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Novo Testamento · Sacerdotes

Caifás

Outros nomes

José Caifás, segundo o historiador Flávio Josefo

Significado do nome

Etimologia incerta; Caifás parece ter sido um sobrenome ou apelido de família, já que Josefo o chama de José, chamado Caifás

Posição / vínculo com a Bíblia

Sumo sacerdote de Israel nos dias de Jesus, genro de Anás, que aconselhou a morte de Jesus em favor da nação, presidiu o interrogatório no Sinédrio e o entregou a Pilatos; depois, perseguiu os apóstolos em Jerusalém

Testamento

Novo Testamento

Grupo

Sacerdotes

Síntese histórica

Caifás foi o sumo sacerdote de Israel durante todo o ministério público de Jesus. Era genro de Anás, que havia ocupado o cargo antes dele e continuava a exercer grande influência (Jo 18.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 3.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Segundo Flávio Josefo, manteve-se no posto por cerca de dezoito anos, aproximadamente entre 18 e 36 d.C., o mais longo pontificado do período romano, o que pressupõe uma convivência habilidosa com os governadores, inclusive Pôncio Pilatos.

Depois da ressurreição de Lázaro, foi Caifás quem afirmou ao Sinédrio que convinha que um só homem morresse pelo povo, para que a nação não perecesse, palavras que João interpreta como uma profecia involuntária sobre a morte de Jesus (Jo 11.49-52 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Na noite da prisão, presidiu o interrogatório, exigiu que Jesus declarasse sob juramento se era o Cristo, rasgou as próprias vestes ao ouvir a resposta e o declarou réu de morte (Mt 26.57-66 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pela manhã, enviou-o a Pilatos (Jo 18.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mais tarde, esteve entre as autoridades que proibiram os apóstolos de pregar em nome de Jesus (At 4.5-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Caifás é o retrato do líder religioso que, para preservar o sistema que comandava, condenou aquele a quem todo o sistema apontava.

História

Contexto e origem

Na Lei de Moisés, o sumo sacerdote era o chefe do sacerdócio, descendente de Arão, encarregado de entrar uma vez por ano no Santo dos Santos, no Dia da Expiação, para fazer expiação pelo povo (Êx 28.1; Lv 16.1-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O cargo, em princípio, era vitalício. Nos dias de Jesus, porém, a situação era outra: os sumos sacerdotes eram nomeados e depostos pelos governantes romanos ou pelos reis da casa de Herodes, e a função tinha forte peso político.

O sumo sacerdote presidia o Sinédrio, o conselho supremo dos judeus, formado por principais sacerdotes, anciãos e escribas (Mt 26.57 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 14.53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Sob o domínio romano, o Sinédrio tinha autoridade sobre questões religiosas e boa parte da vida civil em Jerusalém, mas não podia executar penas de morte por conta própria (Jo 18.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A família de Caifás pertencia à poderosa aristocracia sacerdotal. Seu sogro, Anás, foi sumo sacerdote aproximadamente entre 6 e 15 d.C. e, segundo Josefo, viu cinco filhos e um genro ocuparem o mesmo cargo depois dele. Por isso, mesmo afastado oficialmente, Anás continuava a ser tratado como sumo sacerdote, e Lucas menciona os dois juntos ao datar o início do ministério de João Batista (Lc 3.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 4.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Bíblia não informa onde nem quando Caifás nasceu.

Josefo registra que Caifás foi nomeado pelo governador Valério Grato e deposto por Vitélio, legado romano da Síria, por volta de 36 ou 37 d.C., pouco depois da destituição de Pilatos. O longo tempo em que permaneceu no cargo sugere que soube manter boas relações com Roma.

O conselho contra Jesus

João registra que, depois da ressurreição de Lázaro, muitos creram em Jesus, e alguns foram contar aos fariseus o que ele havia feito (Jo 11.45-46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os principais sacerdotes e os fariseus reuniram o Sinédrio e manifestaram seu temor: se deixassem Jesus continuar, todos creriam nele, e os romanos viriam e tomariam o lugar santo e a nação (Jo 11.47-48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Caifás, sumo sacerdote naquele ano, respondeu com rudeza que eles nada sabiam e não percebiam que convinha que um só homem morresse pelo povo, para que não perecesse toda a nação (Jo 11.49-50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Era um raciocínio político: sacrificar um homem para evitar uma intervenção romana. João, porém, vê nessas palavras um sentido muito mais profundo. Explica que Caifás não disse isso por si mesmo, mas, sendo sumo sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus morreria pela nação, e não somente pela nação, mas também para reunir em um só corpo os filhos de Deus dispersos (Jo 11.51-52 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Daquele dia em diante, resolveram matar Jesus (Jo 11.53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Pouco antes da Páscoa, os principais sacerdotes e os anciãos do povo reuniram-se no palácio do sumo sacerdote, chamado Caifás, e deliberaram prender Jesus à traição e matá-lo, mas não durante a festa, para não provocar tumulto (Mt 26.3-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Foi a esses líderes que Judas Iscariotes ofereceu entregar o Mestre (Mt 26.14-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A noite do interrogatório

Depois da prisão no Getsêmani, Jesus foi levado primeiro a Anás, sogro de Caifás. João faz questão de lembrar que Caifás era aquele que havia aconselhado que convinha que um homem morresse pelo povo (Jo 18.12-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Anás interrogou Jesus sobre seus discípulos e seu ensino e, em seguida, o enviou amarrado a Caifás (Jo 18.19-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Na casa de Caifás estavam reunidos os escribas e os anciãos (Mt 26.57 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Enquanto isso, no pátio, Pedro negava conhecer o Mestre (Mt 26.58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 26.69-75 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os principais sacerdotes e todo o conselho procuravam um falso testemunho contra Jesus para condená-lo à morte, mas, embora muitas falsas testemunhas se apresentassem, os depoimentos não concordavam (Mt 26.59-60 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 14.55-59 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Por fim, duas testemunhas afirmaram que Jesus dissera que poderia destruir o templo de Deus e reedificá-lo em três dias (Mt 26.60-61 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), distorcendo uma palavra que ele dissera sobre o seu próprio corpo (Jo 2.19-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Caifás levantou-se e perguntou a Jesus se não respondia nada às acusações, mas Jesus permaneceu em silêncio (Mt 26.62-63 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), como o Servo que não abriu a boca diante dos seus acusadores (Is 53.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Então o sumo sacerdote o colocou sob juramento, pelo Deus vivo, e exigiu que dissesse se era o Cristo, o Filho de Deus (Mt 26.63 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A resposta de Jesus

Jesus respondeu afirmativamente, dizendo: "Tu o disseste". E acrescentou que, desde então, eles veriam o Filho do Homem assentado à direita do Poder e vindo sobre as nuvens do céu (Mt 26.64 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 14.62 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As palavras uniam duas profecias: a do Messias assentado à direita de Deus (Sl 110.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e a do Filho do Homem que vem com as nuvens do céu e recebe domínio eterno (Dn 7.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O réu anunciava ao juiz que um dia ele mesmo seria julgado.

Caifás rasgou as suas vestes e declarou que Jesus havia blasfemado, que não precisavam mais de testemunhas, e perguntou ao conselho o que lhe parecia. Responderam que ele era réu de morte (Mt 26.65-66 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), aplicando a lei que punia a blasfêmia contra o nome do Senhor (Lv 24.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Rasgar as vestes era um gesto tradicional de indignação diante de uma blasfêmia, embora a Lei proibisse o sumo sacerdote de rasgá-las em sinal de luto (Lv 21.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em seguida, alguns começaram a cuspir no rosto de Jesus, a esmurrá-lo e a zombar dele (Mt 26.67-68 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A entrega a Pilatos

Ao amanhecer, o conselho voltou a reunir-se para confirmar a decisão (Mt 27.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 22.66-71 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Como não tinham autoridade para executar a pena de morte, levaram Jesus amarrado da casa de Caifás ao pretório e o entregaram ao governador Pôncio Pilatos (Mt 27.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 18.28-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Diante de Pilatos, a acusação de blasfêmia deu lugar a acusações políticas: Jesus seria um agitador que se dizia rei e proibia pagar tributo a César (Lc 23.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os principais sacerdotes incitaram a multidão a pedir a libertação de Barrabás e a crucificação de Jesus (Mc 15.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e chegaram a declarar que não tinham outro rei senão César (Jo 19.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Depois da crucificação, os principais sacerdotes e os fariseus pediram a Pilatos que guardasse o sepulcro (Mt 27.62-66 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e, depois da ressurreição, deram dinheiro aos soldados para que dissessem que os discípulos haviam roubado o corpo (Mt 28.11-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Esses textos não citam Caifás pelo nome, mas é provável que, como sumo sacerdote, estivesse à frente dessas decisões.

A perseguição aos apóstolos

Depois de Pentecostes, quando Pedro e João curaram um coxo à porta do templo e anunciaram Jesus ressuscitado, foram presos e levados diante das autoridades, entre as quais Lucas cita nominalmente Anás e Caifás (At 4.1-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pedro declarou-lhes que o coxo fora curado em nome de Jesus Cristo, a quem eles haviam crucificado e a quem Deus ressuscitara, e que em nenhum outro há salvação (At 4.10-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O conselho ordenou que não falassem mais nesse nome, mas os apóstolos responderam que não podiam deixar de falar do que tinham visto e ouvido (At 4.18-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Atos menciona outras ações do sumo sacerdote contra a igreja, sem citar o seu nome: a prisão dos apóstolos e o seu açoitamento (At 5.17-40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o julgamento de Estêvão (At 7.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e as cartas dadas a Saulo para prender os discípulos em Damasco (At 9.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pela cronologia, é provável que pelo menos parte desses episódios tenha ocorrido ainda no tempo de Caifás, mas o texto não o diz expressamente.

Um achado arqueológico

Em 1990, foi descoberto ao sul da cidade antiga de Jerusalém um túmulo familiar com vários ossuários, caixas de pedra em que se guardavam os ossos dos mortos. Um deles, ricamente decorado, traz uma inscrição em aramaico que pode ser lida como José, filho de Caifás, e continha os ossos de um homem de cerca de sessenta anos. Muitos estudiosos identificam esse ossuário com o sumo sacerdote do Novo Testamento, embora outros questionem a leitura e a identificação. A descoberta não pertence ao texto bíblico, mas, se confirmada, seria um raro testemunho material de um personagem dos Evangelhos.

Fé e fraquezas

A Escritura não registra nenhum gesto de fé de Caifás. Ele aparece como um líder habilidoso, mais preocupado com a estabilidade política e com a preservação do templo e da própria posição do que com a verdade (Jo 11.48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Diante de Jesus, preferiu falsas testemunhas a uma investigação justa, e transformou a confissão do Filho de Deus em motivo de condenação. Ironia trágica: o homem que queria salvar o lugar santo e a nação condenando Jesus viu, poucas décadas depois, a destruição de Jerusalém e do templo pelos romanos, no ano 70, que Jesus havia anunciado com lágrimas (Lc 19.41-44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 21.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Caifás é uma advertência permanente contra a religião que se torna instrumento de poder. Ocupava o mais alto cargo religioso de Israel, conhecia a Lei e os profetas, oferecia os sacrifícios no templo e, ainda assim, não reconheceu aquele para quem tudo isso apontava.

Conexão com Cristo

As palavras de Caifás no Sinédrio, ditas como estratégia política, revelaram sem que ele soubesse o coração do evangelho: um homem morreria pelo povo (Jo 11.50-52 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus morreu não apenas no lugar da nação, mas no lugar de pecadores de todos os povos, para reunir em um só corpo os filhos de Deus dispersos (Jo 10.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ef 2.14-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele levou sobre si as nossas dores e foi traspassado pelas nossas transgressões (Is 53.4-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o justo morreu pelos injustos, para conduzir-nos a Deus (1Pe 3.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O contraste entre os dois sumos sacerdotes é um dos grandes temas do Novo Testamento. Caifás entrava uma vez por ano no Santo dos Santos com o sangue de animais (Lv 16.14-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus, o sumo sacerdote dos bens vindouros, entrou uma vez por todas no próprio céu, não com sangue alheio, mas com o seu próprio sangue, obtendo eterna redenção (Hb 9.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 9.24-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Naquela Páscoa, enquanto o sumo sacerdote terreno condenava o inocente, o verdadeiro Sumo Sacerdote se oferecia como sacrifício perfeito. Caifás rasgou as próprias vestes ao ouvir a confissão de Jesus; poucas horas depois, quando Jesus entregou o espírito, o véu do templo se rasgou de alto a baixo, abrindo o caminho até Deus (Mt 26.65 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 27.50-51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 10.19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Por fim, a resposta de Jesus a Caifás continua de pé. O réu daquela noite está assentado à direita do Poder e voltará sobre as nuvens do céu, e todo olho o verá (Mt 26.64 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 1.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aquele que foi julgado injustamente por um tribunal humano é o juiz de vivos e de mortos (At 10.42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o Pai lhe confiou todo o julgamento (Jo 5.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

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