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Salmos · 19 de 66 · Antigo Testamento

Salmos — Capítulo 58

Infográfico de “Salmos 58 — Capítulo a capítulo”, gerado automaticamente a partir do estudo publicado, com 4 partes: A pergunta aos que se assentam para julgar; Serpentes surdas desde o ventre; Sete imagens para o fim do poder injusto; A alegria do justo e a confissão de todos.

Título do capítulo: Há juiz acima dos juízes
Gênero literário: Poesia/Salmo (salmo imprecatório de tom profético e sapiencial: começa com uma acusação aos que julgam na terra, pede a Deus que desfaça o poder dos injustos e termina numa confissão pública da justiça divina)
Número de versículos: 11

Nota de precisão: a numeração segue a tradição das Bíblias em português, em que a inscrição ("ao regente do coro; não destruas; de Davi; mictã") não é contada como versículo; no hebraico impresso ela forma o versículo 1, e por isso, neste salmo, cada versículo do hebraico tem um número a mais que o das nossas Bíblias. Na antiga tradução grega, que junta os Salmos 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 10, este é o salmo cinquenta e sete. O texto hebraico tem pontos difíceis: a primeira palavra-chave do v. 1, a segunda metade do v. 7 e todo o v. 9 estão entre os trechos mais discutidos do Saltério, e o estudo indica onde as leituras divergem. O salmo não traz selá.


🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural

O Salmo 58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é um dos textos que mais incomodam o leitor cristão. Ele pede a Deus que quebre os dentes dos ímpios, que os faça escorrer como água e se desfazer como lesma, e termina com a imagem do justo que lava os pés no sangue dos perversos. Muitos preferem pular estas linhas, e a Liturgia das Horas da Igreja Católica, na reforma que se seguiu ao Concílio Vaticano II, deixou o salmo fora do ciclo de oração. Mas o salmo está na Bíblia, e quem o lê com atenção descobre que ele não nasce do gosto pela vingança, e sim de uma fome de justiça que não encontrou saciedade em nenhum tribunal da terra. É a oração de quem viu a injustiça vestida de toga.

O salmo pertence ao segundo livro do Saltério (Sl 42–72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e ao chamado Saltério Eloísta (Sl 42–83 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), uma coleção em que o nome 'Elohim, Deus, aparece com muito mais frequência que o nome próprio do Senhor, YHWH. Neste salmo os dois convivem: o v. 6 começa com 'Elohim e termina com YHWH, e o v. 11 fecha com 'Elohim. Faz parte também de um pequeno grupo de salmos atribuídos a Davi e chamados miktam (Sl 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 56–60). A palavra é de sentido incerto. Alguns a ligam a ketem, ouro fino, e pensam num "poema precioso"; a antiga tradução grega a entendeu como algo destinado a ser gravado numa coluna, como uma inscrição; outros falam de um poema de expiação ou de súplica em segredo. Nenhuma dessas explicações se impôs, e o mais honesto é reconhecer que se trata de um termo técnico cujo sentido exato se perdeu.

A inscrição traz ainda a indicação 'al-tashḥet, "não destruas", que se repete nos Salmos 57 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), 59 e 75. A maioria dos estudiosos a entende como o nome de uma melodia conhecida, pela qual o salmo devia ser cantado. Há quem lembre que a mesma expressão aparece na boca de Davi quando ele proíbe Abisai de matar Saul adormecido (1Sm 26.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e num oráculo de Isaías sobre o cacho de uvas que não deve ser destruído porque ainda tem bênção dentro (Is 65.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). São ecos interessantes, mas não passam de hipóteses. Há, porém, uma ironia que vale notar: um salmo que pede a Deus que destrua o poder dos injustos é cantado sob a rubrica "não destruas". A tensão é própria dos salmos imprecatórios, que sempre caminham entre o clamor pelo juízo e a esperança de misericórdia.

A inscrição não indica ocasião. A tradição judaica e cristã o atribuiu a Davi, e alguns intérpretes pensaram no tempo em que Saul e a sua corte perseguiam o futuro rei com acusações falsas, ou nos conselheiros que se juntaram a Absalão. O texto, porém, não fala de um inimigo pessoal, mas de uma classe inteira: os que têm o encargo de julgar e o usam para oprimir. O salmo se aproxima mais dos profetas que das memórias de Davi. Isaías denuncia os que decretam leis injustas para tirar o direito dos pobres (Is 10.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Amós fala dos que transformam o direito em veneno amargo (Am 6.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e dos que vendem o justo por dinheiro (Am 2.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Miqueias descreve os chefes que odeiam o bem e amam o mal, e esfolam o povo (Mq 3.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) dá a essa denúncia profética a forma de oração.

Para entender o peso do salmo é preciso lembrar o que a justiça significava no antigo Israel. Os juízes e os anciãos, sentados à porta da cidade, eram a última proteção do pobre, da viúva, do órfão e do estrangeiro. A Lei os advertia a não torcer o direito, não aceitar suborno e não favorecer nem o rico nem o pobre (Êx 23.6-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 16.18-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Josafá, ao nomear juízes, lembrou-lhes que não julgavam em nome de homens, mas em nome do Senhor (2Cr 19.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quando o juiz se corrompia, o oprimido não tinha mais a quem recorrer na terra. É desse lugar, onde o último tribunal falhou, que o salmo clama ao tribunal do céu.

Por fim, o salmo usa imagens tiradas do mundo animal e da vida doméstica que o leitor antigo reconhecia de imediato: a serpente que não responde ao encantador, o leão novo com os dentes à mostra, a água que some na areia, a lesma que parece derreter no caminho, a criança que nasce morta, a panela posta sobre um fogo de espinhos. São imagens concretas, às vezes duras, de quem vive perto da terra e do perigo. Fazem parte de uma poesia que não tem medo de chamar o mal pelo nome.


📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo

O salmo abre com duas perguntas cheias de ironia. Dirigidas aos que exercem poder de julgar, chamados de modo enigmático no v. 1, elas perguntam se de fato eles proferem o que é justo e se julgam com retidão os seres humanos (v. 1). A resposta vem logo: no coração eles tramam injustiças, e na terra pesam, como numa balança, a violência das próprias mãos (v. 2).

O olhar se alarga dos juízes para os ímpios em geral. A distância deles em relação a Deus vem de antes do berço: mal nasceram e já tomaram o caminho errado, e a mentira os acompanha (v. 3). Carregam veneno de cobra e lembram a naja que se faz de surda e fecha o ouvido (v. 4) para não ouvir a voz dos encantadores, nem do mais hábil em lançar encantamentos (v. 5).

Então o salmista se volta para Deus e pede. Que Deus despedace os dentes deles e que o Senhor arranque as presas dos leões jovens (v. 6). Que se desfaçam como água que corre e se perde; que as suas flechas, quando apontadas, fiquem sem ponta (v. 7). Que se derretam como a lesma no próprio rastro, e sejam como a criança que nasce sem vida e nunca conhece a luz do dia (v. 8). Antes que as panelas sintam o calor dos espinhos, verdes ou em brasa, Deus os arrebatará como num redemoinho (v. 9).

O salmo termina olhando para o resultado. Quando a vindicação de Deus vier, o justo se encherá de alegria e atravessará o campo como vencedor, com os pés tingidos do sangue dos perversos (v. 10). E as pessoas dirão que, afinal, o justo tem a sua recompensa, e que, de fato, há um Deus que exerce juízo sobre a terra (v. 11).


🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)

Versículos 1-2 — A pergunta aos que se assentam para julgar
O salmo começa com um advérbio de surpresa e desconfiança, ha'umnam: será mesmo? É o tom de quem já sabe a resposta e quer obrigar o interlocutor a encará-la. As duas perguntas do v. 1 estão em paralelismo sinonímico. A primeira pergunta se eles falam o que é tsedeq, justiça; a segunda, se julgam com mesharim, retidão, palavra que sugere o que é plano, nivelado, sem desvio. O verbo da segunda linha é shafaṭ, julgar, o mesmo que voltará no último versículo, quando o salmo confessa o Deus que julga. Essa moldura é a chave do poema: ele começa com juízes que não julgam com retidão e termina com o Juiz que julga de verdade.

A palavra difícil está na primeira linha. O texto hebraico tradicional traz 'elem, que significa silêncio ou mudez. Lida assim, a pergunta seria: "é em silêncio que vocês falam justiça?", o que alguns entendem como uma acusação aos que se calam diante da injustiça quando deveriam falar. Muitos estudiosos, porém, leem as mesmas consoantes com outras vogais, 'elim, que pode significar deuses, poderosos ou seres divinos, como em Êx 15.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Nesse caso os destinatários são chamados, com ironia, de "deuses". Essa leitura combina com o paralelismo da segunda linha, que fala dos bene 'adam, os filhos de Adão, os seres humanos, como objeto do julgamento.

Quem seriam esses "deuses"? Há três respostas principais. Para uns, são os juízes e governantes humanos, chamados de deuses porque exercem uma função que pertence a Deus; é o mesmo uso do Salmo 82 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em que Deus repreende os que julgam injustamente e lhes lembra que, apesar do título, morrerão como qualquer homem (Sl 82.1-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus recorreu a esse salmo diante dos que o acusavam de blasfêmia, observando que a própria Escritura chama de deuses aqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida (Jo 10.34-36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Para outros, são poderes espirituais que estariam por trás dos governos das nações, como sugerem algumas leituras do Salmo 82 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e de Dt 32.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Para outros ainda, a palavra deve ser lida como no texto tradicional, e não há "deuses" no versículo. A primeira leitura é a mais simples e a mais adotada, e o restante do salmo, que fala de mãos, de bocas e de nascimento, aponta para seres humanos. Em qualquer caso, o alvo é o mesmo: o poder de julgar exercido contra a justiça.

O v. 2 responde às perguntas com um 'af, "pelo contrário". Duas linhas paralelas descrevem a perversão completa da justiça. No coração (lev), eles praticam 'olot, injustiças, perversidades. Na terra (ba'arets), eles pesam (tefallesun, do mesmo campo de peles, a balança de precisão) a violência (ḥamas) das suas mãos. A imagem é de uma ironia amarga: a balança, símbolo da justiça e da honestidade comercial (Lv 19.35-36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Pv 16.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), é usada para dosar a violência, para medir com cuidado quanto mal pode ser feito sem escândalo. A palavra ḥamas é a mesma que, no relato do dilúvio, descreve a terra cheia de violência (Gn 6.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Note-se também a expressão "na terra", que volta no v. 11: os juízes corruptos operam na terra, mas é também na terra que Deus mostrará o seu juízo.

Versículos 3-5 — Serpentes surdas desde o ventre
O v. 3 dá um passo atrás e fala da origem do mal. Os resha'im, os ímpios, estão desviados (zoru, tornaram-se estranhos) desde o útero (reḥem); andam errantes (ta'u) desde o ventre (beṭen), falando mentira (kazav). O paralelismo é sinonímico e enfático. O salmista não está elaborando uma doutrina sistemática do pecado original, mas usa uma hipérbole para dizer que a maldade dos injustos não é acidente nem deslize de um dia: está entranhada, vem de longe, tornou-se natureza. O Salmo 51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) fala de modo parecido, ao confessar que o pecado acompanha o ser humano desde a concepção (Sl 51.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A diferença é que lá a confissão é feita em primeira pessoa, por um pecador arrependido, e aqui a frase descreve outros. O leitor cristão faz bem em lembrar as duas coisas: o mal descrito no Salmo 58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não é estranho ao seu próprio coração (Rm 3.9-12, 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A mentira (kazav) é a marca dessas pessoas. Num tribunal, a mentira é a arma mais letal: um falso testemunho pode tirar a vida de um inocente. A Lei sabia disso e punia a testemunha falsa com a pena que ela queria impor ao outro (Dt 19.16-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O caso de Nabote, morto por causa de duas testemunhas pagas e de anciãos que aceitaram a farsa, mostra como a justiça podia ser usada para matar (1Rs 21.8-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Os vv. 4-5 desenvolvem a imagem da serpente. O veneno deles (ḥamah, palavra que significa também calor, furor) é como o veneno da serpente (naḥash). O salmista os compara ao peten, provavelmente uma espécie de víbora ou naja, que é surda e tapa o ouvido para não escutar a voz dos encantadores (melaḥashim) nem do mais hábil em fazer encantamentos (ḥover ḥavarim meḥukkam, literalmente "o que ata nós com perícia", expressão que vem da prática de amarrar feitiços). A arte de encantar serpentes era conhecida no Oriente antigo, e a Bíblia a menciona sem aprová-la como prática, apenas como imagem (Ec 10.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 8.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O ponto da comparação não é zoológico, mas moral. A serpente desta imagem não é surda por natureza, e sim por escolha: ela tapa o ouvido. Os ímpios não ignoram o que é justo; recusam-se a ouvir. Nenhuma voz os alcança, nem a da Lei, nem a dos profetas, nem o clamor das vítimas. A imagem da serpente lembra ainda a primeira mentira da Bíblia, dita pela serpente no jardim (Gn 3.1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e prepara o leitor para entender que a injustiça dos juízes tem raízes mais fundas que a mera ganância.

Versículos 6-9 — Sete imagens para o fim do poder injusto
Aqui o salmo muda de destinatário. Até agora falava aos injustos e sobre eles; a partir do v. 6, fala a Deus. É uma mudança decisiva: o salmista não pega uma arma, não organiza uma revolta, não arma uma cilada. Ele ora. Tudo o que pede, pede a Deus, e deixa nas mãos dele a execução.

O primeiro pedido é que Deus quebre (haros) os dentes deles na boca, e que o Senhor arranque os caninos (malte'ot, os dentes de mastigar) dos kefirim, os leões novos, no auge da força. A imagem muda da serpente para o leão, mas o alvo continua sendo a boca, o órgão da mentira e da devoração. O pedido não é de tortura, mas de desarme: um leão sem dentes não devora mais ninguém. Outros salmos usam a mesma imagem para descrever a vitória de Deus sobre os que oprimem (Sl 3.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) pede que os injustos percam a capacidade de ferir.

O v. 7 traz duas imagens. Na primeira linha, que sejam rejeitados ou se desfaçam (yimma'asu) como águas que escorrem e se perdem. Nos uádis, os leitos secos do sul de Israel, a água de uma chuva forte corre com violência e logo some na areia. A segunda linha é obscura: fala de alguém que retesa o arco ou aponta as suas flechas, e de algo que fica cortado ou murcho. Pode ser um pedido de que as flechas dos ímpios fiquem sem ponta quando eles atirarem, ou de que eles mesmos murchem como a erva cortada quando Deus apontar as suas flechas. As duas leituras são defendidas, e o sentido geral não muda: que a força deles se torne inútil.

O v. 8 acrescenta mais duas imagens. A primeira é a da lesma (shablul, palavra que só aparece aqui), que parece derreter enquanto se arrasta, deixando atrás de si um rastro úmido. A crença antiga de que a lesma se consumia ao andar dava força à imagem. A segunda é a do nefel 'eshet, o aborto de uma mulher, o filho que nasce morto e não chega a ver o sol. A imagem é dolorosa, e o próprio Jó a usou quando desejou não ter nascido (Jó 3.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Eclesiastes também a emprega ao falar do que veio em vão e se foi nas trevas (Ec 6.3-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aqui o salmista pede que o poder dos injustos seja assim: algo que nunca chegue à luz, que não chegue a dar fruto.

O v. 9 é um dos versículos mais difíceis do Saltério. O hebraico, literalmente, fala de panelas (sirot) que ainda não sentiram o calor de espinhos ('aṭad), de algo "vivo" e de algo "ardente", e de um redemoinho que leva tudo embora. Há um jogo de palavras entre sir, panela, e sirim, espinhos, o mesmo que aparece em Ec 7.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). A leitura mais comum é que, antes mesmo que a panela posta sobre o fogo de espinhos chegue a esquentar, um vento forte varre tudo, o cru e o queimado, o verde e o seco. A ideia é a rapidez: o juízo de Deus chegará antes que os ímpios terminem de preparar a sua refeição. O versículo, porém, tem tantas dificuldades que nenhum intérprete deve ser dogmático sobre os detalhes.

As imagens dos vv. 6-9 têm uma progressão: da boca desarmada à água que some, da lesma que se desfaz ao aborto que não vê a luz, da panela que nem esquenta ao vento que leva tudo. Todas falam de desaparecimento, não de tormento. O salmista não pede que os injustos sofram para sempre, mas que o poder deles acabe depressa e não volte. É a oração de quem já não aguenta ver o mal prosperar.

Versículos 10-11 — A alegria do justo e a confissão de todos
O v. 10 contém a imagem mais dura do salmo. O justo se alegrará diante de naqam, a vingança, e os seus pés serão lavados no sangue dos perversos. Duas observações são necessárias. A primeira é que naqam, na Bíblia, não é a vingança pessoal e descontrolada, mas a vindicação legítima, a reparação da justiça violada, e ela pertence a Deus. A Lei proíbe que o israelita se vingue do seu próximo (Lv 19.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Deus reivindica para si a vingança e a retribuição (Dt 32.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Por isso o justo do Salmo 58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não se vinga; ele vê a vingança que Deus executa. A segunda é que a imagem dos pés banhados em sangue pertence à linguagem convencional das batalhas antigas, em que o vencedor pisava o campo depois da vitória. O Salmo 68 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) usa expressão semelhante (Sl 68.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Isaías descreve o guerreiro divino que volta de Edom com as vestes manchadas, como quem pisou o lagar (Is 63.1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não se trata de um retrato de crueldade sádica, mas de um modo vigoroso de dizer que a vitória da justiça será completa.

Mesmo assim, não convém suavizar demais. O salmo expressa uma alegria real diante da derrota dos ímpios, e o leitor cristão precisa se perguntar o que fazer com ela. A resposta, que a seção 6 desenvolve, passa pela cruz. Por ora, basta notar o que causa a alegria do justo: não o sofrimento do inimigo em si, mas o fato de que a justiça finalmente aconteceu. Quem já viu um torturador absolvido ou um explorador de crianças sair rindo do tribunal sabe que essa alegria não é cruel; é o alívio de quem descobre que o mundo não está entregue ao mal.

O v. 11 fecha o salmo com uma confissão pública. Quem fala agora é 'adam, o ser humano, qualquer pessoa, a mesma palavra que estava na expressão "filhos de Adão" do v. 1. As pessoas reconhecerão duas coisas, ambas introduzidas pelo advérbio 'akh, certamente, afinal. A primeira é que há peri, fruto, para o justo: a fidelidade não foi em vão. A palavra não sugere uma recompensa mercenária, mas o fruto natural de uma árvore plantada junto às águas (Sl 1.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A segunda é que existe 'Elohim shofeṭim ba'arets, Deus exercendo juízo sobre a terra. Um detalhe gramatical chama a atenção: o particípio "julgando" está no plural, concordando com a forma plural de 'Elohim. Pode ser simples concordância com a forma da palavra; mas, se o v. 1 fala mesmo de "deuses" que julgam mal, o contraste é eloquente: os falsos deuses do tribunal humano caem, e o único Deus verdadeiro é quem de fato julga.

A estrutura geral do salmo é, portanto, uma moldura: o v. 1 pergunta se os juízes julgam com retidão; o v. 11 responde que há um Deus que julga. No meio, a acusação (vv. 2-5) e a súplica (vv. 6-9), com a alegria do justo (v. 10) como ponte para a confissão final. O salmo começa no tribunal corrompido da terra e termina no tribunal incorruptível de Deus, que também se manifesta na terra.


✨ 4. Versículos-Chave

Sl 58.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — As perguntas iniciais e a resposta do v. 2 formam uma das acusações mais incisivas da Bíblia contra a corrupção da justiça. A imagem da balança que pesa violência mostra que a injustiça mais perigosa é a que se apresenta com aparência de legalidade. Na tradição judaica e cristã, estes versículos foram lidos como advertência aos que governam e julgam: o poder de decidir sobre a vida dos outros é delegado por Deus, e ele pedirá contas (Rm 13.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ef 6.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Sl 58.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O versículo descreve a profundidade do mal humano: a mentira não é um acidente, mas um desvio que começa cedo. Lido ao lado de Sl 51.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e de Rm 3.10-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), ele lembra que o problema da injustiça não está apenas nas estruturas, mas no coração humano. Para o leitor cristão, é também um aviso contra a autojustiça: o salmo fala dos outros, mas o evangelho mostra que a mesma raiz está em todos.

Sl 58.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O pedido para que Deus despedace os dentes dos leões é o centro imprecatório do salmo. Repare a quem ele se dirige: a Deus. O salmista não toma a justiça nas próprias mãos; entrega a causa a quem julga com retidão. Paulo ensinará a mesma atitude ao proibir os crentes de se vingarem e ao mandar que deixem lugar para a ira de Deus, citando Dt 32.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (Rm 12.17-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Sl 58.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A confissão final é o versículo mais citado do salmo e a sua resposta à pergunta inicial. Ele afirma que a justiça de Deus não é apenas futura nem apenas celestial: o seu juízo alcança a terra e a história. O Novo Testamento confirma e aprofunda essa certeza ao anunciar que Deus já fixou a data do julgamento do mundo e escolheu quem o conduzirá: o homem que ele ressuscitou dentre os mortos (At 17.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).


⛪ 5. Temas Teológicos Centrais

A justiça como encargo recebido de Deus. O salmo pressupõe que o poder de julgar não pertence a quem o exerce, mas é delegado por Deus. Por isso os juízes são chamados, com ironia, de "deuses": eles ocupam um lugar que é de Deus e respondem a ele. Moisés já dizia aos juízes de Israel que o julgamento pertence a Deus (Dt 1.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quando esse encargo é traído, o pecado é duplo: contra a vítima e contra Deus, cujo nome é usado para cobrir a injustiça. O Novo Testamento mantém a mesma convicção ao dizer que toda autoridade vem de Deus e que o governante está a serviço de Deus para o bem das pessoas (Rm 13.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E Jesus, diante de Pilatos, lembrou ao governador que a autoridade que ele exercia vinha de cima (Jo 19.10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A profundidade do mal humano. O salmo não trata a injustiça como um problema técnico, que se resolve com melhores leis. Os ímpios estão desviados desde o ventre, falam mentira, são surdos por escolha. Essa visão sóbria do coração humano atravessa a Escritura, do diagnóstico antes do dilúvio (Gn 6.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) à constatação de Jeremias de que o coração é enganoso acima de tudo (Jr 17.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ela explica por que reformas, por mais necessárias que sejam, nunca bastam. O mal precisa ser julgado e o coração precisa ser renovado, e só Deus pode fazer as duas coisas.

A oração imprecatória como entrega da causa a Deus. O Salmo 58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é uma oração, não um plano de ação. O que o salmista faz com a sua indignação é levá-la a Deus. Isso é importante, porque o mesmo Deus que proíbe a vingança pessoal (Lv 19.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Pv 20.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 24.29) convida o oprimido a clamar por justiça. A oração imprecatória não é o oposto do amor ao inimigo; é a recusa de fingir que o mal não importa, unida à recusa de fazer justiça com as próprias mãos. Jesus contou a parábola do juiz iníquo e da viúva insistente justamente para ensinar que Deus fará justiça aos seus escolhidos que clamam dia e noite (Lc 18.1-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As almas debaixo do altar, no Apocalipse, perguntam ao Soberano até quando ele adiará o julgamento (Ap 6.9-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Deus não as repreende por isso.

O Deus que exerce juízo sobre a terra. A certeza do v. 11 sustenta o salmo inteiro. Sem ela, só restariam o cinismo ou a violência. Com ela, o justo pode esperar. A Bíblia afirma que Deus é o juiz de toda a terra e que faz justiça (Gn 18.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), que ele se levanta para julgar quando os humildes são esmagados (Sl 76.8-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que a sua justiça se manifesta na história, ainda que de modo parcial, antes do juízo final. O Novo Testamento dá a esse juízo um rosto: o Pai entregou ao Filho todo o julgamento (Jo 5.22, 27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e é diante do tribunal de Cristo que todos comparecerão (2Co 5.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).


✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo

6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?

O Salmo 58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) nasce no coração da Queda: a mentira da serpente, a violência que encheu a terra antes do dilúvio, a injustiça instalada nos lugares onde devia haver justiça. Pertence à Redenção em andamento, porque mostra o povo de Deus aprendendo a clamar pelo juízo divino em vez de se vingar, e afirma a convicção de que Deus intervém na história. Deixa, porém, uma pergunta sem resposta: como Deus pode julgar os ímpios sem condenar a todos, já que o mal que o salmo denuncia está, em alguma medida, em todo coração humano? A resposta vem na Redenção consumada, quando o próprio Juiz é julgado injustamente e carrega o juízo que pesava sobre os culpados. E o salmo aponta para a Nova Criação, em que a justiça terá morada definitiva (2Pe 3.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e não haverá mais tribunais corrompidos, porque o próprio Cristo julgará com equidade.

6.2 — O Justo condenado por juízes injustos

O leitor do Novo Testamento não pode ler o Salmo 58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) sem pensar no julgamento de Jesus. Nenhum texto do Novo Testamento cita este salmo, e não se trata de uma profecia direta, mas o paralelo é inevitável. No tribunal do sinédrio, os principais sacerdotes procuravam testemunhos contra Jesus para condená-lo e não os encontravam, porque os depoimentos falsos não concordavam entre si (Mc 14.55-59 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pilatos reconheceu que não achava culpa nele e, ainda assim, entregou-o para ser crucificado, lavando as mãos diante da multidão (Mt 27.24-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Herodes e Pilatos, que antes eram inimigos, tornaram-se amigos naquele dia (Lc 23.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A balança de que fala o v. 2 nunca pesou violência com tanta precisão.

Pedro, no seu primeiro sermão, disse aos habitantes de Jerusalém que eles tinham levado Jesus à morte servindo-se de gente que não conhecia a Lei de Deus (At 2.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a igreja, orando depois da prisão de Pedro e João, leu o Salmo 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) à luz da paixão: os reis da terra e os governantes, Herodes e Pôncio Pilatos com os gentios e o povo de Israel, se reuniram contra o Ungido de Deus (At 4.25-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que o Salmo 58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) descreve em termos gerais, a paixão de Cristo mostra no seu grau máximo: o inocente julgado pelos que deviam fazer justiça.

Há aqui uma inversão que o salmo não podia prever. No Salmo 58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o justo é a vítima que pede a Deus que julgue os injustos. Na paixão, o Justo por excelência é condenado, e em vez de pedir que os dentes dos seus juízes sejam quebrados, ele pede ao Pai perdão para os que o pregam na cruz, alegando em favor deles a ignorância (Lc 23.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pedro lembra que Jesus, ofendido e maltratado, não devolveu a ofensa nem ameaçou ninguém: confiou a própria causa ao Juiz justo (1Pe 2.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É exatamente o movimento do Salmo 58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), levado ao extremo: entregar a causa a Deus. Mas Jesus o faz com perdão nos lábios.

6.3 — A vingança que caiu sobre a cruz

O que fazer, então, com a alegria do v. 10? Em julho de 1937, quando a igreja confessante alemã enfrentava a perseguição do regime nazista, Dietrich Bonhoeffer pregou um sermão sobre este salmo. Segundo o texto que se conservou, ele não o descartou como sub-cristão. Defendeu que o crente pode orar o Salmo 58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) desde que o faça com a consciência de que a vingança pertence a Deus e de que o próprio orante não é inocente. E apontou para a cruz como o lugar onde a vingança de Deus contra o pecado se cumpriu: Deus não deixou o mal impune, mas fez recair o juízo sobre o seu Filho, para que os inimigos pudessem ser perdoados.

Essa leitura tem fundamento no Novo Testamento. Paulo afirma que Deus apresentou Cristo como propiciação, para mostrar a sua justiça, porque tinha deixado sem castigo os pecados cometidos antes (Rm 3.25-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Deus não fecha os olhos para a injustiça; ele a julga. Mas o juízo recai sobre o Filho, que carregou a maldição que pesava sobre nós (Gl 3.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O sangue que, no v. 10, é o do ímpio derrotado, na cruz é o do Justo, derramado em favor de culpados (1Pe 3.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Isso não anula a imagem do salmo, mas a transfigura: o justo se alegra porque a justiça foi feita, e se alegra ainda mais porque foi feita de um modo que permite ao culpado, até ao juiz corrupto, ser perdoado se se arrepender.

A cruz, porém, não elimina o juízo final. Para os que recusam a graça, o Novo Testamento mantém a linguagem da retribuição (2Ts 1.6-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 19.11-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No Apocalipse, o Cavaleiro fiel e verdadeiro julga com justiça e veste um manto tingido de sangue (Ap 19.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), imagem que retoma Is 63.1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Os intérpretes discutem se o sangue é o dos inimigos ou o do próprio Cristo, derramado na cruz; talvez as duas coisas estejam presentes, porque quem julga é aquele que primeiro se deixou julgar. O Salmo 58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ganha assim o seu lugar definitivo: é a oração que só pode ser feita com segurança por quem já foi alcançado pela misericórdia e deseja que o juízo de Deus se cumpra, sabendo que ele passa pela cruz.

6.4 — Cristo, o Juiz que não se corrompe

O v. 11 afirma que há um Deus que exerce juízo sobre a terra. O Novo Testamento diz quem é esse Juiz. Jesus ensinou que o Pai confiou ao Filho a tarefa inteira de julgar, para que a honra dada ao Pai seja dada também ao Filho (Jo 5.22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e que essa autoridade lhe pertence por ser ele o Filho do Homem (Jo 5.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Isaías tinha anunciado o rebento de Jessé, sobre o qual repousaria o Espírito, que não julgaria pela aparência nem pelo que ouve dizer, mas faria justiça aos pobres e decidiria com retidão a causa dos humildes da terra (Is 11.1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os juízes do Salmo 58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) eram surdos à verdade; o Messias tem os ouvidos abertos e o deleite no temor do Senhor.

Há também uma ligação com a imagem da serpente. Os ímpios dos vv. 4-5 têm veneno de serpente e falam mentira desde o ventre. Jesus disse aos que tramavam a sua morte que eles eram filhos do diabo, que mente e mata desde o começo (Jo 8.44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e comparou a uma ninhada de serpentes venenosas os líderes religiosos que fechavam o reino aos outros (Mt 23.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); cf. Mt 3.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A luta do Salmo 58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) contra a mentira venenosa é, no fundo, a luta contra a serpente antiga, cuja cabeça foi esmagada pelo descendente da mulher (Gn 3.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 12.9-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os dentes que o salmista pede que Deus quebre são, em última análise, os da antiga serpente, desarmada na cruz, onde Cristo tirou as armas dos poderes do mal e fez da derrota deles um espetáculo público (Cl 2.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

6.5 — O Evangelho no capítulo

Pregar o Salmo 58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) cristocentricamente exige honestidade em duas direções. Primeiro, é preciso dar voz às vítimas. O salmo afirma que a injustiça importa para Deus, que a corrupção dos tribunais é uma afronta a ele e que é legítimo clamar por justiça. Uma igreja que só sabe falar de perdão e nunca de juízo deixa os oprimidos sem palavras. Segundo, é preciso lembrar que todos estão, de algum modo, do lado errado do v. 3. Ninguém pode orar o Salmo 58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) como se fosse inteiramente justo.

A boa notícia é que o Deus que julga a terra julgou o pecado na cruz. O Justo foi condenado por juízes injustos e, ao mesmo tempo, carregou o juízo justo de Deus. Por isso o salmo pode ser orado de dois modos: pelo oprimido, que entrega a sua causa ao Juiz que não falha; e pelo opressor arrependido, que descobre que a vingança que ele merecia caiu sobre outro. Até Saulo de Tarso, que aprovou a morte de Estêvão e perseguiu a igreja, foi alcançado por essa graça (At 8.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Tm 1.13-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmo termina com as pessoas reconhecendo que há fruto para o justo. O evangelho acrescenta que esse fruto é oferecido também a quem não era justo, por meio daquele que Deus deu aos que creem como a justiça deles (1Co 1.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).


🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)


🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico

Não se acostume com a injustiça. O salmo não aceita que a corrupção seja tratada como parte normal da vida. Num mundo em que tribunais são comprados, licitações são combinadas e testemunhas são silenciadas, o cristão é chamado a se indignar, a orar e, quando estiver ao seu alcance, a agir com justiça. Jesus, que derrubou as mesas dos cambistas no templo (Jo 2.13-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mostrou que a santidade de Deus não convive com a exploração disfarçada de religião ou de lei.

Leve a sua ira a Deus, não à vingança. Quem foi vítima de injustiça carrega uma raiva legítima. O Salmo 58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ensina a não engoli-la nem a despejá-la sobre o agressor, mas a colocá-la diante de Deus em oração, com palavras fortes, se for preciso. Esse é o caminho que Cristo seguiu quando entregou a sua causa ao Pai (1Pe 2.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A entrega não é passividade; é libertação. Quem deixa a vingança com Deus se livra da tarefa impossível de ser juiz de tudo.

Examine a sua própria balança. Os juízes do salmo pesavam a violência com cuidado. Ninguém está livre de pequenas versões disso: o relatório maquiado, a fofoca que destrói uma reputação, o favorecimento de quem pode retribuir. O cristão que ocupa qualquer posição de autoridade, como pai, chefe, professor, pastor ou servidor público, deve lembrar que o seu poder é delegado e que prestará contas a Cristo (Cl 4.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A graça não elimina essa responsabilidade; ela a torna possível.

Ore pelos que oprimem, sem deixar de clamar por justiça. O mesmo Jesus que ensinou a orar pelos perseguidores (Mt 5.44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) ensinou a clamar dia e noite por justiça (Lc 18.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As duas orações não se excluem. Pedir que o poder do injusto seja quebrado e pedir que o injusto se converta são, na verdade, a mesma esperança vista de dois lados: que o mal acabe.

Espere o dia em que a verdade aparecerá. Muitas injustiças não serão corrigidas nesta vida. O v. 11 não promete que todo caso será resolvido logo, mas que existe um Deus que julga. Para o cristão, essa certeza tem data e nome: o dia em que Cristo julgará os vivos e os mortos (2Tm 4.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Até lá, a fidelidade não é inútil; há fruto para o justo.


🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo

  1. O salmo começa perguntando se os juízes julgam com retidão e termina afirmando que há um Deus que julga. Como essa moldura ajuda a entender as imagens duras do meio do poema?
  2. O v. 2 fala de uma balança usada para pesar violência. Que formas de injustiça "legalizada" você reconhece hoje, e como o cristão pode responder a elas?
  3. A serpente dos vv. 4-5 tapa o ouvido. Em que situações nos tornamos surdos à verdade, à Palavra ou ao clamor dos que sofrem?
  4. Como o fato de Jesus ter sido condenado por juízes injustos e, ainda assim, ter orado pelos seus algozes muda a maneira de ler os vv. 6-10?
  5. É legítimo para um cristão orar com as palavras deste salmo? Em que condições, e com que cuidados?
  6. Para meditação e oração: pense numa injustiça concreta que você sofreu ou que alguém próximo sofre. Entregue-a a Deus em oração, com sinceridade, e peça a graça de esperar o juízo dele sem se vingar, lembrando do Cristo que entregou a sua causa ao Pai.

📚 10. Para Aprofundamento

Cristocêntrica / Teologia Bíblica:

  • Dietrich Bonhoeffer — Das Gebetbuch der Bibel (1940), sobre os Salmos como oração de Cristo e da igreja, inclusive os salmos de vingança
  • Christopher J. H. Wright — Conhecendo Jesus através do Antigo Testamento (Ultimato) / Knowing Jesus Through the Old Testament (IVP, 1992)
  • C. S. Lewis — Reflections on the Psalms (1958), com o capítulo sobre as maldições nos salmos
  • Erich Zenger — A God of Vengeance? Understanding the Psalms of Divine Wrath (Westminster John Knox, 1996)
  • John N. Day — Crying for Justice: What the Psalms Teach Us about Mercy and Vengeance in an Age of Terrorism (Kregel, 2005)

Comentários dos Salmos:

  • Derek Kidner — Salmos 1–72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
  • Marvin E. Tate — Psalms 51–100 (Word Biblical Commentary, 1990)
  • John Goldingay — Psalms, vol. 2: Psalms 42–89 (Baker Academic, 2007)
  • Nancy deClaissé-Walford, Rolf A. Jacobson e Beth LaNeel Tanner — The Book of Psalms (NICOT, Eerdmans, 2014)
  • Agostinho — Comentário aos Salmos (Paulus, coleção Patrística)

Sabedoria para o Cotidiano
Quando a injustiça veste toga e a mentira ganha a causa, o Salmo 58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ensina a não engolir a indignação nem a transformá-la em vingança, mas a levá-la, inteira e sem disfarce, ao Deus que julga a terra. Ele não esqueceu nenhuma lágrima: julgou o pecado na cruz do Filho, condenado por juízes corruptos, e julgará o mundo com retidão por meio dele. Entregue a sua causa a esse Juiz, examine com honestidade a sua própria balança e continue fazendo o bem, porque a fidelidade nunca é inútil e há fruto para quem espera nele.

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