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Salmos · 19 de 66 · Antigo Testamento

Salmos — Capítulo 148

Infográfico de “Salmos 148 — Capítulo a capítulo”, gerado automaticamente a partir do estudo publicado, com 5 partes: O coro das alturas; O decreto que funda o louvor do céu; Do fundo do mar aos pássaros do céu; Reis e crianças na mesma assembleia; O nome exaltado e o povo que Deus aproximou.

Título do capítulo: Dos céus aos abismos, um só coro
Gênero literário: Poesia/Salmo (hino de louvor universal em duas metades simétricas, uma convocação dos céus e outra da terra, cada uma fechada por um motivo introduzido por "porque"; o terceiro salmo do Hallel final, Sl 146–150 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), todos abertos e fechados com aleluia)
Número de versículos: 14

Nota de precisão: a numeração segue a tradição das Bíblias em português. O salmo não tem inscrição; o aleluia de abertura faz parte do v. 1, e os números do hebraico impresso coincidem com os nossos. Na antiga tradução grega, que dividiu o Salmo 147 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) em dois, a numeração volta a coincidir com a nossa justamente aqui; vários manuscritos dessa tradução repetem neste salmo a nota tardia que o liga a Ageu e Zacarias. O v. 6 tem uma ambiguidade real (se é o decreto de Deus que não passa ou se são as criaturas que não o transgridem), e o "chifre" do v. 14 admite mais de uma leitura; as duas questões são tratadas no lugar próprio. O "Cântico das Criaturas" de Francisco de Assis é apresentado como eco posterior do salmo na história da Igreja, não como chave de interpretação do texto.


🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural

O Salmo 148 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o terceiro e o mais amplo dos cinco salmos que encerram o Saltério. O Hallel final, como os estudiosos costumam chamar o grupo dos Salmos 146 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) a 150, tem uma marca formal que não deixa dúvida sobre a sua unidade: cada um começa e termina com halelu-Yah, o imperativo plural de louvar seguido da forma breve do nome divino. A moldura, repetida cinco vezes, faz do conjunto uma doxologia final para todo o livro, que cumpre a promessa feita no fim do Salmo 145 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) de que toda criatura bendiria o nome santo do Senhor (Sl 145.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Dentro do grupo, há um movimento que se percebe ao ler os salmos em sequência. O Salmo 146 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) começa com uma alma que manda a si mesma louvar; o Salmo 147 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) chama Jerusalém; o Salmo 148 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) abre o círculo até o limite do universo, dos anjos aos abismos do mar, das estrelas às crianças; o Salmo 149 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) volta à assembleia dos fiéis; o Salmo 150 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) termina com tudo o que respira. O Salmo 148 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o ponto mais largo desse movimento, o momento em que o Saltério chama o cosmo inteiro ao culto.

O salmo não traz autor nem ocasião. A maioria dos comentaristas o situa, como os vizinhos, no período depois do exílio, sobretudo pela linguagem do v. 14, que fala de um povo que Deus voltou a erguer. Mas o salmo é tão universal que quase não deixa marcas de época, e a datação não altera a sua leitura.

O que se pode afirmar com segurança é o seu parentesco com Gênesis 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). A sequência das criaturas segue, de modo livre, a ordem da criação: as águas acima do firmamento (Gn 1.6-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o sol, a lua e as estrelas (Gn 1.14-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), os grandes monstros marinhos e os abismos (Gn 1.2, 21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), as plantas e as árvores frutíferas (Gn 1.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), os animais selvagens, os domésticos, os que rastejam e as aves (Gn 1.20-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e por fim os seres humanos (Gn 1.26-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Até o vocabulário é o mesmo em vários pontos: tanninim, os grandes animais do mar; tehomot, os abismos; remes, os que rastejam. O salmo é Gênesis 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) transformado em convocação: as criaturas que Deus chamou à existência pela palavra são agora chamadas a responder a essa palavra com louvor. E o v. 5 o diz expressamente: ele ordenou, e elas foram criadas.

Há também paralelos com a literatura do antigo Oriente Próximo. Os estudiosos conhecem listas egípcias de fenômenos naturais, compostas como inventários do mundo, e hinos em que os seres da natureza celebram uma divindade. O Salmo 148 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) compartilha a forma de lista, mas o seu conteúdo é polêmico. Sol, lua e estrelas, que os vizinhos de Israel adoravam e que Deuteronômio proíbe expressamente de adorar (Dt 4.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), aparecem aqui como adoradores, não como adorados. Os monstros marinhos e os abismos, que em muitos mitos antigos eram as forças do caos que os deuses precisavam vencer, são convocados ao lado do capim e das aves. Nada no universo é divino, exceto o Senhor; tudo o mais é criatura e deve louvar.

O salmo tem uma longa história no culto. Na liturgia judaica, está entre os versos de louvor da oração da manhã. Na Igreja antiga e medieval, os Salmos 148 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) a 150 eram cantados juntos ao amanhecer, e segundo a explicação mais difundida foi a palavra latina com que este salmo começa, Laudate, que deu nome ao ofício das laudes; a Regra de São Bento, no século VI, prevê esse costume. Há ainda um parente próximo do salmo nas Escrituras gregas: o cântico dos três jovens na fornalha, que as Bíblias católicas e ortodoxas trazem entre as partes gregas de Daniel, no capítulo 3, e que convoca anjos, astros, chuvas, ventos, montes, mares, animais e homens a bendizer o Senhor, numa ladainha muito semelhante à do salmo. A tradição cristã o cantou, com o nome latino de Benedicite, também nas laudes.


📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo

Depois do aleluia, o salmo convoca os céus: que louvem o Senhor a partir das alturas (v. 1). Os primeiros chamados são os anjos e todos os exércitos celestes (v. 2); depois o sol, a lua e todas as estrelas luminosas (v. 3); depois os céus mais altos e as águas que estão acima do firmamento (v. 4).

O motivo do louvor celeste vem em seguida: que louvem o nome do Senhor, porque ele deu a ordem e eles foram criados (v. 5). Ele os firmou para sempre e estabeleceu uma ordem que não será ultrapassada (v. 6).

Começa então a segunda metade, que convoca a terra: que louvem o Senhor desde a terra os grandes animais do mar e todos os abismos (v. 7), o fogo e o granizo, a neve e a neblina, o vento tempestuoso que cumpre a sua palavra (v. 8), os montes e todas as colinas, as árvores de fruto e todos os cedros (v. 9), os animais selvagens e todo o gado, os que rastejam e as aves que voam (v. 10).

Depois vêm os seres humanos, numa lista que abarca todas as posições e idades: os reis da terra e todos os povos, os príncipes e todos os juízes da terra (v. 11), os moços e também as moças, os velhos junto com as crianças (v. 12).

O motivo do louvor terrestre ecoa o celeste: que louvem o nome do Senhor, porque só o seu nome é exaltado, e a sua majestade está acima da terra e dos céus (v. 13). E o salmo termina com a razão particular de Israel: Deus levantou um chifre para o seu povo, motivo de louvor para todos os seus fiéis, os filhos de Israel, o povo que lhe é próximo. O aleluia fecha o salmo (v. 14).


🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)

Versículos 1-4 — O coro das alturas
O salmo abre com uma cascata de imperativos. O verbo hallelu, louvai, aparece oito vezes nos quatro primeiros versos, quase sempre no início do verso, como uma batida de tambor. O primeiro destinatário é um lugar: min-hashshamayim, desde os céus, e bammeromim, nas alturas. O louvor começa onde Deus habita e desce, nos versos seguintes, até os abismos.

No v. 2 aparecem os primeiros cantores pessoais: kol-mal'akhav, todos os seus anjos, e kol-tseva'av, todos os seus exércitos. Os anjos são, literalmente, mensageiros; os exércitos são as hostes celestes que acompanham o Senhor dos Exércitos. Em alguns textos, a palavra designa os astros, e em outros, os seres angélicos, e talvez o salmo não queira separar as duas coisas. O Salmo 103 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) já chamava os anjos, poderosos em força, que cumprem a palavra de Deus, e os seus exércitos, que fazem a sua vontade, a bendizer o Senhor (Sl 103.20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Isaías viu os serafins proclamando a santidade de Deus uns aos outros (Is 6.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o livro de Jó fala das estrelas da manhã cantando juntas e dos filhos de Deus gritando de alegria quando Deus lançou os fundamentos da terra (Jó 38.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O louvor dos anjos é anterior ao dos homens.

O v. 3 chama os luminares: shemesh, o sol, yareaḥ, a lua, e kol-kokhvei 'or, todas as estrelas de luz. Para um leitor israelita, a lista era teologicamente carregada. O sol era adorado no Egito, a lua na Mesopotâmia, e os astros em geral eram vistos como divindades que regiam o destino. Gênesis 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) já os havia rebaixado, recusando-se até a chamá-los pelo nome, chamando-os simplesmente de luzeiro maior e luzeiro menor e dando-lhes a função humilde de marcar o tempo (Gn 1.14-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmo vai um passo além: os astros não apenas servem, eles adoram. O que os vizinhos de Israel cultuavam está aqui de joelhos diante do Senhor.

O v. 4 chama os shemei hashshamayim, os céus dos céus, a forma hebraica do superlativo, os céus mais altos, e hammayim 'asher me'al hashshamayim, as águas que estão acima dos céus. A expressão vem diretamente de Gênesis 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que descreve o firmamento separando as águas de baixo das águas de cima (Gn 1.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmo usa a cosmologia do seu tempo, que imaginava um reservatório celeste acima da abóbada do céu, de onde descia a chuva. A teologia não depende dessa imagem do mundo: o que o verso diz é que até as regiões mais remotas e inacessíveis do universo pertencem ao Senhor e devem louvá-lo.

Versículos 5-6 — O decreto que funda o louvor do céu
A primeira metade do salmo se fecha com um motivo, introduzido pela partícula ki, porque. As criaturas celestes devem louvar o shem, o nome, do Senhor, ki hu' tsivvah venivra'u, porque ele ordenou e elas foram criadas (v. 5). O verbo bara', criar, é o mesmo de Gn 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e, no Antigo Testamento, tem sempre Deus como sujeito. A frase é de uma economia notável: a ordem e a existência são um único acontecimento. O Salmo 33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) diz o mesmo com outras palavras, afirmando que os céus foram feitos pela palavra do Senhor e que ele falou e tudo veio a ser (Sl 33.6, 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O louvor das criaturas não é um favor que elas prestam a Deus; é o reconhecimento da sua origem. Elas existem porque ele falou.

O v. 6 acrescenta a permanência: Deus vayya'amidem, os fez estar de pé, os estabeleceu, la'ad le'olam, para sempre e sempre; deu ḥoq, um decreto, uma lei, velo' ya'avor. Esta última expressão é ambígua no hebraico. Pode significar que o decreto não passará, que é permanente e não será revogado, ou que as criaturas não o transgredirão, que não ultrapassarão o limite que Deus lhes fixou. As duas leituras são gramaticalmente possíveis, e muitos comentaristas acham que ambas estão presentes. Jeremias usa a mesma ideia ao comparar a fidelidade de Deus a Israel à firmeza das leis que regem o sol, a lua e as estrelas (Jr 31.35-36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 33.25-26), e Jó fala do limite imposto ao mar, que não pode passar dali (Jó 38.8-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A ordem do cosmo é expressão da fidelidade do Criador. Os astros louvam a Deus sendo fiéis ao seu decreto, percorrendo o caminho que ele lhes traçou.

Versículos 7-10 — Do fundo do mar aos pássaros do céu
A segunda metade começa com um imperativo único, hallelu 'et-YHWH min-ha'arets, louvai o Senhor desde a terra, seguido de uma longa lista de vocativos, sem repetição do verbo. O ritmo muda: na primeira parte, o verbo martelava; agora, as criaturas desfilam em pares e grupos, como numa procissão.

Os primeiros chamados da terra são os mais inesperados: os tanninim, os grandes animais marinhos, e kol-tehomot, todos os abismos (v. 7). Em vários textos bíblicos, os tanninim e o tehom evocam o caos primordial e as forças hostis que Deus domina (Is 27.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 51.9; Sl 74.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em Gênesis 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), porém, os tanninim são simplesmente criaturas que Deus fez e abençoou (Gn 1.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmo segue Gênesis: não há nenhum monstro no universo que esteja fora do alcance do Criador. O Salmo 104 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) diz, com humor, que o leviatã foi formado para brincar no mar (Sl 104.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que os antigos temiam como inimigo de Deus é, para o salmista, mais um cantor no coro.

O v. 8 convoca os fenômenos do tempo: 'esh, o fogo, provavelmente o relâmpago; barad, o granizo; sheleg, a neve; qitor, palavra que designa fumaça ou vapor, aqui provavelmente a neblina ou a névoa; e ruaḥ se'arah, o vento tempestuoso, 'osah devaro, que cumpre a sua palavra. Este último particípio é a chave da lista inteira. As forças da natureza que parecem as mais violentas e imprevisíveis, o raio, o granizo, o furacão, são obedientes. O Salmo 147 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) acabara de dizer que a neve, a geada e o gelo vêm pela palavra de Deus, e que basta ele mandar a palavra para que tudo derreta (Sl 147.15-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que as criaturas inanimadas fazem para louvar é exatamente isto: cumprir a palavra.

O v. 9 chama a paisagem: heharim, os montes, e kol-geva'ot, todas as colinas; 'ets peri, a árvore de fruto, e kol-'arazim, todos os cedros. A lista combina o útil e o majestoso: a árvore que alimenta e o cedro do Líbano, a mais nobre das árvores, que o Salmo 104 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) chama de árvores do Senhor, que ele mesmo plantou (Sl 104.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os profetas haviam imaginado os montes e as colinas irrompendo em cânticos e as árvores do campo batendo palmas na volta dos exilados (Is 55.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O v. 10 completa o mundo animal: haḥayyah, os animais selvagens, e kol-behemah, todo o gado; remes, os que rastejam, e tsippor kanaf, a ave de asa. São as categorias de Gênesis 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e da aliança com Noé (Gn 9.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), que inclui todos os seres vivos.

Versículos 11-12 — Reis e crianças na mesma assembleia
Só agora entram os seres humanos, e a ordem é significativa: depois dos animais, como em Gênesis 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e convocados com o mesmo verbo que convocou o granizo e os cedros. O ser humano não louva de um lugar à parte, mas como membro de uma comunidade da criação.

O v. 11 começa pelo topo da hierarquia social: malkhei-'erets, os reis da terra, e kol-le'ummim, todos os povos; sarim, os príncipes, e kol-shofetei 'arets, todos os juízes ou governantes da terra. Não se trata apenas de Israel. Os reis e os povos das nações, que no Salmo 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) conspiravam contra o Senhor e o seu ungido (Sl 2.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), são aqui chamados a louvá-lo. Os poderosos que o Salmo 146 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) dizia que não salvam (Sl 146.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) não são excluídos; são convidados a reconhecer que há um nome acima do deles.

O v. 12 nivela tudo. Baḥurim, os moços, vegam-betulot, e também as moças; zeqenim 'im-ne'arim, os velhos junto com os meninos. As duas partículas, gam, também, e 'im, com, juntam os pares: homens e mulheres, velhos e crianças. Os reis do v. 11 não têm precedência sobre as crianças do v. 12. A lista humana cobre os dois sexos, todas as idades e todas as classes sociais. No coro do Criador, ninguém é velho demais, jovem demais ou importante demais.

Versículos 13-14 — O nome exaltado e o povo que Deus aproximou
O motivo do louvor terrestre ecoa o do celeste (v. 5), com a mesma fórmula: louvem o nome do Senhor, ki-nisgav shemo levaddo, porque só o seu nome é exaltado, elevado, inacessível. O levaddo, só ele, é o centro teológico do salmo. Se o sol, a lua, os reis e os monstros marinhos louvam, nenhum deles é Deus. Há um só nome acima de todos. E o seu hod, a sua majestade, o esplendor da sua realeza, está 'al-'erets veshamayim, sobre a terra e os céus. A ordem é curiosa: terra antes de céus, invertendo a sequência do salmo, como se o poeta quisesse dizer que o salmo terminou de percorrer o mundo e agora o vê inteiro debaixo da glória de Deus.

O v. 14 surpreende. Depois de chamar o universo inteiro, o salmo termina num ponto particular: vayyarem qeren le'ammo, e ele levantou um chifre para o seu povo. O chifre, na Bíblia, é símbolo de força, de dignidade, de vitória; a imagem vem do touro ou do carneiro que ergue a cabeça. Levantar o chifre de alguém é restaurar a sua honra e o seu vigor (1Sm 2.1, 10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 89.17, 24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 92.10). No contexto do pós-exílio, a frase celebra a restauração de Israel depois da humilhação. Há quem leia o chifre como um rei, um líder davídico, à luz do Salmo 132 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em que Deus promete fazer brotar um chifre para Davi (Sl 132.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); a maioria dos comentaristas prefere ver aqui a força do povo restaurado, sem uma referência messiânica direta. A leitura cristã voltará a esse ponto.

O verso continua com uma frase difícil: tehillah lekhol-ḥasidav, louvor para todos os seus fiéis. Pode significar que o chifre levantado é motivo de louvor para os fiéis, ou que Deus é o louvor deles, ou que o próprio povo restaurado é motivo de glória. A palavra ḥasidim, os fiéis, os que vivem no ḥesed da aliança, prepara o Salmo 149 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que começa e termina falando deles (Sl 149.1, 5, 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A última expressão é das mais tocantes do Saltério: livnei Yisra'el 'am qerovo, os filhos de Israel, o povo próximo dele. O Deus cujo nome está acima dos céus e da terra tem um povo que lhe é próximo. Deuteronômio já se maravilhava com isso, perguntando que nação tinha os seus deuses tão perto de si como Israel tinha o Senhor (Dt 4.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmo começa nos céus mais altos e termina na proximidade de Deus com o seu povo. A transcendência do v. 13 e a proximidade do v. 14 são as duas faces do mesmo Deus. O aleluia final devolve a palavra a esse povo, para que ele cante em nome de toda a criação.

A estrutura do salmo é bem equilibrada. A primeira metade (vv. 1-6) convoca o céu e termina com o motivo do v. 5; a segunda (vv. 7-14) convoca a terra e termina com o motivo do v. 13, ao qual se acrescenta o motivo particular de Israel, no v. 14. A poética se apoia na enumeração e no paralelismo de pares (sol e lua, fogo e granizo, montes e colinas, reis e povos, moços e moças, velhos e crianças), em que quase sempre o segundo membro amplia o primeiro com um kol, todos. O efeito é de uma totalidade que não deixa ninguém de fora.


✨ 4. Versículos-Chave

Sl 148.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A razão do louvor da criação: Deus ordenou, e as coisas vieram a existir. O verso resume a doutrina bíblica da criação pela palavra. O Novo Testamento a retoma ao dizer que é pela fé que se entende a origem do universo na palavra de Deus, e não em coisas já existentes e visíveis (Hb 11.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e ao apresentar Cristo como a Palavra que esteve na origem de tudo (Jo 1.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As criaturas louvam porque devem a ele a existência; e devem a existência à Palavra que é o Filho.

Sl 148.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A convocação de toda a humanidade, sem distinção de classe, sexo ou idade. Os reis e as crianças estão na mesma lista. O Novo Testamento mostra o cumprimento desse chamado: os magos do Oriente se prostram diante do menino (Mt 2.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), as crianças aclamam Jesus no templo (Mt 21.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Paulo vê no louvor dos gentios o cumprimento dos salmos que chamavam as nações (Rm 15.9-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Sl 148.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Só o nome do Senhor é exaltado. O verso afirma a exclusividade de Deus diante de toda a criação. Paulo, retomando Isaías, diz que Deus deu a Jesus o nome mais alto que existe, diante do qual todos os seres, do céu ao mundo dos mortos, terão de se ajoelhar (Fp 2.9-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mostrando que o louvor universal do salmo converge para Cristo.

Sl 148.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O chifre levantado e o povo próximo de Deus. O verso termina o salmo com a restauração de Israel e a proximidade de Deus com o seu povo. Zacarias, pai de João Batista, usa a mesma imagem do chifre para bendizer a Deus pela salvação que surgia da família de Davi (Lc 1.68-69 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Paulo diz que os gentios, antes distantes, foram trazidos para perto por meio da morte de Cristo (Ef 2.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).


⛪ 5. Temas Teológicos Centrais

A criação como comunidade de louvor. O salmo apresenta o universo como um grande coro em que cada criatura tem o seu lugar. Os astros louvam brilhando, o granizo cumprindo a palavra, o cedro crescendo, o pássaro voando; os seres humanos, com a voz e a consciência. O louvor não é uma atividade especial que se acrescenta à existência; é a própria existência vivida em relação ao Criador. O Salmo 19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) já dizia que os céus proclamam a glória de Deus sem palavras (Sl 19.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Isso dá à criação uma dignidade própria: cada coisa vale porque glorifica a Deus do seu modo, e não apenas pelo uso que o homem faz dela.

A desmistificação do cosmo. O salmo rebaixa tudo o que as religiões antigas divinizavam: o sol, a lua, as estrelas, o mar, os monstros, os reis. Nada disso é divino; tudo é criatura. A fé bíblica liberta o ser humano do medo dos astros e das forças da natureza, e também do culto aos governantes. Paulo descreve a idolatria como a troca da glória do Deus imortal por figuras de seres que morrem, e como o culto prestado ao que foi feito em vez daquele que o fez (Rm 1.23, 25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 148 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) coloca cada coisa no seu lugar: a criatura louva, só o Senhor é louvado.

O nome único e exaltado. O centro do salmo é o v. 13: só o nome do Senhor é exaltado. Todo o universo é chamado a reconhecer essa exclusividade. O Novo Testamento afirma, com surpresa, que esse nome é dado a Jesus, o Cristo crucificado e exaltado, de modo que o louvor universal ao Senhor se torna louvor ao Pai por meio do Filho (Fp 2.9-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A proximidade de Deus com o seu povo. O salmo termina com um povo próximo de Deus. A grandeza cósmica do Senhor não o impede de ter um povo particular. Essa proximidade, que na antiga aliança era de Israel, é estendida em Cristo a todos os que creem, judeus e gentios, que agora, pelo mesmo Espírito, podem chegar até o Pai (Ef 2.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).


✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo

6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?

O Salmo 148 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) olha para a Criação de modo explícito: ele percorre a ordem de Gênesis 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e funda o louvor no ato criador (v. 5). Mas o seu horizonte é a Nova Criação. Num mundo marcado pela Queda, em que a criação, presa à inutilidade, sofre e espera como a mulher que vai dar à luz (Rm 8.20-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e em que os reis da terra conspiram contra Deus (Sl 2.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o salmo anuncia aquilo que a criação deve ser e será: um único coro em louvor ao Criador. A Redenção aparece no v. 14, com o chifre levantado para o povo, e se completa em Cristo, em quem Deus refaz a paz com o universo inteiro, no céu e na terra (Cl 1.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que o salmo convoca, o Apocalipse mostra realizado: as criaturas de todos os lugares do universo, do alto ao fundo do mar, unidas no louvor a Deus e ao Cordeiro (Ap 5.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

6.2 — O Filho por quem e para quem tudo foi criado

O v. 5 funda o louvor no fato de que Deus ordenou e as coisas foram criadas. O Novo Testamento revela quem é a palavra dessa ordem. João afirma que a Palavra esteve na origem de tudo, sem nenhuma exceção (Jo 1.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo, em Colossenses, é ainda mais abrangente: o céu e a terra, o que se vê e o que não se vê, e até os poderes e as autoridades invisíveis, tudo veio a existir nele, por meio dele e tendo-o como alvo, e é nele que tudo se mantém unido (Cl 1.16-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Hebreus diz que Deus fez o universo por meio do Filho e que o Filho o mantém de pé com a força da sua palavra (Hb 1.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A lista de Paulo em Colossenses cobre, de modo impressionante, o mesmo território do Salmo 148 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): os céus e a terra, o visível e o invisível, os poderes celestes e os governantes terrenos. Não é provável que Paulo estivesse comentando o salmo; mas a teologia é a mesma, agora com um nome. As criaturas que o salmo chama a louvar o Senhor foram criadas por meio de Cristo e para Cristo. O louvor delas tem, por assim dizer, um endereço pessoal.

Hebreus acrescenta um detalhe que conversa diretamente com o v. 2. Ao trazer o Primogênito ao mundo, Deus manda que os anjos, sem exceção, se prostrem diante dele (Hb 1.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O coro dos anjos do salmo encontra o seu objeto pleno no Filho. Lucas conta que, na noite do nascimento de Jesus, uma multidão do exército celeste apareceu aos pastores louvando a Deus (Lc 2.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): os tseva'ot do v. 2, as hostes do céu, cantando sobre um campo de Belém por causa de uma criança deitada numa manjedoura.

6.3 — O chifre de salvação na casa de Davi

O v. 14 fala de um chifre que Deus levantou para o seu povo. No seu contexto original, a expressão celebra a restauração de Israel depois do exílio, e a maioria dos estudiosos não a lê como profecia messiânica direta. Mas a imagem tinha uma história. Ana, no seu cântico, terminava pedindo que Deus exaltasse o chifre do seu ungido (1Sm 2.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o Salmo 132 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) trazia a promessa de fazer brotar um chifre para Davi (Sl 132.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A esperança de um rei restaurado estava ligada a essa linguagem.

No Novo Testamento, ela reaparece num lugar significativo. Zacarias, movido pelo Espírito Santo depois do nascimento de João Batista, louva o Deus de Israel porque veio em socorro do seu povo para resgatá-lo e fez surgir, da família de Davi, um chifre de salvação, isto é, um salvador poderoso (Lc 1.68-69 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O idioma é o do salmo e o dos textos davídicos, e o objeto é Jesus, que ainda estava para nascer. A leitura cristã, portanto, não força o v. 14: segue o caminho que o próprio Novo Testamento abre. A força que Deus levantou para o seu povo, no cumprimento pleno, não é um exército nem um muro, mas um Rei da casa de Davi, que salva.

A última frase do salmo, o povo que lhe é próximo, também ganha em Cristo uma extensão nova. Paulo lembra aos cristãos de Éfeso, de origem pagã, que eles tinham vivido fora do povo de Israel, alheios às promessas das alianças, sem Cristo, sem esperança e sem Deus; e que agora, unidos a Cristo Jesus, foram trazidos para perto por meio do sangue dele (Ef 2.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele acrescenta que Cristo veio levar a notícia da paz tanto aos distantes quanto aos próximos (Ef 2.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), usando a linguagem de Isaías (Is 57.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O povo próximo do v. 14 tornou-se, em Cristo, um povo de todas as nações.

6.4 — O nome mais alto e o coro do Apocalipse

O v. 13 diz que só o nome do Senhor é exaltado. Paulo, no hino de Filipenses, conta que Cristo, que tinha a natureza de Deus, abriu mão do que lhe pertencia, tomou a condição de escravo e obedeceu até morrer numa cruz; e que por isso Deus o elevou ao lugar mais alto e lhe deu o nome mais alto, de modo que todos os seres, nas regiões celestes, na terra e no mundo dos mortos, venham a ajoelhar-se diante de Jesus e a reconhecê-lo como Senhor, para a glória do Pai (Fp 2.6-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo aplica a Jesus palavras de Isaías que, no original, se referiam ao próprio Senhor, o único Deus diante de quem a humanidade inteira há de se ajoelhar (Is 45.22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O nome exaltado do salmo é, para o Novo Testamento, o nome de Jesus.

A tríade de Filipenses, céus, terra e debaixo da terra, é praticamente a estrutura do Salmo 148 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): o louvor desde os céus (vv. 1-6), desde a terra (vv. 7-12), incluindo os abismos (v. 7). E o Apocalipse mostra a convocação do salmo atendida. Na visão do trono, depois que o Cordeiro imolado recebe o livro, cantam primeiro os seres viventes e os anciãos, depois uma multidão incontável de anjos, e por fim as criaturas de todas as regiões do universo, do céu ao fundo do mar, que dão louvor e honra a Deus e ao Cordeiro juntos (Ap 5.11-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É o Salmo 148 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) cumprido, com uma diferença decisiva: o coro universal louva a Deus e ao Cordeiro.

O caminho entre o salmo e o Apocalipse passa pela cruz. Colossenses diz que foi pela morte de Cristo na cruz que Deus fez a paz com o universo inteiro, na terra e no céu (Cl 1.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A criação que o salmo convoca está, no presente, ferida e dividida; os reis do v. 11 se rebelam, e a própria natureza geme (Rm 8.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É o Cristo crucificado e ressuscitado que torna possível o coro final. Por isso o louvor da criação tem uma dimensão escatológica: Paulo a descreve como quem estica o pescoço à espera do dia em que os filhos de Deus forem manifestados, para então ser solta da corrupção e partilhar da liberdade deles (Rm 8.19-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Há ainda uma cena nos evangelhos que ilustra o salmo de modo quase literal. Quando Jesus desce o monte das Oliveiras em direção a Jerusalém e os discípulos o aclamam, alguns fariseus pedem que ele os faça calar, e Jesus responde que o silêncio deles faria as próprias pedras gritarem (Lc 19.37-40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A criação inanimada está pronta para louvar o Rei; se os homens se calarem, os montes e as colinas do v. 9 tomarão o seu lugar. E no templo, poucos dias depois, as crianças repetiam o hosana, e Jesus, citando o Salmo 8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), defendeu o louvor dos pequenos (Mt 21.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os meninos do v. 12 estavam no coro.

6.5 — O Evangelho no capítulo

O Salmo 148 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) pode ser pregado como a história de um coro desafinado que Deus volta a afinar.

No princípio, cada criatura saiu da boca de Deus e cumpria a sua palavra. O sol brilhava, o mar tinha limite, os animais se multiplicavam, e o ser humano, a criatura que podia louvar com a voz, foi feito para dar nome e voz ao louvor de todos.

Mas o ser humano deixou o coro. Passou a adorar o sol e a lua, os reis e as próprias obras; trocou o Criador pela criatura. E, com ele, toda a criação ficou sujeita à frustração. Os reis da terra conspiram, a natureza geme, e o louvor que deveria subir de tudo foi abafado.

Então Deus fez surgir, da família de Davi, a força que salva. A Palavra por meio da qual tudo foi criado entrou na criação como uma criança, e os anjos cantaram. Ele foi rejeitado pelos reis e pelos príncipes, morreu numa cruz e ressuscitou, e pelo seu sangue Deus reconciliou consigo todas as coisas, aproximando os que estavam longe.

A boa-nova é que qualquer pessoa pode voltar ao coro. Não é preciso ser rei nem ser forte; o salmo põe velhos e crianças lado a lado. Basta confessar que Jesus é o Senhor, aquele cujo nome Deus pôs acima de todos. E o dia virá em que toda criatura, no céu, na terra e no mar, cantará junto com os redimidos ao Cordeiro.


🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)


🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico

Junte-se ao coro que já está cantando. O salmo mostra que o louvor não começa com a nossa voz. Os anjos, os astros, o granizo e os cedros já estavam louvando antes de nós e continuarão quando não estivermos mais aqui. O culto cristão é a entrada consciente num coro que já existe. Quando a igreja se reúne em nome de Jesus, dá voz ao louvor de toda a criação, que foi feita por ele e para ele.

Receba a criação como companheira, não como divindade nem como mero recurso. O salmo recusa duas atitudes. Recusa a divinização da natureza, presente em muitas espiritualidades antigas e modernas: o sol, o mar e a terra não são deuses. E recusa a visão que reduz a criação a matéria-prima. As árvores e os animais louvam a Deus do seu modo, e isso lhes dá uma dignidade que o cristão deve respeitar. Cuidar da criação é cuidar do coro de Cristo.

Um eco antigo dessa atitude é o Cântico das Criaturas, composto por Francisco de Assis por volta de 1225, já doente e quase cego, segundo as fontes franciscanas antigas. Francisco louva a Deus pelo irmão sol, pela irmã lua e pelas estrelas, pelo irmão vento, pela irmã água, pelo irmão fogo e pela mãe terra, e, numa estrofe acrescentada perto da morte, pela irmã morte corporal. A ligação com o Salmo 148 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e com o cântico dos três jovens, que ele rezava no ofício, é amplamente reconhecida. É preciso cautela ao usá-lo: o poema tem uma preposição cujo sentido é discutido, que pode significar que Deus é louvado pelas criaturas, por meio delas ou por causa delas, e nada nele faz das criaturas objetos de culto. Lido assim, ele mostra um cristão que aprendeu com o salmo a chamar de irmãos os outros cantores do coro, sem esquecer quem é o regente.

Lembre aos poderosos o lugar deles no coro. O v. 11 chama reis, príncipes e juízes a louvar. Isso significa que nenhum poder humano é absoluto. O cristão ora pelos governantes e lhes recorda, com respeito, que acima deles há um nome exaltado. E a igreja não deve se curvar diante de nenhum poder que pretenda ocupar o lugar de Deus.

Abra espaço para todas as idades. O v. 12 junta jovens e velhos, moças e crianças. A igreja que louva o Deus do Salmo 148 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não pode ser uma comunidade de uma geração só. O louvor das crianças, que Jesus defendeu, e a sabedoria dos idosos têm lugar no mesmo culto. Uma comunidade cristã deve se perguntar se o seu modo de cultuar inclui de fato todas as idades.

Viva como povo próximo. O v. 14 lembra que, em Cristo, os que estavam longe foram aproximados. Quem foi aproximado por graça não se acha superior aos que ainda estão longe; deseja que eles também se aproximem.


🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo

  1. O salmo segue, de forma livre, a ordem de Gênesis 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Compare os dois textos. Que diferença faz ler a criação não apenas como algo que Deus fez, mas como um coro que o louva?
  2. Os vv. 3 e 7 chamam a louvar o sol, a lua, os monstros marinhos e os abismos, que outros povos adoravam ou temiam. Que coisas criadas a nossa cultura tende a divinizar ou temer? Como o salmo as põe no lugar certo?
  3. De que maneira as criaturas sem consciência, como o granizo e os cedros, podem louvar a Deus? O que o v. 8 sugere sobre isso?
  4. Leia Cl 1.15-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Fp 2.9-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ao lado dos vv. 5 e 13. O que muda na leitura do salmo quando se sabe que tudo foi criado por meio de Cristo e que Deus pôs o nome dele acima de todos?
  5. O v. 12 junta jovens e velhos, moças e crianças. A sua igreja reflete essa diversidade no louvor? O que poderia mudar?
  6. Para meditação e oração: saia, se puder, a um lugar aberto, ou lembre-se de uma paisagem que o tenha impressionado. Percorra com calma o salmo, nomeando o que você vê e entregando cada coisa a Deus em louvor. Termine agradecendo a Cristo por ter aproximado você, que estava longe, e repita o aleluia final.

📚 10. Para Aprofundamento

Cristocêntrica / Teologia Bíblica:

  • Sidney Greidanus — Preaching Christ from the Old Testament (Eerdmans, 1999)
  • Christopher J. H. Wright — Conhecendo Jesus através do Antigo Testamento (Ultimato) / Knowing Jesus Through the Old Testament (IVP, 1992)
  • Richard Bauckham — Bible and Ecology: Rediscovering the Community of Creation (Baylor University Press, 2010), sobre a criação como comunidade de louvor
  • Dietrich Bonhoeffer — Das Gebetbuch der Bibel (1940), sobre os salmos como oração de Cristo com a Igreja
  • C. S. Lewis — Reflexões sobre os Salmos (várias edições em português) / Reflections on the Psalms (1958)

Comentários dos Salmos:

  • Derek Kidner — Salmos 73–150 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
  • Leslie C. Allen — Psalms 101–150 (Word Biblical Commentary, 1983; edição revista, 2002)
  • Nancy deClaissé-Walford, Rolf A. Jacobson e Beth LaNeel Tanner — The Book of Psalms (NICOT, Eerdmans, 2014)
  • Frank-Lothar Hossfeld e Erich Zenger — Psalms 3: A Commentary on Psalms 101–150 (Hermeneia, Fortress, 2011)
  • James L. Mays — Psalms (Interpretation, John Knox, 1994)
  • Agostinho — Comentário aos Salmos (Paulus, coleção Patrística)

Sobre o Cântico das Criaturas:

  • Fontes Franciscanas (várias edições em português), com os escritos de Francisco de Assis e as biografias antigas

Sabedoria para o Cotidiano
Antes de você acordar, o sol já cumpria a palavra de Deus, e o vento, a chuva e as árvores já faziam o mesmo; o Salmo 148 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) convida a entrar nesse coro com a voz que só o ser humano tem. Não adore o que foi criado nem trate a criação como coisa sem valor: tudo foi feito por meio de Cristo e para ele, e tudo existe para louvá-lo. Reis e crianças cantam na mesma fila, e quem estava longe foi aproximado pelo sangue do Cordeiro; por isso, onde quer que você esteja hoje, o seu louvor não é uma voz solitária, mas parte do canto que um dia encherá o céu, a terra e o mar.

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