Novo Testamento · Outros
Nicodemos
- Significado do nome
Provavelmente "vencedor do povo", nome grego formado pelas palavras para "vitória" e "povo"
- Posição / vínculo com a Bíblia
Fariseu e membro do conselho dos judeus que visitou Jesus de noite e ouviu dele o ensino sobre o novo nascimento; mais tarde defendeu-o diante dos fariseus e, depois da crucificação, participou de seu sepultamento
- Testamento
Novo Testamento
- Grupo
Outros
Síntese histórica
Nicodemos era fariseu e um dos principais dos judeus, provavelmente membro do Sinédrio, o conselho supremo de Jerusalém (Jo 3.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 7.50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aparece apenas no Evangelho de João, em três momentos que mostram um caminho gradual de fé. Primeiro, foi ao encontro de Jesus de noite e ouviu dele que ninguém pode ver o Reino de Deus se não nascer de novo (Jo 3.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Depois, quando os fariseus queriam condenar Jesus sem ouvi-lo, levantou a voz para lembrar que a Lei exigia julgamento justo (Jo 7.50-51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Por fim, depois da crucificação, levou uma grande quantidade de mirra e aloés e, com José de Arimateia, sepultou o corpo de Jesus (Jo 19.39-40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Sua história mostra um homem religioso, culto e respeitado que descobriu que nem a posição nem o conhecimento da Lei bastavam: era preciso nascer do alto. O mestre de Israel que chegou na escuridão terminou, à luz do dia, ao lado da cruz.
História
Contexto e origem
Nicodemos viveu na Judeia do século I, sob o domínio romano. João o apresenta como fariseu e como um dos principais dos judeus (Jo 3.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), expressão que indica um membro da liderança do povo, e mais adiante o mostra participando de uma reunião dos chefes dos sacerdotes e dos fariseus (Jo 7.45-50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É por isso que a maioria dos intérpretes o considera membro do Sinédrio. Jesus o chama de mestre de Israel (Jo 3.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o que sugere que era um conhecido professor da Lei.
Os fariseus formavam um movimento religioso leigo, marcado pelo estudo rigoroso da Lei e pelo cuidado com a pureza e as tradições dos antigos (Mc 7.3-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 26.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Muitos deles se opuseram a Jesus, mas o Novo Testamento também registra fariseus abertos à sua mensagem, como Gamaliel (At 5.34-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e os que mais tarde creram (At 15.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Nicodemos tinha nome grego, algo comum entre judeus da época. A Bíblia não informa onde nasceu, sua idade, sua família ou sua profissão. Fontes judaicas posteriores mencionam um homem rico de Jerusalém chamado Nacdimon, e alguns estudiosos propuseram que se tratasse da mesma pessoa ou de alguém da mesma família, mas essa identificação é apenas uma hipótese.
O encontro de noite
João conta que Nicodemos foi até Jesus de noite (Jo 3.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O texto não explica o motivo. Muitos supõem que ele temia ser visto por seus colegas, já que, mais tarde, João registra que muitos dos principais creram em Jesus, mas não o confessavam por medo dos fariseus (Jo 12.42-43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Outros lembram que a noite era um tempo apropriado para conversas tranquilas e para o estudo da Lei. Seja como for, no Evangelho de João a noite costuma ter também um sentido simbólico, ligado às trevas espirituais de quem ainda não chegou à luz (Jo 3.19-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 13.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Nicodemos começou com respeito, chamando Jesus de Rabi e reconhecendo que ele era um mestre vindo de Deus, porque ninguém poderia fazer os sinais que ele fazia se Deus não estivesse com ele (Jo 3.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus, porém, foi direto ao ponto: ninguém pode ver o Reino de Deus se não nascer de novo (Jo 3.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A palavra grega usada pode significar tanto "de novo" quanto "do alto", e o diálogo explora os dois sentidos.
Nascer da água e do Espírito
Nicodemos entendeu a frase de modo literal e perguntou como alguém poderia nascer sendo já velho, ou entrar outra vez no ventre da mãe (Jo 3.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus explicou que ninguém pode entrar no Reino de Deus se não nascer da água e do Espírito, porque o que nasce da carne é carne, e o que nasce do Espírito é espírito (Jo 3.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Comparou a obra do Espírito ao vento, que sopra onde quer: ouve-se o seu som, mas não se sabe de onde vem nem para onde vai (Jo 3.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A mesma palavra, em hebraico e em grego, significava vento e espírito.
A expressão "água e Espírito" recebeu várias interpretações ao longo da história. Muitos veem nela uma referência à purificação e à renovação que os profetas anunciaram, quando Deus aspergiria água pura sobre o seu povo e poria nele um novo espírito (Ez 36.25-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Outros relacionam a água ao batismo, ou ao nascimento natural. O ponto central, porém, é claro: a entrada no Reino exige uma vida nova, gerada por Deus, e não apenas esforço religioso.
Nicodemos perguntou como aquilo poderia acontecer, e Jesus respondeu, com certa ironia, que ele era mestre de Israel e não entendia essas coisas (Jo 3.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O especialista na Lei precisava aprender de novo, como um principiante.
A serpente levantada
Em seguida, Jesus levou a conversa a uma imagem que Nicodemos conhecia bem. Lembrou que Moisés levantou a serpente no deserto, e que, do mesmo modo, era necessário que o Filho do Homem fosse levantado, para que todo o que nele cresse tivesse a vida eterna (Jo 3.14-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No episódio de Números, o povo mordido pelas serpentes era curado ao olhar para a serpente de bronze erguida numa haste (Nm 21.8-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus anunciava assim, de modo velado, a sua morte na cruz.
O diálogo culmina numa das passagens mais conhecidas da Bíblia: Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não está claro onde terminam as palavras de Jesus a Nicodemos e onde começa o comentário do evangelista, pois o texto antigo não usava aspas, mas a mensagem é a mesma: o Filho veio não para condenar, mas para salvar, e quem pratica a verdade vem para a luz (Jo 3.17-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). João não registra a reação de Nicodemos ao final da conversa.
A defesa diante dos fariseus
Nicodemos reaparece durante a festa dos Tabernáculos. Os chefes dos sacerdotes e os fariseus tinham mandado guardas prenderem Jesus, mas eles voltaram de mãos vazias, dizendo que ninguém jamais falara como aquele homem (Jo 7.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 7.45-46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os fariseus os repreenderam e perguntaram se algum dos chefes ou dos fariseus tinha crido nele, acrescentando que só a multidão ignorante da Lei se deixava enganar (Jo 7.47-49 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Foi nesse momento que Nicodemos, um dos chefes e dos fariseus, falou. Perguntou se a Lei deles condenava alguém sem antes ouvi-lo e saber o que fazia (Jo 7.50-51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele apelava a um princípio claro da Lei de Moisés, que mandava ouvir as partes e investigar com cuidado antes de julgar (Dt 1.16-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 17.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Seus colegas responderam com desprezo, perguntando se também ele era da Galileia e afirmando que da Galileia não surgia profeta (Jo 7.52 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A defesa foi cautelosa, sem uma confissão aberta de fé, mas exigiu coragem diante de um grupo hostil.
O sepultamento de Jesus
A última aparição de Nicodemos é a mais marcante. Depois da morte de Jesus, José de Arimateia, discípulo que até então era discípulo oculto por medo dos judeus, pediu a Pilatos o corpo do Senhor (Jo 19.38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Nicodemos, que antes tinha ido a Jesus de noite, foi também, levando cerca de cem libras de uma mistura de mirra e aloés (Jo 19.39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A libra romana correspondia a pouco mais de trezentos gramas, de modo que se tratava de mais de trinta quilos de especiarias, uma quantidade própria de sepultamentos reais (2Cr 16.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Os dois tomaram o corpo de Jesus e o envolveram em lençóis de linho com as especiarias, conforme o costume judaico de sepultar. Havia um jardim no lugar da crucificação e, nele, um sepulcro novo, onde ninguém havia sido posto; ali, por causa da preparação da Páscoa e da proximidade do túmulo, colocaram Jesus (Jo 19.40-42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os outros Evangelhos mencionam apenas José de Arimateia (Mt 27.57-60 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 15.43-46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 23.50-53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); João acrescenta Nicodemos.
Enquanto os discípulos mais próximos estavam escondidos, dois membros da elite judaica se expuseram publicamente ao pedir e sepultar o corpo de um condenado. O homem que chegara de noite agora agia à vista de todos.
A tradição posterior
A Escritura não diz mais nada sobre Nicodemos. Um texto apócrifo dos séculos IV ou V, conhecido como Evangelho de Nicodemos ou Atos de Pilatos, atribui-lhe um relato sobre o julgamento de Jesus, mas não tem valor histórico. Tradições posteriores afirmam que ele foi batizado, perdeu sua posição entre os judeus por causa da fé e morreu como cristão, e um relato do século V diz que seus restos foram encontrados junto aos de Estêvão. Nada disso pertence ao texto bíblico, e deve ser recebido apenas como tradição.
Fé e legado
A Bíblia não descreve o momento exato em que Nicodemos creu, mas mostra a sua trajetória: da curiosidade respeitosa à defesa cautelosa, e da defesa à devoção pública. Ele ensina que a fé às vezes cresce aos poucos, e que Deus pode conduzir até o pé da cruz mesmo aqueles que começam hesitantes. Ensina também que religião, cultura e posição social não substituem o novo nascimento: o mestre de Israel precisou ouvir que tudo começa com a vida que vem do alto.
Conexão com Cristo
Foi a Nicodemos que Jesus anunciou que o Filho do Homem seria levantado como a serpente no deserto (Jo 3.14-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Nm 21.8-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Nicodemos ouviu a promessa de noite, sem entendê-la; anos depois, viu-a cumprir-se diante dos seus olhos, quando o corpo de Jesus foi tirado da cruz. Como os israelitas que olhavam para a serpente e viviam, todo o que olha com fé para o Cristo crucificado recebe a vida eterna (Jo 3.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O próprio Jesus disse que, quando fosse levantado da terra, atrairia todos a si (Jo 12.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Nicodemos é um dos primeiros exemplos dessa atração.
A conversa sobre o novo nascimento aponta para a obra que só Deus pode fazer. A nova vida não nasce do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus (Jo 1.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os apóstolos ensinariam que Deus salva pela lavagem da regeneração e renovação do Espírito Santo (Tt 3.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e que os crentes foram regenerados para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos (1Pe 1.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Por fim, as cem libras de especiarias que Nicodemos levou ao sepulcro honraram Jesus com um sepultamento digno de um rei. Pode-se ver nisso uma confirmação silenciosa do que Pilatos escrevera acima da cruz, ainda que com outra intenção: Jesus de Nazaré, o Rei dos Judeus (Jo 19.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o túmulo de rico em que foi posto, providenciado por José e por Nicodemos, ecoa a profecia de que o Servo sofredor teria a sua sepultura com o rico na sua morte (Is 53.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Nicodemos ungiu o corpo do Rei para o sepulcro; três dias depois, o sepulcro estaria vazio.
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