Novo Testamento · Apóstolos e discípulos
Simão, o zelote
- Outros nomes
Simão, o cananeu (Mt 10.4; Mc 3.18)
- Significado do nome
Simão é a forma grega de Simeão, "ouvido" ou "aquele que ouve" (Gn 29.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); zelote vem do grego e significa "zeloso", e cananeu, nesse caso, é a forma aramaica da mesma palavra, sem relação com Canaã
- Posição / vínculo com a Bíblia
Um dos doze apóstolos escolhidos por Jesus; integra o terceiro grupo das listas apostólicas e é identificado pelo apelido que remete ao zelo religioso e, provavelmente, ao nacionalismo judaico de sua época
- Nascimento
Provavelmente na Galileia (At 1.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 2.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), no início do século I d.C.
- Morte
Segundo a tradição ocidental, martirizado na Pérsia, junto com Judas Tadeu; local e data incertos
- Testamento
Novo Testamento
- Grupo
Apóstolos e discípulos
Síntese histórica
Simão, o zelote, foi um dos doze apóstolos de Jesus. Mateus e Marcos o chamam de Simão, o cananeu (Mt 10.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 3.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Lucas, que escrevia para leitores de língua grega, traduz o mesmo apelido como zelote (Lc 6.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 1.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As duas formas significam "zeloso" e serviam para distingui-lo de Simão Pedro, também entre os Doze.
A Escritura não registra nenhuma palavra nem nenhum episódio individual de Simão. Seu apelido, porém, diz muito: ele vinha de um ambiente de zelo ardente pela Lei e, muito provavelmente, de oposição ao domínio romano. Ao chamá-lo, Jesus reuniu no mesmo grupo um homem com esse passado e Mateus, antigo cobrador de impostos a serviço de Roma (Mt 10.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mostrando que o Reino de Deus cria uma comunhão que nenhuma causa política seria capaz de criar.
História
Contexto e origem
Simão viveu na Palestina do século I, sob o domínio romano. A Escritura não informa onde nasceu, mas os apóstolos são chamados de galileus no Novo Testamento (At 1.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 2.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o que torna provável uma origem galileia.
Simão era o nome mais comum entre os judeus da época, forma grega de Simeão, o filho de Jacó cujo nome lembra que o Senhor ouviu a aflição de Lia (Gn 29.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Por isso, o Novo Testamento traz muitos homens chamados Simão, e quase sempre com um complemento: Simão Pedro (Mt 10.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), Simão, irmão de Jesus (Mt 13.55 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), Simão, o leproso (Mc 14.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), Simão de Cirene (Mc 15.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), Simão, o fariseu (Lc 7.40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), Simão, pai de Judas Iscariotes (Jo 6.71 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), Simão, o mágico (At 8.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e Simão, o curtidor (At 9.43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Entre os Doze havia dois Simões, e o apelido deste o distinguia de Pedro.
O significado do apelido
A palavra que Mateus e Marcos transcrevem como "cananeu" não se refere à terra de Canaã nem à cidade de Caná. Ela reproduz um termo aramaico que significa "zeloso", e Lucas a traduz pelo equivalente grego, zelote (Lc 6.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 1.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As duas formas apontam para a mesma ideia.
O sentido exato do apelido admite duas leituras, que não se excluem. Na primeira, "zeloso" descreve o fervor religioso de Simão, aquele zelo pela Lei e pelas tradições dos pais que Paulo também reconheceu em si mesmo antes de conhecer a Cristo (Gl 1.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 22.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que caracterizava muitos judeus de Jerusalém (At 21.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Na segunda, o apelido indica ligação com o movimento nacionalista que resistia ao domínio romano. Gamaliel menciona a revolta de Judas, o galileu, que se levantou contra Roma nos dias do recenseamento (At 5.37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Flávio Josefo descreve esse movimento como uma corrente que não aceitava outro senhor senão Deus. Josefo também registra que o partido dos zelotes, como grupo organizado, teve papel decisivo na guerra contra Roma iniciada em 66 d.C., algumas décadas depois do ministério de Jesus.
Não se sabe, portanto, se Simão pertencia a um grupo armado ou apenas partilhava o zelo nacionalista de muitos galileus. A Escritura não o diz. O certo é que o apelido o acompanhou mesmo depois de anos ao lado de Jesus, como lembrança de quem ele tinha sido.
O chamado
Lucas narra que Jesus passou a noite em oração no monte e, ao amanhecer, escolheu doze dentre os discípulos, a quem chamou apóstolos (Lc 6.12-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Simão estava entre eles. Marcos explica o propósito da escolha: que estivessem com Jesus, que fossem enviados a pregar e que tivessem autoridade sobre os demônios (Mc 3.13-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Nas listas, Simão aparece sempre no terceiro grupo de quatro nomes, encabeçado por Tiago, filho de Alfeu, e quase sempre perto de Judas Tadeu (Mt 10.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 3.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 6.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 1.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No mesmo colégio apostólico estava Mateus, o publicano (Mt 9.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 10.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Para um zeloso da época, cobradores de impostos eram colaboradores do opressor estrangeiro; para um publicano, zelotes eram uma ameaça. Jesus chamou os dois para a mesma mesa.
Um zelo transformado
A Escritura não narra o que se passou no coração de Simão, mas registra o que Jesus ensinou diante dele. O Mestre mandou amar os inimigos e orar pelos que perseguem (Mt 5.43-44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mandou dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus (Mt 22.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e, na noite da prisão, ordenou a Pedro que guardasse a espada (Mt 26.52 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Diante de Pilatos, declarou que o seu Reino não é deste mundo, e que, se fosse, seus servos lutariam (Jo 18.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Com os demais, Simão foi enviado a pregar o Reino, curar enfermos e expulsar demônios (Mt 10.1-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 6.7-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Esteve à mesa na última ceia (Mt 26.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e, como todos os outros, abandonou o Mestre e fugiu na noite da prisão (Mt 26.56 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 14.50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), fraqueza que a Escritura registra com honestidade.
Mesmo depois da ressurreição, os apóstolos ainda perguntaram se era aquele o tempo em que Jesus restauraria o reino a Israel (At 1.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A resposta do Senhor redirecionou a esperança deles: não lhes cabia conhecer os tempos, mas receber o poder do Espírito Santo e ser suas testemunhas até os confins da terra (At 1.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O zelo nacional de Simão foi convertido em zelo missionário.
Depois da ressurreição
Simão estava entre os que viram o Senhor ressuscitado (Lc 24.33-36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 20.19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Co 15.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Lucas o menciona nominalmente pela última vez no cenáculo, onde os onze perseveravam em oração com as mulheres, com Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos dele (At 1.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele estava, portanto, entre os apóstolos no dia de Pentecostes (At 2.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e entre os Doze que convocaram a igreja para escolher os sete servidores (At 6.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Depois disso, a Escritura silencia sobre ele.
A tradição posterior
As tradições sobre Simão são numerosas e divergentes. A tradição ocidental o associa a Judas Tadeu, com quem teria pregado e sido martirizado na Pérsia, e por isso a liturgia romana celebra os dois no mesmo dia. Outros relatos o levam ao Egito, ao norte da África ou até à Britânia. Algumas tradições, com base numa leitura equivocada de "cananeu", fizeram dele um natural de Caná e até o noivo das bodas (Jo 2.1-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), ideia sem apoio no texto. Também há quem o tenha confundido com Simeão, filho de Clopas, que Eusébio de Cesareia apresenta como bispo de Jerusalém depois de Tiago. Nada disso pertence ao texto bíblico, e deve ser recebido apenas como tradição.
Fé e legado
Simão é o retrato de um homem cujo ardor não foi apagado por Cristo, mas redirecionado. O zelo que talvez sonhasse expulsar Roma da terra santa passou a servir a um Reino que não se impõe pela espada, mas pela verdade e pelo amor. Seu nome está entre os doze gravados nos fundamentos da nova Jerusalém (Ap 21.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), ao lado do de Mateus, o publicano: dois homens que a política separava e que o Senhor uniu.
Conexão com Cristo
O apelido de Simão encontra sua plenitude no próprio Cristo. Quando Jesus purificou o templo, os discípulos se lembraram do salmo que diz que o zelo da casa de Deus consumiria o Messias (Jo 2.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 69.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Esse zelo levou Jesus não a derramar o sangue dos inimigos, mas a derramar o próprio sangue pelos pecadores (Rm 5.8-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Simão aprendeu, ao lado do Mestre, a diferença entre o zelo humano, que pode existir sem entendimento (Rm 10.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o zelo de Deus, que se cumpre na cruz.
O Novo Testamento usa a mesma palavra do apelido de Simão para descrever o povo que Cristo redimiu: um povo zeloso de boas obras (Tt 2.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O zelo não foi abolido; foi purificado e posto a serviço do bem.
Por fim, a presença de Simão e de Mateus entre os Doze antecipa o que Paulo ensinaria sobre a obra de Cristo, que derrubou o muro de separação e, de dois, fez um só povo, reconciliado com Deus pela cruz (Ef 2.14-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Antes de qualquer reforma política, o Reino de Cristo reconcilia os corações, e é nele que a verdadeira libertação se cumpre (Jo 8.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
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