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Zaqueu
- Significado do nome
Provavelmente "puro" ou "justo"; Zaqueu é a forma grega do nome hebraico Zacai (Ed 2.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ne 7.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))
- Posição / vínculo com a Bíblia
Chefe dos cobradores de impostos em Jericó, homem rico que subiu numa árvore para ver Jesus, recebeu-o em sua casa e, transformado pela graça, repartiu seus bens com os pobres e restituiu o que havia tirado injustamente
- Testamento
Novo Testamento
- Grupo
Outros
Síntese histórica
Zaqueu era chefe dos publicanos, os cobradores de impostos, na cidade de Jericó, e era rico (Lc 19.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quando Jesus passou pela cidade, a caminho de Jerusalém, Zaqueu quis ver quem ele era, mas, por ser de pequena estatura, não conseguia por causa da multidão. Correu adiante e subiu numa figueira-brava, um sicômoro, para vê-lo passar (Lc 19.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ao chegar ali, Jesus olhou para cima, chamou-o pelo nome e disse que precisava ficar em sua casa naquele dia (Lc 19.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Zaqueu desceu depressa e o recebeu com alegria, enquanto o povo murmurava porque Jesus fora hospedar-se na casa de um pecador (Lc 19.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Diante do Senhor, Zaqueu declarou que daria metade dos seus bens aos pobres e devolveria quatro vezes mais a quem tivesse defraudado. Jesus anunciou que a salvação havia chegado àquela casa e resumiu, com essa história, a sua missão: o Filho do Homem veio buscar e salvar o que estava perdido (Lc 19.8-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
História
Contexto e origem
Zaqueu vivia em Jericó, cidade situada no vale do Jordão, a cerca de vinte e cinco quilômetros a nordeste de Jerusalém. Nos dias de Jesus, era uma cidade próspera, rodeada de palmeiras e plantações, por onde passava a estrada dos peregrinos que vinham da Galileia e da Pereia rumo a Jerusalém. Flávio Josefo registra que ali havia plantações valiosas de bálsamo e um palácio de inverno construído por Herodes, o Grande. A posição da cidade fazia dela um importante ponto de cobrança de tributos.
Seu nome, forma grega de Zacai, aparece em famílias judaicas do tempo do retorno do exílio (Ed 2.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ne 7.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e provavelmente significa "puro" ou "justo". Para os seus vizinhos, esse nome devia soar irônico, porque a profissão de Zaqueu era sinônimo de injustiça. A Bíblia não informa sua idade, sua família nem onde nasceu.
O cobrador de impostos
Os publicanos eram judeus que trabalhavam na arrecadação de impostos e taxas para o poder romano ou para os governantes locais aliados de Roma. No sistema da época, o direito de cobrar era arrendado, e o cobrador podia exigir mais do que o devido e ficar com a diferença. Por isso, os publicanos eram vistos como traidores do próprio povo e como ladrões. João Batista, ao receber publicanos que vinham ser batizados, ordenou-lhes que não cobrassem mais do que o estabelecido (Lc 3.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Nos Evangelhos, os publicanos aparecem lado a lado com os pecadores e as prostitutas, como pessoas excluídas da convivência religiosa (Mt 9.10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 21.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 15.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus, porém, era conhecido como amigo de publicanos e pecadores (Mt 11.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e chamou até um deles, Levi, também chamado Mateus, para ser seu apóstolo (Mt 9.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 5.27-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Zaqueu não era um cobrador qualquer. Lucas o chama de chefe dos publicanos (Lc 19.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o que indica que tinha outros cobradores sob a sua direção e participava dos lucros de toda a arrecadação. Sua riqueza era, ao menos em parte, fruto de um sistema injusto, e ele próprio reconheceria ter defraudado pessoas (Lc 19.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A caminho de Jerusalém
O encontro com Zaqueu acontece na última viagem de Jesus a Jerusalém, poucos dias antes da cruz (Lc 18.31-33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 19.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 19.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Lucas o coloca logo depois de dois episódios que ajudam a entendê-lo. No primeiro, um homem rico de posição elevada recusou seguir Jesus porque não quis deixar os seus bens, e o Senhor afirmou que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus. Quando os ouvintes perguntaram quem poderia ser salvo, Jesus respondeu que o que é impossível aos homens é possível a Deus (Lc 18.18-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No segundo, perto de Jericó, um cego que clamava por misericórdia recebeu a vista (Lc 18.35-43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Zaqueu é, ao mesmo tempo, o rico para quem Deus fez o impossível e o homem cujos olhos foram abertos.
Na figueira-brava
Jesus entrou em Jericó e atravessava a cidade (Lc 19.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Zaqueu procurava ver quem era Jesus, mas a multidão o impedia, porque ele era de pequena estatura (Lc 19.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Então correu adiante e subiu num sicômoro, uma espécie de figueira de tronco curto e galhos baixos e largos, comum na região, para vê-lo, pois Jesus havia de passar por ali (Lc 19.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A cena é quase cômica: um homem rico e importante, correndo e subindo numa árvore como um menino. Lucas não explica os motivos de Zaqueu além do desejo de ver quem era Jesus. Talvez fosse curiosidade; talvez, uma inquietação mais profunda. A Escritura não diz, mas mostra que ele estava disposto a deixar de lado a própria dignidade para ver o Mestre.
"Hoje me convém ficar em tua casa"
Quando Jesus chegou àquele lugar, olhou para cima e disse a Zaqueu que descesse depressa, porque naquele dia lhe convinha ficar em sua casa (Lc 19.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus o chamou pelo nome, embora nada indique que já se conhecessem. E não apenas aceitou um convite: convidou-se. A palavra traduzida por "convém" é a mesma que, em Lucas, exprime a necessidade do plano de Deus (Lc 2.49 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 9.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 24.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aquele encontro não era um acaso.
Zaqueu desceu depressa e o recebeu com alegria (Lc 19.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A multidão, porém, murmurava, dizendo que Jesus tinha ido hospedar-se na casa de um homem pecador (Lc 19.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Num tempo em que sentar-se à mesa com alguém era sinal de comunhão, a escolha de Jesus escandalizou os que o acompanhavam.
A transformação
Lucas não registra o que Jesus disse a Zaqueu dentro de casa. Registra apenas o fruto. Zaqueu se levantou e declarou ao Senhor que daria aos pobres metade dos seus bens e que, se tivesse defraudado alguém em alguma coisa, restituiria quatro vezes mais (Lc 19.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A Lei de Moisés exigia que quem tivesse prejudicado o próximo restituísse o valor com o acréscimo de um quinto (Lv 6.1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Nm 5.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A restituição quádrupla era exigida apenas em casos graves, como o roubo de uma ovelha que fosse abatida ou vendida (Êx 22.1). Zaqueu, por vontade própria, aplicou a si a medida mais severa e ainda acrescentou a doação de metade de tudo o que tinha. O homem que vivia de tirar passou a viver de dar.
Alguns intérpretes leem as palavras de Zaqueu, ditas no tempo presente no texto grego, como a descrição de uma prática que ele já teria, em defesa própria diante das murmurações. A maioria, porém, entende que se trata de uma decisão nascida naquele encontro, e a resposta de Jesus aponta nessa direção.
"Hoje houve salvação nesta casa"
Jesus declarou que naquele dia a salvação havia chegado àquela casa, pois também Zaqueu era filho de Abraão (Lc 19.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O homem que o povo considerava excluído foi reconhecido como herdeiro das promessas feitas ao patriarca. E Jesus concluiu: o Filho do Homem veio buscar e salvar o que estava perdido (Lc 19.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Essa frase resume o Evangelho de Lucas. Ela ecoa as parábolas da ovelha perdida, da moeda perdida e do filho perdido, que Jesus contou justamente quando os fariseus murmuravam porque ele recebia pecadores e comia com eles (Lc 15.1-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Logo depois do encontro com Zaqueu, Jesus contou a parábola das minas, porque os ouvintes pensavam que o Reino de Deus se manifestaria imediatamente (Lc 19.11-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Depois disso, a Escritura não volta a mencionar Zaqueu.
A tradição posterior
Clemente de Alexandria, no século II, registra que alguns identificavam Zaqueu com Matias, o apóstolo escolhido no lugar de Judas (At 1.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e um documento eclesiástico do século IV, as chamadas Constituições Apostólicas, o apresenta como o primeiro bispo de Cesareia. Em Jericó, ainda se mostra aos peregrinos um antigo sicômoro associado à sua história. Nada disso pertence ao texto bíblico, e deve ser recebido apenas como tradição.
Fé e legado
Zaqueu é um dos retratos mais vivos da conversão em toda a Escritura. Sua história mostra que ninguém está longe demais para ser alcançado por Jesus: nem o rico, nem o desonesto, nem o desprezado pela comunidade religiosa. Mostra também que a graça verdadeira transforma a vida concreta. O arrependimento de Zaqueu não ficou nas palavras; atingiu o bolso, as relações e a reputação. Como ensinou João Batista, frutos dignos de arrependimento se veem na prática (Lc 3.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Zaqueu subiu na árvore para ver Jesus e descobriu que o próprio Jesus tinha vindo procurá-lo.
Conexão com Cristo
A história de Zaqueu é a ilustração perfeita da missão de Cristo, resumida por ele mesmo: o Filho do Homem veio buscar e salvar o que estava perdido (Lc 19.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pelo profeta Ezequiel, Deus havia prometido que ele mesmo buscaria as suas ovelhas perdidas, traria de volta as desgarradas e cuidaria das feridas, ao contrário dos pastores que exploravam o rebanho (Ez 34.11-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em Jericó, Jesus cumpriu essa promessa: o Bom Pastor parou debaixo da árvore, chamou a ovelha pelo nome e a trouxe de volta (Jo 10.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 10.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O encontro mostra também que a graça vem antes da mudança. Jesus não exigiu que Zaqueu se corrigisse para depois entrar em sua casa; entrou primeiro, e a transformação veio em seguida. É a bondade de Deus que conduz ao arrependimento (Rm 2.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e nós amamos porque ele nos amou primeiro (1Jo 4.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Zaqueu deu metade dos seus bens porque recebeu antes um bem infinitamente maior.
Por fim, ao hospedar-se na casa de um pecador, Jesus aceitou carregar o desprezo que pesava sobre Zaqueu. As murmurações de Jericó antecipam o que aconteceria poucos dias depois em Jerusalém, quando ele seria contado com os transgressores (Is 53.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 22.37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O rico Zaqueu foi salvo por aquele que, sendo rico, se fez pobre por amor de nós, para que pela sua pobreza nos tornássemos ricos (2Co 8.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E a declaração de que Zaqueu era filho de Abraão aponta para a verdade que o evangelho proclama: os que são da fé são os verdadeiros filhos de Abraão (Gl 3.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
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