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Antigo Testamento · Juízes · Profetas · Mulheres da Bíblia

Débora, juíza e profetisa

Significado do nome

"Abelha" (do hebraico devorah)

Posição / vínculo com a Bíblia

Profetisa e juíza de Israel, a única mulher entre os juízes; convocou Baraque e conduziu Israel à vitória sobre Sísera, general de Jabim, rei de Canaã, e celebrou a vitória num dos mais antigos cânticos da Bíblia (Jz 4–5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))

Nascimento

Provavelmente no século XII a.C., conforme a cronologia adotada para o período dos juízes

Testamento

Antigo Testamento

Grupo

Juízes · Profetas · Mulheres da Bíblia

Síntese histórica

Débora viveu no período dos juízes, quando Israel, ainda sem rei, alternava entre a infidelidade a Deus, a opressão por povos vizinhos, o clamor e o livramento (Jz 2.11-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Profetisa e esposa de Lapidote, julgava o povo assentada debaixo de uma palmeira entre Ramá e Betel, na região montanhosa de Efraim (Jz 4.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Num tempo em que Jabim, rei de Canaã, oprimia Israel havia vinte anos com seu exército de carros de ferro, Débora transmitiu a ordem de Deus a Baraque e foi com ele à batalha junto ao ribeiro de Quisom, onde o Senhor derrotou Sísera (Jz 4.1-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Depois da vitória, Débora e Baraque entoaram um cântico que celebra o livramento operado por Deus e que é considerado um dos textos poéticos mais antigos da Bíblia (Jz 5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A terra teve paz por quarenta anos (Jz 5.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

História

Contexto e origem

O livro de Juízes descreve um ciclo que se repete: Israel abandona o Senhor, é entregue a opressores, clama a Deus, e Deus levanta um libertador (Jz 2.11-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Depois da morte do juiz Eúde, o povo voltou a fazer o que era mau aos olhos do Senhor, e Deus o entregou nas mãos de Jabim, rei de Canaã, que reinava em Hazor. O comandante do seu exército era Sísera, que dispunha de novecentos carros de ferro e oprimiu duramente os israelitas por vinte anos (Jz 4.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A data exata desses acontecimentos depende da cronologia adotada para o êxodo e a conquista: muitos situam Débora no século XII a.C., outros um pouco antes. A arqueologia identificou em Hazor uma grande destruição por volta do século XIII a.C., mas a relação desse dado com Js 11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Jz 4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é debatida entre os especialistas.

Da origem de Débora a Escritura diz pouco: era profetisa e mulher de Lapidote (Jz 4.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Seu nome não é explicado no texto, e nada se registra sobre sua família de origem ou sua tribo, embora ela exercesse o seu ofício no território de Efraim (Jz 4.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A juíza debaixo da palmeira

Débora é apresentada primeiro como profetisa e depois como quem julgava Israel naquele tempo (Jz 4.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ela se assentava debaixo de uma palmeira, que ficou conhecida pelo seu nome, entre Ramá e Betel, e os israelitas subiam até ela para que resolvesse suas causas (Jz 4.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Diferentemente de outros juízes, chamados para libertar o povo pela força das armas, Débora já exercia um ofício reconhecido de juízo e de palavra profética antes da guerra. Ela é a única mulher entre os juízes e figura ao lado de outras profetisas da Escritura, como Miriã (Êx 15.20), Hulda (2Rs 22.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e Ana (Lc 2.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O chamado de Baraque

Débora mandou chamar Baraque, filho de Abinoão, de Quedes, no território de Naftali, e lhe transmitiu a ordem do Senhor: reunir dez mil homens das tribos de Naftali e de Zebulom no monte Tabor, porque Deus atrairia Sísera, com seus carros e suas tropas, para junto do ribeiro de Quisom e o entregaria nas mãos de Israel (Jz 4.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Baraque respondeu que só iria se ela fosse com ele (Jz 4.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Débora aceitou, mas advertiu que a honra daquela campanha não seria dele, porque o Senhor entregaria Sísera nas mãos de uma mulher (Jz 4.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Então partiu com Baraque para Quedes, onde se reuniram os guerreiros de Zebulom e Naftali (Jz 4.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A batalha junto ao Quisom

Informado de que Baraque subira ao Tabor, Sísera reuniu seus novecentos carros de ferro e todo o seu exército junto ao Quisom (Jz 4.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Débora deu então a palavra decisiva: aquele era o dia em que o Senhor entregaria Sísera, e o próprio Senhor ia à frente de Baraque (Jz 4.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Baraque desceu do monte com os seus homens, e o Senhor lançou em confusão Sísera, seus carros e todo o seu exército (Jz 4.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O cântico de Débora acrescenta detalhes poéticos: as estrelas pelejaram desde os céus contra Sísera, e a correnteza do Quisom arrastou os inimigos (Jz 5.20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Muitos intérpretes veem aí a lembrança de uma tempestade que encharcou a planície e tornou inúteis os carros de ferro; o texto, porém, atribui a vitória ao Senhor, sem explicar o meio.

Sísera fugiu a pé e se refugiou na tenda de Jael, mulher de Héber, o queneu, que o matou enquanto dormia, cumprindo-se a palavra de Débora de que ele cairia nas mãos de uma mulher (Jz 4.17-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Naquele dia Deus humilhou Jabim diante de Israel, e o povo prevaleceu sobre ele até destruí-lo (Jz 4.23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O cântico de Débora

Juízes 5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) registra o cântico entoado por Débora e Baraque depois da vitória (Jz 5.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O poema louva o Senhor que marcha à frente do seu povo (Jz 5.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), descreve a desolação dos dias de opressão, quando as estradas ficaram desertas e a vida nas aldeias cessou, até que Débora se levantou como mãe em Israel (Jz 5.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O cântico também passa em revista as tribos. Louva as que atenderam ao chamado — Efraim, Benjamim, Maquir, Zebulom, Issacar e Naftali (Jz 5.14-15,18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) — e lamenta as que ficaram em casa: Rúben hesitou, Gileade não atravessou o Jordão, Dã e Aser permaneceram junto ao mar (Jz 5.15-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Amaldiçoa ainda Meroz, que não veio em socorro do Senhor (Jz 5.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Jael é chamada bendita entre as mulheres (Jz 5.24-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o poema termina com uma cena de forte ironia: a mãe de Sísera espera, à janela, o filho que não voltará (Jz 5.28-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O último versículo resume o sentido de tudo: que pereçam os inimigos do Senhor, e que os que o amam sejam como o sol quando nasce em seu esplendor (Jz 5.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E a terra teve sossego por quarenta anos (Jz 5.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Fé e fraquezas

A Escritura não registra falhas de Débora. Ela aparece como mulher de autoridade reconhecida, que fala em nome de Deus, julga o povo com sabedoria e tem coragem de ir pessoalmente ao campo de batalha (Jz 4.4-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Sua fé está em atribuir tudo ao Senhor: é Ele quem ordena, quem vai à frente e quem entrega o inimigo (Jz 4.6-7,14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

As fraquezas registradas no relato são de outros. Baraque hesita e condiciona a obediência à presença de Débora (Jz 4.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), embora o Novo Testamento o inclua entre os heróis da fé (Hb 11.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Várias tribos se omitem diante da convocação (Jz 5.15-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E a morte de Sísera pelas mãos de Jael, celebrada no cântico, é narrada com a crueza própria das guerras daquele tempo, que o leitor deve ler à luz do contexto histórico, sem transformá-la em modelo de conduta.

Legado

Débora permanece como uma das figuras femininas mais notáveis do Antigo Testamento: profetisa, juíza e mãe em Israel (Jz 5.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Novo Testamento não a menciona pelo nome, mas cita Baraque entre os que, pela fé, subjugaram reinos (Hb 11.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e é pela palavra de Débora que Baraque entra nessa história.

O seu cântico, preservado em Jz 5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), é estudado como um dos mais antigos exemplos de poesia hebraica e mostra uma fé que transforma a vitória em louvor, e não em glória pessoal (Jz 5.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Conexão com Cristo

Débora pertence à série de juízes que Deus levantou para salvar o seu povo, sinal de que o Senhor não abandona Israel mesmo quando este o abandona (Jz 2.16,18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Esses libertadores eram temporários: morriam, e o povo voltava a cair. Paulo, ao narrar a história de Israel, passa dos juízes aos reis para chegar a Jesus, o Salvador prometido da descendência de Davi (At 13.20-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os juízes apontam, assim, para o Libertador definitivo, cuja salvação não termina com a sua morte, porque Ele ressuscitou (Hb 7.24-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A vitória sobre Sísera foi obra do Senhor, não da força de Israel, que não tinha carros nem escudos (Jz 4.14-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jz 5.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Do mesmo modo, a vitória de Cristo sobre os poderes do mal não vem de força humana, mas da cruz (Cl 2.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Co 1.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Pode-se ver também, com moderação, alguns ecos que a tradição cristã leu nesse relato. A morte do inimigo, ferido na cabeça por uma mulher (Jz 4.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jz 5.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), lembra a promessa de que a descendência da mulher esmagaria a cabeça da serpente (Gn 3.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), plenamente cumprida em Cristo (Rm 16.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jael é chamada bendita entre as mulheres (Jz 5.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), expressão que Isabel usa para Maria, a mãe do Senhor (Lc 1.42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); e o cântico de Débora, que celebra o Deus que derruba os poderosos, encontra paralelo no cântico de Maria (Lc 1.46-55 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Por fim, o desejo com que o cântico se encerra — que os que amam o Senhor brilhem como o sol nascente (Jz 5.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) — ecoa na promessa de Jesus de que os justos resplandecerão como o sol no Reino de seu Pai (Mt 13.43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

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