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Salmos · 19 de 66 · Antigo Testamento

Salmos — Capítulo 72

Infográfico de “Salmos 72 — Capítulo a capítulo”, gerado automaticamente a partir do estudo publicado, com 7 partes: A justiça que o rei recebe de Deus; Como a chuva sobre o campo ceifado; De mar a mar, e os reis que trazem presentes; Porque ele ouve o pobre que clama; O nome que dura enquanto houver sol; A bênção que fecha o Segundo Livro; A nota que encerra a coleção davídica.

Título do capítulo: O rei justo que reinará de mar a mar
Gênero literário: Poesia/Salmo (salmo real em forma de oração pelo rei, de horizonte messiânico, encerrado pela doxologia do Segundo Livro dos Salmos e por uma nota editorial sobre as orações de Davi)
Número de versículos: 20

Nota de precisão: a numeração segue a tradição das Bíblias em português, em que a inscrição ("de Salomão") não é contada como versículo; no hebraico impresso ela abre o versículo 1, e por isso, neste salmo, os números coincidem. Na antiga tradução grega, que junta os Salmos 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 10, este é o salmo setenta e um. Os vv. 18-19 são a bênção que fecha o Segundo Livro dos Salmos (Sl 42–72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o v. 20 é uma nota de escriba, não um verso do poema; ambos são tratados no lugar próprio. Vários verbos do salmo podem ser lidos como desejo ("que ele…") ou como afirmação ("ele…"), e a diferença é comentada adiante.


🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural

O Salmo 72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é uma oração pelo rei. Não por um rei qualquer, mas pelo rei que Israel esperava ter: justo com os pobres, temido pelos opressores, abençoado pelo céu, reconhecido pelas nações. É ao mesmo tempo retrato e pedido, e, à medida que avança, o retrato fica grande demais para qualquer moldura humana: domínio de mar a mar, reinado que dura enquanto houver sol e lua, todas as nações abençoadas nele. É nesse excesso que o salmo se abre para a esperança messiânica.

A inscrição é uma única palavra: lishlomoh, "de Salomão" ou "para Salomão". A mesma inscrição aparece apenas mais uma vez no Saltério, no Salmo 127 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). A preposição le admite os dois sentidos: o salmo pode ser composto por Salomão, ou composto para ele, ou ainda pertencer a uma tradição ligada ao seu nome. A antiga tradução grega entendeu "para Salomão", e uma leitura muito difundida, desde a Antiguidade, viu aqui a oração de Davi pelo filho que herdaria o trono. Essa leitura se apoia em dois fatos. O primeiro é a nota do v. 20, que encerra as orações de Davi justamente depois deste salmo. O segundo é a narrativa de Crônicas, em que Davi, no fim da vida, ora para que Deus dê a Salomão um coração íntegro (1Cr 29.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Outros preferem uma composição de Salomão ou da sua corte, lembrando o pedido de discernimento para julgar o povo, em Gibeom (1Rs 3.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não é possível decidir com segurança. O mais prudente é dizer que o salmo está ligado ao nome de Salomão e à transição do reino de Davi para o filho, e que foi usado na liturgia de Israel como oração por cada rei da casa de Davi, talvez na sua coroação.

O pano de fundo é a aliança davídica. Pelo profeta Natã, Deus prometeu a Davi um descendente cujo trono seria firmado para sempre, e disse que seria para ele um pai, e o rei, um filho (2Sm 7.12-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A partir daí, cada rei da linhagem de Davi carregava essa promessa. Entre os salmos reais, que acompanham essa esperança da entronização ao lamento pela casa caída (Sl 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 89 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 110 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o Salmo 72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o retrato mais completo do ideal. Ele se parece com as últimas palavras de Davi, registradas em Samuel, onde o governante justo, que reina no temor de Deus, é comparado à luz da manhã sem nuvens e à chuva que faz brotar a erva (2Sm 23.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O v. 6 do salmo retoma exatamente essa imagem.

O mundo do antigo Oriente Próximo conhecia bem o ideal do rei justo. Inscrições de reis mesopotâmicos se gabavam de proteger o órfão e a viúva, e o prólogo do código de Hamurabi apresenta o rei como posto pelos deuses para que o forte não oprimisse o fraco. O Salmo 72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) fala essa linguagem comum, mas com duas diferenças essenciais. Primeiro, a justiça não é do rei; é de Deus, e o rei a recebe como dom (v. 1). Segundo, a razão da glória do rei não é a sua força militar, mas o seu cuidado com o pobre (vv. 12-14, onde a partícula "porque" explica o domínio universal dos vv. 8-11). O rei é grande porque se inclina para os pequenos.

A história, porém, não confirmou o salmo. Salomão começou bem, recebeu a rainha de Sabá (1Rs 10.1-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), viu navios de Társis trazerem riquezas (1Rs 10.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e teve paz nas fronteiras (1Rs 4.24-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas multiplicou mulheres, cavalos e ouro, o que a lei do rei proibia (Dt 17.16-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), deixou o coração desviar-se para outros deuses (1Rs 11.1-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e impôs ao povo um jugo tão pesado que, na sua morte, as tribos do norte romperam com a casa de Davi (1Rs 12.4, 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quem cantava o Salmo 72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) depois disso cantava uma esperança ainda não cumprida. Por isso, já no judaísmo antigo, o salmo foi lido como descrição do Messias: a antiga paráfrase aramaica dos Salmos, o Targum, aplica o v. 1 ao Rei Messias, e uma passagem do Talmude conta entre os nomes do Messias um termo tirado do v. 17. A leitura cristã segue o mesmo caminho e o leva ao seu destino.

O salmo ocupa um lugar estratégico no livro. É o último do Segundo Livro (Sl 42–72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a bênção dos vv. 18-19 marca a fronteira com o Terceiro. O Primeiro Livro termina com o rei doente e traído que espera ser levantado (Sl 41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o Segundo, com a oração pelo filho do rei e pelo reinado universal; o Terceiro terminará com o lamento de que a coroa de Davi foi lançada por terra (Sl 89.38-45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Estudiosos da forma final do Saltério, como Gerald Wilson, propuseram que essas costuras são intencionais: o livro acompanha a esperança davídica da glória à crise, e da crise à proclamação de que o Senhor reina. O Salmo 72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o ponto alto dessa curva.


📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo

O salmo começa pedindo que Deus ponha nas mãos do rei e do seu herdeiro o próprio critério divino de julgar (v. 1), para que o povo de Deus e os seus pobres sejam governados com retidão (v. 2). Que até os montes e as colinas produzam bem-estar e justiça para o povo (v. 3). Que o rei tome a defesa dos humildes, socorra os filhos dos necessitados e quebre o explorador (v. 4).

A oração deseja então que o temor de Deus, ou o próprio reinado, se prolongue enquanto o sol e a lua brilharem, de uma geração a outra (v. 5). Que a presença do rei seja como chuva caindo sobre o campo já ceifado, como as pancadas d'água que encharcam o solo (v. 6). Que no seu tempo o justo prospere e a paz transborde até que não reste lua no céu (v. 7).

Segue-se o pedido do domínio universal: que o seu governo se estenda de um mar ao outro, do Eufrates aos extremos da terra (v. 8). Que os moradores do deserto se ajoelhem diante dele, e os inimigos se prostrem até o chão (v. 9). Que os reis de Társis e das terras do litoral lhe paguem tributo, e os de Sabá e de Seba lhe tragam presentes (v. 10); que todos os reis se curvem e todas as nações o sirvam (v. 11).

O motivo vem a seguir: o rei socorre o necessitado que pede ajuda e o humilde que não tem defensor (v. 12); compadece-se do fraco e do pobre e salva a vida dos que nada têm (v. 13); arranca-os da exploração e da violência, como um parente que resgata, porque a vida deles, até o sangue, vale muito para ele (v. 14).

Por isso o salmo aclama o rei e lhe deseja vida longa: que receba ouro de Sabá, que o povo interceda por ele sem cessar e o abençoe o dia inteiro (v. 15). Que o trigo cresça farto até no topo dos montes, com espigas que se movem ao vento como as florestas do Líbano, e que a população das cidades viceje como a relva (v. 16). Que o nome dele nunca se apague e cresça enquanto houver sol; que as nações encontrem bênção nele e o proclamem feliz (v. 17).

Por fim, a voz se volta para Deus: bendito o Senhor, o Deus de Israel, o único autor de maravilhas (v. 18); que o seu nome glorioso seja louvado sem fim e a sua glória cubra a terra inteira, e a comunidade responde com um duplo amém (v. 19). Uma nota de escriba registra o fim da coleção das orações de Davi, filho de Jessé (v. 20).


🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)

Versículos 1-4 — A justiça que o rei recebe de Deus
O salmo começa com o nome de Deus, 'elohim, e com um imperativo: dá. O primeiro pedido é que o rei receba os mishpaṭim de Deus, os seus juízos, as suas decisões justas, e que o filho do rei receba a tsedaqah divina, a sua justiça. O par atravessa o Antigo Testamento: mishpaṭ é o direito aplicado, a sentença justa; tsedaqah é a retidão de fundo, a conformidade com o que Deus quer (cf. Jr 22.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que chama atenção é o possessivo: os teus juízos, a tua justiça. O rei não governa com justiça própria; recebe a de Deus. O paralelismo "rei" e "filho do rei" sugere alguém que é rei e herdeiro ao mesmo tempo, de linhagem legítima, como Salomão, filho de Davi.

O v. 2 diz para que serve essa justiça: para que o rei julgue o 'am, o povo de Deus, e os 'aniyyim, os humildes, os pobres. O povo é "teu povo", de Deus, e os pobres são "teus pobres": o rei não é dono de ninguém; administra em nome do verdadeiro Senhor.

O v. 3 é uma imagem bonita e um pouco estranha: que os montes tragam shalom e as colinas tragam justiça. Na terra de Israel, os montes eram o lugar das plantações em socalcos, dos vinhedos e das oliveiras; quando havia justiça no reino, a terra inteira, até as alturas, produzia bem-estar. A palavra shalom é mais ampla que a ausência de guerra: é a vida inteira em ordem, a saúde da terra, das relações e da comunidade. O nome de Salomão, shelomoh, ecoa essa palavra: o rei da paz deve trazer paz.

O v. 4 mostra que justiça, aqui, tem lado. O rei julgará a causa dos 'aniyye-'am, os humildes do povo, salvará os filhos do 'evyon, o necessitado, e esmagará o 'osheq, o opressor, aquele que explora. Justiça não é neutralidade entre o forte e o fraco; é defesa do fraco contra a exploração do forte. Isaías dirá o mesmo do rebento de Jessé, cujas sentenças tomarão o partido dos pobres e dos humildes da terra (Is 11.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Versículos 5-7 — Como a chuva sobre o campo ceifado
O v. 5 tem uma questão de texto. O hebraico traz yira'ukha, isto é, que temerão a Deus enquanto durar o sol, e diante da lua, de geração em geração: o temor a Deus perdura enquanto o rei governa com justiça. A antiga tradução grega leu um verbo diferente, com o sentido de "ele permanecerá", e muitos estudiosos preferem essa leitura, que faz do versículo um desejo de longa vida ao rei e combina com os vv. 15 e 17. Em ambas, a comparação com o sol e a lua já indica algo maior que uma vida humana.

O v. 6 traz a imagem central da seção. O rei deve descer como a chuva sobre o gez, palavra que pode indicar o campo ceifado ou o velo de lã; a maioria entende o campo depois da ceifa, quando a erva cortada precisa de chuva para brotar de novo. E como os aguaceiros (revivim) que regam a terra. Num país que dependia das chuvas, o bom rei não é tempestade que destrói, mas chuva que faz brotar. A imagem retoma as últimas palavras de Davi, que comparam o governante justo à chuva que faz a erva brotar da terra depois do sol (2Sm 23.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O v. 7 diz o que brota quando o rei é chuva: o tsaddiq, o justo, floresce (alguns manuscritos e versões antigas leem "a justiça"), e há abundância de paz até que a lua deixe de existir. A expressão hebraica 'ad-beli yareaḥ, literalmente até a falta da lua, é uma maneira de dizer para sempre. Isaías, falando do menino que nasce para assumir o governo, promete um domínio sempre crescente e uma paz sem limite (Is 9.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Versículos 8-11 — De mar a mar, e os reis que trazem presentes
O v. 8 alarga o horizonte. O pedido é que o governo do rei (yerd, do verbo radah, o mesmo de Gn 1.26-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), onde o ser humano recebe domínio sobre a criação) se estenda de mar a mar e do Rio aos extremos do mundo. "O Rio" é o Eufrates, a fronteira ideal da terra prometida (Gn 15.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Êx 23.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). "De mar a mar" pode ser lido geograficamente ou como "de um extremo a outro do mundo", e os "confins da terra" ('afse-'arets) empurram a imagem para além de qualquer mapa. Séculos depois, Zacarias retomará quase literalmente este versículo ao anunciar o rei que vem a Sião justo, salvador e humilde, montado num jumento (Zc 9.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o texto que os evangelhos veem cumprido na entrada de Jesus em Jerusalém (Mt 21.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O v. 9 apresenta os tsiyyim, palavra que costuma designar os habitantes do deserto ou os animais do ermo; alguns estudiosos propõem corrigir para "adversários", por causa do paralelismo com os inimigos. A imagem dos inimigos com a boca no pó é de submissão total, como a do vassalo prostrado com o rosto no chão diante do soberano (Is 49.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mq 7.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Os vv. 10-11 nomeiam os reis que vêm de longe. Társis era um porto distante no ocidente, provavelmente no extremo do Mediterrâneo; muitos o identificam com Tartessos, no sul da Península Ibérica, mas a localização não é certa. Era o fim do mundo navegável, para onde Jonas quis fugir (Jn 1.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); as 'iyyim são as ilhas e costas do Mediterrâneo. Sabá ficava no sul da Arábia, na região do atual Iêmen, e era famosa pelo comércio de ouro, incenso e especiarias; dali veio a rainha que visitou Salomão (1Rs 10.1-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Seba é mencionada ao lado de Cuxe e do Egito (Gn 10.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 43.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 45.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e costuma ser situada na África, embora também sua localização seja discutida. Trazem minḥah, tributo, oferta, e 'eshkar, presentes. O v. 11 resume: todos os reis se prostrarão diante dele, todas as nações o servirão. O rei que no v. 4 se inclinava para o pobre é agora aquele diante de quem os reis se inclinam.

Versículos 12-14 — Porque ele ouve o pobre que clama
O v. 12 começa com ki, porque, e essa pequena palavra muda tudo. O domínio universal dos vv. 8-11 tem uma razão, e a razão não é militar nem econômica. As nações se curvam diante do rei porque ele livra o 'evyon, o necessitado, que clama, e o 'ani, o humilde, que não tem defensor. A grandeza do rei se mede pelo modo como trata quem não tem ninguém. É uma inversão completa da lógica dos impérios, em que os reis eram grandes por terem conquistado mais.

O v. 13 acrescenta dois verbos de ternura: ele tem dó (yaḥos), compaixão, do dal, o fraco, o magro, e do necessitado, e salva as vidas (nafshot) dos necessitados. O v. 14 é o mais comovente da seção. O rei resgata (yig'al) a vida deles da opressão e da violência (ḥamas, a palavra da violência que encheu a terra antes do dilúvio, Gn 6.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O verbo ga'al é o do go'el, o parente resgatador, o familiar próximo que tinha a obrigação de resgatar o parente vendido como escravo, recuperar a terra perdida ou vingar o sangue derramado (Lv 25.25, 47-49 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Rt 4.1-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E a frase final diz que o sangue deles é yeqar, precioso, de alto valor, aos olhos do rei. Para os poderosos, a vida do pobre costuma ser barata; para este rei, é cara.

Versículos 15-17 — O nome que dura enquanto houver sol
O v. 15 começa com wiyḥi, que viva!, a aclamação que o povo dava ao rei na coroação (1Sm 10.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Rs 1.34, 39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Seguem-se o ouro de Sabá oferecido ao rei, a intercessão constante por ele e a bênção pronunciada sobre ele o dia inteiro. O sujeito de alguns verbos é ambíguo, e há quem leia que é o próprio rei quem ora pelos pobres e lhes dá do ouro; a leitura mais comum, porém, é que o povo ora pelo rei e o abençoa. Há aqui uma reciprocidade: o rei cuida dos pobres, e o povo ora pelo rei (cf. 1Tm 2.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O v. 16 volta à fertilidade da terra. Que haja pissat-bar, expressão que só aparece aqui, entendida como abundância ou punhado de cereal, até no cume dos montes, onde o solo é pobre e o trigo raramente cresce. O fruto ondulará como as florestas do Líbano, e a gente das cidades florescerá como a erva. Sob o rei justo, a terra e o povo prosperam juntos (cf. Am 9.13-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O v. 17 é o ápice do salmo. O pedido é que o nome do rei dure sem fim e que, enquanto houver sol, ele yinnon, palavra de sentido incerto, entendida como "brote", "se propague", "tenha descendência". Foi desse termo que uma passagem do Talmude tirou um dos nomes do Messias, Yinon. A segunda metade do versículo retoma, de forma inconfundível, a promessa feita a Abraão: as nações encontrarão bênção no rei e o proclamarão feliz. O verbo yitbarekhu é o mesmo usado nas promessas aos patriarcas, quando Deus promete que os povos da terra encontrarão bênção na descendência de Abraão (Gn 22.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gn 26.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); cf. Gn 12.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o verbo final, ye'ashsheruhu, vem da raiz de 'ashre, a palavra da felicidade que abre o Saltério (Sl 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): as nações proclamarão bem-aventurado o rei. Convergem aqui a promessa a Abraão, de bênção para todas as nações, e a promessa a Davi, de um rei eterno: a bênção abraâmica chegará ao mundo pelo rei davídico.

Versículos 18-19 — A bênção que fecha o Segundo Livro
Depois do v. 17, a voz muda. Os vv. 18-19 não falam mais do rei, mas do Senhor. É uma doxologia, uma fórmula solene de bênção a Deus, e cumpre uma função editorial: fechar o Segundo Livro dos Salmos. O Saltério, na forma que chegou até nós, está dividido em cinco livros, e cada um termina com uma bênção desse tipo: Sl 41.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Sl 72.18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Sl 89.52 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Sl 106.48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e o Salmo 150 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) inteiro como grande louvor final. Provavelmente acrescentadas pelos editores da coleção, elas fazem de cada parte do livro, com seus lamentos e súplicas, algo que termina em bênção a Deus.

Das quatro fórmulas de bênção, esta é a mais desenvolvida. Bendito seja o Senhor Deus (YHWH 'elohim), o Deus de Israel, o único que faz maravilhas (nifla'ot levaddo). Depois de um salmo inteiro sobre o rei, a ênfase no "único" é decisiva: o rei é instrumento; as maravilhas pertencem só a Deus. O v. 19 pede que o nome glorioso de Deus seja bendito para sempre e que toda a terra se encha da sua glória. O pedido ecoa em vários lugares: Deus jura pela própria vida que a sua glória encherá a terra (Nm 14.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), os serafins proclamam que a terra inteira já está cheia dela (Is 6.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Habacuque compara o conhecimento da glória divina que encherá a terra às águas que recobrem o fundo do mar (Hc 2.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O domínio do rei "até os confins da terra" (v. 8) serve, no fim, à glória de Deus que enche "toda a terra" (v. 19). O duplo amém ('amen we'amen) é a resposta da comunidade, como no fim do Primeiro Livro (Sl 41.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e do Terceiro (Sl 89.52 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O Segundo Livro (Sl 42–72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) tem traços próprios. Começa com os salmos dos filhos de Corá (Sl 42–49 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), passa por um salmo de Asafe (Sl 50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e por uma grande coleção davídica (Sl 51–65 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 68–70 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e termina com este salmo de Salomão. É também a primeira parte do chamado Saltério eloísta (Sl 42–83 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em que o nome divino preferido é 'elohim, Deus, em vez de YHWH. Fechá-lo com a oração pelo rei e a bênção ao Deus de toda a terra é pôr a história da casa de Davi dentro do louvor ao Deus que reina sobre todos.

Versículo 20 — A nota que encerra a coleção davídica
O último versículo não pertence ao poema. É uma nota de escriba, um colofão, como os que os copistas antigos punham no fim de uma coleção para indicar que ela terminava ali. Usa o verbo kallu, estar concluído, acabar, aplicado às tefillot, as orações, de Davi, filho de Jessé. O livro de Jó tem uma nota semelhante, que marca o fim das falas de Jó (Jó 31.40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Jeremias também (Jr 51.64 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A nota levanta duas perguntas. A primeira: por que fecha as orações de Davi um salmo atribuído a Salomão? A resposta mais provável é que a nota não se refere apenas ao Salmo 72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), mas a uma coleção inteira de salmos davídicos que um dia terminava aqui, e à qual o Salmo 72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) foi associado, talvez por ser lido como a última oração de Davi, feita pelo filho. A segunda: como dizer que terminam as orações de Davi, se mais adiante aparecem outros salmos com o seu nome (Sl 86 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 101 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 103 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 108–110 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 122 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 124 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 131 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 133 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 138–145 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))? A resposta é que o Saltério cresceu por etapas, juntando coleções que antes circulavam separadas. A nota pertence a uma fase em que uma coleção davídica terminava neste ponto, e os editores a mantiveram quando o livro foi completado, por respeito ao texto recebido. É, por isso, uma janela sobre a formação do Saltério.

Também é significativo o modo como Davi é nomeado: filho de Jessé. Não "o rei", mas o filho de um homem de Belém, o caçula que cuidava das ovelhas quando Samuel veio ungir um rei (1Sm 16.11-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o nome de Jessé, logo depois de um salmo sobre o rei ideal, faz pensar no broto que, segundo Isaías, sairá do tronco cortado de Jessé, cheio do Espírito, para fazer justiça aos pobres (Is 11.1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As orações de Davi terminam; a esperança que elas carregavam continua, e aponta para outro filho de Jessé.


✨ 4. Versículos-Chave

Sl 72.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A justiça do rei é dom de Deus. Ninguém governa bem por si; o governante justo recebe de Deus os seus juízos. A antiga paráfrase aramaica o aplicou ao Rei Messias, e a fé cristã reconhece em Jesus o Rei que não apenas recebe a justiça de Deus, mas a encarna (1Co 1.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Sl 72.10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os reis de Társis, das ilhas, de Sabá e de Seba trazendo presentes formam uma das imagens mais conhecidas do salmo. Isaías a retoma ao ver as nações caminhando para a luz de Sião, com caravanas de Sabá carregadas de ouro e incenso (Is 60.3-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mateus narra a chegada dos magos do Oriente, que se prostram diante do menino em Belém e lhe oferecem ouro, incenso e mirra (Mt 2.1-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O evangelista não cita o salmo, mas a cena o evoca; por isso a tradição cristã leu o Salmo 72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) na festa da Epifania, e os magos passaram a ser representados como reis.

Sl 72.12-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A razão da grandeza do rei é o seu cuidado com os pobres. É o coração ético do salmo: o rei ouve quem clama, tem compaixão do fraco, resgata como um parente e considera precioso o sangue dos que ninguém considera. A pregação profética sobre a justiça está, em semente, nestes três versículos.

Sl 72.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A promessa a Abraão encontra o rei de Davi. Paulo verá a mesma promessa cumprida em Cristo, a descendência de Abraão por meio da qual a bênção chega aos gentios (Gl 3.8, 14, 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).


⛪ 5. Temas Teológicos Centrais

A justiça como coração do reinado. O salmo usa o vocabulário da justiça do primeiro ao último pedido sobre o rei: juízos e justiça (v. 1), julgar com retidão (v. 2), paz e justiça dos montes (v. 3), o justo que floresce (v. 7). Mas define justiça de modo concreto: defender a causa do pobre, salvar o necessitado, esmagar o opressor (v. 4), ouvir quem clama (v. 12), considerar precioso o sangue do fraco (v. 14). É o padrão pelo qual os profetas julgarão os reis de Judá: Jeremias dirá que defender a causa do pobre, como fez Josias, é exatamente o que significa conhecer a Deus (Jr 22.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O reino universal e as nações. O salmo pensa grande: de mar a mar, até os confins da terra, todos os reis, todas as nações (vv. 8-11, 17). O reino de Israel nunca foi isso, nem no auge de Salomão. A esperança, porém, estava inscrita desde o começo: Deus chamou Abraão para que nele fossem abençoadas todas as famílias da terra (Gn 12.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e prometeu ao seu Ungido as nações como herança (Sl 2.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No Salmo 72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), essa universalidade não vem pela força das armas, mas pela atração de um reinado justo, como na peregrinação das nações a Sião anunciada pelos profetas (Is 2.2-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mq 4.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A bênção da criação sob o rei justo. O salmo liga a justiça do rei à fertilidade da terra: chuva sobre o campo (v. 6), paz dos montes (v. 3), trigo no alto das colinas, frutos como o Líbano (v. 16). Para a Bíblia, a injustiça humana fere a criação, e a justiça a cura. Desde Gênesis, a terra sofre por causa do pecado humano (Gn 3.17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Os 4.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); sob o rei justo, a criação respira. Paulo descreverá a criação inteira gemendo como quem está em trabalho de parto, à espera do dia em que os filhos de Deus se manifestarão e ela própria será livre da ruína (Rm 8.19-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A glória de Deus que enche a terra. A doxologia final coloca tudo na perspectiva certa: o rei é grande, mas as maravilhas são só de Deus (v. 18), e o alvo de tudo é que a terra inteira se encha da glória dele (v. 19). O reinado do Ungido não compete com o reinado de Deus; serve a ele. Esse é o horizonte final da Bíblia: a cidade iluminada pela própria glória de Deus e pelo Cordeiro, sem depender dos astros, e para a qual os reis da terra levam as suas riquezas e honras (Ap 21.23-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).


✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo

6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?

O Salmo 72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) pertence à Redenção em andamento, no momento em que a promessa a Davi se torna oração pelo seu filho. Ele carrega memórias da Criação: o domínio do v. 8 usa o verbo dado a Adão (Gn 1.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a fertilidade da terra sob o rei justo lembra o jardim. Pressupõe a Queda: o salmo existe porque há pobres explorados, opressores violentos, sangue derramado. E aponta com força para a Redenção consumada, porque nenhum rei de Israel o cumpriu, e a esperança que ele formula só encontra resposta no Filho de Davi que Deus enviou. A doxologia final olha para a Nova Criação, quando a glória de Deus encherá toda a terra e as nações trarão à cidade de Deus a sua honra (Ap 21.24-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

6.2 — Salomão, o filho do rei, sombra do Rei maior

Na leitura que o próprio salmo sugere, o rei é Salomão, filho de Davi. Salomão é um tipo de Cristo em vários traços: filho de Davi e herdeiro da promessa (2Sm 7.12-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), rei de paz cujo nome contém shalom, sábio que julgou com discernimento (1Rs 3.16-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), construtor do templo (1Rs 6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), visitado por uma rainha estrangeira (1Rs 10.1-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus mesmo estabeleceu essa ligação e a ultrapassou: ao lembrar a rainha do Sul, que veio de longe ouvir Salomão, afirmou que diante dos seus ouvintes estava alguém que excedia Salomão (Mt 12.42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Mas o tipo também falha, e a falha é parte da lição: o rei que deveria defender o pobre acabou pesando sobre ele (1Rs 12.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus é o rei que o salmo continuava pedindo. Ele não pesa sobre o povo; convida os exaustos a tomar sobre si um jugo que alivia em vez de esmagar (Mt 11.28-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele não acumulou ouro; recebeu-o de magos estrangeiros quando ainda era criança e depois viveu sem casa própria, mais desabrigado que as raposas e as aves (Mt 8.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele é o Filho de Davi que cumpre o salmo sem trair o seu ideal.

6.3 — O Messias no salmo: cumprimento parcial, pleno e futuro

O Novo Testamento não cita o Salmo 72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) de forma direta, mas os seus temas estão em toda parte. Convém distinguir os níveis. O sentido histórico do salmo é uma oração pelo rei davídico reinante, provavelmente Salomão, e por cada rei da sua casa. Houve cumprimentos parciais: Salomão teve um reinado de paz, recebeu tributos de reis vizinhos e a visita da rainha de Sabá (1Rs 4.21, 24-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Rs 10.1-10, 23-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas o alcance universal (vv. 8, 11, 17) e a duração eterna (vv. 5, 7, 17) excediam qualquer rei humano, e por isso o judaísmo antigo leu o salmo como messiânico.

O cumprimento pleno está em Jesus. O anjo anuncia a Maria que o filho dela herdará o trono do seu antepassado Davi e reinará num reino que nunca termina (Lc 1.32-33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), linguagem que responde aos vv. 5, 7 e 17. Na sinagoga de Nazaré, Jesus lê Isaías e apresenta a própria missão como anúncio de boas-novas aos pobres e de soltura aos presos e aos esmagados (Lc 4.18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o programa dos vv. 12-14. E os magos do Oriente, trazendo ouro, incenso e mirra ao menino nascido em Belém (Mt 2.1-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), encenam o que o salmo e Isaías anunciavam: os povos distantes vindo prostrar-se diante do rei de Israel (Sl 72.10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 60.3-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A ligação é de eco tipológico, não de citação, mas é clara o bastante para que a Igreja, desde cedo, a tenha celebrado na Epifania.

A promessa do v. 17 tem um cumprimento explícito na teologia de Paulo. Escrevendo aos gálatas, ele diz que a Escritura, prevendo que Deus justificaria os gentios pela fé, anunciou de antemão o evangelho a Abraão, prometendo que nele todas as nações seriam abençoadas (Gl 3.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E acrescenta que as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência, no singular, que é Cristo (Gl 3.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em Cristo, filho de Abraão e filho de Davi (Mt 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), as duas promessas se encontram, e a bênção chega aos gentios (Gl 3.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Há ainda um cumprimento escatológico futuro. O domínio universal do rei já foi dado a Cristo (Mt 28.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o evangelho já avança entre as nações, mas ainda não vemos todas as coisas submetidas a ele (Hb 2.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Apocalipse anuncia o dia em que o governo do mundo passará, por inteiro, a Deus e ao seu Ungido (Ap 11.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O v. 11 ecoa em Filipenses, onde toda a criação se curva diante de Jesus e o reconhece como Senhor (Fp 2.10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

6.4 — O Rei que resgata o pobre e considera precioso o seu sangue

O ponto mais profundo do salmo para a fé cristã está nos vv. 12-14. Os evangelhos mostram Jesus exatamente como o rei desses versículos: comovido diante das multidões exaustas e desamparadas, como um rebanho sem quem o guie (Mt 9.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), atento ao cego que clama à beira da estrada quando todos mandam calar (Mc 10.46-52 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), tocando leprosos, acolhendo pecadores, denunciando os que exploravam as viúvas (Mc 12.40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Mas o Novo Testamento vai além do que o salmo podia imaginar. O rei do Salmo 72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) resgata a vida dos pobres porque o sangue deles lhe é precioso. Cristo, o Rei, resgatou os seus derramando o próprio sangue. Pedro lembra que o resgate da vida sem rumo que herdamos não foi pago com metais que se gastam, mas com o sangue de Cristo, de valor incalculável, oferecido como o de um cordeiro sem mancha (1Pe 1.18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele é o go'el definitivo, o parente que se fez nosso irmão (Hb 2.11-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) para nos resgatar. A aproximação com o v. 14 é teológica, não uma citação; mas mostra até onde o evangelho leva o ideal do rei justo: ele não apenas valoriza a vida do pobre, dá a sua por ela.

E o rei que defende o pobre é também o juiz das nações. Na cena do juízo final em Mateus, o Filho do Homem, reinando diante de todos os povos, identifica-se com os famintos, os estrangeiros, os doentes e os presos, e declara que cada gesto feito ao mais pequeno deles foi feito a ele mesmo (Mt 25.31-40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Rei do Salmo 72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) se inclina para os pobres; o Rei do evangelho se identifica com eles.

6.5 — O Evangelho no capítulo

Pregar o Salmo 72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) cristocentricamente é anunciar que a humanidade sempre desejou um governante justo e nunca o encontrou entre os homens. Salomão falhou, os reis seguintes falharam mais, e o salmo ficou séculos como oração sem resposta.

A resposta é Jesus. Nele, Deus deu ao Filho do Rei a sua justiça (v. 1), não como um empréstimo, mas porque ele mesmo é justo. Ele veio como chuva sobre o campo ceifado (v. 6), trazendo vida onde só havia restolho. Ele ouviu o pobre que clama (v. 12), e o pobre que clama somos nós, sem recursos diante de Deus, sem quem nos ajude. Ele nos resgatou da opressão do pecado e da violência da morte, e o preço foi o seu sangue (v. 14). E agora reina, e o seu reino avança de mar a mar, enquanto as nações vêm a ele e se abençoam nele (vv. 8, 17).

O convite do evangelho, a partir deste salmo, é o mesmo dos magos: reconhecer o Rei, prostrar-se diante dele e oferecer-lhe o que temos. E a oração da Igreja, enquanto o reino não se completa, é a do próprio salmo, que Jesus ensinou com outras palavras ao mandar pedir a vinda do reino do Pai (Mt 6.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), até que toda a terra se encha da glória de Deus.


🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)


🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico

Ore pelos governantes, e ore pelo que Deus quer deles. O Salmo 72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é uma oração pelo rei. A Igreja é chamada a orar por todos os que exercem autoridade (1Tm 2.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e este salmo ensina o conteúdo dessa oração: que recebam de Deus sabedoria para julgar com justiça, que defendam os pobres e contenham os opressores, que haja paz. E ora sabendo que nenhum governante é o salvador; o Rei verdadeiro já reina.

Meça a grandeza pelo cuidado com os pequenos. O "porque" do v. 12 explica que a glória do rei vem do modo como trata o pobre. O critério vale para governos, igrejas, famílias e cada um de nós: em Cristo, que se identificou com os menores (Mt 25.40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o cuidado com o necessitado é a forma do seu reino entre nós. A pergunta do salmo a cada um é: o sangue de quem é precioso aos seus olhos?

Deixe que Cristo seja chuva sobre o seu campo ceifado. Há fases da vida que se parecem com o campo depois da colheita: cortado, raso, sem viço. O v. 6 apresenta o rei justo como chuva que faz brotar de novo. Quem se sente assim pode esperar de Cristo não uma cobrança, mas uma chuva mansa que devolve a vida.

Reconheça o Rei e ofereça-lhe o que você tem. Os reis de Társis e de Sabá trazem presentes; os magos abrem os seus tesouros diante de Jesus. A resposta ao Rei não é só admiração, mas a entrega da própria vida, a adoração que faz sentido diante da misericórdia recebida (Rm 12.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Trabalhe e espere pela terra cheia da glória de Deus. O salmo termina pedindo que toda a terra se encha da glória do Senhor. A missão da Igreja entre as nações (Mt 28.18-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) é o caminho pelo qual essa oração se cumpre, enquanto se aguarda o dia em que ela se cumprirá por completo (Ap 11.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).


🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo

  1. O v. 1 pede que o rei receba de Deus os juízos e a justiça. O que muda na nossa compreensão do poder quando se entende que a justiça do governante é dom, e não posse?
  2. Os vv. 12-14 dão a razão da grandeza do rei. Por que o salmo põe o cuidado com o pobre como fundamento do domínio universal? Como isso desafia a nossa ideia de sucesso e de liderança?
  3. Salomão parecia cumprir o salmo, mas falhou (1Rs 11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que a distância entre o ideal do Salmo 72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e a história dos reis de Israel ensina sobre a necessidade de Cristo?
  4. Compare os vv. 10-11 e 15 com a visita dos magos (Mt 2.1-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que a cena dos magos revela sobre quem é Jesus e sobre o alcance do seu reino?
  5. O v. 17 une a promessa a Abraão e a promessa a Davi, e Paulo vê ambas cumpridas em Cristo (Gl 3.8, 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Como isso fundamenta a missão da Igreja entre todas as nações?
  6. Para meditação e oração: ore o salmo inteiro pensando em Jesus como o Rei. Depois, ore pelos governantes do seu país com os pedidos dos vv. 1-4 e termine com a doxologia dos vv. 18-19.

📚 10. Para Aprofundamento

Cristocêntrica / Teologia Bíblica:

  • Christopher J. H. Wright — Conhecendo Jesus através do Antigo Testamento (Ultimato) / Knowing Jesus Through the Old Testament (IVP, 1992)
  • O. Palmer Robertson — The Flow of the Psalms: Discovering Their Structure and Theology (P&R, 2015)
  • Gerald H. Wilson — The Editing of the Hebrew Psalter (Scholars Press, 1985), sobre as costuras entre os livros do Saltério
  • Dietrich Bonhoeffer — Das Gebetbuch der Bibel (1940; há edições em português com o título Orando com os Salmos)

Comentários dos Salmos:

  • Derek Kidner — Salmos 1–72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
  • Marvin E. Tate — Psalms 51–100 (Word Biblical Commentary, 1990)
  • Frank-Lothar Hossfeld e Erich Zenger — Psalms 2: A Commentary on Psalms 51–100 (Hermeneia, Fortress, 2005)
  • Nancy deClaissé-Walford, Rolf A. Jacobson e Beth LaNeel Tanner — The Book of Psalms (NICOT, Eerdmans, 2014)
  • Agostinho — Comentário aos Salmos (Paulus, coleção Patrística)

Sabedoria para o Cotidiano
O mundo sempre esperou um governante que defendesse o pobre, fizesse justiça ao fraco e trouxesse paz que não acaba, e nenhum rei humano deu conta disso; o Rei que o salmo pedia veio em Jesus, e o sangue dos pequenos lhe foi tão precioso que ele deu o seu. Por isso, ore pelos que governam sem pôr neles a sua esperança, meça a sua própria grandeza pelo modo como trata quem não tem ninguém, e ofereça ao Rei o que você tem, como fizeram os que vieram de longe. O reino dele cresce como chuva sobre o campo ceifado, até que a terra inteira se encha da glória de Deus.

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