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Salmos · 19 de 66 · Antigo Testamento

Salmos — Capítulo 68

Infográfico de “Salmos 68 — Capítulo a capítulo”, gerado automaticamente a partir do estudo publicado, com 8 partes: O Deus que se levanta e o pai dos órfãos; A marcha pelo deserto e a chuva sobre a herança; As mensageiras da vitória e os reis em fuga; O monte que Deus escolheu e a subida ao alto; O Deus que carrega o fardo e vence a morte; A procissão do Rei no santuário; Reis com presentes e a Etiópia de mãos estendidas; Os reinos da terra cantam ao que cavalga os céus.

Título do capítulo: A marcha de Deus do Sinai a Sião
Gênero literário: Poesia/Salmo (hino processional e de vitória, com traços de salmo real e de liturgia de entronização; celebra a marcha de Deus desde o deserto até o santuário e convoca os reinos da terra ao louvor)
Número de versículos: 35

Nota de precisão: a numeração segue a tradição das Bíblias em português, em que a inscrição ("ao regente; de Davi; salmo, cântico") não é contada como versículo. No hebraico impresso, a inscrição forma sozinha o versículo 1, e por isso ali o salmo tem trinta e seis versículos e todos os números ficam adiantados em um; na antiga tradução grega, que junta os Salmos 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 10, este é o salmo sessenta e sete. As referências deste estudo seguem a numeração portuguesa. A palavra selá aparece três vezes (vv. 7, 19 e 32). O Salmo 68 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é, por consenso, um dos textos mais difíceis de toda a Bíblia hebraica: tem várias palavras raras, algumas que não aparecem em nenhum outro lugar, frases de sintaxe obscura e mudanças bruscas de cena. Onde o sentido é incerto, este estudo o diz.


🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural

Quem lê o Salmo 68 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) pela primeira vez tem a impressão de assistir a um desfile visto aos pedaços, por entre a multidão. Há um Deus que se levanta e inimigos que fogem; um deserto que treme; chuva abundante; mulheres que anunciam vitória; reis que escapam; uma pomba de asas prateadas; neve sobre um monte; montanhas que olham com inveja; carros de guerra aos milhares; uma subida ao alto com cativos; cabeças esmagadas; uma procissão com cantores, músicos e moças tocando tamboril; tribos de Israel em fila; uma fera do canavial; enviados do Egito; e, no fim, os reinos da terra cantando a Deus. O efeito é desconcertante, e por isso mesmo poderoso.

A dificuldade é real. Os estudiosos reconhecem no Salmo 68 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) o texto mais obscuro do Saltério. Há palavras raríssimas, algumas que aparecem apenas aqui, e passagens em que o texto hebraico parece ter sofrido danos na transmissão. Em meados do século XX, W. F. Albright chegou a propor que o salmo não seria um poema unitário, mas uma lista de começos de antigos cânticos, reunidos como um catálogo; a hipótese foi muito discutida e hoje poucos a seguem integralmente, mas ela mostra o tamanho do problema. A maioria dos intérpretes atuais reconhece no salmo uma unidade de movimento, ainda que feita de quadros justapostos: a marcha de Deus, que sai do Sinai, atravessa o deserto, conquista a terra e sobe até o seu santuário em Sião, onde é aclamado como rei por Israel e pelas nações.

A inscrição atribui o salmo a Davi (ledawid) e o chama mizmor shir, salmo e cântico, como os três anteriores (Sl 65–67 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A preposição le pode indicar autoria, dedicação ou pertença a uma coleção, e a tradição leu a inscrição como autoria davídica. Muitos estudiosos, porém, pensam que o salmo reúne material muito antigo, algumas linhas talvez entre as mais antigas da poesia hebraica, por causa dos paralelos com o cântico de Débora (Jz 5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e com a bênção de Moisés (Dt 33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Também não há consenso sobre a ocasião. A tradição judaica e muitos intérpretes cristãos ligaram o salmo à subida da arca a Jerusalém, quando Davi a levou da casa de Obede-Edom à cidade, com cânticos, danças e instrumentos (2Sm 6.12-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Cr 15.25-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A ligação é sugestiva: o salmo abre com as palavras que Moisés pronunciava quando a arca partia (Nm 10.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), descreve uma procissão até o santuário (vv. 24-27) e celebra a escolha do monte onde Deus quis habitar (v. 16). É uma hipótese razoável, mas é hipótese.

Três fios atravessam o salmo e ajudam a não se perder nele. O primeiro é a memória do Sinai. Os vv. 7-8 lembram a saída de Deus à frente do povo no deserto e a terra tremendo diante dele, e o v. 17 diz que o Senhor está entre os seus carros como no Sinai, agora no santuário. O segundo é a teofania de guerra, comum na poesia antiga de Israel: Deus vem como guerreiro, e a natureza se agita à sua passagem (Jz 5.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 33.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hc 3.3-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O terceiro é a monarquia de Deus: ele é chamado de rei (v. 24), cavalga os céus (vv. 4, 33) e recebe tributo dos reis (v. 29). Em toda a poesia do antigo Oriente Próximo, os deuses eram celebrados como guerreiros que vencem os inimigos e depois ocupam o seu palácio. O salmo usa algumas dessas imagens, mas para afirmar que só o Deus de Israel é rei de verdade, e que o seu reinado tem uma marca que nenhum deus vizinho tinha: ele é pai de órfãos e defensor de viúvas (v. 5).

A tradição judaica associou o salmo à festa das Semanas, o Pentecostes, que passou a lembrar também a entrega da Lei no Sinai; as referências ao Sinai e ao Deus que dá a palavra explicam a escolha. Na tradição cristã, o salmo foi lido sobretudo à luz da ascensão de Cristo e do derramamento do Espírito, por causa do uso que Paulo faz do v. 18 na carta aos Efésios (Ef 4.7-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Uma palavra pastoral antes de começar. O Salmo 68 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) contém versos de grande ternura (vv. 5-6, 9-10, 19-20) e versos de grande violência (vv. 21-23, 30). Ambos pertencem à linguagem da guerra santa do antigo Israel, em que a vitória de Deus sobre os inimigos é também a libertação dos oprimidos. O leitor cristão não deve apagar esses versos, nem lê-los como licença para a violência humana. É preciso lê-los dentro da história da salvação, que culmina num Rei que venceu os inimigos de Deus morrendo por eles na cruz e que reserva o juízo final para si mesmo.


📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo

O salmo abre com um anúncio em forma de pedido: quando Deus se põe de pé, os que lhe fazem guerra se espalham e os que o odeiam correm para longe da sua face (v. 1). Os ímpios se desfazem diante dele como fumaça levada pelo vento e como cera posta junto ao fogo (v. 2), enquanto os justos se enchem de alegria na sua presença (v. 3). Todos são chamados a cantar a Deus e preparar o caminho para aquele que cavalga pelas planícies desertas, cujo nome é Yah (v. 4). Ele é pai dos órfãos e defensor das viúvas, na sua santa morada (v. 5); dá um lar aos solitários e liberta os presos para a prosperidade, mas os rebeldes ficam numa terra seca (v. 6).

O salmo lembra a marcha de Deus à frente do povo no deserto (v. 7): a terra tremeu e os céus derramaram chuva diante de Deus, o do Sinai, o Deus de Israel (v. 8). Deus enviou chuva generosa e restaurou a sua herança esgotada (v. 9); o seu rebanho se estabeleceu nela, e na sua bondade Deus proveu para os pobres (v. 10).

O Senhor dá a palavra, e é grande o grupo das mulheres que anunciam a boa notícia (v. 11). Reis de exércitos fogem, e a mulher que ficou em casa reparte os despojos (v. 12). Mesmo que fiquem deitados entre os currais, surgem asas de pomba cobertas de prata, com penas de ouro reluzente (v. 13). Quando o Todo-Poderoso dispersou os reis, foi como neve caindo sobre o monte Salmom (v. 14).

O monte de Basã, monte de muitos picos, é chamado de monte de Deus (v. 15); mas por que os montes altivos olham com inveja para o monte que Deus escolheu para morar, onde o Senhor habitará para sempre (v. 16)? Os carros de Deus são incontáveis, milhares e milhares; o Senhor está no meio deles, e o Sinai está agora no santuário (v. 17). Deus subiu ao alto, levou cativos, recebeu dons entre os homens, até mesmo dos rebeldes, para habitar ali (v. 18).

O Senhor é bendito porque, a cada dia, toma sobre si o peso do seu povo; ele é o Deus que nos salva (v. 19). O nosso Deus é um Deus que salva, e ao Senhor pertencem os caminhos de escape da morte (v. 20). Deus esmagará a cabeça dos inimigos, que persistem na culpa (v. 21). O Senhor promete trazê-los de volta de Basã e das profundezas do mar (v. 22), para que o povo pise no sangue deles e os cães tenham a sua parte (v. 23).

A procissão de Deus é vista: o meu Deus e meu Rei entra no santuário (v. 24). À frente vão os cantores, atrás os tocadores de instrumentos, e no meio as moças tocando tamboril (v. 25). Na assembleia, todos devem bendizer a Deus, os que procedem da fonte de Israel (v. 26). Vêm à frente Benjamim, o menor, e os príncipes de Judá com o seu grupo, os de Zebulom e os de Naftali (v. 27).

O povo pede que Deus mostre a sua força, como já fez antes (v. 28). Por causa do templo em Jerusalém, os reis lhe trarão presentes (v. 29). Que ele repreenda a fera do canavial, a manada de touros com os bezerros dos povos, até que se submetam; que disperse os povos que gostam da guerra (v. 30). Enviados virão do Egito, e a Etiópia se apressará a estender as mãos para Deus (v. 31).

Por fim, os reinos da terra são convidados a cantar a Deus (v. 32), àquele que cavalga os céus antigos e faz ouvir a sua voz poderosa (v. 33). Todos devem reconhecer a força de Deus, cuja majestade está sobre Israel e cujo poder está nas nuvens (v. 34). Deus é temível desde o seu santuário; o Deus de Israel dá força e poder ao seu povo. Bendito seja Deus (v. 35).


🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)

Versículos 1-6 — O Deus que se levanta e o pai dos órfãos
O primeiro versículo retoma, quase palavra por palavra, a fórmula que Moisés pronunciava quando a arca da aliança se punha em marcha no deserto (Nm 10.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A diferença é que, em Números, a fórmula se dirige ao Senhor na segunda pessoa, e aqui fala de Deus na terceira, como um anúncio. Desde a primeira linha, portanto, o salmo nos coloca numa procissão: Deus está em marcha, e a sua presença é perigosa para os inimigos e feliz para os justos. Muitos intérpretes pensam que o salmo era cantado numa procissão real com a arca, e essa abertura reforça a hipótese.

O v. 2 traz duas imagens de dissolução: a fumaça que o vento leva e a cera que derrete perto do fogo. Ambas falam da fragilidade dos inimigos de Deus diante da sua presença. A cera derretendo diante do fogo volta em outros textos para descrever a reação da natureza à vinda de Deus (Sl 97.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mq 1.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O v. 3 inverte a cena: os justos (tsaddiqim) se alegram, exultam diante de Deus e se regozijam com alegria. Os dois versículos formam um paralelismo antitético: a mesma presença que dissolve os ímpios alegra os justos.

O v. 4 convoca ao louvor com uma expressão que tem dado trabalho aos intérpretes. O povo deve preparar o caminho (sollu, aterrar, aplainar uma estrada) para aquele que cavalga ba'aravot. A palavra 'aravot normalmente designa as estepes, as planícies desérticas, e combina com a marcha do deserto descrita nos vv. 7-8. Mas desde a descoberta dos textos de Ugarit, no século XX, muitos estudiosos notaram que o deus Baal era chamado ali de "cavaleiro das nuvens", com uma expressão muito parecida. Por isso, várias leituras modernas entendem que o salmo aplica ao Deus de Israel, de modo polêmico, o título que os cananeus davam ao seu deus da tempestade: quem cavalga as nuvens não é Baal, mas o Senhor. O v. 33 parece confirmar a ideia, ao falar de Deus que cavalga os céus, e o mesmo pensamento aparece na bênção de Moisés (Dt 33.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As duas leituras são possíveis, e talvez o salmo jogue com ambas: Deus marcha pelo deserto e reina sobre as nuvens.

O nome que se canta é Yah, forma abreviada do nome pessoal de Deus, a mesma que aparece no final de haleluyah e no cântico do mar (Êx 15.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Num salmo que usa sobretudo 'Elohim, a presença do nome da aliança é um lembrete de quem é esse Deus: o mesmo que tirou Israel do Egito.

Os vv. 5-6 são o coração ético do salmo. O guerreiro que dispersa os inimigos é, na sua santa morada, 'avi yetomim, pai dos órfãos, e dayyan 'almanot, juiz, defensor das viúvas. Na sociedade de Israel, órfãos e viúvas eram os mais vulneráveis, sem quem os defendesse nos tribunais e sem herança garantida. A Lei mandava protegê-los (Êx 22.22-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 10.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 24.17-21), e os profetas denunciavam quem os explorava (Is 1.17, 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aqui, o próprio Deus se apresenta como o parente que assume a sua causa. O v. 6 amplia o quadro: Deus faz os solitários (yeḥidim) habitarem numa casa, isto é, dá família a quem não tem, e liberta os presos ('asirim) para a kosharot, palavra rara que muitos entendem como prosperidade, bem-estar, e outros como cantos de alegria. Os rebeldes, ao contrário, ficam numa terra calcinada. O contraste lembra a geração do deserto: os que confiaram entraram na terra, os rebeldes ficaram para trás.

Versículos 7-10 — A marcha pelo deserto e a chuva sobre a herança
O v. 7 começa a evocação histórica: quando Deus saiu à frente do seu povo, quando marchou pelo deserto (yeshimon), e um selá interrompe a frase, como se a música precisasse respirar diante da lembrança. O v. 8 descreve a teofania: a terra tremeu, os céus gotejaram diante de Deus. A expressão zeh Sinai, que está no meio do versículo, é difícil. Pode significar "este Sinai", apontando para a montanha, mas muitos estudiosos, apoiados em paralelos de línguas aparentadas, entendem zeh como um antigo pronome com o sentido de "aquele de": Deus, o do Sinai. A mesma expressão aparece no cântico de Débora, que descreve a mesma cena com palavras muito próximas, a terra tremendo e os céus gotejando quando o Senhor saiu de Seir (Jz 5.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A proximidade é tão grande que quase todos os comentaristas admitem uma tradição poética comum.

Os vv. 9-10 passam do tremor à bênção. Deus fez cair uma chuva de nedavot, palavra que significa ofertas voluntárias, generosidade: uma chuva dada de bom grado, abundante. Com ela, firmou a sua herança (naḥalah) quando estava esgotada. A herança pode ser a terra, ressequida, ou o próprio povo, exausto da caminhada. No v. 10, o rebanho (ḥayyatkha, palavra que normalmente significa "os teus seres vivos" e que aqui parece designar a comunidade) se estabeleceu nela, e Deus, na sua bondade, proveu para o pobre ('ani). Mais uma vez, o salmo não deixa o leitor esquecer de quem Deus cuida. A marcha de Deus não termina num desfile de vencedores, mas no pão dado aos pobres.

Versículos 11-14 — As mensageiras da vitória e os reis em fuga
Esta é uma das seções mais obscuras do salmo, e convém lê-la com humildade. O v. 11 diz que o Senhor dá a palavra ('omer), talvez a ordem de batalha, talvez o anúncio da vitória, e que as mensageiras são um grande exército. O particípio hamevasserot está no feminino plural: são mulheres que anunciam a boa notícia. O verbo basar, anunciar boas novas, é o mesmo que Isaías usará para os mensageiros que anunciam a paz e a salvação a Sião (Is 40.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 52.7). Na tradição de Israel, as mulheres celebravam as vitórias com cânticos e danças: Miriã depois do mar (Êx 15.20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), as mulheres que saíram ao encontro de Saul e Davi (1Sm 18.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmo coloca esse coro feminino no centro da celebração.

O v. 12 continua o anúncio: os reis dos exércitos fogem, fogem, e a que fica em casa (newat bayit) reparte os despojos. A imagem é a da mulher que não foi à guerra e que agora distribui o que os guerreiros trouxeram. Os vv. 13-14, por sua vez, estão entre os mais enigmáticos da Bíblia. O v. 13 fala de quem está deitado entre os shefattayim, palavra que pode significar os currais, os fogões de pedra ou os alforjes; a mesma imagem, com palavra quase igual, aparece no cântico de Débora para repreender a tribo de Rúben, que ficou entre os currais enquanto as outras lutavam (Jz 5.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em seguida aparecem as asas de uma pomba cobertas de prata, com as penas de ouro esverdeado. Ninguém sabe ao certo o que a imagem quer dizer. Para alguns, a pomba é Israel, enfim em paz e enriquecido com os despojos; para outros, descreve os objetos preciosos tomados do inimigo; para outros, ainda, é um fragmento de um antigo poema cujo sentido se perdeu. O melhor é reconhecer a dúvida.

O v. 14 diz que, quando o Todo-Poderoso (Shaddai) dispersou os reis ali, caiu neve sobre o Salmom. O monte Salmom é mencionado na história de Abimeleque, perto de Siquém (Jz 9.48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas não se sabe se é esse o monte do salmo. A neve pode ser imagem dos corpos ou das armas espalhados pelo campo, brancos como flocos, ou da própria tempestade que acompanhou a batalha, como no cântico de Débora (Jz 5.20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O sentido geral, porém, é claro: Deus venceu os reis, e a vitória foi dele.

Versículos 15-18 — O monte que Deus escolheu e a subida ao alto
O v. 15 apresenta uma cena de rivalidade entre montanhas. O monte de Basã é chamado de har-'Elohim, monte de Deus, expressão que pode ser lida como superlativo, um monte grandioso, e de har gavnunnim, monte de muitos picos. Basã ficava a leste e a nordeste do mar da Galileia, e o maciço que domina a região, o Hermom, ultrapassa os dois mil metros de altitude. Perto dele, o monte Sião, em Jerusalém, é uma colina modesta. O v. 16 pergunta, com uma palavra rara (teratsdun), por que os montes de muitos picos olham com inveja, ou com hostilidade, para o monte que Deus desejou para a sua morada. A resposta está implícita: Deus não escolhe pelo tamanho. Ele escolheu Sião e ali habitará para sempre. A lição é a mesma de toda a Bíblia, da escolha de Israel, o menor dos povos (Dt 7.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), à escolha de Davi, o mais novo dos irmãos (1Sm 16.11-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O v. 17 descreve o exército de Deus: os seus carros são ribbotayim, duas vezes dez mil, e milhares de shin'an, palavra obscura, talvez "repetidos" ou "multiplicados". A imagem é a de um exército incalculável, como na bênção de Moisés, em que o Senhor vem do Sinai acompanhado de miríades de santos (Dt 33.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A segunda metade do versículo é difícil; o texto diz algo como "o Senhor entre eles, Sinai no santuário". Muitos entendem que a presença de Deus que se manifestou no Sinai está agora no santuário de Sião, e alguns propõem uma pequena correção que daria o sentido de "o Senhor veio do Sinai para o santuário". Em qualquer caso, a ideia é poderosa: o Deus da montanha do deserto transferiu a sua morada para o meio do seu povo.

O v. 18 é o versículo mais famoso do salmo, por causa do uso que Paulo faz dele. Dirigido a Deus, o versículo fala da sua subida ao lugar elevado ('alita lammarom), da captura de prisioneiros (shavita shevi, verbo e substantivo da mesma raiz, como quem diz que Deus aprisionou uma leva de prisioneiros), do recebimento de dons entre os homens (laqaḥta mattanot ba'adam), com a menção dos rebeldes, e da finalidade de tudo: que Yah 'Elohim habite ali. A imagem é a de um rei vitorioso que sobe ao seu monte depois da batalha, levando consigo os prisioneiros de guerra e recebendo o tributo dos vencidos. A expressão ba'adam pode significar "entre os homens", "dos homens" ou "na forma de homens", isto é, os próprios prisioneiros como presente. A menção final dos rebeldes é ambígua: pode indicar que até os rebeldes pagam tributo, ou que até os rebeldes passam a habitar junto de Deus. A maioria entende que a subida é a do Deus vitorioso ao monte Sião, talvez representado pela arca que sobe em procissão. O uso que Paulo faz deste versículo é tratado em detalhe na seção 6.

Versículos 19-23 — O Deus que carrega o fardo e vence a morte
O v. 19 muda de tom e ganha uma ternura inesperada: o Senhor é bendito porque, a cada dia, ya'amos-lanu. O verbo 'amas significa carregar, pôr uma carga. A frase pode ser entendida de dois modos: Deus carrega o nosso fardo, ou Deus nos carrega. Ambos são consoladores, e ambos têm apoio em outros textos (Is 46.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O título que segue, o Deus da nossa salvação (yeshu'atenu), fecha a linha, e o segundo selá convida a parar.

O v. 20 é uma das afirmações mais densas do salmo: o nosso Deus é 'El lemosha'ot, um Deus de salvações, no plural, e ao Senhor pertencem as totsa'ot lamawet, as saídas da morte, os caminhos de escape para fora dela. A expressão pode significar que Deus tem poder para livrar da morte, ou que ele controla as portas da morte, decidindo quem sai e quem entra. A segunda leitura combina com o contexto de guerra; a primeira, com a ternura do v. 19. Em qualquer caso, a morte não é a última palavra: as suas saídas estão nas mãos de Deus.

Os vv. 21-23 são duros, e convém lê-los com cuidado. Deus esmagará a cabeça dos inimigos, o crânio cabeludo de quem anda na sua culpa. A cabeleira longa talvez fosse sinal de guerreiros consagrados ou de orgulho; o que importa é que o inimigo persiste na culpa. O v. 22 traz uma palavra divina: o Senhor diz que fará voltar de Basã e das profundezas do mar. O objeto não é explícito. A maioria entende que Deus trará de volta os inimigos fugitivos, onde quer que se escondam, nas montanhas mais altas ou no fundo do mar, para que recebam o juízo; Amós usa imagens parecidas para dizer que ninguém escapa de Deus (Am 9.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Uma leitura posterior, muito difundida na tradição judaica, entendeu que Deus traria de volta o seu povo disperso, mas o contexto favorece a primeira. O v. 23 completa a cena com uma linguagem de vitória comum na Antiguidade: o pé que pisa no sangue dos inimigos e os cães que comem a sua parte, como na morte de Acabe e de Jezabel (1Rs 21.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 22.38; 2Rs 9.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Esta linguagem pertence ao mundo da guerra antiga e deve ser lida no seu contexto. Ela não autoriza a violência de ninguém. Afirma que o mal que persiste em oprimir não ficará impune, e que o juízo pertence a Deus. Os mesmos salmos que falam assim ensinam a entregar a vingança ao Senhor, e o Novo Testamento leva essa entrega ao extremo, mandando abençoar os inimigos e deixar o juízo nas mãos de Deus (Rm 12.14, 19-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Versículos 24-27 — A procissão do Rei no santuário
O v. 24 é o centro visual do salmo: viram as tuas procissões (halikhot), ó Deus, as procissões do meu Deus, do meu Rei, no santuário. A palavra pode indicar a marcha de Deus pela história, mas aqui o contexto é litúrgico: uma procissão real que entra no templo. Pela primeira vez no salmo, Deus é chamado de rei (malki), e com o pronome pessoal: meu Rei. A marcha que começou no Sinai termina no santuário, onde o rei se assenta.

O v. 25 descreve a ordem do cortejo: à frente os cantores (sharim), atrás os tocadores de instrumentos de corda (nogenim), e no meio as moças ('alamot) tocando tamboril. A imagem lembra a subida da arca, com Davi dançando diante dela e todo Israel cantando ao som de instrumentos (2Sm 6.5, 14-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As moças com tamboris recordam Miriã e as mulheres de Israel depois da travessia do mar (Êx 15.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O v. 26 convida a bendizer a Deus nas assembleias (maqhelot), os que vêm da fonte de Israel (mimqor Yisra'el). A expressão é poética e pode designar os descendentes de Jacó, como se Israel fosse uma fonte de onde brota um povo, ou o próprio Deus, fonte de Israel. O v. 27 enumera quatro tribos. À frente está Benjamim, o menor (tsa'ir), que vai rodem, palavra discutida, talvez "governando", "conduzindo" ou "em êxtase". Seguem os príncipes de Judá com o seu grupo (rigmatam, outra palavra obscura), e os príncipes de Zebulom e de Naftali. A escolha é curiosa: duas tribos do sul, Benjamim e Judá, e duas do norte, Zebulom e Naftali, que se destacaram na vitória de Débora e Baraque (Jz 4.6, 10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 5.18). Muitos veem nas quatro tribos uma representação de todo Israel, do sul ao norte. O salmo imagina o povo inteiro reunido em adoração.

Versículos 28-31 — Reis com presentes e a Etiópia de mãos estendidas
O v. 28 diz que o teu Deus ordenou a tua força, ou, segundo uma pequena alteração aceita por muitos, ordena, ó Deus, a tua força. O povo pede que Deus confirme o que já fez por ele. O v. 29 diz que, por causa do templo em Jerusalém, os reis trarão a Deus presentes (shay, uma palavra usada para tributos e oferendas). É a primeira vez que Jerusalém é mencionada pelo nome no salmo, e a visão se abre para as nações: os reis da terra virão ao santuário com dons.

O v. 30 é muito obscuro. Pede que Deus repreenda a ḥayyat qaneh, a fera do canavial, e a manada de touros com os bezerros dos povos. A fera do canavial é provavelmente o hipopótamo ou o crocodilo do Nilo, e portanto um símbolo do Egito; os touros podem representar os chefes das nações. O restante do versículo é tão difícil que as traduções variam muito: alguém se prostra com peças de prata, ou os povos pisam peças de prata. O sentido geral é que Deus submeta as potências que amam a guerra e as disperse.

O v. 31 traz uma das imagens mais belas do salmo. Virão ḥashmannim do Egito, palavra rara que muitos entendem como embaixadores, enviados, ou como objetos de bronze ou tecidos preciosos; e Cuxe, a Etiópia, se apressará a estender as mãos para Deus. Cuxe designava a região ao sul do Egito, ao longo do alto Nilo, o limite meridional do mundo conhecido pelos israelitas. Estender as mãos é o gesto da oração e da súplica. O povo mais distante corre para adorar. O mesmo horizonte aparece nos profetas, que imaginam a Etiópia trazendo presentes ao Senhor em Sião (Is 18.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sf 3.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Versículos 32-35 — Os reinos da terra cantam ao que cavalga os céus
O último movimento abre o louvor a todos os reinos da terra (mamlekhot ha'arets), e o terceiro selá marca a solenidade do convite. O v. 33 retoma o título do v. 4: Deus cavalga os céus dos céus, os antigos (shemei shemei-qedem), os céus desde o princípio. E faz ouvir a sua voz, uma voz de força, como no Salmo 29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em que a voz do Senhor ecoa sobre as águas e sacode o deserto (Sl 29.3-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O v. 34 pede que todos reconheçam a força de Deus, cuja majestade (ga'awah) está sobre Israel e cujo poder está nas nuvens (sheḥaqim). O v. 35 conclui com três afirmações: Deus é temível (nora') desde os seus santuários; o Deus de Israel é quem dá força e vigor ao seu povo; bendito seja Deus. O salmo que começou com Deus se levantando contra os inimigos termina com Deus dando força ao seu povo. A marcha está completa.

Visto no conjunto, o salmo tem uma estrutura em movimento. Começa com a convocação (vv. 1-6), lembra a marcha pelo deserto (vv. 7-10), celebra a conquista (vv. 11-14), chega ao monte escolhido e à subida vitoriosa (vv. 15-18), proclama o Deus que salva e julga (vv. 19-23), descreve a procissão no santuário (vv. 24-27), vê as nações trazendo tributo (vv. 28-31) e termina no louvor universal (vv. 32-35). O eixo geográfico é claro: do Sinai a Sião, do deserto ao templo, de Israel às nações.


✨ 4. Versículos-Chave

Sl 68.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A retomada da fórmula da arca (Nm 10.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) faz do salmo uma liturgia em marcha. O versículo ensina que a presença de Deus é o que decide a batalha: quando ele se levanta, os inimigos se dispersam. Na história da Igreja, foi usado como oração em tempos de perseguição e como canto de confiança. Para o leitor cristão, o Deus que se levanta tem o seu momento supremo na ressurreição de Cristo, quando os poderes da morte foram dispersos.

Sl 68.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O pai dos órfãos e defensor das viúvas, que dá casa aos solitários e liberta os presos. É um dos retratos mais ternos de Deus no Saltério, e mostra que o seu poder está a serviço dos fracos. Tiago dirá que a piedade que Deus aprova se mostra, entre outras coisas, na visita aos órfãos e às viúvas em sofrimento (Tg 1.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Jesus garantiu aos discípulos que não os abandonaria à condição de órfãos (Jo 14.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Sl 68.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Deus que sobe ao alto, leva cativos e recebe dons. Paulo aplica o versículo à ascensão de Cristo, que, tendo subido, distribui dons à sua Igreja (Ef 4.7-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A diferença entre "recebeste" e "deu" é uma das questões mais estudadas no uso do Antigo Testamento pelo Novo, e é tratada na seção 6.

Sl 68.19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Deus que carrega o fardo dia após dia e a quem pertencem as saídas da morte. Os dois versículos reúnem o cuidado cotidiano e a vitória final. Para o leitor cristão, apontam para o Cristo que convida os cansados a descansar nele (Mt 11.28-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que, ressuscitado, segura as chaves da morte e da morada dos mortos (Ap 1.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).


⛪ 5. Temas Teológicos Centrais

Deus em marcha: do Sinai a Sião. O tema que organiza o salmo é a marcha de Deus. Ele não é uma divindade presa a um lugar, mas o Deus que sai à frente do povo, atravessa o deserto, vence os inimigos e escolhe o seu monte. A teologia do Antigo Testamento acompanha essa marcha do Sinai, onde Deus deu a Lei, ao tabernáculo, que o acompanhava no deserto, e ao templo de Jerusalém, onde decidiu fazer habitar o seu nome (Êx 40.34-38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Rs 8.10-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Novo Testamento leva a marcha adiante: a presença de Deus que estava no templo assume a condição humana em Jesus (Jo 1.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2.19-21), e depois habita no seu povo pelo Espírito (1Co 3.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ef 2.21-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A marcha termina na nova Jerusalém, onde Deus habitará com os homens para sempre (Ap 21.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O guerreiro que é pai. O salmo reúne duas imagens de Deus que parecem opostas: o guerreiro que dispersa reis e esmaga cabeças, e o pai que acolhe órfãos e dá casa aos solitários. A Bíblia não as separa. O poder de Deus contra os opressores é a garantia da proteção dos oprimidos. Maria cantará o mesmo no Magnificat, quando louva o Deus que tira os soberbos do lugar de mando e levanta os pequenos (Lc 1.51-53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A justiça de Deus é ao mesmo tempo juízo e libertação.

O monte escolhido e a lógica da graça. A inveja dos montes de Basã diante de Sião (vv. 15-16) é uma pequena parábola da eleição. Deus não escolhe o mais alto, o mais forte, o mais impressionante. Escolhe o pequeno, e o faz habitar. Paulo lembrará aos coríntios que Deus deu preferência ao que o mundo despreza e julga sem força, deixando sem argumento os que se achavam fortes, para que nenhum ser humano tenha do que se gabar diante dele (1Co 1.26-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A procissão do v. 27, com Benjamim, o menor, à frente, repete a mesma lição.

O Deus que dá e o reinado universal. O salmo termina com as nações trazendo presentes e os reinos da terra cantando. O Deus de Israel é rei de todos. Mas o último versículo inverte a lógica do tributo: não são só os povos que trazem dons a Deus, é Deus quem dá força e poder ao seu povo (v. 35). Essa inversão prepara o uso que Paulo fará do v. 18: o rei vitorioso não apenas recebe; ele distribui.


✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo

6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?

O Salmo 68 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) mostra a Queda sob a forma de um mundo em guerra contra Deus: inimigos, rebeldes, reis que amam a guerra, e os mais fracos, órfãos, viúvas, solitários e presos, abandonados à própria sorte. Está no centro da Redenção em andamento, contando a história da salvação de Israel como uma marcha: o êxodo, o Sinai, o deserto, a conquista, a escolha de Sião. A Redenção consumada aparece quando o Rei vitorioso, depois de vencer os poderes inimigos, sobe ao alto e distribui dons ao seu povo, e o Novo Testamento identifica essa subida com a ascensão de Cristo (Ef 4.8-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E a Nova Criação está no horizonte final do salmo, quando os reinos da terra cantarão a Deus e os povos mais distantes estenderão as mãos para ele, como na visão das nações que trazem a sua glória para a nova Jerusalém (Ap 21.24-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

6.2 — O Cristo que subiu ao alto e deu dons (Ef 4.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))

O uso mais importante do Salmo 68 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) no Novo Testamento está em Efésios 4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Paulo acaba de falar da unidade da Igreja, fundada no único corpo, no único Espírito e no único Senhor (Ef 4.1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e passa a falar da diversidade dos dons: cada crente recebeu uma porção de graça, na medida que o próprio Cristo decidiu repartir (Ef 4.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Para fundamentar essa afirmação, cita o v. 18 do salmo, mas com uma diferença decisiva. O salmo diz que Deus, ao subir, recebeu dons entre os homens; Paulo diz que Cristo, ao subir, deu dons aos homens (Ef 4.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Como explicar a diferença? Há várias propostas, e é honesto apresentá-las. A primeira observa que Paulo não estava sozinho nessa leitura. Uma antiga paráfrase aramaica dos Salmos, lida nas sinagogas, interpretava o versículo como uma referência a Moisés, que subiu ao Sinai, recebeu as palavras da Lei e as deu como dom aos filhos dos homens; e uma antiga tradução siríaca também traz o verbo "dar". Isso sugere que havia, no judaísmo da época, uma tradição que já lia o versículo com o sentido de dar, possivelmente ligada à festa das Semanas e à entrega da Lei. Paulo pode estar seguindo essa tradição e corrigindo-a: quem subiu ao alto não foi Moisés, mas Cristo, e o que ele deu não foi a Lei, mas o Espírito e os seus dons. A segunda proposta observa que, no próprio salmo, o rei vitorioso que recebe tributo o faz para depois distribuí-lo, como o v. 12 já sugeria com a mulher que reparte os despojos; receber e dar são dois momentos do mesmo triunfo. A terceira lembra que o verbo hebraico laqaḥ, tomar, receber, às vezes é usado com o sentido de tomar para dar, como quando alguém toma algo e o leva a outro.

Todas essas explicações podem conviver, e há uma passagem do Novo Testamento que as reúne de modo admirável. No dia de Pentecostes, Pedro explica que Jesus, levado ao lugar de honra junto de Deus, obteve do Pai o Espírito que tinha sido prometido e o fez descer sobre os discípulos (At 2.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Cristo recebeu para dar. O que o salmo dizia do Deus vitorioso que recebe tributo, e o que Paulo diz do Cristo que distribui dons, encontram-se na mesma cena: o Filho subiu, recebeu do Pai e deu à Igreja. E isso aconteceu justamente no Pentecostes, a festa que a tradição judaica ligava à entrega da Lei e a este salmo.

Paulo acrescenta um comentário (Ef 4.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): falar de subida supõe que antes houve uma descida até as partes mais baixas da terra; e quem desceu é o mesmo que depois foi elevado mais alto que todos os céus, para que a sua presença alcance o universo inteiro. A subida pressupõe a descida. O Deus do salmo marchou do Sinai a Sião; o Filho desceu do céu à terra, e da cruz ao sepulcro, antes de subir. E os dons que ele dá não são enfeites: são pessoas, apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres, para preparar o povo de Deus para o serviço e fazer crescer o corpo de Cristo até a maturidade (Ef 4.11-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

6.3 — Os cativos levados e os rebeldes acolhidos

A expressão shavita shevi (v. 18) descreve o rei vitorioso conduzindo em fila os prisioneiros de guerra. Paulo a aplica a Cristo sem explicar em detalhe quem são os cativos. Duas leituras têm apoio no Novo Testamento. Na primeira, os cativos são os poderes inimigos: Paulo diz que, na cruz, Cristo desarmou os poderes espirituais hostis e os exibiu derrotados, como um general que desfila com os vencidos (Cl 2.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Hebreus diz que, morrendo, ele tirou a força do diabo, que se servia da morte como arma, e soltou os que passavam a vida inteira acorrentados ao medo de morrer (Hb 2.14-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Na segunda, os cativos são os próprios redimidos, levados por Cristo no seu cortejo triunfal; Paulo usa essa imagem quando agradece a Deus, que nos conduz sempre no desfile vitorioso de Cristo (2Co 2.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As duas leituras não se excluem: os inimigos foram derrotados, e os que eram prisioneiros do pecado foram tomados por Cristo como seus.

O final do v. 18 ganha, à luz de Cristo, uma beleza especial: a menção dos rebeldes. Na leitura do salmo, a frase pode indicar que até os rebeldes pagaram tributo. Mas o leitor cristão não pode deixar de lembrar que os dons de Cristo foram dados a rebeldes. Paulo era um perseguidor da Igreja antes de se tornar apóstolo (1Tm 1.12-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os efésios, antes de conhecerem Cristo, estavam espiritualmente sem vida por causa das suas transgressões (Ef 2.1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Rei que sobe ao alto não distribui dons a merecedores, mas a inimigos reconciliados, para que Deus habite no meio deles. O fim do versículo, para que Deus habite ali, cumpre-se quando os rebeldes perdoados se tornam o templo de Deus no Espírito (Ef 2.19-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

6.4 — O pai dos órfãos, o Deus que carrega e as saídas da morte

Os vv. 5-6 e 19-20 encontram em Cristo o seu rosto mais visível. O Deus que é pai dos órfãos se revela no Filho que promete voltar para os discípulos e não abandoná-los sem pai (Jo 14.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e que por meio do Espírito nos faz clamar a Deus como Pai (Rm 8.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gl 4.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Deus que dá casa aos solitários se revela no Cristo que reúne pessoas dispersas numa família, em que os que fazem a vontade de Deus passam a ser a sua própria família (Mc 3.34-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Deus que liberta os presos se revela no Cristo que, na sinagoga de Nazaré, leu Isaías e disse que o anúncio de libertação aos cativos se cumpria ali, diante dos ouvintes (Lc 4.18-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O v. 19, o Deus que carrega o fardo dia após dia, aponta para o Servo que tomou sobre si os nossos sofrimentos (Is 53.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e para o Cristo que convida os cansados a tomar o seu jugo leve (Mt 11.28-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o v. 20, ao Senhor pertencem as saídas da morte, recebe o seu cumprimento mais forte na ressurreição. O Cristo ressuscitado se apresenta a João como quem passou pela morte e vive sem fim, trazendo consigo as chaves que abrem e fecham a morte e a morada dos mortos (Ap 1.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A saída da morte foi aberta pelo próprio Senhor, que passou por ela e saiu vivo.

6.5 — O Evangelho no capítulo

Pregar o Salmo 68 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) cristocentricamente é contar a marcha de Deus até o fim. O Deus que saiu à frente do povo no deserto e subiu ao monte Sião é o mesmo que, em Jesus, desceu até nós, marchou até a cruz, venceu os inimigos que nos mantinham cativos, ressuscitou, subiu ao alto e derramou o seu Espírito sobre um povo de rebeldes perdoados. O primeiro versículo do salmo, o Deus que se levanta, encontra a sua realização suprema na manhã da ressurreição, quando o Filho se levantou e os poderes da morte foram dispersos.

O evangelho deste salmo é também o anúncio de um rei diferente. Os reis da terra recebem tributo; este rei dá dons. Os reis da terra se cercam dos fortes; este rei é pai de órfãos, defensor de viúvas e libertador de presos. Os reis da terra escolhem os grandes; este rei escolhe o pequeno monte de Sião e põe Benjamim, o menor, à frente do cortejo. E o convite final do salmo, que os reinos da terra cantem a Deus e que a Etiópia estenda as mãos para ele, começou a se cumprir na estrada de Jerusalém a Gaza, quando um alto funcionário da rainha dos etíopes ouviu de Filipe a boa notícia de Jesus e pediu o batismo (At 8.26-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A marcha continua até o dia em que o governo de todo o mundo passará, por inteiro, às mãos do Senhor e do seu Ungido (Ap 11.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).


🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)


🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico

Confie no Deus que marcha à sua frente. O salmo apresenta Deus como aquele que sai à frente do seu povo, atravessa o deserto e chega ao lugar prometido. Para o cristão, essa marcha tem um nome: Cristo, que foi à frente pela cruz e pela ressurreição e agora está à direita do Pai. Nos desertos da vida, o crente não caminha sozinho nem sem rumo; segue alguém que já chegou.

Cuide de quem Deus cuida. O Deus deste salmo é pai de órfãos, defensor de viúvas, lar dos solitários e libertador dos presos. A Igreja que diz pertencer a ele não pode ser indiferente aos que estão sozinhos, aos que perderam a família, aos que vivem presos, de fato ou por dentro. Acolher, visitar, defender e dar casa são maneiras concretas de mostrar o rosto do Deus que, em Cristo, nos adotou como filhos.

Use os dons que o Rei lhe deu. Se Cristo subiu ao alto e deu dons à Igreja, nenhum cristão é espectador. Cada um recebeu a sua medida de graça para servir ao corpo. Pergunte que dons Cristo lhe confiou e como eles podem edificar os outros. A Igreja amadurece quando os dons recebidos são postos a serviço, e não guardados ou usados para se exibir.

Espere o dia em que os reinos da terra cantarão. O salmo termina com um louvor universal. Isso dá ao cristão uma esperança que vai além das notícias do dia. Os reinos que hoje amam a guerra não terão a última palavra. Orar e trabalhar pela evangelização dos povos, como Filipe na estrada de Gaza, é participar da marcha que terminará com as nações estendendo as mãos para Deus.


🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo

  1. O salmo começa com as palavras que Moisés dizia quando a arca partia (Nm 10.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que significa dizer que Deus está em marcha? Como isso se cumpre na história de Cristo?
  2. Os vv. 5-6 apresentam Deus como pai dos órfãos e defensor das viúvas. Por que o salmo coloca essa descrição logo no início, antes das imagens de guerra? O que isso ensina sobre o poder de Deus?
  3. Os montes de Basã olham com inveja para Sião (vv. 15-16). Em que situações você tem medido o valor das coisas pelo tamanho e pela aparência, e não pela escolha de Deus?
  4. Paulo cita o v. 18 dizendo que Cristo deu dons, enquanto o salmo diz que Deus recebeu dons (Ef 4.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Como At 2.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ajuda a entender essa diferença? Que dons Cristo deu a você?
  5. Como ler os versos violentos do salmo (vv. 21-23, 30) sem justificar a violência humana e sem ignorar a seriedade do juízo de Deus?
  6. Para meditação e oração: releia os vv. 19-20, entregue a Cristo os fardos deste dia e agradeça porque, nele, as saídas da morte estão abertas.

📚 10. Para Aprofundamento

Cristocêntrica / Teologia Bíblica:

  • Sidney Greidanus — Preaching Christ from the Old Testament (Eerdmans, 1999)
  • Christopher J. H. Wright — Knowing Jesus Through the Old Testament (IVP, 1992)
  • G. K. Beale e D. A. Carson (orgs.) — Comentário do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento (Vida Nova), sobre a citação do salmo em Efésios 4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)
  • Frank Thielman — Ephesians (Baker Exegetical Commentary on the New Testament, Baker Academic, 2010)

Comentários dos Salmos:

  • Derek Kidner — Salmos 1–72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
  • Marvin E. Tate — Psalms 51–100 (Word Biblical Commentary, 1990)
  • John Goldingay — Psalms, vol. 2: Psalms 42–89 (Baker Academic, 2007)
  • Frank-Lothar Hossfeld e Erich Zenger — Psalms 2: A Commentary on Psalms 51–100 (Hermeneia, Fortress, 2005)
  • Agostinho — Comentário aos Salmos (Paulus, coleção Patrística)

Sabedoria para o Cotidiano
O Deus do Salmo 68 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o guerreiro que dispersa os inimigos e, ao mesmo tempo, o pai que dá casa aos solitários e carrega o fardo do seu povo dia após dia. Em Cristo, essa marcha chegou ao fim que o salmo anunciava: o Filho desceu, venceu a morte, subiu ao alto e repartiu dons até com os que antes eram rebeldes. Quando o caminho parecer deserto, lembre-se de que ele vai à sua frente; quando o fardo pesar, entregue-o a quem o leva todos os dias; e use o dom que recebeu para servir, porque o Rei que sobe não guarda a vitória para si, mas a distribui.

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