Salmos · 19 de 66 · Antigo Testamento
Salmos — Capítulo 140
Título do capítulo: A língua de serpente e o Deus dos pobres
Gênero literário: Poesia/Salmo (lamento individual de quem é caçado pela calúnia e pela violência, com súplica de proteção, pedidos de juízo contra os perseguidores e uma confissão final de confiança no Deus que defende o aflito; abre o pequeno grupo de lamentos davídicos dos Salmos 140 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) a 143)
Número de versículos: 13
Nota de precisão: a numeração segue a tradição das Bíblias em português, em que a inscrição não é contada como versículo; no hebraico impresso ela forma o primeiro versículo, e por isso ali o salmo tem catorze versículos e os números ficam um à frente dos nossos. Na antiga tradução grega, que junta os Salmos 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 10, este é o salmo cento e trinta e nove. O selá aparece três vezes (vv. 3, 5 e 8). Duas palavras do salmo não aparecem em nenhum outro lugar da Bíblia hebraica: o nome do animal peçonhento do v. 3 e o lugar em que os inimigos caem no v. 10; o estudo as trata com a cautela que pedem. O v. 3 é citado por Paulo em Romanos (Rm 3.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), na forma da antiga tradução grega.
🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural
O Salmo 140 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) está quase no fim do Saltério, no quinto livro, que vai do Salmo 107 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ao 150. Depois da longa meditação sobre a Lei (Sl 119 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), dos cânticos de romagem (Sl 120–134 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e de alguns hinos e lamentos, o livro reúne uma última coleção atribuída a Davi, do Salmo 138 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ao 145. Logo em seguida vem o grande Aleluia final, os Salmos 146 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) a 150, em que o Saltério termina só em louvor. O lugar é significativo: antes do louvor que não cessa, o livro ainda põe na boca do leitor quatro orações de quem está em perigo, os Salmos 140 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), 141, 142 e 143. O caminho até o último aleluia passa pela angústia, não ao lado dela.
Esses quatro salmos formam uma pequena família. Têm o mesmo vocabulário de caça (laços, redes, armadilhas: Sl 140.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 141.9; 142.3), a mesma sensação de cerco, o mesmo movimento do medo para a confiança, e todos levam o nome de Davi na inscrição. O Salmo 140 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) abre o grupo com o tema que vai atravessá-lo: o perigo que vem da boca. Os inimigos do orante ferem primeiro com a língua, e só depois com as mãos.
A inscrição diz que o salmo é para o regente do coro, lamnatseaḥ, e é um mizmor, um salmo para ser cantado com acompanhamento, de Davi. A expressão lamnatseaḥ aparece em mais de cinquenta inscrições e parece indicar que o texto pertencia ao repertório do responsável pela música do culto. A preposição de ledawid, "de Davi", pode significar autoria, dedicação ou pertença a uma coleção ligada ao nome do rei; a tradição judaica e a cristã o leram como oração do próprio Davi, e nada no salmo contradiz essa leitura, mas a inscrição não indica nenhuma ocasião. Os comentaristas que procuram um momento na vida de Davi pensam nos anos em que ele foi caluniado na corte de Saul e perseguido de esconderijo em esconderijo (1Sm 24.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 26.19), quando homens de língua ágil levavam ao rei acusações contra ele. É uma hipótese que ilumina o salmo, não um dado do texto.
O selá, que aparece três vezes, é uma palavra cujo sentido ninguém conhece com segurança. A maioria pensa numa indicação musical: uma pausa, uma mudança de intensidade, talvez um momento em que os instrumentos tocavam sozinhos ou em que o povo respondia. Aqui, ele cai no fim das três primeiras estrofes e ajuda a perceber a estrutura do poema. É também um dos últimos lugares do Saltério em que a palavra aparece; depois deste salmo, segundo a contagem habitual, ela só volta uma vez, no Salmo 143 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (Sl 143.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Para entender o salmo, é preciso lembrar o peso que a palavra falada tinha numa sociedade como a de Israel. Não havia imprensa nem registro público. A reputação de uma pessoa, a sua posição diante do rei, o resultado de um processo diante dos anciãos à porta da cidade, tudo dependia do que se dizia dela. Uma acusação falsa podia custar a terra, a liberdade e a vida, como mostra a história de Nabote, condenado por testemunhas compradas (1Rs 21.8-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Lei proibia o falso testemunho e mandava aplicar ao acusador mentiroso a pena que ele queria para o outro (Ex 20.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 19.16-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os salmos de lamento estão cheios dessa experiência: gente que não consegue se defender porque a mentira chegou antes (Sl 5.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 52.2-4; 64.3-4; 120.2-3).
O salmo pertence a esse mundo e fala com as imagens desse mundo: a serpente que se esconde e pica, o caçador que prepara armadilhas à beira do caminho, as brasas que caem do céu, o pobre que não tem quem o defenda. Termina, porém, numa certeza que ultrapassa a situação do orante: o Senhor faz justiça ao aflito e garante o direito dos necessitados. A oração pessoal se abre para uma convicção sobre o caráter de Deus.
📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo
O orante começa pedindo ao Senhor que o livre do homem mau e o guarde do homem violento (v. 1). Descreve esses homens: planejam o mal no coração e passam o tempo provocando conflitos (v. 2). A arma deles é a língua, afiada como a de uma serpente, e trazem sob os lábios uma peçonha mortal (v. 3). Pausa.
O pedido se repete com novas palavras: que o Senhor o proteja das mãos do ímpio e do violento, que tramaram derrubá-lo no meio do caminho (v. 4). Os soberbos esconderam para ele um laço e cordas, estenderam uma rede à beira da estrada e armaram ciladas (v. 5). Pausa.
Então o orante muda de direção. Já não descreve os inimigos; fala com Deus. Confessa ao Senhor que ele é o seu Deus e lhe pede que ouça a sua súplica (v. 6). Chama-o de força da sua salvação e lembra que, no dia da batalha, foi o Senhor quem lhe protegeu a cabeça (v. 7). Pede que os desejos do ímpio não se cumpram e que os seus planos não prosperem, para que não se exaltem (v. 8). Pausa.
Segue-se a parte mais dura. O orante pede que o mal falado pelos que o cercam caia sobre a cabeça deles (v. 9), que brasas caiam sobre eles, que sejam lançados no fogo e em covas fundas de onde não se levantem (v. 10), que o homem de língua maldosa não se firme na terra e que o mal persiga o violento até derrubá-lo (v. 11).
O salmo termina em serenidade. O orante sabe que o Senhor defende a causa do aflito e o direito dos pobres (v. 12). E conclui com uma visão: os justos darão graças ao nome do Senhor, e os retos habitarão na sua presença (v. 13).
🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)
Versículos 1-3 — A guerra que começa na boca
O salmo abre com dois imperativos em paralelismo sinônimo: livra-me, ḥalletseni, e guarda-me, tintsereni. O primeiro verbo tem a ideia de arrancar, tirar alguém de onde está preso; o segundo, a de vigiar, proteger como se guarda uma cidade ou uma vinha. Os inimigos também aparecem em par: o 'adam ra', o homem mau, e o 'ish ḥamasim, o homem das violências. A palavra ḥamas é forte: é a violência que destrói a ordem da vida, a mesma que encheu a terra antes do dilúvio (Gn 6.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O plural sugere um homem feito de violências, alguém cuja vida inteira é agressão.
O v. 2 vai à raiz. O mal começa no coração, lev, onde esses homens planejam, ḥashevu, o que farão; o verbo é o de quem calcula, faz contas, desenha um projeto. A segunda metade do verso diz que eles provocam guerras todos os dias. O verbo hebraico pode significar ajuntar-se para a guerra ou atiçar, provocar contendas; em qualquer leitura, são homens que vivem de conflito. O retrato é coerente com o que a sabedoria de Israel diz do perverso, que trama o mal sem parar e semeia discórdia (Pv 6.14, 18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 3 revela a arma. Eles afiaram a língua como a de uma serpente, naḥash. A imagem não supõe que a serpente fira com a língua; o poeta junta duas ideias, a língua afiada como espada, frequente nos salmos (Sl 57.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 64.3), e a picada traiçoeira da cobra. A segunda metade do verso diz que debaixo dos lábios eles guardam uma peçonha. A palavra para o animal, 'akhshuv, aparece só aqui na Bíblia hebraica, e ninguém sabe exatamente que espécie designa; a antiga tradução grega a entendeu como áspide, e é assim que Paulo a lê. O que importa é a imagem: o veneno fica escondido, sob os lábios, pronto para ser inoculado. A fala que parece inofensiva carrega morte. O paralelismo aqui é progressivo: a língua afiada corta, mas a peçonha mata.
O selá que fecha a estrofe deixa a imagem suspensa diante do ouvinte. Antes de pedir qualquer coisa, o salmo obriga a olhar o perigo de frente.
Versículos 4-5 — Laços à beira do caminho
A segunda estrofe repete o pedido do v. 1 com o verbo shamar, guardar, e mantém o segundo verbo, natsar, já usado. A repetição é deliberada: a oração insiste porque o perigo insiste. Os inimigos agora têm mãos, yede rasha', as mãos do ímpio, e um propósito: derrubar os passos do orante. A palavra para passos, pe'amim, descreve o andar, o ritmo da caminhada; o verbo daḥah, empurrar, é o mesmo do Salmo 118 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), quando o orante foi empurrado para cair (Sl 118.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A intenção não é só ferir, é fazer tropeçar, interromper a vida no meio do caminho.
O v. 5 é um pequeno catálogo da caça antiga. Os ge'im, os soberbos, escondem um paḥ, o laço, a armadilha de mola usada para pegar aves; estendem ḥavalim, cordas, e uma reshet, a rede que se lança sobre o animal; põem moqshim, iscas ou ciladas, ao lado do caminho. Cada termo é um instrumento diferente, e a acumulação produz a sensação de que todo o percurso está minado. O orante não pode dar um passo sem risco. A mesma linguagem descreve o perigo da calúnia e da intriga em outros salmos (Sl 31.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 57.6; 64.5; 91.3) e reaparecerá nos salmos seguintes (Sl 141.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 142.3).
A palavra "soberbos" é importante. O salmo não os chama só de maus; chama-os de altivos, gente que se coloca acima dos outros e acima de Deus. A violência da língua nasce do orgulho. O segundo selá fecha a descrição do inimigo, e daqui em diante o salmo fala principalmente com Deus.
Versículos 6-8 — A cabeça coberta no dia da batalha
A terceira estrofe começa com uma virada: o orante diz ao Senhor que ele é o seu Deus, 'eli 'attah. Diante de inimigos que tramam, ele não responde tramando; faz uma confissão de pertença. A frase é breve e decisiva, e aparece em outros momentos de crise nos salmos (Sl 31.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 63.1). O pedido que segue, que o Senhor dê ouvidos à voz das suas súplicas, usa taḥanunim, palavra que vem da raiz da graça: são pedidos de quem não tem direito a nada e apela para a bondade de outro.
O v. 7 junta dois nomes, YHWH 'Adonai, o nome da aliança e o título de Senhor soberano, e uma expressão bela: 'oz yeshu'ati, a força da minha salvação. Deus não só salva; ele é a força que torna a salvação possível. Depois vem a lembrança: no yom nesheq, o dia das armas, o dia da batalha, o Senhor cobriu a cabeça do orante. A imagem é a do capacete, ou de um escudo erguido sobre a cabeça. Muitos comentaristas leem o verbo como memória de livramentos anteriores; outros, como certeza de que o Senhor fará isso no combate que se aproxima. As duas leituras se somam: o Deus que já protegeu é o Deus em quem se confia agora.
A palavra "cabeça" volta no v. 9, e o contraste é intencional. A cabeça do orante está coberta pelo Senhor; a cabeça dos inimigos será coberta pelo mal que eles mesmos falaram. O poema trabalha com esse jogo de espelhos.
O v. 8 traz o primeiro pedido contra os inimigos, ainda em forma negativa: que o Senhor não conceda os desejos do ímpio nem faça prosperar os seus planos. A palavra zemam, trama, projeto, aparece só aqui com esse sentido, mas a raiz é conhecida e indica a intriga premeditada. O motivo do pedido é revelador: para que não se exaltem. Se os planos dos soberbos dessem certo, eles se tornariam ainda mais altivos, e a sua vitória pareceria confirmar que a violência compensa. O orante pede a Deus que não permita essa mentira sobre o mundo. O terceiro selá marca o fim da estrofe.
Versículos 9-11 — O mal que volta sobre quem o lança
Esta é a parte imprecatória do salmo, e precisa ser lida com atenção ao que realmente pede. O v. 9 começa com a cabeça dos que cercam o orante: que o 'amal, a maldade, a desgraça, de seus lábios os cubra. É o princípio de que o mal volta sobre quem o pratica, frequente nos salmos e na sabedoria: a cova aberta para outro engole quem a cavou, e a violência desce sobre a cabeça de quem a lança (Sl 7.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 9.15; Pv 26.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O orante não pede para inventar um castigo; pede que as palavras envenenadas façam efeito em quem as produziu.
O v. 10 usa imagens de juízo divino. As brasas, geḥalim, lembram a tempestade em que o Senhor desce para salvar Davi (Sl 18.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e a chuva de fogo sobre os ímpios (Sl 11.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); remetem também à destruição de Sodoma (Gn 19.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 120 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) já tinha respondido à língua enganosa com flechas afiadas e brasas de giesta (Sl 120.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): o fogo é a resposta poética ao fogo da língua. A segunda metade do verso fala de serem lançados no fogo e em mahamorot, palavra que, como a do v. 3, aparece só aqui; o contexto sugere covas profundas, abismos de água ou poços, lugares de onde não se sobe. Os que armaram covas para o justo acabam numa cova de onde não saem.
O v. 11 resume o pedido. O 'ish lashon, literalmente o homem de língua, isto é, o caluniador, o falador maldoso, não deve se firmar na terra. E o mal deve caçar o violento a golpes sucessivos; a palavra madḥefot, empurrões repetidos, ecoa o verbo do v. 4. Os que queriam empurrar o orante para fora do caminho serão empurrados pelo próprio mal até cair. O caçador vira caça.
É preciso notar o que o salmo não faz. O orante não diz que vai se vingar, não arma uma contra-armadilha, não espalha boatos sobre os seus caluniadores. Entrega tudo a Deus. O pedido é duro, mas é oração, e a oração tira a vingança das mãos humanas. O pano de fundo é a lei do falso testemunho, que mandava aplicar ao caluniador a pena que ele planejara para o inocente (Dt 19.18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmista pede que Deus, o juiz verdadeiro, faça o que os tribunais humanos muitas vezes não fazem.
Versículos 12-13 — O direito do pobre e a morada dos retos
A última estrofe muda de tom. O orante diz yada'ti, eu sei. Não é um desejo, é uma convicção. O que ele sabe é que o Senhor fará o din, a causa, o julgamento, do 'ani, o aflito, e o mishpat, o direito, dos 'evyonim, os pobres, os necessitados. As duas palavras para os pobres são as que a Lei e os Profetas usam para os que não têm defesa: sem terra, sem influência, sem advogado (Dt 15.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 11.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Am 2.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pela primeira vez, o orante se coloca nessa companhia. Os inimigos são soberbos; ele é pobre. E o Deus de Israel se apresenta, em toda a Escritura, como o defensor de quem não tem defensor (Sl 9.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 72.12-14; 146.7-9).
A afirmação muda a natureza da oração. O pedido dos vv. 9-11 não nasce de um rancor particular, mas da fé no caráter de Deus: se ele é justo, não pode deixar que a calúnia prevaleça sobre o fraco. A imprecação é uma forma de dizer, com dureza, que o mundo não pertence aos violentos.
O v. 13 encerra com uma visão de futuro, introduzida pela partícula 'akh, certamente. Os tsaddiqim, os justos, darão graças ao nome do Senhor; os yesharim, os retos, habitarão na sua presença, literalmente diante da sua face, 'et-paneykha. O contraste com o v. 11 é perfeito: o homem de língua não se firmará na terra, mas os retos morarão diante de Deus. O salmo começou com a boca que envenena e termina com a boca que agradece; começou com quem quer derrubar e termina com quem permanece.
Vista no conjunto, a estrutura é clara. Duas estrofes de descrição do inimigo (vv. 1-3 e 4-5), marcadas pelo selá; uma estrofe de confiança e pedido (vv. 6-8), também com selá; uma estrofe de imprecação (vv. 9-11), que retoma em espelho as imagens anteriores (a cabeça, os lábios, a cova, o empurrão); e uma conclusão de certeza (vv. 12-13). As palavras-chave voltam transformadas: a língua (vv. 3, 11), os lábios (vv. 3, 9), a cabeça (vv. 7, 9), o violento (vv. 1, 4, 11). O poema é construído de modo que o mal dos inimigos se volte, palavra por palavra, contra eles.
✨ 4. Versículos-Chave
Sl 140.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A língua afiada e a peçonha escondida sob os lábios. O verso descreve com uma imagem inesquecível o poder destruidor da palavra mentirosa. Paulo o inclui na série de citações dos Salmos e de Isaías com que, em Romanos, mostra que judeus e gentios estão todos sob o pecado (Rm 3.9-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O detalhe é decisivo: o apóstolo toma uma frase que, no salmo, descreve os inimigos do justo e a aplica à humanidade inteira, inclusive aos que se julgam do lado do bem. A peçonha não está só nos lábios dos outros. Tiago dirá algo semelhante ao descrever a língua como um mal inquieto que nenhum ser humano consegue amansar, impregnado de peçonha (Tg 3.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Sl 140.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A força da salvação e a cabeça coberta. No meio do perigo, o orante lembra quem Deus é para ele e o que já fez. A imagem do capacete foi retomada por Isaías, que descreve o próprio Senhor vestindo a salvação como capacete para vir socorrer o seu povo (Is 59.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e por Paulo, que manda os cristãos porem na cabeça a salvação, como um capacete (Ef 6.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Ts 5.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A proteção que o salmista recebia de Deus torna-se a armadura que Deus dá aos seus em Cristo.
Sl 140.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Senhor defende a causa do aflito e o direito dos pobres. É o ponto de chegada do salmo e uma das confissões mais constantes da fé de Israel. O orante que se sentia caçado descobre que pertence ao grupo dos que Deus defende. Maria cantará o mesmo Deus que inverte a sorte dos poderosos e dos humildes (Lc 1.51-53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Jesus anunciará, na sinagoga de Nazaré, uma boa notícia para os pobres (Lc 4.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Sl 140.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os retos habitarão na presença do Senhor. A conclusão do salmo projeta a esperança para além da situação imediata. O que o orante deseja não é só sobreviver aos inimigos, mas morar diante da face de Deus. O Novo Testamento leva essa esperança ao fim, quando os servos de Deus verão o seu rosto e ele armará a sua tenda no meio da humanidade (Ap 21.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 22.4).
⛪ 5. Temas Teológicos Centrais
O poder da palavra para destruir. O Salmo 140 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é, antes de tudo, um salmo sobre a língua. O perigo que o orante enfrenta começa no coração (v. 2), passa pela boca (v. 3) e só depois chega às mãos (v. 4). A Bíblia leva muito a sério a palavra humana, porque o ser humano foi criado à imagem de um Deus que cria falando (Gn 1.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A palavra que poderia abençoar é usada para matar. Os Provérbios dizem que da língua dependem a vida e a morte (Pv 18.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Jesus ensina que as palavras revelam o que o coração guarda e que cada uma delas será levada a juízo (Mt 12.34-37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A calúnia é uma forma de violência, e o salmo a chama pelo nome.
Deus como juiz e defensor do pobre. O salmo culmina na confissão de que o Senhor faz justiça ao aflito (v. 12). A Bíblia apresenta Deus, desde o Êxodo, como aquele que ouve o clamor dos oprimidos e desce para libertá-los (Ex 3.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Lei protege o pobre, a viúva, o órfão e o estrangeiro porque o próprio Deus é o seu protetor (Dt 10.17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os Profetas denunciam os que trocam o inocente por prata (Am 2.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmista que ora contra os violentos se apoia nessa revelação. Em Cristo, o Deus dos pobres escolheu a pobreza para nos enriquecer (2Co 8.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e estabeleceu um reino em que a ordem de importância se inverte.
O mal que se volta contra quem o pratica. O salmo trabalha com uma convicção profunda da sabedoria bíblica: o mal tem em si mesmo uma força autodestrutiva. Hamã é enforcado na forca que preparou para Mardoqueu (Et 7.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); os acusadores de Daniel são lançados na cova que prepararam para ele (Dn 6.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não é um mecanismo automático, porque muitas vezes o ímpio prospera por um tempo (Sl 73.3-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas é a direção da história sob o governo de Deus. O orante pede que essa direção se cumpra.
A oração como recusa da vingança. O salmo pede juízo, mas não executa juízo. O orante se dirige a Deus, não aos inimigos; entrega a causa, não a resolve com as próprias mãos. A imprecação, por mais dura que soe, é um ato de fé: reconhece que só a Deus cabe vingar (Dt 32.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo retomará esse princípio e o levará adiante, mandando o cristão não se vingar, abrir espaço para o juízo de Deus e responder ao mal com o bem, até vencê-lo (Rm 12.17-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo
6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?
O Salmo 140 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) pertence à Redenção em andamento, mas fala o tempo todo da Queda. A serpente do v. 3 não aparece por acaso: a primeira palavra mentirosa da Bíblia saiu da boca de uma serpente, e foi uma palavra que distorceu a de Deus e trouxe a morte (Gn 3.1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Desde então, a língua humana carrega algo daquela peçonha. Jesus dirá que o diabo é a fonte de onde a mentira nasce e que, desde o começo, trabalha pela morte (Jo 8.44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), unindo, como o salmo, mentira e morte. O salmo é a oração de alguém que sofre as consequências dessa queda nas mãos de outros. A Redenção consumada vem quando o justo, perseguido pela calúnia até a morte, é vindicado por Deus. E a Nova Criação é o lugar onde os retos habitam diante da face de Deus (v. 13) e de onde ficam de fora os que se apegam à mentira e vivem dela (Ap 21.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 22.15).
6.2 — O justo caçado pelas palavras: Davi e o Filho de Davi
Se o salmo nasceu dos anos em que Davi foi caluniado e perseguido, temos aqui um padrão que o Novo Testamento vê realizado em Jesus de modo pleno. Não se trata de uma profecia direta, e o salmo não é citado nos Evangelhos a respeito de Jesus. Trata-se de uma correspondência de situação: o ungido de Deus, inocente, cercado por homens que preparam armadilhas com palavras.
Os Evangelhos descrevem exatamente isso. Os fariseus se reuniram para ver como poderiam apanhar Jesus numa palavra (Mt 22.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); mandaram informantes disfarçados de gente sincera para pegá-lo em alguma coisa que dissesse e entregá-lo ao governador (Lc 20.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); ficavam à espreita, tentando arrancar dele alguma frase que servisse de acusação (Lc 11.53-54 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As perguntas sobre o tributo a César, sobre a mulher apanhada em adultério, sobre a ressurreição eram laços armados à beira do caminho (v. 5). Por fim, no julgamento, apareceram falsas testemunhas que deturparam as suas palavras (Mt 26.59-61 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 14.55-59 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus foi condenado pela língua antes de ser crucificado pelas mãos.
Há, porém, uma diferença decisiva. O salmista pede que o mal volte sobre os caluniadores; Jesus, diante deles, se cala, e na cruz pede perdão para os que o crucificam (Lc 23.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pedro, comentando a paixão, diz que nenhuma fraude saiu da boca de Cristo e que, ofendido, ele não devolvia a ofensa, mas confiava a sua causa ao Juiz justo (1Pe 2.22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Essa é a ponte entre o salmo e o Evangelho: o orante do Salmo 140 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) também entrega a sua causa a Deus, e Jesus faz isso de modo perfeito, sem a amargura que às vezes acompanha a nossa oração.
6.3 — A citação de Paulo: a peçonha está em todos nós
O uso mais importante do salmo no Novo Testamento está em Romanos 3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Paulo reúne uma série de textos do Antigo Testamento, quase todos dos Salmos, para mostrar que nenhum ser humano é justo diante de Deus (Rm 3.10-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No meio da série, junta o Salmo 5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que compara a garganta a uma sepultura escancarada, e o v. 3 deste salmo, sobre a peçonha sob os lábios (Rm 3.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 5.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O movimento de Paulo é surpreendente e deve ser bem entendido. No Salmo 140 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), os que têm peçonha nos lábios são os inimigos; o orante é o justo perseguido. Paulo não nega isso, mas mostra que a fronteira não passa entre um grupo de pessoas e outro, e sim dentro de cada coração humano. O mesmo leitor que ora este salmo contra os caluniadores precisa reconhecer que, também nos seus lábios, há palavras que ferem. O objetivo de Paulo é deixar todos sem argumento e colocar o mundo inteiro debaixo do juízo de Deus (Rm 3.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), para então anunciar a justiça de Deus que vem pela fé em Jesus Cristo, para todos os que creem, sem distinção (Rm 3.21-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Isso transforma a leitura do salmo. Se só os outros fossem caluniadores, o v. 10 seria um pedido simples. Mas se a peçonha está também em nós, o juízo que pedimos sobre eles cairia sobre nós. A boa notícia é que esse juízo caiu sobre Cristo. Ele, que nunca disse uma palavra falsa, foi tratado como o pior dos caluniadores, condenado por blasfêmia, para que os que têm veneno nos lábios pudessem receber lábios novos.
6.4 — A Pessoa e a Obra de Cristo iluminando este capítulo
A encarnação mostra que Deus não assistiu de longe à guerra das palavras. O Verbo eterno, a Palavra pela qual tudo foi feito, entrou num mundo em que a palavra tinha sido corrompida, e foi alvo dela. A Palavra verdadeira foi chamada de mentirosa, endemoninhada, samaritana, blasfema (Jo 8.48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 26.65 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Cristo conhece por dentro o sofrimento de quem é caluniado.
A vida perfeita de Jesus mostra o que é uma língua sem peçonha. Pedro reconheceu que não havia a quem mais recorrer, porque era dele a palavra que dá a vida que não acaba (Jo 6.68 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); até os guardas enviados para prendê-lo voltaram de mãos vazias, confessando que nunca tinham ouvido alguém falar daquele modo (Jo 7.45-46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele usou a palavra para curar, perdoar, chamar, ensinar e, quando foi preciso, para denunciar a hipocrisia com dureza; nunca para enganar.
A cruz é o lugar em que o v. 9 se cumpre de forma inesperada. O mal dos lábios de todos nós caiu sobre a cabeça de Cristo. Ele foi coroado de espinhos, e na sua cabeça desceu o juízo que pertencia a outros. O Deus que cobriu a cabeça de Davi no dia da batalha (v. 7) não cobriu a cabeça do Filho no dia da cruz, para que os que estão nele estejam cobertos para sempre.
A ressurreição é a resposta de Deus à calúnia. Os homens condenaram Jesus como blasfemo; Deus, ao ressuscitá-lo, mostrou com poder que ele é o seu Filho (Rm 1.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O direito do pobre foi defendido (v. 12): o justo que não tinha quem o defendesse foi vindicado no terceiro dia. E a ascensão leva o v. 13 ao seu ponto mais alto: o Justo por excelência entrou na presença de Deus, e lá está, em nosso favor (Hb 9.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Por fim, o reinado presente de Cristo e a sua volta dão ao cristão a paciência que o salmo pede. Jesus contou a parábola da viúva que pedia justiça a um juiz injusto e perguntou se Deus deixaria sem resposta os seus escolhidos que lhe pedem justiça sem descanso (Lc 18.1-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O cristão ainda ora o Salmo 140 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), mas o ora sabendo que o juiz já foi designado e que o dia do juízo virá (At 17.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
6.5 — O Evangelho no capítulo
Pregar o Salmo 140 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) a partir de Cristo começa por reconhecer duas coisas que parecem contraditórias. A primeira é que há, de fato, vítimas da língua: pessoas caluniadas, difamadas, perseguidas por boatos, destruídas por mentiras ditas em voz baixa ou espalhadas em público. O salmo dá a elas uma oração e a certeza de que Deus as defende.
A segunda é que todos nós temos peçonha nos lábios. Paulo usa este salmo para mostrar que ninguém está fora do problema. Fomos caçadores e caça, vítimas e agressores.
O Evangelho junta essas duas verdades na cruz. Jesus é a vítima perfeita da língua humana, aquele que foi caluniado sem ter culpa nenhuma. E é também aquele que levou sobre si o juízo devido aos caluniadores, inclusive a nós. Por isso, quem foi ferido pela palavra pode entregar a sua causa a Deus sem precisar se vingar, e quem feriu com a palavra pode encontrar perdão e começar a aprender a falar de outro modo. A boca que envenenava pode tornar-se, como no v. 13, uma boca que dá graças.
🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)
- Gn 3.1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 8.44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a serpente e a palavra mentirosa que traz a morte; o pano de fundo da imagem do v. 3.
- Ex 20.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 19.16-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Rs 21.8-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o falso testemunho na Lei e na história de Israel; a pena do acusador mentiroso, que ilumina os pedidos dos vv. 9-11.
- Sl 5.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 57.4; 64.3-8; 120.2-4 — outros salmos sobre a língua como arma; o Salmo 64 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) termina, como este, com os inimigos derrubados pela própria língua e os justos alegres no Senhor.
- Sl 141.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 142.3; 143.3 — os salmos vizinhos, com as mesmas armadilhas e o mesmo cerco.
- Rm 3.10-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o v. 3 na série de citações de Paulo sobre a universalidade do pecado.
- Tg 3.5-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a língua como fogo e como peçonha que ninguém doma.
- Mt 22.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 11.53-54 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 20.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 26.59-61 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — as armadilhas de palavras preparadas contra Jesus e as falsas testemunhas no seu julgamento.
- 1Pe 2.21-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Cristo que não respondeu à injúria e entregou a sua causa ao justo Juiz.
- Is 59.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ef 6.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Ts 5.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a salvação como capacete, retomando a cabeça coberta do v. 7.
- Lc 18.1-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Rm 12.17-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a justiça entregue a Deus e a recusa da vingança pessoal.
- Ap 21.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 22.4; 22.15 — os que habitam diante da face de Deus e os que ficam fora, entre eles os que se apegam à mentira.
🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico
Leve a sério o poder das palavras. Nunca foi tão fácil espalhar uma acusação. Uma frase escrita às pressas pode alcançar milhares de pessoas e destruir uma reputação em poucas horas. O salmo chama isso de violência e o compara à picada de uma serpente. O cristão, que segue um Senhor caluniado, não pode participar desse tipo de violência, nem quando o alvo parece merecer. Antes de repassar uma acusação, pergunte se ela é verdadeira, se é necessária e se a pessoa atingida teve chance de se defender.
Quando for vítima, ore em vez de revidar. O salmo dá palavras para quem foi ferido pela mentira, e não esconde a raiva nem o desejo de justiça. Mas tudo isso é dito a Deus. Jesus, injuriado, entregou a sua causa ao Pai (1Pe 2.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O cristão pode buscar os meios legítimos de defesa e de esclarecimento, mas não precisa transformar a dor em contra-ataque. A oração tira o veneno do coração de quem foi ferido antes que ele se torne veneno nos próprios lábios.
Examine a sua própria língua. Paulo usa este salmo para lembrar que todos nós temos peçonha nos lábios. É fácil orar contra os caluniadores e esquecer a maledicência de cada dia: o comentário que diminui, a ironia que fere, a meia verdade que protege a nossa imagem. A graça de Cristo não só perdoa essas palavras; ela começa a formar uma nova maneira de falar, guiada pelo Espírito (Ef 4.29-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Coloque-se ao lado dos pobres. O salmo termina confessando que Deus defende o aflito e o necessitado. Uma Igreja que conhece esse Deus não pode ser indiferente aos que não têm voz: os que são caluniados porque são fracos, os que não têm advogado, os que são esmagados por quem fala mais alto. Defender o direito do pobre é imitar o Deus que, em Cristo, desceu à pobreza por nós.
🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo
- O salmo descreve os inimigos primeiro pelo coração (v. 2), depois pela língua (v. 3) e só então pelas mãos (v. 4). O que essa ordem ensina sobre a origem da violência?
- Por que você acha que o salmista usa a imagem da serpente para falar da língua? Que relação há entre esta imagem e Gênesis 3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)?
- Paulo aplica o v. 3 a toda a humanidade (Rm 3.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Como isso muda a maneira de você ler os pedidos duros dos vv. 9-11?
- Jesus foi alvo de armadilhas de palavras e de falsas testemunhas. Como a sua resposta (1Pe 2.22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) ilumina o modo de orar este salmo hoje?
- O v. 12 afirma que o Senhor defende a causa do aflito. Quem são, na sua cidade ou na sua igreja, as pessoas que não têm quem as defenda? O que significaria para você estar ao lado delas?
- Para meditação e oração: pense numa palavra que feriu você e numa palavra sua que feriu alguém. Entregue a primeira a Deus, pedindo que ele faça justiça, e confesse a segunda, pedindo perdão a ele e, se possível, à pessoa atingida. Termine dando graças, como no v. 13.
📚 10. Para Aprofundamento
Cristocêntrica / Teologia Bíblica:
- Sidney Greidanus — Preaching Christ from the Old Testament (Eerdmans, 1999)
- Christopher J. H. Wright — Conhecendo Jesus através do Antigo Testamento (Ultimato) / Knowing Jesus Through the Old Testament (IVP, 1992)
- Dietrich Bonhoeffer — Das Gebetbuch der Bibel (1940), sobre os salmos como oração de Cristo com a Igreja e sobre os salmos de vingança
- C. S. Lewis — Lendo os Salmos (Ultimato), em especial o capítulo sobre as maldições
- G. K. Beale e D. A. Carson (orgs.) — Commentary on the New Testament Use of the Old Testament (Baker Academic, 2007), sobre a série de citações de Romanos 3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)
Comentários dos Salmos:
- Derek Kidner — Salmos 73–150 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
- Leslie C. Allen — Psalms 101–150 (Word Biblical Commentary, 1983; edição revista, 2002)
- Nancy deClaissé-Walford, Rolf A. Jacobson e Beth LaNeel Tanner — The Book of Psalms (NICOT, Eerdmans, 2014)
- Frank-Lothar Hossfeld e Erich Zenger — Psalms 3: A Commentary on Psalms 101–150 (Hermeneia, Fortress, 2011)
- James L. Mays — Psalms (Interpretation, John Knox, 1994)
- Agostinho — Comentário aos Salmos (Paulus, coleção Patrística)
Sabedoria para o Cotidiano
Há palavras que ferem como uma picada e continuam fazendo efeito muito depois de ditas; o Salmo 140 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não finge que elas são pequenas, e dá a quem foi caluniado uma oração e um Deus que defende o aflito. Quando a mentira o alcançar, entregue a sua causa ao Senhor em vez de responder com a mesma peçonha, e lembre-se de que Cristo foi condenado pela língua antes de ser pregado na cruz. E vigie também os seus lábios, porque a mesma graça que nos defende dos outros nos perdoa e nos ensina a falar de modo que a nossa boca, como a dos retos, termine dando graças.
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