Antigo Testamento · Outros
Baruque, escriba de Jeremias
- Significado do nome
"Bendito" (do hebraico barukh)
- Posição / vínculo com a Bíblia
Escriba, secretário e companheiro fiel do profeta Jeremias; registrou por escrito as palavras do profeta, leu-as em público no templo e partilhou com ele a perseguição e o exílio no Egito
- Nascimento
Reino de Judá, provavelmente no século VII a.C.
- Testamento
Antigo Testamento
- Grupo
Outros
Síntese histórica
Baruque, filho de Nerias e neto de Maaseias (Jr 32.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), viveu em Judá nos últimos e mais sombrios anos do reino, quando a Babilônia avançava sobre Jerusalém. Escriba de ofício, tornou-se o secretário de Jeremias: escreveu num rolo as profecias que o profeta lhe ditou, leu-as no templo diante do povo e dos príncipes e, quando o rei Jeoaquim queimou o rolo, escreveu-o de novo, ampliado (Jr 36.4-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Guardou também as escrituras da compra de um campo em Anatote, sinal de que Deus traria o povo de volta à terra (Jr 32.12-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Acusado de influenciar Jeremias, foi levado com ele para o Egito depois da queda de Jerusalém (Jr 43.3-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Deus lhe dirigiu uma palavra pessoal, breve e decisiva: não buscar grandes coisas para si mesmo, pois a sua vida lhe seria preservada em meio ao juízo (Jr 45.1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Escritura não registra o fim da sua vida.
História
Contexto e origem
Baruque pertenceu à geração que assistiu ao fim do reino de Judá. Depois da morte do rei Josias, em por volta de 609 a.C., o país oscilou entre o Egito e a Babilônia sob os reis Jeoaquim e Zedequias, até a destruição de Jerusalém por Nabucodonosor, por volta de 586 a.C. (2Rs 23.34–25.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Nesse cenário, Jeremias anunciava o juízo de Deus sobre a infidelidade do povo e era tratado como traidor.
Baruque era filho de Nerias, filho de Maaseias (Jr 32.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Tudo indica que vinha de família de posição: seu irmão Seraías, também filho de Nerias, servia como oficial do rei Zedequias e levou à Babilônia uma mensagem escrita de Jeremias (Jr 51.59-64 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Flávio Josefo registra que Baruque era de família muito destacada e bem instruído na língua de seu povo; é informação extrabíblica, mas coerente com o ofício de escriba, que exigia formação rara na época.
O escriba do profeta
O ofício de escriba incluía redigir documentos, lavrar contratos e registrar oficialmente palavras e decisões. Em Jeremias, Baruque exerce todas essas funções a serviço da palavra de Deus. A Escritura o mostra escrevendo ao ditado do profeta, palavra por palavra (Jr 36.4,18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e agindo como seu representante quando Jeremias estava impedido de ir ao templo (Jr 36.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O rolo lido e queimado
No quarto ano de Jeoaquim, por volta de 605 a.C., Deus ordenou a Jeremias que escrevesse num rolo todas as palavras que lhe dirigira desde os dias de Josias, para que o povo, ouvindo-as, se arrependesse e fosse perdoado (Jr 36.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jeremias ditou, e Baruque escreveu (Jr 36.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Como o profeta estava impedido, Baruque foi ao templo num dia de jejum e leu o rolo diante do povo, na sala de Gemarias, filho de Safã (Jr 36.5-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Micaías, filho de Gemarias, relatou o que ouvira aos príncipes, que mandaram chamar Baruque e pediram que lesse o rolo de novo para eles (Jr 36.11-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ao ouvirem, encheram-se de temor, quiseram saber como o texto fora escrito e, prevendo a reação do rei, aconselharam Baruque e Jeremias a se esconderem (Jr 36.16-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O rolo foi lido diante do rei Jeoaquim, que, à medida que a leitura avançava, cortava as colunas com um canivete e as lançava no fogo do braseiro, até queimar o rolo inteiro, sem que ele e seus servos demonstrassem temor (Jr 36.20-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O rei mandou prender o escriba e o profeta, mas o texto observa que o Senhor os havia escondido (Jr 36.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Deus então ordenou a Jeremias que tomasse outro rolo e escrevesse tudo novamente. Baruque escreveu ao ditado do profeta todas as palavras do primeiro rolo, e muitas outras semelhantes lhes foram acrescentadas (Jr 36.27-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A palavra que o rei tentou destruir voltou, inteira e ampliada.
A palavra pessoal de Deus a Baruque
No mesmo ano em que escreveu o rolo, Baruque recebeu uma mensagem dirigida só a ele (Jr 45.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele se queixava de que Deus acrescentara tristeza à sua dor e de que estava cansado de gemer, sem encontrar descanso (Jr 45.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A resposta do Senhor foi dura e consoladora ao mesmo tempo: Deus estava derrubando o que havia edificado e arrancando o que havia plantado em toda aquela terra; e Baruque não devia buscar grandes coisas para si mesmo. Em troca, Deus lhe daria a vida como despojo, em qualquer lugar para onde fosse (Jr 45.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A Escritura não diz quais eram essas "grandes coisas". Muitos intérpretes supõem que, homem de família influente, Baruque tivesse expectativas de carreira ou de reconhecimento que o serviço a um profeta rejeitado havia frustrado; isso é leitura provável, não texto explícito. O que o texto afirma é que, num tempo de ruína nacional, a ambição pessoal perdia o sentido, e o dom que Deus garantia era a própria vida.
A compra do campo em Anatote
No décimo ano de Zedequias, por volta de 587 a.C., com Jerusalém sitiada e Jeremias preso no pátio da guarda, Deus mandou o profeta comprar o campo de seu primo Hanameel, em Anatote (Jr 32.1-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A compra foi feita com todas as formalidades: pesagem da prata, testemunhas e duas escrituras, uma selada e outra aberta (Jr 32.10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Jeremias entregou os documentos a Baruque diante das testemunhas e o encarregou de guardá-los num vaso de barro, para que durassem muitos dias, porque ainda se comprariam casas, campos e vinhas naquela terra (Jr 32.12-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Enquanto tudo desabava, o escriba guardava um sinal de esperança.
O exílio no Egito
Depois da queda de Jerusalém, o governador Gedalias foi assassinado, e o remanescente, com medo da Babilônia, consultou Jeremias sobre fugir para o Egito (Jr 41.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 42.1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Deus mandou que ficassem na terra (Jr 42.9-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas os líderes recusaram a palavra e acusaram Baruque de incitar Jeremias contra eles, para entregá-los aos caldeus (Jr 43.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O povo partiu assim mesmo, levando Jeremias e Baruque, e chegou a Tafnes, no Egito (Jr 43.5-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É a última vez que a Bíblia menciona Baruque. A promessa de Jr 45.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) permanecia: aonde quer que fosse, a sua vida lhe seria dada.
Fé e fraquezas
Baruque aparece como homem leal e corajoso. Leu em público um texto que sabia ser perigoso (Jr 36.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), arriscou-se diante dos príncipes e do rei (Jr 36.14-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e não abandonou o profeta nem quando foi acusado junto com ele (Jr 43.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A sua fidelidade era, antes de tudo, fidelidade à palavra que escrevia.
Ao mesmo tempo, a Escritura não esconde o seu cansaço e a sua frustração (Jr 45.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Deus não o repreende por sentir dor, mas corrige o rumo do seu coração: o servo da palavra não deve buscar grandeza própria (Jr 45.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Legado e tradição
Baruque não volta a ser mencionado na Bíblia hebraica depois de Jeremias, mas sua figura cresceu muito na tradição. O livro de Baruque, atribuído a ele, faz parte do cânon católico e ortodoxo como livro deuterocanônico, mas não pertence ao cânon judaico nem ao protestante; escritos posteriores, como o chamado Apocalipse siríaco de Baruque, são apócrifos. Uma tradição judaica posterior chegou a contá-lo entre os profetas e afirma que ele teria sido levado do Egito para a Babilônia; nada disso está no texto bíblico.
A arqueologia publicou, em 1978, uma bula (impressão de selo em argila) com a inscrição "Berequias, filho de Nerias, o escriba", forma longa do nome de Baruque. A peça despertou grande interesse, mas, por ter vindo do mercado de antiguidades e não de escavação controlada, sua autenticidade é contestada por vários especialistas.
Conexão com Cristo
A vida de Baruque gira em torno da preservação da palavra de Deus. O rolo queimado por Jeoaquim foi reescrito e ampliado (Jr 36.28,32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mostrando que a palavra do Senhor não pode ser destruída pelo poder humano (Is 40.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Novo Testamento retoma essa certeza (1Pe 1.24-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e a aplica às palavras de Jesus, que não passarão (Mt 24.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mais que isso, revela que a própria Palavra se fez carne em Cristo (Jo 1.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) — aquele a quem as Escrituras que Baruque ajudou a registrar dão testemunho (Jo 5.39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
As escrituras do campo de Anatote, guardadas no vaso de barro, eram promessa de restauração depois do juízo (Jr 32.15,37-41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No mesmo livro, Deus anuncia uma nova aliança, com a lei escrita no coração e o pecado perdoado (Jr 31.31-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Hebreus cita essa promessa para mostrar que ela se cumpre em Cristo, mediador da nova aliança (Hb 8.6-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Jesus a inaugura com o seu sangue (Lc 22.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pode-se ver no gesto de Baruque, guardando documentos de esperança numa cidade condenada, uma pequena antecipação dessa fidelidade de Deus que não termina no juízo.
Por fim, a palavra pessoal de Jr 45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) encontra eco no ensino de Jesus. Cristo chama seus discípulos a não buscarem grandeza para si, mas a servir, como Ele próprio veio para servir e dar a sua vida (Mc 10.43-45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Fp 2.5-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e promete que quem perder a vida por causa dele a encontrará (Mt 16.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Baruque, que aprendeu a renunciar às "grandes coisas" e recebeu a vida como dom, ilustra o caminho do servo que Cristo percorreu por inteiro.
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