião na chegada de Jesus a Jerusalém; a maioria vê também o tempo entre a ascensão e a vinda.

O nobre dá a cada um de deka doulous, dez servos, uma mna, mina (v. 13), que valia cerca de cem denários, perto de cem dias de trabalho: quantia séria, mas pequena diante dos talentos de Mateus, cada um equivalente a sessenta minas. A ordem é pragmateusasthe, façam negócio. Em Mt 25.14-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), três servos recebem quantias diferentes, e não há reino nem cidadãos rebeldes; muitos falam de duas parábolas aparentadas, e o estudo de Mateus 25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) trata dos talentos.

Próprio de Lucas é o segundo enredo (v. 14): os politai, cidadãos, odiavam o nobre e mandam atrás dele uma presbeia, embaixada, recusando-o como rei. É aqui que os ouvintes lembrariam Arquelau. A parábola costura duas histórias: a dos servos, que fala aos discípulos, e a dos cidadãos, que fala a quem não quer que Jesus reine.

Na volta, o primeiro servo diz que a mina do senhor rendeu dez (v. 16), frase que dá o mérito ao dinheiro do patrão. É chamado agathe doule, servo bom, e, por ter sido pistos, confiável, en elachistō, no mínimo, recebe exousia, autoridade, sobre dez cidades (v. 17), como Jesus já ensinara sobre a fidelidade no pouco (Lc 16.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A recompensa não é descanso, mas responsabilidade num reino. O segundo recebe cinco cidades, sem a palavra de elogio (vv. 18-19).

O terceiro, chamado apenas ho heteros, o outro, devolve a mina guardada en soudariō, num lenço (v. 20). Vários estudiosos lembram que, segundo tradições rabínicas posteriores, enterrar o dinheiro recebido em depósito era a guarda segura, e amarrá-lo num pano, descuido. A justificativa é o medo (v. 21): achava o senhor austēros, rígido, áspero, e o descreve como explorador. O senhor não aceita o retrato, mas o usa contra o servo (vv. 22-23): se pensava assim, por que não pôs o dinheiro na trapeza, a mesa dos banqueiros, para render tokos, juros? Quem teme um patrão exigente trabalha mais, não menos. O servo não roubou nem perdeu; apenas não fez nada com o que lhe foi confiado.

A mina passa ao que tem dez, e os presentes protestam (vv. 24-25), detalhe só de Lucas que dá voz ao estranhamento do leitor. O princípio do v. 26 já fora dito sobre o modo de ouvir a palavra (Lc 8.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): o dom usado cresce, o dom guardado se perde. Não é lei econômica nem bênção à concentração de riqueza, num Evangelho que declara felizes os pobres e ameaça os ricos (Lc 6.20, 24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O v. 27 é o mais duro do capítulo: o rei manda trazer os echthroi, inimigos, e executá-los diante dele. A leitura honesta não suaviza a frase nem a usa como arma. A parábola tira os seus traços do mundo dos reis antigos, que os ouvintes de Arquelau conheciam, e Jesus usa personagens moralmente ambíguos, como o administrador desonesto e o juiz injusto (Lc 16.1-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 18.1-8), sem que sejam retratos de Deus em cada traço. A frase diz, em imagem, a gravidade de recusar o reinado do Messias, e o Novo Testamento fala de um juízo real (At 17.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas Lucas põe logo depois o Rei chorando sobre a cidade que não o recebe (vv. 41-44), e, mais adiante, crucificado, pedindo perdão pelos que o crucificavam (Lc 23.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Jesus de Lucas não deseja a morte dos seus inimigos; avisa, chora e intercede. E nenhum cristão está autorizado a fazer desse versículo licença para violência em nome de Cristo.

E a mina? Lucas não diz: pode ser a palavra do Reino (Lc 8.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), os dons de cada um, ou o encargo igual que o Senhor deixa a todos para o tempo da ausência.

Versículos 28-40 — O Rei no jumentinho e o louvor que as pedras assumiriam

O v. 28 fecha a viagem iniciada em Lc 9.51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): Jesus caminha emprosthen, à frente, anabainōn, subindo para Jerusalém. Perto de Betfagé e Betânia, manda buscar um pōlos, um jumentinho, amarrado e nunca montado (vv. 29-30). Como explica o estudo de Marcos 11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o animal nunca montado convinha a um uso sagrado (Nm 19.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o jumento amarrado lembra o rei de Judá da bênção de Jacó (Gn 49.10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Lucas tem um pormenor próprio (v. 33): quem pergunta são hoi kyrioi autou, os donos do animal, no plural, e a resposta é a necessidade do kyrios, o Senhor (v. 34). Diante do Senhor, os senhores cedem.

Os discípulos lançam os mantos sobre o animal e epebibasan, fazem Jesus montar (v. 35). Alguns comentaristas notam que é o verbo da antiga tradução grega quando Davi manda pôr Salomão sobre a sua mula para ser ungido rei (1Rs 1.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os mantos no caminho (v. 36) são homenagem a um rei, como na aclamação de Jeú (2Rs 9.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Lucas não fala de ramos e não traz o hosana, palavra hebraica que talvez nada dissesse aos seus leitores de língua grega. Nem cita Zc 9.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), como Mateus e João (Mt 21.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 12.14-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas o leitor reconhece o rei pobre do profeta, que fala de paz às nações (Zc 9.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

No v. 37, já na katabasis, a descida do monte, quem louva não é a multidão em geral, mas hapan to plēthos tōn mathētōn, toda a multidão dos discípulos, homens e mulheres que o seguiam desde a Galileia (Lc 8.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 23.49). Louvam chairontes, alegres, peri pasōn hōn eidon dynameōn, por todos os milagres que tinham visto, como o louvor dos pastores (Lc 2.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O conteúdo vem do Sl 118.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), a bênção dos sacerdotes sobre o peregrino que chega trazendo o nome do Senhor, como explica o estudo desse salmo. Lucas acrescenta ao salmo uma palavra decisiva: ho basileus, o rei (v. 38), aquele que o anjo prometera a Maria, no trono de Davi para sempre (Lc 1.32-33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o louvor termina com paz en ouranō, no céu, e glória en hypsistois, nos lugares mais altos. O leitor de Lucas ouve o canto dos anjos em Belém, que ligava a glória de Deus, lá em cima, à paz que descia sobre os homens do seu agrado, cá embaixo (Lc 2.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Agora a paz está no céu. Muitos intérpretes veem aí uma nota triste: a terra, na figura de Jerusalém, vai recusar a paz que chega montada num jumentinho (v. 42), e ela ficará guardada no alto até ser anunciada depois da cruz (At 10.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Os vv. 39-40 são só de Lucas. Alguns fariseus pedem a Jesus que repreenda os seus discípulos. O motivo não é dito: escândalo, ou medo, porque galileus proclamando um rei às vésperas da Páscoa eram convite à repressão romana. Lucas mostrou fariseus que convidavam Jesus à mesa (Lc 7.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 14.1) e que o avisaram do perigo (Lc 13.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); estes não precisam ser inimigos. Jesus responde que, caso os discípulos ficassem em silêncio, quem gritaria seriam hoi lithoi, as pedras. A imagem lembra Hab 2.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), a pedra do muro que clama contra quem constrói com injustiça; aqui o grito é de louvor, tão devido que a criação o assumiria. E há uma ironia que o leitor percebe logo depois: as pedras de Jerusalém vão gritar de outro modo, derrubadas (v. 44).

Versículos 41-44 — O pranto sobre a cidade que não reconheceu a visita

Só Lucas conserva este trecho. Jesus chega perto, vê a cidade e eklausen ep' autēn, chorou sobre ela (v. 41). É o verbo do pranto alto, do lamento, e não o das lágrimas silenciosas junto ao túmulo de Lázaro (Jo 11.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O lamento começa com uma frase interrompida, como acontece com quem chora (v. 42): se ao menos ela tivesse reconhecido, naquele dia, ta pros eirēnēn, o que leva à paz. O nome de Jerusalém era associado à paz, shalom, e Salém, o nome antigo, era entendido como paz (Hb 7.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): a cidade da paz não reconheceu o caminho da paz quando ele passou à sua porta, e agora ele ekrybē, foi escondido, dos seus olhos.

Os vv. 43-44 anunciam o que virá, na linguagem dos profetas que descreveram o cerco babilônico (Is 29.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 6.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ez 4.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): um charax, estacada ou aterro de cerco, o aperto de todos os lados, a cidade lançada ao chão com os seus tekna, os filhos que estão dentro dela, sem uma pedra no lugar. A razão: ela não reconheceu o kairos tēs episkopēs, o tempo da sua visita. Episkopē é palavra carregada em Lucas. Zacarias bendisse a Deus porque ele viera em socorro do seu povo (Lc 1.68, 78 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); em Naim, o povo reconheceu ali a visita de Deus (Lc 7.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); e Tiago dirá que Deus visitou também os gentios (At 15.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A visita é Jesus. Jericó a reconheceu na casa de Zaqueu; Jerusalém, na figura dos que a governavam, não.

Quarenta anos depois, em 70 d.C., os exércitos de Tito cercaram e tomaram Jerusalém. Josefo conta que Tito mandou cercar a cidade com um muro e que o templo foi incendiado. Muitos estudiosos pensam que Lucas escreveu depois disso e que a lembrança dos fatos deu cor ao texto; outros, desde um estudo de C. H. Dodd publicado em 1947, mostram que toda a linguagem do oráculo vem dos profetas que descreveram a primeira queda de Jerusalém, sem nada que exija conhecimento do ano 70. Lucas voltará ao anúncio (Lc 21.20-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 23.28-31).

Uma palavra é necessária, e com firmeza. Este é um lamento, não uma maldição. Jesus não deseja a destruição da cidade; chora porque ela vai acontecer, e chora pelos filhos que nada decidiram e tudo sofrerão, como Jeremias queria ter os olhos como fonte de lágrimas pela filha do seu povo (Jr 9.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Durante séculos, cristãos leram a queda de Jerusalém como castigo de Deus sobre os judeus por terem rejeitado Cristo, e fizeram disso motivo de desprezo e perseguição. Essa leitura contradiz o texto: quem fala aqui é um judeu chorando pela cidade do seu povo, e a violência que ele anuncia é a de um exército, não a sua. Até hoje o povo judeu chora a destruição dos templos num dia de jejum, o 9 de Av; o cristão que leu Lucas 19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) tem motivo para chorar junto, não para apontar o dedo.

Versículos 45-48 — A casa de oração e o povo preso às palavras do Mestre

Lucas conta o gesto no templo em duas frases (vv. 45-46): Jesus expulsa os que vendiam, sem as mesas, os cambistas e as pombas de Marcos e Mateus (Mc 11.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 21.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Como em Mateus, a cena vem no dia da entrada; Marcos a põe no dia seguinte, e João no começo do ministério (Jo 2.13-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), como explicam os estudos de Mateus 21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Marcos 11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). A palavra que a explica junta Is 56.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), a casa destinada a ser oikos proseuchēs, casa de oração, sem o complemento para todos os povos, que só Marcos conserva, e Jr 7.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o spēlaion lēstōn, esconderijo de bandidos. Como mostra o estudo de Jeremias 7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), a caverna é o refúgio do bandido depois do roubo: um culto que abriga a injustiça praticada fora. Por que Lucas omite o para todos os povos, não se sabe; em Lucas e Atos, a abertura aos povos acontece pela pregação a partir de Jerusalém (Lc 24.47 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 1.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O que Lucas mais sublinha não é o gesto, mas o que vem depois (v. 47): Jesus ēn didaskōn to kath' hēmeran, ensinava cada dia no templo. O templo purificado vira sala de aula. O menino de doze anos estivera ali entre os mestres e chamara aquela casa de casa do seu Pai (Lc 2.46-49 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e, em Atos, os apóstolos continuarão a orar e ensinar ali (At 2.46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 3.1; 5.42).

Os archiereis, chefes dos sacerdotes, os grammateis, escribas, e os prōtoi tou laou, líderes do povo, procuram um modo de destruí-lo. Mas ho laos hapas, o povo inteiro, exekremato autou akouōn, ficava pendurado nele, ouvindo-o, verbo de algo suspenso, preso a um fio. Lucas não deixa o leitor confundir os que tramam com os que escutam, e laos, nesta parte do Evangelho, é o povo que está do lado de Jesus até a hora da Paixão (Lc 20.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 21.38; 22.2).


✨ 4. Versículos-Chave

Lc 19.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus para debaixo do sicômoro, chama Zaqueu pelo nome e anuncia que a parada daquele dia tem de ser na casa dele. O versículo junta o sēmeron da salvação presente e o dei da necessidade divina, a mesma que levará Jesus à cruz. Zaqueu não muda para ser visitado; muda porque foi visitado.

Lc 19.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A razão da vinda do Filho do Homem: ir atrás de quem se perdeu e trazê-lo à salvação. Muitos o consideram o resumo do Evangelho de Lucas. Retoma Ez 34.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e as parábolas do capítulo 15.

Lc 19.38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O louvor dos discípulos acrescenta ao Sl 118.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) o título de rei e põe a paz no céu. O versículo liga a entrada em Jerusalém ao nascimento em Belém (Lc 2.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e anuncia, em tom contido, que a terra não receberá a paz que o Rei traz.

Lc 19.41-44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Rei chora sobre a cidade. O pranto, próprio de Lucas, mostra o coração de Deus diante da recusa: não indiferença nem vingança, mas dor.


⛪ 5. Temas Teológicos Centrais

A visita de Deus, acolhida e perdida. O capítulo gira em torno de uma visita. Em Jericó, Jesus pede pouso, e a salvação entra numa casa; em Jerusalém, a cidade não reconhece o tempo da visita. Deus vem em socorro do seu povo, como Zacarias anunciara (Lc 1.68 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em pessoa, montado num jumentinho, à mesa de um publicano; a visita é graça e hora de decisão.

O Senhor que procura. Zaqueu procura ver Jesus, mas o movimento decisivo é de Jesus: ele para, olha para cima, chama pelo nome. Desde o capítulo 15, a salvação em Lucas tem essa forma: Deus não espera que o perdido ache sozinho o caminho de volta.

A conversão que mexe no dinheiro. Em Lucas, a riqueza é rival de Deus (Lc 16.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a salvação de um rico aparece no uso do que ele tem: metade para os pobres, restituição para os prejudicados.

O Reino que não aparece de imediato. Entre a partida do nobre e a sua volta há um tempo de trabalho fiel e de oposição. Atos é a história dos servos negociando com a mina do Senhor enquanto ele reina do céu.


✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo

6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?

Lucas 19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) está no portal da Redenção consumada. A viagem que começou em Lc 9.51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) termina às portas de Jerusalém, onde se cumprirá o exodos de que Moisés e Elias falaram no monte (Lc 9.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Queda está à vista na extorsão, na murmuração, no servo que esconde o que é do seu senhor, nos cidadãos que não querem o rei e no culto que virou esconderijo. A promessa de que em Abraão seriam abençoadas todas as famílias da terra (Gn 12.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 3.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) alcança um filho de Abraão perdido em Jericó. E a Nova Criação desponta no louvor que a criação assumiria se os homens calassem, e na paz guardada no céu, que encherá a terra quando a cidade santa descer de Deus (Ap 21.2-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

6.2 — Quem Ele é: o Filho do Homem que procura, o Senhor, o Rei, a visita de Deus

Nos Evangelhos, não se trata de procurar Cristo nas sombras do texto, mas de vê-lo diretamente.

O Filho do Homem que procura e salva. O título une a figura de Daniel, a quem é dado o domínio (Dn 7.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), à do pastor de Ezequiel que vai atrás da ovelha (Ez 34.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O verbo salvar faz ouvir o primeiro título que os anjos lhe deram, sōtēr, Salvador (Lc 2.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O Senhor. Zaqueu o chama de Senhor (v. 8), e os donos do jumentinho cedem diante da necessidade do Senhor (vv. 33-34). É o kyrios do anúncio de Belém, Cristo e Senhor (Lc 2.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o nome que, em Atos, Pedro dirá que Deus lhe deu ao ressuscitá-lo (At 2.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O Rei. Só Lucas acrescenta a palavra rei ao Sl 118.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (v. 38) e conta a parábola do nobre que vai receber um reino. O anjo prometera a Maria o trono de Davi e um reino sem fim (Lc 1.32-33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas o trono, em Lucas, será a cruz com a inscrição que o chama rei dos judeus (Lc 23.38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o reino será recebido do Pai depois da partida (Lc 22.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 24.26).

O profeta que chora e a visita de Deus. Jesus chora sobre Jerusalém e anuncia o seu cerco como os profetas; é o profeta ungido pelo Espírito do sermão de Nazaré (Lc 4.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas a sua chegada é a episkopē, a visita do próprio Deus.

Os paralelos. A entrada em Jerusalém está nos quatro Evangelhos (Mt 21.1-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 11.1-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 12.12-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o gesto no templo nos três sinóticos (Mt 21.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 11.15-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e em João (Jo 2.13-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A parábola das minas é aparentada com a dos talentos (Mt 25.14-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). São só de Lucas: Zaqueu, o nobre e os cidadãos rebeldes, os donos do jumentinho, o louvor da multidão dos discípulos com a paz no céu, as pedras que gritariam, o pranto sobre a cidade e o povo pendurado nas palavras de Jesus.

6.3 — Como Lucas lê o Antigo Testamento neste capítulo

6.4 — A missão, o Reino e o que Ele pede

A missão. Em Jericó, Jesus procura e salva um perdido, e o dei do v. 5 é o mesmo do caminho da cruz. Em Jerusalém, entra como rei para ser rejeitado, como anunciara pouco antes (Lc 18.31-33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O Reino. O Reino chega a uma casa de Jericó no dia em que Jesus entra nela. Mas não aparece de uma vez: o Rei parte para recebê-lo e voltará, e no intervalo os servos trabalham e os inimigos se opõem.

Sem antijudaísmo. A parábola dos cidadãos que não queriam o rei, o pranto sobre Jerusalém e o gesto no templo foram lidos durante séculos como sinal de que Deus rejeitou e castigou o povo judeu, e essa leitura alimentou desprezo, violência e perseguição, muitas vezes por mãos que se diziam cristãs. Ela deve ser recusada com clareza. Jesus, os discípulos que o aclamam, o publicano filho de Abraão e o povo que se agarra às suas palavras no templo são judeus; os que tramam são os chefes de um tempo e de um lugar, que Lucas distingue do povo (vv. 47-48). O choro de Jesus é lamento, não maldição, e a destruição de 70 d.C. foi obra de um exército pagão, não vingança de Cristo. A Igreja Católica, na declaração Nostra Aetate, do Concílio Vaticano II, em 1965, afirmou que os judeus não devem ser apresentados como rejeitados ou amaldiçoados por Deus, e muitas igrejas protestantes fizeram declarações semelhantes; Paulo já afirmava que Deus não rejeitou o povo que escolheu (Rm 11.1-2, 28-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Lido assim, o capítulo não acusa um povo: adverte todo aquele que pode deixar passar a visita de Deus, a começar pela igreja.

O que Ele pede dos discípulos. Recebê-lo em casa com alegria, deixar que a salvação mexa no bolso, fazer render sem medo o que ele confiou, louvar em voz alta pelo que se viu dele e chorar, como ele, pela cidade que não conhece a paz.

6.5 — O Evangelho no capítulo

O Evangelho de Lucas 19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) cabe numa cena: um homem pequeno, rico e desprezado, empoleirado numa árvore para ver passar alguém de quem ouvira falar, e esse alguém parando debaixo da árvore, olhando para cima e chamando-o pelo nome. Todos murmuraram, mas a salvação entrou naquela casa, e o publicano descobriu que era filho de Abraão. Pregar este capítulo é anunciar que o Filho do Homem continua indo atrás dos que todos dão por perdidos, que a graça chega antes da mudança e a produz, e que essa visita pode ser recebida com alegria ou deixada passar. O mesmo Rei que pousou em Jericó chorou sobre Jerusalém, e as suas lágrimas dizem o que a cruz dirá depois: Deus não se alegra com a perdição de ninguém, e foi até o fim para buscar quem estava longe.


🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)

Na tradição da Igreja, a entrada em Jerusalém tornou-se o Domingo de Ramos, e no monte das Oliveiras uma pequena igreja chamada Dominus Flevit, o Senhor chorou, lembra o lugar onde, segundo a tradição, Jesus chorou sobre a cidade.


🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico

Ninguém está longe demais para ser chamado pelo nome. Zaqueu era culpado de verdade, e o texto não esconde isso; mesmo assim, Jesus parou debaixo da árvore dele. Há quem se ache longe demais para Deus, e igrejas que já decidiram, sem dizer, quem não merece visita. E quem murmura contra essa graça ocupa o lugar da multidão de Jericó.

Arrependimento que repara. Zaqueu não se limitou a sentir-se perdoado; devolveu o que tinha tirado. Quando houve prejuízo a alguém, a fé pede reparação, sempre que possível, e generosidade com os pobres. E onde a cobrança injusta e o salário retido são normais, Zaqueu é modelo e acusação.

Trabalhar com o que o Senhor confiou, sem medo. O servo da mina guardada no lenço era alguém paralisado por uma imagem errada do seu senhor. Muitos cristãos guardam a fé num lenço, com medo de errar. O Senhor que confiou a mina é o mesmo que parou para Zaqueu e chorou sobre Jerusalém; conhecê-lo de verdade liberta para arriscar no serviço.

Chorar pela cidade. Jesus chorou por Jerusalém às vésperas de ser rejeitado por ela. Quem olha para a própria cidade, com a violência, a pobreza e a indiferença a Deus, é chamado a interceder e lamentar antes de condenar. Quem só aponta o juízo sem chorar ainda não aprendeu com o Rei.


🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo

  1. Compare Zaqueu com o chefe rico de Lc 18.18-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O que a história de Zaqueu mostra sobre o impossível que Deus torna possível?
  2. Jesus anuncia que a parada daquele dia tem de ser na casa de Zaqueu (v. 5). O que as palavras sēmeron, hoje, e dei, é necessário, revelam sobre a missão dele em Lucas?
  3. Por que o terceiro servo da parábola é censurado, se não perdeu nada? Que imagem de Deus pode paralisar um cristão hoje?
  4. Lucas acrescenta a palavra rei ao Sl 118.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e põe a paz no céu (v. 38). Que relação há entre esse louvor, o canto dos anjos em Lc 2.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e o pranto dos vv. 41-44?
  5. Por que é um erro ler o pranto sobre Jerusalém e a destruição de 70 d.C. como castigo do povo judeu? O que o choro de Jesus ensina sobre o modo de falar do juízo?
  6. Para meditação e oração: suba, com Zaqueu, à árvore de onde você tenta ver Jesus, e ouça-o chamar o seu nome. O que precisa ser partilhado ou reparado para que a alegria daquela casa seja também a da sua?

📚 10. Para Aprofundamento

Cristocêntrica / Teologia Bíblica:

  • N. T. Wright — Jesus and the Victory of God (Fortress, 1996)
  • G. K. Beale e D. A. Carson (orgs.) — Comentário do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento (Vida Nova), na parte sobre Lucas (de David W. Pao e Eckhard J. Schnabel)

Comentários de Lucas:

  • Joel B. Green — The Gospel of Luke (NICNT, Eerdmans, 1997)
  • Darrell L. Bock — Luke 9.51–24.53 (Baker Exegetical Commentary on the New Testament, Baker, 1996)
  • Joseph A. Fitzmyer — The Gospel According to Luke X–XXIV (Anchor Bible, Doubleday, 1985)
  • Leon Morris — Lucas: introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)

Sobre as parábolas, a história e o contexto judaico:

  • Klyne R. Snodgrass — Stories with Intent (Eerdmans, 2008), sobre as parábolas
  • Flávio Josefo — Antiguidades Judaicas, livro 17, e Guerra dos Judeus, livro 5
  • C. H. Dodd — "The Fall of Jerusalem and the 'Abomination of Desolation'", Journal of Roman Studies 37 (1947)
  • Concílio Vaticano II — declaração Nostra Aetate (1965), n. 4

Sabedoria para o Cotidiano
Zaqueu subiu numa árvore para ver Jesus passar, e foi Jesus quem parou, olhou para cima e o chamou pelo nome: a graça chegou antes da mudança, e a mudança veio com alegria, até o bolso. O mesmo Senhor confiou aos seus uma mina para fazer render enquanto ele não volta, e não quer que o medo a esconda num lenço. Receba-o hoje na sua casa, repare o mal que fez, trabalhe com o que ele deu, louve em voz alta pelo que já viu dele. E, quando olhar para a sua cidade, aprenda com o Rei que chorou sobre Jerusalém: não deixe passar o tempo da visita de Deus, e chore antes de julgar.

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