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Mateus · 40 de 66 · Novo Testamento

Mateus — Bloco 9: A Comunidade do Reino: Humildade, Cuidado e Perdão

Capítulos principais: Mateus 18:1-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).

Tema central do bloco:

O quarto grande discurso de Mateus é conhecido como o discurso eclesial ou discurso sobre a comunidade. Em 16:18, Jesus anunciou que edificaria a sua igreja. Agora ensina como essa igreja deve viver por dentro. O ponto de partida é uma pergunta dos discípulos que revela exatamente o espírito que deve ser vencido: quem é o maior no Reino dos céus? A resposta de Jesus inverte a lógica do poder e coloca no centro uma criança.

A partir daí, o discurso trata de quatro temas que formam o tecido da vida comunitária:

  • a humildade, que define a verdadeira grandeza (18:1-5);
  • o cuidado com os pequeninos, os vulneráveis e os que se desviam, com a advertência contra fazê-los tropeçar e a busca da ovelha perdida (18:6-14);
  • a correção fraterna e a autoridade da comunidade, que visam sempre a restauração (18:15-20);
  • o perdão sem limites, ilustrado pela parábola do servo impiedoso (18:21-35).

O discurso equilibra duas forças que muitas comunidades separam. De um lado está a seriedade com o pecado: o tropeço é tratado com imagens radicais, e há um processo de correção que pode chegar à exclusão. Do outro estão a ternura e a misericórdia: Deus não quer que nenhum pequenino se perca, o pastor deixa as noventa e nove para buscar uma ovelha, e o perdão deve ser concedido sem medida. A comunidade de Jesus não é um clube de perfeitos nem um lugar onde o pecado é ignorado. É uma família de pecadores perdoados, que se corrigem com amor e se perdoam porque foram perdoados.

Versículos-chave do Livro estudado:

Versículos relacionados em outros Livros da Bíblia:

Explicação teológica e bíblica:

Quem é o maior? A criança no centro (18:1-5)

O discurso começa com uma pergunta que revela a preocupação dos discípulos com status e hierarquia: quem é o maior no Reino dos céus? A pergunta é especialmente irônica depois de Jesus ter anunciado duas vezes sua paixão (16:21; 17:22-23). Enquanto o Mestre fala de cruz, os discípulos pensam em posições. A disputa voltará em 20:20-28.

Jesus responde com um gesto: chama uma criança e a coloca no meio deles. É preciso cuidado para não romantizar a cena. No mundo antigo, a criança não era símbolo de inocência ou pureza, como tende a ser na sensibilidade moderna, mas de ausência de status. Ela não tinha direitos legais, poder econômico nem prestígio social, e dependia inteiramente dos outros. Por isso a declaração de Jesus é desconcertante: se os discípulos não se converterem e não se tornarem como crianças, nem entrarão no Reino (18:3). O verbo strephō indica uma mudança de direção, uma verdadeira conversão de mentalidade.

Jesus especifica em que consiste ser como criança: humilhar-se (tapeinoō) como ela (18:4). Não se trata de imitar características infantis como ingenuidade ou imaturidade, mas de assumir uma posição: reconhecer a própria pequenez e dependência diante de Deus, renunciando à busca de grandeza. Quem se humilha assim é o maior no Reino. A grandeza do Reino é inversa à grandeza do mundo.

O versículo 18:5 amplia o foco. Quem recebe uma criança como esta em nome de Jesus recebe o próprio Jesus. A "criança" aqui já começa a representar não só as crianças literais, mas todos os pequeninos, os discípulos humildes e vulneráveis da comunidade. Jesus se identifica com eles, como fizera com os enviados em 10:40-42.

A gravidade do tropeço e a seriedade do pecado (18:6-9)

Se receber um pequenino é receber Jesus, fazê-lo tropeçar é algo gravíssimo. O verbo skandalizō significa colocar uma pedra no caminho que faz alguém cair, isto é, levar alguém a abandonar a fé ou a pecar. Jesus afirma que seria melhor para essa pessoa que lhe pendurassem ao pescoço uma grande mó de moinho e a lançassem no fundo do mar (18:6). A expressão grega fala de uma mó "de jumento", a pedra pesada dos moinhos movidos por animais, muito maior que a mó manual doméstica. O afogamento com peso amarrado ao corpo era uma forma de execução conhecida na antiguidade; Suetônio registra que o imperador Augusto a usou como punição (Vida de Augusto 67.2). A imagem é deliberadamente chocante.

Jesus reconhece que os tropeços são inevitáveis num mundo marcado pelo pecado, mas pronuncia um "ai" sobre quem os causa (18:7). E repete as imagens radicais já usadas no Sermão do Monte (5:29-30): se a mão, o pé ou o olho levam alguém a tropeçar, é melhor cortá-los ou arrancá-los do que ser lançado no fogo eterno, na Geena (18:8-9). Como no Sermão, trata-se de hipérbole, e não de ordem literal. A diferença é que aqui o contexto é comunitário. O que está em jogo não é apenas o pecado individual, mas também o dano que um membro causa aos outros. A comunidade deve tratar com seriedade aquilo que destrói a fé dos mais frágeis.

A ovelha perdida e o valor de cada pequenino (18:10-14)

Jesus adverte contra desprezar um só destes pequeninos e oferece uma razão surpreendente: os anjos deles nos céus contemplam continuamente a face do Pai (18:10). A expressão "ver a face" do rei designava, na linguagem da corte, os servidores de mais alta confiança, com acesso direto ao soberano. Os pequeninos, desprezados na terra, têm representantes junto ao trono de Deus. Esse versículo é uma das bases bíblicas da crença nos anjos da guarda, desenvolvida especialmente na tradição católica e ortodoxa, ao lado de textos como o Salmo 91:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Atos 12:15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Hebreus 1:14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Outras tradições cristãs aceitam o ministério dos anjos em favor dos fiéis sem afirmar um anjo pessoal designado a cada pessoa. O ponto do texto, em qualquer leitura, é o valor que os pequeninos têm diante de Deus. O versículo 18:11, presente em algumas traduções, não consta nos manuscritos mais antigos de Mateus e parece ter sido incorporado a partir de Lucas 19:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).

Segue a parábola da ovelha que se extravia (18:12-14). Um homem tem cem ovelhas, e uma se desgarra. Ele deixa as noventa e nove nos montes e vai procurar a que se perdeu. Se a encontra, alegra-se mais por ela do que pelas noventa e nove que não se perderam. Lucas narra uma parábola semelhante em outro contexto (Lc 15:3-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): ali, ela responde aos fariseus que criticavam Jesus por receber pecadores. Em Mateus, o contexto é a vida da comunidade, e a ovelha não está "perdida" no sentido de nunca ter pertencido ao rebanho. Ela se extraviou: o verbo planaō significa vaguear, desviar-se. É o discípulo que se afastou da fé ou da comunhão. A lição é pastoral: a comunidade não deve abandonar os que se desviam, mas buscá-los ativamente, como Deus prometeu fazer em Ezequiel 34:16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em contraste com os maus pastores que não procuraram a perdida (Ez 34:4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O discurso deixa claro qual é a vontade do Pai: que nenhum destes pequeninos se perca (18:14). Essa frase é a chave de leitura de tudo o que segue. A correção fraterna e até a disciplina devem ser entendidas à luz desse propósito: buscar e recuperar, e não descartar.

A correção fraterna: um caminho de restauração (18:15-17)

O que fazer quando um irmão peca? Jesus estabelece um caminho em etapas. Alguns manuscritos trazem "se teu irmão pecar contra ti", e outros omitem "contra ti"; os estudiosos se dividem, e a diferença afeta o alcance do texto. Em qualquer caso, o processo é este:

  • Em particular (18:15). O primeiro passo é ir até ele e mostrar o erro a sós. Se ele ouvir, o irmão foi "ganho". O verbo é o mesmo usado para ganhar alguém para a fé. O objetivo é recuperar o irmão, não vencer uma discussão.
  • Com testemunhas (18:16). Se ele não ouvir, deve-se voltar com uma ou duas pessoas, para que toda questão seja confirmada pelo depoimento de duas ou três testemunhas, segundo o princípio de Deuteronômio 19:15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). As testemunhas protegem tanto o acusado quanto o acusador contra mal-entendidos, exageros e injustiças.
  • Diante da igreja (18:17a). Se ele se recusar a ouvi-los, o caso deve ser levado à igreja. É a segunda vez que Mateus usa o termo ekklēsia, agora no sentido de comunidade local reunida.
  • A exclusão (18:17b). Se ele se recusar até a ouvir a igreja, deve ser tratado como um gentio e um publicano.

Esta última frase precisa ser lida com atenção. Para a comunidade judaica, gentios e publicanos estavam fora da comunhão religiosa. A expressão indica, portanto, uma exclusão real da vida comunitária, como a que Paulo aplicará em Corinto (1Co 5:1-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas é impossível esquecer como Jesus tratou gentios e publicanos: ele comeu com eles, chamou um publicano, Mateus, para ser apóstolo, e elogiou a fé de gentios. Tratar alguém como gentio e publicano significa reconhecer que essa pessoa se colocou fora da comunhão, mas também torná-la objeto da missão e do amor que busca a conversão. Paulo confirma esse propósito: a disciplina visa a salvação (1Co 5:5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele orienta a não considerar o disciplinado como inimigo, mas a admoestá-lo como irmão (2Ts 3:14-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e manda perdoar, consolar e reafirmar o amor a quem se arrependeu (2Co 2:6-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A comunidade de Qumran também tinha um procedimento de repreensão diante de testemunhas (Regra da Comunidade, 1QS V, 25–VI, 1), o que mostra que Jesus dialoga com práticas judaicas da época, mas as orienta pela lógica da misericórdia.

Dois desvios devem ser evitados na aplicação desse texto. O primeiro é a omissão: ignorar o pecado, comentar pelas costas e evitar a conversa direta. O segundo é o autoritarismo: usar o processo para controlar, humilhar ou expulsar pessoas incômodas, sem humildade nem desejo real de restauração. O caminho de Jesus é exigente com o pecado e generoso com o pecador.

Ligar e desligar, a oração em acordo e a presença de Cristo (18:18-20)

A autoridade de ligar e desligar, antes dada a Pedro (16:19), agora é confiada à comunidade, com o verbo no plural (18:18). Como vimos no Bloco 8, eram expressões rabínicas para proibir e permitir, ou para impor e retirar sanções disciplinares. A construção grega é um futuro perfeito perifrástico, e alguns tradutores a vertem como "terá sido ligado nos céus". Essa nuance sugere que a comunidade, ao decidir com fidelidade, confirma na terra o que já foi decidido no céu, e não que impõe ao céu sua própria vontade. Nem todos os gramáticos concordam com o peso dessa nuance, mas ela ajuda a entender que a autoridade da Igreja é derivada e submissa à vontade de Deus.

Jesus acrescenta uma promessa sobre a oração em acordo (18:19). Se dois discípulos concordarem na terra sobre qualquer coisa que pedirem, isso lhes será concedido pelo Pai. O verbo symphōneō deu origem à palavra "sinfonia": é um acordo harmonioso. No contexto, a promessa está ligada às decisões disciplinares, pois as duas ou três pessoas do versículo 16 reaparecem aqui. Em sentido mais amplo, expressa o valor da oração comunitária feita em unidade.

O fundamento de tudo isso é a presença de Jesus (18:20): onde dois ou três estão reunidos em seu nome, ali ele está no meio deles. Há um paralelo notável na tradição judaica. A Mishná registra o ensino de que, quando duas pessoas se sentam juntas e as palavras da Torá estão entre elas, a Shekhiná, a presença de Deus, repousa sobre elas (Avot 3:2). Jesus fala de si mesmo no lugar da Shekhiná e no lugar da Torá. Ele é o Emanuel, o Deus conosco (1:23), presente em sua comunidade reunida e que estará com os seus todos os dias (28:20). A autoridade da Igreja não vem do número de pessoas nem de sua organização, mas da presença do Senhor.

O perdão sem medida e o servo impiedoso (18:21-35)

Pedro faz a pergunta que muitos fariam: quantas vezes devo perdoar o irmão que peca contra mim? Até sete vezes? (18:21). Para a época, a proposta parecia generosa. Uma tradição rabínica posterior, atribuída ao rabino Yosé bar Judá, ensinava que se devia perdoar até três vezes, mas não uma quarta (Talmude Babilônico, Yoma 86b). Pedro mais que dobra esse número e chega ao número da plenitude.

A resposta de Jesus ultrapassa qualquer cálculo: não até sete, mas até setenta vezes sete (18:22). O grego pode ser traduzido como "setenta e sete vezes" ou "setenta vezes sete", e as traduções variam. Em qualquer caso, o ponto é que o perdão não deve ser contabilizado. Há aqui um eco intencional de Gênesis 4:24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). A tradução grega dessa passagem usa exatamente a mesma expressão para descrever a vingança ilimitada de Lameque, descendente de Caim, que se vingaria setenta e sete vezes. Jesus inverte a espiral da violência humana: onde Lameque multiplicava a vingança, o discípulo multiplica o perdão.

Para ilustrar, Jesus conta a parábola do servo impiedoso (18:23-35), exclusiva de Mateus. Um rei decide acertar contas com seus servos, e é trazido um que lhe devia dez mil talentos. O talento era a maior unidade de valor da época e equivalia a cerca de seis mil denários; um denário era o salário de um dia de trabalho. Dez mil talentos correspondiam, portanto, a cerca de sessenta milhões de dias de trabalho, uma soma literalmente impagável. Para comparação, Josefo informa que a renda anual de todos os territórios herdados pelos filhos de Herodes, o Grande, somava algumas centenas de talentos (Antiguidades 17.317-320). O número "dez mil" (myrioi) era também o maior número usado na contagem grega. Jesus escolhe propositalmente uma quantia absurda.

Como o servo não pode pagar, o senhor ordena que ele seja vendido com a mulher, os filhos e todos os bens, prática que existia no mundo antigo para dívidas (cf. 2Rs 4:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O servo se prostra e pede paciência, prometendo pagar tudo, uma promessa impossível. O senhor, movido de compaixão, faz muito mais do que ele pediu: liberta-o e perdoa toda a dívida.

Ao sair, porém, o servo encontra um companheiro que lhe devia cem denários, cerca de cem dias de trabalho, uma quantia real, mas pagável. Agarra-o pelo pescoço, sufoca-o e exige o pagamento. O companheiro se prostra e faz exatamente o mesmo pedido que o servo havia feito ao rei. Mas o servo se recusa e o lança na prisão até que pague a dívida. Os outros servos, profundamente entristecidos, contam tudo ao senhor. O rei o chama de servo mau e lhe pergunta se não deveria ter tido compaixão do companheiro, assim como ele teve compaixão dele. Indignado, entrega-o aos carcereiros, os basanistai, termo que designava os torturadores das prisões, até que pague toda a dívida, isto é, para sempre, já que ela é impagável. Jesus conclui: assim também o Pai celeste fará com quem não perdoar de coração ao seu irmão (18:35).

A parábola levanta uma questão teológica importante: o perdão de Deus é condicional? O texto deve ser lido em conjunto com a Oração do Senhor e o comentário de Jesus (6:12, 14-15). A lógica da parábola não é que o perdão de Deus seja conquistado por nosso perdão aos outros. O perdão do rei veio primeiro, gratuitamente e por compaixão. O ponto é que quem realmente recebeu um perdão tão grande será transformado por ele, e a recusa obstinada em perdoar revela que a graça não foi verdadeiramente acolhida. As tradições cristãs explicam essa relação com nuances diferentes, mas concordam em que o perdão recebido e o perdão concedido são inseparáveis. A expressão "de coração" é decisiva: não se trata de um perdão apenas formal, mas de uma disposição interior.

Uma nota pastoral é indispensável, porque esse texto foi às vezes usado de forma prejudicial. Perdoar não é o mesmo que:

  • Negar a gravidade do mal sofrido. O perdão não exige que se finja que a ofensa foi pequena.
  • Reconciliar-se automaticamente. A reconciliação depende também do arrependimento do ofensor e pode exigir tempo.
  • Restabelecer de imediato a confiança. A confiança pode precisar ser reconstruída gradualmente.
  • Abrir mão da justiça. Em casos de crimes, como abuso, violência ou fraude, o perdão pessoal não substitui a responsabilidade legal, e as autoridades civis têm a missão de coibir o mal (Rm 13:1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
  • Permanecer numa situação de abuso. O perdão não obriga a vítima a continuar exposta ao agressor.

O processo de Mateus 18:15-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), por sua vez, foi pensado para ofensas entre irmãos, e não para encobrir crimes graves, especialmente contra crianças e vulneráveis. Isso seria, aliás, uma forma gravíssima de fazê-los tropeçar (18:6). O perdão bíblico é liberar o ofensor da dívida pessoal e renunciar à vingança, entregando a justiça a Deus (Rm 12:19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), sem negar a verdade nem a responsabilidade.

O discurso se encerra com a fórmula característica (19:1): quando Jesus terminou estas palavras, deixou a Galileia e foi para a região da Judeia, além do Jordão. Essa transição marca o início da viagem a Jerusalém (Bloco 10).

A contribuição do bloco para o livro e para a Bíblia

O capítulo 18 é a carta constitutiva da comunidade de Jesus em Mateus. Depois de anunciar a igreja (16:18), o Evangelho mostra seu caráter: uma comunidade onde a grandeza é medida pela humildade, os vulneráveis são protegidos, os que se desviam são buscados, o pecado é confrontado com amor e o perdão não tem limites. Dentro do Evangelho, o discurso aprofunda o tema do Emanuel, porque Jesus está presente no meio da comunidade, e prepara o ensino sobre o serviço que virá no Bloco 10 (20:25-28). No conjunto da Bíblia, ele faz a ponte entre a ética comunitária de Israel, com as testemunhas, a repreensão fraterna e o cuidado do pastor, e as instruções pastorais das cartas apostólicas sobre disciplina, restauração e perdão.

Visão cristocêntrica:

A conexão com Cristo é direta e explícita.

  • Cristo, o maior que se fez menor. Jesus ensina que a grandeza está na humildade porque ele mesmo vive assim. O Filho de Deus se humilhou, assumiu a forma de servo e foi obediente até a morte de cruz (Fp 2:5-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em breve dirá que veio para servir e dar a vida em resgate (20:28). A criança no centro é um retrato do próprio Cristo.
  • Cristo presente nos pequeninos. Receber uma criança em seu nome é receber o próprio Jesus. Ele se identifica com os frágeis da comunidade, e por isso fazê-los tropeçar é ofender o próprio Cristo.
  • Cristo, o Pastor que busca. A parábola da ovelha retrata o coração do Pai e a missão do Filho, que veio buscar e salvar o que estava perdido (Lc 19:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e se apresenta como o bom pastor que dá a vida pelas ovelhas (Jo 10:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele cumpre Ezequiel 34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em que Deus promete buscar pessoalmente as suas ovelhas.
  • Cristo, a presença de Deus na comunidade. Ao prometer estar no meio dos que se reúnem em seu nome, Jesus ocupa o lugar da Shekhiná, a presença divina. Ele é o Emanuel que permanece com o seu povo.
  • Cristo, o preço do perdão impagável. A parábola fala de um rei que perdoa uma dívida impossível de pagar. O Novo Testamento revela o custo desse perdão: Cristo cancelou o documento da dívida que pesava contra nós, cravando-o na cruz (Cl 2:13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O perdão que o rei oferece de graça custou a vida do Filho. Por isso o perdão entre os discípulos nasce da cruz.

Aplicações espirituais e práticas:

  1. Redefinir grandeza na liderança. A pergunta sobre quem é o maior continua presente nas igrejas, nas empresas, nas famílias e nas instituições. Jesus responde colocando no centro alguém sem poder. Para quem exerce liderança, isso significa usar a autoridade para servir, ouvir os que têm menos voz e medir o sucesso pelo cuidado com as pessoas, e não pelo prestígio pessoal. O conceito moderno de "liderança servidora", popularizado por Robert Greenleaf a partir de 1970, encontra aqui uma de suas raízes mais antigas.

  2. Proteger os vulneráveis, sem encobrir o mal. A advertência contra fazer tropeçar os pequeninos tem uma aplicação dolorosamente atual. Casos de abuso em comunidades religiosas, muitas vezes encobertos para preservar reputações, são exatamente o tipo de tropeço que Jesus condena com a imagem da mó de moinho. Toda comunidade cristã deve ter políticas claras de proteção a crianças e vulneráveis, acolher as vítimas, encaminhar crimes às autoridades competentes e jamais colocar a imagem da instituição acima da segurança das pessoas.

  3. Buscar quem se afastou. Em muitas igrejas e grupos, quem deixa de participar é simplesmente esquecido. A parábola da ovelha convida a notar as ausências, telefonar, visitar e perguntar com interesse genuíno. O mesmo vale para famílias, com o filho que se afastou ou o parente distante, e para equipes de trabalho, com o colaborador que se desmotivou. O amor que busca é a marca do Pastor.

  4. Corrigir pessoalmente, e não pelas costas. O primeiro passo de Mateus 18:15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é ir a sós até a pessoa. Isso desafia a cultura da fofoca, da exposição pública e da crítica nas redes sociais. Na prática, antes de comentar com outros ou publicar algo sobre alguém, é preciso conversar diretamente com ele, com humildade e desejo de restauração. O mesmo princípio vale para relações profissionais: o retorno direto e respeitoso é mais eficaz e mais justo que reclamações indiretas.

  5. Disciplina que restaura, e não que destrói. Quando a correção pessoal falha, a comunidade tem responsabilidade de agir. Mas o objetivo é sempre ganhar o irmão. Igrejas e organizações devem evitar tanto a omissão diante de erros graves quanto o uso autoritário da disciplina. Quem conduz processos de correção deve fazê-lo com mansidão, consciente de que também pode cair (Gl 6:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

  6. Perdoar de coração, com sabedoria. O perdão é um dos atos mais difíceis e mais libertadores da vida cristã. Ele nasce da consciência de quanto fomos perdoados. A dívida que temos com Deus é de dez mil talentos; as dívidas dos outros conosco são de cem denários. Pesquisas em psicologia, como as de Everett Worthington, associam o perdão a benefícios para a saúde emocional e física. O motivo cristão, porém, é mais profundo: perdoamos porque fomos perdoados. Perdoar não significa negar a dor, abrir mão da justiça ou se expor novamente ao agressor. Significa renunciar à vingança, entregar a causa a Deus e permitir que a graça recebida transforme o coração.

Mensagem de reflexão:

Sabedoria para o Cotidiano
Na comunidade de Jesus, o maior é o que se faz pequeno, o mais frágil é protegido como se fosse o próprio Cristo, quem se desvia é buscado pelo Pastor e quem erra é corrigido com amor para ser ganho de volta. E, acima de tudo, perdoa-se sem fazer contas, porque cada um de nós recebeu o perdão de uma dívida impossível de pagar. Hoje, pense em quem você precisa procurar, em quem você precisa corrigir com mansidão e em quem você precisa liberar da dívida que guarda no coração; o Senhor está no meio dos que se reúnem em seu nome, e a graça que você recebeu é suficiente para começar.

Interpretação e comentários da Bíblia, sob direção editorial de José Carlos Fortes. Conteúdo elaborado com apoio de inteligência artificial, sob curadoria e revisão editorial. Esta página não reproduz texto bíblico protegido: traz referência, interpretação e comentário.