Salmos · 19 de 66 · Antigo Testamento
Salmos — Capítulo 69
Título do capítulo: O justo afogado na vergonha alheia
Gênero literário: Poesia/Salmo (lamento individual do justo perseguido, com súplicas imprecatórias nos vv. 22-28 e um voto de louvor que se abre num hino nos vv. 29-36; depois do Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o salmo mais citado no Novo Testamento, lido como figura dos sofrimentos de Cristo)
Número de versículos: 36
Nota de precisão: a numeração segue a tradição das Bíblias em português, em que a inscrição do salmo não é contada como versículo; no hebraico impresso ela recebe o número 1, e toda a contagem fica um número à frente do começo ao fim. Na antiga tradução grega, que junta os Salmos 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 10, este é o salmo sessenta e oito. O termo da inscrição que remete aos lírios tem sentido discutido, e há palavras raras nos vv. 20 e 22; as questões são tratadas no lugar próprio. O estudo não reproduz o texto bíblico: descreve com palavras próprias o que o salmo diz, inclusive nos trechos que o Novo Testamento retoma.
🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural
Poucos salmos deixaram marcas tão fundas no Novo Testamento. O Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o mais lembrado nas narrativas da paixão; logo depois dele vem o 69. Os evangelistas recorreram a ele para explicar o gesto de Jesus no templo, o ódio que o perseguiu sem motivo e a bebida amarga oferecida na cruz. Paulo o usou duas vezes, para falar da paciência de Cristo e do endurecimento de parte de Israel. Lucas o pôs na boca de Pedro, quando a igreja nascente precisou entender o fim de Judas. Quem lê o salmo inteiro percebe por quê: é o grito de um homem que sofre por ser fiel a Deus, que carrega uma vergonha que não é sua e que, mesmo afundando, continua a orar.
A inscrição traz três elementos: lamnatseaḥ, a indicação para o regente ou mestre do canto, comum em mais de cinquenta salmos; 'al-shoshannim, uma expressão ligada aos lírios; e ledawid, a ligação com Davi. A expressão dos lírios aparece também nas inscrições dos Salmos 45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 80, e uma forma aparentada está na do 60. Ninguém sabe ao certo o que ela designava. A hipótese mais comum é que indicasse uma melodia conhecida, a que o salmo devia ser cantado; outros pensam num instrumento ou num tipo de cerimônia. O sentido técnico se perdeu, e é melhor admitir isso do que inventar uma explicação.
O salmo pertence ao Segundo Livro do Saltério (Salmos 42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) a 72), a parte em que o nome comum 'Elohim, Deus, predomina sobre o nome próprio do Senhor, por isso chamada pelos estudiosos de Saltério eloísta. Mesmo assim, o nome do Senhor aparece aqui em pontos decisivos (vv. 6, 13, 16, 31 e 33), e o v. 6 reúne dois títulos solenes: o Senhor dos Exércitos e o Deus de Israel.
A questão da autoria merece honestidade. A tradição judaica e cristã leu o salmo como de Davi, e o Novo Testamento cita os vv. 22-23 e 25 atribuindo-os a ele (Rm 11.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 1.16, 20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Há, porém, traços que levaram muitos estudiosos a pensar numa época posterior: os vv. 35-36 falam de Deus reconstruindo as cidades de Judá, e o v. 33 menciona os prisioneiros do Senhor. Outros notam a semelhança com Jeremias, lançado numa cisterna cheia de lama (Jr 38.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), traído pela própria família (Jr 12.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e afrontado por causa de Deus (Jr 15.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As possibilidades podem conviver: um salmo davídico na origem, cantado e talvez acrescido ao longo das gerações, que serviu de oração a todos os justos perseguidos de Israel. O que não se deve fazer é afirmar com certeza uma ocasião que o texto não registra.
A vida de Davi oferece, de qualquer modo, o pano de fundo natural: o ódio gratuito de Saul (1Sm 24.9-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o desprezo dos irmãos (1Sm 17.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e da própria esposa (2Sm 6.16, 20-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a zombaria pública na fuga de Absalão (2Sm 16.5-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e um amor ardente pela casa de Deus, que ele quis construir e para a qual, impedido, juntou tudo o que pôde (2Sm 7.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Cr 29.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Por fim, o mundo do salmo é o de uma sociedade de honra e vergonha. No antigo Israel, a reputação não era um detalhe: era a própria posição da pessoa na comunidade. Ser alvo de canções de bêbados, de conversas no portão da cidade, de piadas dos parentes, era uma forma de morte social. A palavra que domina o centro do salmo, ḥerpah, afronta, opróbrio, aparece com a sua raiz seis vezes (vv. 7, 9 duas vezes, 10, 19 e 20) e mostra onde dói a ferida. O orante sofre no corpo, mas sofre ainda mais no nome.
📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo
O salmo começa com um pedido de socorro gritado. As águas subiram até o pescoço do orante; ele afunda num lodo profundo, sem lugar onde firmar os pés, e a correnteza passa por cima dele (vv. 1-2). Cansou de clamar, a garganta está seca, os olhos se apagam de tanto esperar por Deus (v. 3). Os que o odeiam sem motivo são mais numerosos que os cabelos da sua cabeça; são fortes, querem destruí-lo com mentiras, e ele se vê obrigado a restituir o que nunca tomou (v. 4).
Diante de Deus, porém, não se apresenta como perfeito: Deus conhece a sua insensatez e as suas culpas (v. 5). Teme que, por causa dele, sejam envergonhados os que esperam no Senhor (v. 6). É por amor a Deus que suporta a afronta (v. 7); virou um estranho para os próprios irmãos (v. 8), porque o zelo pela casa de Deus o devora, e as afrontas dirigidas a Deus caíram sobre ele (v. 9). O seu choro, o seu jejum e o seu pano de saco viraram zombaria e provérbio (vv. 10-11); falam dele no portão, e os bêbados o põem nas suas canções (v. 12).
Ainda assim, ele ora ao Senhor no tempo favorável, apoiado no amor leal e na fidelidade de Deus (v. 13). Pede para ser tirado do lodo e das águas, para que o abismo não o engula nem o poço feche a boca sobre ele (vv. 14-15); apela à compaixão de Deus, pede que ele não esconda o rosto do seu servo e responda depressa, que se aproxime e o resgate (vv. 16-18).
O orante volta a descrever a dor. Deus conhece a afronta, a vergonha e a humilhação que ele sofre, e cada um dos adversários está diante de Deus (v. 19). A afronta partiu-lhe o coração; ele esperou compaixão e não houve, procurou quem o consolasse e não achou (v. 20). Em vez de alimento, deram-lhe veneno; e, quando teve sede, deram-lhe vinagre (v. 21).
Seguem-se pedidos duros contra os perseguidores: que a mesa deles vire armadilha (v. 22), que os olhos se escureçam e os lombos vacilem (v. 23), que a ira de Deus os alcance (v. 24) e o acampamento deles fique deserto (v. 25), porque perseguem aquele que Deus feriu (v. 26); que se lhes acrescente culpa sobre culpa (v. 27) e sejam apagados do livro dos vivos (v. 28).
O fim muda de tom. O orante, aflito, pede que a salvação de Deus o ponha no alto (v. 29) e promete um louvor que agrada ao Senhor mais que o melhor novilho (vv. 30-31). Os humildes se alegrarão, porque o Senhor ouve os necessitados (vv. 32-33). Céus, terra e mares são chamados ao louvor (v. 34), pois Deus salvará Sião, reconstruirá as cidades de Judá, e a descendência dos seus servos habitará ali (vv. 35-36).
🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)
Versículos 1-4 — Afundando nas águas, odiado sem motivo
O salmo abre com um imperativo de uma palavra só: hoshi'eni, salva-me. É da mesma raiz de onde vem o nome de Josué e, mais tarde, o de Jesus. Não há introdução, nem louvor preparatório, nem título para Deus além do vocativo: o homem está se afogando e grita. O motivo vem logo: as águas chegaram até a nefesh. A palavra costuma ser traduzida por alma ou vida, mas o sentido concreto, aqui, é garganta, pescoço. A água está na altura da boca.
As imagens dos vv. 1-2 formam um quadro de afogamento lento. O orante afunda no yeven metsulah, o lodo do fundo, e não há ma'omad, chão firme. Chegou às ma'amaqqe-mayim, as profundezas das águas, e a shibbolet, a correnteza, passa por cima dele. Na poesia de Israel, as águas profundas são a figura mais forte do perigo mortal: o caos, o dilúvio, a sepultura (Sl 18.4, 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 42.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 124.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Jonas descreve a sua descida com imagens muito parecidas (Jn 2.3-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não se trata, provavelmente, de um naufrágio literal, mas da aflição extrema de quem se sente engolido pela morte.
O v. 3 passa das águas de fora para a secura de dentro. Há uma ironia dolorosa: o homem cercado de água tem a garganta seca (niḥar geroni, a garganta queimada, rouca) de tanto gritar. Os olhos se consomem esperando por Deus. A palavra meyaḥel, esperar, é a da espera ansiosa, que não desiste mas se cansa. O salmo não esconde que a oração pode ser longa e que a resposta pode tardar.
O v. 4 revela que as águas têm rosto. Os que o odeiam ḥinnam, de graça, sem razão, são mais numerosos que os cabelos da sua cabeça; os que querem destruí-lo são poderosos e inimigos sheqer, por mentira. A última linha é uma queixa amarga, quase um provérbio da injustiça: ele precisa devolver o que não roubou. Pode ser uma acusação falsa de furto ou uma expressão proverbial para quem paga pelo que não fez. Em qualquer caso, o v. 4 define o salmo inteiro: este é o lamento do inocente perseguido.
A expressão do ódio sem causa aparece também no Sl 35.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e o mesmo pensamento está no Sl 109.3-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Jesus, na noite em que foi traído, disse que o ódio do mundo contra ele cumpria o que estava escrito na Lei deles, isto é, nas Escrituras de Israel, sobre os que o odiaram sem motivo (Jo 15.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os intérpretes discutem se ele tinha em mente o Salmo 35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ou o 69; como o 69 é tão usado nos Evangelhos, muitos o consideram a fonte principal, mas os dois podem estar presentes.
Versículos 5-12 — A afronta carregada por amor a Deus
O v. 5 surpreende. Depois de se declarar odiado sem causa, o orante confessa diante de Deus a sua 'iwwelet, insensatez, e as suas 'ashmot, culpas. Não há contradição. Ele é inocente diante dos acusadores, não diante de Deus. As acusações dos homens são mentirosas, mas isso não faz dele um homem sem pecado. A honestidade do salmo é preciosa: o justo perseguido não precisa fingir perfeição para pedir justiça. E a frase é dirigida a Deus como quem diz: tu sabes tudo, não há nada que eu precise esconder de ti.
O v. 6 mostra o que mais o preocupa. Não é apenas a própria dor, mas o efeito que a sua queda terá sobre os outros fiéis. Se Deus o abandonar, os que esperam no Senhor e os que o buscam ficarão envergonhados, como quem apostou numa causa perdida. Os títulos de Deus neste versículo são solenes: 'Adonai YHWH tseva'ot, o Senhor Deus dos Exércitos, e 'Elohe Yisra'el, o Deus de Israel. O orante sabe que a sua sorte está ligada à honra do nome de Deus diante do povo.
O v. 7 diz por que a vergonha caiu sobre ele: 'aleykha, por tua causa. A afronta (ḥerpah) que ele suporta não vem de um crime, mas da sua fidelidade. A humilhação (kelimmah) cobre-lhe o rosto como um véu. É o centro teológico do salmo: o orante sofre como representante de Deus no meio de um povo que despreza a Deus.
O v. 8 desce ao nível mais íntimo. Ele virou muzar, estranho, para os seus irmãos, e nokhri, estrangeiro, para os filhos da sua mãe. A segunda expressão é deliberada: na sociedade da época, em que um homem podia ter filhos de várias esposas, os filhos da mesma mãe eram os irmãos mais próximos. Nem esses o reconhecem.
O v. 9 explica tudo com uma das frases mais fortes do Saltério. A qin'ah, o zelo, o ardor apaixonado pela casa de Deus, o devorou ('akhalatni, o verbo de comer, consumir, usado para o fogo que devora). A casa é o santuário, o lugar onde o nome de Deus habitava. O orante ama essa casa de tal modo que o amor o consome e o expõe. E a segunda linha explica a consequência: as afrontas dos que afrontam a Deus caíram sobre ele. O ódio que os ímpios têm de Deus, sem poder alcançá-lo, desce sobre quem o representa. O orante virou para-raios da hostilidade contra Deus.
Os vv. 10-12 mostram como até a piedade dele virou chacota. O choro e o jejum viraram afronta (v. 10); o saq, o pano grosseiro de luto e penitência, fez dele mashal, provérbio, assunto de comparação jocosa (v. 11). Falam dele os que se sentam no portão, a praça dos negócios e dos julgamentos, onde ser comentado era ter o nome exposto diante de todos; e, no outro extremo da escala social, os shote shekhar, os bebedores, fazem dele tema das suas canções (v. 12). Dos anciãos aos bêbados, toda a cidade ri.
A estrutura da seção acompanha um movimento em círculos que se ampliam: Deus (v. 5), os fiéis (v. 6), o próprio orante (v. 7), a família (v. 8), o santuário (v. 9), a praça e as tavernas (vv. 10-12). A vergonha se espalha como mancha.
Versículos 13-18 — A oração no tempo do favor
O v. 13 começa com um contraste: wa'ani, quanto a mim. Os outros falam e cantam contra ele; ele ora. A oração é dirigida ao Senhor 'et ratson, num tempo de favor, de aceitação, isto é, no momento que Deus escolher como oportuno. A mesma expressão está em Is 49.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), onde Deus promete responder ao seu Servo no tempo do seu favor; Paulo retoma esse texto de Isaías para anunciar que o tempo favorável da salvação é o presente (2Co 6.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No salmo, a frase é um ato de entrega: o orante não impõe o momento a Deus, mas confia que haverá um tempo de resposta.
O pedido se apoia em duas palavras centrais da aliança: rov ḥasdekha, a abundância do teu amor leal, e 'emet yish'ekha, a fidelidade da tua salvação. O orante não apela ao próprio mérito, mas ao caráter de Deus.
Os vv. 14-15 retomam as imagens da abertura em forma de pedido. Que Deus o tire do lodo; que o livre dos que o odeiam e das águas profundas; que a correnteza não o arraste, que o metsulah, o abismo, não o engula, e que a be'er, o poço, não feche a boca sobre ele. O verbo do fechar é raro ('atar) e sugere algo que se cerra por cima, como uma tampa: é a imagem do sepultamento em vida.
O v. 16 pede resposta porque o ḥesed de Deus é tov, bom, e segundo a abundância das suas compaixões (rov raḥameykha). A palavra raḥamim vem da mesma raiz de reḥem, ventre materno, e sugere a ternura visceral de uma mãe. O v. 17 junta três pedidos que se apertam: que Deus não esconda o rosto do seu servo ('avdekha); que veja que ele está em angústia; que responda depressa (maher). A pressa do pedido é a pressa de quem está com a água na boca.
O v. 18 usa dois verbos de resgate de grande peso no Antigo Testamento. Ga'al é o verbo do go'el, o parente resgatador, aquele que tinha o dever de libertar o familiar vendido como escravo, de recomprar a terra perdida, de defender o sangue derramado (Lv 25.25, 47-49 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Rt 4.1-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Padah é o verbo do resgate por preço, usado para a libertação do Egito (Dt 7.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ao pedir que Deus o resgate assim, o orante o chama a agir como o parente mais próximo que paga o que for preciso para tirá-lo do cativeiro.
Versículos 19-21 — Sem consolo, com vinagre na sede
O v. 19 começa de novo com uma confissão de que Deus sabe: Deus conhece a afronta, a vergonha e a humilhação, e todos os adversários estão diante dele. As três palavras se empilham como camadas da mesma ferida.
O v. 20 diz o que a afronta fez: partiu-lhe o coração (shaverah libbi). Segue uma forma verbal rara, que a maioria entende como estar doente, sem remédio, desfalecido. Depois vem uma das linhas mais solitárias do Saltério: ele esperou nud, alguém que balançasse a cabeça em sinal de compaixão, e não houve; esperou menaḥamim, consoladores, e não achou nenhum. No luto israelita, os amigos vinham sentar-se com o enlutado e mostrar com gestos que participavam da sua dor; os amigos de Jó, antes de falarem demais, fizeram isso por sete dias (Jó 2.11-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O orante do Salmo 69 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não teve nem isso.
O v. 21 leva a crueldade ao extremo, numa cena de refeição invertida. Em vez de alimento (barut), deram-lhe rosh, uma planta amarga e venenosa (Dt 29.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 32.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); para a sede, ḥomets, vinagre, o vinho azedo. Os que deviam consolar só ofereceram amargura: quem tinha fome recebeu veneno, quem tinha sede recebeu uma bebida que piora a sede.
Os evangelistas viram neste versículo um retrato da cruz: os quatro registram a bebida oferecida a Jesus, e Mateus descreve o vinho misturado com fel usando, para o fel, a mesma palavra que a antiga tradução grega empregou no salmo (Mt 27.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O detalhe será retomado na seção cristocêntrica. Basta notar aqui que aquilo que o salmo usara como figura da crueldade tornou-se, no Calvário, acontecimento.
Versículos 22-28 — O clamor por justiça entregue a Deus
Esta é a parte mais difícil do salmo, e é preciso lê-la com atenção antes de julgá-la. O orante, que recebeu veneno à mesa, pede que a mesa dos perseguidores se torne paḥ, armadilha, e moqesh, laço (v. 22). Há aqui uma correspondência deliberada: eles transformaram a refeição do consolo numa refeição de crueldade; que a mesa deles se volte contra eles. A segunda metade do versículo tem uma palavra discutida, lishlomim: pode significar para os que estão em paz, para os que se sentem seguros, ou, com outra vocalização, ser lida como retribuição. A antiga tradução grega seguiu este segundo caminho, e é essa nuance que aparece quando Paulo cita o versículo.
O v. 23 pede que os olhos deles se escureçam, para que não vejam, e que os lombos, sede da força, vacilem continuamente. O v. 24 pede que Deus derrame sobre eles o seu za'am, indignação, e que o ḥaron 'appekha, o ardor da sua ira, os alcance. O v. 25 pede que a ṭirah deles, o acampamento, o lugar cercado onde moram, fique deserto, e que ninguém habite nas suas tendas.
O v. 26 dá a razão, e ela é importante: eles perseguem aquele que Deus feriu e contam, como quem comenta com prazer, a dor dos que Deus golpeou. O orante reconhece que o seu sofrimento passa, de algum modo, pela mão de Deus; os inimigos, em vez de terem compaixão de alguém já ferido, aproveitam-se da sua fraqueza. É a crueldade de quem chuta quem já caiu. Isaías dirá do Servo que todos o julgavam castigado pela mão de Deus (Is 53.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e é impossível não ouvir esse eco.
Os vv. 27-28 são os mais graves. O orante pede que se acrescente 'awon, culpa, à culpa deles, e que não entrem na justiça de Deus; que sejam apagados do sefer ḥayyim, o livro dos vivos, e não inscritos com os justos. Moisés pedira para ser riscado do livro de Deus se o povo não fosse perdoado (Êx 32.32-33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No sentido original, o livro dos vivos é provavelmente o registro dos que vivem diante de Deus; ser apagado dele é morrer. O Novo Testamento ampliará a imagem para o livro da vida eterna (Fp 4.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 3.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Como entender essas palavras na boca de um justo? Algumas observações ajudam, e a seção cristocêntrica as retoma. O orante não pega a espada: entrega a causa a Deus, e a imprecação é oração, não ação. O pedido não nasce de uma ofensa qualquer, mas de uma perseguição que atinge a honra de Deus (vv. 7, 9) e ataca alguém já ferido (v. 26). A linguagem segue a justiça proporcional da Lei, em que o castigo corresponde ao crime: mesa por mesa, vergonha por vergonha. E a poesia do lamento é linguagem de dor extrema, guardada sem censura para ensinar que até a raiva pode ser levada a Deus em vez de ser despejada sobre o próximo. Nada disso faz dessas palavras um modelo para o cristão pedir o mal de quem o ofende.
Versículos 29-33 — Do pobre ferido ao louvor que agrada a Deus
O v. 29 volta ao wa'ani, quanto a mim, que já marcara a virada do v. 13. O orante se apresenta como 'ani, pobre, aflito, e ko'ev, dolorido. E pede que a yeshu'ah, a salvação de Deus, o ponha no alto (tesaggeveni), num lugar inacessível. Quem estava no fundo do lodo pede para ser colocado na altura.
O v. 30 traz o voto de louvor: ele louvará o nome de Deus com cântico e o engrandecerá ('agaddelennu, farei grande) com todah, ação de graças. A todah era também o nome da oferta de gratidão (Lv 7.12-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas o v. 31 deixa claro que o salmo pensa na palavra de louvor: ela agrada ao Senhor mais que um shor, boi, mais que um par, novilho maqrin mafris, com chifres e cascos, isto é, maduro e ritualmente apto, o melhor que se podia oferecer. O salmo não despreza o culto do templo, mas põe o coração agradecido acima do animal mais caro (Sl 50.13-14, 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 51.16-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Hebreus chamará o louvor de sacrifício contínuo dos lábios (Hb 13.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 32 inverte o medo do v. 6: os 'anawim, os humildes, verão e se alegrarão, e o coração dos que buscam a Deus reviverá. A salvação de um se torna encorajamento para todos os pobres de Deus. O v. 33 dá o fundamento: o Senhor ouve os 'evyonim, os necessitados, e não despreza os seus 'asirim, os seus prisioneiros, palavra que pode designar presos literais, cativos de uma deportação ou, em sentido figurado, os que estão presos à aflição.
Versículos 34-36 — Céus, terra e mar louvam o Deus que reconstrói Sião
A última estrofe alarga o horizonte até os limites da criação. Céus, terra, mares e tudo o que neles se move são convocados ao louvor (v. 34). O homem que estava afundando nas águas agora chama as águas para louvar. O mar, figura da morte no começo do salmo, termina como coro da adoração.
O motivo do louvor é comunitário e histórico: Deus salvará Sião e reconstruirá as cidades de Judá; o seu povo morará ali e a terá como herança (v. 35). A descendência dos seus servos a herdará, e os que amam o seu nome habitarão nela (v. 36). A palavra 'avadaw, os seus servos, retoma o 'avdekha do v. 17: o servo sofredor, uma vez salvo, se descobre parte de um povo de servos que herdará a terra. A esperança pessoal desemboca numa esperança coletiva.
Muitos estudiosos pensam que esses dois versículos foram acrescentados quando a comunidade passou a cantar o salmo depois da destruição de Jerusalém; outros os consideram originais, lembrando que a esperança por Sião não pertence só à época do exílio. De um modo ou de outro, o final mostra como Israel lia este salmo: a dor do justo está ligada ao destino do povo de Deus.
Visto no conjunto, o salmo avança em ondas: aflição (vv. 1-12), oração (vv. 13-18), nova aflição (vv. 19-21), imprecação (vv. 22-28) e louvor (vv. 29-36). As águas do começo voltam no v. 15 e no hino do v. 34; o servo do v. 17 vira os servos do v. 36; a vergonha temida para os fiéis no v. 6 vira a alegria deles no v. 32.
✨ 4. Versículos-Chave
Sl 69.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O ódio sem causa e o inocente que paga o que não tomou. O versículo resume a situação do justo perseguido e foi lido por Jesus como descrição da sua própria rejeição (Jo 15.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A última linha, sobre restituir o que não roubou, ganhou na tradição cristã um sentido profundo: aquele que não tinha dívida pagou a dívida dos outros. Essa leitura é uma aplicação teológica, não o sentido original do versículo, mas nasce com naturalidade do conjunto do Novo Testamento (1Pe 3.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Sl 69.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O zelo pela casa de Deus e as afrontas que caem sobre quem o representa. As duas metades do versículo são citadas no Novo Testamento, em contextos diferentes. A primeira, quando Jesus expulsa os vendedores do templo e os discípulos se lembram de que estava escrito que o zelo pela casa de Deus o consumiria (Jo 2.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A segunda, quando Paulo apresenta Cristo como aquele que não viveu para a própria satisfação, mas deixou cair sobre si as afrontas dirigidas a Deus (Rm 15.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O versículo junta a paixão pela honra de Deus e a disposição de sofrer por ela.
Sl 69.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A oração no tempo do favor de Deus, apoiada no amor leal e na fidelidade da sua salvação. É o ponto de virada da primeira metade: o orante, cercado de zombaria, não responde aos zombadores; fala com Deus. O eco de Is 49.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e o uso que Paulo faz desse texto (2Co 6.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) permitem ouvir aqui o anúncio de que, em Cristo, o tempo do favor chegou.
Sl 69.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Veneno na comida e vinagre na sede. Nenhum outro versículo do Antigo Testamento está tão diretamente ligado aos detalhes da crucificação. Os quatro evangelhos registram a bebida oferecida a Jesus (Mt 27.34, 48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 15.23, 36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 23.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 19.28-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e João afirma expressamente que a Escritura se cumpria naquele momento.
⛪ 5. Temas Teológicos Centrais
O sofrimento por causa de Deus. O Salmo 69 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não é o lamento de quem sofre por ter pecado, embora o orante reconheça as próprias faltas (v. 5). É o lamento de quem sofre por ter sido fiel. A afronta veio por causa de Deus (v. 7); o zelo pela casa de Deus o expôs (v. 9). Essa ideia atravessa as Escrituras: os profetas foram perseguidos por falarem em nome de Deus (Jr 15.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 5.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Jesus avisou os discípulos de que seriam odiados por causa do seu nome (Jo 15.18-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Hebreus lembra que Moisés preferiu a afronta ligada a Cristo às riquezas do Egito (Hb 11.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e convida os crentes a sair ao encontro de Jesus fora do acampamento, carregando a afronta que ele carregou (Hb 13.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A honra de Deus e a sorte dos fiéis. O orante não pensa só em si. O seu medo é que a sua ruína envergonhe os que esperam em Deus (v. 6), e a sua esperança é que a sua salvação alegre os humildes (v. 32). Há uma solidariedade profunda entre o justo que sofre e a comunidade dos que buscam a Deus. O que acontece com um afeta todos. No Novo Testamento, essa solidariedade chega ao seu ponto mais alto: o sofrimento e a vindicação de Cristo decidem a sorte de todos os que estão nele (Rm 8.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Pe 4.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A justiça de Deus diante da crueldade humana. As imprecações dos vv. 22-28 são difíceis, mas expressam uma convicção bíblica central: o mal não terá a última palavra, e Deus fará justiça aos oprimidos. O orante entrega a vingança a Deus em vez de tomá-la nas próprias mãos, como a Lei já ensinava (Dt 32.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e Paulo repetirá (Rm 12.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Novo Testamento não suprime a justiça de Deus; mostra que ela se cumpre de dois modos: na cruz, onde a ira caiu sobre o Filho em favor dos que creem (Rm 3.25-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e no juízo final, sobre os que persistem na rejeição (2Ts 1.6-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ao mesmo tempo, Jesus manda querer bem aos inimigos e interceder por quem nos persegue (Mt 5.44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e é nessa tensão que o cristão lê o salmo.
O louvor como sacrifício e a esperança do povo. O salmo termina com a convicção de que o louvor grato vale mais que o melhor animal (vv. 30-31) e de que Deus restaurará o seu povo (vv. 35-36). A salvação de um pobre se torna o começo da restauração de todos. Na nova aliança, o louvor é a oferta contínua dos lábios (Hb 13.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a cidade restaurada se torna a Jerusalém que desce do céu, onde os servos de Deus verão o seu rosto (Ap 21.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 22.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo
6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?
O Salmo 69 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) nasce no tempo da Redenção em andamento, num mundo marcado pela Queda: o justo é odiado sem motivo, a família se volta contra ele, a cidade ri da sua piedade, e os que deveriam consolá-lo oferecem veneno. É o mundo de Caim e Abel, em que o fiel é perseguido justamente por ser fiel (1Jo 3.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmo, porém, não termina no lodo: termina com a esperança de que Deus salvará Sião e o seu povo habitará a terra. Essa esperança encontra a sua realização na Redenção consumada, quando o Justo por excelência desce às águas da morte, é rejeitado pelos seus, recebe o vinagre na cruz e é posto no alto pela ressurreição. E aponta para a Nova Criação, quando céus, terra e mar louvarão a Deus sem a sombra da morte, e os que amam o seu nome habitarão para sempre na cidade de Deus (Ap 21.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
6.2 — O justo sofredor: Davi como tipo de Cristo
O Novo Testamento não lê o Salmo 69 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) como uma profecia direta, em que cada versículo seria uma predição isolada da vida de Jesus. Lê-o tipologicamente: Davi, o rei ungido perseguido por causa da sua fidelidade a Deus, é figura do Filho de Davi, perseguido por causa da mesma fidelidade, levada ao extremo. O que no salmo é experiência de um homem real, com as suas próprias faltas (v. 5), em Cristo se torna experiência plena e sem pecado. Por isso os evangelistas e os apóstolos citam o salmo com liberdade: veem nele o desenho da vida do justo, que em Jesus atinge a sua forma definitiva.
Os pontos de contato são numerosos, e é útil distinguir os que o Novo Testamento estabelece dos que a tradição percebeu por analogia.
Estabelecidos pelo Novo Testamento:
- O ódio sem causa (v. 4): Jesus aplica a si mesmo a palavra sobre os que o odiaram sem motivo (Jo 15.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- O zelo pela casa de Deus (v. 9a): quando Jesus purifica o templo, os discípulos se lembram do salmo (Jo 2.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- As afrontas que caem sobre ele (v. 9b): Paulo explica, com o salmo, que Cristo não viveu para si mesmo (Rm 15.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- O vinagre na sede (v. 21): os evangelistas descrevem a bebida oferecida na cruz com a linguagem do salmo, e João afirma que ali a Escritura se cumpria (Mt 27.34, 48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 19.28-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Percebidos por analogia, com base no conjunto do salmo:
- O estranho para os irmãos (v. 8): os irmãos de Jesus não acreditavam nele (Jo 7.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e houve um momento em que os seus parentes quiseram detê-lo, pensando que estivesse fora de si (Mc 3.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- A falta de consoladores (v. 20): no Getsêmani os discípulos dormiram, e na prisão todos fugiram (Mt 26.40, 56 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- As águas profundas (vv. 1-2, 14-15): Jesus chamou a sua paixão de batismo pelo qual precisava passar (Lc 12.50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 10.38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- O que foi ferido por Deus (v. 26): o Servo de Isaías, que todos julgavam castigado por Deus, mas que sofria pelas culpas dos outros (Is 53.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Essas analogias não são provas, mas mostram por que a Igreja, desde cedo, ouviu neste salmo a voz de Cristo. Agostinho, nos seus comentários aos Salmos, lia o 69 como palavra de Cristo, cabeça e corpo, em que ora fala o próprio Senhor, ora a Igreja que sofre com ele.
6.3 — O zelo que consumiu e as afrontas que caíram sobre ele
O v. 9 é a chave cristológica do salmo, e cada metade foi usada de um modo.
Em João, o contexto é a purificação do templo (Jo 2.13-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus faz um chicote de cordas, expulsa os vendedores e os cambistas e proíbe que a casa do seu Pai seja transformada em mercado. Os discípulos, então, se lembram do salmo. Há um detalhe sutil: no salmo o verbo está no passado (o zelo o consumiu), e na forma em que João o traz o verbo aponta para o futuro (o zelo o consumirá). Muitos intérpretes veem aí uma indicação: o ardor de Jesus pela casa de Deus o levaria à morte. De fato, logo em seguida Jesus fala do templo que seria destruído e reconstruído em três dias, referindo-se ao seu próprio corpo (Jo 2.19-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O zelo pela casa o consumiu literalmente: ele morreu por causa da sua fidelidade ao Pai, e na sua ressurreição o verdadeiro templo foi levantado.
Em Romanos, o contexto é ético (Rm 15.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo pede aos fortes que carreguem as limitações dos mais frágeis em vez de viverem para a própria conveniência, e dá como razão o exemplo de Cristo, que também não viveu para si mesmo, mas, segundo a Escritura, deixou que as afrontas dos que afrontavam a Deus caíssem sobre ele. Paulo põe a segunda metade do v. 9 na boca de Cristo, falando ao Pai. O ódio que o mundo tinha de Deus desceu sobre o Filho. E isso se torna fundamento para a vida da comunidade: quem segue esse Cristo aprende a carregar o peso dos outros.
6.4 — O vinagre, as imprecações e o Cristo que ora pelos inimigos
O v. 21 se cumpre de modo impressionante na cruz. João é o mais explícito: Jesus, sabendo que tudo estava completo, declarou a sua sede para que a Escritura se cumprisse (Jo 19.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O evangelista não diz que Jesus tinha sede e por acaso lhe deram vinagre; diz que Jesus, consciente de que estava cumprindo as Escrituras, falou da sua sede. Ele viveu o salmo até o fim. Logo depois, tendo recebido o vinagre, declarou que a obra estava completa e entregou o espírito (Jo 19.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Deus que no salmo era invocado por quem tinha a garganta seca (v. 3) agora, em carne humana, sente a garganta seca na cruz.
E então chega a questão mais delicada. O mesmo salmo que fornece o vinagre da paixão contém as imprecações dos vv. 22-28. Como lê-las, se o próprio Jesus, ao receber a bebida amarga, não amaldiçoou ninguém, e Lucas registra que ele pediu ao Pai que perdoasse os que o crucificavam, alegando a ignorância deles (Lc 23.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); a frase falta em alguns manuscritos antigos, mas é amplamente aceita como tradição autêntica)?
O Novo Testamento oferece pelo menos três caminhos, que se completam.
O primeiro é o de Paulo (Rm 11.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele cita os vv. 22-23 para explicar o endurecimento de parte de Israel diante do evangelho: a mesa, isto é, os privilégios religiosos de Israel, tornou-se tropeço para os que rejeitaram o Messias. Mas o capítulo não termina aí. Logo em seguida, Paulo nega que tenham tropeçado para cair de vez (Rm 11.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), fala de um endurecimento parcial e temporário e da esperança de que todo Israel será salvo (Rm 11.25-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Usa o salmo não como desejo de ruína, mas como explicação de um mistério que termina em misericórdia (Rm 11.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), ele que dizia carregar uma tristeza contínua pelo seu povo (Rm 9.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O segundo é o de Lucas (At 1.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pedro, antes da escolha do substituto de Judas, cita o v. 25 junto com o Sl 109.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), adaptando o plural do salmo ao singular: a morada do traidor fica deserta. O salmo é lido como descrição do juízo que já caiu sobre quem entregou o Justo; Pedro não amaldiçoa ninguém, constata um fato e passa a recompor o testemunho dos Doze.
O terceiro é a própria cruz. O v. 24 pede que Deus derrame a sua indignação e que o ardor da sua ira alcance os culpados. No Getsêmani, Jesus pediu ao Pai que, se possível, afastasse dele o cálice (Mt 26.39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o cálice, nos profetas, é com frequência a figura da ira de Deus (Is 51.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 25.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Dietrich Bonhoeffer, refletindo sobre os salmos de vingança, argumentou que a ira de Deus contra os seus inimigos não desapareceu, mas caiu sobre aquele que, sem pecado, se pôs no lugar dos pecadores; por isso o cristão pode orar esses salmos olhando para a cruz, onde a justiça foi feita e o perdão foi aberto aos inimigos. A ira que o salmista pediu sobre os perseguidores caiu sobre o perseguido. Ele bebeu o vinagre dos homens e o cálice do Pai, e assim tornou possível que os seus perseguidores fossem perdoados.
Isso não apaga as imprecações. Elas continuam afirmando que Deus é justo e que a crueldade contra os inocentes será julgada, e o Apocalipse retoma essa linguagem nas taças da ira derramadas sobre os que oprimem os santos (Ap 16.1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas o cristão as lê do outro lado da cruz. Em vez de pedir a destruição de quem o fere, entrega a causa a Deus (Rm 12.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), deseja o bem de quem o persegue (Rm 12.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e ora para que também sejam alcançados pela graça, como Estêvão orou pelos que o apedrejavam (At 7.60 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O seu desejo mais profundo passa a ser que os inimigos se tornem irmãos.
6.5 — O Evangelho no capítulo
Pregar o Salmo 69 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) cristocentricamente é contar a história do Justo que afundou em águas que não eram suas. O orante do salmo confessa as próprias faltas (v. 5); Jesus não tinha nenhuma (Hb 4.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Pe 2.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E, no entanto, desceu mais fundo que qualquer salmista. Foi odiado sem motivo, estranhado pelos irmãos, zombado na praça, abandonado pelos amigos, servido com vinagre. Pagou o que não tinha tomado. A dívida era nossa; a restituição foi dele.
O v. 5 ganha, à luz da cruz, um sentido que o salmista não poderia imaginar. Cristo não tinha culpas a confessar, mas carregou as nossas: Deus tratou o inocente como se fosse o pecador, para que, unidos a ele, recebêssemos a justiça que vem de Deus (2Co 5.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Igreja antiga ousou ouvir aqui o Senhor falando como cabeça do seu corpo, levando diante do Pai as faltas que não eram dele.
E a história não termina no poço. O pedido do v. 29, que a salvação de Deus o pusesse no alto, foi atendido na ressurreição e na ascensão, quando o Pai deu ao Filho humilhado o lugar mais alto (Fp 2.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O voto de louvor do v. 30 se cumpre quando o Ressuscitado, como diz Hebreus a partir de outro salmo, anuncia o nome de Deus aos seus irmãos na assembleia (Hb 2.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E os humildes que se alegram ao ver a salvação (v. 32) são todos os que, olhando para o Cristo vindicado, encontram coragem para continuar buscando a Deus.
O convite do evangelho, a partir deste salmo, é duplo. A quem afunda, o salmo mostra que há um Salvador que conhece o fundo do lodo por experiência própria e que pode ouvir o clamor de quem não tem chão. A quem odeia, o salmo mostra que a justiça de Deus é real, mas que existe um lugar onde ela já foi satisfeita: a cruz do Justo que orou pelos que o feriam. Ali, perseguidores podem se tornar discípulos, como aconteceu com Saulo de Tarso (At 9.1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Tm 1.13-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)
- Sl 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 109 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a família dos salmos do justo perseguido usados na paixão: o abandono e as zombarias, o ódio sem causa, a traição e a substituição do traidor (Sl 22.1, 7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), 15; Sl 35.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 109.3-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- Jr 15.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 20.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 38.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o profeta que carrega afronta por causa de Deus, é zombado sem cessar e afunda na lama de uma cisterna.
- Is 49.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 53.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o tempo do favor em que Deus responde ao seu Servo, e o Servo considerado ferido por Deus.
- Jo 2.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 15.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 19.28-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o zelo pela casa, o ódio sem motivo e o vinagre na sede, lidos como cumprimento na vida de Jesus.
- Mt 27.34, 48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 15.23, 36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 23.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a bebida oferecida a Jesus na cruz, nos três sinóticos.
- Rm 15.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Rm 11.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Cristo que leva as afrontas dirigidas a Deus, e o endurecimento parcial de Israel, que termina na esperança de misericórdia (Rm 11.25-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- At 1.16-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o fim de Judas e a habitação deserta, junto com o Sl 109.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Êx 32.32-33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 10.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 3.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 20.12, 15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o livro dos vivos, que no Novo Testamento se torna o livro da vida.
- Hb 13.12-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — sair ao encontro de Cristo carregando a sua afronta e oferecer o sacrifício de louvor, como nos vv. 7, 9 e 30-31.
- Na história da Igreja, o salmo foi lido como oração de Cristo e da Igreja perseguida desde os primeiros séculos; Agostinho o comentou nessa chave, e a leitura das imprecações à luz da cruz foi desenvolvida por muitos, entre eles Bonhoeffer.
🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico
Clame mesmo com a água no pescoço. O salmo começa sem cerimônia, com um grito. Deus não exige frases bem construídas de quem se afoga, e o Cristo que desceu às águas da morte entende esse grito e intercede por quem o dá (Hb 7.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A garganta seca de tanto orar (v. 3) não é sinal de que a oração falhou, mas de que ela continua; o salmo autoriza quem se cansou de pedir a dizer isso a Deus, sem fingir uma serenidade que não tem.
Não confunda inocência diante dos homens com perfeição diante de Deus. O orante é acusado injustamente e, ao mesmo tempo, confessa as suas faltas (vv. 4-5). Quando alguém é atacado sem razão, a tentação é se apresentar como totalmente puro. O salmo ensina um caminho mais honesto: posso pedir justiça contra a mentira e, ao mesmo tempo, reconhecer diante de Deus os meus pecados. Em Cristo, não preciso defender a minha imagem a qualquer custo, porque a minha justiça vem dele.
Prepare-se para pagar um preço pela fidelidade, sem buscar o conflito. O zelo pela casa de Deus expôs o salmista à zombaria até dos parentes (vv. 8-12), e quem segue Jesus pode passar pelo mesmo, no trabalho ou na família. Paulo, citando o v. 9, mostra o rosto desse zelo em Cristo: carregar as fraquezas dos outros em vez de viver para si (Rm 15.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O verdadeiro zelo não é agressivo; é paciente e serve.
Leve a sua raiva a Deus, não ao próximo. As imprecações dos vv. 22-28 mostram que a Bíblia não pede ao ferido que finja não estar ferido. Há injustiças que despertam indignação legítima. O salmo ensina a pôr essa indignação nas mãos de Deus, que julga com justiça. O evangelho vai além: aos pés da cruz, o cristão aprende a desejar que o seu ofensor seja alcançado pela misericórdia que ele mesmo recebeu. Isso não acontece de um dia para o outro, e pode exigir longo tempo de oração; mas começa quando se deixa de fazer justiça com as próprias mãos.
Seja consolo para quem não encontra consoladores. A linha mais triste do salmo é a que diz que ninguém se compadeceu (v. 20). Em volta de nós há pessoas afundando sem que ninguém perceba: doentes, enlutados, gente humilhada, perseguidos por causa da fé. Quem conheceu o Cristo que foi deixado sozinho no Getsêmani é chamado a ser a presença que faltou ao salmista, a sentar-se ao lado, a não oferecer vinagre a quem tem sede.
🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo
- O salmo descreve a aflição com imagens de águas profundas e lodo sem chão (vv. 1-2, 14-15). Que imagens você usaria para descrever os seus momentos de maior angústia, e o que muda ao saber que Cristo também desceu a essas águas?
- Como o orante consegue, ao mesmo tempo, declarar-se odiado sem causa (v. 4) e confessar as suas culpas a Deus (v. 5)? O que essa combinação ensina sobre a honestidade na oração?
- O v. 9 é citado em João 2.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e em Romanos 15.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) com aplicações diferentes. O que cada uso revela sobre Jesus e sobre o tipo de zelo que ele espera dos seus discípulos?
- De que modo as narrativas da cruz retomam o v. 21? O que significa, segundo João 19.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que Jesus tenha falado da sua sede para que a Escritura se cumprisse?
- As imprecações dos vv. 22-28 incomodam muitos leitores. Como a oração de Jesus pelos que o crucificavam (Lc 23.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e o uso que Paulo faz dos vv. 22-23 em Romanos 11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ajudam a lê-las sem rejeitá-las e sem transformá-las em licença para o ódio?
- Para meditação e oração: pense numa pessoa que hoje está sem consoladores (v. 20). Ore por ela e pergunte a Deus como você pode ser, na semana que vem, uma presença de compaixão na vida dela.
📚 10. Para Aprofundamento
Cristocêntrica / Teologia Bíblica:
- Dietrich Bonhoeffer — Psalms: The Prayer Book of the Bible (Augsburg, 1970)
- G. K. Beale e D. A. Carson (orgs.) — Commentary on the New Testament Use of the Old Testament (Baker Academic, 2007), sobre Jo 2.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Jo 15.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Rm 11.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Rm 15.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e At 1.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)
- Christopher J. H. Wright — Conhecendo Jesus através do Antigo Testamento (Ultimato) / Knowing Jesus Through the Old Testament (IVP, 1992)
- C. S. Lewis — Reflections on the Psalms (1958), especialmente o capítulo sobre os salmos de maldição
Comentários dos Salmos e do Novo Testamento:
- Derek Kidner — Salmos 1–72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
- Marvin E. Tate — Psalms 51–100 (Word Biblical Commentary, 1990)
- Nancy deClaissé-Walford, Rolf A. Jacobson e Beth LaNeel Tanner — The Book of Psalms (NICOT, Eerdmans, 2014)
- D. A. Carson — O Comentário de João (Shedd) / The Gospel according to John (Eerdmans, 1991)
- Douglas J. Moo — The Epistle to the Romans (NICNT, Eerdmans, 1996)
- Agostinho — Comentário aos Salmos (Paulus, coleção Patrística)
Sabedoria para o Cotidiano
Há dias em que a água chega ao pescoço, os amigos somem e quem devia consolar oferece vinagre; o Salmo 69 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não pede que você finja força, mas que continue falando com Deus, mesmo rouco, porque ele conhece a sua afronta e sabe o nome de cada um que a causou. Não tome a justiça nas mãos: entregue a causa àquele que julga com retidão e olhe para o Cristo que bebeu o vinagre e, em vez de amaldiçoar, orou pelos que o feriam. Quem foi tirado do lodo por ele aprende a fazer duas coisas que o mundo não entende: louvar antes de ver o fim da história e ser, para quem está afundando, o consolo que um dia faltou.
Ficou com alguma dúvida sobre este capítulo?
Pergunte ao Farol