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Romanos · 45 de 66 · Novo Testamento

Romanos — Resumo do livro

A Epístola aos Romanos é a exposição mais ampla e sistemática do evangelho em todo o Novo Testamento. Não é um tratado abstrato: é uma carta real, escrita por um missionário a uma igreja que ele ainda não conhecia, às vésperas de uma viagem arriscada. Mas, ao apresentar-se aos cristãos de Roma, Paulo expõe o evangelho com tal fôlego que o resultado se tornou, para muitas gerações, a porta de entrada da teologia cristã. Martinho Lutero, no prefácio que escreveu para a epístola em 1522, chamou-a de parte principal do Novo Testamento e o evangelho mais puro.

Nenhum livro do Novo Testamento mudou tanto a história da Igreja. Agostinho converteu-se ao ler uma passagem de Romanos num jardim de Milão; Lutero redescobriu nela a justiça que vem pela fé; John Wesley sentiu o coração estranhamente aquecido ao ouvir a leitura do prefácio de Lutero a Romanos; e Karl Barth, com seu comentário de 1919, sacudiu a teologia do século XX. O grande eixo da carta é anunciado nos primeiros versículos: a justiça de Deus revelada no evangelho.

1. Contexto e Autor

A autoria paulina de Romanos é praticamente indiscutível, mesmo entre os estudiosos mais críticos. A carta foi ditada a um secretário chamado Tércio, que envia sua própria saudação no final (Rm 16.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), prática comum na correspondência antiga.

As circunstâncias permitem datá-la com boa precisão. Paulo está concluindo sua terceira viagem missionária e prestes a levar a Jerusalém a coleta reunida entre as igrejas gentias da Macedônia e da Acaia para os cristãos pobres da Judeia (Rm 15.25-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Depois disso, planeja visitar Roma a caminho da Espanha (Rm 15.23-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Tudo indica que escreve de Corinto, durante os três meses que passou na Grécia (At 20.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), por volta de 56-57 d.C. A carta recomenda Febe, diaconisa da igreja de Cencreia, porto de Corinto, que provavelmente a levou a Roma (Rm 16.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); menciona Gaio, anfitrião de Paulo e de toda a igreja, provavelmente o mesmo batizado por Paulo em Corinto (1Co 1.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Erasto, tesoureiro da cidade (Rm 16.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Uma inscrição encontrada em Corinto menciona um Erasto que pavimentou uma praça à sua custa como edil; muitos estudiosos o identificam com o personagem de Romanos, embora a identificação não seja certa.

A igreja de Roma não foi fundada por Paulo nem, segundo os dados do Novo Testamento, por outro apóstolo conhecido. É provável que suas origens remontem a judeus e prosélitos de Roma presentes em Jerusalém no Pentecostes (At 2.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Um acontecimento marcou essa comunidade: por volta de 49 d.C., o imperador Cláudio expulsou os judeus de Roma (At 18.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Suetônio, Vida de Cláudio 25.4). Com isso, as igrejas domésticas da cidade ficaram por alguns anos compostas quase só de gentios. Quando os judeus puderam voltar, após a morte de Cláudio em 54 d.C., os cristãos de origem judaica encontraram comunidades com outra liderança e outros costumes. Muitos estudiosos veem nessa situação o pano de fundo das tensões entre "fortes" e "fracos" dos capítulos 14 e 15 e das advertências aos gentios contra a arrogância no capítulo 11.

Os propósitos da carta são vários e se complementam. Paulo quer apresentar-se e apresentar seu evangelho a uma igreja que poderia ser sua base para a missão na Espanha; quer corrigir distorções de sua pregação que circulavam, como a acusação de que ele incentivava o pecado para que a graça abundasse (Rm 3.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 6.1); quer promover a unidade entre judeus e gentios na igreja romana; e pede orações pela viagem a Jerusalém, onde temia a oposição dos incrédulos e a rejeição da coleta pelos próprios cristãos (Rm 15.30-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A tensão entre judeus e gentios, e a questão de como os dois grupos se relacionam no plano de Deus, atravessa a carta inteira.

2. Propósito e Mensagem Central

O tema da carta está condensado em Rm 1.16-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Paulo declara que não se envergonha do evangelho, porque ele é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego. Nele se revela a justiça de Deus, de fé em fé, como está escrito em Habacuque 2.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) sobre o justo que vive pela fé.

A expressão dikaiosynē theou, "justiça de Deus", é o centro da carta e também o centro de um dos debates mais longos da teologia. A leitura associada a Lutero entende-a sobretudo como a justiça que vem de Deus e é concedida ao pecador pela fé — um status de justo diante do tribunal divino. Outros intérpretes enfatizam a justiça como atributo e ação de Deus: sua fidelidade à aliança e sua ação salvadora, pela qual ele cumpre suas promessas e endireita o mundo. N. T. Wright é o representante mais conhecido desta segunda leitura. Estudiosos como Douglas Moo e Thomas Schreiner propõem que as duas dimensões estão presentes: a justiça de Deus é tanto sua atividade salvadora quanto o dom que dela resulta ao crente. O texto de Romanos sustenta essa síntese: Deus se mostra justo e, ao mesmo tempo, justifica aquele que tem fé em Jesus (Rm 3.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A mensagem da carta pode ser resumida assim: todos, judeus e gentios, estão debaixo do pecado e são incapazes de se justificar diante de Deus pela Lei; mas Deus, em sua graça, revelou sua justiça em Cristo, cuja morte foi o sacrifício que satisfaz a justiça divina e reconcilia o pecador; essa justiça é recebida pela fé, sem distinção de povo, como Abraão a recebeu; quem é justificado passa a viver uma vida nova, em união com Cristo e pelo poder do Espírito, com a certeza de que nada o separará do amor de Deus; o plano de Deus inclui tanto Israel quanto as nações; e essa graça gera uma comunidade que se oferece a Deus e vive no amor.

O arco da carta cabe numa fórmula-linha: Evangelho anunciado → humanidade condenada → justiça revelada em Cristo → justificação pela fé → nova vida no Espírito → fidelidade de Deus a Israel → vida transformada → unidade de judeus e gentios na adoração.

3. Principais Temas

O pecado universal e a ira de Deus. Paulo começa não com a boa notícia, mas com o diagnóstico. A ira de Deus se revela contra toda impiedade humana, porque os seres humanos conheceram a Deus pela criação e não o glorificaram, trocando a glória do Deus incorruptível por imagens de criaturas (Rm 1.18-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O resultado é que Deus os entrega às consequências de suas escolhas, numa espiral de degradação (Rm 1.24-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas os judeus, que julgam os gentios, fazem as mesmas coisas (Rm 2.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a conclusão é universal: todos pecaram e carecem da glória de Deus (Rm 3.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A palavra "todos" é uma das mais importantes da carta — tanto para o pecado quanto para a graça.

Justificação pela fé. O verbo dikaioō, "justificar", pertence ao vocabulário do tribunal: significa declarar alguém justo, absolvê-lo. Paulo afirma que o ser humano é justificado pela fé, independentemente das obras da Lei (Rm 3.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Isso não é uma ficção legal, porque se apoia na morte real de Cristo como sacrifício, e não é uma licença para pecar, porque quem é justificado é também unido a Cristo e transformado. No capítulo 4, Paulo usa o verbo logizomai, "creditar", "contabilizar", onze vezes, a partir de Gênesis 15.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): a fé de Abraão lhe foi creditada como justiça.

A graça. A justificação é gratuita, pela graça de Deus (Rm 3.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A graça (charis) não é apenas o favor imerecido de Deus, mas uma força que reina: onde o pecado abundou, a graça superabundou (Rm 5.20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo insiste que a graça não pode ser misturada com o mérito humano, pois, se fosse por obras, já não seria graça (Rm 11.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Adão e Cristo. No capítulo 5, Paulo apresenta a história humana dividida em duas cabeças representativas. Por um só homem, Adão, o pecado e a morte entraram no mundo e alcançaram todos; por um só homem, Jesus Cristo, a graça, a justiça e a vida alcançam os que a recebem (Rm 5.12-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Toda pessoa está "em Adão" ou "em Cristo". Essa passagem é a base da doutrina do pecado original, desenvolvida por Agostinho, e da compreensão de Cristo como o último Adão.

União com Cristo. A resposta de Paulo à acusação de que a graça incentiva o pecado está no capítulo 6: pelo batismo, o crente foi unido a Cristo na sua morte e na sua ressurreição (Rm 6.3-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O velho homem foi crucificado com ele, e o crente deve considerar-se morto para o pecado e vivo para Deus em Cristo Jesus (Rm 6.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A expressão "em Cristo" é, para muitos estudiosos, o núcleo da teologia paulina.

A Lei. A relação com a Lei de Moisés é uma das questões mais complexas da carta. A Lei é santa, justa e boa (Rm 7.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas não pode justificar; pelo contrário, ela dá conhecimento do pecado (Rm 3.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e, diante da fraqueza da carne, até o provoca (Rm 7.7-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Cristo é o telos da Lei (Rm 10.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) — palavra que pode significar tanto "fim" quanto "alvo", e provavelmente significa as duas coisas: a Lei aponta para Cristo e encontra nele seu término como caminho de justificação. Ao mesmo tempo, o amor é o cumprimento da Lei (Rm 13.8-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a justa exigência da Lei se cumpre nos que andam segundo o Espírito (Rm 8.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O Espírito e a adoção. O capítulo 8 é dominado pelo Espírito, mencionado cerca de vinte vezes. O Espírito dá vida, liberta da lei do pecado e da morte, habita no crente e testemunha que ele é filho de Deus. Paulo usa o termo huiothesia, "adoção", instituição do direito romano pela qual alguém recebia plenos direitos de filho e herdeiro (Rm 8.15, 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os que foram adotados clamam a Deus com a palavra aramaica Abba, "Pai", a mesma que Jesus usou no Getsêmani.

Israel e as nações. Os capítulos 9 a 11 enfrentam a pergunta que a própria mensagem de Paulo levantava: se Israel, em sua maioria, rejeitou o Messias, a palavra de Deus falhou? A resposta de Paulo combina a soberania de Deus na eleição, a responsabilidade de Israel na incredulidade, a existência de um remanescente fiel, a inclusão dos gentios e a esperança futura para Israel. Esses capítulos não são um parêntese, mas uma parte essencial do argumento: estão em jogo a fidelidade de Deus às suas promessas e, portanto, a confiabilidade de tudo o que Paulo afirmou no capítulo 8.

A esperança. Romanos é uma carta cheia de esperança. A criação inteira geme como em dores de parto, aguardando a revelação dos filhos de Deus (Rm 8.19-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o sofrimento presente não se compara à glória futura (Rm 8.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Deus faz todas as coisas cooperarem para o bem daqueles que o amam (Rm 8.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); e o Deus da esperança enche os crentes de alegria e paz, para que transbordem de esperança pelo poder do Espírito (Rm 15.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

4. Síntese Doutrinária

Romanos segue o padrão típico das cartas paulinas: primeiro o indicativo — o que Deus fez em Cristo — e depois o imperativo — como viver à luz disso. A estrutura mais aceita divide a carta em introdução (1.1-17), quatro grandes blocos doutrinários (1.18–11.36), exortação ética (12.1–15.13) e conclusão (15.14–16.27).

Introdução: o apóstolo e o evangelho (Rm 1.1-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))

Paulo se apresenta como servo de Cristo Jesus, apóstolo chamado e separado para o evangelho de Deus. Esse evangelho foi prometido pelos profetas nas Escrituras e trata do Filho, descendente de Davi segundo a carne e declarado Filho de Deus com poder pela ressurreição (Rm 1.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Muitos estudiosos entendem esses versículos como uma confissão de fé anterior a Paulo, conhecida das igrejas. Paulo expressa seu desejo de visitar Roma e compartilhar algum dom espiritual, e se declara devedor a gregos e bárbaros, sábios e ignorantes (Rm 1.8-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A introdução culmina na declaração do tema (Rm 1.16-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O diagnóstico: toda a humanidade sob o pecado (Rm 1.18–3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).20)

Paulo percorre a condição humana em três movimentos. Primeiro, o mundo gentio: a revelação de Deus na criação deixa a humanidade sem desculpa, e a recusa em glorificar a Deus leva à idolatria e à desintegração moral (Rm 1.18-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Segundo, o judeu, ou quem quer que julgue os outros: Deus julga cada um segundo suas obras, sem acepção de pessoas; os gentios que não têm a Lei mostram a obra da Lei escrita em seus corações; e ter a Lei ou a circuncisão não protege quem não a cumpre, porque o verdadeiro judeu é aquele cuja circuncisão é a do coração, pelo Espírito (Rm 2.1-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Terceiro, a conclusão: embora os judeus tenham a vantagem de terem recebido os oráculos de Deus, todos estão debaixo do pecado. Paulo encadeia uma série de citações dos Salmos, de Eclesiastes e de Isaías para mostrar que ninguém é justo diante de Deus (Rm 3.9-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Lei, longe de justificar, fecha toda boca e torna o mundo inteiro culpável diante de Deus (Rm 3.19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A resposta: a justiça de Deus em Cristo (Rm 3.21–4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).25)

Com a expressão "mas agora", Paulo muda de tom (Rm 3.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A justiça de Deus se manifestou independentemente da Lei, testemunhada pela Lei e pelos Profetas, por meio da fé em Jesus Cristo, para todos os que creem, sem distinção. Todos pecaram; todos são justificados gratuitamente pela graça, mediante a redenção em Cristo Jesus, a quem Deus apresentou como hilastērion por meio da fé, no seu sangue (Rm 3.22-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O termo é o mesmo que a Septuaginta usa para a tampa da arca, o propiciatório, onde o sumo sacerdote aspergia o sangue no Dia da Expiação (Lv 16.14-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Houve um debate clássico sobre se a palavra significa "propiciação" (o sacrifício que satisfaz a justa ira de Deus), como defendeu Leon Morris, ou "expiação" (o sacrifício que remove o pecado), como propôs C. H. Dodd. A maioria dos intérpretes hoje entende que o contexto da ira de Deus (Rm 1.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) exige a noção de propiciação, sem excluir a de expiação. Deus demonstra assim a sua justiça: é justo e justificador daquele que tem fé em Jesus (Rm 3.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A expressão grega traduzida como "fé em Jesus Cristo" (pistis Iēsou Christou, Rm 3.22, 26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) é objeto de outro debate. Pode significar a fé do crente em Cristo ou a fidelidade de Cristo ao Pai. Richard Hays e outros defenderam a segunda leitura; Douglas Moo e muitos outros sustentam a primeira. Em ambos os casos, a justificação repousa sobre Cristo e é recebida pela fé.

O capítulo 4 apresenta Abraão como prova de que esse caminho não é uma novidade. Abraão creu, e isso lhe foi creditado como justiça (Gn 15.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) antes de ser circuncidado, de modo que ele é pai tanto dos crentes incircuncisos quanto dos circuncisos que seguem suas pegadas de fé (Rm 4.9-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Davi também celebra a bem-aventurança do homem a quem Deus credita justiça sem obras (Sl 32.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Rm 4.6-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A fé de Abraão era confiança em que Deus é capaz de dar vida aos mortos e chamar à existência o que não existe — a mesma fé que crê no Deus que ressuscitou Jesus, entregue por nossas transgressões e ressuscitado para nossa justificação (Rm 4.17-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A nova vida: paz, liberdade e segurança (Rm 5–8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))

Justificados pela fé, os crentes têm paz com Deus e se gloriam até nas tribulações, porque elas produzem perseverança, caráter aprovado e esperança, e o amor de Deus foi derramado em seus corações pelo Espírito (Rm 5.1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A prova desse amor é que Cristo morreu pelos ímpios quando ainda eram pecadores (Rm 5.6-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Segue-se o paralelo entre Adão e Cristo (Rm 5.12-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O capítulo 6 responde à objeção de que a graça estimula o pecado. Unidos a Cristo no batismo, os crentes morreram para o pecado e devem oferecer seus membros a Deus como instrumentos de justiça. Paulo usa a imagem da escravidão: libertos do pecado, tornaram-se servos da justiça. O salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus (Rm 6.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O capítulo 7 trata da Lei. Com a imagem da mulher que fica livre da lei do casamento quando o marido morre, Paulo afirma que os crentes morreram para a Lei, para pertencerem a Cristo (Rm 7.1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Segue-se uma das passagens mais discutidas da Bíblia: a descrição, na primeira pessoa, de alguém que quer fazer o bem e não consegue, porque o pecado habita nele, e que termina clamando por libertação deste corpo de morte (Rm 7.7-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quem é esse "eu"? Agostinho, em sua fase madura, Lutero, Calvino e C. E. B. Cranfield entenderam que Paulo descreve o cristão, que continua lutando contra o pecado. Outros, como Werner Kümmel (1929) e Douglas Moo, entendem que Paulo descreve a experiência de quem está debaixo da Lei sem o Espírito — seja o próprio Paulo antes da conversão, seja Israel diante do Sinai, seja a humanidade em Adão. O que todas as leituras reconhecem é que a resposta ao clamor vem em Cristo, e o capítulo seguinte a desenvolve.

O capítulo 8 é, para muitos, o ponto mais alto da carta. Começa com a declaração de que não há condenação para os que estão em Cristo Jesus (Rm 8.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e termina com a afirmação de que nada poderá separá-los do amor de Deus em Cristo Jesus (Rm 8.39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Entre esses dois extremos, Paulo mostra que Deus fez o que a Lei não podia fazer, enviando o próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa e como oferta pelo pecado (Rm 8.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); que o Espírito habita nos crentes e lhes dá vida; que eles são filhos e herdeiros, co-herdeiros com Cristo, se com ele sofrem (Rm 8.14-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); que a criação geme, os crentes gemem e o próprio Espírito intercede com gemidos inexprimíveis (Rm 8.18-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); e que o propósito de Deus, desde a presciência até a glorificação, é conformar os seus à imagem do Filho, primogênito entre muitos irmãos (Rm 8.28-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O capítulo termina num hino de confiança: se Deus é por nós, quem será contra nós? Nem morte nem vida, nem anjos nem poderes, nem coisas presentes nem futuras poderão separar os crentes desse amor (Rm 8.31-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A fidelidade de Deus e o mistério de Israel (Rm 9–11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))

A alegria do capítulo 8 dá lugar a uma grande dor: Paulo desejaria ser ele mesmo separado de Cristo por amor aos seus compatriotas israelitas, a quem pertencem a adoção, a glória, as alianças, a Lei, o culto, as promessas, os patriarcas e o próprio Cristo segundo a carne (Rm 9.1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A argumentação tem três movimentos. No capítulo 9, Paulo afirma que a palavra de Deus não falhou, porque nem todos os descendentes de Israel são Israel: a promessa sempre seguiu a escolha soberana de Deus, como mostram Isaque e não Ismael, Jacó e não Esaú (Rm 9.6-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Diante da objeção sobre a justiça dessa escolha, Paulo recorre a Êxodo 33.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e à imagem do oleiro (Rm 9.14-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Esses versículos estão no centro dos debates sobre predestinação: a tradição agostiniana e reformada lê neles a eleição individual para a salvação; a tradição arminiana e muitos intérpretes católicos e ortodoxos enfatizam a eleição de povos para funções no plano redentor e a presciência divina. Ambas as leituras reconhecem que Paulo afirma a liberdade soberana de Deus em sua misericórdia.

No capítulo 10, o foco muda para a responsabilidade humana: Israel buscou uma justiça própria pela Lei e não se submeteu à justiça de Deus, porque Cristo é o fim da Lei para a justiça de todo o que crê (Rm 10.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A palavra da fé está perto, na boca e no coração, e quem confessa Jesus como Senhor e crê que Deus o ressuscitou será salvo, sem diferença entre judeu e grego (Rm 10.8-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Por isso é preciso que haja pregadores enviados, e Paulo cita Isaías 52.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) sobre a beleza dos pés dos que anunciam boas-novas (Rm 10.14-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

No capítulo 11, Paulo pergunta se Deus rejeitou seu povo, e responde que não: ele próprio é israelita, e existe um remanescente escolhido pela graça (Rm 11.1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A queda de Israel trouxe salvação aos gentios, e a plena inclusão de Israel trará ainda maior bênção (Rm 11.11-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Com a imagem da oliveira, Paulo adverte os gentios: eles são ramos de oliveira brava enxertados na oliveira cultivada, e não devem se orgulhar contra os ramos naturais, que podem ser novamente enxertados (Rm 11.17-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Revela então um mistério: o endurecimento veio em parte sobre Israel até que entre a plenitude dos gentios, e assim todo Israel será salvo (Rm 11.25-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A interpretação dessa frase é debatida — se se refere a uma conversão futura do povo judeu em grande escala, como pensam muitos intérpretes, ou à totalidade do povo de Deus formado por judeus e gentios, ou ao conjunto dos eleitos de Israel ao longo da história —, mas a afirmação de que os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis (Rm 11.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) é clara. O bloco termina com uma doxologia, um cântico de adoração diante da profundidade da riqueza, da sabedoria e do conhecimento de Deus, cujos caminhos são insondáveis e de quem, por quem e para quem são todas as coisas (Rm 11.33-36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A vida transformada (Rm 12.1–15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).13)

Com a palavra "portanto", Paulo passa à aplicação. Pelas misericórdias de Deus expostas nos onze capítulos anteriores, os crentes devem oferecer seus corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus — o culto racional ou espiritual (logikē latreia) — e não se conformar a este mundo, mas ser transformados pela renovação da mente (Rm 12.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Seguem-se exortações sobre a vida na igreja como um corpo com muitos membros e dons diferentes (Rm 12.3-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), sobre o amor sincero, a hospitalidade, a bênção aos perseguidores e a recusa da vingança, vencendo o mal com o bem (Rm 12.9-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O capítulo 13 trata da relação com as autoridades civis, que são instituídas por Deus para promover o bem e conter o mal, a quem se devem submissão, impostos e respeito (Rm 13.1-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) — texto que precisou ser lido, ao longo da história, em diálogo com passagens que mostram os limites da obediência, como At 5.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Paulo resume a Lei no amor ao próximo (Rm 13.8-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e exorta a viver como quem sabe que a noite está avançada e o dia se aproxima, revestindo-se do Senhor Jesus Cristo (Rm 13.11-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Foi esse trecho que Agostinho leu no jardim de Milão, em 386, levando-o à conversão, como relata em suas Confissões (8.12).

Os capítulos 14 e 15.1-13 tratam das tensões entre os fortes e os fracos na fé — provavelmente, cristãos que se sentiam livres para comer qualquer alimento e desconsiderar dias especiais, e outros, em geral de formação judaica, que mantinham restrições alimentares e o calendário. Paulo, que se identifica com os fortes, pede que ninguém despreze nem julgue o outro, porque cada um vive para o Senhor e prestará contas a ele; que os fortes não usem sua liberdade para fazer tropeçar o irmão; e que todos se acolham mutuamente, como Cristo os acolheu, para a glória de Deus (Rm 14.1–15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).7). O bloco se encerra com uma série de citações das Escrituras sobre os gentios que glorificam a Deus junto com Israel (Rm 15.8-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Conclusão: planos, saudações e doxologia (Rm 15.14–16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).27)

Paulo explica seu ministério como um serviço sacerdotal, oferecendo os gentios como oferta santificada pelo Espírito, e descreve sua missão de Jerusalém até o Ilírico, anunciando o evangelho onde Cristo ainda não era conhecido (Rm 15.14-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Expõe seus planos de ir a Jerusalém, a Roma e à Espanha, e pede orações (Rm 15.22-33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O capítulo 16 traz a recomendação de Febe e uma longa lista de saudações a cerca de vinte e seis pessoas, entre elas Priscila e Áquila, que haviam arriscado a vida por Paulo e reuniam uma igreja em sua casa (Rm 16.3-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A lista mostra a diversidade da igreja romana: nomes judeus, gregos e latinos, nomes típicos de escravos e libertos, e um número notável de mulheres ativas no ministério. Entre elas está Júnia, mencionada com Andrônico como notável entre os apóstolos (Rm 16.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Por muito tempo, parte da tradição leu o nome como masculino (Júnias), mas o nome feminino é o atestado nas fontes antigas e é hoje amplamente aceito; ainda se discute se a frase significa que eram apóstolos notáveis ou que eram bem conhecidos pelos apóstolos.

A carta termina com uma advertência contra os que causam divisões, saudações dos colaboradores de Paulo e uma doxologia final (Rm 16.25-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Essa doxologia aparece em lugares diferentes em diversos manuscritos — depois de 14.23, depois de 15.33 ou depois de 16.24 —, o que sugere que a carta circulou em mais de uma forma na Igreja antiga. Seu conteúdo, porém, resume bem a epístola: o mistério mantido em silêncio por séculos foi agora revelado e dado a conhecer a todas as nações, para a obediência da fé.

5. Conexão Cristocêntrica

Romanos é inteiramente centrada em Cristo. A carta começa com o evangelho acerca do Filho (Rm 1.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e termina com a glória dada a Deus por meio de Jesus Cristo (Rm 16.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Toda a doutrina da justificação, da santificação e da esperança repousa sobre quem Cristo é e sobre o que ele fez.

O Filho de Davi declarado Filho de Deus

A confissão de abertura apresenta duas dimensões de Cristo: segundo a carne, descende de Davi, cumprindo as promessas feitas ao rei (2Sm 7.12-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); segundo o Espírito de santidade, foi declarado Filho de Deus com poder pela ressurreição (Rm 1.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A ressurreição não o tornou Filho, mas o estabeleceu publicamente no exercício do seu poder messiânico. No fim da carta, Paulo cita Isaías 11.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) sobre a raiz de Jessé que se levanta para governar as nações, nas quais os gentios esperarão (Rm 15.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O rei davídico prometido a Israel é o Senhor das nações.

O propiciatório e o sacrifício pelo pecado

Ao chamar Cristo de hilastērion (Rm 3.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), Paulo o coloca no centro do Dia da Expiação (Lv 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que o sumo sacerdote fazia uma vez por ano, atrás do véu, aspergindo sangue sobre a tampa da arca, Deus fez de uma vez por todas, publicamente, em Cristo. Da mesma forma, Rm 8.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) descreve a missão do Filho com uma expressão que a Septuaginta usa para a oferta pelo pecado (peri hamartias, Lv 4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O sistema sacrificial do Antigo Testamento, com toda a sua seriedade quanto ao pecado e à santidade de Deus, encontra seu cumprimento na cruz.

O último Adão

O paralelo de Rm 5.12-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) apresenta Cristo como o novo cabeça da humanidade. Adão era figura (typos) daquele que havia de vir (Rm 5.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Onde o primeiro homem desobedeceu e trouxe morte, o segundo obedeceu e trouxe vida. Cristo não é apenas um exemplo moral; é o representante em quem uma nova humanidade é constituída, e por isso a salvação é descrita como passar de Adão para Cristo.

A descendência de Abraão e o alvo da Lei

Cristo é aquele em quem se cumprem as promessas feitas a Abraão: a promessa de que ele seria pai de muitas nações (Gn 17.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Rm 4.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) se realiza quando judeus e gentios são justificados pela mesma fé. E Cristo é o telos da Lei (Rm 10.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): toda a Lei de Moisés, com seus mandamentos, sacrifícios e promessas, caminhava em direção a ele. Paulo mostra isso num exemplo impressionante em Rm 10.6-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): toma Deuteronômio 30.12-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), onde Moisés diz que o mandamento não está no céu nem além do mar, mas perto, na boca e no coração, e o aplica a Cristo, que desceu do céu e subiu do abismo. A palavra que estava perto de Israel era, desde sempre, a palavra que apontava para Cristo.

O Senhor invocado por todos

Em Rm 10.9-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Paulo afirma que quem confessar Jesus como Senhor será salvo e, em seguida, cita Joel 2.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) sobre todo aquele que invocar o nome do Senhor. No texto hebraico de Joel, o "Senhor" é o nome divino, YHWH. Paulo aplica a Jesus uma promessa que se referia ao próprio Deus de Israel. Sem desenvolver teoricamente a questão, a carta pressupõe que invocar Jesus é invocar o Deus único. Em Rm 9.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), conforme a pontuação adotada — o que é discutido entre os estudiosos —, Paulo chama Cristo de Deus bendito para sempre.

6. Relação entre Antigo e Novo Testamento

Romanos contém mais citações do Antigo Testamento do que qualquer outra carta de Paulo — mais de cinquenta, concentradas sobretudo nos capítulos 9 a 11. Paulo não usa as Escrituras como enfeite, mas como fundamento do argumento: o evangelho que ele anuncia foi prometido de antemão pelos profetas (Rm 1.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e é testemunhado pela Lei e pelos Profetas (Rm 3.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Os textos veterotestamentários decisivos são Habacuque 2.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (o justo viverá pela fé), Gênesis 15.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (a fé de Abraão creditada como justiça), o Salmo 32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (a bem-aventurança do perdoado), Deuteronômio 30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (a palavra que está perto), Joel 2.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (a invocação do nome do Senhor), Isaías 52.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (os pés dos mensageiros), Isaías 59.20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (o Redentor que virá de Sião), e uma série de textos de Oseias, Isaías, Deuteronômio e dos Salmos que falam da inclusão das nações (Rm 9.25-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 15.9-12). A narrativa de Adão (Gn 2–3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a figura de Abraão, a eleição de Jacó e o endurecimento do faraó formam o pano de fundo de toda a argumentação.

No interior do Novo Testamento, Romanos tem relação estreita com Gálatas, que trata de temas semelhantes — justificação pela fé, Abraão, a Lei, o Espírito — num tom mais polêmico e urgente. Muitos estudiosos veem Romanos como uma exposição mais serena e completa de ideias que Paulo havia formulado sob pressão em Gálatas. Há também um diálogo frequentemente discutido com a Epístola de Tiago, que também cita Gênesis 15.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e afirma que o ser humano é justificado pelas obras, e não somente pela fé (Tg 2.21-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A leitura mais aceita é que os dois autores combatem erros diferentes: Paulo combate a ideia de que a obediência à Lei é a base da justificação; Tiago combate uma fé meramente verbal, que não produz obras. Para ambos, a fé verdadeira é viva e se manifesta no amor — o que Paulo chama, em Gálatas, de fé que atua pelo amor (Gl 5.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Por fim, Romanos teve na história da Igreja uma influência que ultrapassa qualquer outro livro do Novo Testamento, com exceção talvez dos evangelhos. A conversão de Agostinho (386), a descoberta de Lutero, que ele descreve no prefácio às suas obras latinas (1545), a experiência de John Wesley na Aldersgate Street em 24 de maio de 1738 e o impacto do Römerbrief de Karl Barth (1919, segunda edição de 1922) marcaram viradas decisivas no pensamento cristão. Na segunda metade do século XX, a chamada Nova Perspectiva sobre Paulo — nome dado por James Dunn numa conferência de 1982, a partir dos estudos de E. P. Sanders — levou a uma releitura da relação entre Paulo e o judaísmo do seu tempo, destacando a questão da inclusão dos gentios. O debate continua, e as diferentes perspectivas enriquecem a leitura sem apagar o centro: a salvação é obra da graça de Deus em Cristo, recebida pela fé.

7. Aplicação Espiritual e Teológica

A primeira aplicação de Romanos é a honestidade diante de Deus. A carta não começa com promessas de bem-estar, mas com um diagnóstico duro: todos pecaram. Esse diagnóstico, porém, é libertador. Quem para de fingir que é justo por si mesmo pode, enfim, receber a justiça como presente. A graça só é compreendida por quem reconhece que precisa dela.

A segunda é a segurança do crente. Muitos cristãos vivem com a sensação de que precisam conquistar diariamente a aceitação de Deus. Romanos 5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 8 afirmam o contrário: justificados pela fé, temos paz com Deus; não há condenação para os que estão em Cristo; nada nos separará do seu amor. Essa segurança não gera descuido, mas gratidão e liberdade para servir. Para quem enfrenta sofrimento, a carta oferece uma perspectiva realista e esperançosa: as tribulações produzem caráter e esperança, e Deus faz todas as coisas cooperarem para o bem dos que o amam — não porque tudo seja bom, mas porque Deus é bom em tudo.

A terceira é a luta contra o pecado. O capítulo 6 ensina que o crente não luta para conseguir a vitória, mas a partir da vitória já conquistada em Cristo. E o capítulo 7, seja qual for a leitura adotada, dá voz a uma experiência que muitos conhecem: querer o bem e não conseguir fazê-lo. A resposta não é o esforço solitário, mas a vida no Espírito, descrita no capítulo 8.

A quarta é a humildade. Os capítulos 9 a 11 ensinam que a salvação é misericórdia, e não mérito, e advertem os que foram enxertados contra o orgulho em relação aos outros. Isso vale para a atitude cristã diante do povo judeu, mas também para qualquer tentação de superioridade espiritual. A doxologia de Rm 11.33-36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) lembra que a teologia deve terminar em adoração, e não em arrogância.

A quinta é a vida como culto. O "sacrifício vivo" de Rm 12.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) transforma a adoração: ela não se restringe ao templo ou ao domingo, mas abrange o corpo inteiro, o trabalho, as decisões, o uso do dinheiro e do tempo. A renovação da mente é o caminho para discernir a vontade de Deus no cotidiano. Para quem tem responsabilidades de liderança, a exortação sobre os dons (Rm 12.3-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) lembra que cada pessoa tem um lugar e uma contribuição no corpo.

Por último, a unidade na diversidade. Os capítulos 14 e 15 mostram que é possível discordar em questões secundárias sem romper a comunhão. Em igrejas, famílias e empresas marcadas por diferenças de formação, cultura e convicção, a instrução de Paulo continua atual: não desprezar nem julgar, não fazer tropeçar, acolher uns aos outros como Cristo nos acolheu.

Sabedoria para o Cotidiano
Romanos mostra que todos precisamos da graça e que Deus, em Cristo, nos oferece gratuitamente uma justiça que jamais conquistaríamos, com a certeza de que nada nos separará do seu amor. No dia a dia, isso significa viver sem a angústia de merecer a aceitação de Deus, oferecer a ele o trabalho, o corpo e as decisões como culto, enfrentar as tribulações sabendo que elas amadurecem a esperança e acolher os que pensam diferente como Cristo nos acolheu — porque quem foi alcançado pela misericórdia aprende a viver dela e a distribuí-la.


Fontes de referência utilizadas: Douglas J. Moo, The Epistle to the Romans (NICNT, Eerdmans, 2ª ed., 2018); C. E. B. Cranfield, The Epistle to the Romans (ICC, 2 vols., 1975/1979); Thomas R. Schreiner, Romans (BECNT, Baker, 2ª ed., 2018); John Stott, The Message of Romans (BST, IVP, 1994); N. T. Wright, "The Letter to the Romans" (New Interpreter's Bible, vol. X, 2002); James D. G. Dunn, Romans (WBC, 2 vols., 1988); Joseph A. Fitzmyer, Romans (Anchor Bible, 1993); Leon Morris, The Apostolic Preaching of the Cross (1955) e The Epistle to the Romans (Pillar, 1988); C. H. Dodd, The Bible and the Greeks (1935); E. P. Sanders, Paul and Palestinian Judaism (1977); Richard B. Hays, The Faith of Jesus Christ (2ª ed., 2002); Werner G. Kümmel, Römer 7 und die Bekehrung des Paulus (1929); Martinho Lutero, Prefácio à Epístola aos Romanos (1522); Agostinho, Confissões 8.12; Karl Barth, Der Römerbrief (1919/1922); Suetônio, Vida de Cláudio 25.4.

Interpretação e comentários da Bíblia, sob direção editorial de José Carlos Fortes. Conteúdo elaborado com apoio de inteligência artificial, sob curadoria e revisão editorial. Esta página não reproduz texto bíblico protegido: traz referência, interpretação e comentário.