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Mateus · 40 de 66 · Novo Testamento

Mateus — Bloco 13: A Paixão do Rei: Traição, Julgamento e Cruz

Capítulos principais: Mateus 26:1–27:66 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).

Tema central do bloco:

Terminado o último discurso, Mateus narra a paixão de Jesus, o centro para o qual todo o Evangelho se dirigia desde o primeiro anúncio da cruz (16:21). Em dois capítulos, o ritmo da narrativa se torna intenso, quase hora a hora:

  • a conspiração dos líderes e a unção em Betânia;
  • a traição de Judas e a última ceia;
  • a agonia no Getsêmani e a prisão;
  • o julgamento diante do Sinédrio e a negação de Pedro;
  • o fim de Judas e o julgamento diante de Pilatos;
  • a zombaria dos soldados, a crucificação, a morte e o sepultamento.

O tema central pode ser resumido num paradoxo: o Rei é coroado com espinhos e entronizado numa cruz. Tudo o que Mateus anunciou sobre a realeza de Jesus chega aqui ao seu cumprimento, mas de forma invertida. O título "rei dos judeus", que os magos usaram com reverência (2:2), é agora usado em zombaria pelos soldados e afixado como acusação sobre a cruz (27:37). Ao mesmo tempo, Mateus insiste em que nada acontece por acaso. Jesus anuncia cada passo, as Escrituras se cumprem, e a morte do Messias é a entrega voluntária do Filho obediente, cujo sangue é derramado em favor de muitos para o perdão dos pecados (26:28). A paixão revela ao mesmo tempo o pior do coração humano, com traição, covardia, injustiça e crueldade, e o maior amor de Deus.

Versículos-chave do Livro estudado:

Versículos relacionados em outros Livros da Bíblia:

Explicação teológica e bíblica:

A conspiração, a unção e a traição (26:1-16)

Quando Jesus termina todas as suas palavras, anuncia pela quarta vez sua morte, agora com uma data: dentro de dois dias será a Páscoa, e o Filho do Homem será entregue para ser crucificado (26:2). Ao mesmo tempo, os principais sacerdotes e anciãos se reúnem no palácio do sumo sacerdote Caifás, que exerceu o cargo de cerca de 18 a 36 d.C. Em 1990, arqueólogos encontraram em Jerusalém um ossuário com a inscrição "José, filho de Caifás", que muitos estudiosos associam a ele. Os líderes decidem prender Jesus à traição e matá-lo, mas não durante a festa, para evitar tumulto (26:3-5). A ironia é que Jesus morrerá exatamente na festa. Os planos humanos acabam servindo ao calendário de Deus.

Em Betânia, na casa de Simão, o leproso, uma mulher se aproxima com um frasco de alabastro de perfume muito caro e o derrama sobre a cabeça de Jesus (26:6-13). João identifica a mulher como Maria, irmã de Marta e Lázaro, e diz que ela ungiu os pés de Jesus (Jo 12:1-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mateus menciona a cabeça, gesto que evocava a unção dos reis (1Sm 10:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Rs 9:6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os discípulos se indignam com o "desperdício", pensando que o perfume poderia ser vendido e o dinheiro dado aos pobres. Jesus defende a mulher: ela fez uma boa obra e o ungiu para o sepultamento. Os pobres estariam sempre com eles, mas ele não. A frase não expressa indiferença pelos pobres. Ela ecoa Deuteronômio 15:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que, ao reconhecer a presença permanente dos pobres, ordena abrir a mão para eles. Jesus apenas reconhece a singularidade daquele momento. E promete que, onde quer que o evangelho seja anunciado, o gesto da mulher será lembrado. Enquanto os discípulos ainda não entendiam a cruz, ela foi a única a reconhecer, com um gesto, que o Rei caminhava para a morte.

O contraste com a cena seguinte é intencional. Logo depois, Judas Iscariotes, um dos Doze, procura os principais sacerdotes e pergunta quanto lhe dariam para entregar Jesus. Eles lhe pagam trinta moedas de prata (26:14-16). Era o preço de indenização por um escravo morto (Êx 21:32), e evoca Zacarias 11:12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em que o pastor rejeitado recebe esse valor como salário desprezível. Os Evangelhos indicam motivos diferentes para a traição. João menciona a avareza (Jo 12:6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Lucas e João falam da ação de Satanás (Lc 22:3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 13:2, 27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os estudiosos acrescentam hipóteses como a decepção com um Messias que não correspondia às expectativas políticas. A traição de Judas permanece um mistério, em que se misturam a responsabilidade humana e o plano de Deus.

A Última Ceia e a nova aliança (26:17-30)

No primeiro dia dos pães sem fermento, Jesus manda preparar a Páscoa na casa de um homem em Jerusalém. A refeição pascal recordava a libertação do Egito, quando o sangue do cordeiro nas portas livrou os israelitas da morte (Êx 12). Há uma questão cronológica conhecida. Os sinóticos apresentam a última ceia como refeição pascal, na quinta-feira à noite, enquanto João situa a crucificação no dia da preparação da Páscoa, quando os cordeiros eram sacrificados (Jo 18:28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 19:14). As explicações propostas incluem o uso de calendários diferentes entre grupos judaicos, hipótese associada a Annie Jaubert (1957), a liberdade teológica de João ou a celebração antecipada da refeição por Jesus. A questão continua em aberto, mas os dois relatos convergem no ponto essencial: Jesus morre no contexto da Páscoa, como o verdadeiro cordeiro pascal (1Co 5:7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Durante a refeição, Jesus anuncia que um dos Doze o trairá (26:20-25). Os discípulos, profundamente tristes, perguntam um por um se seriam eles, chamando-o de Senhor. Jesus responde que é aquele que mete a mão no prato com ele, em eco ao Salmo 41:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que fala do amigo íntimo que se volta contra o justo. Acrescenta que o Filho do Homem segue o caminho que está escrito, mas ai daquele por quem é traído; melhor seria se não tivesse nascido. Quando Judas pergunta, ele não usa "Senhor" como os outros, mas "Rabi" (26:25). Jesus responde de forma afirmativa, com uma expressão que lhe devolve a responsabilidade pela própria pergunta.

Então Jesus institui a ceia (26:26-29). Ele toma o pão, pronuncia a bênção, parte-o e o dá aos discípulos, identificando-o com o seu corpo. Depois toma o cálice, dá graças e o oferece a todos, identificando-o com o seu sangue da aliança, derramado em favor de muitos para perdão dos pecados. Três ecos bíblicos se combinam:

Há um detalhe notável. Só Mateus acrescenta "para perdão dos pecados". Ao descrever o batismo de João, Marcos diz que ele era para perdão dos pecados (Mc 1:4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas Mateus omite essa expressão ali (3:2-6) e a reserva para o cálice da ceia. Para Mateus, o perdão dos pecados vem do sangue de Jesus.

A compreensão da ceia varia entre as tradições cristãs, e convém conhecer as posições principais:

  • Igreja Católica: a doutrina da transubstanciação, definida no Concílio de Trento (1551). A substância do pão e do vinho se converte no corpo e sangue de Cristo, permanecendo as aparências.
  • Igrejas Ortodoxas: afirmam a presença real como mistério, sem defini-la em termos filosóficos.
  • Tradição luterana: ensina a presença real de Cristo com o pão e o vinho, a chamada união sacramental.
  • Tradição reformada, a partir de Calvino: afirma uma presença espiritual real de Cristo, recebida pela fé.
  • Tradição associada a Zuínglio e muitas igrejas evangélicas: entende a ceia principalmente como memorial e proclamação da morte do Senhor.

Todas reconhecem na ceia o centro do culto cristão e a proclamação da morte de Cristo até que ele venha (1Co 11:26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Jesus acrescenta que não beberá mais do fruto da videira até o dia em que o beber de novo com eles no Reino do Pai (26:29). A ceia aponta para o banquete escatológico. Depois de cantarem o hino, provavelmente os salmos finais do Hallel (Salmos 115–118 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) cantados ao fim da refeição pascal, eles saem para o monte das Oliveiras (26:30).

O anúncio da dispersão e da negação (26:31-35)

No caminho, Jesus anuncia que todos os discípulos se escandalizarão por causa dele naquela noite, porque está escrito em Zacarias 13:7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) que o pastor será ferido e as ovelhas se dispersarão. Mas acrescenta imediatamente uma promessa: depois de ressuscitar, irá adiante deles para a Galileia (26:32). Antes mesmo da queda, Jesus já anuncia a restauração. Pedro protesta que, ainda que todos se escandalizem, ele nunca se escandalizará. Jesus responde que naquela mesma noite, antes que o galo cante, Pedro o negará três vezes. Pedro insiste que, ainda que tenha de morrer com ele, não o negará, e todos os discípulos dizem o mesmo (26:33-35). A segurança de Pedro em suas próprias forças prepara sua queda.

O Getsêmani: a obediência do Filho (26:36-46)

Jesus vai com os discípulos a um lugar chamado Getsêmani, nome que significa "lagar de azeite", ao pé do monte das Oliveiras. Leva consigo Pedro, Tiago e João, os mesmos três que testemunharam a transfiguração (17:1). Os que viram sua glória agora verão sua angústia. Jesus começa a entristecer-se e angustiar-se, e diz que sua alma está triste até a morte, numa linguagem que ecoa os Salmos 42–43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Pede que fiquem e vigiem com ele.

Afastando-se um pouco, prostra-se com o rosto em terra e ora ao Pai: se possível, que passe dele este cálice, mas não como ele quer, e sim como o Pai quer (26:39). O cálice é a imagem do juízo de Deus sobre o pecado (Is 51:17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 25:15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), que Jesus anunciara aos filhos de Zebedeu (20:22). Ele volta e encontra os discípulos dormindo. Adverte Pedro: vigiem e orem para não entrarem em tentação, pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca (26:41). Ora uma segunda vez, e agora sua oração repete quase literalmente a petição da Oração do Senhor: que seja feita a vontade do Pai (26:42; cf. 6:10). Aquilo que Jesus ensinou os discípulos a pedir, ele agora vive até o fim. Ele ora uma terceira vez, com as mesmas palavras, e encontra os discípulos novamente dormindo. Então anuncia que chegou a hora e que o traidor está perto (26:45-46).

O Getsêmani revela a verdadeira humanidade de Jesus. Ele não enfrenta a morte com indiferença estoica, mas com angústia real, oração intensa e luta. A carta aos Hebreus fala de suas orações com forte clamor e lágrimas e de como aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu (Hb 5:7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Igreja antiga refletiu longamente sobre essa cena. O Terceiro Concílio de Constantinopla (681) afirmou que Cristo tinha duas vontades, a divina e a humana, e que a vontade humana se submeteu livremente à divina, contra a doutrina que admitia uma só vontade em Cristo. No Getsêmani, o segundo Adão vence a tentação que o primeiro não venceu num jardim: não faz a própria vontade, mas a do Pai.

A prisão (26:47-56)

Enquanto Jesus ainda fala, chega Judas, acompanhado de uma multidão armada com espadas e paus, enviada pelos principais sacerdotes e anciãos. O sinal combinado é um beijo. Judas se aproxima, saúda Jesus como Rabi e o beija (26:48-49). O beijo, sinal de respeito do discípulo ao mestre, torna-se o instrumento da traição. Jesus o chama de amigo (hetaire), o mesmo termo usado com ironia em 20:13 e 22:12, e lhe diz que faça aquilo para que veio.

Um dos que estavam com Jesus, que João identifica como Pedro (Jo 18:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), tira a espada e fere o servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha. Jesus ordena que guarde a espada, porque todos os que lançam mão da espada pela espada perecerão (26:52). E acrescenta que poderia pedir ao Pai, que imediatamente lhe enviaria mais de doze legiões de anjos. Uma legião romana tinha cerca de cinco a seis mil soldados, o que daria mais de sessenta mil anjos. Mas como, então, se cumpririam as Escrituras, segundo as quais assim deve acontecer? (26:53-54). Jesus não é vítima impotente. Ele renuncia voluntariamente ao poder que tem, exatamente como fizera no deserto (4:5-7). Dirigindo-se à multidão, pergunta por que vieram prendê-lo como a um bandido, se todos os dias ensinava no templo. Tudo isso aconteceu para que se cumprissem as Escrituras dos profetas. Então todos os discípulos o abandonam e fogem (26:56), cumprindo o que Jesus anunciara (26:31).

O julgamento diante do Sinédrio e a negação de Pedro (26:57-75)

Jesus é levado à casa de Caifás, onde estão reunidos os escribas e os anciãos. Pedro o segue de longe e entra no pátio. Os líderes procuram falso testemunho contra Jesus para condená-lo à morte, mas não o encontram, apesar de muitas testemunhas falsas. Por fim, duas testemunhas afirmam que Jesus disse que poderia destruir o templo de Deus e reconstruí-lo em três dias (26:60-61). É uma distorção de algo que Jesus de fato dissera em outro sentido, sobre o templo do seu corpo (Jo 2:19-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus permanece em silêncio, como o Servo que não abre a boca diante dos que o acusam (Is 53:7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Então o sumo sacerdote o adjura pelo Deus vivo a dizer se ele é o Cristo, o Filho de Deus (26:63). As duas palavras da confissão de Pedro (16:16) reaparecem agora na boca do acusador. Jesus responde de forma afirmativa, mas reservada, com uma fórmula que devolve ao sumo sacerdote a responsabilidade pelo que disse, e acrescenta uma declaração decisiva. Desde agora verão o Filho do Homem sentado à direita do Poder, isto é, de Deus, e vindo sobre as nuvens do céu (26:64). A frase combina o Salmo 110:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Daniel 7:13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), os dois textos que Jesus usara para revelar sua identidade (22:44; 24:30). O acusado se apresenta como o futuro juiz de seus acusadores.

O sumo sacerdote rasga as vestes, gesto tradicional ao ouvir blasfêmia (cf. Mishná, Sanhedrin 7:5), e declara que Jesus blasfemou. Os presentes concluem que ele é réu de morte. Então cospem no seu rosto, dão-lhe socos e bofetadas, e zombam pedindo que ele "profetize" quem o bateu (26:65-68). O Servo de Isaías ofereceu as costas aos que o feriam e não escondeu o rosto dos que o insultavam e cuspiam (Is 50:6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Os historiadores discutem a legalidade desse julgamento. A Mishná, compilada por volta de 200 d.C., estabelece regras para processos capitais que teriam sido violadas: proibição de julgamentos noturnos e em vésperas de sábado ou festa, e exigência de esperar um dia para pronunciar a condenação (Sanhedrin 4:1). Não se sabe com certeza se essas regras já vigoravam no tempo de Jesus, nem se elas se aplicavam a uma investigação preliminar como a que os Evangelhos descrevem.

Enquanto isso, no pátio, Pedro é reconhecido três vezes (26:69-75). Primeiro uma criada diz que ele estava com Jesus, o galileu, e ele nega diante de todos. Depois outra criada o identifica, e ele nega com juramento. Por fim, os que estavam ali dizem que seu sotaque o denuncia, porque os galileus tinham um modo característico de falar o aramaico. Pedro então começa a praguejar e a jurar que não conhece o homem. Imediatamente o galo canta, Pedro se lembra da palavra de Jesus, sai e chora amargamente. O contraste construído por Mateus é intenso. Lá dentro, Jesus confessa sua identidade sob juramento e é condenado; aqui fora, Pedro nega sob juramento e escapa. Mas as lágrimas de Pedro são o início do arrependimento, e a promessa da Galileia ainda está de pé (26:32).

Judas e o preço do sangue (27:1-10)

De manhã, os principais sacerdotes e anciãos tomam a decisão de executar Jesus e o entregam ao governador Pilatos. Os Evangelhos indicam que, sob o domínio romano, as autoridades judaicas não tinham poder para aplicar a pena de morte (Jo 18:31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), embora os historiadores discutam o alcance exato dessa restrição.

Quando Judas vê que Jesus foi condenado, sente remorso. Mateus usa o verbo metamelomai, que indica pesar ou arrependimento no sentido de lamentar o que se fez, e não metanoeō, a mudança de vida que o Evangelho pede. Judas devolve as trinta moedas, dizendo que pecou ao entregar sangue inocente. Os líderes respondem com frieza que isso não lhes interessa. Judas lança as moedas no templo, sai e se enforca (27:3-5). Atos 1:18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) apresenta outra tradição sobre sua morte, e várias harmonizações foram propostas. Os sacerdotes, escrupulosos, não querem colocar o dinheiro no tesouro do templo por ser preço de sangue, e compram com ele o campo do oleiro para sepultar estrangeiros. Por isso o lugar passou a ser chamado campo de sangue, o Hacéldama de Atos 1:19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).

Mateus vê nisso o cumprimento de uma profecia que atribui a Jeremias (27:9-10). O texto citado se aproxima mais de Zacarias 11:12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que menciona as trinta moedas e o oleiro, mas combina elementos de Jeremias, que fala do oleiro (Jr 18–19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e da compra de um campo (Jr 32:6-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Era comum no judaísmo da época citar textos combinados mencionando apenas o profeta mais importante, como faz Marcos ao atribuir a Isaías uma citação que combina Malaquias e Isaías (Mc 1:2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O destino de Judas contrasta com o de Pedro. Ambos falharam gravemente na mesma noite. Pedro chorou e foi restaurado; Judas mergulhou no desespero e não buscou o perdão de Jesus. A diferença não está na gravidade do pecado, mas na esperança. A história de Judas é trágica e deve ser lida com sobriedade e compaixão. Para quem lê este texto atravessando momentos de desespero, vale lembrar que o Evangelho anuncia perdão para todo pecado e que nenhuma situação está fora do alcance da graça. Se o peso se tornar insuportável, é importante buscar ajuda de pessoas de confiança, da comunidade cristã e de profissionais; no Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende gratuitamente pelo telefone 188.

Jesus diante de Pilatos: Barrabás e as mãos lavadas (27:11-26)

Jesus comparece diante de Pôncio Pilatos, prefeito romano da Judeia de 26 a 36 d.C. Sua existência e seu título foram confirmados por uma inscrição encontrada em Cesareia Marítima em 1961, que o designa como prefeito da Judeia. Pilatos pergunta se ele é o rei dos judeus, a acusação política que interessava a Roma. Jesus responde de forma afirmativa e reservada, como diante de Caifás. Diante das muitas acusações dos sacerdotes e anciãos, porém, permanece em silêncio, a ponto de o governador ficar muito admirado (27:11-14).

Havia o costume de o governador soltar um preso escolhido pelo povo durante a festa. Esse costume não é atestado em fontes fora dos Evangelhos, mas há paralelos no mundo antigo. A Mishná menciona a possibilidade de preparar a Páscoa para alguém que fosse libertado da prisão (Pesachim 8:6), embora o alcance dessa referência seja discutido. Havia então um preso famoso chamado Barrabás. Alguns manuscritos antigos, conhecidos já por Orígenes no século III, o chamam de Jesus Barrabás (27:16-17), e muitos estudiosos consideram essa leitura original. Se for o caso, a ironia é extraordinária. O nome aramaico Barrabás significa "filho do pai", e Pilatos oferece ao povo a escolha entre dois Jesus: o "filho do pai" que era um criminoso, e Jesus chamado Cristo, o verdadeiro Filho do Pai.

Só Mateus registra que a mulher de Pilatos lhe mandou um recado durante o julgamento: que não se envolvesse com aquele justo, porque sofrera muito em sonho por causa dele (27:19). Os sonhos, que guiaram José e os magos na infância (1:20; 2:12-22), reaparecem agora como advertência. Uma mulher gentia reconhece a inocência de Jesus, enquanto os líderes de Israel buscam sua morte.

Os principais sacerdotes e anciãos persuadem a multidão a pedir Barrabás e a morte de Jesus. Pilatos pergunta o que fará com Jesus chamado Cristo, e todos respondem que seja crucificado. Ele pergunta que mal ele fez, mas eles gritam ainda mais. Vendo que nada conseguia e que o tumulto aumentava, Pilatos toma água, lava as mãos diante da multidão e se declara inocente do sangue daquele justo (27:24). O gesto evoca o ritual de Deuteronômio 21:6-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em que os anciãos de uma cidade lavavam as mãos para declarar inocência diante de um homicídio cujo autor era desconhecido. Mas a água não apaga a responsabilidade de quem tem autoridade e escolhe a omissão. O Credo Apostólico conserva para sempre o nome de Pilatos: Jesus padeceu sob Pôncio Pilatos.

O povo então responde que o sangue de Jesus caia sobre eles e sobre seus filhos (27:25). Este versículo foi terrivelmente usado ao longo da história para acusar o povo judeu de "deicídio" e justificar perseguições. Essa leitura é uma distorção grave e deve ser rejeitada. Em primeiro lugar, a frase foi dita por uma multidão manipulada pelos líderes (27:20), e não representa todo o povo judeu daquela época, menos ainda os judeus de outras épocas. A declaração Nostra Aetate (1965), do Concílio Vaticano II, afirma explicitamente que o que se cometeu na paixão não pode ser imputado indistintamente a todos os judeus de então, nem aos de hoje. Em segundo lugar, há uma ironia teológica profunda no próprio Mateus: o sangue de Jesus é o sangue da aliança derramado para perdão dos pecados (26:28). Para o leitor cristão, esse sangue não é maldição, mas a única esperança de perdão, para judeus e gentios. A responsabilidade pela morte de Jesus, segundo a fé cristã, pertence a toda a humanidade pecadora, por quem ele morreu.

Pilatos solta Barrabás e, depois de mandar açoitar Jesus, entrega-o para ser crucificado (27:26). O açoite romano era feito com um chicote de várias tiras de couro, às vezes com pedaços de osso ou metal, e podia causar ferimentos gravíssimos. A cena de Barrabás tornou-se, na tradição cristã, uma imagem viva da substituição: o culpado é libertado, e o inocente morre em seu lugar. Essa leitura é temática, mas coerente com o sentido que Mateus atribui à morte de Jesus (20:28).

A coroação de zombaria e a crucificação (27:27-44)

Os soldados levam Jesus ao pretório, a residência oficial do governador, e reúnem toda a coorte, uma unidade militar que, em tese, podia ter algumas centenas de homens. Despem-no e colocam sobre ele um manto escarlate, provavelmente a capa militar dos soldados romanos. Tecem uma coroa de espinhos e a colocam em sua cabeça, põem uma cana em sua mão direita como cetro, ajoelham-se diante dele e zombam, saudando-o como rei dos judeus, numa paródia da saudação ao imperador. Cospem nele e batem com a cana em sua cabeça (27:27-31). É uma coroação ao contrário. O leitor sabe, porém, que ele é o verdadeiro Rei, e que a coroa de espinhos é, de fato, a coroa do Reino que vence pelo sofrimento.

Ao saírem, encontram um homem de Cirene, cidade do norte da África, chamado Simão, e o obrigam a carregar a cruz de Jesus (27:32). Marcos acrescenta que ele era pai de Alexandre e Rufo (Mc 15:21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), provavelmente pessoas conhecidas na comunidade cristã (cf. Rm 16:13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Simão se torna, literalmente, o primeiro a carregar a cruz atrás de Jesus, a imagem concreta do discipulado anunciado em 16:24.

Chegam ao Gólgota, palavra aramaica que significa "lugar da caveira", traduzida em latim por Calvaria, de onde vem "Calvário". Oferecem a Jesus vinho misturado com fel, em eco ao Salmo 69:21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Ele prova, mas não quer beber, talvez recusando um entorpecente que diminuiria a consciência (27:33-34). Então o crucificam e repartem suas vestes, lançando sortes, como no Salmo 22:18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Mateus narra a crucificação em poucas palavras, sem detalhar a dor física. Os leitores antigos sabiam o que significava. Cícero chamou a crucificação de crudelissimum taeterrimumque supplicium, o suplício mais cruel e mais repugnante (Contra Verres 2.5.165), reservado a escravos, rebeldes e criminosos das classes mais baixas.

Sobre a cabeça de Jesus colocam a acusação: este é Jesus, o rei dos judeus (27:37). O título que os magos usaram com reverência no início do Evangelho (2:2) é agora a acusação oficial. Com ele são crucificados dois bandidos, um à direita e outro à esquerda (27:38). A ironia é dolorosa: estes são os lugares que os filhos de Zebedeu haviam pedido no Reino (20:21).

Os que passam blasfemam, balançando a cabeça (cf. Sl 22:7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o desafiam: ele, que destruiria o templo e o reconstruiria em três dias, que salve a si mesmo; se é Filho de Deus, que desça da cruz (27:39-40). A frase repete quase literalmente a tentação do deserto (4:3, 6). Os principais sacerdotes, escribas e anciãos zombam: salvou os outros e não pode salvar a si mesmo; se é o rei de Israel, que desça da cruz, e eles crerão. Confiou em Deus; que Deus o livre agora, se o ama, porque disse que era Filho de Deus (27:41-43), numa retomada do Salmo 22:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Até os bandidos o insultam (27:44). A ironia é a mais profunda de todo o Evangelho. Os zombadores dizem a verdade sem saber: ele de fato salvou outros e não salvou a si mesmo. Mas não porque não pudesse, e sim porque, para salvar os outros, escolheu não salvar a si mesmo. Se descesse da cruz, não haveria salvação.

A morte de Jesus e os sinais que a acompanham (27:45-56)

Desde a sexta hora até a nona, isto é, do meio-dia às três da tarde, há trevas sobre toda a terra (27:45). As trevas evocam a praga que precedeu a Páscoa no Egito (Êx 10:21-23) e o dia do juízo anunciado por Amós, em que o sol se poria ao meio-dia (Am 8:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Por volta da hora nona, Jesus clama em alta voz, em aramaico com traços hebraicos, as primeiras palavras do Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), perguntando ao seu Deus por que o abandonou (27:46). É a única palavra de Jesus na cruz registrada por Mateus.

O clamor tem sido interpretado de duas maneiras complementares:

Alguns dos presentes pensam que ele chama Elias, confundindo o nome de Deus (Eli) com o do profeta. Um deles oferece a Jesus uma esponja embebida em vinagre, provavelmente a posca, vinho azedo misturado com água que os soldados bebiam (cf. Sl 69:21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus clama novamente em alta voz e entrega o espírito (27:50). A expressão grega (aphēken to pneuma) sugere uma entrega ativa: Jesus não é simplesmente vencido pela morte, mas entrega a própria vida.

Imediatamente acontecem sinais extraordinários (27:51-53). O véu do santuário se rasga em dois, de alto a baixo. Provavelmente se trata do véu interior, que separava o Santo dos Santos, onde só o sumo sacerdote entrava uma vez por ano. O rasgo de cima para baixo indica que é obra de Deus. O sinal tem dupla leitura, ambas legítimas. Ele significa o acesso aberto a Deus pela morte de Cristo, como desenvolve a carta aos Hebreus, que fala do novo e vivo caminho através do véu, que é sua carne (Hb 10:19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E significa também o juízo sobre o templo, cuja função chega ao fim, como Jesus anunciara (24:2). A terra treme, as rochas se partem, os sepulcros se abrem, e muitos corpos de santos que dormiam ressuscitam e, depois da ressurreição de Jesus, entram na cidade santa e aparecem a muitos.

Este último episódio, exclusivo de Mateus, é um dos mais enigmáticos do Novo Testamento. Muitos o leem como evento histórico literal, sinal antecipado da ressurreição. Outros, sem negar a ressurreição de Jesus, o entendem como linguagem apocalíptica, inspirada em Ezequiel 37:12-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Daniel 12:2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), para expressar que a morte de Jesus inaugura a vitória sobre a morte; essa possibilidade gerou debate entre estudiosos evangélicos, como no caso de Michael Licona em 2010. Em qualquer leitura, Mateus afirma que a morte de Jesus não é o fim, mas o começo da derrota da morte.

O centurião e os soldados que guardavam Jesus, ao verem o terremoto e tudo o que acontecia, ficam aterrorizados e declaram que verdadeiramente aquele homem era Filho de Deus (27:54). É o clímax da revelação de identidade em Mateus. O título que os discípulos confessaram no barco (14:33), que Pedro confessou em Cesareia (16:16), que o sumo sacerdote usou como acusação (26:63) e que os zombadores usaram como escárnio (27:40, 43), é agora confessado por gentios, soldados romanos que executaram Jesus. A missão às nações começa ao pé da cruz.

Mateus registra ainda a presença de muitas mulheres que observavam de longe (27:55-56). Elas haviam seguido Jesus desde a Galileia e o serviam. Entre elas estão Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu, a mesma que pedira lugares de honra para os filhos (20:20). Os discípulos homens fugiram; as mulheres permaneceram. Elas serão testemunhas da morte, do sepultamento e da ressurreição.

O sepultamento e a guarda do túmulo (27:57-66)

Ao entardecer, um homem rico de Arimateia, chamado José, que também se tornara discípulo de Jesus, vai a Pilatos e pede o corpo. A Lei determinava que o corpo de um executado não permanecesse no madeiro durante a noite (Dt 21:22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o sábado estava para começar. Pilatos ordena que o corpo lhe seja entregue. José o envolve num lençol limpo e o coloca em seu próprio túmulo novo, escavado na rocha, e rola uma grande pedra na entrada (27:57-60). O detalhe de que José era rico ecoa Isaías 53:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em que o Servo é sepultado com o rico em sua morte. Maria Madalena e a outra Maria estão sentadas diante do sepulcro (27:61). Elas sabem exatamente onde Jesus foi sepultado.

No dia seguinte, os principais sacerdotes e fariseus vão a Pilatos e lembram que aquele "enganador" dissera que ressuscitaria depois de três dias. Pedem que o sepulcro seja guardado até o terceiro dia, para que os discípulos não roubem o corpo e digam ao povo que ele ressuscitou, o que seria um engano pior que o primeiro. Pilatos responde que eles têm uma guarda e que a usem como quiserem. A expressão pode significar que ele concede uma guarda romana ou que remete à guarda do templo. Eles então vão, selam a pedra e colocam os guardas (27:62-66). A ironia é final. Os líderes, que não entenderam as palavras de Jesus sobre a ressurreição quando ele estava vivo, agora as levam a sério depois de sua morte. E as precauções que tomaram para impedir a fraude se tornarão parte do testemunho de que o túmulo foi encontrado vazio.

A contribuição do bloco para o livro e para a Bíblia

A paixão é o centro de gravidade do Evangelho de Mateus. Tudo o que veio antes conduz a ela: o nome Jesus, que salva o povo dos pecados (1:21); o Servo que carrega as enfermidades (8:17); o Filho do Homem que dá a vida em resgate (20:28). E tudo o que vem depois dela decorre. Mateus narra a morte de Jesus com sobriedade nos detalhes físicos, mas com enorme densidade teológica. Ela é o cumprimento das Escrituras, a obediência perfeita do Filho, a instituição da nova aliança, a entronização paradoxal do Rei e o início da missão às nações. No conjunto da Bíblia, a paixão reúne a Páscoa do Êxodo, a aliança do Sinai, a nova aliança de Jeremias, o Servo de Isaías, o justo sofredor dos Salmos e o pastor ferido de Zacarias, mostrando que toda a história de Israel encontra seu ponto culminante no Calvário.

Visão cristocêntrica:

A conexão com Cristo é direta e explícita: este é o coração da obra de Cristo.

  • Cristo, o verdadeiro cordeiro pascal. Jesus morre no contexto da Páscoa, e seu sangue, como o do cordeiro no Egito, livra da morte. Paulo o resume: Cristo, nossa Páscoa, foi sacrificado (1Co 5:7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
  • Cristo, o mediador da nova aliança. No cálice da ceia, Jesus estabelece a aliança prometida por Jeremias, selada com seu sangue e voltada para o perdão dos pecados.
  • Cristo, o Servo sofredor de Isaías. Ele cala diante dos acusadores, é desprezado, ferido, contado com os transgressores, derrama a vida pelos muitos e é sepultado com o rico. A paixão segundo Mateus é Isaías 53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) em forma narrativa.
  • Cristo, o justo dos Salmos 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 69. As zombarias, as vestes repartidas, o vinagre e o grito de abandono mostram Jesus vivendo até o fim a oração do justo sofredor, que termina em vindicação e louvor das nações.
  • Cristo, o Filho obediente. No Getsêmani, Jesus submete sua vontade humana à vontade do Pai. Onde Adão desobedeceu, Cristo obedece até a morte (Rm 5:19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Fp 2:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
  • Cristo, o Rei coroado de espinhos. O título de rei dos judeus é usado em zombaria, mas é verdadeiro. A cruz é o trono do Rei que vence o mal não pela força, mas pelo amor que se entrega.
  • Cristo, o Filho de Deus confessado pelas nações. O centurião romano proclama ao pé da cruz o que os discípulos confessaram e o que o sumo sacerdote rejeitou. A cruz revela, mais que qualquer milagre, quem Jesus é.
  • Cristo, o substituto. Na troca com Barrabás, na morte entre bandidos e no clamor de abandono, Mateus mostra o justo tomando o lugar dos injustos (cf. 1Pe 3:18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A leitura de Barrabás como imagem da substituição é temática, mas coerente com o sentido que Jesus deu à sua morte (20:28; 26:28).

Aplicações espirituais e práticas:

  1. O amor que não calcula. A mulher de Betânia derramou um perfume caríssimo sobre Jesus, e os discípulos chamaram isso de desperdício. Há momentos em que o amor a Cristo se expressa de forma "excessiva" aos olhos dos calculistas: tempo dedicado à oração, generosidade além do esperado, entrega de algo precioso. Jesus defende esse amor e o torna memorável. A aplicação é perguntar se nossa devoção a Cristo é apenas racional e medida, ou se há espaço para gestos de amor desinteressado.

  2. Vigiar e orar na hora da prova. No Getsêmani, Jesus orou e venceu; os discípulos dormiram e caíram. A diferença entre os dois não estava na força natural, mas na oração. A advertência de Jesus vale para toda crise: vigiar e orar para não cair em tentação, porque o espírito está pronto, mas a carne é fraca. Diante de decisões difíceis, pressões e tentações, a oração sincera, inclusive a que expressa angústia, é o lugar onde a vontade humana se alinha à vontade de Deus.

  3. Rendição, e não resignação. Jesus pediu que o cálice passasse, mas terminou dizendo que fosse feita a vontade do Pai. A oração cristã não é um método para impor nossa vontade a Deus, nem uma resignação passiva. É uma luta honesta que termina em confiança. Em situações de doença, perda ou incerteza, podemos pedir com sinceridade o que desejamos e, ao mesmo tempo, entregar o resultado nas mãos do Pai.

  4. A queda não é o fim: Pedro e Judas. Pedro e Judas falharam gravemente na mesma noite. Um chorou e foi restaurado; o outro desesperou. A lição é que nenhum fracasso, por maior que seja, está fora do alcance do perdão de Cristo. Quem caiu em pecado, traiu a confiança de alguém ou negou a própria fé não deve fugir de Jesus, mas voltar a ele com lágrimas de arrependimento. E quem convive com alguém em desespero deve oferecer presença, escuta e ajuda concreta, inclusive profissional.

  5. Não lavar as mãos. Pilatos sabia que Jesus era inocente, mas preferiu a conveniência política e tentou se isentar com um gesto simbólico. A tentação de lavar as mãos aparece sempre que alguém com autoridade, como gestores, juízes, advogados, líderes e pais, vê uma injustiça e se omite para evitar desgaste. A responsabilidade não desaparece por um gesto ou uma declaração. O discípulo é chamado a agir com integridade, mesmo quando isso custa.

  6. Ser Simão de Cirene para os outros. Simão foi obrigado a carregar a cruz de Jesus, e seu nome entrou para a história do Evangelho. Hoje, Cristo continua presente nos que sofrem (25:40), e há muitas cruzes a carregar junto com eles: doenças, perdas, injustiças, solidão. Ajudar alguém a carregar seu peso é uma forma concreta de seguir Jesus no caminho do Calvário.

  7. Permanecer perto da cruz. Os discípulos fugiram, mas as mulheres permaneceram, observando de longe, e foram as primeiras testemunhas do sepultamento e da ressurreição. José de Arimateia, discípulo discreto, encontrou coragem para se identificar com Jesus no momento mais perigoso. A fidelidade nem sempre se mostra em grandes ações; muitas vezes é simplesmente permanecer quando todos vão embora. A aplicação é manter-se perto de Cristo e dos que sofrem, mesmo quando não há nada de glorioso para ver.

Mensagem de reflexão:

Sabedoria para o Cotidiano
Na paixão, vemos tudo o que o coração humano é capaz de fazer: trair por dinheiro, dormir na hora da oração, negar por medo, condenar o inocente, zombar do sofrimento e lavar as mãos. E vemos também até onde vai o amor de Deus: o Filho obediente bebe o cálice, cala diante dos acusadores, recusa descer da cruz e entrega o próprio sangue para perdão dos pecados. Quando sua falha parecer grande demais, lembre-se de Pedro, que chorou e foi restaurado; quando a dor parecer sem sentido, lembre-se do centurião, que ao pé da cruz descobriu quem Jesus realmente é. O Rei coroado de espinhos reina por amor, e é a esse amor que você pode se entregar hoje.

Interpretação e comentários da Bíblia, sob direção editorial de José Carlos Fortes. Conteúdo elaborado com apoio de inteligência artificial, sob curadoria e revisão editorial. Esta página não reproduz texto bíblico protegido: traz referência, interpretação e comentário.