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Romanos · 45 de 66 · Novo Testamento

Romanos — Capítulo 1

Infográfico de “Romanos 1 — Capítulo a capítulo”, gerado automaticamente a partir do estudo publicado, com 6 partes: O escravo, o evangelho e o Filho; Gratidão, saudade e uma dívida com o mundo; O tema da carta, a justiça que o evangelho revela; A verdade sufocada e a glória trocada; Entregues aos desejos, a criação desordenada; A mente reprovada e a lista que alcança a todos.

Título do capítulo: A justiça revelada e a glória trocada
Gênero literário: Epístola — saudação, ação de graças e argumentação doutrinária (o endereço mais longo das cartas de Paulo; a gratidão e o desejo de ir a Roma; o tema da carta, a justiça de Deus revelada no evangelho; a ira de Deus revelada contra a impiedade e a idolatria; abertura da carta)
Número de versículos: 32

Nota de precisão: este estudo segue a numeração das Bíblias em português. A seção 1 apresenta a carta inteira, e os estudos dos outros capítulos remetem a ela; os pontos de texto e as grandes questões de interpretação aparecem aqui em linhas gerais e são tratados nos capítulos que os contêm. Nenhum versículo é transcrito; todos são parafraseados. As datas antigas são aproximadas.


🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural

Uma carta a uma igreja que Paulo não fundou

Romanos é a mais longa das cartas de Paulo, escrita a uma igreja que ele ainda não visitara. Não responde a uma crise como Gálatas nem a perguntas como 1 Coríntios: apresenta o evangelho de Paulo a cristãos de quem ele espera apoio, em exposição ordenada, com perguntas de um interlocutor imaginário e respostas cuidadosas. Lutero, no prefácio de 1522, a chamou de parte principal do Novo Testamento.

Quem escreveu: Paulo e Tércio

A autoria paulina não tem disputa séria: Romanos está entre as cartas que quase todos os estudiosos reconhecem como de Paulo. O apóstolo ditou o texto, e o secretário deixou a sua marca no fim: Tércio manda a sua própria saudação, como quem escreveu a carta (Rm 16.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O ditado era prática comum (1Co 16.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gl 6.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo escreve como judeu da tribo de Benjamim, educado como fariseu (Fp 3.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e chamado por Cristo para as nações (Gl 1.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 9.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Quando e onde: Corinto, por volta de 56 a 58

Paulo anunciou o evangelho de Jerusalém até o Ilírico (Rm 15.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), está de partida para Jerusalém com a coleta das igrejas da Macedônia e da Acaia (Rm 15.25-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e quer depois passar por Roma a caminho da Espanha (Rm 15.24, 28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Isso combina com os três meses na Grécia de At 20.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), no fim da terceira viagem, quase certamente em Corinto, como mostra o estudo de Atos 20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O capítulo 16 confirma: Febe serve a igreja de Cencreia, o porto oriental de Corinto, e deve ter levado a carta (Rm 16.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Gaio hospeda Paulo e a igreja (Rm 16.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), talvez o Gaio batizado por ele em Corinto (1Co 1.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); e Erasto, administrador da cidade, manda saudações. Pela cronologia dos estudos de Atos 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 18, ancorada em Gálio na Acaia por volta de 51 e 52, a carta fica por volta de 56 a 58, provavelmente num dos invernos desse intervalo.

A igreja de Roma

Ninguém sabe quem fundou a igreja de Roma. Entre os que ouviram Pedro em Pentecostes havia visitantes de Roma, judeus e prosélitos (At 2.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e muitos pensam que a fé chegou à capital pelas rotas de comércio e pelas sinagogas, levada por gente sem nome. Ambrosiaster, comentarista latino do século IV, escreveu que os romanos tinham abraçado a fé sem ter visto apóstolo algum e seguindo costumes judaicos. A tradição católica e a ortodoxa veneram Pedro e Paulo como fundadores da igreja de Roma, pelo seu testemunho e martírio ali; Romanos não menciona Pedro, e Paulo diz evitar construir onde outro lançou o alicerce (Rm 15.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o que leva muitos a pensar que Pedro chegou mais tarde.

A comunidade judaica de Roma era numerosa, com várias sinagogas. Por volta de 49, como lembram os estudos de Atos 18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 28, Cláudio expulsou da cidade ao menos parte dos judeus, por tumultos que Suetônio liga a um certo Chrestus, talvez uma forma confusa do nome de Cristo. Priscila e Áquila saíram então para Corinto (At 18.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e estão de novo em Roma quando Paulo escreve (Rm 16.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), depois da morte de Cláudio, em 54. Muitos estudiosos supõem, com cautela, que nos anos da expulsão as igrejas da cidade ficaram com maioria de origem gentia e que a volta dos crentes judeus trouxe atritos sobre comidas, dias e a Lei; os capítulos 14 e 15 e a insistência em judeu e grego combinam com isso, mas a reconstrução é hipótese.

O capítulo 16 mostra a igreja como uma rede de grupos em casas (Rm 16.5, 10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), 14-15), com muitos nomes comuns entre escravos e libertos, como mostrou Peter Lampe, e muitas mulheres: Febe, Priscila, Maria, Júnia, Trifena, Trifosa, Pérside, a mãe de Rufo, Júlia, a irmã de Nereu, apresentadas no estudo do capítulo 16.

Por que Paulo escreveu

A carta diz vários motivos, e os estudiosos se dividem sobre qual pesa mais, num debate reunido por Karl P. Donfried em The Romans Debate. Paulo quer o apoio de Roma para a missão na Espanha (Rm 15.24, 28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); pede oração pela coleta, que temia ver recusada em Jerusalém (Rm 15.25-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); quer firmar a unidade entre judeus e gentios (Rm 1.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 3.29-30; 10.12; 15.7-12); e precisa apresentar o seu evangelho, contestado por alguns (Rm 3.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os motivos não se excluem: o evangelho de 1–11 é a base da comunhão pedida em 12–15 e da missão que ele quer levar adiante.

A integridade e o texto dos manuscritos

A carta chegou com algumas diferenças de forma, que muitas Bíblias assinalam sem tirar a numeração. A doxologia final (Rm 16.25-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) aparece em lugares diferentes nos manuscritos: depois de 14.23, depois de 15.33, no fim, em dois lugares ou em nenhum. Isso alimenta hipóteses sobre formas mais curtas: Orígenes conta que Marcião, no século II, usava uma carta sem os capítulos 15 e 16. A bênção repetida de Rm 16.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não está nos manuscritos mais antigos. E T. W. Manson, entre outros, propôs que o capítulo 16 fosse um bilhete enviado a Éfeso, por causa dos muitos nomes e da presença de Priscila e Áquila, que estiveram ali (1Co 16.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); a hipótese é hoje minoritária, depois do trabalho de Harry Gamble, que defendeu a carta de dezesseis capítulos, e do de Lampe, que mostrou como os nomes cabem em Roma.

Há outras variantes conhecidas, tratadas nos seus capítulos. A expressão em Roma (Rm 1.7, 15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) falta em poucos testemunhos, talvez de cópias feitas para uso geral. Em Rm 5.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), a diferença de uma vogal faz da paz com Deus um fato ou um convite. Em Rm 8.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), alguns manuscritos antigos, como o P46 e o Vaticano, trazem Deus como sujeito explícito. Em Rm 9.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), a pontuação decide se Cristo é chamado Deus bendito ou se a frase é uma doxologia ao Pai; a maioria dos antigos e muitos modernos a leem como referência a Cristo. Em Rm 16.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Júnia é nome feminino na tradição antiga, e a forma masculina Júnias foi proposta muito depois; discute-se também se ela era notável entre os apóstolos ou conhecida deles. Nenhum desses pontos muda o que a fé confessa.

A arquitetura da carta

A expressão obediência da fé abre e fecha a carta (Rm 1.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 16.26), como uma moldura.

Romanos na história da Igreja

Em 386, num jardim de Milão, Agostinho ouviu uma voz de criança mandando pegar e ler, abriu as cartas de Paulo em Rm 13.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e encontrou ali o fim da sua luta, como conta nas Confissões. Lutero, segundo o relato que fez em 1545, lutava contra a expressão justiça de Deus em Rm 1.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que entendia como a justiça que pune, até compreender que se trata da justiça que Deus dá pela fé; a chamada experiência da torre tem data discutida, entre 1513 e 1519, e o relato é de memória, décadas depois. Em 24 de maio de 1738, numa reunião na Aldersgate Street, em Londres, John Wesley ouviu alguém ler o prefácio de Lutero a Romanos e sentiu, nas palavras do seu diário, o coração estranhamente aquecido. E Karl Barth publicou em 1919 um comentário que reescreveu inteiro em 1922, e que caiu, na imagem atribuída ao teólogo católico Karl Adam, como uma bomba no parquinho dos teólogos.

As grandes questões de interpretação

Algumas frases de Romanos estão no centro de debates antigos entre as tradições cristãs; apresentá-los com equilíbrio ajuda cada leitor a reconhecer a sua e a ouvir as outras.

A justificação pela fé. A Reforma, com Lutero e Calvino, leu em Romanos que o pecador é declarado justo somente pela fé, pela justiça de Cristo creditada a ele, sem as obras da Lei. O Concílio de Trento, em 1547, afirmou a graça como origem de tudo e entendeu a justificação também como renovação interior, pela fé viva na caridade. Em 1999, a Federação Luterana Mundial e a Igreja Católica assinaram a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação, com um consenso em verdades básicas: somos aceitos por Deus somente pela graça, mediante a fé na obra de Cristo, e não por mérito; outras famílias de igrejas se associaram depois. A tradição ortodoxa lê a carta com ênfase na participação na vida de Deus, a theōsis, e na vitória de Cristo sobre a morte.

A nova perspectiva sobre Paulo. E. P. Sanders, em 1977, mostrou que o judaísmo do tempo de Paulo não ensinava ganhar a salvação por méritos, mas permanecer pela obediência numa aliança recebida pela graça. James D. G. Dunn e N. T. Wright leram as obras da Lei sobretudo como marcas de identidade que separavam Israel das nações, como a circuncisão, o sábado e os alimentos, e a justificação como a pertença de judeus e gentios ao mesmo povo. A leitura tradicional, com Stephen Westerholm e outros, respondeu que Paulo também nega o valor de qualquer obra humana diante de Deus (Rm 4.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Hoje muitos reconhecem as duas dimensões no texto.

A justiça de Deus, a fé de Cristo e o eu de Rm 7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). A justiça de Deus pode ser lida como atributo (Deus é justo e fiel), como dom (a justiça que ele dá ao que crê) ou como atividade salvadora (Deus que endireita o que está errado), e muitos acham que Paulo junta os três; o v. 17 é o lugar dessa conversa. Pistis Christou, em Rm 3.22, 26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), pode ser fé em Cristo ou a fidelidade de Cristo, e o estudo do capítulo 3 apresenta as duas leituras. O eu de Rm 7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) foi lido como o cristão em luta, como o ser humano antes de Cristo ou como Israel e Adão sob a Lei.

A eleição, Israel e as autoridades. Rm 8.28-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e o capítulo 9 são lidos de modo agostiniano e calvinista, arminiano e wesleyano, católico e, por muitos estudiosos, em sentido coletivo, como a eleição de um povo em Cristo. Sobre Rm 11.25-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), uns esperam a conversão futura do povo judeu, outros veem no Israel de Deus a igreja de judeus e gentios, outros o remanescente ao longo da história; a maioria das igrejas recusa a ideia de duas alianças que dispensem Cristo, e todas, hoje, recusam o desprezo. Rm 13.1-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) apresenta as autoridades como servidoras de Deus para o bem, não como licença para a tirania; o texto foi usado para apoiar regimes injustos, e cristãos que resistiram a eles, como os da Declaração de Barmen, em 1934, lembraram os limites que Deus põe ao Estado. Os fracos e os fortes de Rm 14–15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) pedem liberdade sem desprezo.

Sem antijudaísmo

Paulo é judeu e escreve com dor pelo seu povo (Rm 9.1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 10.1). Reconhece as vantagens de Israel (Rm 3.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 9.4-5), afirma que Deus não rejeitou o seu povo (Rm 11.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), lembra aos gentios que eles são ramos enxertados que não podem se gloriar contra a raiz (Rm 11.16-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e diz que Deus não volta atrás nos dons e no chamado que concedeu a Israel (Rm 11.28-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), texto citado pela declaração Nostra Aetate do Concílio Vaticano II (1965). A Lei, para ele, é santa, justa e boa (Rm 7.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As críticas à confiança na Lei e na circuncisão (Rm 2.17-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) são feitas de dentro, por um judeu, e valem antes de tudo para cristãos que se orgulham da própria religião. Usar Romanos para culpar ou desprezar o povo judeu trai a carta e deve ser recusado com clareza, como fizeram a Nostra Aetate e documentos de várias igrejas protestantes.

O capítulo 1 no argumento

A primeira metade do capítulo (vv. 1-17) apresenta Paulo, o evangelho e o tema; a segunda (vv. 18-32) abre a demonstração de que todos estão sob o pecado, com um retrato que um leitor judeu reconheceria como o dos gentios. Paulo o deixa concordar, vira a página contra quem julga em 2.1 e conclui em 3.9-20 que judeus e gregos estão no mesmo lugar, preparando Rm 3.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): a humanidade inteira pecou e não alcança a glória para a qual foi feita.


📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo

Paulo se apresenta como escravo de Cristo Jesus, apóstolo por chamado e posto à parte para anunciar a boa notícia de Deus, anunciada muito antes pelos profetas. A notícia é o Filho: pela origem humana, da linhagem de Davi; ao ressuscitar dentre os mortos, posto pelo Espírito santificador na condição de Filho de Deus com poder; Jesus Cristo, nosso Senhor. Por ele Paulo recebeu graça e apostolado para levar as nações à obediência que nasce da fé, e entre elas estão os romanos, a quem deseja graça e paz de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo (vv. 1-7).

Ele agradece a Deus porque a fé dos romanos é comentada no mundo inteiro e jura que ora por eles sem cessar, pedindo a ocasião de visitá-los para repartir algum dom do Espírito, ou melhor, para ser encorajado com eles pela fé comum. Muitas vezes foi impedido. Sente-se devedor a gregos e não gregos, a sábios e simples, e está pronto a anunciar o evangelho também em Roma (vv. 8-15).

O evangelho não é para ele motivo de vergonha: é a força de Deus que salva todo o que crê, o judeu primeiro e também o grego. É no evangelho que Deus dá a conhecer a sua justiça, que vem pela fé e leva à fé, como Habacuque já dizia do justo e da vida que lhe vem da fé (vv. 16-17).

Mas há outra revelação, vinda do céu: a ira de Deus, que se volta contra a impiedade e a injustiça de quem abafa a verdade. Deus mesmo pôs diante de todos o que dele se pode conhecer; desde que o mundo existe, o seu poder e a sua divindade se deixam perceber pelas obras, e ninguém tem defesa. Tinham conhecimento de Deus, mas lhe recusaram a honra e a gratidão; o pensamento se esvaziou, a pretensão de sabedoria virou tolice, e a honra devida ao Deus que não morre foi dada a figuras de gente mortal, de pássaros, de animais de quatro patas e de répteis (vv. 18-23).

Por isso Deus os entregou aos desejos do coração, à impureza que desonra os próprios corpos: preferiram a falsidade à verdade sobre Deus e deram às coisas criadas o culto devido a quem as criou, a quem cabe o louvor para sempre. Entregou-os a paixões desonrosas: mulheres e homens deixaram as relações segundo a natureza por relações com pessoas do mesmo sexo, e o próprio desvio lhes trouxe a sua retribuição (vv. 24-27). Como não quiseram guardar o conhecimento de Deus, Deus os entregou a uma mente reprovada, e vem a lista: injustiça, cobiça, inveja, homicídio, engano, maledicência, arrogância, desobediência aos pais, falta de afeto e de compaixão. Sabem o que Deus determinou com justiça a respeito disso e, ainda assim, aplaudem quem o faz (vv. 28-32).


🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)

Versículos 1-7 — O escravo, o evangelho e o Filho

As cartas antigas começavam com remetente, destinatário e saudação. Paulo estica a fórmula até ela conter o evangelho: sete versículos numa só frase grega, o endereço mais longo das suas cartas, porque precisava se apresentar a quem não o conhecia.

Primeiro, três títulos (v. 1). Doulos Christou Iēsou, escravo de Cristo Jesus: palavra dura no mundo romano, mas servo do SENHOR era título de Moisés, de Davi e dos profetas (Js 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Sm 7.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 49.1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Klētos apostolos, apóstolo por chamado, enviado e não voluntário. E aphōrismenos, separado, para o euangelion theou; muitos ouvem um jogo com a palavra fariseu, que significa separado. Deus o separou desde o ventre (Gl 1.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), como a Jeremias (Jr 1.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O evangelho tem raízes: Deus o anunciou muito antes, pela boca dos profetas, nos escritos sagrados (v. 2), e a carta o mostrará com dezenas de citações do Antigo Testamento.

O conteúdo é uma pessoa, o Filho (vv. 3-4), descrito em duas linhas paralelas que muitos estudiosos consideram uma fórmula de fé mais antiga, aproveitada por Paulo. A primeira: ele genomenou, veio a ser, da descendência de Davi kata sarka, segundo a carne, isto é, pela origem humana. É a promessa de 2Sm 7.12-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e o estudo daquele capítulo mostrou que o descendente de Davi a quem Deus seria Pai só poderia ocupar um trono eterno se vivesse para sempre. A segunda: ele foi horisthentos, palavra que pode significar declarado, mostrado, ou designado, constituído, Filho de Deus en dynamei, com poder, kata pneuma hagiōsynēs, segundo o Espírito de santidade, ex anastaseōs nekrōn, pela ressurreição dos mortos.

Cada expressão tem leituras. Declarado sublinha que a ressurreição tornou manifesto o que ele já era; designado, que ele foi entronizado numa condição nova, como o rei do Sl 2.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que Paulo aplica à ressurreição em At 13.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). A antiga tradução latina leu predestinado. O com poder pode qualificar o verbo ou o título: muitos entendem que quem já era Filho na fraqueza da carne passou a ser Filho com poder ao ressuscitar. O Espírito de santidade é quase certamente o Espírito Santo, numa expressão de sabor hebraico; alguns antigos pensaram na natureza divina do Filho. Paulo não ensina que Jesus se tornou Filho só na Páscoa: na mesma carta Deus envia o seu próprio Filho (Rm 8.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e as outras cartas falam da sua existência antes de vir (Gl 4.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Fp 2.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As duas linhas descrevem duas etapas da obra, a humilhação e a exaltação, e terminam com o nome inteiro: Jesus Cristo, nosso Senhor.

Por meio dele Paulo recebeu charis kai apostolē, talvez a graça do apostolado (v. 5), para levar todas as nações à hypakoē pisteōs: a obediência que é a própria fé, ou a que brota dela. Crer é render-se a Cristo, e a vida rendida nasce da fé. Os romanos, chamados a pertencer a Jesus Cristo (v. 6), são amados de Deus e santos por chamado (v. 7), títulos de Israel (Dt 7.6-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) dados agora a gente de todas as origens. Paulo lhes deseja charis, a saudação grega transformada em graça, e eirēnē, o shalom de Israel, vindos de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo, postos lado a lado como uma só fonte.

Versículos 8-15 — Gratidão, saudade e uma dívida com o mundo

Paulo agradece, como em quase todas as cartas, dia Iēsou Christou, por meio de Jesus Cristo (v. 8): até a gratidão passa pelo mediador. A fé dos romanos é comentada nas igrejas do mundo inteiro; uma igreja na capital era vista por todos.

O v. 9 é um juramento: Deus, a quem Paulo latreuō, presta culto, no seu espírito, anunciando o evangelho do Filho, é testemunha das suas orações por eles. Latreuō é verbo do culto no templo; em 15.16 a missão entre os gentios será descrita como serviço sacerdotal. Ele pede que, por vontade de Deus, o caminho enfim se abra (v. 10).

Quer repartir algum charisma pneumatikon, dom do Espírito, para firmá-los (v. 11), e logo se corrige com delicadeza (v. 12): quer ser encorajado junto com eles, pela fé de uns e de outros. Não chega como dono; chega como irmão que também precisa. Muitas vezes planejou ir e foi impedido (v. 13), e em 15.22-23 dirá por quê: a tarefa de anunciar onde Cristo ainda não era conhecido.

O v. 14 define a vida de Paulo: opheiletēs eimi, sou devedor, a gregos e a barbaroi, os que não falavam grego, palavra sem o desprezo de hoje, como lembra o estudo de Atos 28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), a sábios e a gente sem instrução. Ele não deve nada a eles; deve a Cristo, e paga a dívida entregando-lhes o que recebeu. Daí a prontidão, prothymon, de anunciar o evangelho também em Roma (v. 15), a quem já crê, porque a fé cresce ouvindo-o de novo.

Versículos 16-17 — O tema da carta, a justiça que o evangelho revela

Os dois versículos são o tema da carta. Paulo afirma, com uma negação que vale por confissão, que o evangelho não é para ele motivo de vergonha (v. 16), embora um Messias crucificado parecesse loucura (1Co 1.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A razão vem com um gar, pois: o evangelho é dynamis theou, a força de Deus, eis sōtērian, que leva à salvação de todo o que crê. Não é conselho nem teoria: é Deus agindo quando a mensagem é anunciada.

Todo o que crê é universal, e logo vem a ordem: Ioudaiō te prōton kai Hellēni, ao judeu primeiro e também ao grego. A promessa foi feita a Israel, e Paulo sempre começou pelas sinagogas. Não há privilégio de salvação, porque todos entram pela fé; há a honra de quem recebeu as promessas (Rm 3.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 9.4-5), e a mesma ordem volta no juízo e na glória (Rm 2.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

No v. 17 vem a razão da força: no evangelho dikaiosynē theou, a justiça de Deus, apokalyptetai, está sendo revelada, no presente. O sentido da expressão é a primeira grande questão da carta. Para a leitura que veio de Lutero, é sobretudo o dom: a justiça que vale diante de Deus e que ele dá ao que crê (Fp 3.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Para outros, como Ernst Käsemann, é o poder salvador de Deus que endireita o mundo, sem deixar de ser dom. Para muitos estudiosos recentes, é também a fidelidade de Deus à aliança e às promessas, à luz dos salmos e de Isaías, em que a justiça de Deus aparece ao lado da salvação (Sl 98.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 46.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 51.5-8). As leituras se completam mais do que se excluem: o Deus justo revela a sua fidelidade agindo para salvar, e o que ele faz é dar ao pecador uma posição de justo. Os capítulos 3 e 4 mostrarão como.

A justiça se revela ek pisteōs eis pistin, de fé para fé. A expressão foi lida de muitos modos: da fidelidade de Deus para a fé humana; da fé dos que anunciam para a fé dos que ouvem; de uma fé que cresce para outra mais madura; da fé do Antigo Testamento para a do Novo; ou, como entendem muitos hoje, uma ênfase, pela fé do começo ao fim. Esta última combina com o v. 16, que já falou de todo o que crê, e com Rm 3.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).

Paulo funda tudo em Hc 2.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), sem o pronome do texto hebraico e da antiga tradução grega. O estudo de Habacuque 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) mostrou que, ali, o justo é o fiel que se firma em Deus enquanto a visão não se cumpre, e que 'emunah une confiança e fidelidade. Paulo omite o pronome porque lhe interessa o princípio: a vida diante de Deus vem pela fé. Discute-se se pela fé se liga ao justo ou ao verbo viver; a estrutura da carta favorece a primeira leitura, sem excluir a segunda. E Paulo não força o profeta, que já opunha o soberbo, apoiado em si, ao justo apoiado em Deus.

Versículos 18-23 — A verdade sufocada e a glória trocada

O v. 18 começa com outro gar e o mesmo verbo do v. 17: também a orgē theou, a ira de Deus, se revela, do céu, contra toda asebeia, impiedade, a ruptura com Deus, e adikia, injustiça, a ruptura com o próximo. A ira não é descontrole; é a reação santa do amor contra o que destrói a criação, e é também futura (Rm 2.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os culpados katechontōn, sufocam, a verdade pela injustiça: não lhes falta luz; eles a abafam.

Os vv. 19-20 explicam. Aquilo de Deus que está ao alcance do conhecimento humano é phaneron, está à vista, e quem o pôs à vista foi o próprio Deus. Desde que o mundo existe, o que nele não se vê se deixa perceber pela inteligência através das obras: hē aidios dynamis kai theiotēs, o seu poder sem fim e o que é próprio de Deus. É a linguagem do Sl 19.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que o estudo daquele salmo chamou de revelação geral: o céu fala sem palavras a todos os povos. O resultado é que eles são anapologētous, sem defesa. Paulo não diz que todos conhecem a Deus de modo que salva; diz que ninguém pode alegar não ter sabido nada. Os discursos de Atos falam do mesmo testemunho, na chuva e nas colheitas (At 14.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e do Deus que não está longe de ninguém (At 17.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O v. 21 diagnostica a raiz: eles sabiam quem Deus era e lhe negaram duas coisas, doxazein, dar glória, e eucharistein, agradecer. A ingratidão aparece no começo da queda. Em seguida, o pensamento se esvaziou, emataiōthēsan, palavra ligada à vaidade dos ídolos (Jr 2.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o coração sem entendimento ficou no escuro. O v. 22 tem ironia: a pretensão de sabedoria acabou em tolice.

O v. 23 é o centro: eles ēllaxan, trocaram, a doxa do Deus que não morre por uma homoiōma eikonos, a semelhança de uma imagem: figuras de gente mortal, de aves, de quadrúpedes e de répteis. A frase ecoa o Sl 106.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), sobre Israel que trocou a sua glória pela figura de um boi no deserto, e Jr 2.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Paulo, portanto, descreve a idolatria com palavras que a Escritura usou para o pecado de Israel no bezerro de ouro; o leitor judeu atento já percebe que o retrato não é só dos outros. E muitos estudiosos, como Morna Hooker, ouvem também Gênesis: ser humano, aves, quadrúpedes e répteis são as criaturas de Gn 1.20-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e a palavra imagem lembra a criação à imagem de Deus. Como mostrou o estudo de Gênesis 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o ser humano foi feito para refletir a glória do Criador e governar as criaturas; aqui ele se curva diante delas. A idolatria é a criação de cabeça para baixo.

Versículos 24-27 — Entregues aos desejos, a criação desordenada

Três vezes Paulo diz paredōken autous ho theos, Deus os entregou (vv. 24, 26, 28). O verbo é de juízo, mas de um juízo peculiar: Deus deixa as pessoas irem para onde quiseram ir e colherem o que escolheram. Muitos comparam com o Sl 81.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em que Deus entrega o povo à dureza do seu coração. O juízo começa já na história. E o mesmo verbo, entregar, voltará para o Pai que entrega o Filho em favor de todos (Rm 4.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 8.32): o Deus que entrega a humanidade às suas escolhas entrega o Filho para resgatá-la delas.

A primeira entrega (v. 24) é aos epithymiai, desejos, do coração, para a akatharsia, impureza, com que desonram os próprios corpos. O v. 25 repete a troca, agora como a preferência pela falsidade no lugar da verdade sobre Deus, e define a idolatria: dar culto às coisas feitas para ton ktisanta, em vez de a quem as fez, ou acima dele. Paulo interrompe o argumento com uma bênção ao Criador e um Amēn, como judeu piedoso que não consegue mencionar o nome de Deus sem bendizê-lo.

A segunda entrega (vv. 26-27) é a pathē atimias, paixões que desonram. Paulo fala de mulheres que trocaram a physikē chrēsis, a relação natural, pela para physin, contrária à natureza, e de homens que abandonaram a relação com a mulher, physikē também aqui, e arderam de desejo uns pelos outros; o que fazem é chamado aschēmosynē, coisa indecorosa, e o desvio traz neles mesmos a antimisthia, a retribuição correspondente. É preciso ler o texto com fidelidade e com cuidado. A Igreja, ao longo da sua história, entendeu que Paulo trata aqui as relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo como contrárias ao desígnio do Criador, e é assim que a maioria das tradições cristãs o lê hoje: a católica, a ortodoxa e a maior parte das evangélicas. O argumento de Paulo nasce da criação: natureza, para ele, não é costume social, mas a ordem que Deus estabeleceu ao fazer o ser humano homem e mulher (Gn 1.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2.24), e por isso o vocabulário dos vv. 23-27 ecoa Gênesis. Há também, desde o fim do século XX, leituras revisionistas, defendidas por estudiosos e igrejas que as propõem com seriedade: entendem que Paulo tinha em vista formas de exploração comuns no mundo greco-romano, como a pederastia e as relações com escravos, ou o excesso de paixão, ou ainda que natureza significasse convenção; muitos exegetas, inclusive alguns que não seguem a ética tradicional, consideram que a linguagem de Paulo é mais ampla e remete à criação. Este estudo segue a leitura histórica, e menciona as outras com respeito.

O ponto do texto, porém, não é fazer de um pecado o símbolo de todos. Paulo descreve o que acontece quando a criatura deixa de adorar o Criador: a desordem do culto produz desordem nos corpos, nos desejos e nas relações. Não é diagnóstico de indivíduos, como se cada pessoa tivesse chegado ali por um ato consciente de idolatria; é o retrato da humanidade afastada de Deus. E Paulo não terminou: logo a seguir vem a lista que alcança todos os leitores.

Versículos 28-32 — A mente reprovada e a lista que alcança a todos

O v. 28 tem um jogo de palavras: como não edokimasan, acharam digno, manter Deus no conhecimento, Deus os entregou a um adokimos nous, uma mente reprovada, que não passa no teste. Quem recusa conhecer a Deus perde a capacidade de pensar direito sobre o bem.

Vem a lista (vv. 29-31), uma das mais longas do Novo Testamento, cheia de sons repetidos no grego, como phthonou phonou, inveja e homicídio. Começa com palavras amplas, injustiça, maldade, cobiça; passa à inveja, ao homicídio, à discórdia e ao engano; aos difamadores, aos caluniadores, aos insolentes, aos arrogantes, aos desobedientes aos pais; e termina com quatro palavras com prefixo de negação, asynetous, asynthetous, astorgous, aneleēmonas: sem entendimento, sem palavra, sem afeto, sem misericórdia. Não é escala de gravidade: põe ao lado do homicídio a fofoca, a vaidade e a desobediência aos pais. Nenhum leitor sai dela sem ser alcançado.

O v. 32 fecha com algo mais grave que a prática: eles conhecem o dikaiōma de Deus, a sua justa determinação de que esse caminho leva à morte, e, além de segui-lo, syneudokousin: dão o seu aplauso a quem o segue. A consciência ainda sabe; a cultura inteira resolve aplaudir o que sabe ser errado.

E aqui está a armadilha de Paulo. Até o v. 32, um leitor judeu piedoso, ou um cristão bem comportado, concorda com tudo; a Sabedoria de Salomão, livro das Bíblias católicas e ortodoxas, já fazia contra a idolatria das nações uma acusação parecida (Sb 13–14). Em 2.1, Paulo se volta para esse leitor: quem julga os outros faz as mesmas coisas e se condena. O capítulo 1 não autoriza ninguém a escolher um pecado da lista para humilhar quem o comete. Prepara 3.9-20 e Rm 3.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): judeus e gregos, religiosos e irreligiosos, todos precisam da justiça que vem de Deus pela fé.


✨ 4. Versículos-Chave

Rm 1.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O evangelho em resumo: o Filho, descendente de Davi pela sua humanidade, constituído Filho de Deus com poder pela ressurreição, Jesus Cristo, nosso Senhor. A promessa de 2Sm 7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) se cumpre num rei que não morre mais, e a ressurreição é o centro da mensagem.

Rm 1.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O evangelho não envergonha Paulo, porque é a força de Deus que salva todo o que crê, o judeu primeiro e também o grego. O versículo une a universalidade da salvação, a fé como único caminho e a honra de Israel.

Rm 1.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — No evangelho se revela a justiça de Deus, pela fé do começo ao fim, apoiada em Hc 2.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Foi este versículo que, segundo o seu próprio relato, abriu para Lutero as portas da Escritura; e é ele que a carta inteira desenvolve.

Rm 1.20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A criação mostra o poder eterno e a divindade de Deus, e por isso ninguém tem defesa; a raiz da queda está em não o glorificar nem lhe dar graças. É a revelação geral e o seu limite: ela torna o ser humano responsável, mas não o salva.


⛪ 5. Temas Teológicos Centrais

O evangelho é sobre o Filho. Antes de falar de justificação, Paulo fala de uma pessoa, o Filho de Davi ressuscitado e Senhor. A doutrina de Romanos é a explicação do que Deus fez nele, e a justiça revelada (v. 17) é a mostrada na cruz e na ressurreição (Rm 3.21-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 4.25).

A justiça de Deus revelada para salvar. O Deus de Israel é fiel às promessas, e a sua justiça aparece não como balança que esmaga o culpado, mas como ação que torna justo quem crê. A fé recebe; não produz. Por isso o evangelho é para todos, sem distinção.

A ira de Deus, a idolatria e a responsabilidade humana. A ira revelada é a santidade que não aceita a destruição da criação. A humanidade conheceu o suficiente para glorificar e agradecer, e não o fez; o pecado começa no culto e se espalha pela vida. Toda troca da glória de Deus por uma criatura deforma quem adora, e o juízo começa quando Deus deixa a escolha produzir os seus frutos.


✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo

6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?

Romanos 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) percorre o arco inteiro. A Criação aparece nas obras que mostram o poder e a divindade de Deus (v. 20) e na imagem que o ser humano devia refletir. A Queda é recontada como troca da glória pela imagem (vv. 21-23), com ecos de Gênesis e do bezerro de ouro. A Redenção em andamento está no evangelho prometido pelos profetas (v. 2), em Davi (v. 3) e em Habacuque (v. 17). A Redenção consumada está no Filho ressuscitado com poder (v. 4) e na justiça revelada (v. 17). E a Nova Criação se anuncia na ressurreição dos mortos, anastasis nekrōn, de que a ressurreição de Jesus é o começo; a carta dirá que a própria criação aguarda a libertação gloriosa que Deus dará aos seus filhos (Rm 8.19-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a glória que a humanidade trocou e que Cristo devolve.

6.2 — Cristo, fundamento de toda a doutrina

Romanos 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) mostra Cristo como fundamento de tudo. Cristologia: o Filho, descendente de Davi e Senhor ressuscitado (vv. 3-4). Soteriologia: o evangelho como força de Deus para salvar e a justiça recebida pela fé (vv. 16-17). Eclesiologia: os chamados de todas as nações, amados e santos, numa igreja de judeus e gregos (vv. 5-7, 16). Ética: a obediência da fé (v. 5), contraposta à vida desfeita pela idolatria (vv. 24-32). Escatologia: a ressurreição dos mortos e a ira que se revela e se revelará (vv. 4, 18).

Na sequência que Romanos tornou modelar (1–4, a justificação pela fé em Cristo; 5–8, a vida em Cristo pelo Espírito; 9–11, a fidelidade de Deus a Israel e às nações; 12–16, a ética como culto em resposta à graça), o capítulo 1 é o primeiro elo: apresenta o remédio (vv. 16-17) antes da doença (vv. 18-32), para que ninguém leia o diagnóstico sem esperança.

6.3 — Como Paulo lê o Antigo Testamento

Davi (v. 3). Em acordo com o estudo de 2 Samuel 7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): Deus prometeu um descendente cujo trono seria firme para sempre; Salomão cumpriu a promessa em parte; em Jesus, ressuscitado e entronizado, o trono eterno tem quem o ocupe.

Habacuque (v. 17). Em acordo com o estudo de Habacuque 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): o justo que se firmava em Deus diante da Babilônia aponta para a fé que recebe a justiça de Deus em Cristo; Hebreus lerá o mesmo versículo como chamado à perseverança (Hb 10.38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e as duas ênfases se completam.

Os salmos e Gênesis (vv. 20-23). A criação que fala (Sl 19.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a troca da glória (Sl 106.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 2.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e as criaturas de Gn 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) mostram que Paulo lê a idolatria das nações com as palavras usadas para o pecado de Israel e de Adão.

6.4 — Indicativo e imperativo: a obra de Cristo e a vida que dela nasce

O indicativo vem primeiro: Deus prometeu, o Filho veio, morreu e ressuscitou, e no evangelho a justiça de Deus é dada. Só depois vem o imperativo, que neste capítulo aparece na forma da obediência da fé (v. 5). Paulo não pede que os gentios deixem a idolatria para depois merecerem a graça; anuncia a graça que os tira da idolatria. A vida descrita nos vv. 24-32, desfeita por dentro, só se refaz quando a mente é renovada (Rm 12.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o oposto exato da mente reprovada do v. 28) e o ser humano volta a dar glória e graças a Deus, como Abraão, que deu glória a Deus crendo (Rm 4.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

À igreja de Roma, dividida entre origens e costumes, o capítulo dá o primeiro remédio: judeus e gregos estão sob o mesmo evangelho, a mesma fé e, logo se verá, a mesma necessidade. Ninguém entra na igreja por superioridade.

6.5 — O Evangelho no capítulo

Romanos 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) anuncia a boa notícia antes da má, e a boa notícia é maior. A humanidade trocou a glória de Deus por imagens, e Deus a deixou colher o que escolheu; mas o mesmo Deus enviou o Filho, que, sendo a imagem verdadeira, assumiu a carne de Davi, morreu e ressuscitou com poder. No evangelho, ele oferece a quem crê a justiça que ninguém conseguiria produzir. Pregar este capítulo é dizer ao ouvinte que os seus ídolos não lhe darão vida, que a lista dos vv. 29-31 também tem o nome dele, e que a força de Deus que salva está ao alcance de todo o que crê.


🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)


🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico

Um evangelho que não envergonha. Muitos cristãos falam de valores, de família e de bem-estar, mas hesitam em falar de um Messias crucificado e ressuscitado. Paulo não confia no prestígio da mensagem; confia na força de Deus que age quando ela é anunciada. A coragem de falar de Jesus nasce de saber que ele está vivo.

Ídolos de hoje. Ninguém se ajoelha diante de répteis de pedra, mas a troca continua: o dinheiro que promete segurança, o trabalho que define o valor, a imagem nas telas, o poder, a nação, o próprio sucesso religioso. Todo ídolo cobra a sua paga. O caminho de volta começa onde a queda começou: glorificar a Deus e agradecer.

Ler os vv. 26-27 sem apontar o dedo. O capítulo não termina no v. 27, e a carta não termina no capítulo 1. Paulo põe a inveja, a maledicência, a arrogância e a desobediência aos pais na mesma lista, e em 2.1 vira o espelho para quem julga. Por isso este texto nunca pode servir de pretexto para ódio, violência, humilhação ou exclusão de quem quer que seja; essas atitudes estão, elas mesmas, na lista dos vv. 29-31. Toda pessoa, qualquer que seja a sua orientação ou a sua história, foi criada à imagem de Deus e é amada por ele, e a igreja deve ser lugar de acolhida, de verdade dita com mansidão e de caminhada em comum; o Catecismo da Igreja Católica, por exemplo, pede respeito, compaixão e delicadeza e recusa toda discriminação injusta, e muitas igrejas evangélicas dizem o mesmo com outras palavras. As tradições cristãs divergem sobre como acompanhar pastoralmente cada situação, e cada leitor deve buscar a orientação da sua comunidade; nenhuma delas autoriza o desprezo.

Uma palavra a quem foi ferido. Há quem tenha ouvido estes versículos como sentença de rejeição, dentro de casa ou dentro da igreja, e carregue por isso uma dor que parece não ter saída. A mensagem de Romanos 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não é que algumas pessoas estão mais longe de Deus do que outras, mas que todos precisam da mesma graça, e que essa graça é oferecida a todo o que crê. Cristo não rejeita quem vai a ele. Se a rejeição ou a solidão já levaram você a pensar que a vida não vale mais a pena, procure hoje alguém de confiança, um pastor, um profissional de saúde; no Brasil, o CVV atende gratuitamente, a qualquer hora, pelo telefone 188.

Devedores de todos. Quem recebeu o evangelho o deve ao vizinho, ao colega e ao estrangeiro. E o apóstolo que queria fortalecer os romanos queria também ser encorajado por eles: na igreja, ninguém só dá nem só recebe.


🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo

  1. Paulo resume o evangelho como a mensagem sobre o Filho, descendente de Davi e ressuscitado com poder (vv. 3-4). Que diferença faz começar pela pessoa de Jesus, e não por uma doutrina?
  2. O que significa, para você, que o evangelho é a força de Deus para salvar todo o que crê (v. 16)? Em que situações você sente vergonha de falar dele?
  3. Segundo os vv. 21-23, a queda começa em não glorificar a Deus nem lhe dar graças. Que ídolos disputam hoje o lugar de Deus na sua vida e na sua cultura?
  4. Releia a lista dos vv. 29-31 e depois Rm 2.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Por que Paulo coloca pecados tão diferentes lado a lado, e o que isso diz sobre quem gosta de julgar os outros?
  5. Como a justiça de Deus revelada no evangelho (v. 17) responde à ira revelada contra a impiedade (v. 18)? Onde esses dois movimentos se encontram em Cristo?
  6. Para meditação e oração: agradeça a Deus por três coisas concretas de hoje e peça que ele livre o seu coração de trocar a glória dele por qualquer criatura.

📚 10. Para Aprofundamento

Cristocêntrica / Teologia Bíblica:

  • G. K. Beale e D. A. Carson (orgs.) — Comentário do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento (Vida Nova), na parte sobre Romanos

Comentários de Romanos:

  • John Stott — A mensagem de Romanos (ABU, série A Bíblia Fala Hoje)
  • F. F. Bruce — Romanos: introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
  • C. E. B. Cranfield — The Epistle to the Romans (International Critical Commentary, 2 vols., T&T Clark, 1975–1979)
  • Douglas J. Moo — The Epistle to the Romans (NICNT, Eerdmans, 2.ª ed., 2018)
  • James D. G. Dunn — Romans (Word Biblical Commentary, 2 vols., 1988)
  • Joseph A. Fitzmyer — Romans (Anchor Bible, Doubleday, 1993)

A carta, a igreja de Roma e o texto:

  • Karl P. Donfried (org.) — The Romans Debate (Hendrickson, ed. revista, 1991)
  • Peter Lampe — From Paul to Valentinus: Christians at Rome in the First Two Centuries (Fortress, 2003)
  • Harry Gamble — The Textual History of the Letter to the Romans (Eerdmans, 1977)
  • Bruce M. Metzger — A Textual Commentary on the Greek New Testament (Sociedades Bíblicas Unidas, 2.ª ed., 1994)

As grandes questões:

  • E. P. Sanders — Paul and Palestinian Judaism (Fortress, 1977)
  • Stephen Westerholm — Perspectives Old and New on Paul (Eerdmans, 2004)
  • John M. G. Barclay — Paul and the Gift (Eerdmans, 2015)
  • Federação Luterana Mundial e Igreja Católica — Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação (1999)
  • Richard B. Hays — The Moral Vision of the New Testament (HarperSanFrancisco, 1996), sobre a leitura e o cuidado pastoral de Rm 1.26-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)
  • Martinho Lutero — Prefácio à Epístola de São Paulo aos Romanos (1522)

Sabedoria para o Cotidiano
Romanos 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) começa com um Filho ressuscitado e termina com uma humanidade que trocou a glória de Deus por imagens e aplaude o que sabe ser errado. Entre os dois retratos está a frase que mudou tantas vidas: no evangelho, Deus oferece a sua justiça a todo o que crê. Antes de apontar os ídolos dos outros, examine os seus, e comece o dia pelo que a humanidade deixou de fazer: dar glória a Deus e agradecer. Ninguém está longe demais nem perto demais para precisar dessa graça, e a força de Deus que ressuscitou Jesus é a mesma que pode refazer, em você, a imagem que o pecado desfigurou.

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