Salmos · 19 de 66 · Antigo Testamento
Salmos — Capítulo 77
Título do capítulo: Pegadas invisíveis no meio do mar
Gênero literário: Poesia/Salmo (lamento individual que se abre para a memória do êxodo e termina em hino: a noite sem consolo, as perguntas lançadas a Deus, a decisão de lembrar as obras antigas e o caminho aberto nas águas; salmo de Asafe, segundo Jedutum, no terceiro livro do Saltério)
Número de versículos: 20
Nota de precisão: a numeração segue a tradição das Bíblias em português, em que a inscrição não é contada como versículo. No hebraico impresso, a inscrição ocupa o versículo 1, e por isso todos os números ali ficam uma unidade acima dos usados aqui; na antiga tradução grega, que junta os Salmos 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 10, este é o salmo setenta e seis. O selah aparece três vezes, no fim do v. 3, do v. 9 e do v. 15. Há passagens de sentido discutido no v. 2, no v. 10 e no v. 18, e o salmo termina de modo abrupto, sem voltar ao tom do começo; tudo isso é tratado no lugar próprio.
🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural
O Salmo 77 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o quinto da coleção de Asafe (Sl 73–83 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o bloco que abre o terceiro livro do Saltério. É um livro marcado pela crise, do santuário incendiado (Sl 74 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) à pergunta sobre as promessas feitas a Davi (Sl 89 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Entre esses poemas, o Salmo 77 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ocupa um lugar especial. Ele não descreve um desastre exterior; descreve o que acontece dentro de quem atravessa o desastre: a insônia, o silêncio, as perguntas que não se calam. E mostra um caminho para sair do poço, que não passa por esquecer a dor, mas por lembrar outra coisa.
A inscrição o entrega ao regente do coro, o atribui a Asafe e acrescenta uma indicação ligada a Jedutum, o mesmo nome que aparece nos títulos dos Salmos 39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 62. Segundo as Crônicas, Jedutum foi, com Asafe e Hemã, um dos músicos que Davi encarregou do louvor; os seus filhos profetizavam com harpas, dando graças e louvando ao Senhor (1Cr 16.41-42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 25.1-3). A forma da preposição na inscrição deste salmo e do Salmo 62 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) levou alguns estudiosos a pensar não numa pessoa, mas numa melodia, num estilo de execução ou num grupo de cantores que levava o nome de Jedutum. A questão permanece aberta; o certo é que a inscrição liga o salmo à tradição dos músicos do templo.
A data e a ocasião não são declaradas. O salmo fala na primeira pessoa do singular, como um lamento individual; mas as perguntas dos vv. 7-9 usam a linguagem da rejeição do povo, a mesma que aparece nos lamentos coletivos (Sl 44.9, 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 74.1; 89.38), e a lembrança final é a do êxodo, a história fundadora da nação. A menção dos filhos de Jacó e de José (v. 15) e o fato de os salmos de Asafe se ocuparem várias vezes das tribos do norte (Sl 78.67 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 80.1-2; 81.5) levaram alguns a ligar o salmo à queda do reino do norte, em 722 a.C.; outros pensam no exílio babilônico, depois de 586 a.C. Nenhuma hipótese se impõe, e o salmo talvez tenha sido preservado justamente porque serve a todas as noites em que Deus parece ter mudado.
Há um parentesco notável entre a última estrofe do salmo (vv. 16-20) e a oração de Habacuque (Hc 3.10-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Nos dois textos, as águas veem Deus e se contorcem, o abismo levanta a voz, as flechas e os relâmpagos de Deus cruzam o céu, e o Senhor abre caminho pelo mar. Discute-se se um texto depende do outro ou se ambos recolhem uma tradição poética mais antiga, que descrevia a travessia do mar com as cores da tempestade. A estrofe final, em grupos de três linhas, também se distingue do resto do salmo, e alguns supõem que o poeta tenha incorporado ao lamento um hino antigo.
📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo
O salmo começa com um clamor: o orante eleva a voz a Deus, e repete o gesto, na esperança de ser ouvido (v. 1). No dia da angústia, buscou o Senhor; durante a noite, a mão ficou estendida em oração sem descanso, e a alma não aceitava consolo algum (v. 2). Lembrar-se de Deus só o fazia gemer; quanto mais pensava, mais o espírito desfalecia (v. 3).
Ele conta que Deus lhe mantinha os olhos abertos e que estava tão perturbado que não conseguia falar (v. 4). Pôs-se a considerar os dias de antigamente, os anos de muito tempo atrás (v. 5). Lembrou-se dos cânticos que entoava de noite, conversou com o próprio coração, e o seu espírito se pôs a investigar (v. 6).
As perguntas então se precipitam. Será que o Senhor rejeitará para sempre e nunca mais se mostrará favorável (v. 7)? Terá a sua bondade fiel chegado ao fim, e a sua promessa se esgotado para todas as gerações (v. 8)? Teria Deus esquecido a sua graça, ou a ira teria fechado a porta da sua compaixão (v. 9)?
Vem, então, a virada. O orante reconhece que a sua dor consiste nisto: pensar que a mão direita do Altíssimo mudou (v. 10). Por isso, decide recordar os feitos do Senhor e as suas maravilhas antigas (v. 11), meditar em toda a sua obra e refletir nos seus atos (v. 12).
A partir daí, ele fala com Deus em louvor. O caminho de Deus é santo, e não há deus tão grande quanto ele (v. 13). Ele é o Deus que faz maravilhas e mostrou o seu poder entre os povos (v. 14); com o seu braço, resgatou o seu povo, os descendentes de Jacó e de José (v. 15).
O fecho é a memória do mar. As águas viram a Deus e tremeram, e até os abismos se agitaram (v. 16). As nuvens despejaram chuva, o céu trovejou, e as flechas de Deus voaram de um lado para outro (v. 17). O trovão rolou no redemoinho, os relâmpagos iluminaram o mundo, e a terra estremeceu (v. 18). O caminho de Deus passou pelo mar e pelas águas profundas, e ninguém conseguiu ver as marcas dos seus passos (v. 19). Assim ele guiou o seu povo como um rebanho, pela mão de Moisés e de Arão (v. 20).
🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)
Versículos 1-3 — O clamor de quem não aceita consolo
O salmo começa com um som. A primeira palavra é qoli, a minha voz, e ela se repete no começo das duas linhas do v. 1: a minha voz a Deus, e eu grito; a minha voz a Deus, e que ele me ouça. A repetição tem algo de insistência, quase de teimosia. O orante não fala baixo nem formula uma oração bem composta; clama, 'etsʿaqah, o verbo do grito de socorro, o mesmo do clamor de Israel no Egito (Êx 2.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E a segunda linha deixa a dúvida suspensa: a forma verbal pode ser lida como certeza de que Deus ouviu ou como pedido para que ouça. A ambiguidade combina com o salmo, que só no fim encontrará chão firme.
O v. 2 situa o clamor no tempo, beyom tsarati, no dia da minha angústia, e mostra a busca: 'adonay darashti, ao Senhor eu busquei. O verbo darash indica procurar com empenho, consultar, perguntar. A segunda linha é de tradução difícil. Literalmente, a mão do orante niggerah, escorreu, ficou derramada, durante a noite, welo' tafug, e não esmoreceu. A maioria entende que se trata das mãos estendidas em oração, um gesto que se mantém noite adentro sem descanso (Lm 2.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); alguns veem aqui uma ferida que não para de sangrar. Em qualquer leitura, a imagem é de exaustão. E a terceira linha diz o mais grave: me'anah hinnaḥem nafshi, a minha alma recusou-se a ser consolada. O mesmo verbo descreve Jacó diante da túnica ensanguentada de José, recusando todo consolo (Gn 37.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Raquel em pranto pelos filhos perdidos (Jr 31.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Há dores em que qualquer consolo parece uma ofensa, e o salmo não as censura.
O v. 3 é um dos mais paradoxais do Saltério. 'Ezkerah 'elohim, lembro-me de Deus, we'ehemayah, e gemo. Para quem sofre assim, a lembrança de Deus não traz alívio; traz mais dor, porque o contraste entre o Deus que ele conheceu e o silêncio que agora experimenta é insuportável. O verbo siaḥ, meditar, refletir, mas também queixar-se, falar consigo mesmo, aparece aqui pela primeira vez e voltará duas vezes (vv. 6, 12); e o resultado da meditação é que o espírito tit'attef, desfalece, se envolve em fraqueza. O selah interrompe o poema no ponto mais baixo. Também o silêncio faz parte da oração.
Versículos 4-6 — A noite insone e os anos de outrora
O v. 4 começa com uma acusação discreta: 'aḥazta shemurot 'enay, tu seguraste as pálpebras dos meus olhos. A palavra shemurot designa as vigílias da noite, e aqui parece indicar as pálpebras que vigiam; o sentido é que Deus mesmo não deixa o orante dormir. A insônia é atribuída a Deus. Não há aqui uma teologia elaborada da providência, mas a franqueza de quem sabe que nada escapa a Deus, nem a noite em claro. E a segunda linha acrescenta o silêncio: nif'amti, fiquei agitado, sacudido por dentro, welo' 'adabber, e não consigo falar. O homem que começou gritando (v. 1) agora emudece. A angústia percorre os dois extremos: o grito e a mudez.
No v. 5, ele começa a fazer contas com o passado: ḥishshavti, calculei, considerei, yamim miqqedem, os dias de antes, shenot 'olamim, os anos de longas eras. A expressão shenot, anos, é importante, porque voltará como jogo de palavras no v. 10. Neste momento, porém, a lembrança dos tempos antigos ainda não consola. É a recordação de quem compara o que foi com o que é e só encontra perda, como o idoso que se lembra da casa cheia agora vazia.
O v. 6 traz uma imagem comovente: 'ezkerah neginati ballaylah, lembro-me do meu cântico de noite. A neginah é a música de cordas, o canto acompanhado. Houve um tempo em que a noite era hora de cantar, como outros salmos lembram (Sl 42.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Eliú lembra a Jó que Deus é capaz de pôr música até nas horas noturnas (Jó 35.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Agora a noite é de insônia, e o cântico é só lembrança. O orante conversa com o próprio coração, 'im-levavi 'asiḥah, e o seu espírito yeḥappes, procura, vasculha, como quem revira uma casa à procura de algo perdido. O verbo prepara as perguntas que vêm a seguir: a investigação interior vai dar numa série de interrogações dirigidas a Deus.
Versículos 7-9 — As perguntas que ninguém ousa fazer em voz alta
Os vv. 7-9 formam o coração da crise: seis perguntas, duas por versículo, todas formuladas de modo a esperar resposta negativa, mas lançadas por alguém que já não tem certeza da resposta. São perguntas sobre a duração: para sempre, nunca mais, de geração em geração. O orante não pergunta se Deus o ouviu hoje; pergunta se Deus o rejeitou definitivamente.
O v. 7 usa zanaḥ, rejeitar, lançar fora, verbo dos lamentos nacionais (Sl 44.9, 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 74.1), e ratsah, ser favorável, aceitar com agrado. O v. 8 pergunta se o ḥesed, a bondade fiel da aliança, o amor leal que Deus prometeu ao seu povo, 'afes lanetsaḥ, chegou ao fim para sempre, e se o 'omer, a palavra, a promessa, gamar, se esgotou para todas as gerações. O v. 9 pergunta se Deus shakhaḥ ḥannot, esqueceu de ter graça, e se qafats be'af raḥamav, fechou na ira a sua compaixão, como quem fecha a mão para não dar.
A escolha das palavras não é casual. Ḥesed, ḥanan (a graça), raḥamim (a compaixão) e 'af (a ira) são exatamente os termos da revelação do nome de Deus no Sinai, quando o Senhor passou diante de Moisés e se descreveu pela compaixão, pela graça, pela paciência e pelo ḥesed (Êx 34.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O orante não está fazendo perguntas genéricas sobre o sofrimento; está confrontando o Deus que ele vê agora com o Deus que se revelou a Moisés. Será que aquele nome deixou de valer? É uma oração ousada, e a Escritura a guardou. A fé bíblica não proíbe essas perguntas; ensina a fazê-las a Deus, e não às costas dele. O segundo selah deixa as seis perguntas no ar.
Versículos 10-12 — A decisão de lembrar as obras do Altíssimo
O v. 10 é o eixo do salmo e um dos versos mais difíceis de traduzir em todo o Saltério. A primeira linha diz wa'omar, e eu disse, ḥalloti hi', isto é a minha dor; a palavra ḥalloti pode vir da raiz de adoecer (a minha enfermidade, a minha fraqueza) ou da raiz de ferir, perfurar (a minha ferida). A segunda linha diz shenot yemin 'elyon, e aqui estão as duas grandes leituras. Se shenot vier de shanah, mudar, o sentido é: a minha dor é esta, que a mão direita do Altíssimo mudou. O orante põe o dedo na ferida: o que dói não é só a desgraça, mas a sensação de que Deus deixou de agir como agia. Se shenot for o plural de shanah, ano, como no v. 5, o sentido é: lembrarei os anos da mão direita do Altíssimo, os tempos em que ele agiu com poder. Muitos intérpretes acham que o poeta escolheu de propósito uma palavra que pudesse soar das duas formas. Seja como for, o v. 10 é o ponto em que a dor é nomeada com precisão, e nomear a dor é o começo da cura.
A mão direita, yamin, é na Bíblia o símbolo do poder em ação, e o cântico do mar celebra a direita do Senhor que despedaça o inimigo (Êx 15.6, 12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Altíssimo, 'elyon, é o título do Deus soberano sobre todas as nações. O orante teme que essa mão tenha mudado de direção. A resposta do salmo não será um argumento, mas uma memória: a mão direita que agiu no mar continua sendo a mesma.
Os vv. 11-12 marcam a virada com três verbos de memória e meditação. 'Ezkor ma'alle-yah, lembrarei os feitos de Yah, a forma curta do nome divino; há uma pequena oscilação entre a escrita e a leitura tradicional do texto, entre fazer lembrar e lembrar, mas o sentido não muda. Ki-'ezkerah miqqedem pil'ekha, sim, lembrarei as tuas maravilhas de outrora: a palavra pele', maravilha, designa o ato extraordinário de Deus, aquilo que só ele pode fazer. E o v. 12 junta dois verbos de meditação: hagiti, murmurarei, meditarei em voz baixa, o mesmo verbo do justo que se ocupa da instrução de Deus noite e dia (Sl 1.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e 'asiḥah, refletirei, o verbo que no v. 3 levava ao desfalecimento e que agora conduz ao louvor.
A diferença entre o v. 3 e o v. 11 é a diferença do salmo inteiro: lá, o orante se lembrava de Deus e gemia; aqui, decide lembrar o que Deus fez. Ele não muda de situação; muda de objeto de memória. A gramática acompanha a virada: até aqui predominavam o eu e o meu, a minha voz, a minha mão, a minha alma; daqui em diante predominarão o tu e o teu, as tuas obras, o teu caminho, o teu povo.
Versículos 13-15 — O Deus incomparável e o braço que resgatou
A partir do v. 13, o orante fala diretamente com Deus, e o tom é de hino. 'Elohim baqqodesh darkekha: ó Deus, o teu caminho está na santidade, ou no santuário. As duas leituras são possíveis. A primeira diz que tudo o que Deus faz é santo, separado, diferente de qualquer ação humana; a segunda lembra o salmo que abre esta coleção, em que a crise do orante se resolve quando ele entra no santuário (Sl 73.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O mesmo derekh, caminho, voltará no v. 19: o caminho santo de Deus atravessa as águas.
A pergunta da segunda linha, que deus é grande como o nosso Deus?, ecoa o cântico do mar, que perguntava quem entre os deuses se compara ao Senhor e o descrevia pela santidade e pelas maravilhas (Êx 15.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmista não está apenas usando uma fórmula de louvor; está voltando conscientemente à primeira canção de Israel, cantada à beira do mar. O v. 14 continua na mesma linha: 'attah ha'el 'oseh fele', tu és o Deus que faz maravilha, e hoda'ta, fizeste conhecer, entre os povos, o teu poder. O êxodo não foi um acontecimento privado: o Egito e as nações vizinhas souberam o que o Deus de Israel fizera (Êx 15.14-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Js 2.9-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 15 nomeia o ato com o verbo decisivo: ga'alta, resgataste. Ga'al é o verbo do go'el, o parente resgatador, aquele que tinha a obrigação de comprar de volta a terra ou a liberdade de um familiar empobrecido (Lv 25.25, 47-49 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Rt 4.4-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Deus agiu como parente do seu povo. E o fez bizroa', com o braço, a imagem que o livro do Êxodo usa para a libertação: o Senhor prometera resgatar Israel com braço estendido (Êx 6.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o cântico do mar celebra a grandeza do seu braço (Êx 15.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os resgatados são bene-ya'aqov weyosef, os filhos de Jacó e de José. A menção de José ao lado de Jacó pode ter dois motivos: lembrar que foi pela história de José que a família de Jacó desceu ao Egito (Gn 46–47 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), ou incluir as tribos do norte, descendentes de Efraim e Manassés, que os salmos de Asafe chamam às vezes de José (Sl 80.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 81.5). O terceiro selah marca a pausa antes da grande imagem final.
Versículos 16-20 — O caminho de Deus pelo mar e o rebanho guiado
A última estrofe muda de ritmo. As linhas se agrupam em três, e as imagens se acumulam como numa tempestade. O v. 16 personifica as águas: ra'ukha mayim, as águas te viram, ó Deus; as águas te viram e yaḥilu, se contorceram, como em dores de parto; até os tehomot, os abismos, yirgezu, estremeceram. Na tradição bíblica, as águas profundas são símbolo do caos que ameaça a vida, e o salmo vizinho já celebrava Deus dividindo o mar e quebrando as cabeças dos monstros marinhos (Sl 74.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aqui, as águas não lutam; elas veem a Deus e tremem. O Salmo 114 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) usará a mesma imagem, com o mar que vê e foge (Sl 114.3-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Os vv. 17-18 descrevem uma tempestade. As nuvens zormu, despejaram, águas; os céus qol natenu, deram a sua voz, trovejaram; e as ḥatsatsekha, as tuas flechas, os relâmpagos, yithallakhu, andavam de um lado para outro. No v. 18, a qol ra'amkha, a voz do teu trovão, está baggalgal, no redemoinho, palavra que pode significar também roda. Os relâmpagos he'iru tevel, iluminaram o mundo, e a terra ragzah wattir'ash, tremeu e se abalou. O livro do Êxodo não descreve a travessia com essa tempestade; fala do vento oriental que soprou a noite inteira (Êx 14.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e do Senhor que, da coluna de fogo e de nuvem, lançou o exército egípcio na confusão e travou as rodas dos seus carros (Êx 14.24-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmo pinta a mesma cena com as cores da teofania, a manifestação de Deus na tempestade, como fazem outros textos poéticos (Sl 18.7-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jz 5.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hc 3.10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É poesia, não crônica, e diz uma verdade que a crônica não alcança: no mar, quem agiu foi Deus em pessoa.
O v. 19 é o verso mais conhecido do salmo e um dos mais belos de toda a Bíblia. Bayyam darkekha, no mar estava o teu caminho; ushevilekha bemayim rabbim, e as tuas veredas nas águas imensas; we'iqqevotekha lo' noda'u, e as tuas pegadas não foram conhecidas. O caminho de Deus passou por onde não havia caminho, e Isaías retomará essa imagem para anunciar um novo êxodo, falando do Senhor que traça rotas onde só havia água (Is 43.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 51.10). Mas a última linha introduz um paradoxo. As pegadas de Deus não foram vistas. O povo atravessou o mar a pé enxuto; ninguém, porém, viu Deus andar. Na areia do fundo do mar ficaram as marcas dos pés de Israel, não as do Senhor. Deus estava presente, agindo com poder, e ao mesmo tempo invisível.
Assim o salmo responde ao orante sem responder às suas perguntas: ele temia que a mão de Deus tivesse mudado porque não a via agir, mas nem no maior livramento de Israel alguém viu Deus andar.
O v. 20 fecha o salmo de modo inesperado: naḥita khatso'n 'ammekha, guiaste como rebanho o teu povo, beyad-mosheh we'aharon, pela mão de Moisés e de Arão. O Deus de pegadas invisíveis guia por mãos visíveis. Moisés, o profeta e mediador da aliança, e Arão, o sacerdote, são os instrumentos humanos pelos quais o pastor invisível conduz o seu rebanho. A imagem do pastor liga o salmo ao seguinte, que contará a mesma história em detalhe e dirá que Deus guiou o povo como ovelhas pelo deserto (Sl 78.52-53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e ao Salmo 80 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que invoca o pastor de Israel que conduz José como um rebanho (Sl 80.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O salmo termina assim, sem voltar ao orante, sem dizer se a noite acabou. Alguns estudiosos acham que o fim se perdeu; muitos entendem que o silêncio é intencional. O orante entra na história de Deus e deixa a sua própria história nas mãos do pastor. A última palavra não é o eu do começo, mas o povo guiado.
✨ 4. Versículos-Chave
Sl 77.7-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — As seis perguntas da noite. Estes versos mostram que a fé bíblica não exige respostas prontas para o sofrimento. O orante pergunta se Deus rejeitou para sempre, se o seu amor leal acabou, se a sua graça foi esquecida, e o faz com as mesmas palavras com que Deus se revelou no Sinai (Êx 34.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Escritura guardou essas perguntas como oração legítima. Jesus mesmo, na cruz, ergueu a Deus a pergunta do abandono, com as palavras de outro salmo (Mt 27.46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 22.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quem faz as perguntas do Salmo 77 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não está fora da fé; está dentro dela, no seu ponto mais escuro.
Sl 77.19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O caminho no mar, as pegadas invisíveis e o rebanho guiado. Deus abriu caminho onde não havia caminho, sem que ninguém visse os seus passos, e conduziu o povo por mãos humanas. Para o leitor cristão, o versículo ganha uma luz nova nos Evangelhos, quando Jesus caminha sobre o mar na escuridão da noite e se aproxima dos discípulos aflitos (Mc 6.47-51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e quando ele se apresenta como o pastor que conhece as ovelhas e as conduz (Jo 10.11-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
⛪ 5. Temas Teológicos Centrais
A honestidade do lamento. O Salmo 77 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é uma das grandes lições bíblicas sobre a oração em tempo de escuridão. O orante não finge, não abrevia a dor, não se apressa em louvar. Grita, perde o sono, emudece, faz perguntas duras. E nada disso é tratado como falta de fé. Os lamentos ocupam uma parte considerável do Saltério, e a sua presença ensina que a oração cristã não é uma técnica de autossugestão, mas uma relação em que cabe a verdade inteira. Jesus, que orou chorando e clamando em alta voz (Hb 5.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), é a garantia de que essa verdade pode ser levada a Deus.
A memória como caminho da fé. O verbo lembrar atravessa o salmo e muda de sentido. A memória pode ferir, quando apenas compara o passado com o presente (vv. 3-6), e pode curar, quando se volta para os atos de Deus (vv. 11-12). Todo o Antigo Testamento insiste nessa memória: Israel deve lembrar que foi escravo no Egito e que o Senhor o tirou de lá (Dt 5.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 8.2), e as festas foram instituídas para que as gerações não esquecessem (Êx 12.14, 26-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O esquecimento é um perigo espiritual (Dt 8.11-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 77 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) mostra que a lembrança dos atos de Deus é uma disciplina que se escolhe, e não um sentimento que se espera. Lamentações faz o mesmo caminho no meio das ruínas de Jerusalém (Lm 3.19-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e outro lamento também (Sl 143.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O êxodo como padrão da salvação. A memória do orante não vai a um passado qualquer; vai ao êxodo. O livramento do Egito e a travessia do mar são, no Antigo Testamento, o modelo de toda salvação: Deus vê a aflição do povo, desce para libertar, resgata com braço forte, abre caminho no mar e conduz pelo deserto. Os profetas anunciaram um novo êxodo, maior que o primeiro (Is 43.16-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 51.9-11). O Novo Testamento apresenta a obra de Cristo como esse êxodo definitivo.
✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo
6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?
O Salmo 77 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) está no centro da Redenção em andamento, num ponto de tensão. Ele nasce da Queda: um mundo em que o povo de Deus sofre, as noites são sem sono e Deus parece ter mudado. O orante olha para trás, para o êxodo, e encontra ali o modelo da redenção que sustenta a esperança. A Redenção consumada acontece quando Cristo realiza o êxodo definitivo, pela sua morte e ressurreição em Jerusalém, libertando o povo de Deus da escravidão do pecado e da morte. E a Nova Criação é o horizonte em que o mar, símbolo do caos e da ameaça, terá desaparecido (Ap 21.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a noite também (Ap 22.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o choro sem consolo terá fim (Ap 21.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
6.2 — Cristo, que atravessou a noite sem consolo
O Salmo 77 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é a oração de alguém que não consegue dormir, que clama sem resposta e que se pergunta se Deus o abandonou. Jesus conheceu essa noite. No Getsêmani, confessou aos discípulos uma tristeza que o levava à beira da morte, prostrou-se e orou três vezes, enquanto os amigos dormiam (Mt 26.36-46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A carta aos Hebreus diz que, nos dias da sua vida humana, ele orou com clamor e choro ao Pai, que tinha poder para livrá-lo da morte, e que essa oração não ficou sem resposta, embora a resposta tenha passado pela cruz (Hb 5.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E na cruz, em plena escuridão, ergueu a Deus a pergunta do abandono com as palavras do Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (Mt 27.45-46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O Salmo 77 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não é uma profecia sobre a paixão, e não se deve forçar um paralelo verso a verso. Mas ele pertence ao repertório de orações que Jesus, como judeu piedoso, conhecia e orava, e a sua experiência humana passou pelo lugar que o salmo descreve. Por isso o cristão pode orar este salmo com Cristo e em Cristo. Dietrich Bonhoeffer, no seu pequeno livro sobre os Salmos, insistiu que eles são a oração de Cristo com o seu povo: quem ora o lamento não ora sozinho, porque o Filho já esteve ali. Hebreus o diz de outro modo: temos um sumo sacerdote que se compadece das nossas fraquezas, porque passou por toda espécie de provação, como nós, sem jamais cair em pecado (Hb 4.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Há mais. O orante do v. 3 geme; Paulo diz que, quando não sabemos orar como convém, o próprio Espírito intercede com gemidos que as palavras não alcançam (Rm 8.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e que Cristo, à direita de Deus, intercede por nós (Rm 8.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A mão direita do Altíssimo, que o orante temia ter mudado (v. 10), é agora o lugar onde Cristo está assentado (At 2.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 1.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A direita de Deus não mudou: nela está o intercessor.
6.3 — Cristo e o novo êxodo
A memória que salva o orante é a memória do êxodo. O Novo Testamento apresenta a obra de Cristo exatamente nesses termos. No monte da transfiguração, Moisés e Elias apareceram e conversavam com Jesus sobre a sua saída, o seu exodos, que ele levaria a termo em Jerusalém (Lc 9.30-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A palavra que Lucas escolhe não é casual: a morte e a ressurreição de Jesus são o novo êxodo, a libertação definitiva do povo de Deus. E Moisés, o mesmo que o v. 20 do salmo nomeia como pastor do rebanho, está ali, conversando com aquele de quem ele era apenas sombra.
Paulo segue o mesmo caminho. Ele apresenta Cristo como o cordeiro da Páscoa cristã, já sacrificado (1Co 5.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e lê a travessia do mar como figura do batismo: os israelitas passaram pelo mar e foram unidos a Moisés na nuvem e nas águas, bebiam da rocha que os seguia pelo caminho, que Paulo identifica com Cristo (1Co 10.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Deus que abriu caminho no mar estava, já ali, agindo pelo Filho.
O v. 15 fala do braço com que Deus resgatou o seu povo. Isaías havia perguntado a quem o braço do Senhor se revelaria, e respondeu com o retrato do Servo sofredor (Is 53.1-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o Evangelho de João aplica essa pergunta à incredulidade diante de Jesus (Jo 12.37-38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O braço de Deus, que no êxodo se estendeu sobre o Egito, se revelou plenamente num homem ferido. E o verbo do resgate, ga'al, encontra o seu cumprimento em Cristo, o parente resgatador que se fez da nossa carne para nos comprar de volta. Pedro lembra que o preço do resgate dos crentes não foi metal que se desgasta, mas a vida de Cristo, entregue como cordeiro sem mancha (1Pe 1.18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Paulo ensina que ele tomou sobre si a maldição que a lei pronunciava, para livrar dela os que estavam debaixo dela (Gl 3.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
6.4 — Cristo, o caminho no mar e o pastor do rebanho
O v. 19 diz que o caminho de Deus passou pelo mar e que as suas pegadas não foram vistas. Nos Evangelhos, há uma cena que parece ter sido escrita para quem ora este salmo. Os discípulos estão no barco, de noite, lutando contra o vento contrário; e Jesus vem até eles andando sobre o mar (Mc 6.47-51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 6.16-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Antigo Testamento atribui só a Deus o poder de andar sobre as ondas (Jó 9.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os discípulos se assustam, e Jesus lhes pede coragem e se identifica, com uma expressão que, no grego, ecoa o nome de Deus. Aquele cujas pegadas ninguém viu no mar agora caminha sobre as águas, à vista dos seus, na noite da aflição. Não é que o salmo profetizasse essa cena; é que, em Jesus, o Deus do êxodo se aproxima de modo novo.
Isso não elimina o mistério do v. 19. O cristão continua a caminhar sem ver as pegadas de Deus, e muitas noites ainda parecem sem resposta. Mas agora ele sabe para onde o caminho leva, porque conhece o rosto de quem caminha à sua frente. Jesus se apresentou como o caminho (Jo 14.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): o Deus que abriu estrada no mar se fez, ele mesmo, a estrada para o Pai.
O v. 20 fecha com o pastor que guia o rebanho pela mão de Moisés e de Arão. O Novo Testamento apresenta Jesus como maior que os dois. Ele merece honra maior que a de Moisés, como quem edifica uma casa vale mais que o edifício (Hb 3.1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); e é o sumo sacerdote superior a Arão, que não precisa oferecer sacrifícios por si mesmo e cujo sacrifício foi único e definitivo (Hb 7.26-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O profeta e o sacerdote que guiaram o povo pelo deserto eram figuras daquele que reúne em si os dois ofícios. E Jesus se apresenta como o pastor que entrega a própria vida em favor do rebanho e chama cada ovelha pelo nome (Jo 10.3, 11-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Isaías, recordando os dias antigos, já perguntava pelo Deus que tirou o povo do mar junto com quem o pastoreava (Is 63.11-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), num texto que tem muitos pontos em comum com este salmo. A carta aos Hebreus parece ecoar essa passagem quando fala do Deus que tirou da morte Jesus, pastor supremo do rebanho, em virtude do sangue que selou uma aliança sem fim (Hb 13.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O êxodo do mar tornou-se o êxodo do sepulcro. O pastor que guia o rebanho atravessou ele mesmo as águas da morte e voltou para conduzi-lo.
6.5 — O Evangelho no capítulo
Pregar o Salmo 77 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) cristocentricamente é começar pela noite. Muitos ouvintes conhecem a insônia, a oração sem resposta, a sensação de que Deus mudou. O salmo os acolhe: as perguntas deles estão na Bíblia. E o evangelho acrescenta que Cristo esteve nessa noite, no Getsêmani e na cruz, e que ele não abandona os que nela estão.
Depois, é mostrar o caminho que o salmo aponta: lembrar o que Deus fez. Para o cristão, essa memória tem um centro: a cruz e a ressurreição de Jesus, o êxodo definitivo. Quando a noite parecer dizer que o amor de Deus acabou, a cruz responde que ele amou até o fim (Jo 13.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Por fim, é anunciar que o caminho de Deus continua passando pelo mar. As pegadas ainda são invisíveis muitas vezes, mas o pastor tem rosto e nome. Ele guia o seu rebanho, agora pela Palavra, pelo Espírito e por mãos humanas na Igreja, como antes por Moisés e Arão, até a terra de onde o mar e a noite terão sido banidos. Não porque o crente tenha encontrado o caminho, mas porque o caminho veio buscá-lo.
🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)
- Êx 14–15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a travessia do mar e o cântico que a celebra, com a pergunta sobre o Deus incomparável (Êx 15.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e a direita e o braço do Senhor (Êx 15.6, 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- Êx 34.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a revelação do nome de Deus, cujas palavras (ḥesed, graça, compaixão, ira) estruturam as perguntas dos vv. 7-9.
- Hc 3.10-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 18.7-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 114 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a teofania na tempestade e as águas que veem a Deus e tremem.
- Sl 73 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 74 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 78 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 80 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — os vizinhos da coleção de Asafe: o santuário onde a crise se resolve, o Deus que dividiu o mar, a história do êxodo contada em detalhe e o pastor de Israel.
- Lm 3.19-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 143.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o mesmo caminho da memória que transforma a dor em esperança.
- Is 43.16-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 51.9-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 63.11-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o novo êxodo anunciado pelos profetas e a lembrança do pastor tirado do mar.
- Lc 9.30-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Co 5.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Co 10.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a morte e a ressurreição de Jesus como o êxodo definitivo e a travessia do mar como figura do batismo.
- Mc 6.47-51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 6.16-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus que caminha sobre o mar na noite e vem ao encontro dos discípulos aflitos.
- Hb 3.1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 5.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 13.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 10.11-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Cristo maior que Moisés, que orou com lágrimas, trazido dentre os mortos como pastor do rebanho.
- Na história da Igreja, o salmo foi muito usado como oração dos que atravessam a noite da alma, com o caminho que ele ensina: levar a dor a Deus sem disfarce e voltar a mente para as obras dele.
🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico
Leve a noite inteira a Deus. O Salmo 77 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) dá permissão para orar sem disfarces. Se você não consegue dormir, se as orações parecem não chegar a lugar algum, se o consolo dos outros soa vazio, saiba que essa experiência está na Bíblia e que muitos fiéis passaram por ela. Diga a Deus o que sente, inclusive as perguntas que parecem ousadas demais. Cristo, que conheceu o Getsêmani, é o sumo sacerdote que recebe essas orações (Hb 4.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E se a noite se prolonga por semanas, procure também ajuda: pastores, irmãos de confiança e, quando necessário, profissionais de saúde. Buscar cuidado não é falta de fé.
Escolha o que vai lembrar. A memória pode alimentar a dor ou a esperança. O orante passou da lembrança amarga (vv. 5-6) para a lembrança dos atos de Deus (vv. 11-12), e essa passagem foi uma decisão. Na prática, isso pode significar ler devagar as narrativas da Escritura, sobretudo as dos Evangelhos, recordar por escrito os livramentos que Deus já lhe concedeu e participar da Ceia como memória viva da morte de Cristo (1Co 11.24-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não se trata de negar a dor presente, mas de pô-la ao lado de algo maior.
Confie no Deus cujas pegadas você não vê. Muitas vezes, Deus age sem deixar marcas visíveis. O v. 19 lembra que nem no maior livramento da história de Israel alguém viu Deus andar. Isso não diminui a realidade da sua presença. Em Cristo, o crente sabe que o Pai está agindo mesmo quando não o percebe, e que nada o separa do amor de Deus manifestado em Jesus (Rm 8.38-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Valorize as mãos humanas que Deus usa. O pastor invisível guiou o povo pela mão de Moisés e de Arão. Também hoje ele conduz o seu povo por meio de pessoas. Na noite escura, não se isole da comunidade da fé; e, quando estiver de pé, seja você a mão de Deus para quem atravessa o mar. Cristo, o pastor supremo, continua a guiar o seu rebanho por meio dos que ele chamou (Ef 4.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Pe 5.2-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo
- O salmo começa com grito, insônia e mudez (vv. 1-4). Em que momentos da sua vida você se identificou com essa experiência? Por que é importante que a Bíblia contenha orações assim?
- As perguntas dos vv. 7-9 usam as palavras com que Deus se revelou no Sinai (Êx 34.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que significa confrontar o que vivemos com o que Deus disse de si mesmo? Isso é falta de fé ou um ato de fé?
- Compare o v. 3 com os vv. 11-12. Nos dois casos, o orante se lembra, mas o resultado é oposto. O que mudou? Como você pode cultivar a memória das obras de Deus?
- Como o êxodo de Jesus em Jerusalém (Lc 9.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e o tema da travessia do mar (1Co 10.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) ajudam a ler o fim deste salmo? Em que sentido a cruz e a ressurreição são o novo êxodo?
- O v. 19 diz que as pegadas de Deus não foram vistas, e o v. 20 diz que ele guiou o povo por mãos humanas. Como essas duas verdades se completam na sua experiência de fé e na vida da Igreja?
- Para meditação e oração: leia os vv. 16-20 em voz baixa e lembre-se de um livramento que Deus já lhe deu. Agradeça a Cristo, o pastor que atravessou as águas da morte, e entregue a ele a noite que você talvez esteja vivendo agora.
📚 10. Para Aprofundamento
Cristocêntrica / Teologia Bíblica:
- Sidney Greidanus — Preaching Christ from the Old Testament (Eerdmans, 1999)
- Christopher J. H. Wright — Conhecendo Jesus através do Antigo Testamento (Ultimato) / Knowing Jesus Through the Old Testament (IVP, 1992)
- Dietrich Bonhoeffer — Orando com os Salmos, sobre os Salmos como oração de Cristo com a Igreja
- Walter Brueggemann — The Message of the Psalms (Augsburg, 1984), sobre os salmos de lamento e a passagem da desorientação à nova orientação
Comentários dos Salmos:
- Derek Kidner — Salmos 73–150 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
- Marvin E. Tate — Psalms 51–100 (Word Biblical Commentary, 1990)
- Nancy deClaissé-Walford, Rolf A. Jacobson e Beth LaNeel Tanner — The Book of Psalms (NICOT, Eerdmans, 2014)
- Frank-Lothar Hossfeld e Erich Zenger — Psalms 2: A Commentary on Psalms 51–100 (Hermeneia, Fortress, 2005)
- Agostinho — Comentário aos Salmos (Paulus, coleção Patrística)
Sabedoria para o Cotidiano
Há noites em que lembrar-se de Deus dói, porque ele parece ter mudado; o Salmo 77 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não manda calar essa dor, mas ensina a levá-la a Deus e, depois, a escolher outra memória: a do Deus que abriu caminho no mar. Você talvez não veja as pegadas dele na sua história, mas ninguém as viu no mar, e o povo passou. Em Cristo, que atravessou a noite do Getsêmani e as águas da morte, a mão direita do Altíssimo não mudou: ela guia o rebanho, muitas vezes por mãos humanas, até a margem onde a noite terá acabado.
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