Antigo Testamento · Patriarcas · Mulheres da Bíblia
Lia
- Significado do nome
Etimologia incerta; costuma ser relacionado a "vaca selvagem", por uma palavra semítica antiga, ou a "cansada", por um verbo hebraico; a Bíblia não explica o nome
- Posição / vínculo com a Bíblia
Filha mais velha de Labão e primeira esposa de Jacó; menos amada que a irmã Raquel, foi mãe de seis das doze tribos de Israel, entre elas Levi, de onde veio o sacerdócio, e Judá, de onde vieram Davi e Jesus Cristo (Gn 29.16-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gn 30.17-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Rt 4.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 1.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))
- Nascimento
Provavelmente em Harã, na Mesopotâmia (Gn 29.4-6,16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))
- Morte
Canaã, antes de Jacó descer ao Egito; sepultada por ele na caverna de Macpela (Gn 49.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))
- Testamento
Antigo Testamento
- Grupo
Patriarcas · Mulheres da Bíblia
- Onde aparece
Gn 29.16-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gn 30.9-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gn 31.4,14-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba),33; Gn 33.1-2,7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gn 34.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gn 35.23,26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gn 46.15,18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gn 49.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Rt 4.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)
Síntese histórica
Lia era a filha mais velha de Labão, irmão de Rebeca. Jacó trabalhou sete anos para se casar com a irmã mais nova, Raquel, mas na noite do casamento Labão lhe entregou Lia em seu lugar (Gn 29.16-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Casada com um marido que amava mais a outra, Lia foi vista por Deus em sua aflição e deu a Jacó seis filhos — Rúben, Simeão, Levi, Judá, Issacar e Zebulom — e uma filha, Diná (Gn 29.31-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gn 30.17-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os nomes que deu aos filhos mostram uma caminhada que vai da busca pelo amor do marido ao louvor a Deus.
A Bíblia não registra sua morte, mas Jacó, no fim da vida, contou que a sepultou na caverna de Macpela, ao lado de Abraão, Sara, Isaque e Rebeca (Gn 49.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). De seus filhos vieram a tribo sacerdotal de Levi e a tribo real de Judá, da qual nasceria o Messias. O livro de Rute a lembra, junto com Raquel, como uma das mulheres que edificaram a casa de Israel (Rt 4.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
História
Contexto e origem
Lia era filha de Labão, que morava em Harã, na Mesopotâmia, e irmã mais velha de Raquel (Gn 29.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O texto contrasta as duas: Lia tinha os olhos sem brilho, enquanto Raquel era bonita de porte e de rosto (Gn 29.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A palavra hebraica usada para os olhos de Lia é discutida: pode significar "fracos", "cansados" ou "delicados", e não se sabe se descreve um defeito ou apenas uma beleza menos marcante. O que o texto deixa claro é que Jacó se apaixonou por Raquel (Gn 29.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O casamento enganoso
Jacó ofereceu sete anos de trabalho para se casar com Raquel, e Labão aceitou (Gn 29.18-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Na noite do casamento, porém, Labão tomou Lia e a levou a Jacó, que só pela manhã descobriu o engano (Gn 29.21-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O texto não registra a voz de Lia nesse episódio nem o que ela sentiu; ela aparece como alguém usado nas negociações de outros. Labão justificou-se dizendo que não era costume da terra dar a filha mais nova antes da mais velha, e propôs entregar também Raquel depois da semana de festa, em troca de mais sete anos de trabalho (Gn 29.26-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Lia recebeu como serva Zilpa (Gn 29.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jacó casou-se com Raquel e a amou mais do que a Lia (Gn 29.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Vista por Deus
O texto diz então que o Senhor viu que Lia era desprezada e lhe abriu o ventre, enquanto Raquel permanecia estéril (Gn 29.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A expressão traduzida por "desprezada" indica, no uso hebraico, que ela era a menos amada. Os nomes que Lia deu aos filhos revelam o que se passava em seu coração.
Ao primeiro filho, chamou Rúben, dizendo que o Senhor vira a sua aflição e que agora o marido a amaria (Gn 29.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ao segundo, Simeão, porque o Senhor ouvira que ela era desprezada (Gn 29.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ao terceiro, Levi, esperando que agora o marido se unisse a ela, pois lhe dera três filhos (Gn 29.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ao quarto, porém, deu outro tom: chamou-o Judá, dizendo que daquela vez louvaria o Senhor; e deixou de ter filhos por um tempo (Gn 29.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Nos três primeiros nomes, a esperança de Lia estava no amor de Jacó; no quarto, seu coração se voltou para Deus.
A disputa entre as irmãs
Raquel, estéril, invejou a irmã e deu a Jacó a sua serva Bila, por meio de quem teve filhos (Gn 30.1-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Lia, vendo que havia parado de ter filhos, fez o mesmo com Zilpa, que deu à luz Gade e Aser; Lia escolheu os nomes, celebrando a boa sorte e a felicidade (Gn 30.9-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Num dia de colheita do trigo, Rúben encontrou mandrágoras no campo e as levou à mãe; na época, acreditava-se que essas plantas favoreciam a fertilidade. Raquel pediu algumas, e Lia respondeu com amargura: não bastava ter-lhe tomado o marido, e ainda queria as mandrágoras do seu filho? Raquel propôs uma troca: as mandrágoras em troca de uma noite com Jacó (Gn 30.14-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O episódio revela a dor e a rivalidade que atravessavam aquela casa.
Deus ouviu Lia, e ela teve um quinto filho, Issacar, cujo nome lembra "recompensa" (Gn 30.17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Depois teve Zebulom, dizendo que Deus lhe dera um bom dote e que, desta vez, o marido habitaria com ela, porque lhe dera seis filhos (Gn 30.19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Por fim, deu à luz uma filha, Diná (Gn 30.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Só depois disso Deus se lembrou de Raquel, que deu à luz José (Gn 30.22-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A partida de Harã
Quando Deus mandou Jacó voltar para Canaã, ele chamou Lia e Raquel ao campo e lhes contou tudo. Pela primeira vez, as duas irmãs falam juntas e de comum acordo: não tinham mais herança na casa do pai, que as tratara como estrangeiras, as vendera e consumira o seu dote; por isso, Jacó deveria fazer tudo o que Deus lhe dissera (Gn 31.4-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Na perseguição que se seguiu, Labão revistou também a tenda de Lia em busca dos ídolos que Raquel havia levado (Gn 31.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
No reencontro com Esaú, Jacó organizou a família por ordem de proteção: as servas com os filhos na frente, depois Lia com os seus filhos, e por último Raquel e José (Gn 33.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mesmo depois de tantos anos, a ordem expunha quem era mais amado.
Diná
Já em Canaã, perto de Siquém, Diná, a filha de Lia, foi violentada pelo príncipe da cidade (Gn 34.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Simeão e Levi, filhos de Lia e irmãos de Diná por parte de mãe e pai, vingaram-se com engano e violência contra toda a cidade (Gn 34.13-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O texto não registra a reação de Lia, mas ela viveu, como mãe, uma das maiores tragédias da família.
Morte e sepultura
A Bíblia não informa quando nem como Lia morreu. Raquel morreu no caminho de Belém e foi sepultada ali (Gn 35.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas Lia foi sepultada por Jacó na caverna de Macpela, em Hebrom, onde estavam Abraão e Sara, Isaque e Rebeca, e onde o próprio Jacó pediu para ser sepultado (Gn 49.29-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ela não aparece entre os que desceram ao Egito com Jacó, o que indica que morreu antes disso (Gn 46.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A mulher menos amada em vida descansou ao lado de Jacó e dos patriarcas.
Fé e fraquezas
A história de Lia é marcada pela dor de não ser amada e pela rivalidade com a irmã. Ela participou da disputa por filhos, recorreu à serva para ter mais descendentes, negociou com mandrágoras e falou com amargura à irmã (Gn 30.9,14-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Também não há registro de que tenha resistido ao engano do pai na noite do casamento.
Ainda assim, o texto mostra uma mulher que reconheceu a ação de Deus em sua vida. Cada nome dado aos filhos é uma confissão: o Senhor viu, o Senhor ouviu, Deus deu (Gn 29.32-33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gn 30.18,20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E, no nascimento de Judá, ela deixou de olhar apenas para o marido e decidiu louvar ao Senhor (Gn 29.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Escritura não diz se Jacó chegou a amá-la como ela desejava, mas diz com clareza que Deus a viu.
Legado
De Lia vieram seis das doze tribos de Israel e, por meio de Zilpa, sua serva, mais duas (Gn 35.23,26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Da tribo de Levi saíram Moisés, Arão e todo o sacerdócio de Israel (Êx 6.16-20); da tribo de Judá vieram os reis da linhagem de Davi (Rt 4.18-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quando Rute se casou com Boaz, os anciãos de Belém desejaram que ela fosse como Raquel e como Lia, que juntas edificaram a casa de Israel (Rt 4.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Conexão com Cristo
O Messias não veio de Raquel, a esposa amada, mas de Lia, a esposa desprezada. Foi pelo seu quarto filho, Judá, que passou a linhagem de Davi e de Jesus (Mt 1.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 3.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o Leão da tribo de Judá (Ap 5.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A escolha de Deus ilustra o que Paulo diz da maneira como ele age: escolheu as coisas fracas e desprezadas do mundo para que ninguém se glorie diante dele (1Co 1.27-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em Cristo, a graça de Deus alcança justamente os que se sentem menos amados.
O nome Judá nasceu de um louvor: desta vez louvarei o Senhor (Gn 29.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Muitos intérpretes observam que Paulo parece aludir a esse sentido quando diz que o verdadeiro judeu é aquele que o é interiormente, cujo louvor não vem dos homens, mas de Deus (Rm 2.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) — uma leitura que se apresenta com moderação. Lia aprendeu a buscar em Deus o que não encontrava no marido; em Cristo, o louvor de Deus repousa sobre os que lhe pertencem.
Por meio de Lia vieram também as duas instituições que Cristo cumpre plenamente: o sacerdócio, pela tribo de Levi, e a realeza, pela tribo de Judá. Jesus, da tribo de Judá, tornou-se sacerdote não segundo a ordem de Levi, mas segundo a ordem de Melquisedeque, unindo em si o rei e o sacerdote (Hb 7.11-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Por fim, o primeiro filho de Lia recebeu um nome que confessa que o Senhor vira a sua aflição (Gn 29.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Séculos depois, Maria, mãe de Jesus, cantaria que Deus olhou para a humildade da sua serva (Lc 1.48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Deus que viu Lia é o mesmo que, em Cristo, se aproxima dos humildes. E o amor que Lia buscou sem encontrar plenamente em Jacó aponta, com moderação, para o amor do Esposo que ama a igreja e se entregou por ela (Ef 5.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o Deus que promete desposar o seu povo para sempre, em justiça, amor e fidelidade (Os 2.19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
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