Novo Testamento · Mulheres da Bíblia · Apóstolos e discípulos
Marta
- Outros nomes
Marta de Betânia
- Significado do nome
Provavelmente "senhora", forma feminina da palavra aramaica para "senhor"
- Posição / vínculo com a Bíblia
Discípula e amiga de Jesus, irmã de Maria e de Lázaro, que o recebeu em sua casa em Betânia e fez, diante do túmulo do irmão, uma das mais claras confissões de fé dos Evangelhos
- Nascimento
Provavelmente em Betânia, na Judeia, no início do século I d.C.
- Morte
Segundo uma lenda medieval do Ocidente, em Tarascon, na Provença, no sul da França; a Escritura não registra local nem data
- Testamento
Novo Testamento
- Grupo
Mulheres da Bíblia · Apóstolos e discípulos
Síntese histórica
Marta vivia em Betânia, aldeia próxima de Jerusalém, com seus irmãos Maria e Lázaro (Jo 11.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os três eram amigos íntimos de Jesus, e João registra expressamente que o Senhor amava Marta, a irmã dela e Lázaro (Jo 11.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Foi Marta quem recebeu Jesus em sua casa (Lc 10.38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o que sugere que ela estava à frente da casa da família.
A Escritura a apresenta em três cenas. Na primeira, atarefada com o serviço, ouve de Jesus um conselho amoroso sobre a única coisa necessária (Lc 10.38-42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Na segunda, depois da morte de Lázaro, sai ao encontro do Senhor, ouve dele a declaração "Eu sou a ressurreição e a vida" e confessa que ele é o Cristo, o Filho de Deus (Jo 11.20-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Na terceira, poucos dias antes da Páscoa, serve a ceia oferecida a Jesus em Betânia (Jo 12.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Marta é o retrato de uma discípula ativa, franca e de fé firme, que aprendeu aos pés do Mestre a ordenar suas prioridades.
História
Contexto e origem
Betânia ficava na encosta oriental do monte das Oliveiras, a cerca de quinze estádios de Jerusalém, isto é, a pouco menos de três quilômetros (Jo 11.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Era uma aldeia de passagem para quem vinha de Jericó rumo à cidade santa, e Jesus costumava hospedar-se ali, sobretudo na última semana antes da cruz (Mt 21.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 11.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A Bíblia não diz nada sobre os pais de Marta, nem se ela era casada. O fato de Lucas dizer que ela recebeu Jesus em sua casa (Lc 10.38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e de João mencioná-la em primeiro lugar entre os irmãos amados por Jesus (Jo 11.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) leva muitos intérpretes a considerá-la a irmã mais velha e responsável pela casa, mas a Escritura não o afirma expressamente.
Mateus e Marcos situam uma unção de Jesus, em Betânia, na casa de Simão, o leproso (Mt 26.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 14.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e João narra uma ceia semelhante em que Marta servia (Jo 12.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Alguns propuseram que Marta tivesse algum vínculo com Simão, mas a Bíblia não estabelece essa relação, e o assunto deve ficar no campo da hipótese.
A visita de Jesus
Lucas conta que, quando Jesus seguia viagem, entrou numa aldeia e Marta o recebeu em sua casa (Lc 10.38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Sua irmã Maria assentou-se aos pés do Senhor e ficou ouvindo o seu ensino, na postura própria de um discípulo diante do mestre (Lc 10.39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Marta, por sua vez, estava distraída com as muitas tarefas do serviço. Aproximou-se de Jesus e perguntou se ele não se importava de a irmã tê-la deixado servir sozinha, pedindo-lhe que mandasse Maria ajudá-la (Lc 10.40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A resposta de Jesus começa com o nome dela repetido, sinal de afeto e não de repreensão áspera. Ele observou que Marta andava ansiosa e agitada com muitas coisas, quando uma só era necessária, e que Maria havia escolhido a boa parte, que não lhe seria tirada (Lc 10.41-42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
É importante perceber o que Jesus não condenou. Ele não desprezou a hospitalidade nem o trabalho de Marta; o próprio Senhor afirmou ter vindo para servir (Mc 10.45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 22.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que ele corrigiu foi a ansiedade que tirava dela a paz e a fazia perder o principal: a presença e a palavra do Mestre que estava em sua casa. É o mesmo ensino que aparece no Sermão do Monte, quando Jesus manda buscar em primeiro lugar o Reino de Deus em vez de viver ansioso (Mt 6.31-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Ao longo dos séculos, muitos pregadores leram esse episódio como um contraste entre a vida ativa, representada por Marta, e a vida contemplativa, representada por Maria. Essa leitura, que se tornou comum desde Agostinho e Gregório Magno, tem valor devocional, mas o texto é mais simples: trata de prioridade, não de dois tipos de cristãos.
A morte de Lázaro
O segundo episódio, narrado por João, mostra Marta em um momento de dor. Lázaro adoeceu, e as irmãs mandaram avisar Jesus de que aquele a quem ele amava estava enfermo (Jo 11.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus, embora amasse os três, permaneceu ainda dois dias onde estava, afirmando que aquela enfermidade era para a glória de Deus (Jo 11.4-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quando chegou a Betânia, Lázaro estava sepultado havia quatro dias, e muitos judeus tinham vindo consolar as irmãs (Jo 11.17-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Assim que soube que Jesus estava chegando, Marta saiu ao seu encontro, enquanto Maria ficou em casa (Jo 11.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Suas primeiras palavras foram de lamento franco: se ele estivesse ali, o irmão não teria morrido. Mas acrescentou que, mesmo naquele momento, sabia que Deus lhe concederia tudo o que pedisse (Jo 11.21-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus afirmou que Lázaro ressuscitaria, e Marta respondeu que sabia que ele ressuscitaria na ressurreição do último dia, expressando a esperança de muitos judeus piedosos de sua época (Jo 11.23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dn 12.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A grande confissão
Jesus, então, levou a fé de Marta da esperança futura para a sua própria pessoa. Declarou: "Eu sou a ressurreição e a vida", e afirmou que quem nele crê, ainda que morra, viverá, e quem vive e crê nele nunca morrerá. Em seguida perguntou se ela cria nisso (Jo 11.25-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A resposta de Marta é uma das mais completas confissões de fé dos Evangelhos: ela creu que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, aquele que havia de vir ao mundo (Jo 11.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Sua confissão se aproxima da de Pedro em Cesareia de Filipe (Mt 16.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e corresponde exatamente ao propósito com que João escreveu o seu Evangelho: que os leitores creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e, crendo, tenham vida em seu nome (Jo 20.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A mesma mulher que se agitara com o serviço mostrou-se, na hora da dor, uma discípula que havia aprendido quem era o seu Senhor.
Depois disso, Marta foi chamar a irmã, dizendo-lhe em particular que o Mestre estava ali e a chamava (Jo 11.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Diante do túmulo
Jesus comoveu-se profundamente e chorou diante da dor das irmãs e dos amigos (Jo 11.33-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ao chegar ao túmulo, uma gruta fechada com uma pedra, mandou que a removessem. Marta, com o realismo que a caracteriza, objetou que o corpo já cheirava mal, pois Lázaro estava ali havia quatro dias (Jo 11.38-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus lembrou-lhe que tinha dito que, se ela cresse, veria a glória de Deus (Jo 11.40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A pedra foi removida, Jesus orou ao Pai e chamou Lázaro em alta voz, e o morto saiu, com as mãos e os pés enfaixados (Jo 11.41-44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A cena mostra uma fé verdadeira, mas ainda em crescimento. Marta havia confessado Jesus como o Cristo e, ainda assim, hesitou diante da sepultura. O Senhor não a rejeitou por isso; conduziu-a, com paciência, a ver a glória que havia prometido.
A ceia em Betânia
O último registro de Marta está em João. Seis dias antes da Páscoa, Jesus voltou a Betânia, onde lhe ofereceram uma ceia. Lázaro estava à mesa com ele, Maria ungiu os pés de Jesus com um perfume precioso, e Marta servia (Jo 12.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ela continuava sendo a mesma mulher dedicada ao serviço, mas agora o servia na presença do Senhor que havia devolvido a vida ao seu irmão. Ali, servir já não a afastava de Jesus; era uma forma de honrá-lo.
A tradição posterior
A Escritura não diz mais nada sobre Marta. Uma tradição oriental afirma que Lázaro se tornou bispo em Chipre, e alguns relatos associam as irmãs a essa ilha. No Ocidente, uma lenda medieval leva Marta, Maria e Lázaro à Provença, no sul da França, e atribui a Marta a vitória sobre um dragão em Tarascon, onde teria morrido. Essas narrativas não têm apoio histórico e devem ser recebidas apenas como tradição.
Fé e legado
Marta é uma das personagens mais humanas dos Evangelhos. Era hospitaleira, trabalhadora e franca, a ponto de expor ao próprio Jesus sua queixa e sua dor (Lc 10.40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 11.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Também conheceu a ansiedade e a hesitação (Lc 10.41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 11.39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ainda assim, foi amada por Jesus (Jo 11.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), corrigida com ternura e conduzida a uma fé madura. Sua vida ensina que o serviço a Deus é precioso, mas que o primeiro lugar pertence ao próprio Senhor, e que a fé se fortalece justamente quando levamos a ele, com sinceridade, as nossas perguntas e as nossas perdas.
Conexão com Cristo
A vida de Marta conduz ao centro do evangelho: a pessoa de Jesus. A "única coisa necessária" que ela foi chamada a escolher não era um método nem uma atitude, mas o próprio Cristo e a sua palavra (Lc 10.42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele é o pão da vida, que sacia de modo que nada mais seja tão necessário (Jo 6.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Diante do túmulo de Lázaro, Jesus revelou a Marta que a ressurreição não é apenas um acontecimento do fim dos tempos, mas uma pessoa: ele mesmo (Jo 11.25-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A ressurreição de Lázaro foi um sinal que apontava para a ressurreição do próprio Cristo, primícias dos que dormem (1Co 15.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e para a vida eterna que ele dá a quem crê (Jo 5.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ao mesmo tempo, foi esse milagre que levou as autoridades a decidirem matá-lo (Jo 11.47-53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Para dar vida a Lázaro, Jesus caminhou em direção à própria morte: devolveu o irmão de Marta à vida ao preço de entregar a sua.
Por fim, o Senhor a quem Marta servia à mesa é o Senhor que se fez servo. Poucos dias depois daquela ceia em Betânia, ele se levantou da mesa, tomou uma toalha e lavou os pés dos discípulos (Jo 13.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e em seguida deu a vida em resgate por muitos (Mc 10.45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O serviço de Marta encontra seu sentido mais profundo no serviço de Cristo, que primeiro serviu os seus.
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