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Salmos · 19 de 66 · Antigo Testamento

Salmos — Capítulo 70

Infográfico de “Salmos 70 — Capítulo a capítulo”, gerado automaticamente a partir do estudo publicado, com 3 partes: O socorro pedido às pressas; Que recuem envergonhados os que zombam; A alegria dos que buscam e o pobre que espera.

Título do capítulo: O clamor do pobre que não pode esperar
Gênero literário: Poesia/Salmo (lamento individual breve, em forma de súplica urgente: pedido de socorro, pedido de que os inimigos recuem envergonhados e voto pela alegria dos que buscam a Deus; reaparece, com pequenas variações, nos últimos versículos do Salmo 40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))
Número de versículos: 5

Nota de precisão: a numeração segue a tradição das Bíblias em português, em que a inscrição do salmo não é contada como versículo; no hebraico impresso ela recebe o número 1, e a contagem fica um número à frente do começo ao fim. Na antiga tradução grega, que junta os Salmos 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 10, este é o salmo sessenta e nove. As diferenças entre este salmo e Sl 40.13-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) são descritas a partir do texto hebraico tradicional; as traduções nem sempre as deixam visíveis. O termo da inscrição ligado à lembrança tem sentido discutido e é tratado com cautela.


🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural

O Salmo 70 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é uma das orações mais curtas do Saltério e uma das mais apressadas. Não tem introdução, não descreve a aflição em detalhes, não conta a história do perigo. Começa pedindo socorro e termina pedindo que Deus não demore. Entre um pedido e outro, cabem apenas duas coisas: o desejo de que os inimigos recuem envergonhados e o desejo de que os que buscam a Deus se alegrem. É a oração de quem não tem tempo para mais.

O que torna o salmo singular é que ele já existe em outro lugar. Com pequenas diferenças, os seus cinco versículos correspondem aos cinco últimos do Salmo 40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (Sl 40.13-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Saltério conhece outros casos de repetição: o Salmo 14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) reaparece como Salmo 53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e o Salmo 108 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é composto de trechos dos Salmos 57 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 60 (Sl 57.7-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 60.5-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Esses duplicados mostram que os salmos não eram peças de museu, mas orações vivas, usadas e reaproveitadas pelo povo de Deus em situações diferentes. Um clamor que servira para fechar um salmo de ação de graças e lamento podia ser separado e cantado sozinho, como uma prece de emergência.

Os estudiosos discutem qual forma veio primeiro: o Salmo 70 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) pode ter sido retirado do 40 e adaptado à coleção em que está, ou ser uma oração independente que alguém uniu ao final do 40. Não há como decidir com segurança. O que se pode observar com clareza são as diferenças, e elas têm uma direção: o Salmo 70 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é mais curto, mais seco e mais urgente.

O salmo pertence ao Segundo Livro do Saltério (Salmos 42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) a 72), chamado pelos estudiosos de Saltério eloísta, porque nele o nome comum 'Elohim, Deus, aparece com muito mais frequência do que o nome próprio do Senhor. O fenômeno se percebe bem nos duplicados: onde o Salmo 14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) usa o nome do Senhor, o 53 usa Deus, e o mesmo acontece, em parte, entre o Salmo 40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e o 70.

A inscrição traz três elementos. Lamnatseaḥ é a indicação para o regente ou mestre do canto, comum em mais de cinquenta salmos. Ledawid liga o salmo a Davi, como também o Salmo 40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). E lehazkir é um infinitivo causativo do verbo zakar, lembrar: algo como para fazer lembrar, para trazer à memória. A mesma palavra está na inscrição do Salmo 38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e só nesses dois. O sentido exato é incerto. Alguns a relacionam com a 'azkarah, a porção memorial da oferta de cereais queimada sobre o altar (Lv 2.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), ou com o incenso posto como memorial sobre os pães da presença (Lv 24.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e pensam que o salmo era cantado nesse momento do culto. Outros entendem que a palavra indica o propósito da oração: trazer o orante à lembrança de Deus, pedir que Deus se lembre dele. As duas ideias não se excluem, e nenhuma pode ser afirmada com certeza.

A posição do salmo também fala. Ele vem logo depois do Salmo 69 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e compartilha com ele várias palavras: os que buscam a Deus (Sl 69.6, 32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a vergonha dos perseguidores, a condição de pobre e necessitado (Sl 69.29, 33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o pedido de pressa (Sl 69.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E vem antes do Salmo 71 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que não tem inscrição e retoma o pedido de que Deus se apresse e de que os adversários sejam envergonhados (Sl 71.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Muitos leitores veem o Salmo 70 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) como uma ponte entre os dois.

Por fim, o uso cristão. O primeiro versículo deste salmo teve na história da oração uma carreira extraordinária. João Cassiano, nas suas Conferências (início do século V), registra o ensino de um monge do deserto egípcio, o abade Isaac, que recomendava esse versículo como fórmula de oração contínua: curto o bastante para ser repetido em qualquer situação, serviria na tentação e no tédio, na alegria e no medo. Bento de Núrsia, na sua Regra, determinou que as horas de oração dos monges começassem com ele, e até hoje a abertura das horas, na oração da Igreja no Ocidente, é tomada do Sl 70.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).


📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo

O orante pede a Deus que venha livrá-lo e ao Senhor que venha depressa socorrê-lo (v. 1).

Pede que fiquem envergonhados e confusos os que procuram tirar-lhe a vida; que recuem e sejam humilhados os que desejam o seu mal (v. 2). Que voltem atrás, cobertos pela própria vergonha, os que zombam dele com interjeições de escárnio (v. 3).

Em contraste, pede que se alegrem e exultem em Deus todos os que o buscam, e que os que amam a salvação divina digam sempre que Deus é grande (v. 4).

Termina falando de si: é pobre e necessitado. Pede que Deus se apresse a vir até ele, chama-o de seu auxílio e libertador, e suplica ao Senhor que não demore (v. 5).


🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)

Versículo 1 — O socorro pedido às pressas
O salmo começa sem verbo principal. No hebraico, a primeira linha traz apenas o vocativo Deus e o infinitivo de livrar, de modo abrupto; o verbo ḥushah, apressa-te, só aparece na segunda linha, junto com o nome do Senhor e o pedido de ajuda, e a primeira o pressupõe. É a sintaxe de quem não tem fôlego para frases completas. As traduções costumam acrescentar um verbo na primeira linha para que a frase fique clara em português, mas o original é mais ofegante.

A comparação com o Salmo 40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) confirma essa impressão. Lá, a mesma oração começa com um verbo de cortesia, retseh, digna-te, tem a bondade (Sl 40.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 70 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) dispensa essa fórmula. O orante vai direto ao ponto: livra-me, ajuda-me, depressa. Não há falta de reverência nisso; há urgência. Quem está caindo não pede licença para gritar.

Os dois verbos do pedido se completam. Lehatsileni, para me livrar, vem de natsal, arrancar de um perigo, o verbo da libertação do Egito (Êx 3.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Le'ezrati, para o meu socorro, vem de 'ezer, auxílio, a palavra usada para a companheira que Deus fez para o homem (Gn 2.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e, muitas vezes, para o próprio Deus (Sl 33.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 121.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O socorro de Deus não é o de quem olha de cima, mas o de quem se põe ao lado.

Os dois nomes divinos também chamam a atenção. A primeira linha invoca 'Elohim, Deus; a segunda, o nome próprio do Senhor, enquanto no Salmo 40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) as duas linhas usam o nome do Senhor. A troca da primeira pode ser obra da coleção eloísta; a manutenção da segunda mostra que a substituição não foi mecânica.

Há ainda um traço de composição importante. O verbo ḥushah, apressa-te, que aparece no v. 1, volta no v. 5, e o salmo termina com outro pedido do mesmo campo, não demores. A urgência abre e fecha o salmo como uma moldura. Tudo o que está no meio, os inimigos e os amigos, a vergonha e a alegria, é enquadrado pela pressa.

Versículos 2-3 — Que recuem envergonhados os que zombam
Os vv. 2-3 voltam-se para os inimigos, mas o que se pede para eles é surpreendentemente contido. Não se pede a morte deles, nem a destruição das suas casas, como nas imprecações do Salmo 69 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Pede-se que fiquem envergonhados. Quatro verbos se acumulam: yevoshu, que se envergonhem; weyaḥperu, que fiquem confusos, decepcionados, com o rosto vermelho; yissogu 'aḥor, que recuem, que deem marcha à ré; weyikkalemu, que sejam humilhados. O vocabulário é o da honra e da vergonha. Numa sociedade em que a reputação era tudo, ver os perseguidores recuarem de cara no chão já era a vitória.

Os inimigos são descritos de dois modos. São mevaqshe nafshi, os que buscam a minha vida, isto é, os que querem matá-lo; e são ḥafetse ra'ati, os que se deleitam com o meu mal, que sentem prazer na desgraça dele. A segunda descrição é a mais perturbadora: não se trata apenas de adversários, mas de gente que se diverte com o sofrimento alheio.

Aqui aparecem duas diferenças em relação a Sl 40.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Lá, os inimigos buscam a vida do orante para arrebatá-la, com um verbo de arrastar, varrer, levar embora, e o texto acrescenta que sejam envergonhados todos juntos. O Salmo 70 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) omite tanto o arrebatar quanto o todos juntos. O resultado é uma linha mais curta e mais seca, coerente com o tom de emergência.

O v. 3 traz a terceira diferença, a mais interessante. No Salmo 40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o pedido é que os zombadores fiquem desolados, com o verbo shamem, o espanto paralisado de quem vê uma ruína (Sl 40.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No Salmo 70 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o verbo é yashuvu, que deem meia-volta, em harmonia com o recuo já pedido no v. 2. O orante não precisa que eles fiquem paralisados; precisa que vão embora. Além disso, o Salmo 40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) diz que o escárnio é dirigido a ele, com um pequeno pronome que o 70 não tem.

A zombaria é descrita por uma interjeição repetida, he'aḥ he'aḥ, um som de prazer maldoso diante da queda alheia. A mesma interjeição aparece na boca dos que se alegram com a desgraça do justo no Sl 35.21, 25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e na dos povos vizinhos que festejaram a profanação do santuário de Jerusalém (Ez 25.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ez 26.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmista não reproduz um discurso, apenas o riso.

A expressão 'al-'eqev boshtam, por causa da sua vergonha, ou em recompensa da sua vergonha, sugere uma reciprocidade: os que quiseram envergonhar o justo recebam a vergonha que pretendiam impor. É o princípio, frequente nos salmos, de que o mal se volta contra quem o planeja (Sl 7.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 35.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Pedir que os inimigos sejam envergonhados não é necessariamente pedir a ruína deles. Em outro salmo, o pedido de que o rosto dos adversários se cubra de vergonha tem uma finalidade explícita: que busquem o nome do Senhor (Sl 83.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 70 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não diz isso, mas o tom moderado dos pedidos deixa a porta aberta.

Versículos 4-5 — A alegria dos que buscam e o pobre que espera
O v. 4 muda de grupo. Depois dos que buscam a vida do orante (v. 2), aparecem os que buscam a Deus: mevaqsheykha, os que te buscam. O mesmo verbo, biqqesh, buscar, descreve as duas atitudes; o objeto é que muda. Há quem busque a vida do próximo para destruí-la, e há quem busque a Deus. O salmo divide a humanidade por aquilo que se procura.

Para os que buscam a Deus, o orante deseja alegria: yasisu weyismeḥu bekha, que exultem e se alegrem em ti. A alegria não é apenas pela vitória, mas em Deus; ele é o lugar e a razão do contentamento. E o segundo grupo é descrito de modo ainda mais belo: 'ohave yeshu'atekha, os que amam a tua salvação. Não são apenas os que precisam de salvação, mas os que a amam, que a desejam, que se alegram com ela quando ela acontece, mesmo na vida dos outros.

O que essas pessoas dizem é uma aclamação curta: yigdal 'Elohim, que Deus seja engrandecido, Deus é grande. E o dizem tamid, continuamente, sempre. O Salmo 40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) traz a mesma aclamação com o nome do Senhor (Sl 40.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o 70, com o nome comum, Deus. É a quarta diferença, e segue a tendência da coleção. A mesma aclamação, com o nome do Senhor, aparece na boca dos que desejam o bem do justo no Sl 35.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).

O v. 5 começa com a fórmula da virada pessoal: wa'ani, e eu, quanto a mim. E o que o orante diz de si é uma confissão de pobreza: 'ani we'evyon, pobre e necessitado. Há um jogo sonoro no hebraico, porque 'ani, eu, e 'ani, pobre, soam quase igual: e eu, pobre. As duas palavras são frequentes no Saltério para descrever quem não tem recursos nem defesa e por isso depende inteiramente de Deus (Sl 86.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 109.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não falam apenas da pobreza econômica, mas da condição de quem se sabe sem forças diante do perigo.

Aqui está a quinta diferença, e a mais significativa. No Salmo 40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), depois da confissão de pobreza, vem uma frase de confiança serena: o Senhor pensa em mim, cuida de mim ('Adonai yaḥashov li, Sl 40.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No Salmo 70 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), no lugar dessa frase, vem mais um pedido de pressa: 'Elohim ḥushah-li, ó Deus, apressa-te para mim. O Salmo 40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que começara com uma espera paciente (Sl 40.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), podia terminar lembrando que Deus pensa no pobre. O Salmo 70 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que começa e termina em emergência, não tem tempo para a reflexão; só tem fôlego para repetir o pedido.

As duas formas são oração legítima. Há momentos em que o crente consegue dizer, em perigo, que Deus pensa nele, e momentos em que só consegue pedir que Deus venha logo. O Saltério guarda as duas versões.

A última linha chama Deus de 'ezri, meu auxílio, retomando o pedido de socorro do v. 1, e mefalṭi, meu libertador, da raiz palaṭ, escapar, fazer escapar. E o salmo termina com YHWH 'al-te'aḥar, Senhor, não demores. A sexta diferença está justamente aqui: no Salmo 40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o vocativo final é meu Deus; no 70, é o nome próprio do Senhor. Curiosamente, nesse ponto o salmo da coleção eloísta usa o nome da aliança onde o outro usava o nome comum. A observação mostra mais uma vez que as diferenças não são simples troca mecânica, e que o salmo, ao fechar, apela ao Deus que se comprometeu com Israel pelo nome.

Em resumo, o Salmo 70 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) suprime a fórmula de cortesia inicial, encurta a descrição dos inimigos, troca o espanto deles por uma retirada, alterna os nomes divinos de outro modo e substitui a frase de confiança do fim por um novo pedido de pressa. O Salmo 40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) termina com uma súplica dentro de uma história de gratidão; o 70 é a súplica sozinha, no momento em que ela ainda não tem final feliz.


✨ 4. Versículos-Chave

Sl 70.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O pedido de livramento e de socorro, com a pressa no centro. É o versículo que a tradição monástica escolheu como fórmula de oração contínua e que abre as horas da oração da Igreja no Ocidente. A sua força está na simplicidade: reconhece que o ser humano precisa de Deus em todas as circunstâncias e pede que ele venha sem demora. Para o leitor cristão, é a oração de quem sabe que não se basta, e que encontra em Cristo o auxílio sempre presente (Hb 4.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Sl 70.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A alegria dos que buscam a Deus e amam a sua salvação. O versículo define o povo de Deus não pela origem nem pelas obras, mas pelo que procura e pelo que ama. E a resposta desse povo é uma aclamação contínua da grandeza de Deus. No Novo Testamento, Maria abre o seu cântico exaltando a grandeza do Senhor e dizendo-se cheia de alegria por causa do Deus que a salva (Lc 1.46-47 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e reúne exatamente as ideias deste versículo: alegria, salvação e engrandecimento de Deus. Não se trata de citação, mas de uma mesma linguagem de fé.

Sl 70.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A confissão de pobreza e o pedido final para que Deus não demore. É talvez a definição mais curta de oração no Saltério: eu sou pobre, tu és o meu auxílio, vem depressa. O versículo reconhece a dependência total e, ao mesmo tempo, a confiança, porque só se pede pressa a quem se espera que venha.


⛪ 5. Temas Teológicos Centrais

A urgência na oração e o tempo de Deus. O salmo inteiro é um pedido de pressa. A Bíblia não condena esse tipo de oração. Os salmistas perguntam até quando (Sl 13.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), pedem que Deus desperte (Sl 44.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), que não fique calado (Sl 28.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus contou a parábola da viúva insistente para ensinar a perseverar na oração sem esmorecer (Lc 18.1-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e terminou dizendo que Deus fará justiça aos seus escolhidos sem demora. Ao mesmo tempo, o tempo de Deus nem sempre é o nosso. Pedro lembra que a aparente demora do Senhor é, na verdade, paciência (2Pe 3.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 70 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) vive dentro dessa tensão: pede pressa a um Deus que sabe a hora certa.

A honra, a vergonha e a justiça. O salmo deseja que os perseguidores sejam envergonhados e recuem, e que os fiéis se alegrem. É uma oração por inversão de destinos: os que riam da queda do justo acabam envergonhados, e os que buscavam a Deus acabam em festa. Essa inversão é um tema constante das Escrituras, do cântico de Ana (1Sm 2.4-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) ao de Maria (Lc 1.51-53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ela encontra o seu centro na cruz, onde Cristo suportou a vergonha e a desprezou (Hb 12.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e na ressurreição, que inverteu o veredito dos que o condenaram (At 2.23-24, 36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Os pobres do Senhor. A confissão de pobreza do v. 5 pertence a uma linha de espiritualidade muito presente nos Salmos: a dos 'anawim e 'evyonim, os humildes e necessitados que não têm outra defesa senão Deus. Os profetas falam desse remanescente humilde que se refugia no nome do Senhor (Sf 3.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus chamou de felizes os que se reconhecem pobres diante de Deus e lhes prometeu o Reino (Mt 5.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 70 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ensina que a pobreza confessada diante de Deus não é humilhação, mas a porta da oração.


✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo

6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?

O Salmo 70 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) nasce num mundo marcado pela Queda: há quem busque a vida do próximo e quem se divirta com o mal alheio. O orante é um pobre cercado, e a sua única defesa é Deus. Pertence à Redenção em andamento, porque mostra Israel aprendendo a esperar o socorro de Deus no meio do perigo e a confiar no Senhor da aliança. O pedido que fica no ar, o de que Deus não demore, encontra uma primeira resposta na Redenção consumada: em Cristo, Deus veio. E o mesmo pedido permanece vivo até a Nova Criação, porque a Igreja ainda clama para que o Senhor venha, e só na sua vinda final toda zombaria se calará e toda alegria será completa (Ap 21.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 22.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

6.2 — O Cristo que orou com urgência

O Salmo 70 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não é citado no Novo Testamento, e seria um erro apresentá-lo como profecia direta da paixão. Mas, lido à luz dos Evangelhos, ele descreve com exatidão uma oração que Jesus viveu. Hebreus lembra que, durante a sua vida mortal, Jesus clamou ao Pai em alta voz e entre lágrimas, pedindo àquele que tinha poder para tirá-lo da morte, e que a sua súplica foi atendida por causa da sua submissão reverente (Hb 5.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No Getsêmani, ele confessou uma tristeza mortal e pediu ao Pai, com o rosto em terra, que o cálice passasse, entregando-se ao mesmo tempo à vontade do Pai (Mt 26.38-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ali, o Filho fez a oração do pobre que precisa de socorro.

Há, porém, uma diferença decisiva. O salmista pede que Deus se apresse em livrá-lo, e Deus o livra. Jesus pede, submete-se, e não é poupado da cruz. A resposta do Pai veio de outro modo: não o livrou da morte, mas o livrou da morte pela ressurreição. Hebreus diz que ele foi ouvido, e a prova de que foi ouvido é o túmulo vazio. O Salmo 70 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), nos lábios de Cristo, ganha uma profundidade nova: o socorro de Deus pode passar pela morte, mas não termina nela.

6.3 — Os zombadores que recuaram

O riso dos inimigos no v. 3 tem paralelos claros na cena da cruz. Os que passavam balançavam a cabeça e zombavam de Jesus com uma interjeição de escárnio, desafiando-o a descer da cruz (Mc 15.29-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e os chefes dos sacerdotes faziam o mesmo (Mt 27.41-43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o texto que os evangelistas têm mais diretamente em vista nessas cenas (Sl 22.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas o 70 pertence à mesma família de orações do justo zombado.

O pedido de que os inimigos recuassem também tem um eco possível no Evangelho de João. Quando os soldados chegaram ao jardim para prender Jesus e ele se identificou, eles recuaram e caíram por terra (Jo 18.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Muitos intérpretes ouvem aí um eco da linguagem dos salmos que pedem que os perseguidores do justo recuem (Sl 35.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 40.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 70.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A conexão é analógica, não uma citação, mas é significativa: o Justo que poderia ter feito os inimigos recuarem para sempre deixou-se prender, por amor.

E a vergonha que o salmo deseja aos perseguidores foi, na cruz, suportada pelo próprio Cristo, que a tratou como coisa de nada, com os olhos postos na alegria que viria depois (Hb 12.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ali mesmo a vergonha mudou de lado: Paulo diz que, na cruz, Cristo desarmou as potências do mal e fez delas um espetáculo público (Cl 2.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Alguns dos que gritaram no Calvário, confrontados pela pregação de Pentecostes, sentiram o coração ferido e se arrependeram (At 2.36-41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A vergonha que o salmo pede pode, em Cristo, tornar-se o começo da salvação.

6.4 — O pobre e necessitado e o Deus que não demora

A confissão do v. 5 encontra em Cristo o seu sentido mais profundo. Paulo lembra que Cristo deixou a riqueza que tinha e abraçou a pobreza por nossa causa, para nos enriquecer com o que é dele (2Co 8.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus viveu sem lugar fixo para descansar (Mt 8.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e se identificou com os pobres, os famintos e os presos, a ponto de dizer que o que se faz a eles é feito a ele (Mt 25.35-40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O pobre que ora no Salmo 70 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) tem, desde então, um irmão mais velho que conhece a pobreza por dentro.

O último pedido do salmo, não demores, atravessa toda a Bíblia. Os profetas o repetiram de muitas formas, e Habacuque recebeu a promessa de que a visão tinha hora marcada e, mesmo que parecesse lenta, chegaria sem falta (Hc 2.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Hebreus retoma essa promessa e a aplica à vinda de Cristo: falta pouco para a chegada daquele que há de vir, e ele não se atrasará (Hb 10.37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E a Igreja primitiva transformou o pedido do Salmo 70 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) numa oração própria, em aramaico: maranatha, vem, Senhor nosso (1Co 16.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Bíblia termina com essa mesma súplica, na resposta da Igreja à promessa de Cristo de que vem em breve (Ap 22.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 70 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é, assim, uma oração que a Igreja nunca deixou de fazer: o pedido de que o Senhor venha depressa, agora em cada aflição e, por fim, na sua vinda gloriosa.

6.5 — O Evangelho no capítulo

Pregar o Salmo 70 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) cristocentricamente é anunciar que o Deus a quem o pobre pede pressa já veio. A pergunta que o salmo deixa no ar, se Deus virá a tempo, recebe no Evangelho uma resposta surpreendente: quando o tempo marcado se completou, o Pai enviou o Filho (Gl 4.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O socorro que o salmista pedia chegou em pessoa.

Esse socorro, porém, não veio como o salmista talvez imaginasse. O Filho não afastou os zombadores: deixou-se zombar, passou pela morte e carregou a vergonha que cabia a outros. Foi por esse caminho que ele se tornou o auxílio e o libertador dos pobres que clamam (v. 5), aquele por meio de quem Deus nos arrancou do poder das trevas e nos levou para o reino do seu Filho (Cl 1.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Por isso, quem hoje ora o Salmo 70 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) o faz com uma segurança que o salmista ainda não tinha. Continua pedindo pressa e confessando a sua pobreza, mas sabe que a cruz já venceu os zombadores, e pode dizer que Deus é grande antes mesmo da resposta, porque a ressurreição garante que ela virá.


🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)


🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico

Ore curto quando não houver fôlego para orar longo. Uma oração não precisa ser longa para ser verdadeira. Há dias em que a angústia rouba as palavras e só resta um pedido de socorro. O próprio Jesus ensinou que a quantidade de palavras não convence o Pai, que já conhece a nossa necessidade (Mt 6.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o Espírito intercede por nós quando não sabemos orar (Rm 8.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Um versículo repetido com fé pode sustentar a alma num hospital, num velório, numa noite de insônia.

Peça pressa sem perder a confiança. Não há pecado em pedir a Deus que venha depressa. O salmista faz isso duas vezes num salmo de cinco versículos. Ao mesmo tempo, quem conhece Cristo sabe que a demora de Deus não é indiferença. Marta e Maria lamentaram diante de Jesus que ele não tivesse chegado antes da morte do irmão (Jo 11.21, 32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); a demora de Jesus parecia descaso, mas preparava algo maior. Pedir pressa e confiar no tempo de Deus não se contradizem; fazem parte da mesma fé.

Deseje que o mal recue, não que o ofensor seja destruído. O salmo pede que os inimigos sejam envergonhados e voltem atrás, não que morram. Quando alguém sofre perseguição, calúnia ou humilhação, é legítimo pedir que o mal pare, que a mentira seja desmascarada, que o agressor recue. O evangelho acrescenta uma esperança: que a vergonha leve o ofensor ao arrependimento, como levou muitos em Pentecostes. Quem foi alcançado pela graça de Cristo aprende a desejar isso até para os seus inimigos.

Ame a salvação de Deus também na vida dos outros. O v. 4 descreve os que amam a salvação de Deus e a celebram continuamente. É fácil alegrar-se com o socorro que chega para nós; mais difícil é alegrar-se com o que chega para os outros, especialmente quando ainda estamos esperando. O Salmo 70 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) coloca a alegria dos outros fiéis no centro do pedido do pobre. Em Cristo, a comunidade aprende a partilhar a alegria de quem foi socorrido (Rm 12.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Assuma a sua pobreza diante de Deus. Muita gente vive sob a pressão de parecer forte e sempre no controle. O salmo ensina que reconhecer a própria fraqueza é o começo da oração verdadeira, e Cristo se fez pobre para nos encontrar exatamente nesse lugar.


🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo

  1. Compare o Salmo 70 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) com Sl 40.13-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Quais diferenças você percebe, e o que elas sugerem sobre o estado de espírito de quem ora cada uma das versões?
  2. O salmo começa e termina pedindo pressa (vv. 1, 5). Por que a Bíblia acolhe esse tipo de oração, e como ela se concilia com a confiança no tempo de Deus?
  3. Os inimigos buscam a vida do orante (v. 2) e os fiéis buscam a Deus (v. 4). O que a sua vida mostra que você tem buscado ultimamente?
  4. De que maneira a oração de Jesus no Getsêmani (Mt 26.38-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e a afirmação de Hebreus de que ele foi ouvido (Hb 5.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) iluminam o pedido de socorro deste salmo?
  5. O pedido final, não demores, reaparece na oração da Igreja pela vinda do Senhor (1Co 16.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 22.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Como essa esperança muda o modo de enfrentar as demoras e as aflições de hoje?
  6. Para meditação e oração: escolha o v. 1 como oração para esta semana. Repita-o com as suas próprias palavras sempre que sentir medo, tentação ou cansaço, e anote no fim da semana como Deus o socorreu.

📚 10. Para Aprofundamento

Cristocêntrica / Teologia Bíblica:

  • Dietrich Bonhoeffer — Psalms: The Prayer Book of the Bible (Augsburg, 1970)
  • Christopher J. H. Wright — Conhecendo Jesus através do Antigo Testamento (Ultimato) / Knowing Jesus Through the Old Testament (IVP, 1992)
  • Sidney Greidanus — Preaching Christ from the Old Testament (Eerdmans, 1999)

Comentários dos Salmos:

  • Derek Kidner — Salmos 1–72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
  • Marvin E. Tate — Psalms 51–100 (Word Biblical Commentary, 1990)
  • Nancy deClaissé-Walford, Rolf A. Jacobson e Beth LaNeel Tanner — The Book of Psalms (NICOT, Eerdmans, 2014)

Na tradição da oração:

  • João Cassiano — Conferências, a décima, sobre a oração
  • Bento de Núrsia — Regra, nos capítulos sobre a ordem do ofício divino

Sabedoria para o Cotidiano
Há horas em que não cabe uma oração longa, só um pedido de socorro, e o Salmo 70 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) mostra que Deus acolhe essa pressa: você pode dizer a ele que é pobre, que precisa dele agora e que não aguenta esperar. Peça que o mal recue, mas deseje que até quem o feriu encontre o caminho de volta, e não deixe que a sua espera apague a alegria pela salvação que Deus dá aos outros. O Senhor a quem você pede que não demore já veio uma vez, em Cristo, e prometeu voltar; enquanto isso, ele chega a tempo em cada aflição, mesmo quando o tempo dele não é o seu.

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Conteúdo criado com os recursos de inteligência artificial da plataforma, com a curadoria do Pastor Mário Levy. Ainda assim, a IA pode cometer erros — na dúvida, confira na própria Bíblia.