Salmos · 19 de 66 · Antigo Testamento
Salmos — Capítulo 43
Título do capítulo: Luz e fidelidade que conduzem ao altar
Gênero literário: Poesia/Salmo (lamento individual em forma de súplica judicial e de pedido de guia, que conclui o poema iniciado no Salmo 42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) com o terceiro refrão)
Número de versículos: 5
Nota de precisão: o Salmo 43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não tem inscrição, e por isso a numeração dos versículos é a mesma nas Bíblias em português e no hebraico impresso. Na antiga tradução grega, que junta os Salmos 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 10, ele é o salmo quarenta e dois. Como se mostra no estudo do Salmo 42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), os dois formam, muito provavelmente, um único poema em três estrofes; este estudo trata da terceira estrofe e a lê sempre em relação às duas primeiras.
🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural
O Salmo 43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é curto, mas não está sozinho. Quem chega a ele vindo do Salmo 42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) reconhece imediatamente a voz: o mesmo orante longe do santuário, a mesma pressão do inimigo, a mesma pergunta a Deus sobre o seu abandono, e, no fim, o mesmo refrão que fecha as duas estrofes anteriores. A ausência de título, rara no Segundo Livro dos Salmos, é um dos sinais de que ele continua o salmo anterior. Uma pergunta do Salmo 42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) se repete aqui quase sem mudanças (Sl 42.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 43.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e alguns manuscritos hebraicos copiam os dois como um só. O conjunto forma um poema em três movimentos: a sede e a memória (Sl 42.1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), as ondas e o esquecimento (Sl 42.6-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a súplica e a subida (Sl 43.1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Se o poema é um só, a inscrição do Salmo 42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) vale também para este: um masquil, poema de instrução ou de meditação, dos filhos de Corá, a família levítica de cantores e porteiros do templo. Por isso, o pano de fundo é o mesmo. Um israelita, talvez um levita que costumava conduzir as procissões das festas, está longe de Jerusalém, na região do Jordão e do Hermom, cercado de gente hostil, e anseia por voltar à casa de Deus. O salmo não diz quem são os seus adversários nem por que ele está longe, e qualquer reconstrução precisa ser feita com cautela.
O que muda no Salmo 43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o tom. As duas primeiras estrofes eram sobretudo queixa e lembrança: o orante falava da sua sede, das suas lágrimas, das zombarias, das ondas, e conversava com a própria alma. Aqui, pela primeira vez, ele faz pedidos diretos a Deus, e os pedidos têm duas formas. A primeira é jurídica: ele pede que Deus o julgue e defenda a sua causa. A segunda é de peregrinação: ele pede que Deus envie guias para conduzi-lo ao monte santo. O poema passa do lamento à súplica e da súplica à antecipação do louvor.
O vocabulário jurídico do v. 1 vem do mundo dos tribunais de Israel. Quem se sentia injustiçado podia apelar ao juiz e, em última instância, ao rei. Nos salmos, o orante perseguido apela ao tribunal supremo, o do próprio Deus, pedindo-lhe que reconheça o seu direito e o vindique diante dos acusadores (Sl 7.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 26.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 35.23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A linguagem de peregrinação dos vv. 3-4, por sua vez, evoca as subidas a Jerusalém para as festas, com as suas etapas, o monte, as moradas de Deus, o altar e a música dos levitas. O orante não pede apenas para ser absolvido; pede para voltar a adorar.
📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo
O salmo começa com um pedido a Deus para que julgue o orante e defenda a sua causa contra uma gente sem fidelidade, e o livre do homem enganador e perverso (v. 1). A razão do pedido é que Deus é a fortaleza em que o orante se abriga; e, no entanto, ele pergunta por que Deus o rejeitou e por que tem de andar de luto sob a opressão do inimigo (v. 2).
Em seguida, o orante pede que Deus envie a sua luz e a sua fidelidade como guias, para que o conduzam ao monte santo e às moradas de Deus (v. 3). Ali ele chegará ao altar de Deus, ao Deus que é a alegria do seu júbilo, e o louvará com a lira, chamando-o de Deus, o seu Deus (v. 4).
O salmo termina com o refrão que já fechara as duas estrofes do Salmo 42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): o orante pergunta outra vez à própria alma por que está abatida e agitada e a exorta a esperar em Deus, porque ainda o louvará, a ele que é a salvação do seu rosto e o seu Deus (v. 5).
🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)
Versículos 1-2 — A causa levada ao Juiz e a pergunta que volta
O primeiro verbo é shoftêni, julga-me. Em português, o pedido pode soar ameaçador, como se o orante pedisse para ser condenado; em hebraico, shafat significa fazer justiça, decidir uma causa, e quem pede para ser julgado é quem tem certeza de estar sendo injustiçado e quer que o juiz reconheça o seu direito. A segunda expressão reforça o sentido: rivah rivi, pleiteia a minha causa, defende o meu processo. O substantivo riv designa a disputa judicial, a ação movida num tribunal. Deus aparece ao mesmo tempo como juiz e como advogado do orante, aquele que decide a causa e aquele que a defende (Sl 35.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mq 7.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 50.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Os adversários são descritos de dois modos. O primeiro é coletivo: um goy lo'-ḥasid, uma gente, um povo sem ḥesed, sem lealdade, sem a fidelidade que a aliança exigia. A palavra goy costuma designar as nações estrangeiras, e alguns intérpretes pensam que o orante está cercado de pagãos, no exílio ou na fronteira. Outros entendem que se trata de israelitas que se comportam como se não conhecessem a aliança. A descrição moral importa mais do que a identidade: são pessoas que não praticam a fidelidade que Deus pratica. O segundo modo é individual: o 'ish-mirmah we'awlah, o homem do engano e da injustiça. Assim como no Salmo 41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) o orante sofria com o amigo traidor, aqui ele sofre com alguém que mente e age com perversidade. Não sabemos se é um acusador, um chefe inimigo ou um falso amigo.
O v. 2 traz a razão do pedido e a pergunta que a contradiz. O orante chama Deus de 'elohê ma'uzzi, o Deus da minha fortaleza, o lugar fortificado onde se busca refúgio em tempo de guerra. E logo pergunta por que foi rejeitado. O verbo zanaḥ, rejeitar, afastar com repulsa, é mais forte do que o "esquecer" do Salmo 42.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Lá, o orante sentia que Deus o esquecera; aqui, sente que Deus o afastou. A segunda pergunta é quase idêntica à do salmo anterior: a razão de andar de luto, qoder, de rosto e roupas escurecidos, sob a opressão do inimigo. A repetição liga as estrofes e mostra que a dor não desapareceu. Mas há uma diferença decisiva: esta pergunta vem depois do pedido do v. 1. O orante não está apenas se queixando; está apresentando a sua causa a quem pode resolvê-la. A queixa se tornou petição.
A tensão do v. 2 é a mesma do Salmo 42.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): a rocha e a pergunta à rocha, a fortaleza e a sensação de ter sido expulso dela. O lamento bíblico não resolve essa tensão com argumentos. Mantém as duas coisas juntas porque a fé não depende de entender tudo: depende de saber a quem levar o que não se entende.
Versículos 3-4 — A luz e a fidelidade que guiam até o altar
O v. 3 é o coração do Salmo 43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e talvez de todo o poema. Até aqui, o orante tinha olhado para trás (as festas de outrora), para dentro (a alma abatida) e para os lados (os inimigos e as ondas). Agora olha para a frente, e pede a Deus que envie, shelaḥ, dois mensageiros: 'orkha, a tua luz, e 'amittekha, a tua verdade, a tua fidelidade. A palavra 'emet significa aquilo que é firme, confiável, verdadeiro; muitas vezes aparece unida a ḥesed para descrever o caráter de Deus (Êx 34.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 25.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A luz de Deus é a sua presença favorável, o seu rosto que brilha sobre o povo (Nm 6.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 4.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 27.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A fidelidade é a sua palavra cumprida.
Os dois são tratados como pessoas, mensageiros que o próprio Deus envia, um pouco como no Salmo 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) o bem e o amor leal iam no encalço do orante (Sl 23.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aqui, eles vão à frente, como guias: yanḥuni, que eles me conduzam, e yevi'uni, que eles me tragam. O verbo naḥah é o mesmo usado para Deus guiando Israel no deserto pela coluna de nuvem e de fogo (Êx 13.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ne 9.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Há quem veja aqui uma alusão discreta a essa coluna: assim como Israel foi conduzido pelo deserto até a terra, o orante pede para ser conduzido do exílio até o monte. A alusão não é certa, mas a imagem é coerente com a memória do êxodo que atravessa o Saltério.
O destino é descrito em degraus: har-qodsheka, o teu monte santo, Sião; mishkenoteykha, as tuas moradas, palavra que lembra o tabernáculo do deserto, o mishkan, a tenda da habitação de Deus no meio do povo. O plural pode indicar a grandeza do santuário, com os seus pátios, ou simplesmente a majestade do lugar. O orante, que no Salmo 42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) se lembrava de ir à frente da multidão, agora pede para ser conduzido como quem não sabe mais o caminho.
O v. 4 continua o movimento até o centro. Depois do monte e das moradas, o orante chegará ao mizbaḥ 'elohim, o altar de Deus, o lugar dos sacrifícios, onde a relação entre Deus e o povo era restaurada e celebrada. E o altar não é o fim: o verdadeiro destino é 'el-'el simḥat gili, o Deus que é a alegria do meu júbilo. Os dois substantivos, simḥah e gil, são sinônimos de alegria, e juntos dizem uma alegria transbordante, que dança. O orante não deseja apenas o templo, nem o altar, nem a cerimônia: deseja Deus, e deseja-o como fonte de alegria. É a resposta à sede do Salmo 42.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Quem tinha sede do Deus vivo agora antecipa encontrar nele a sua alegria.
A segunda metade do versículo fala do louvor com o kinnor, a lira de cordas, o instrumento de Davi (1Sm 16.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e dos levitas no templo (1Cr 15.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Cr 25.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Talvez o orante fosse ele mesmo um dos músicos; em todo caso, ele se vê de novo tocando para Deus. E o versículo termina com a dupla invocação 'elohim 'elohay, ó Deus, meu Deus. A pergunta zombeteira dos inimigos, repetida duas vezes no Salmo 42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), era sobre onde estaria o Deus do orante. Agora, sem responder à zombaria, ele simplesmente se dirige a esse Deus e o chama de seu.
A sequência dos vv. 3-4 tem a forma de uma peregrinação: os guias são enviados, o caminho é percorrido, o monte é alcançado, a morada é atravessada, o altar é tocado e Deus é encontrado. Todos os verbos estão no futuro ou no modo do desejo. Nada disso aconteceu ainda; mas o orante já descreve a chegada como quem a vê de longe.
Versículo 5 — O terceiro refrão: a esperança que ainda não vê
O poema termina como as duas estrofes anteriores terminaram: com o orante interrogando a própria alma. Ele lhe pede a razão de estar prostrada (tishtoḥaḥi, curvada, dobrada sob o peso) e de gemer e se agitar (tehemi, o verbo das águas que rugem). E a ordem é a mesma: hoḥili le'lohim, espera em Deus, porque ainda haverá louvor a ele, que é a salvação do rosto do orante e o seu Deus.
À primeira vista, o fim parece decepcionante. Depois da súplica e da visão do altar, o orante volta a perguntar à alma por que está abatida. Nada mudou do lado de fora: ele continua longe, o inimigo continua oprimindo, o templo continua distante. Mas o refrão, ouvido pela terceira vez, já não soa igual. Na primeira vez (Sl 42.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), ele vinha depois das lágrimas e da memória; na segunda (Sl 42.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), depois das ondas e da zombaria; na terceira, vem depois da visão da luz e da fidelidade conduzindo ao altar. A pergunta à alma é a mesma, mas a alma agora sabe para onde está sendo levada.
A estrutura do poema ensina, assim, algo sobre a vida de fé. A tristeza não se resolve de uma vez. O refrão precisa ser repetido, porque a alma esquece e volta a se curvar. Mas a cada repetição a esperança tem mais conteúdo: a lembrança do que Deus fez, a confissão de que o seu amor leal continua sendo enviado, a visão do caminho até ele. A palavra 'od, ainda, continua sendo a chave. O poema não termina com o louvor; termina com a promessa do louvor. É um final aberto, e honesto: quem o ora ainda está no caminho.
✨ 4. Versículos-Chave
Sl 43.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O pedido de que Deus julgue e defenda a causa do orante transforma o lamento em apelação ao tribunal supremo. Quem é acusado injustamente e cercado de gente sem fidelidade não precisa fazer justiça com as próprias mãos; pode entregar o processo ao Juiz que também é o seu defensor. A fé cristã reconhece aqui o caminho de Jesus, que, diante de testemunhas falsas, confiou o seu caso ao Deus que decide com retidão (1Pe 2.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Sl 43.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O pedido de que Deus envie a sua luz e a sua fidelidade como guias até o monte santo é o centro do poema. O orante não sabe mais o caminho e pede que Deus mesmo o conduza. O Novo Testamento apresenta Jesus como a luz que tira das trevas quem o segue (Jo 8.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e como aquele por quem se chega ao Pai (Jo 14.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Sl 43.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O destino da peregrinação não é o altar em si, mas o Deus que é a alegria do orante. O versículo mostra que a adoração bíblica não é um ritual frio, mas o encontro com a fonte da alegria. É a resposta à sede do Salmo 42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): quem tinha sede do Deus vivo encontra nele o júbilo.
Sl 43.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O terceiro refrão fecha o poema sem que a situação tenha mudado. A esperança continua voltada para o futuro, apoiada no "ainda" do louvor. O versículo ensina que a fé às vezes precisa repetir a mesma verdade muitas vezes, até que a alma volte a se erguer.
⛪ 5. Temas Teológicos Centrais
Deus, juiz e defensor do injustiçado. O pedido do v. 1 pertence a uma linha que atravessa toda a Escritura. Abraão apela ao Juiz do mundo inteiro, certo de que ele não fará injustiça (Gn 18.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Deus é também o defensor do órfão e da viúva (Dt 10.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o advogado que defende a causa do seu povo contra os opressores (Jr 50.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mq 7.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os salmos de súplica ensinam o perseguido a levar a sua causa a esse tribunal, em vez de fazer justiça por conta própria. O Novo Testamento acrescenta que, quando pecamos, Jesus, que é justo, fala em nosso favor diante do Pai (1Jo 2.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e que o Espírito também intercede por nós (Rm 8.26-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A luz e a fidelidade de Deus como guias. O v. 3 apresenta a orientação divina não como uma informação abstrata, mas como uma presença que conduz. A Bíblia está cheia dessa imagem: a coluna de fogo no deserto (Êx 13.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a palavra de Deus que ilumina cada passo (Sl 119.105 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o Senhor confessado como claridade e livramento de quem confia nele (Sl 27.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em Cristo, a luz e a verdade se tornam uma pessoa. João o apresenta como a luz autêntica que, vindo ao mundo, alcança cada pessoa (Jo 1.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e diz que por meio dele o favor imerecido e a fidelidade de Deus chegaram até nós (Jo 1.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A adoração como alegria em Deus. O orante não deseja voltar ao templo por dever religioso, mas porque Deus é a sua alegria transbordante (v. 4). A Escritura liga a presença de Deus à alegria: junto dele a alegria é completa (Sl 16.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o povo que volta do exílio celebra com júbilo (Ne 8.10-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus fala da sua alegria que permanece nos discípulos (Jo 15.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Pedro descreve os crentes que, sem ver a Cristo, se alegram com uma alegria que não se consegue descrever (1Pe 1.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A esperança que persevera. O terceiro refrão mostra que a esperança bíblica não é a certeza de que tudo vai melhorar amanhã, mas a confiança em Deus quando nada melhorou ainda. Paulo dirá que ninguém precisa esperar aquilo que já tem diante dos olhos, e que aguardamos com paciência o que ainda não vemos (Rm 8.24-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O poema dos Salmos 42–43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é uma escola dessa esperança paciente.
✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo
6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?
O Salmo 43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), como o 42, pertence à Redenção em andamento. O orante está longe da presença de Deus, cercado de gente sem fidelidade, sentindo-se rejeitado; é o mundo depois da Queda, em que o acesso ao Santo está bloqueado e o caminho até ele precisa ser reaberto. O pedido de que Deus envie guias para conduzir o orante ao monte santo é, no fundo, o pedido de toda a humanidade: que Deus mesmo venha buscar quem não consegue mais encontrar o caminho. A Redenção consumada responde a esse pedido em Cristo, enviado pelo Pai como luz e verdade, que abriu, pelo seu sangue, o caminho até o santuário (Hb 10.19-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E a Nova Criação traz o cumprimento final da visão dos vv. 3-4: o monte de Sião e a cidade do Deus vivo, onde os redimidos se reúnem em festa (Hb 12.22-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a nova Jerusalém, que dispensa o sol e a lua, porque a glória de Deus a ilumina e o Cordeiro a clareia (Ap 21.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
6.2 — O Justo julgado injustamente: Jesus diante do tribunal
O pedido do v. 1, que Deus faça justiça ao orante contra uma gente sem fidelidade e contra o homem enganador e injusto, encontra na paixão de Jesus o seu retrato mais agudo. Jesus foi julgado por um tribunal que procurava testemunhos falsos contra ele, e as testemunhas não concordavam entre si (Mt 26.59-61 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 14.55-59 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Foi traído por um homem do seu próprio círculo, entregue por líderes que deveriam zelar pela fidelidade da aliança, e condenado por um governador que reconhecia não encontrar culpa nele (Lc 23.4, 14-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 19.4-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Justo foi tratado como culpado.
E o que Jesus fez diante dessa injustiça? Pedro responde com precisão: diante das ofensas, Jesus não devolveu ofensa; no sofrimento, não fez ameaças; confiou o seu caso ao Deus que decide com retidão (1Pe 2.22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É exatamente o movimento do v. 1: a causa entregue ao Juiz. E o Juiz respondeu. A ressurreição foi a sentença do tribunal supremo de Deus, que revogou o veredito humano e declarou justo aquele que fora condenado. Paulo inclui no resumo da fé que Jesus foi declarado justo pelo Espírito (1Tm 3.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Pedro, em Pentecostes, contrasta o que os homens fizeram com Jesus e o que Deus fez: eles o mataram, Deus o ressuscitou (At 2.23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A tipologia aqui não é de profecia direta. O Salmo 43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não fala de Jesus como o Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ou o Salmo 110 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Mas o padrão do justo perseguido que entrega a causa a Deus e é vindicado percorre o Saltério, e o Novo Testamento o vê realizado em Cristo de modo pleno. E há uma consequência para quem crê: o Juiz a quem o orante apela é o mesmo que, em Cristo, assumiu a nossa causa. Nós, que merecíamos a condenação, temos agora um advogado junto ao Pai (1Jo 2.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
6.3 — A luz e a verdade enviadas: Cristo, o caminho para o monte santo
O v. 3 pede que Deus envie a sua luz e a sua fidelidade. O verbo do envio é um dos mais importantes do Evangelho de João, em que Jesus se apresenta repetidamente como o enviado do Pai (Jo 3.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 5.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 17.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E aquilo que o salmista pediu como dois mensageiros, a luz e a verdade, o Novo Testamento encontra numa única pessoa. Jesus se apresentou como a luz que ilumina o mundo e prometeu que quem andasse atrás dele não ficaria perdido no escuro, mas teria a claridade que dá vida (Jo 8.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Na véspera da paixão, quando Tomé confessou que não sabia o caminho, Jesus respondeu que ele mesmo é a estrada, a realidade de Deus e a vida, e que o acesso ao Pai passa por ele (Jo 14.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A ligação não é verbal nem anunciada pelo Novo Testamento como cumprimento do Salmo 43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e deve ser apresentada como leitura canônica, não como profecia direta. Mas é profundamente coerente. O orante não sabia mais o caminho até o monte santo e pediu guias; Deus não enviou apenas guias, enviou o próprio Filho, que é o caminho. E Jesus prometeu também o Espírito, que conduziria os discípulos por dentro de toda a verdade revelada (Jo 16.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A luz e a fidelidade de Deus vieram em pessoa, e continuam conduzindo o seu povo pelo Espírito.
O destino também se transforma. O orante queria chegar ao monte santo, às moradas de Deus e ao altar. Hebreus diz que os crentes, pela fé, já se aproximaram de Sião, da cidade de Deus nos céus, da assembleia em festa e de Jesus, por meio de quem a nova aliança foi firmada (Hb 12.22-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E diz também que os cristãos têm um altar próprio, porque o sacrifício definitivo foi o de Jesus, que sofreu do lado de fora dos muros de Jerusalém (Hb 13.10-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O altar do v. 4 encontra em Cristo e na sua cruz o seu cumprimento. Quem hoje deseja chegar ao altar de Deus não precisa de uma viagem a Jerusalém: chega pela fé ao Cristo crucificado e ressuscitado.
6.4 — Deus, a alegria do meu júbilo: a alegria que Cristo dá
O v. 4 mostra que o alvo da peregrinação é a alegria em Deus. Jesus falou da sua própria alegria e quis que ela morasse nos discípulos até transbordar (Jo 15.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Na véspera da cruz, comparou a tristeza deles às dores de um parto, que dão lugar a uma alegria que ninguém lhes poderia arrancar (Jo 16.20-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E Hebreus diz que ele aguentou a cruz olhando para a alegria que estava adiante dele (Hb 12.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Filho que no Getsêmani conheceu a alma triste até a morte, a mesma linguagem do refrão, atravessou a cruz com os olhos postos na alegria. E a alegria que ele conquistou é a de conduzir uma multidão de filhos e filhas à glória (Hb 2.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), ao Deus que é a alegria do seu júbilo.
O refrão final ganha assim um sentido novo. A alma abatida é chamada a esperar em Deus porque ainda o louvará. Para o salmista, esse "ainda" era uma esperança sem data. Para o cristão, ele tem um fundamento histórico: Jesus também passou pela alma abatida e chegou ao louvor do outro lado da morte. O refrão de quem está em Cristo é a mesma pergunta à alma, mas com uma certeza que o salmista não podia ter: o caminho até o altar já foi aberto, e o louvor futuro já começou na ressurreição de quem foi à frente.
6.5 — O Evangelho no capítulo
O Salmo 43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) prega o evangelho por meio de três pedidos que só Deus pode atender. O orante pede justiça, e não pode obtê-la sozinho. Pede guia, porque não sabe mais o caminho. E pede para chegar ao altar, porque só ali a relação com Deus pode ser restaurada. Em Cristo, os três pedidos são atendidos. Ele assumiu a nossa causa diante do Juiz, carregando a condenação que era nossa. Ele é a luz e a verdade enviadas pelo Pai, o caminho até ele. E ele é o sacrifício oferecido no altar, de uma vez por todas, para que tivéssemos acesso à presença de Deus.
Pregar este salmo cristocentricamente é convidar o ouvinte a fazer a oração do v. 3 e reconhecer que ela já foi respondida no envio do Filho. É também lembrar que a vida cristã continua tendo dias de alma curvada, em que o refrão precisa ser repetido. A diferença é que agora sabemos quem nos conduz e para onde: ao Deus que, em Cristo, é a alegria do nosso júbilo.
🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)
- Sl 42.1-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — as duas primeiras estrofes do mesmo poema: a sede, a memória, as ondas e os dois primeiros refrões.
- Sl 35.1, 23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mq 7.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 50.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus como juiz e defensor que pleiteia a causa do seu povo.
- Êx 13.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ne 9.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 119.105 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus que guia pela luz, no deserto e pela sua palavra.
- Sl 15.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 24.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 84.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o desejo de subir ao monte santo e de habitar nas moradas de Deus.
- Mt 26.59-61 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 23.14-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Pe 2.22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus julgado injustamente, que entrega a sua causa ao Juiz justo.
- Jo 8.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 14.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 16.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus, a luz do mundo e o caminho até o Pai, e o Espírito da verdade que guia.
- Hb 10.19-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 12.22-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 13.10-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o caminho aberto ao santuário, a chegada ao monte Sião e o altar de Cristo.
- Ap 21.22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a cidade onde a presença de Deus e do Cordeiro ocupam o lugar do santuário e da luz.
- Na história da Igreja, durante muitos séculos, na missa latina tradicional, o sacerdote rezava este salmo ao pé do altar, antes de subir a ele, alternando os versos com quem o ajudava; o v. 4, a chegada ao altar de Deus, que é a alegria, servia de antífona. A oração de um israelita distante do templo tornou-se a preparação de gerações de cristãos para se aproximarem da mesa do Senhor.
🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico
Entregue a sua causa ao Juiz. Quem é acusado injustamente, difamado ou prejudicado por alguém sem escrúpulos sente o impulso de se defender a qualquer custo. O v. 1 oferece outro caminho: apresentar a causa a Deus. Isso não impede de buscar a justiça pelos meios legítimos, mas tira do nosso peito o peso de ser o juiz final. Jesus, injustiçado como ninguém, entregou a sua causa ao Pai, e o Pai respondeu. Quem está em Cristo pode descansar nessa mesma confiança.
Peça luz antes de pedir um mapa. Muitas vezes queremos que Deus nos dê um plano detalhado do caminho. O orante pede outra coisa: que Deus envie a sua luz e a sua fidelidade para guiá-lo passo a passo. Em Cristo, a luz não é um manual, é uma pessoa que caminha conosco. Seguir a Jesus, um dia de cada vez, à luz da sua palavra e na dependência do Espírito, é a forma cristã de ser conduzido.
Lembre-se de que o alvo é Deus, e não apenas o culto. O orante deseja o altar, mas deseja mais ainda o Deus que é a sua alegria. É possível frequentar cultos, cantar e participar da ceia sem buscar a Deus. O salmo convida a ir à igreja como quem vai ao encontro de alguém, e não apenas a um compromisso. Em Cristo, essa alegria está disponível também em casa, no trabalho, no hospital, onde quer que o crente esteja.
Repita o refrão quantas vezes forem necessárias. O poema termina com a terceira repetição da mesma pergunta à alma. Não há vergonha em precisar repetir as mesmas verdades. Os dias de abatimento voltam, e a fé muitas vezes se reergue lentamente, verdade após verdade. Quem acompanha alguém deprimido ou enlutado também precisa dessa paciência: não exigir que um único versículo resolva tudo, mas caminhar junto, repetindo com a pessoa a esperança em Cristo.
🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo
- O orante pede a Deus que o julgue (v. 1). Por que esse pedido é sinal de confiança e não de medo? Em que situações você precisa entregar a sua causa a Deus?
- No Salmo 42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o orante sentia que Deus o esquecera; no Salmo 43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que o rejeitara (v. 2). Como a fé pode continuar falando com Deus mesmo quando se sente rejeitada?
- O que significa pedir que a luz e a fidelidade de Deus o conduzam (v. 3)? Como Jesus, a luz do mundo e o caminho até o Pai, responde a essa oração?
- O destino do orante é o Deus que é a sua alegria (v. 4). A sua vida de adoração tem sido mais um dever ou um encontro com essa alegria?
- O poema termina com o mesmo refrão repetido pela terceira vez (v. 5). O que muda entre a primeira e a terceira repetição? O que isso ensina sobre a esperança cristã?
- Para meditação e oração: ore o v. 3 como pedido pessoal, pensando em Jesus como a luz e a verdade enviadas pelo Pai. Peça-lhe que o conduza, passo a passo, até a alegria da presença de Deus.
📚 10. Para Aprofundamento
Cristocêntrica / Teologia Bíblica:
- Dietrich Bonhoeffer — Das Gebetbuch der Bibel (1940; há edições em português com o título Orando com os Salmos)
- Christopher J. H. Wright — Conhecendo Jesus através do Antigo Testamento (Ultimato) / Knowing Jesus Through the Old Testament (IVP, 1992)
Comentários dos Salmos:
- Derek Kidner — Salmos 1–72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
- Peter C. Craigie — Psalms 1–50 (Word Biblical Commentary, 1983; 2ª ed. 2004)
- John Goldingay — Psalms, Volume 2: Psalms 42–89 (Baker Academic, 2007)
- Agostinho — Comentário aos Salmos (Paulus, coleção Patrística)
Sobre a esperança na tristeza:
- D. Martyn Lloyd-Jones — Spiritual Depression: Its Causes and Cure (1965; há edição em português com o título Depressão espiritual)
Sabedoria para o Cotidiano
O Salmo 43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) fecha um poema de tristeza sem fingir que a tristeza acabou, mas com o rosto voltado para o altar e para o Deus que é alegria. Quando for injustiçado, entregue a sua causa ao Juiz que vindicou o seu Filho; quando não souber o caminho, peça a luz e a fidelidade de Deus, que vieram em pessoa em Jesus; e quando a alma voltar a se curvar, repita o refrão sem vergonha, quantas vezes forem precisas. O louvor ainda não chegou por inteiro, mas o caminho já está aberto, e quem o abriu vai à sua frente.
Ficou com alguma dúvida sobre este capítulo?
Pergunte ao Farol