Lucas · 42 de 66 · Novo Testamento
Lucas — Bloco 9: Rumo a Jerusalém (IV): O Reino que Vem e os que o Recebem
Capítulos principais: Lucas 17:11–19:27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
Tema central do bloco: este é o último trecho da viagem antes da entrada em Jerusalém. Lucas lembra o leitor de que Jesus continua a caminho da cidade (17:11; 18:31; 19:11). À medida que a chegada se aproxima, as perguntas sobre o Reino se tornam mais urgentes. Os fariseus querem saber quando ele virá (17:20). Os discípulos precisam aprender como esperar sua plenitude. A multidão pensa que ele vai se manifestar imediatamente (19:11). O bloco responde a três perguntas.
- Quando e como vem o Reino? Ele já está presente no meio do povo, na pessoa de Jesus (17:21). Sua plenitude, porém, virá com a volta do Filho do Homem, de forma repentina, como nos dias de Noé e de Ló (17:22-37). Antes disso, o Filho do Homem precisa sofrer (17:25; 18:31-33). Entre a partida e a volta do Rei há um tempo de espera, que deve ser vivido com fidelidade, como mostra a parábola das minas (19:11-27).
- Como esperar? Orando sem desanimar, como a viúva que insiste com o juiz (18:1-8), e conservando a fé até a vinda do Filho do Homem (18:8).
- Quem recebe o Reino? Esta é a pergunta que mais ocupa o bloco, e as respostas surpreendem. O Reino é recebido:
- pelo samaritano que volta para agradecer, e não pelos nove que seguem adiante (17:11-19);
- pelo publicano que bate no peito, e não pelo fariseu que se compara aos outros (18:9-14);
- pelas crianças, e não pelos adultos autossuficientes (18:15-17);
- pelo cego que grita à beira do caminho, e não pelos discípulos que não entendem o anúncio da cruz (18:31-43);
- e, sobretudo, por Zaqueu, chefe dos publicanos e homem rico (19:1-10).
O chefe rico (18:18-30) ilustra que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino. Logo depois, Zaqueu mostra que o que é impossível para os homens é possível para Deus. O bloco atinge seu ponto alto na casa de Zaqueu, onde Jesus declara que hoje a salvação entrou naquela casa e resume toda a sua missão: o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido (19:10).
Versículos-chave do Livro estudado:
- Lucas 17:11-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Dez leprosos são purificados, mas só um, um samaritano, volta para agradecer, e ouve que sua fé o salvou.
- Lucas 17:20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Reino não vem de forma observável, porque já está no meio dos ouvintes.
- Lucas 17:22-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A vinda do Filho do Homem será como o relâmpago, mas antes ele precisa sofrer e ser rejeitado.
- Lucas 17:26-37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os dias de Noé e de Ló, a lembrança da mulher de Ló e a separação repentina.
- Lucas 18:1-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A parábola da viúva persistente e do juiz injusto, sobre orar sempre sem desanimar.
- Lucas 18:9-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O fariseu e o publicano no templo; o publicano volta para casa justificado.
- Lucas 18:15-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus acolhe as crianças e ensina a receber o Reino como uma criança.
- Lucas 18:18-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O chefe rico, a dificuldade dos ricos em entrar no Reino e o que é possível para Deus.
- Lucas 18:31-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O terceiro e mais detalhado anúncio da paixão, que os discípulos não compreendem.
- Lucas 18:35-43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O cego de Jericó clama ao Filho de Davi, recebe a visão e segue Jesus glorificando a Deus.
- Lucas 19:1-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Zaqueu recebe Jesus em casa, reparte seus bens, e a salvação entra em sua casa.
- Lucas 19:11-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A parábola das minas, sobre o tempo entre a partida e a volta do rei.
Versículos relacionados em outros Livros da Bíblia:
- Levítico 13:45-46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 14:1-32 — A exclusão do leproso e o rito de purificação diante do sacerdote.
- 2 Reis 5:14-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Naamã, o estrangeiro, volta a Eliseu para reconhecer o Deus de Israel depois de ser curado.
- Salmo 50:14-15, 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Oferecer a Deus ação de graças é o sacrifício que o honra.
- 1 Tessalonicenses 5:18 e Colossenses 3:15-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A gratidão em todas as circunstâncias.
- Romanos 14:17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O reino de Deus é justiça, paz e alegria no Espírito Santo.
- Mateus 24:23-28, 37-41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os ditos paralelos sobre a vinda do Filho do Homem e os dias de Noé.
- Gênesis 6:5-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 7:21-23 — A corrupção da humanidade e o dilúvio.
- Gênesis 19:15-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A fuga de Sodoma e a mulher de Ló, que olha para trás.
- 2 Pedro 2:5-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 3:3-10 — Noé e Ló como exemplos, e a paciência de Deus antes do dia do Senhor.
- 1 Tessalonicenses 5:1-6 — O dia do Senhor virá como ladrão à noite.
- Êxodo 22:22-24 e Deuteronômio 10:17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus defende a causa da viúva e do órfão.
- Apocalipse 6:9-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — As almas que clamam por justiça e ouvem que devem esperar um pouco mais.
- Romanos 12:12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 1 Tessalonicenses 5:17 — Perseverar na oração e orar sem cessar.
- Salmo 51:17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Isaías 57:15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus não despreza o coração quebrantado e habita com o contrito.
- Romanos 3:21-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 4:5 — A justificação pela fé, sem as obras da Lei.
- Romanos 3:25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Hebreus 9:5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Cristo como propiciação e o propiciatório da arca, ligados ao verbo da oração do publicano.
- Tiago 4:6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus resiste aos soberbos e dá graça aos humildes.
- Mateus 18:3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Quem não se tornar como criança não entrará no Reino.
- Marcos 10:13-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Mateus 19:13-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os relatos paralelos das crianças e do homem rico.
- Êxodo 20:12-16 — Os mandamentos citados por Jesus ao chefe rico.
- 1 Timóteo 6:17-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A orientação aos ricos para serem generosos e acumularem tesouro para o futuro.
- Gênesis 18:14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Jeremias 32:17, 27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Nada é difícil demais para o Senhor.
- Marcos 10:32-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O anúncio paralelo da paixão.
- Isaías 50:6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Isaías 53:3-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Servo entregue, escarnecido, cuspido e ferido.
- Marcos 10:46-52 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O relato paralelo do cego Bartimeu.
- Isaías 35:5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Isaías 42:7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A promessa de abrir os olhos dos cegos.
- 2 Samuel 7:12-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A promessa do descendente de Davi, base do título Filho de Davi.
- Êxodo 22:1; Levítico 6:1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Números 5:6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — As leis de restituição pelo roubo e pela fraude.
- Ezequiel 34:11-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus procura a ovelha perdida, texto por trás de Lucas 19:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Mateus 25:14-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A parábola paralela dos talentos.
- Daniel 7:13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Filho do Homem que vai até o Ancião de Dias para receber o reino.
- Atos 1:9-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A ascensão de Jesus e a promessa de sua volta.
- 1 Coríntios 4:2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 2 Coríntios 5:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A fidelidade exigida dos administradores e a prestação de contas diante de Cristo.
Explicação teológica e bíblica:
O samaritano agradecido (17:11-19)
Lucas lembra que Jesus continua a caminho de Jerusalém, passando pela região entre Samaria e a Galileia (17:11). Ao entrar numa aldeia, dez leprosos vão ao seu encontro, mas param à distância, como a Lei exigia (Lv 13:45-46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Eles gritam, chamando Jesus de Mestre e pedindo que tenha compaixão deles (17:12-13). Jesus não os toca nem os cura de imediato. Manda que se apresentem aos sacerdotes, o rito que a Lei exigia para confirmar a purificação e reintegrar o doente à comunidade (Lv 14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A ordem exige fé: eles precisam partir antes de ver a cura. Enquanto vão pelo caminho, são purificados (17:14).
Um deles, ao perceber que estava curado, volta glorificando a Deus em voz alta. Prostra-se aos pés de Jesus, com o rosto em terra, e lhe agradece (17:15-16). O verbo eucharisteō, "dar graças", é a raiz da palavra "eucaristia". Lucas acrescenta, como uma revelação final, que aquele homem era samaritano. Jesus pergunta se não foram dez os purificados e onde estão os outros nove. Nenhum outro voltou para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro (17:17-18). A palavra "estrangeiro" (allogenēs) é a mesma gravada na inscrição de advertência que proibia a entrada de estrangeiros no pátio interno do templo de Jerusalém, sob pena de morte. Essa inscrição foi encontrada em 1871 pelo arqueólogo Charles Clermont-Ganneau. O homem que o templo excluía é o único que volta para glorificar a Deus aos pés de Jesus.
Jesus o manda levantar-se e seguir seu caminho, porque sua fé o salvou (17:19). Os dez foram purificados, mas só ao samaritano Jesus declara que foi salvo. O verbo sōzō, "salvar", indica algo mais profundo que a cura física: a restauração da relação com Deus. Os nove receberam um benefício; o samaritano recebeu o benfeitor.
A cena ecoa a história de Naamã, o sírio. Depois de ser purificado no Jordão, ele voltou ao profeta Eliseu para reconhecer que não havia Deus em toda a terra senão em Israel (2Rs 5:14-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus já havia citado Naamã em Nazaré como exemplo de estrangeiro alcançado pela graça (4:27). O samaritano é um novo Naamã. Há também um detalhe teológico: o samaritano glorifica a Deus prostrando-se aos pés de Jesus. A gratidão a Jesus é a forma de dar glória a Deus.
A vinda do Reino e do Filho do Homem (17:20-37)
Os fariseus perguntam a Jesus quando viria o reino de Deus (17:20). Ele responde que o Reino não vem de modo que possa ser observado, e que ninguém poderá dizer que está aqui ou ali, porque o reino de Deus está entos hymōn (17:21). A expressão tem duas traduções possíveis.
- "Dentro de vós": indicaria uma realidade interior e espiritual.
- "No meio de vós" ou "ao vosso alcance": indicaria que o Reino já está presente, na pessoa e na obra de Jesus.
A segunda leitura é preferida pela maioria dos comentaristas, porque Jesus fala aos fariseus, que não o haviam acolhido, e seria estranho dizer que o Reino estava dentro deles. Além disso, ela é coerente com o restante de Lucas: o Reino chegou com Jesus (11:20). Os fariseus procuravam sinais no céu e não percebiam que o Rei estava diante deles.
Jesus então se dirige aos discípulos e fala da plenitude futura do Reino (17:22-25). Virão dias em que desejarão ver um dos dias do Filho do Homem e não verão. Não devem correr atrás de quem diga que ele está aqui ou ali. A sua vinda será como o relâmpago, que ilumina o céu de um lado a outro: visível e inconfundível. Mas antes, é necessário (dei) que ele sofra muito e seja rejeitado por aquela geração (17:25). A glória futura passa pela cruz.
Jesus compara a vinda do Filho do Homem a dois episódios das Escrituras (17:26-30). Nos dias de Noé, as pessoas comiam, bebiam e se casavam, até o dia em que Noé entrou na arca e o dilúvio destruiu a todos (Gn 6–7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Nos dias de Ló, comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e construíam, até o dia em que Ló saiu de Sodoma e o fogo caiu do céu (Gn 19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Nenhuma dessas atividades é pecaminosa em si. O problema era viver como se elas fossem tudo, absorvido pela rotina e indiferente a Deus, sem perceber a hora do juízo. Assim será no dia em que o Filho do Homem se manifestar.
Naquele dia, não haverá tempo para voltar atrás. Quem estiver no terraço não deve descer para pegar seus bens, nem quem estiver no campo deve voltar (17:31). Jesus dá então uma ordem curta e direta: lembrar-se da mulher de Ló (17:32). Ela olhou para trás ao fugir de Sodoma e se tornou uma estátua de sal (Gn 19:26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Seu coração continuava preso ao que deixava. Jesus repete o princípio de 9:24: quem procurar preservar a própria vida vai perdê-la, e quem a perder vai preservá-la (17:33).
O dia trará uma separação repentina entre pessoas que estão juntas (17:34-35). Duas estarão numa cama, uma será levada e a outra deixada; duas mulheres estarão moendo juntas, uma será levada e a outra deixada. O versículo 17:36, que fala de dois homens no campo, não aparece nos manuscritos mais antigos e foi provavelmente acrescentado a partir de Mateus 24:40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). A expressão "uma será levada" recebeu interpretações diferentes.
- O arrebatamento: algumas tradições, especialmente a dispensacionalista, a leem como o arrebatamento dos fiéis antes do juízo.
- O juízo: outros observam que, nos dias de Noé, os "levados" foram os que pereceram no dilúvio (Mt 24:39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e entendem que ser levado é ser levado para o juízo.
O texto não decide a questão. O ponto central, aceito por todas as leituras, é que a vinda do Filho do Homem trará uma separação definitiva, mesmo entre pessoas próximas.
Os discípulos perguntam onde isso acontecerá. Jesus responde com um provérbio: onde estiver o cadáver, ali se ajuntarão os abutres (17:37). A palavra aetoi pode indicar águias ou abutres. O provérbio sugere que o juízo será tão visível e inevitável quanto a presença de aves de rapina sobre um corpo. Não será preciso procurar onde ele está.
A viúva persistente e o juiz injusto (18:1-8)
Lucas abre a parábola explicando seu propósito: mostrar que é necessário orar sempre e não desanimar (18:1). O verbo enkakeō significa "perder o ânimo", "cansar-se". A parábola segue imediatamente o ensino sobre a vinda do Filho do Homem, e por isso a oração aqui está ligada à espera.
Numa cidade havia um juiz que não temia a Deus nem respeitava ninguém (18:2). Também havia ali uma viúva que ia constantemente até ele pedindo justiça contra seu adversário (18:3). Na Bíblia, a viúva é o símbolo da pessoa vulnerável, sem marido para defendê-la e frequentemente sem recursos. A Lei ordenava que ela fosse protegida, e Deus se apresenta como seu defensor (Êx 22:22-24; Dt 10:17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O juiz deveria fazer justiça, mas não fazia.
Durante algum tempo, ele se recusa. Depois, pensa consigo que, embora não tema a Deus nem respeite ninguém, vai fazer justiça àquela viúva, porque ela o incomoda. Assim ela não continuará vindo e acabará por esgotá-lo (18:4-5). O verbo hypōpiazō vem do vocabulário do boxe e significa literalmente "golpear abaixo do olho", "deixar o olho roxo". Ele pode ser entendido de forma figurada, como "esgotar" ou "envergonhar publicamente". Há um toque de humor: o juiz que não temia a Deus nem aos homens tem medo de uma viúva insistente.
Jesus explica a parábola (18:6-8). Se o juiz injusto acabou fazendo justiça, Deus não fará justiça aos seus escolhidos que clamam a ele dia e noite? Será que vai demorar para ajudá-los? Ele fará justiça a eles, e depressa. O argumento é do menor para o maior, um tipo de raciocínio comum entre os mestres judeus. Deus não é como o juiz; é o oposto dele. Se até um juiz injusto atende a quem insiste, quanto mais o Pai justo atenderá os seus filhos. A parábola não ensina que é preciso cansar Deus com insistência. Ela ensina que, mesmo quando a resposta parece demorar, os que oram podem confiar no caráter de Deus. A expressão "depressa" (en tachei) não significa necessariamente imediatamente; significa que a justiça virá de forma decisiva quando chegar o momento.
Jesus termina com uma pergunta séria: quando o Filho do Homem vier, encontrará fé na terra (18:8)? A pergunta transfere a atenção de Deus para os discípulos. A dúvida não é se Deus será fiel, mas se os discípulos permanecerão fiéis e continuarão orando durante a espera.
O fariseu e o publicano (18:9-14)
Lucas indica os destinatários da parábola: alguns que confiavam em si mesmos por se julgarem justos e desprezavam os outros (18:9). Dois homens sobem ao templo para orar, um fariseu e um publicano (18:10). Kenneth E. Bailey (Through Peasant Eyes, 1980) sugere que o cenário seria um dos horários do sacrifício de expiação, oferecido pela manhã e à tarde, quando o povo se reunia no templo para orar (ver At 3:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Nessa leitura, a oração do publicano estaria diretamente ligada ao sacrifício oferecido naquele momento.
O fariseu ora em pé, voltado para si mesmo (18:11-12). A expressão pros heauton pode significar "consigo mesmo", isto é, em voz baixa, ou "a respeito de si mesmo". Ele agradece a Deus por não ser como os outros homens, ladrões, injustos e adúlteros, nem como aquele publicano. Depois lista suas práticas: jejua duas vezes por semana e dá o dízimo de tudo o que ganha. As duas práticas iam além do que a Lei exigia. A Lei previa apenas o jejum do Dia da Expiação (Lv 16:29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o dízimo era exigido sobre determinados produtos, e não sobre tudo o que se ganhava. O fariseu não mente; ele realmente fazia essas coisas. O problema é que ele se compara aos outros, despreza o publicano e, na verdade, não pede nada a Deus. Sua oração é um relatório de méritos. Joachim Jeremias (As Parábolas de Jesus) mostrou que orações de agradecimento semelhantes eram comuns na piedade da época, o que torna o retrato realista, e não caricatural.
O publicano, por sua vez, fica à distância e nem ousa levantar os olhos para o céu. Bate no peito, um gesto de profunda tristeza, e pede que Deus seja propício a ele, o pecador (18:13). O verbo hilaskomai é da linguagem do sacrifício e significa "ser propiciado", "fazer expiação". É da mesma família da palavra hilastērion, que designa o propiciatório, a tampa da arca da aliança, onde o sangue da expiação era aspergido (Hb 9:5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo usará essa palavra para descrever Cristo como aquele que Deus apresentou como propiciação (Rm 3:25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O publicano não pede apenas compaixão; pede que Deus aplique a ele a expiação. E não se apresenta como "um pecador" entre outros, mas, com o artigo definido, como "o pecador", alguém que não se compara a ninguém e só olha para a própria necessidade.
O veredito de Jesus é surpreendente para os ouvintes (18:14). O publicano volta para casa justificado (dedikaiōmenos), declarado justo diante de Deus, e não o fariseu. O verbo é o mesmo que Paulo usará para desenvolver a doutrina da justificação pela fé, sem as obras da Lei (Rm 3:21-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 4:5). Jesus repete o princípio de 14:11: quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado. O fariseu confiava no que fazia; o publicano confiava apenas na misericórdia de Deus. Deus não despreza o coração quebrantado (Sl 51:17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
As crianças e o chefe rico (18:15-30)
Algumas pessoas trazem até mesmo bebês (brephē) para que Jesus os toque, e os discípulos as repreendem (18:15). Jesus chama as crianças e manda que as deixem vir a ele, porque o reino de Deus pertence aos que são como elas. Quem não receber o Reino como uma criança não entrará nele (18:16-17). Em continuidade com a parábola anterior, a criança é o oposto do fariseu autossuficiente. Ela não tem méritos a apresentar nem posição social, e recebe porque depende. Receber o Reino como criança é recebê-lo como um presente, e não como uma conquista.
Em seguida, um homem de posição elevada (archōn, "chefe", "líder") faz a Jesus a mesma pergunta do mestre da Lei em 10:25: o que precisa fazer para herdar a vida eterna (18:18)? Mateus o descreve como jovem (Mt 19:20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a tradição juntou os detalhes dos três Evangelhos na figura do "jovem rico". Ele chama Jesus de "bom Mestre". Jesus pergunta por que o chama de bom, se ninguém é bom senão Deus (18:19). Não se trata de uma negação da sua própria bondade ou divindade. É um desafio: se o homem o chama de bom, precisa considerar o que isso implica sobre quem Jesus é, e por isso precisa estar disposto a obedecê-lo.
Jesus cita os mandamentos da segunda parte do Decálogo, sobre o adultério, o homicídio, o roubo, o falso testemunho e a honra aos pais (Êx 20:12-16). O homem afirma que os cumpre desde a juventude (18:20-21). Jesus responde que ainda lhe falta uma coisa: vender tudo o que tem, distribuir aos pobres, e então terá um tesouro no céu; depois, seguir Jesus (18:22). O homem fica muito triste, porque era muito rico (18:23).
O mandamento que Jesus não citou é o primeiro: não ter outros deuses. A riqueza ocupava, no coração daquele homem, o lugar que pertencia a Deus. O que faltava não era mais uma prática, mas o desapego que permitiria seguir Jesus. A ordem de vender tudo não é uma regra para todos os discípulos, já que Zaqueu, logo adiante, dá metade de seus bens. É o diagnóstico de um coração específico, preso ao dinheiro.
Vendo a tristeza do homem, Jesus declara como é difícil para os ricos entrar no reino de Deus. É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino (18:24-25). Lucas usa a palavra belonē, que designava a agulha de cirurgião. A imagem é uma hipérbole deliberada: o maior animal da Palestina e a menor abertura conhecida. Duas tentativas de suavizá-la não têm fundamento.
- A "porta da agulha": a explicação de que haveria em Jerusalém uma pequena porta chamada "agulha", pela qual um camelo passaria com dificuldade, surgiu na Idade Média e não tem apoio em fontes antigas.
- "Corda" em vez de "camelo": a substituição de kamēlos por kamilos, "corda", aparece apenas em manuscritos tardios.
O ponto é que, por esforço humano, é impossível.
Os ouvintes perguntam, então, quem pode ser salvo. Jesus responde que o que é impossível para os homens é possível para Deus (18:26-27), retomando a pergunta feita a Abraão sobre se havia algo difícil demais para o Senhor (Gn 18:14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A salvação de um rico, como a de qualquer pessoa, é obra de Deus. Pedro lembra que eles deixaram tudo para segui-lo. Jesus assegura que ninguém que tenha deixado casa, mulher, irmãos, pais ou filhos por causa do reino de Deus deixará de receber muito mais neste tempo e, no mundo que virá, a vida eterna (18:28-30). A "família" que o discípulo recebe neste tempo é a comunidade dos que seguem Jesus.
O terceiro anúncio da paixão e o cego de Jericó (18:31-43)
Jesus chama os doze à parte e faz o terceiro anúncio da paixão, o mais detalhado (18:31-33). Eles estão subindo para Jerusalém, e tudo o que os profetas escreveram sobre o Filho do Homem vai se cumprir. Ele será entregue aos gentios, escarnecido, insultado e cuspido; depois de açoitado, será morto e, ao terceiro dia, ressuscitará. Os detalhes ecoam o Servo de Isaías, que oferece as costas aos que o ferem e não esconde o rosto das cusparadas (Is 50:6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e que é desprezado e ferido pelos pecados de muitos (Is 53:3-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pela primeira vez, Jesus menciona que será entregue aos gentios, isto é, aos romanos.
A reação dos discípulos é a mesma dos anúncios anteriores, mas Lucas a reforça com três expressões (18:34): eles não entenderam nada, o sentido estava encoberto para eles e não compreendiam o que era dito. Os discípulos que viam Jesus todos os dias estavam cegos para o significado da cruz.
Imediatamente depois, Lucas narra a cura de um cego (18:35-43). A sequência é intencional: os que têm olhos não entendem, e o cego vai ver. Quando Jesus se aproxima de Jericó, um cego está sentado à beira do caminho, pedindo esmola. Marcos situa a cena na saída de Jericó e dá o nome do cego, Bartimeu (Mc 10:46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Mateus fala de dois cegos (Mt 20:30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Uma explicação proposta é que havia duas Jericós próximas, a cidade antiga e a cidade construída por Herodes, e que a cena aconteceu entre elas. As diferenças de detalhe são comuns entre testemunhas independentes e não alteram o núcleo do relato.
Ao ouvir a multidão passar, o cego pergunta o que está acontecendo e lhe dizem que Jesus de Nazaré está passando. Ele grita chamando Jesus de Filho de Davi e pedindo compaixão (18:37-38). O título é messiânico: o Messias seria o descendente de Davi prometido em 2 Samuel 7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O cego, que não vê, reconhece em Jesus o que muitos com olhos não reconheciam. Os que iam à frente o repreendem para que se cale, mas ele grita ainda mais alto (18:39). Jesus para e manda que o tragam. Pergunta o que ele quer, e o cego responde, chamando-o de Senhor, que quer voltar a ver (18:40-41). Jesus lhe concede a visão e declara que sua fé o salvou (18:42). Imediatamente ele passa a ver e segue Jesus glorificando a Deus, e todo o povo, ao ver isso, dá louvores a Deus (18:43).
A cura cumpre a promessa de Isaías de abrir os olhos dos cegos (Is 35:5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 42:7) e o programa anunciado em Nazaré (4:18). O homem recebe mais que a visão: ele segue Jesus no caminho para Jerusalém. O cego que estava à beira do caminho se torna um discípulo que anda no caminho.
Zaqueu e o "hoje" da salvação (19:1-10)
Jesus entra em Jericó e atravessa a cidade (19:1). Ali vivia um homem chamado Zaqueu, chefe dos publicanos e rico (19:2). A palavra architelōnēs só aparece aqui em toda a literatura grega conhecida. Jericó era um centro comercial importante na rota entre a Judeia e a Transjordânia, e Zaqueu provavelmente controlava a cobrança de impostos na região, com outros publicanos trabalhando sob suas ordens. Isso fazia dele um colaborador do poder romano e alguém que enriquecera, presumivelmente, à custa do povo. Seu nome, Zakkai, vem de uma raiz hebraica que significa "puro" ou "inocente", o que torna sua história ainda mais irônica.
Zaqueu queria ver quem era Jesus, mas não conseguia por causa da multidão, já que era de baixa estatura (19:3). Ele corre à frente e sobe numa figueira-brava, uma árvore de galhos baixos e largos, para ver Jesus passar (19:4). Para um homem rico e importante, correr e subir numa árvore era um gesto pouco digno. Revela uma curiosidade, ou um desejo, maior que a preocupação com a imagem.
Quando Jesus chega ao local, olha para cima e o chama pelo nome. Manda que desça depressa, porque hoje precisa (dei) ficar em sua casa (19:5). A iniciativa é de Jesus. Zaqueu queria ver Jesus, mas descobre que Jesus o via e o procurava. O "hoje" (sēmeron) volta mais uma vez, e o verbo dei indica que esse encontro faz parte do propósito de Deus. Zaqueu desce depressa e recebe Jesus com alegria (19:6). Todos os que veem a cena começam a murmurar: Jesus foi se hospedar na casa de um pecador (19:7). O verbo "murmurar" (diagongyzō) é o mesmo de 15:2. A crítica que motivou as parábolas da ovelha, da moeda e do filho volta a ser feita, e a resposta agora vem na prática.
Zaqueu se levanta e faz uma declaração a Jesus (19:8): dá metade dos seus bens aos pobres e, se defraudou alguém, devolve quatro vezes mais. A restituição de quatro vezes era o que a Lei exigia em casos graves, como o roubo de uma ovelha (Êx 22:1). Para casos de fraude, a Lei pedia a devolução do valor com um acréscimo de um quinto (Lv 6:1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Nm 5:6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Zaqueu vai muito além da obrigação legal.
O tempo presente dos verbos ("dou", "devolvo") gerou duas interpretações.
- A conversão: a maioria dos comentaristas, como Darrell Bock (Luke 9:51–24:53, BECNT, 1996), entende que Zaqueu anuncia uma decisão nova, fruto do encontro com Jesus, usando o presente para expressar a firmeza de sua resolução.
- A defesa: Joseph Fitzmyer (The Gospel According to Luke, Anchor Bible, 1985) defendeu que o presente descreve uma prática habitual. Zaqueu estaria se defendendo da acusação de ser pecador, mostrando que já era generoso e honesto.
A leitura da conversão parece mais coerente com o desfecho, em que Jesus fala de salvação que chega "hoje" e de alguém que estava perdido. Em ambos os casos, a fé de Zaqueu se expressa de forma concreta na relação com o dinheiro.
Jesus declara que hoje a salvação entrou naquela casa, porque também ele é filho de Abraão (19:9). É o último "hoje" da salvação antes do da cruz (23:43). O título "filho de Abraão" corresponde à "filha de Abraão" de 13:16. Zaqueu, que o povo considerava excluído, é reintegrado como herdeiro da aliança. Jesus conclui com a frase que resume sua missão e todo o Evangelho de Lucas (19:10): o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido. A frase retoma Ezequiel 34:16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em que Deus promete procurar a ovelha perdida. Jesus é o pastor que Deus prometeu enviar.
A história de Zaqueu é a resposta direta à pergunta feita depois do encontro com o chefe rico (18:26). Um rico pode ser salvo? Sim, porque o que é impossível para os homens é possível para Deus. O chefe rico foi embora triste; Zaqueu recebeu Jesus com alegria. O primeiro não conseguiu se desapegar dos bens; o segundo os colocou a serviço dos pobres e da justiça. O camelo passou pelo fundo da agulha.
A parábola das minas (19:11-27)
Enquanto as pessoas ouviam essas coisas, Jesus conta uma parábola, porque estavam perto de Jerusalém e pensavam que o reino de Deus ia se manifestar imediatamente (19:11). A parábola corrige essa expectativa.
Um homem de família nobre parte para uma terra distante para receber o título de rei e depois voltar (19:12). Os ouvintes conheciam uma história real semelhante. Após a morte de Herodes, o Grande, em 4 a.C., seu filho Arquelau viajou a Roma para que o imperador Augusto confirmasse seu direito ao trono da Judeia. Uma delegação de cinquenta judeus foi a Roma pedir que ele não fosse rei. Augusto lhe deu o governo, mas apenas com o título de etnarca, e Arquelau tratou os opositores com crueldade. O historiador Flávio Josefo narra o episódio (Antiguidades Judaicas 17.11.1; Guerra Judaica 2.6.1). Além disso, o palácio de Arquelau ficava justamente em Jericó, onde Jesus contava a parábola.
Antes de partir, o nobre chama dez servos e entrega a cada um uma mina, moeda de prata equivalente a cerca de cem dias de trabalho. Manda que negociem até que ele volte (19:13). Mas os cidadãos o odiavam e enviaram uma delegação atrás dele declarando que não o queriam como rei (19:14).
O homem recebe o reino e volta, e chama os servos para saber o que cada um ganhou (19:15-19). O primeiro diz que a mina rendeu dez, e o rei o elogia como servo bom e fiel no pouco e lhe dá autoridade sobre dez cidades. O segundo diz que a mina rendeu cinco, e recebe autoridade sobre cinco cidades. A recompensa da fidelidade é uma responsabilidade maior.
Outro servo devolve a mina guardada num lenço (soudarion) e explica que teve medo, porque o senhor é um homem severo (austēros), que tira o que não depositou e colhe o que não semeou (19:20-21). O rei responde que vai julgá-lo pelas suas próprias palavras. Se o considerava assim, deveria pelo menos ter colocado o dinheiro no banco para render juros (19:22-23). Manda tirar a mina dele e dá-la ao que tem dez. Diante do protesto dos presentes, afirma que a quem tem será dado mais, e de quem não tem será tirado até o que tem (19:24-26). Por fim, manda trazer os inimigos que não o queriam como rei e executá-los na sua presença (19:27).
A parábola de Mateus 25:14-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), a dos talentos, é semelhante, mas há diferenças importantes.
- A quantia: em Mateus, cada servo recebe uma quantia diferente, de acordo com sua capacidade; em Lucas, todos recebem a mesma mina.
- A dimensão política: Lucas acrescenta os cidadãos que rejeitam o rei e seu castigo final.
- O propósito: Lucas explica que Jesus contou a parábola porque o povo pensava que o Reino viria imediatamente.
A interpretação mais comum entende que o nobre representa Jesus.
- A partida: Jesus está prestes a partir, pela morte, ressurreição e ascensão, para receber o Reino do Pai. A imagem lembra Daniel 7:13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em que o Filho do Homem vai até o Ancião de Dias para receber domínio, glória e reino.
- O intervalo: antes da volta, haverá um tempo de espera, durante o qual seus servos devem trabalhar com o que receberam.
- A volta: ele voltará como rei (At 1:9-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e cada servo prestará contas (2Co 5:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- A rejeição: os cidadãos que não o querem como rei representam os que o rejeitam, e o castigo final mostra a seriedade dessa rejeição.
N. T. Wright (Jesus and the Victory of God, 1996) acrescenta uma leitura histórica. A parábola também falaria do retorno do próprio Deus a Sião na pessoa de Jesus, que estava prestes a entrar em Jerusalém, e do juízo sobre a cidade que não o reconheceu.
Uma interpretação minoritária, proposta por William Herzog (Parables as Subversive Speech, 1994), vê o terceiro servo como herói. Ele teria se recusado a participar de um sistema econômico explorador, representado por um senhor que "colhe o que não semeou". Essa leitura chama a atenção para o contexto social da época, mas tem dificuldade em explicar a moldura que Lucas dá à parábola (19:11) e o seu uso ao longo do Evangelho.
O servo que guardou a mina falhou por medo, e esse medo nascia de uma imagem distorcida do senhor. Ele via o senhor como severo e explorador e, por isso, não arriscou nada. Os outros dois agiram com a confiança de quem conhecia o senhor. A visão que temos de Deus determina como usamos o que ele nos confia.
Logo depois da parábola, Lucas registra que Jesus segue à frente, subindo para Jerusalém (19:28). A viagem iniciada em 9:51 está terminando.
A contribuição do bloco para o livro e para a Bíblia
Este bloco encerra a narrativa da viagem e prepara diretamente a entrada em Jerusalém. Ele responde às perguntas sobre o Reino com uma visão em duas etapas: o Reino já está presente em Jesus, mas sua plenitude virá com a volta do Filho do Homem, depois da cruz e após um tempo de espera. Esse tempo deve ser vivido com oração perseverante, fé e fidelidade na administração do que foi confiado.
O bloco também mostra, com uma série de personagens, quem recebe o Reino: o estrangeiro agradecido, o publicano arrependido, as crianças, o cego que clama e o rico que se converte. O fio comum é a humildade de quem reconhece sua necessidade e confia na misericórdia de Deus. Os que confiam em si mesmos, como o fariseu, o chefe rico e os cidadãos que rejeitam o rei, ficam de fora.
A casa de Zaqueu é o ponto alto do bloco e um dos pontos altos de todo o Evangelho. Ali a frase de 19:10 resume a missão de Jesus. No quadro da Bíblia, o bloco retoma a promessa de Deus como pastor que procura o perdido (Ez 34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e a esperança do Reino do Filho do Homem (Dn 7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Também antecipa a doutrina da justificação pela fé que Paulo desenvolverá (Rm 3–4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Visão cristocêntrica: a conexão com Cristo é direta e explícita em quase todas as cenas do bloco.
Jesus é o Filho do Homem que veio procurar e salvar o perdido (19:10). A frase resume sua identidade e sua missão. Ela retoma a promessa de Ezequiel 34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em que o próprio Deus procura suas ovelhas. Jesus faz o que Deus prometeu fazer.
Jesus é o Filho do Homem que precisa sofrer e depois virá em glória (17:24-25; 18:31-33). O caminho para a glória passa pela rejeição, pelo escárnio e pela morte, cumprindo o que os profetas escreveram sobre o Servo. A ressurreição ao terceiro dia está anunciada explicitamente.
Jesus é o Filho de Davi reconhecido pelo cego (18:38). Ele é o herdeiro da promessa feita a Davi, que vai a Jerusalém como Rei.
Jesus é aquele diante de quem se dá glória a Deus (17:15-16). O samaritano glorifica a Deus prostrado aos pés de Jesus. Agradecer a Jesus é glorificar a Deus.
A parábola do fariseu e do publicano tem uma ligação temática com a cruz. O verbo da oração do publicano, hilaskomai, pertence à linguagem da expiação, e o Novo Testamento apresentará Cristo como a propiciação pelos pecados (Rm 3:25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Jo 2:2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O publicano pede a expiação que Cristo realizará. Essa leitura pertence ao desenvolvimento canônico do tema e não está explícita na parábola, mas é coerente com o vocabulário.
Na parábola das minas, Jesus se apresenta, de forma bastante clara pelo contexto, como o Rei que parte para receber o Reino e voltará. A imagem corresponde à sua ascensão e à sua volta, e lembra o Filho do Homem que recebe o reino em Daniel 7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). É a leitura adotada pela maioria dos intérpretes.
Aplicações espirituais e práticas:
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Voltar para agradecer. Dez foram curados, mas só um voltou. A gratidão é rara mesmo entre os que recebem muito. Na vida cotidiana, é fácil receber bênçãos, como saúde, trabalho, família e livramentos, e seguir adiante sem reconhecer a origem delas. O samaritano ensina que a gratidão transforma o benefício recebido em relação com Deus. Os nove receberam a cura; o samaritano recebeu também a salvação.
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O Reino já está no meio de nós. Os fariseus procuravam sinais no céu e não perceberam que o Reino estava diante deles, na pessoa de Jesus. Também hoje é possível procurar Deus em experiências extraordinárias e não reconhecê-lo onde ele já está agindo: na palavra, na comunidade, no serviço aos pequenos.
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Vigiar em meio à rotina. Nos dias de Noé e de Ló, as pessoas viviam normalmente, comendo, bebendo, comprando, vendendo e construindo. O problema não estava nessas atividades, mas em viver absorvido por elas, sem Deus. Para quem tem uma vida intensa de trabalho, projetos e negócios, a advertência é viver a rotina diante de Deus, com o coração preparado para a sua vinda.
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Lembrar-se da mulher de Ló. Ela saiu de Sodoma, mas seu coração ficou para trás. Muitas pessoas iniciam uma caminhada de fé, mas continuam presas ao que deixaram. O ensino de Jesus é seguir em frente sem olhar para trás com saudade daquilo que Deus mandou deixar.
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Orar sem desanimar, especialmente por justiça. A viúva insistiu porque precisava de justiça e não tinha outro recurso. Há situações de injustiça, pessoais ou sociais, que parecem não ter fim, e a tentação é desistir de orar. A parábola assegura que Deus não é como o juiz injusto e que fará justiça aos que clamam a ele. A pergunta final de Jesus muda o foco: o importante é que, quando ele vier, encontre fé em nós.
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A oração que justifica é a do coração quebrantado. O fariseu fez um relatório de méritos e comparou-se aos outros. O publicano reconheceu que não tinha nada a oferecer e pediu misericórdia. Quem se aproxima de Deus confiando em suas próprias práticas religiosas, em sua moralidade ou em sua superioridade sobre os outros não volta justificado. O caminho é a humildade de quem se reconhece necessitado de graça.
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Receber o Reino como criança. A criança recebe sem apresentar méritos. Para adultos acostumados a conquistar tudo pelo próprio esforço, esse é um dos aprendizados mais difíceis da fé: receber a salvação como presente, e não como resultado de desempenho.
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O que ainda nos falta? O chefe rico cumpria os mandamentos, mas algo ocupava no seu coração o lugar de Deus. Cada pessoa pode se perguntar, com honestidade, o que tem impedido o seguimento pleno de Jesus. Pode ser o dinheiro, uma posição, uma relação, um projeto ou a própria imagem. A resposta pode doer, mas é o começo da liberdade.
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Gritar mais alto quando mandam calar. O cego de Jericó foi repreendido pelos que estavam à frente, mas gritou ainda mais. Às vezes, as vozes ao redor, e até de pessoas religiosas, desencorajam quem busca Jesus. A persistência do cego foi recompensada com a visão e com o caminho do discipulado.
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A conversão que chega ao bolso. O encontro com Jesus mudou a relação de Zaqueu com o dinheiro: ele repartiu seus bens com os pobres e reparou os danos causados, indo além da exigência legal. A conversão autêntica tem consequências econômicas concretas. Para quem tem negócios, isso pode significar:
- rever práticas que prejudicaram outras pessoas;
- reparar danos, mesmo quando a lei não exige;
- ser generoso com quem precisa;
- colocar a integridade acima do lucro.
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Jesus toma a iniciativa. Zaqueu queria ver Jesus, mas foi Jesus quem o viu, o chamou pelo nome e decidiu entrar em sua casa. Ninguém está tão longe que Jesus não possa encontrá-lo. Para quem se sente distante, é uma palavra de esperança; para quem já foi alcançado, é um chamado a procurar os outros como Jesus procurou.
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Usar o que Deus nos confiou. Na parábola das minas, todos receberam a mesma quantia. Entre os dons que Deus dá a todos os seus servos estão o evangelho, a oportunidade de servir, o tempo e a própria vida. O servo que enterrou a mina falhou por medo, alimentado por uma imagem distorcida de Deus como um senhor severo. Quem conhece a bondade de Deus serve com confiança, arrisca, investe e multiplica o que recebeu. A fidelidade no pouco é recompensada com responsabilidade maior.
Sabedoria para o Cotidiano
No último trecho da viagem para Jerusalém, os que recebem o Reino são justamente os que menos pareciam merecê-lo: um samaritano que volta para agradecer, um publicano que bate no peito, crianças trazidas nos braços, um cego que grita à beira do caminho e um rico odiado que sobe numa árvore. O que todos têm em comum é a humildade de quem reconhece sua necessidade e a alegria de quem é encontrado. Jesus continua passando pelas nossas cidades, olhando para cima e chamando pelo nome. Enquanto esperamos sua volta, a melhor resposta é descer depressa, recebê-lo com alegria e fazer render, com confiança, aquilo que ele colocou em nossas mãos.