Salmos · 19 de 66 · Antigo Testamento
Salmos — Capítulo 147
Título do capítulo: Das estrelas contadas aos corações curados
Gênero literário: Poesia/Salmo (hino de louvor coletivo em três estrofes, cada uma aberta por um novo convite a cantar, que alterna o Deus da história de Jerusalém e o Deus da criação e termina na palavra dada a Israel; o segundo salmo do Hallel final, Sl 146–150 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))
Número de versículos: 20
Nota de precisão: a numeração segue a tradição das Bíblias em português. O salmo não tem inscrição; o aleluia de abertura faz parte do v. 1, e os números do hebraico impresso coincidem com os nossos. A antiga tradução grega, que até aqui vinha um número atrás por ter juntado os Salmos 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 10, divide este salmo em dois, cortando-o depois do v. 11, e com isso volta a coincidir com a nossa numeração a partir do Salmo 148 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); vários manuscritos dessa tradução também ligam as duas partes, por uma nota tardia, a Ageu e Zacarias. Há algumas palavras raras, sobretudo no v. 17 (o gelo lançado em pedaços), tratadas no lugar próprio. A ligação do salmo com a reconstrução dos muros no tempo de Neemias é provável, mas não está declarada no texto.
🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural
O Salmo 147 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o segundo dos cinco salmos que fecham o Saltério, todos emoldurados por um aleluia no começo e outro no fim. O Salmo 146 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) havia cantado o Rei que reina para sempre a partir de Sião (Sl 146.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o Salmo 147 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) dirige-se agora à própria Jerusalém, chamando-a a louvar o Deus que a reconstrói. A sequência não é casual. Os cinco salmos formam um movimento: a alma do orante (Sl 146 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a cidade (Sl 147 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), toda a criação, nos céus e na terra (Sl 148 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a assembleia dos fiéis (Sl 149 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e, por fim, tudo o que respira (Sl 150 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A situação histórica que o salmo supõe aparece logo no v. 2: o Senhor está edificando Jerusalém e reunindo os dispersos de Israel. Depois da destruição da cidade pelos babilônios em 587 a.C. e do exílio, os judeus voltaram em ondas sucessivas sob o domínio persa. O templo foi reconstruído no fim do século VI a.C., com o incentivo de Ageu e Zacarias (Ed 5.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 6.14-15), e os muros só foram reerguidos no tempo de Neemias, em meados do século V a.C. O v. 13, que fala das trancas das portas reforçadas, combina bem com o relato de Neemias, que descreve porta por porta a colocação das folhas, das fechaduras e das trancas (Ne 3.3, 6, 13-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e com a dedicação dos muros, celebrada com coros, cânticos de gratidão e instrumentos, quando a alegria de Jerusalém se ouvia de longe (Ne 12.27-43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Muitos estudiosos situam o salmo nesse ambiente; alguns preferem uma data um pouco posterior. O texto não o diz, e convém deixar a hipótese como hipótese.
Mais seguro é o parentesco literário. O salmo é tecido com a linguagem de Isaías 40–66 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), os capítulos da consolação: o Senhor que reúne os dispersos de Israel (Is 56.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), que conta as estrelas e as chama pelo nome (Is 40.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), cujo entendimento não se pode sondar (Is 40.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), que cura e ata as feridas do seu povo (Is 61.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), cuja palavra desce como a chuva e a neve e não volta vazia (Is 55.10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Há também ecos dos discursos de Deus no livro de Jó, que falam da neve e do granizo guardados em depósitos, do gelo que endurece as águas e do alimento dado aos filhotes do corvo (Jó 37.6-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 38.22-30, 41), e do Salmo 104 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o grande hino da criação (Sl 104.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O poeta não está copiando; está cantando com a memória cheia das Escrituras, e cada eco amplia o que diz.
A forma é a de um hino em três estrofes. Cada uma começa com um imperativo de louvor (vv. 1, 7, 12) e desenvolve os motivos em particípios, como era costume nos hinos: o Senhor é aquele que edifica, que reúne, que cura, que conta, que sustenta, que cobre o céu, que prepara a chuva, que envia a palavra. Os temas se alternam de modo quase musical, entre a história da salvação e a ordem da criação, entre Jerusalém e o firmamento, até que, no fim, os dois se encontram na palavra que governa a natureza e foi revelada a Israel.
Na tradição cristã ocidental, a terceira estrofe ganhou vida própria por causa da divisão da antiga tradução grega. Cantada como salmo separado, a partir de suas primeiras palavras em latim, Lauda Jerusalem, entrou na oração das vésperas e recebeu musicações famosas, entre elas a das Vésperas de Claudio Monteverdi (1610).
📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo
Depois do aleluia, o salmo afirma que é bom cantar ao nosso Deus, que o louvor é agradável e convém (v. 1). O primeiro motivo é a obra do Senhor na história: ele está reconstruindo Jerusalém e reúne os israelitas que estavam espalhados (v. 2). Ele cura os de coração quebrado e faz curativo nas suas feridas (v. 3).
Logo o olhar sobe ao céu. O mesmo Deus determina o número das estrelas e dá nome a cada uma (v. 4). Grande é o Senhor, e imenso o seu poder; a sua inteligência não tem limite (v. 5). Ele sustenta os humildes e derruba os ímpios até o chão (v. 6).
O segundo convite pede que se cante ao Senhor com gratidão e se toque para ele a lira (v. 7). Ele cobre o céu de nuvens, prepara a chuva para a terra, faz o capim brotar nos montes (v. 8), dá aos animais o seu alimento e aos filhotes dos corvos o que eles pedem com seus gritos (v. 9). Não se impressiona com a força do cavalo nem com as pernas do guerreiro (v. 10); agrada-se dos que o temem e dos que esperam no seu amor leal (v. 11).
O terceiro convite é dirigido a Jerusalém e a Sião (v. 12). O Senhor reforçou as trancas das portas da cidade e abençoou os seus filhos (v. 13); estabeleceu a paz nas suas fronteiras e a sacia com o melhor do trigo (v. 14). Ele envia à terra a sua ordem, e a sua palavra corre depressa (v. 15). Dá a neve como lã e espalha a geada como cinza (v. 16); lança o gelo em pedaços, e ninguém resiste ao seu frio (v. 17). Envia de novo a palavra, e tudo derrete; faz soprar o vento, e as águas correm (v. 18).
Por fim, o salmo declara que essa mesma palavra foi anunciada a Jacó, com os estatutos e os juízos dados a Israel (v. 19). Deus não fez isso com nenhuma outra nação, e elas não conhecem os seus juízos. O aleluia final fecha o salmo (v. 20).
🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)
Versículos 1-3 — O Deus que reconstrói a cidade e o coração
O primeiro verso não apenas manda louvar; diz por que o louvor é bom. Três palavras qualificam o ato: é tov, bom; é na'im, agradável, doce; e é na'wah, conveniente, apropriado, o que combina com a ocasião. Há aqui uma pequena teologia do louvor. Ele faz bem a quem louva e é o que convém diante de Deus, como uma roupa feita sob medida. O Salmo 33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) já dizia que o louvor fica bem aos retos (Sl 33.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o Salmo 92 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que é bom render graças ao Senhor (Sl 92.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). C. S. Lewis, nas suas Reflexões sobre os Salmos, observou que o prazer de algo se completa quando se pode louvá-lo, e que a ordem divina de louvar é, no fundo, um convite à alegria plena. O v. 1 diz o mesmo com menos palavras.
O v. 2 apresenta o primeiro motivo: boneh Yerushalayim YHWH, o Senhor é o construtor de Jerusalém. O particípio indica uma obra em andamento; a cidade está sendo reconstruída. O paralelo diz como: ele reúne, yekhannes, os nidḥei Yisra'el, os dispersos, os expulsos, os que foram empurrados para longe. A expressão é exatamente a de Is 56.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), onde o Senhor que reúne os dispersos de Israel promete ainda reunir outros além deles. Reconstruir uma cidade, na Bíblia, é sobretudo reconstituir um povo.
O v. 3 dá um passo surpreendente: da muralha para o coração. O Senhor é harofe' lishvurei lev, aquele que cura os quebrantados de coração, e meḥabbesh le'atsvotam, que ata, enfaixa as suas feridas. O verbo ḥavash é o de quem põe uma atadura num ferimento; Isaías o usa para a missão do ungido, enviado a atar os corações quebrados (Is 61.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Ezequiel para o pastor que enfaixa a ovelha machucada (Ez 34.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A palavra 'atsvot designa feridas, mas também dores e tristezas. Para os que voltavam do exílio, as feridas eram muitas: famílias desfeitas, a memória da cidade em chamas, a vergonha da derrota, a fé abalada. O Deus que reconstrói muros sabe também que um povo pode estar inteiro por fora e despedaçado por dentro. O Salmo 34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) havia dito que o Senhor está perto dos que têm o coração quebrado (Sl 34.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o Salmo 51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que um coração quebrado e esmagado não é desprezado por Deus (Sl 51.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Versículos 4-6 — Quem conta as estrelas não esquece os humildes
A transição do v. 3 para o v. 4 é uma das mais belas do Saltério. O mesmo Deus que enfaixa uma ferida moneh mispar lakokhavim, conta o número das estrelas, e lekhullam shemot yiqra', chama todas pelo nome. Para um antigo, as estrelas eram o símbolo do incontável; Deus havia mostrado a Abraão o céu da noite e o desafiado a contá-las, se pudesse (Gn 15.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Para os vizinhos de Israel, eram também divindades, ou ao menos poderes que governavam o destino. O salmo as reduz a criaturas recenseadas, como soldados que respondem à chamada. Isaías usa a mesma imagem para consolar os exilados que se julgavam esquecidos: o Deus que conduz o exército das estrelas e as chama pelo nome, sem que falte nenhuma, não perdeu de vista o caminho do seu povo (Is 40.26-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A justaposição dos vv. 3 e 4 é o argumento. A grandeza cósmica de Deus não o afasta das pequenas dores; ao contrário, é a garantia de que ele as conhece. Quem dá nome a cada estrela sabe o nome de cada ferido. Há também um jogo de palavras no v. 5: Deus conta o mispar, o número, das estrelas, mas a sua tevunah, o seu entendimento, 'ein mispar, não tem número. Ele mede tudo e não pode ser medido. Isaías afirma o mesmo com outra imagem, a do entendimento que ninguém consegue sondar (Is 40.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O verso fala ainda do Senhor como gadol, grande, e rav-koaḥ, abundante em força.
O v. 6 traz essa grandeza de volta à terra, num paralelismo antitético: o Senhor me'oded, sustenta, restabelece, os 'anavim, os humildes, os pobres que dependem dele; e mashpil, rebaixa, os ímpios até o chão. O verbo 'ud é o mesmo com que o Salmo 146 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) dizia que o Senhor sustenta o órfão e a viúva (Sl 146.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os dois salmos se respondem. A inversão que Ana e Maria celebram, os humildes levantados e os soberbos derrubados, aparece aqui como um traço permanente do Deus que conta as estrelas (1Sm 2.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 1.52 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Versículos 7-9 — Chuva, capim e o grito dos filhotes do corvo
O segundo convite (v. 7) pede que se responda ao Senhor, 'enu, com todah, gratidão, e que se toque para ele o kinnor, a lira, instrumento de cordas dos levitas e de Davi. O verbo 'anah pode significar tanto cantar quanto responder, e talvez ambos estejam presentes: o louvor é a resposta do povo àquilo que Deus fez.
Os motivos agora vêm da criação, numa cadeia de causas que desce do céu à terra e da terra aos animais. O Senhor cobre o céu de nuvens, prepara a chuva para a terra e faz o capim brotar nos montes (v. 8). Para um povo que vivia da agricultura de sequeiro, a chuva era vida ou morte, e os vizinhos atribuíam esse poder a Baal. O salmo não discute; simplesmente declara quem cobre o céu. A imagem do capim que brota nas encostas, onde ninguém semeou, aparece também no Salmo 104 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (Sl 104.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e em Jó (Jó 38.26-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), onde Deus faz chover sobre o deserto em que não mora ninguém. É uma generosidade que não depende do trabalho humano.
O v. 9 desce mais um degrau: Deus dá à behemah, ao animal, o seu alimento, e aos benei 'orev, filhotes do corvo, 'asher yiqra'u, aquilo por que eles gritam. O corvo era ave impura segundo a lei (Lv 11.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e, no imaginário comum, uma ave desagradável; mas Deus ouve o grito dos seus filhotes no ninho. Os discursos de Deus em Jó fazem a mesma pergunta, sobre quem prepara o alimento do corvo quando os filhotes clamam a Deus (Jó 38.41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E Jesus, ao ensinar os discípulos a não viverem ansiosos, manda que reparem nos corvos, que não semeiam nem colhem e, ainda assim, são alimentados por Deus, e tira daí que os discípulos, de valor muito maior para o Pai, não precisam viver aflitos (Lc 12.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É provável que tivesse em mente estes versos.
Versículos 10-11 — O que agrada ao Senhor
Depois de enumerar o que Deus faz, o salmo diz do que ele gosta e do que não faz caso. O v. 10 é construído em paralelismo sinônimo: o Senhor não se agrada, lo' yeḥpats, da gevurah, a força, do cavalo, nem tem prazer, lo' yirtseh, nas shoqei ha'ish, as pernas do homem. O cavalo era a máquina de guerra mais poderosa do mundo antigo, sobretudo puxando carros; as pernas do homem evocam o guerreiro veloz, o corredor, a infantaria. Os dois juntos resumem a força militar em que as nações confiavam. Os salmos repetem que o cavalo é vã esperança de vitória (Sl 33.16-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que uns confiam em carros e cavalos, mas o povo de Deus no nome do Senhor (Sl 20.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Deuteronômio proibia o rei de multiplicar cavalos (Dt 17.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Isaías denunciava quem descia ao Egito em busca deles (Is 31.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O v. 10 retoma o tema do Salmo 146 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), com os príncipes em quem não se deve confiar.
O v. 11 dá o contraponto: rotseh YHWH, o Senhor tem prazer, 'et-yere'av, nos que o temem, 'et-hamyaḥalim leḥasdo, nos que esperam no seu ḥesed, o seu amor leal. O temor do Senhor, nos salmos, não é pavor; é a reverência confiante de quem reconhece quem Deus é. E a esperança, yaḥal, é a espera paciente, a de quem aguarda sem ter ainda na mão. O que agrada a Deus não é a força que o homem tem, mas a confiança que põe nele. É a primeira estrofe dita de outro modo: o Deus que levanta os humildes (v. 6) tem prazer nos que esperam.
Versículos 12-14 — Jerusalém guardada, abençoada e saciada
O terceiro convite é o mais solene. Dois imperativos paralelos, shabbeḥi, celebra, e haleli, louva, dirigidos no feminino singular a Jerusalém e a Sião, tratadas como uma mulher, uma mãe, como tantas vezes nos profetas (Is 52.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 54.1). A cidade não é apenas o lugar do louvor; é chamada a louvar.
Os motivos são a segurança, a bênção, a paz e a fartura. O Senhor ḥizzaq, fortaleceu, os beriḥei she'arayikh, as trancas das tuas portas (v. 13). As trancas eram as barras de madeira ou de metal que, atravessadas por dentro, fechavam as portas da cidade; são parte do que Neemias descreve na reconstrução (Ne 3.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que o povo construiu com as próprias mãos é atribuído a Deus, como no Salmo 127 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), para o qual todo o esforço dos construtores é inútil se a casa não for obra do Senhor (Sl 127.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Dentro das portas, ele berakh, abençoou, os banayikh, os teus filhos: uma cidade com futuro, com crianças nas praças, como Zacarias havia anunciado (Zc 8.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 14 fala da paz posta como fronteira: hassam-gevulekh shalom, literalmente aquele que põe a tua fronteira como paz. Há talvez um jogo com o próprio nome de Jerusalém, que a tradição associava a shalom, e com a oração do Salmo 122 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) pela paz dentro dos seus muros (Sl 122.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E a fartura: Deus a sacia com ḥelev ḥittim, literalmente a gordura do trigo, isto é, a flor do trigo, o melhor da colheita, expressão que aparece na promessa do Salmo 81 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e no cântico de Moisés (Sl 81.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 32.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Para quem voltou do exílio a uma terra empobrecida, assolada pela seca e pela fome, como contam Ageu e Neemias (Ag 1.6, 10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ne 5.1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), esse verso era gratidão e também esperança.
Versículos 15-18 — A palavra que corre veloz e o inverno que obedece
A estrofe mais original do salmo começa com uma imagem de mensageiro. Deus é hashsholeaḥ 'imrato 'arets, aquele que envia a sua ordem à terra, e 'ad-meherah yaruts devaro, a sua palavra corre depressa (v. 15). A palavra é personificada como um corredor real que leva as ordens do soberano às províncias. Não há atraso entre o que Deus decide e o que acontece. Paulo parece ecoar essa imagem quando pede aos tessalonicenses que orem para que a palavra do Senhor corra e seja glorificada (2Ts 3.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O que a palavra faz, neste caso, é o inverno. Deus dá a sheleg, a neve, katstsamer, como lã; espalha a kefor, a geada, ka'efer, como cinza (v. 16). As comparações são visuais e táteis: a neve branca e macia como a lã cardada, a geada fina e cinzenta espalhada sobre o chão como cinza depois do fogo. Ele lança o seu qeraḥ, o gelo, ou o granizo, khefittim, como migalhas, pedaços de pão esfarelados; e pergunta-se quem pode ficar de pé diante do seu frio (v. 17). A palavra pittim, migalhas, é rara, e o sentido exato do verso é discutido; a ideia geral, porém, é clara. Em Jerusalém, a neve é rara mas não desconhecida, e o frio intenso do inverno nas montanhas da Judeia podia ser perigoso para quem não tinha abrigo.
O v. 18 inverte tudo com a mesma palavra: Deus envia a sua davar e os derrete; faz soprar o seu ruaḥ, o vento, e as águas correm. O mesmo comando que congela descongela. O mundo não segue forças autônomas; obedece a uma voz. O livro de Jó usa a mesma linguagem, dizendo que é pelo sopro de Deus que se forma o gelo e que ele ordena à neve que caia sobre a terra (Jó 37.6, 10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E Isaías, numa das passagens mais conhecidas sobre a eficácia da palavra divina, compara-a justamente à chuva e à neve, que descem do céu, regam a terra, a fazem brotar, e não voltam sem ter cumprido o seu propósito (Is 55.10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Muitos comentaristas leem esta estrofe do salmo como uma meditação sobre esse texto. A palavra que governa o inverno é a mesma que faz germinar a promessa.
Versículos 19-20 — A palavra revelada a Jacó
O salmo termina com uma virada que dá sentido a todo o resto. A mesma palavra que corre sobre a terra e derrete o gelo foi maggid, anunciada, declarada, a Jacó; os ḥuqqav, estatutos, e mishpatav, juízos, a Israel (v. 19). A palavra criadora e a palavra da aliança são uma só. O Deus que fala à neve falou a Israel no Sinai, e o falar a Israel é mais extraordinário que o falar à neve, porque a neve obedece sem saber, e Israel recebeu a palavra para conhecê-la, amá-la e guardá-la. O Salmo 19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) tem a mesma estrutura, passando do testemunho silencioso dos céus à lei perfeita que restaura a alma (Sl 19.1-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 20 tira a conclusão: lo' 'asah khen lekhol-goy, ele não fez assim a nenhuma nação, e os seus juízos bal-yeda'um, elas não os conhecem. É o eco direto do discurso de Moisés, que perguntava que grande nação tinha deuses tão próximos e leis tão justas quanto as que Israel recebera (Dt 4.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O verso não é orgulho nacional. É espanto diante de uma graça imerecida, a mesma que Deuteronômio explica dizendo que o Senhor não escolheu Israel por ser o maior dos povos, mas por amor (Dt 7.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas o verso também deixa uma pergunta no ar, que o resto da Escritura responderá: se as nações não conhecem esses juízos, ficarão para sempre de fora? O Salmo 148 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), logo em seguida, chamará os reis da terra e todos os povos a louvar (Sl 148.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e os profetas haviam anunciado o dia em que a lei sairia de Sião para as nações (Is 2.2-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O aleluia final fecha o salmo e abre essa expectativa.
Vista no conjunto, a composição alterna três pares. Na primeira estrofe, a cidade reconstruída e o coração curado (vv. 2-3) se juntam às estrelas contadas (vv. 4-5) e terminam nos humildes sustentados (v. 6). Na segunda, a chuva, o capim e os corvos (vv. 8-9) desembocam no que agrada a Deus (vv. 10-11). Na terceira, a cidade guardada (vv. 13-14) leva à palavra que governa o inverno (vv. 15-18) e culmina na palavra revelada a Israel (vv. 19-20). Cada estrofe começa com o louvor e termina com o povo de Deus. A criação inteira é o cenário; o centro é o relacionamento entre o Senhor e os que esperam nele.
✨ 4. Versículos-Chave
Sl 147.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Deus que cura os corações quebrados é o mesmo que conta as estrelas e as chama pelo nome. A justaposição é uma das grandes consolações da Bíblia. A imensidão de Deus não o torna distante; torna-o capaz de cuidar de cada pessoa. A tradição cristã sempre viu nesses versos o retrato do médico divino, que se cumpre em Jesus, que se comparou ao médico procurado por quem está doente (Mc 2.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Sl 147.10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O que não impressiona e o que agrada a Deus. A força militar, o poder humano, a velocidade e a habilidade não comovem o Senhor; a confiança reverente dos que esperam no seu amor leal, sim. O verso inverte a escala de valores de todas as culturas que admiram os fortes. Paulo dirá que Deus escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes (1Co 1.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Sl 147.15-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A palavra que corre veloz e governa a criação. O trecho apresenta a palavra de Deus como agente ativo que cumpre a sua missão. O Novo Testamento leva essa teologia da palavra ao seu ápice ao apresentar Cristo como a Palavra por meio da qual tudo foi feito (Jo 1.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e como aquele que mantém o universo de pé com a força da sua própria palavra (Hb 1.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Sl 147.19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A palavra revelada a Israel e o privilégio da revelação. Paulo reconhece esse privilégio quando diz que a vantagem primeira dos judeus é terem recebido em custódia as palavras de Deus (Rm 3.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e quando enumera o que lhes pertence, as alianças, a lei, o culto, as promessas e, segundo a carne, o próprio Cristo (Rm 9.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O mesmo Paulo anuncia que, em Cristo, os que estavam longe e eram estrangeiros às alianças foram aproximados (Ef 2.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
⛪ 5. Temas Teológicos Centrais
A grandeza que se inclina. O tema mais característico do salmo é a união da transcendência e da proximidade de Deus. Ele conta as estrelas e cura os corações; derrete o gelo e alimenta os filhotes do corvo. A Bíblia não conhece um Deus tão grande que se torne indiferente, nem tão próximo que deixe de ser Deus. Isaías o diz ao apresentar o Deus exaltado, cuja morada é a eternidade e o lugar santo, e que mesmo assim faz companhia aos esmagados e aos humildes para lhes reanimar o espírito (Is 57.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em Cristo, essa união se torna pessoa: o Filho, por meio de quem tudo foi feito, tomou carne e tocou leprosos.
Criação e redenção, uma só obra. O salmo alterna a obra de Deus na natureza e a obra de Deus em Jerusalém sem marcar fronteira entre elas. O Deus que manda a chuva é o que reúne os exilados; o Deus que fala à neve é o que falou no Sinai. A teologia bíblica não separa o Criador do Redentor. Por isso o Novo Testamento pode dizer que Cristo é ao mesmo tempo aquele em quem tudo foi criado e aquele por meio de quem tudo é reconciliado (Cl 1.16-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Paulo pode descrever a salvação como nova criação (2Co 5.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A eficácia da palavra de Deus. Os vv. 15-19 apresentam a palavra como mensageiro veloz, agente que congela e degela, e conteúdo revelado a Israel. A Bíblia inteira atesta que Deus cria pela palavra (Gn 1.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 33.6, 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), que a sua palavra cumpre aquilo para que é enviada (Is 55.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que ela tem vida e poder para penetrar até o íntimo (Hb 4.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O ápice é a encarnação: a Palavra pela qual Deus fez o mundo e falou a Israel tornou-se humana e passou a viver entre os homens (Jo 1.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O privilégio da eleição e a sua finalidade. O salmo termina com a singularidade de Israel, que recebeu a palavra. A eleição é graça, não mérito, e também é vocação: Israel recebeu a luz para ser luz das nações (Is 49.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Novo Testamento vê essa vocação cumprida em Cristo, o israelita fiel, e estendida à Igreja, formada de judeus e gentios, que agora proclama os feitos do Deus que a tirou da escuridão para a sua luz (1Pe 2.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo
6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?
O Salmo 147 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é um canto da Redenção em andamento no seu momento de reconstrução. Ele pressupõe a Queda e o juízo: a cidade foi destruída, o povo disperso, os corações estão quebrados. Celebra a restauração que começou, os muros reerguidos e os exilados de volta. Mas a restauração é parcial: o v. 2 fala de uma obra em andamento, e o v. 20 lembra que as nações ainda não conhecem a palavra. A Redenção consumada chega em Cristo, que reúne os dispersos de Deus, cura os quebrantados e leva a palavra às nações. E a Nova Criação é a cidade definitiva, a nova Jerusalém que desce do céu, com portas que nunca se fecham e as nações caminhando à sua luz (Ap 21.2, 24-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O construtor de Jerusalém do v. 2 completará a sua obra.
6.2 — O construtor que reúne os dispersos
O v. 2 apresenta o Senhor como construtor de Jerusalém e reunidor dos dispersos de Israel, e a passagem de Isaías que ele ecoa promete que o Senhor reunirá ainda outros além dos já reunidos (Is 56.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Novo Testamento vê essa promessa cumprida em Jesus em dois sentidos. João interpreta a morte de Jesus como o meio pelo qual Deus reuniria num só povo os seus filhos espalhados, não apenas da nação judaica (Jo 11.51-52 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); e Jesus mesmo diz que tem ovelhas fora do curral de Israel, que também precisa trazer, para que todas formem um único rebanho sob o mesmo pastor (Jo 10.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
E o construtor é ele. Jesus anuncia que edificará a sua igreja (Mt 16.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o Novo Testamento descreve essa igreja como templo e cidade de Deus, construída com pedras vivas sobre o fundamento que é Cristo (Ef 2.19-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Pe 2.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Hebreus diz que Abraão aguardava uma cidade de alicerces firmes, planejada e construída pelo próprio Deus (Hb 11.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); e diz que os cristãos já chegaram ao monte Sião, à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial (Hb 12.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A reconstrução cantada no salmo foi uma etapa real e necessária; a cidade que Deus estava edificando era maior que os muros de Neemias.
6.3 — O médico dos corações quebrados
O v. 3 tem uma correspondência particularmente forte com o ministério de Jesus, pela mediação de Isaías. O ungido de Is 61.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é enviado a atar os corações quebrados, com o mesmo verbo do salmo. Na sinagoga de Nazaré, Jesus lê esse texto e declara que ele se cumpre naquele dia (Lc 4.16-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); parte dos manuscritos de Lucas conserva na leitura justamente a linha sobre a cura dos quebrantados de coração. Com ou sem ela, a missão anunciada é a de Isaías, e Isaías está retomando a obra que o salmo atribui ao Senhor.
Os evangelhos mostram Jesus como o médico que vai ao encontro dos doentes (Mc 2.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), que se compadece das multidões exaustas e desamparadas como um rebanho largado (Mt 9.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), que chama os exaustos e os que carregam fardos pesados a descansar junto dele (Mt 11.28-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Lucas conta a história do samaritano que se aproxima do ferido à beira do caminho, trata as suas feridas e as enfaixa (Lc 10.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a tradição cristã, desde os primeiros séculos, viu no samaritano uma figura do próprio Cristo. A aplicação é uma leitura da Igreja, não o sentido primeiro da parábola, mas o gesto é exatamente o do v. 3.
E a ligação com o v. 4 se mantém em Jesus. O pastor que conhece as suas ovelhas e as chama pelo nome (Jo 10.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) é aquele por meio de quem foram criadas as estrelas que o salmo diz serem chamadas por nome (Jo 1.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Cl 1.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não é preciso forçar a tipologia; basta ver que a combinação do salmo, a grandeza cósmica que se inclina para o ferido, encontra em Cristo a sua forma mais concreta. Quem conhece pelo nome as estrelas conhece pelo nome Maria Madalena chorando no jardim, e basta-lhe dizer o nome dela para que o reconheça (Jo 20.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
6.4 — A Palavra que corre e a Palavra que se tornou humana
A estrofe dos vv. 15-20 é o ponto em que a leitura cristocêntrica tem mais fundamento. O salmo apresenta a palavra de Deus como algo quase pessoal: é enviada, corre, derrete o gelo, é anunciada a Jacó. O prólogo do evangelho de João retoma essa linha do Antigo Testamento, a palavra criadora de Gênesis 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e dos salmos (Sl 33.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a palavra enviada de Isaías (Is 55.10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e afirma que essa Palavra existia junto de Deus desde o princípio, sendo ela mesma divina, que por meio dela tudo veio a existir, e que ela assumiu a condição humana e montou a sua tenda no meio do povo (Jo 1.1-3, 14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 18 tem um detalhe que o leitor cristão não deixa passar: Deus envia a palavra, e faz soprar o seu ruaḥ, vento, sopro, espírito. A palavra e o sopro agem juntos, como na criação (Gn 1.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e no Salmo 33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em que os céus são feitos pela palavra e o seu exército pelo sopro da boca do Senhor (Sl 33.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No salmo, ruaḥ é o vento quente que derrete a neve; mas a teologia bíblica, que vê o Filho e o Espírito juntos na obra de Deus, encontra aqui uma sombra daquilo que o Novo Testamento revela plenamente. Os evangelhos contam que o próprio Jesus repreendeu o vento e o mar, e os discípulos, cheios de temor, perguntaram quem era aquele a quem o vento e as ondas obedecem (Mc 4.39-41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmo já havia respondido: é aquele cuja palavra o inverno obedece.
Os vv. 19-20, enfim, falam da palavra revelada só a Israel. Em Cristo, essa palavra se torna universal sem deixar de ser a palavra de Israel. A Palavra que se tornou humana veio ao seu próprio povo e foi recusada por muitos, mas quem a acolheu, de qualquer origem, recebeu de Deus a condição de filho (Jo 1.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Depois da ressurreição, Jesus envia os discípulos a todos os povos, para batizá-los e ensiná-los a obedecer ao que ele havia mandado (Mt 28.19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O v. 20 dizia que as nações não conhecem os juízos de Deus; o evangelho os leva até elas. Paulo, que pediu orações para que a palavra corresse (2Ts 3.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), dedicou a vida a fazê-la chegar aos gentios. A palavra que corria veloz sobre a terra para trazer o inverno agora corre para trazer o evangelho.
6.5 — O Evangelho no capítulo
O Salmo 147 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) pode ser pregado como a história de uma reconstrução.
A cidade estava em ruínas, o povo espalhado, os corações em pedaços. É o retrato da condição humana depois do pecado: vidas desmoronadas, relações quebradas, gente longe de casa e longe de Deus. Nenhuma força de cavalo nem pernas de guerreiro reconstroem isso.
Mas há um construtor. O Deus que conta as estrelas desceu em Cristo para reunir os dispersos e enfaixar os feridos. Para isso, ele mesmo foi ferido, e as feridas dele se tornaram a nossa cura (Is 53.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Pe 2.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Palavra que governa a neve e o gelo veio habitar entre nós, foi rejeitada e morta, e ressuscitou. Agora ela corre pelo mundo, levando a todas as nações o que antes era conhecido só por Israel.
A boa-nova é que o que agrada a Deus não é a força, mas a esperança posta no seu amor leal (v. 11). Ninguém precisa reconstruir a si mesmo antes de se aproximar. Basta ser um dos humildes do v. 6, um dos quebrantados do v. 3, e confiar no Cristo que cura. Ele está edificando uma cidade, e há lugar nela para quem estava longe.
🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)
- Is 40.26-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 55.10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 56.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 61.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a linguagem da consolação de Isaías: as estrelas chamadas pelo nome, o entendimento insondável, a palavra que não volta vazia, os dispersos reunidos, os corações quebrados enfaixados.
- Jó 37.6-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jó 38.22-30, 41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 104.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus senhor da neve, do gelo, da chuva e do alimento dos animais, inclusive dos filhotes do corvo.
- Ne 3.1-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ne 12.27-43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a reconstrução das portas e dos muros de Jerusalém e a sua dedicação com cânticos, provável pano de fundo do salmo.
- Sl 20.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 33.16-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 17.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 31.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a recusa da confiança na força militar.
- Dt 4.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 7.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 19.7-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Rm 3.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Rm 9.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o privilégio de Israel como receptor da palavra e da lei, e a graça imerecida da eleição.
- Lc 4.16-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 2.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 11.28-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 12.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus, o médico dos quebrantados, que manda olhar para os corvos alimentados por Deus.
- Jo 1.1-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 1.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 4.39-41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Cristo como a Palavra criadora que sustenta e governa a criação.
- Jo 10.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 11.51-52 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 16.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ef 2.12-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Cristo que reúne os dispersos, edifica a sua igreja e aproxima os que estavam longe.
- 2Ts 3.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 28.19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a palavra que corre agora entre as nações.
- Ap 21.2, 24-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a nova Jerusalém, construção final de Deus, aberta às nações.
- Na história da Igreja, a terceira estrofe, cantada como salmo à parte desde a antiga tradução grega, tornou-se o Lauda Jerusalem das vésperas, e na sinagoga o salmo continua entre os versos de louvor da oração da manhã.
🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico
Leve as suas feridas ao Deus das estrelas. Muita gente imagina que Deus é grande demais para se importar com uma tristeza pessoal. O salmo diz o contrário: a grandeza dele é a garantia do seu cuidado. Em Cristo, o Deus que nomeia as estrelas aproximou-se dos feridos e os tocou. Quem tem o coração quebrado, por luto, traição, culpa ou desilusão, pode trazê-lo a ele sem medo de ser desprezado (Sl 51.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Desconfie da sedução da força. O v. 10 desafia uma cultura que idolatra desempenho, juventude, produtividade e poder. Deus não se impressiona com nada disso. O que lhe agrada é a esperança humilde no seu amor leal. Para o cristão, isso significa que o seu valor diante de Deus não depende do quanto produz, mas do Cristo em quem confia. E significa também que a igreja não deve medir as pessoas pela força que têm.
Aprenda a ver a criação como obediente à palavra. A chuva, a neve, o capim e o alimento dos animais não são acidentes nem forças autônomas; são obra da palavra de Deus. Isso não dispensa a ciência, que estuda os meios, mas lembra a quem eles obedecem. E convida à gratidão, mencionada no v. 7, por cada dádiva da criação, e ao cuidado responsável com ela, porque o mundo pertence ao Senhor e é sustentado por Cristo (Cl 1.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Valorize a palavra que você recebeu. Os vv. 19-20 lembram que conhecer a palavra de Deus é um privilégio. Quem tem acesso às Escrituras, numa língua que entende, recebeu algo que muitos povos ainda não receberam. A resposta adequada é ler, meditar, obedecer e partilhar, participando da corrida da palavra até os que ainda não a conhecem.
Ore pela cidade. O salmo canta a paz nas fronteiras e a fartura de Jerusalém. O povo de Deus é chamado a buscar o bem da cidade onde vive (Jr 29.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O cristão que espera a nova Jerusalém não despreza a cidade presente; ora por ela e trabalha para que haja nela paz, pão e crianças abençoadas.
🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo
- O v. 1 diz que o louvor é bom, agradável e conveniente. Em que sentido louvar a Deus faz bem a quem louva? Você tem experimentado isso?
- O salmo põe lado a lado o Deus que cura os corações quebrados e o Deus que conta as estrelas (vv. 3-4). Como essa combinação muda a maneira de você pensar sobre a sua própria dor?
- O v. 10 diz que Deus não se agrada da força do cavalo nem das pernas do homem. Em que tipos de força a nossa cultura, e talvez a sua igreja, tem confiado?
- Compare os vv. 15-18 com Is 55.10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Jo 1.1-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O que significa dizer que Cristo é a Palavra de Deus? Como isso afeta a sua leitura da Bíblia?
- Os vv. 19-20 falam do privilégio de Israel. Como Rm 9.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Ef 2.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ajudam a entender esse privilégio e a sua extensão às nações em Cristo?
- Para meditação e oração: numa noite de céu aberto, ou lembrando-se de uma, pense que o Deus que deu nome a cada estrela sabe o seu nome. Traga a ele a ferida que mais o incomoda e peça que a enfaixe; depois, agradeça pela palavra que você recebeu e ore por alguém que ainda não a conhece.
📚 10. Para Aprofundamento
Cristocêntrica / Teologia Bíblica:
- Sidney Greidanus — Preaching Christ from the Old Testament (Eerdmans, 1999)
- Christopher J. H. Wright — Conhecendo Jesus através do Antigo Testamento (Ultimato) / Knowing Jesus Through the Old Testament (IVP, 1992)
- Dietrich Bonhoeffer — Das Gebetbuch der Bibel (1940), sobre os salmos como oração de Cristo com a Igreja
- C. S. Lewis — Reflexões sobre os Salmos (várias edições em português) / Reflections on the Psalms (1958), sobre o louvor que completa a alegria
- Walter Brueggemann — The Message of the Psalms (Augsburg, 1984)
Comentários dos Salmos:
- Derek Kidner — Salmos 73–150 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
- Leslie C. Allen — Psalms 101–150 (Word Biblical Commentary, 1983; edição revista, 2002)
- Nancy deClaissé-Walford, Rolf A. Jacobson e Beth LaNeel Tanner — The Book of Psalms (NICOT, Eerdmans, 2014)
- Frank-Lothar Hossfeld e Erich Zenger — Psalms 3: A Commentary on Psalms 101–150 (Hermeneia, Fortress, 2011)
- James L. Mays — Psalms (Interpretation, John Knox, 1994)
- João Calvino — O Livro dos Salmos (Edições Paracletos, 4 volumes)
- Agostinho — Comentário aos Salmos (Paulus, coleção Patrística)
Sabedoria para o Cotidiano
O Deus que chama cada estrela pelo nome também enfaixa os corações quebrados; a grandeza dele não o afasta da sua dor, é a razão de ele poder cuidar dela. Não ponha a confiança na força, na velocidade ou no desempenho, que não impressionam o Senhor, mas na esperança humilde no seu amor leal, que lhe agrada. E quando o inverno da vida parecer longo, lembre-se de que a mesma Palavra que manda a neve manda o degelo: em Cristo, essa Palavra veio até você, e ela não volta vazia.
Ficou com alguma dúvida sobre este capítulo?
Pergunte ao Farol