Novo Testamento · Apóstolos e discípulos
Judas Iscariotes
- Outros nomes
Judas, filho de Simão Iscariotes (Jo 6.71; Jo 13.26)
- Significado do nome
Judas é a forma grega de Judá, "louvor" (Gn 29.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Iscariotes provavelmente significa "homem de Queriote", cidade de Judá (Js 15.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), embora haja outras propostas
- Posição / vínculo com a Bíblia
Um dos doze apóstolos escolhidos por Jesus, encarregado da bolsa comum do grupo, que traiu o Mestre e o entregou aos principais sacerdotes por trinta moedas de prata
- Nascimento
Provavelmente em Queriote, na Judeia, se o apelido Iscariotes indicar a cidade de origem, no início do século I d.C.
- Morte
Jerusalém, pouco depois da crucificação de Jesus, por volta do ano 30 ou 33 d.C., conforme a cronologia adotada; enforcou-se, e o campo ligado à sua morte foi chamado Aceldama, "campo de sangue" (Mt 27.3-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 1.18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))
- Testamento
Novo Testamento
- Grupo
Apóstolos e discípulos
- Onde aparece
Mt 10.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 26.14-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 26.20-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 26.47-50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 27.3-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 3.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 14.10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 14.43-46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 6.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 22.3-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 22.47-48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 6.64-71 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 12.4-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 13.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 13.18-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 17.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 18.2-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 1.16-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 1.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)
Síntese histórica
Judas Iscariotes foi um dos doze apóstolos que Jesus escolheu depois de uma noite inteira em oração (Lc 6.12-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Andou com o Mestre durante todo o ministério, foi enviado a pregar com os demais e recebeu a responsabilidade de guardar a bolsa comum do grupo (Jo 12.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 13.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ainda assim, entregou Jesus aos principais sacerdotes por trinta moedas de prata (Mt 26.14-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e o identificou aos guardas com um beijo, no jardim do Getsêmani (Mt 26.47-50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Em todas as listas dos Doze, seu nome aparece por último, acompanhado da lembrança de que foi ele quem traiu o Senhor (Mt 10.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 3.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 6.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Tomado de remorso depois da condenação de Jesus, devolveu o dinheiro e tirou a própria vida (Mt 27.3-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Sua história é uma das mais sombrias da Escritura e serve de advertência solene: é possível estar perto de Cristo sem pertencer a ele. Ao mesmo tempo, mostra que nem a pior traição foi capaz de frustrar o plano de Deus, que transformou a entrega do Filho na salvação do mundo (At 2.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
História
Contexto e origem
Judas viveu na Palestina do século I, sob o domínio romano. Era filho de um homem chamado Simão Iscariotes (Jo 6.71 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 13.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O apelido que pai e filho partilhavam é, segundo a interpretação mais aceita, a forma grega de uma expressão hebraica que significa "homem de Queriote", cidade do sul de Judá (Js 15.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Se essa leitura estiver correta, Judas seria o único dos Doze originário da Judeia, enquanto os demais eram galileus (At 1.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 2.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Há outras propostas para o apelido. Alguns o relacionam aos sicários, os nacionalistas que andavam com punhais escondidos, mencionados em Atos (At 21.38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); outros, a uma palavra aramaica ligada à ideia de falsidade. Essas hipóteses são menos prováveis, e a Escritura não as confirma.
O nome Judas, forma grega de Judá, era muito estimado entre os judeus, porque lembrava a tribo da qual viria o rei prometido (Gn 49.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Havia outro Judas entre os Doze, o filho de Tiago, também chamado Tadeu (Lc 6.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e os evangelistas tiveram o cuidado de distingui-los (Jo 14.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O chamado
Judas não entrou no grupo dos Doze por acaso nem por insistência própria. Lucas registra que Jesus passou a noite em oração e, ao amanhecer, escolheu os doze (Lc 6.12-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Marcos acrescenta que o propósito dessa escolha era que estivessem com ele, que fossem enviados a pregar e que tivessem autoridade sobre os demônios (Mc 3.13-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Judas recebeu o mesmo chamado, a mesma autoridade e a mesma missão que os outros onze (Mt 10.1-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 6.7-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
João, porém, registra que Jesus sabia desde o princípio quem o havia de trair (Jo 6.64 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Depois do discurso sobre o pão da vida, quando muitos discípulos o abandonaram, Pedro confessou que só Jesus tinha palavras de vida eterna, e o Senhor respondeu que havia escolhido os Doze e que, ainda assim, um deles era um diabo. O evangelista explica que ele falava de Judas (Jo 6.66-71 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Escritura apresenta lado a lado, sem tentar resolver o mistério, a escolha feita por Jesus e o caminho que Judas trilhou.
O tesoureiro
Entre os Doze, Judas era quem cuidava da bolsa com os recursos do grupo (Jo 13.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). João revela, com franqueza, o que havia por trás dessa função: ele era ladrão e costumava tirar o que nela se depositava (Jo 12.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A cobiça é a primeira raiz do pecado de Judas que a Bíblia expõe com clareza.
Esse traço aparece no jantar em Betânia, seis dias antes da Páscoa. Maria, irmã de Lázaro, ungiu os pés de Jesus com um perfume caríssimo, e Judas protestou, dizendo que o perfume poderia ter sido vendido por trezentos denários e o valor, dado aos pobres (Jo 12.1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O evangelista esclarece que ele não falava por amor aos pobres, mas por ser ladrão (Jo 12.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus defendeu Maria e ligou o gesto dela à sua sepultura (Jo 12.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mateus e Marcos situam logo depois desse episódio a ida de Judas aos principais sacerdotes (Mt 26.6-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 14.3-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O acordo com os sacerdotes
Judas procurou os principais sacerdotes e perguntou quanto lhe dariam para entregar Jesus. Eles combinaram trinta moedas de prata (Mt 26.14-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Marcos registra que os sacerdotes se alegraram e prometeram dar-lhe dinheiro (Mc 14.10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Lucas diz que Judas buscava uma ocasião oportuna para entregá-lo longe da multidão (Lc 22.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O valor não era alto. Na Lei de Moisés, trinta siclos de prata eram a indenização devida pela morte de um escravo (Êx 21.32), e o profeta Zacarias usa a mesma quantia, com ironia, para indicar o desprezo com que o povo avaliava o pastor enviado por Deus (Zc 11.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mateus vê nesse preço o cumprimento da profecia (Mt 27.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Lucas e João acrescentam uma dimensão espiritual: Satanás entrou em Judas (Lc 22.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 13.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), depois de ter posto em seu coração o propósito de trair (Jo 13.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Escritura não apresenta Judas como uma vítima passiva. Ele abriu espaço ao inimigo por meio de escolhas repetidas, e o próprio Jesus o declarou responsável pelo que fez (Mt 26.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A Bíblia não explica todos os motivos de Judas além da cobiça e da ação de Satanás. Ao longo dos séculos, intérpretes levantaram hipóteses, como a decepção com um Messias que não liderava uma revolta política ou a tentativa de forçar Jesus a revelar seu poder. Essas ideias podem ser discutidas, mas não estão no texto bíblico e não devem ser apresentadas como fato.
A última ceia
Na noite da Páscoa, Jesus lavou os pés dos discípulos, inclusive os de Judas, embora soubesse quem o trairia (Jo 13.2-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 13.10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Durante a refeição, anunciou que um dos que estavam à mesa o entregaria, aplicando a si as palavras do salmo sobre o amigo íntimo que comia do seu pão e levantou contra ele o calcanhar (Jo 13.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 41.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os discípulos, entristecidos, começaram a perguntar, um a um, se seriam eles (Mt 26.21-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Jesus declarou que o Filho do Homem seguiria o caminho que estava escrito a seu respeito, mas que haveria lamento para aquele que o traísse, a quem seria melhor não ter nascido (Mt 26.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quando Judas também perguntou se seria ele, Jesus respondeu-lhe que ele mesmo o dizia (Mt 26.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). João registra que o Senhor indicou o traidor ao discípulo amado, entregando a Judas um pedaço de pão molhado no prato. Logo depois, Jesus lhe disse que fizesse depressa o que tinha de fazer, e os demais pensaram que ele sairia para comprar algo para a festa ou dar esmola aos pobres (Jo 13.26-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Judas saiu imediatamente. João encerra a cena com uma nota breve e carregada de sentido: era noite (Jo 13.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O beijo no Getsêmani
Judas conhecia bem o jardim do outro lado do ribeiro de Cedrom, porque Jesus se reunia ali muitas vezes com os discípulos (Jo 18.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Naquela noite, chegou com uma multidão armada de espadas e porretes, enviada pelos principais sacerdotes e anciãos, e com soldados e guardas do templo (Mt 26.47 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 18.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Havia combinado um sinal: o homem a quem beijasse seria Jesus (Mt 26.48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Judas aproximou-se, saudou o Mestre e o beijou (Mt 26.49 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus respondeu chamando-o de "amigo" e perguntando por que viera (Mt 26.50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Segundo Lucas, perguntou-lhe se com um beijo trairia o Filho do Homem (Lc 22.47-48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O gesto que exprimia respeito e afeição de um discípulo pelo mestre tornou-se o sinal da traição. Jesus foi preso, e todos os discípulos fugiram (Mt 26.50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 26.56 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O remorso e a morte
Quando Judas viu que Jesus havia sido condenado, encheu-se de remorso. Devolveu as trinta moedas aos principais sacerdotes e anciãos, confessando que pecara ao trair sangue inocente. Eles responderam com indiferença que isso não lhes dizia respeito. Judas atirou o dinheiro no templo, retirou-se e foi enforcar-se (Mt 27.3-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os sacerdotes, considerando que não era lícito depositar aquele dinheiro no tesouro do templo por ser preço de sangue, compraram com ele o campo do oleiro, para sepultura de estrangeiros (Mt 27.6-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mateus vê nisso o cumprimento do que fora anunciado pelos profetas, numa referência que combina palavras de Zacarias com imagens de Jeremias (Mt 27.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Zc 11.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 32.6-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Lucas registra outra perspectiva no discurso de Pedro antes da escolha de Matias: com o salário da iniquidade, Judas adquiriu um campo; caindo de cabeça, rompeu-se pelo meio, e suas entranhas se derramaram. O lugar ficou conhecido em Jerusalém como Aceldama, campo de sangue (At 1.18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Desde a igreja antiga, os intérpretes harmonizam os dois relatos observando que o campo foi comprado com o dinheiro de Judas, ainda que pelas mãos dos sacerdotes, e que a queda descrita por Lucas pode ter ocorrido depois do enforcamento. Os dois textos concordam no essencial: Judas morreu de forma trágica, e o dinheiro da traição ficou ligado a um campo de sangue.
Remorso não é arrependimento
A Escritura distingue com cuidado o que aconteceu com Judas e o que aconteceu com Pedro. Ambos falharam na mesma noite: um traiu, o outro negou (Mt 26.69-75 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mateus usa para Judas uma palavra que indica remorso e pesar pelo que fez (Mt 27.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); ele reconheceu o pecado diante dos sacerdotes, mas não voltou para Cristo. Pedro, ao contrário, chorou amargamente e foi depois restaurado pelo próprio Senhor ressuscitado (Lc 22.61-62 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 21.15-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Paulo explica a diferença ao falar de duas tristezas: a tristeza segundo Deus, que produz arrependimento para a salvação, e a tristeza do mundo, que produz morte (2Co 7.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Judas sentiu o peso do pecado, mas não buscou a graça daquele a quem havia traído.
O lugar vazio
Na oração sacerdotal, Jesus disse ao Pai que havia guardado os que lhe foram dados e que nenhum deles se perdera, exceto o filho da perdição, para que se cumprisse a Escritura (Jo 17.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Depois da ascensão, Pedro reuniu os discípulos e explicou que era necessário cumprir-se o que o Espírito Santo anunciara pela boca de Davi acerca de Judas (At 1.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aplicou a ele os salmos que falam da morada deserta e do cargo assumido por outro (At 1.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 69.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 109.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A igreja orou e escolheu Matias para tomar o lugar no ministério que Judas abandonara para ir ao seu próprio lugar (At 1.24-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A tradição posterior
No século II, circulou um texto chamado Evangelho de Judas, de origem gnóstica, já mencionado e rejeitado por Ireneu de Lião, que apresenta Judas como o discípulo que teria compreendido os segredos de Jesus. Uma cópia em língua copta foi publicada em 2006. Esse texto não tem valor histórico para a vida de Judas e contradiz o testemunho dos Evangelhos. A arte e a literatura cristãs também cercaram Judas de lendas e imagens que não pertencem à Escritura e devem ser recebidas apenas como tradição.
Fé e fraquezas
O retrato bíblico de Judas é sóbrio. Ele não aparece como um monstro desde o início, mas como um discípulo que viveu anos ao lado de Jesus, ouviu seus ensinos, viu seus milagres e participou da missão, sem que os outros onze percebessem o que havia em seu coração (Jo 13.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 13.28-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A cobiça tolerada aos poucos, a desonestidade com o que lhe fora confiado e a abertura à ação do inimigo levaram-no à traição (Jo 12.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 13.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Sua história ensina que a proximidade exterior com Cristo não substitui a fé verdadeira. Jesus advertiu que nem todo o que o chama de Senhor entrará no Reino (Mt 7.21-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e João escreveu sobre os que saíram do meio da igreja porque, na verdade, não eram dela (1Jo 2.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Judas é uma advertência a todo discípulo para que examine o próprio coração (2Co 13.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Legado
O nome de Judas tornou-se, em muitas línguas, sinônimo de traidor. As listas dos Doze o registram sempre por último, e os doze nomes gravados nos fundamentos da nova Jerusalém pertencem aos apóstolos que permaneceram, cujo número foi completado com Matias (At 1.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 21.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Escritura, porém, não usa Judas apenas para condenar: ao narrar a sua queda, revela a fidelidade de Cristo, que permaneceu firme no caminho da cruz mesmo traído por alguém que comia do seu pão.
Conexão com Cristo
A traição de Judas foi profetizada e se cumpriu em Cristo. Jesus aplicou a si as palavras do salmo sobre o amigo íntimo que se levantou contra ele (Jo 13.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 41.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Mateus viu nas trinta moedas, preço de um escravo na Lei e salário do pastor desprezado em Zacarias, o valor que os homens deram ao Filho de Deus (Êx 21.32; Zc 11.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 27.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aquele que tomou a forma de servo (Fp 2.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) foi vendido pelo preço de um servo.
O contraste é ainda mais forte à luz do que Pedro escreveria depois: os crentes não foram resgatados com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, mas pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem defeito e sem mancha (1Pe 1.18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Judas trocou o Cordeiro por prata; o Cordeiro deu o próprio sangue para resgatar pecadores. O próprio traidor, ao devolver o dinheiro, confessou que entregara sangue inocente (Mt 27.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), testemunhando, sem querer, a inocência de Jesus.
A narrativa revela também o amor de Cristo até o fim (Jo 13.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus lavou os pés de quem o trairia (Jo 13.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 13.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), ofereceu-lhe o pão à mesa (Jo 13.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e, no momento do beijo, ainda o chamou de amigo (Mt 26.50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A porta da graça esteve aberta até a última hora.
Por fim, a traição mostra a soberania de Deus sobre o mal. Jesus foi entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, e mesmo assim os que o entregaram foram responsáveis pelo que fizeram (At 2.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 22.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Como no caso de José, vendido pelos irmãos por prata (Gn 37.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), aquilo que os homens intentaram para o mal, Deus o transformou em bem, para salvar muitas vidas (Gn 50.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A entrega do Filho, que Judas planejou como negócio, Deus a fez sacrifício pelos pecados do mundo (Rm 8.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
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