Salmos · 19 de 66 · Antigo Testamento
Salmos — Capítulo 73
Título do capítulo: O santuário onde o olhar se endireita
Gênero literário: Poesia/Salmo (salmo sapiencial em forma de testemunho: a crise de fé diante da prosperidade dos ímpios, a virada no santuário e a confissão de Deus como porção para sempre; abre o terceiro livro do Saltério e a coleção de Asafe)
Número de versículos: 28
Nota de precisão: a inscrição diz apenas "salmo de Asafe" e, nas Bíblias em português, não é contada como versículo; no hebraico impresso ela faz parte do primeiro versículo, de modo que, neste salmo, os números coincidem. Na antiga tradução grega, que junta os Salmos 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 10, este é o salmo setenta e dois. O texto hebraico tem passagens difíceis, sobretudo no v. 4, no v. 7 e no v. 10, e há uma proposta antiga de correção no v. 1; as questões são tratadas no lugar próprio, sem que nenhuma altere o movimento do salmo.
🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural
O Salmo 73 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) abre uma porta nova no Saltério. O livro dos Salmos foi organizado em cinco partes, cada uma fechada por uma doxologia (Sl 41.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 72.18-19; 89.52; 106.48), e o segundo livro termina com uma nota editorial que encerra as orações de Davi, filho de Jessé (Sl 72.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Logo depois, o leitor encontra este salmo, e com ele começa o terceiro livro (Sl 73–89 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A mudança de tom é perceptível. O terceiro livro é o mais sombrio do Saltério: nele estão o lamento pelo santuário incendiado (Sl 74 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a memória das rebeldias do povo no deserto (Sl 78 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a queixa pela Jerusalém em ruínas (Sl 79 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a oração mais escura de todo o livro (Sl 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e, no fim, a pergunta angustiada sobre as promessas feitas a Davi (Sl 89.38-51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Que esse livro comece com um salmo sobre a crise da fé, e sobre a fé que sobrevive à crise, não parece acaso.
A inscrição atribui o salmo a Asafe. Segundo as Crônicas, Asafe era um levita, filho de Berequias, que Davi pôs entre os responsáveis pelo canto quando a arca foi levada para Jerusalém (1Cr 15.16-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 16.4-7). Os seus descendentes formaram uma corporação de cantores do templo que atravessou séculos e voltou do exílio com os primeiros repatriados (Ed 2.41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As Crônicas chamam Asafe de vidente (2Cr 29.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e dizem que os músicos da sua família profetizavam com instrumentos (1Cr 25.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Por isso, "de Asafe" pode indicar o próprio levita do tempo de Davi ou, mais amplamente, a tradição de cantores que levava o seu nome. Doze salmos trazem essa inscrição: o Salmo 50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), isolado no segundo livro, e o bloco que vai do 73 ao 83.
O detalhe levítico tem peso neste salmo. Na Lei, os levitas não recebiam terra como as outras tribos: o próprio Senhor era a sua porção e a sua herança (Nm 18.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 10.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Um cantor levita, sem campo nem rebanho que fossem seus por direito de herança, estava numa posição particular para sentir o contraste entre a abundância dos poderosos e a sua própria dependência. E é exatamente com a linguagem da porção, ḥeleq, que o salmo termina (v. 26). Não se pode afirmar que o autor pensava nessa lei ao escrever, mas a ressonância é forte, e muitos leitores a percebem.
A data do salmo é desconhecida: ele não menciona reis, guerras nem acontecimentos datáveis. O tema, porém, é antigo. A pergunta sobre por que os maus prosperam e os bons sofrem atravessa a sabedoria do antigo Oriente Próximo e a própria Bíblia: Jó a faz com violência (Jó 21.7-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), Jeremias a leva ao tribunal de Deus (Jr 12.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), Habacuque a lança diante do Santo (Hc 1.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o Salmo 37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) a responde com conselhos de paciência. O Salmo 73 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é diferente: não é um conselho de fora, mas o testemunho de alguém que quase perdeu a fé e conta como a encontrou de novo.
Agostinho comentou-o longamente e viu nos versos finais a lição de que a recompensa que Deus dá é ele mesmo; Martin Buber dedicou-lhe uma meditação conhecida. E alguns estudiosos, como Walter Brueggemann, propuseram que o Salmo 73 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), posto quase no meio do Saltério, funciona como dobradiça do livro: depois do Salmo 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que afirma que o justo prospera, o 73 encara a realidade em que isso parece falso e chega, pela crise, a uma confiança mais funda.
📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo
O salmo abre afirmando a bondade de Deus para com Israel, isto é, para com os puros de coração (v. 1). Logo, porém, o orante confessa que esteve perto de cair, porque olhou com inveja para os arrogantes e para o bem-estar dos ímpios (vv. 2-3).
Segue-se um retrato minucioso desses prósperos. Parecem morrer sem tormento e ter o corpo sempre robusto (v. 4); ficam livres do cansaço e dos golpes que pesam sobre os demais (v. 5). Exibem a soberba como joia no pescoço e vestem a violência (v. 6); o rosto inchado de fartura e a imaginação sem freio mostram que nada lhes falta (v. 7). Zombam, falam com maldade e ameaçam com arrogância (v. 8); erguem a boca contra o céu e soltam a língua sobre toda a terra (v. 9). Até gente do povo se volta para eles e lhes bebe as palavras (v. 10), enquanto eles debocham, duvidando de que Deus tenha como saber o que se passa (v. 11). Assim são os ímpios: sempre despreocupados, sempre mais ricos (v. 12).
O orante então olha para si. Pergunta-se se de nada adiantou manter o coração e as mãos limpos (v. 13), já que sofre golpes sem trégua e começa cada dia sob correção (v. 14). Reconhece, porém, que dizer isso em voz alta seria deslealdade para com a família dos filhos de Deus (v. 15). Tentou entender, e o esforço só o cansou (v. 16), até o dia em que entrou no santuário e passou a enxergar o desfecho daquela gente (v. 17).
Daí em diante, o olhar muda. O chão sob os ímpios é liso, e Deus os deixa resvalar para a ruína (v. 18); de repente, acabam, tomados de pavor (v. 19); quando o Senhor se levanta, a figura deles se desfaz como um sonho ao amanhecer (v. 20).
O orante reconhece o estado em que estava: amargurado por dentro (v. 21), tinha raciocinado como um animal diante de Deus (v. 22). E, no entanto, nunca deixou de estar com ele: Deus lhe tomou a mão direita (v. 23), conduz os seus passos pelo próprio conselho e, ao fim, o acolherá em glória (v. 24). Fora de Deus, ele não tem ninguém no céu nem deseja coisa alguma na terra (v. 25); o corpo e o ânimo podem se consumir, mas Deus continua sendo a rocha do seu íntimo e a sua porção eterna (v. 26). Quem se distancia de Deus caminha para a ruína, e o infiel é destruído (v. 27); para o orante, a proximidade de Deus é o que há de bom, e nele se abriga para narrar tudo o que ele fez (v. 28).
🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)
Versículos 1-3 — A confissão e o tropeço
O salmo começa pelo fim: a primeira linha já contém a conclusão a que o orante só chegará depois de um longo caminho, a bondade de Deus para com o seu povo. A palavra que abre o verso, 'akh, é uma partícula enfática ("de fato", "no fim das contas") que volta no v. 13, quando a dúvida chega ao fundo, e no v. 18, quando a resposta aparece. As três ocorrências marcam o percurso: a fé declarada, a fé quase abandonada e a fé recuperada.
O v. 1 tem uma pequena questão textual: alguns estudiosos, dividindo as letras de outro modo, leem "o reto" em vez de "Israel", o que daria um paralelismo mais perfeito com a segunda linha. O texto recebido, porém, faz sentido como está: o Israel verdadeiro são os puros de coração, e essa pureza não é título de família, mas relação com Deus. A expressão barê levav, limpos de coração, aparece também na lista das condições para subir ao monte do Senhor (Sl 24.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Jesus a retomará numa das bem-aventuranças, prometendo aos puros de coração a visão de Deus (Mt 5.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmo inteiro é a história de um coração que se turvou e foi purificado.
Logo no v. 2 vem a virada com wa'ani, "quanto a mim". Essa expressão é outra estrutura do poema: aparece no v. 2, no v. 22, no v. 23 e no v. 28, e cada vez marca uma nova posição do orante. Aqui, ele diz que os pés quase se desviaram e os passos quase se derramaram, como água que escorre. A imagem é a do caminho, tão cara à sabedoria bíblica (Sl 1.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): ele esteve à beira da queda. Não caiu, mas faltou pouco.
O v. 3 diz por quê. O verbo é qinne'ti, eu tive inveja, ou ciúme. A raiz qn' pode designar o zelo santo, mas aqui é o desejo ressentido diante do que o outro tem. O objeto da inveja são os holelim, os jactanciosos, os que se gabam, e o que ele via era o shalom dos ímpios. A palavra é surpreendente. Shalom não é apenas ausência de guerra, mas a vida inteira em ordem, a saúde, a prosperidade, o bem-estar, aquilo que Deus prometeu ao seu povo fiel. O escândalo do salmista é justamente esse: a bênção da aliança parecia estar na casa errada. O Salmo 37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) já havia advertido contra a irritação e a inveja diante dos que praticam o mal (Sl 37.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o 73 mostra o que acontece quando o conselho não é seguido.
Versículos 4-12 — O retrato dos que prosperam sem Deus
O orante pinta os ímpios com a precisão de quem os observou muito tempo. A primeira pincelada (v. 4) é de saúde: não há ḥartsubbot, palavra rara que designa amarras ou laços, aqui as dores que prendem o moribundo, e o corpo deles é gordo, robusto. O texto hebraico fala da ausência de tormento "na sua morte"; muitos estudiosos, dividindo as consoantes de outro modo, leem que eles simplesmente não têm tormentos e são sãos. Nas duas leituras, a morte parece gentil com eles, ou nem chega perto.
O v. 5 completa: eles não têm a parte comum da 'amal, a canseira, o trabalho penoso que é a herança dos mortais desde o Éden (Gn 3.17-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), nem são feridos como os outros homens. A mesma palavra 'amal voltará no v. 16, quando o orante disser que tentar entender tudo aquilo foi, para ele, uma canseira. O sofrimento que os ímpios evitam cai sobre quem pensa neles.
Os vv. 6-7 descrevem o caráter. A soberba lhes serve de 'anaq, colar: é usada como enfeite, à vista, com orgulho. A violência, ḥamas, os cobre como veste. Não a escondem; vestem-na. O v. 7 é difícil no hebraico, e a antiga tradução grega o leu de outro modo; a leitura mais comum fala de olhos que sobressaem num rosto gordo e de uma imaginação que transborda. São pessoas saciadas a ponto de perder qualquer limite: tudo o que imaginam parece possível.
Nos vv. 8-9 o retrato passa do corpo à boca. Eles zombam e ameaçam do alto da sua posição, e o v. 9 tem uma imagem poderosa: erguem a boca contra o céu e deixam a língua andar solta por toda a terra. A arrogância deles não tem fronteiras verticais nem horizontais.
O v. 10 é o mais obscuro do salmo. O hebraico parece dizer que "o seu povo" se volta para lá e que águas em abundância são sorvidas por eles. Há várias interpretações, algumas com pequenas correções do texto. A que melhor se encaixa no contexto é esta: os arrogantes atraem admiradores, e até gente do povo de Deus se volta para eles e bebe as suas palavras com avidez. É um perigo que o orante sentiu na própria pele, e por isso o v. 15 falará da geração dos filhos de Deus.
O v. 11 põe na boca dos ímpios a dúvida que é o coração da sua teologia prática: Deus teria como saber? O Altíssimo estaria informado de alguma coisa? Não é ateísmo teórico, que o mundo antigo quase não conhecia, mas o ateísmo da conduta: viver como se Deus não visse, não se importasse, não pedisse contas. O Salmo 10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) descreve o mesmo pensamento no ímpio que diz no coração que Deus se esqueceu (Sl 10.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o Salmo 94 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) responde com uma pergunta retórica, quase irônica: seria cego o criador dos olhos? (Sl 94.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 12 resume com um hinneh, eis: assim são os ímpios, shalwe, sempre despreocupados, sempre aumentando a riqueza, ḥayil. O retrato é amargo justamente porque é verdadeiro. A Escritura não esconde que, muitas vezes, os maus vivem bem e morrem em paz.
Versículos 13-16 — A tentação de desistir
Agora o olhar se volta para dentro. O v. 13 é o ponto mais baixo do salmo, marcado pelo segundo 'akh: de fato, foi riq, à toa, que o orante manteve limpos o coração e as mãos. O gesto de lavar as mãos tinha valor de declaração de inocência no antigo Israel (Dt 21.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e aparece em outro salmo como preparação para se aproximar do altar (Sl 26.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O orante está dizendo que toda a sua vida de piedade, interior (o coração) e exterior (as mãos), parece ter sido um investimento perdido.
O v. 14 agrava o quadro: enquanto os ímpios escapam dos golpes comuns (v. 5), ele é nagua', ferido, palavra usada para as pragas e as doenças, sem trégua, e cada manhã lhe traz nova correção. A ironia é cruel. O justo recebe aquilo que os ímpios mereciam, e os ímpios recebem a paz que o justo esperava.
É no v. 15 que se percebe a grandeza deste homem. Ele não chega à conclusão de que a fé é inútil; percebe que dizer em voz alta o que pensava seria uma deslealdade para com a dor banekha, a linhagem dos filhos de Deus. A fé não é para ele assunto privado: a sua dúvida, publicada como conclusão, feriria os irmãos mais frágeis. Nem por isso ele fingiu que ela não existia; o salmo a conta, mas depois da resposta, como testemunho de caminho, e não como veredito. Há perguntas que precisam ser levadas a Deus antes de ser ensinadas aos outros.
O v. 16 resume o impasse. Ele pensou, refletiu, tentou entender, lada'at, conhecer, e aquilo foi 'amal aos seus olhos, um trabalho penoso, uma canseira sem fruto. A razão sozinha, observando o mundo, não encontrou saída. Os dados eram verdadeiros, e a conclusão que eles sugeriam era terrível.
Versículos 17-20 — A virada no santuário
O v. 17 é o eixo do salmo. Tudo muda com uma preposição: 'ad, até que. Até que ele entrou nos miqdeshe-'el, os santuários de Deus. O plural chama a atenção. Pode referir-se ao conjunto do templo com os seus pátios e recintos sagrados, como o hebraico às vezes usa; pode também, como alguns sugerem, aludir aos "mistérios" ou às realidades santas de Deus, e não apenas ao edifício. A leitura mais natural é a de um levita que entra no templo e ali, no culto, na presença de Deus, compreende o que não compreendia lá fora. O salmo não diz o que aconteceu: se foi uma palavra ouvida, um sacrifício visto, um cântico, um silêncio. Diz apenas que ele 'avinah, discerniu, entendeu, o 'aḥaritam, o fim deles, o desfecho, o que vem depois.
Essa é a palavra-chave. O orante olhava para o presente dos ímpios; no santuário, aprendeu a olhar para o fim, como a sabedoria sempre ensinou (Ec 7.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Pv 14.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O santuário não mudou os fatos; mudou a perspectiva. A prosperidade dos ímpios continuava lá, mas agora ele a via da altura de Deus, e dali se vê o fim.
O v. 18 traz o terceiro 'akh: de fato, o lugar onde Deus os colocou é ḥalaqot, terreno liso. O jogo com o v. 2 é evidente: o orante achava que ele estava à beira da queda e os ímpios firmes; descobre que é o contrário. E Deus os faz cair em mashshu'ot, ruínas, devastação.
O v. 19 descreve a rapidez dessa queda com uma exclamação: como num instante se tornam desolação, acabam, são consumidos por ballahot, terrores súbitos, palavra que no livro de Jó designa os pavores que perseguem o ímpio até a morte (Jó 18.11-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os que não tinham dores na morte (v. 4) são levados por terrores.
O v. 20 fecha com uma imagem de grande beleza: a vida dos ímpios tem a consistência de um sonho que some quando se acorda, e quando o Senhor se levanta para julgar, a tselem deles, a sua figura, é desprezada. A palavra é a da imagem de Deus no ser humano (Gn 1.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas também a da sombra passageira que o homem é (Sl 39.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Há quem entenda que quem acorda é o próprio orante, que desperta da sua ilusão; as duas leituras se completam.
Versículos 21-26 — A porção para sempre
Antes da grande confissão, o orante faz um exame de si. O v. 21 descreve o estado em que estava com duas imagens fisiológicas: o coração yitḥammets, azedou, fermentou (a raiz é a do ḥamets, o fermento que os israelitas tiravam de casa na Páscoa), e os kilyot, os rins, sede das emoções mais íntimas no pensamento hebraico, foram traspassados como por um aguilhão. A inveja amargou-o por dentro.
O v. 22 é uma das confissões mais humildes do Saltério. Ele se chama de ba'ar, embrutecido, estúpido, sem discernimento, e diz que não sabia, lo' 'eda', a mesma raiz do conhecimento que ele buscou no v. 16 e que os ímpios negavam a Deus no v. 11. Ele foi behemot, um animal, diante de Deus; o plural pode ter valor de intensidade, a grande besta. O homem que se julgava sábio por enxergar a injustiça do mundo reconhece que raciocinava como um bicho, vendo apenas o que estava diante dos olhos.
E então vem a virada mais bela do salmo, que depende de uma palavra repetida. No fim do v. 22, ele diz que era como um animal 'immakh, contigo, diante de ti. No começo do v. 23, com um novo wa'ani, diz que, apesar disso, está sempre 'immakh, contigo. A mesma palavra, agora com sentido de comunhão. Mesmo quando ele era um animal sem entendimento, estava com Deus; mesmo quando quase escorregou, não estava sozinho. O motivo vem em seguida: Deus lhe tomou a mão direita. Não foi ele que se agarrou a Deus; foi Deus que o agarrou. Os pés quase escorregaram (v. 2), mas a mão estava presa.
O v. 24 abre o horizonte do tempo. No presente, Deus o guia, tanḥeni, com o seu conselho, 'etsah. No futuro, 'aḥar, depois, Deus o receberá, tiqqaḥeni, em glória, kavod. A frase é discutida. Pode significar que, passado o tempo de humilhação, Deus o restaurará publicamente com honra nesta vida. Mas o verbo laqaḥ, tomar, receber, é o mesmo usado para Enoque, a quem Deus tomou (Gn 5.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e para Elias, levado ao céu (2Rs 2.3, 5, 9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e aparece num salmo vizinho, também sapiencial, para afirmar que Deus resgatará a vida do justo do poder do Sheol e o tomará para si (Sl 49.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Muitos intérpretes, antigos e modernos, veem aqui um dos vislumbres mais claros do Antigo Testamento de uma comunhão com Deus que a morte não interrompe. O contraste com o 'aḥarit dos ímpios (v. 17) reforça essa leitura: o fim deles é ruína; o "depois" do justo é glória. O salmo não desenvolve uma doutrina da ressurreição, mas abre uma janela que só se abrirá por inteiro com Cristo.
O v. 25 é o ponto culminante da confissão, em forma de pergunta retórica: fora de Deus, o orante não tem ninguém no céu, e na terra nada mais lhe dá prazer, ḥafatsti. O céu e a terra, que no v. 9 eram ocupados pela boca arrogante dos ímpios, agora são ocupados por Deus. Não é renúncia ao mundo em nome de uma espiritualidade abstrata, mas reordenação dos desejos. Tudo o que ele invejava (v. 3) perdeu a cor diante daquele que ele tem.
O v. 26 começa reconhecendo a fragilidade: she'er, a carne, e levav, o coração, kalah, se consomem. O orante não promete que não vai sofrer, adoecer ou morrer. O seu corpo não é robusto como o dos ímpios (v. 4). Mas Deus é tsur levavi, a rocha do seu coração, e ḥelqi, a sua porção, le'olam, para sempre. A palavra ḥeleq é a da partilha da terra entre as tribos. Os levitas não tinham porção de terra, porque o Senhor era a porção deles (Nm 18.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) usa a mesma linguagem para dizer que o Senhor é a parte da herança e o cálice do orante (Sl 16.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Lamentações a repete no meio das ruínas de Jerusalém (Lm 3.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os ímpios tinham a terra; o salmista tem o dono dela. E tem para sempre, enquanto eles têm por um sonho.
Versículos 27-28 — Os que se afastam e o bem de estar perto
O fecho do salmo é construído sobre o contraste entre longe e perto. O v. 27 fala dos reḥeqekha, os que se distanciam de Deus e caminham para a perdição. E Deus destrói todo aquele que zoneh mimmekka, se prostitui longe de ti, a imagem profética da infidelidade à aliança como adultério (Os 1.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 3.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O pecado dos ímpios não é apenas moral; é relacional: eles se afastaram.
O v. 28 começa pela última vez com wa'ani, quanto a mim, e diz o oposto: qirvat 'elohim li tov, a proximidade de Deus, para mim, é o bem. A palavra tov fecha o salmo como o abriu (v. 1). No começo, a bondade de Deus era uma afirmação doutrinária posta em dúvida; no fim, é uma experiência pessoal: o bem não é ter o que os ímpios têm, mas estar perto de Deus. O orante fez do Senhor Deus o seu maḥseh, refúgio, e tem agora uma tarefa: lesapper, contar, narrar todos os feitos de Deus. Quem quase foi desleal com os filhos de Deus (v. 15) agora tem algo para lhes dizer, e o salmo é o cumprimento dessa promessa.
Vista no conjunto, a estrutura do salmo tem a forma de um vale: desce da confissão (v. 1) pela inveja, pelo retrato dos ímpios e pela tentação de desistir (vv. 2-16), vira no santuário (v. 17) e sobe pelo juízo dos ímpios, pela confissão humilde e pela comunhão com Deus até o alto de novo (vv. 18-28). A palavra tov emoldura o caminho, e as ocorrências de 'akh e de wa'ani marcam as suas etapas.
✨ 4. Versículos-Chave
Sl 73.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O versículo da virada. Toda a crise do salmista se resolve não por um novo argumento, mas por um novo lugar: o santuário de Deus. Ali ele compreende o fim dos ímpios. O versículo ensina que há coisas que a observação do mundo não revela e que só se veem na presença de Deus, no culto, na escuta da sua palavra. Para o leitor cristão, o santuário onde a perspectiva se endireita é Cristo, o verdadeiro templo (Jo 2.19-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a cruz e a ressurreição, onde o fim de todas as coisas foi mostrado antecipadamente.
Sl 73.23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A comunhão que não depende da força do fiel. O orante não diz que se manteve firme; diz que Deus lhe tomou a mão. E o "depois" do v. 24 aponta para além desta vida, com o mesmo verbo usado para Enoque e Elias. A tradição cristã leu esses versos como uma das sementes da esperança da vida eterna no Antigo Testamento, e Jesus dará a essa promessa uma forma definitiva ao dizer que ninguém arrancará as suas ovelhas da sua mão nem da mão do Pai (Jo 10.28-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Sl 73.25-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A confissão mais alta do salmo e uma das mais altas de toda a Escritura: Deus é o único que o orante tem no céu e o único que deseja na terra; quando o corpo e o coração falharem, Deus permanece como rocha e porção para sempre. É a linguagem da herança levítica transformada em confissão pessoal. Paulo dirá algo semelhante ao confessar que a sua vida inteira se resumia em Cristo, de modo que até a morte seria ganho, já que partir significaria estar com ele, condição muito superior a qualquer outra (Fp 1.21-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
⛪ 5. Temas Teológicos Centrais
O problema da prosperidade dos ímpios. O Salmo 73 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não nega o problema; descreve-o com mais força do que quase qualquer outro texto bíblico. A fé bíblica não pede que se fechem os olhos, mas mostra que a observação, sozinha, vê o presente, e não o fim. A resposta não é uma explicação filosófica do mal, mas uma mudança de lugar e de perspectiva. Jesus contará uma parábola que é quase um comentário a este salmo: o rico que se vestia com luxo e banqueteava todos os dias, e o pobre Lázaro coberto de feridas à sua porta; depois da morte, os papéis se invertem (Lc 16.19-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E noutra parábola, o rico que planejava celeiros maiores fica sabendo que morreria antes do amanhecer (Lc 12.16-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O 'aḥarit, o fim, decide tudo.
O santuário como lugar do discernimento. A virada do salmo acontece no culto. O orante não encontra a resposta pensando sozinho, mas na presença de Deus, junto com o povo que adora. O culto não é apenas expressão do que já se crê, mas lugar onde a visão é corrigida. A Igreja, que se reúne em torno da Palavra e da mesa do Senhor, é chamada a ser esse santuário onde os olhos tortos pelo mundo voltam a enxergar direito. Hebreus exorta os crentes a não abandonarem as suas reuniões, justamente porque ali se animam uns aos outros (Hb 10.24-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Deus como porção e o reordenamento do desejo. O problema do orante começou com a inveja, um desejo desordenado. A solução não foi suprimir o desejo, mas reorientá-lo: no fim, ele não deseja nada na terra além de Deus. Esse é um dos temas mais profundos da espiritualidade bíblica. O primeiro mandamento já pedia que Deus fosse amado com todo o coração (Dt 6.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Jesus advertiu que o coração segue aquilo que se tem por tesouro (Mt 6.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmo mostra que esse amor não é uma renúncia triste: é a descoberta de que Deus é melhor do que tudo aquilo que se invejava. Ter Deus como porção é ter a única herança que o tempo não desgasta (1Pe 1.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo
6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?
O Salmo 73 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) vive na tensão da Redenção em andamento. Parte da realidade da Queda: um mundo em que a violência veste os poderosos e o justo sofre enquanto o ímpio prospera, bem diferente da ordem boa da criação (Gn 1.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmo mostra também a Queda dentro do próprio orante: a inveja, a amargura, o raciocínio de animal. A resposta do santuário é real, mas ainda é antecipação: o julgamento não veio, e o justo continua sendo ferido. A Redenção consumada em Cristo mostra o fim de todas as coisas na cruz e na ressurreição, onde o juízo sobre o mal e a vindicação do justo já aconteceram em Jesus. E a Nova Criação é o 'aḥarit definitivo, quando Deus fará morada com o seu povo, consolará todo choro e dará fim à morte (Ap 21.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); ali, o "estar perto de Deus" do v. 28 será a condição permanente de todos os que são dele.
6.2 — Cristo, o justo que sofreu enquanto os arrogantes prosperavam
O drama do Salmo 73 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o drama do justo que sofre num mundo onde os maus parecem vencer. Nenhuma vida encarnou esse drama de modo mais radical que a de Jesus. Ele foi o único verdadeiramente limpo de coração (v. 1), sem engano nem pecado (1Pe 2.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e foi ferido não apenas a cada manhã, mas até a morte. Os poderosos do seu tempo, religiosos e políticos, pareciam ganhar com a sua condenação. Na cruz, os que passavam zombavam e desafiavam Deus a livrá-lo, se de fato o quisesse (Mt 27.39-43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), com o mesmo desprezo de quem pergunta se Deus sabe alguma coisa (v. 11).
Há um paralelo mais fundo, que deve ser dito com cuidado. No deserto, o diabo ofereceu a Jesus o esplendor dos reinos do mundo em troca de adoração (Mt 4.8-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): era a tentação do Salmo 73 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) levada ao extremo. Jesus recusou, preferindo a porção que o Pai lhe dava, que incluía a cruz, e enfrentou a vergonha dela tendo diante dos olhos a alegria que viria depois (Hb 12.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele olhou para o fim. O salmo não é uma profecia sobre Jesus, mas Jesus viveu, como ninguém, a fé que o salmo descreve, sem nenhum momento de inveja ou amargura.
Por isso este salmo pode ser lido como oração que Cristo ora com o seu povo. Ele passou por toda espécie de provação, sem jamais cair em pecado, e sente com as nossas fraquezas (Hb 4.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quem reza o Salmo 73 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) no momento da inveja e da confusão reza com o Sumo Sacerdote que intercede por ele.
6.3 — Cristo, o santuário onde se compreende o fim
O orante entrou no santuário e compreendeu o fim dos ímpios (v. 17). No Novo Testamento, o santuário ganha um rosto. Jesus falou do templo do seu corpo, que seria destruído e levantado em três dias (Jo 2.19-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele é o lugar onde Deus e o ser humano se encontram, e é nele que se compreende o 'aḥarit de todas as coisas.
Na cruz e na ressurreição, o fim foi revelado antes do fim. Ali se vê o juízo de Deus sobre o pecado em toda a sua seriedade; ali se vê também que a aparente vitória dos poderosos que crucificaram Jesus era um sonho que se desfez ao terceiro dia, como a imagem do v. 20. Paulo dirá que, na cruz, Cristo desarmou os poderes hostis e os exibiu derrotados, como num cortejo de vitória (Cl 2.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o mesmo Jesus ressuscitado é aquele por meio de quem Deus julgará o mundo no dia que fixou (At 17.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quem quer entender o fim dos ímpios e o fim dos justos precisa entrar nesse santuário.
Hebreus acrescenta que o sangue de Jesus deu aos crentes a ousadia de entrar no lugar santíssimo, pela passagem que ele abriu com a entrega do próprio corpo (Hb 10.19-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); e Tiago chama a buscar a proximidade de Deus, certo de que ele vem ao encontro de quem o busca (Tg 4.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O qirvat 'elohim do v. 28 tornou-se, em Cristo, acesso permanente.
6.4 — Cristo, a mão que segura e a porção para sempre
O v. 23 diz que Deus tomou a mão direita do orante. Jesus fala das suas ovelhas como pessoas que recebem dele a vida eterna e que estão guardadas na sua mão, de onde ninguém as tira; e acrescenta que estão também na mão do Pai, com quem ele forma uma unidade perfeita (Jo 10.28-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O cristão que quase escorregou, como o salmista, descobre que não se manteve de pé pela própria firmeza, mas porque estava seguro na mão de Cristo.
O v. 24 fala de um "depois" de glória. Em Cristo, esse vislumbre se torna promessa explícita. Jesus anunciou aos discípulos que partia para preparar morada para eles e que voltaria para buscá-los, de modo que a comunhão com ele não terminasse (Jo 14.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo, preso e diante da possibilidade da morte, confessa que o seu desejo é partir para estar com Cristo, porque isso seria muito superior a permanecer (Fp 1.21-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E a carta aos Romanos responde à fragilidade do v. 26 com uma enumeração vertiginosa, que abarca a morte e a vida, os poderes visíveis e invisíveis, o tempo presente e o que virá, as alturas e os abismos, para concluir que nada do que foi criado afasta os que são de Cristo do amor de Deus manifestado nele (Rm 8.38-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O corpo e o ânimo podem falhar; o amor de Deus em Cristo não falha.
Por fim, Deus como porção (v. 26). Em Cristo, os crentes são feitos filhos e, por isso, participantes da herança do próprio Filho (Rm 8.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); recebem uma herança imune à corrupção e ao desgaste do tempo, reservada nos céus (1Pe 1.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas a herança não é coisa separada de Deus: é o próprio Deus, conhecido em Cristo (Jo 17.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que o levita do Salmo 73 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) confessava como porção é oferecido a todo aquele que crê.
6.5 — O Evangelho no capítulo
O Salmo 73 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) prega o evangelho a quem está com inveja do mundo, cansado de fazer o bem e vendo outros prosperarem sem Deus. Pregá-lo cristocentricamente é, primeiro, levar essa dor a sério, sem fórmulas fáceis. Depois, é mostrar que a resposta não está em descobrir uma explicação, mas em entrar no santuário, e que o santuário definitivo é Jesus Cristo crucificado e ressuscitado. Diante da cruz, aprende-se o fim dos ímpios, porque ali o pecado foi julgado; aprende-se o fim dos justos, porque ali o Justo foi vindicado ao terceiro dia; e aprende-se o próprio fim, porque quem está em Cristo será recebido em glória.
O ponto mais alto da pregação é a descoberta de que Deus é melhor que tudo o que se invejava. O evangelho não promete que o crente terá o shalom dos ímpios, o corpo robusto e as riquezas aumentadas. Promete algo maior: o próprio Deus, como porção para sempre, dado em Cristo a pecadores que, como o salmista, foram muitas vezes como animais sem entendimento diante dele. Não porque mereceram, mas porque ele lhes tomou a mão.
🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)
- Sl 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 49 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o salmo que abre o Saltério com a felicidade do justo, o salmo que aconselha paciência diante da prosperidade dos maus e o salmo sapiencial que fala do resgate do Sheol com o mesmo verbo de "tomar" (Sl 49.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o 73 os reúne numa experiência pessoal.
- Jó 21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 12.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hc 1.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a mesma pergunta sobre a prosperidade dos ímpios na boca de um sábio sofredor e de dois profetas.
- Nm 18.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 10.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 16.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lm 3.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o Senhor como porção dos levitas e de todo fiel.
- Mt 5.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a bem-aventurança dos limpos de coração, que ecoa o v. 1.
- Lc 12.16-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 16.19-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o rico insensato e o rico e Lázaro, parábolas sobre o fim dos que prosperam sem Deus.
- Fp 1.21-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Rm 8.38-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a comunhão com Cristo que a morte não interrompe e o amor de Deus do qual nada separa.
- Hb 10.19-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Tg 4.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o acesso ao santuário pelo sangue de Jesus e o convite a aproximar-se de Deus.
- Na história da Igreja, o salmo foi muito amado como oração dos que atravessam a crise da fé, e a piedade cristã fez dos vv. 25-26 uma das suas confissões preferidas de entrega a Deus.
🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico
Leve a dúvida a Deus antes de a ensinar aos outros. O salmista não fingiu que a crise não existia, mas teve o cuidado de não fazer dela uma doutrina pública antes de levá-la ao santuário (v. 15). Hoje é muito fácil publicar cada pensamento no momento em que ele surge. O salmo convida a outro ritmo: confessar a dúvida a Deus, buscar a sua presença na Palavra e na comunhão da Igreja, e só depois falar, com o testemunho de quem atravessou o vale. Cristo, que conhece as nossas fraquezas, é o primeiro a quem essas perguntas devem ser levadas (Hb 4.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Desconfie da inveja. A crise do salmista começou com um olhar para o que os outros tinham. A cultura atual alimenta esse olhar sem descanso, expondo a vida dos que parecem mais prósperos, mais saudáveis, mais tranquilos. O salmo mostra que a inveja não é um sentimento inofensivo: ela azeda o coração (v. 21) e embrutece o pensamento (v. 22). O remédio não é apenas parar de olhar para os outros, mas olhar para Cristo, em quem o crente tem mais do que qualquer prosperidade poderia dar.
Não abandone o santuário. Muitos, quando a fé entra em crise, se afastam da igreja, justamente onde a visão poderia ser corrigida. O salmo convida a perseverar na reunião do povo de Deus, na Palavra e na mesa do Senhor, onde a morte de Cristo é anunciada até que ele venha (1Co 11.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ali se aprende a olhar para o fim.
Deixe Deus ser a sua porção. A pergunta do v. 25 é um bom exame do coração: o que eu desejo, de fato, no céu e na terra? Em Cristo, Deus se oferece como herança. Isso não torna desprezíveis as coisas boas da vida, mas as coloca no seu lugar: são dons, não a porção. Quando o corpo e o ânimo falharem, e falharão, só a porção permanece; e a firmeza para chegar até lá não está na força da sua fé, mas na fidelidade de Cristo, que guarda todos os que o Pai lhe confiou (Jo 6.39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo
- O salmo começa com a conclusão (v. 1) e depois conta o caminho até ela. Por que você acha que o salmista escolheu essa ordem? O que isso ensina sobre a fé que atravessa a dúvida?
- O retrato dos ímpios nos vv. 4-12 é realista e amargo. Em que pontos ele descreve a sociedade de hoje? E em que pontos ele descreve o que você, às vezes, gostaria de ter?
- O que mudou quando o salmista entrou no santuário (v. 17)? Os fatos mudaram, ou a perspectiva? Como a cruz e a ressurreição de Cristo funcionam como esse santuário para o cristão?
- Compare o "contigo" do v. 22 com o "contigo" do v. 23. O que essa repetição ensina sobre a fidelidade de Deus nos momentos em que nós mesmos não somos fiéis?
- Os vv. 24 e 26 abrem uma janela para a esperança além da morte. Como as promessas de Jesus (Jo 10.28-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 14.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e o testemunho de Paulo (Fp 1.21-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Rm 8.38-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) completam essa esperança?
- Para meditação e oração: leia devagar os vv. 23-26 e diga a Deus, com sinceridade, o que você tem invejado. Peça que, em Cristo, ele se torne a sua porção e o seu desejo maior.
📚 10. Para Aprofundamento
Cristocêntrica / Teologia Bíblica:
- Sidney Greidanus — Preaching Christ from the Old Testament (Eerdmans, 1999)
- Christopher J. H. Wright — Conhecendo Jesus através do Antigo Testamento (Ultimato) / Knowing Jesus Through the Old Testament (IVP, 1992)
- Walter Brueggemann — The Message of the Psalms (Augsburg, 1984), sobre a passagem da orientação à desorientação e à nova orientação
Comentários dos Salmos:
- Derek Kidner — Salmos 73–150 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
- Marvin E. Tate — Psalms 51–100 (Word Biblical Commentary, 1990)
- Nancy deClaissé-Walford, Rolf A. Jacobson e Beth LaNeel Tanner — The Book of Psalms (NICOT, Eerdmans, 2014)
- Frank-Lothar Hossfeld e Erich Zenger — Psalms 2: A Commentary on Psalms 51–100 (Hermeneia, Fortress, 2005)
- Agostinho — Comentário aos Salmos (Paulus, coleção Patrística)
Sabedoria para o Cotidiano
Quem olha só para o presente dos que vivem sem Deus acaba com inveja, com o coração azedo e os pés escorregando. A saída não é fechar os olhos, mas entrar no santuário, onde se vê o fim: em Cristo crucificado e ressuscitado, o brilho dos arrogantes se desfaz como sonho, e o justo, que parecia perder, é recebido em glória. Quando o corpo e o ânimo falharem, você descobrirá que não foi sustentado pela própria firmeza, mas pela mão de Deus, e que ele mesmo, e não o que você invejava, é a sua porção para sempre.
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