Salmos · 19 de 66 · Antigo Testamento
Salmos — Capítulo 78
Título do capítulo: Das maravilhas esquecidas ao pastor escolhido
Gênero literário: Poesia/Salmo (salmo histórico e didático, um masquil: a história de Israel, do Egito à escolha de Davi, recontada como lição às gerações; o segundo salmo mais longo do Saltério, na coleção de Asafe)
Número de versículos: 72
Nota de precisão: a inscrição diz apenas "masquil de Asafe" e, nas Bíblias em português, não é contada como versículo; no hebraico impresso ela faz parte do primeiro versículo, de modo que, neste salmo, os números coincidem. Na antiga tradução grega, que junta os Salmos 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 10, este é o salmo setenta e sete. Com setenta e dois versículos, só o Salmo 119 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é mais extenso. O salmo não traz nenhum selá; tem algumas palavras raras (sobretudo nos vv. 41, 46 e 47) e um episódio, o dos efraimitas no v. 9, que nenhum outro texto bíblico narra com esses traços — as questões são tratadas no lugar próprio.
🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural
O Salmo 78 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) está no terceiro livro do Saltério (Sl 73–89 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o mais sombrio dos cinco, e no meio da coleção de Asafe (Sl 73–83 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os vizinhos falam de ruína e de memória: o Salmo 74 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) chora o santuário incendiado; o 77, logo antes, termina lembrando que Deus conduziu o seu povo como rebanho pela mão de Moisés e de Arão (Sl 77.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o 79 lamenta Jerusalém em escombros; o 80 invoca o pastor de Israel, que guia José como um rebanho (Sl 80.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O 78 pega a última imagem do 77, o rebanho no deserto, e a estende até a escolha de Davi, o pastor tirado dos currais.
A inscrição atribui o salmo a Asafe, o levita que Davi pôs à frente do canto diante da arca (1Cr 16.4-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que as Crônicas chamam de vidente (2Cr 29.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); os seus descendentes formaram uma corporação de músicos do templo que voltou do exílio com os primeiros repatriados (Ed 2.41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A atribuição pode indicar o próprio levita ou a escola de cantores que levava o seu nome, e isso pesa na data, que é discutida. Alguns estudiosos põem o salmo no tempo de Davi ou de Salomão, porque ele termina na escolha de Sião e não menciona a divisão do reino. Outros o leem depois da queda de Samaria (722 a.C.), quando a rejeição de Efraim (v. 67) teria ganho um sentido trágico e evidente, talvez no ambiente de Ezequias, que convidou os remanescentes do norte para a Páscoa em Jerusalém (2Cr 30.1-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Há quem pense numa redação depois do exílio. O certo é que ele nasceu em Judá, no círculo do templo.
O termo maśkil vem de uma raiz que significa ter discernimento, instruir. O sentido técnico é incerto (poema de instrução, poema elaborado, meditação), e ele aparece em treze títulos do Saltério. Aqui combina com o conteúdo: este é declaradamente um salmo que ensina, e ele mesmo se apresenta, no v. 2, como mashal e ḥidot, palavras da tradição sapiencial para o provérbio, a comparação e o enigma (as mesmas do Sl 49.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O salmo pertence ao grupo dos chamados salmos históricos, com os Salmos 105 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), 106, 114, 135 e 136. Cada um conta a mesma história com uma ênfase: o 105 canta a fidelidade de Deus a Abraão e quase não fala dos pecados do povo; o 106 é uma longa confissão de culpa; o 136 faz dos feitos de Deus uma ladainha de gratidão. O 78 é o mais pedagógico: conta a história para que os filhos não repitam os pais. Fora do Saltério, o seu parente mais próximo é o Cântico de Moisés (Dt 32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), que também chama Deus de Rocha, denuncia o povo que engordou e se esqueceu de quem o fez e termina com a compaixão de Deus. A oração dos levitas em Neemias (Ne 9.9-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e o discurso de Estêvão (At 7.2-53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) são da mesma família: releituras da história sagrada feitas para julgar o presente.
O salmo não segue a ordem cronológica. Vai do Egito ao deserto (vv. 12-39), volta ao Egito (vv. 40-55) e só então avança para a terra, Siló e Sião (vv. 56-72). Muitos comentaristas percebem aí dois grandes ciclos com o mesmo desenho: Deus age com poder, o povo se rebela, Deus castiga e, por fim, se compadece. A repetição é método: o ouvinte deve reconhecer o padrão e reconhecer-se nele.
Uma antiga tradição rabínica, registrada no Talmude, considerava o v. 38 o versículo do meio do Saltério, e esse verso sobre a compaixão que cobre a culpa abre até hoje a oração da tarde na liturgia judaica. A intuição é preciosa: no centro deste salmo cheio de rebeldia está a misericórdia.
📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo
O salmista pede atenção ao seu ensino (v. 1): falará por figuras e enigmas antigos (v. 2), recebidos dos pais (v. 3), que não esconderá dos filhos (v. 4). Deus mandou que os pais ensinassem aos filhos o seu testemunho e a sua lei (v. 5), para que as gerações seguintes os passassem adiante (v. 6), confiassem em Deus, lembrassem as suas obras e guardassem os seus mandamentos (v. 7), sem imitar os pais, geração teimosa e de coração instável (v. 8).
O primeiro exemplo é o dos efraimitas, arqueiros bem armados que recuaram no dia da batalha (v. 9), porque não guardaram a aliança (v. 10) e esqueceram as maravilhas que tinham visto (v. 11). O salmo as recorda: os prodígios em Zoã (v. 12), o mar aberto (v. 13), a nuvem e o fogo (v. 14), a água que correu das rochas fendidas (vv. 15-16).
A resposta foi mais pecado e mais rebeldia contra o Altíssimo, em plena terra seca (v. 17). Puseram Deus à prova exigindo comida ao gosto da cobiça (v. 18) e duvidaram em voz alta de que ele, que tirara água da pedra, pudesse também servir pão e carne no deserto (vv. 19-20). O Senhor se indignou, porque não creram nem confiaram na sua salvação (vv. 21-22). Ainda assim, abriu as portas do céu e fez chover o maná, o cereal do céu, o pão dos poderosos, até a fartura (vv. 23-25); depois fez soprar os ventos e mandou sobre eles uma chuva de aves incontáveis, que caíram em volta das tendas (vv. 26-28). Comeram até se fartar (v. 29), mas, com a comida ainda na boca, a ira de Deus abateu os mais robustos e os jovens escolhidos (vv. 30-31).
Continuaram pecando e descrendo (v. 32), e Deus fez os seus dias se dissiparem como sopro e os seus anos em sobressalto (v. 33). Quando ele os feria, buscavam-no e lembravam-se da Rocha e do Redentor (vv. 34-35); mas as palavras eram adulação, e por dentro continuavam instáveis e desleais à aliança (vv. 36-37). Deus, em sua compaixão, cobria a culpa em vez de exterminá-los e segurou muitas vezes a ira (v. 38), porque tinha presente a fragilidade daquela gente mortal, passageira como o vento (v. 39).
O segundo ciclo lamenta as muitas rebeliões no deserto, que magoaram o Santo de Israel (vv. 40-41), e o esquecimento do dia em que Deus os resgatou (v. 42). Seguem as pragas do Egito, até a morte dos primogênitos (vv. 43-51). Com o seu povo, ao contrário, Deus agiu como pastor: levou-o pelo deserto como rebanho, em segurança, enquanto o mar cobria os inimigos (vv. 52-53), trouxe-o ao seu monte santo, expulsou nações e repartiu a herança entre as tribos (vv. 54-55).
Na terra, o povo voltou a provocar o Altíssimo, falhou como um arco frouxo e despertou o ciúme de Deus com os altos e as imagens (vv. 56-58). Deus rejeitou Israel com veemência (v. 59), deixou para trás o tabernáculo de Siló (v. 60) e entregou ao cativeiro a sua força e o seu esplendor (v. 61). Seguiram-se a espada, o fogo e o luto (vv. 62-64).
Então o Senhor se levantou como alguém que sai do sono, à maneira de um guerreiro aquecido pelo vinho que solta o grito de batalha (v. 65), e fez os inimigos recuarem humilhados (v. 66). Pôs de lado a casa de José e a tribo de Efraim (v. 67); a sua escolha recaiu sobre Judá e sobre Sião, objeto do seu amor (v. 68), onde ergueu o santuário, alto como os céus e firme como a terra (v. 69). Escolheu também Davi, o seu servo, que cuidava das ovelhas nos currais (v. 70), e lhe deu outro rebanho, o seu povo e a sua herança (v. 71). E Davi cuidou deles com um coração íntegro e os guiou com a destreza das suas mãos (v. 72).
🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)
Versículos 1-8 — A história que os pais devem aos filhos
O salmo abre com a voz de um mestre. O chamado à escuta (v. 1) tem o tom dos sábios: o orador pede atenção à sua torah, palavra que aqui não designa o Pentateuco, mas a instrução que sai da boca de quem ensina (Pv 1.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 4.2).
O v. 2 é o que o Novo Testamento cita. O salmista anuncia um mashal, palavra ampla (provérbio, comparação, discurso figurado), e ḥidot, enigmas, como as adivinhas de Sansão (Jz 14.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) ou as perguntas difíceis que a rainha de Sabá levou a Salomão (1Rs 10.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A narrativa é clara; o enigma está no sentido. Por que um povo tão favorecido se rebela tanto? Por que Deus, tão provocado, não desiste? Por que Efraim foi posto de lado e Judá escolhido? O verbo nava', fazer jorrar como de uma fonte, sugere que esse sentido estava represado e agora transborda.
Os vv. 3-4 mostram como a fé de Israel se transmitia: pelo ouvido. O verbo do v. 4, kiḥed, encobrir, é o mesmo que descreve quem esconde uma falta; calar a história seria uma forma de infidelidade. E o que se ensina às crianças, antes de tudo, não é uma lista de deveres, mas os nifle'ot, as maravilhas de Deus.
Os vv. 5-6 fundamentam essa transmissão na vontade de Deus, que firmou um 'edut, testemunho, em Jacó e pôs uma torah em Israel. É o mandamento do Deuteronômio: que os mandamentos morem no coração dos pais e ocupem a conversa com os filhos em todos os momentos do dia, em casa ou na estrada (Dt 6.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); e, quando o filho perguntar o que significam aquelas leis, o pai não deve responder com uma explicação abstrata, mas contando a história da escravidão no Egito e do braço poderoso que libertou o povo (Dt 6.20-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Páscoa (Ex 12.26-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e as pedras do Jordão (Js 4.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) seguem o mesmo modelo. O v. 6 alonga a corrente até os que ainda não nasceram: são quatro gerações num só verso. A fé bíblica é, por natureza, uma herança narrada.
O v. 7 diz para que serve contar, e a ordem é teológica: que ponham em Deus o seu kesel, a confiança; que não esqueçam as suas obras; que guardem os seus mandamentos. A confiança nasce da memória, e a obediência nasce da confiança.
O v. 8 introduz o contraponto que dominará o salmo: os pais. A geração do deserto é sorer umoreh, teimosa e rebelde, a mesma dupla que a lei usa para o filho incorrigível (Dt 21.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E a raiz do mal é dita com precisão: um coração que não se firmou, lo' hekhin libbo, e um espírito que não foi ne'emanah, confiável, com Deus. As duas expressões voltarão quase iguais no v. 37, e o salmo terminará com o seu oposto, a integridade de coração de Davi (v. 72). O problema de Israel nunca foi falta de informação; foi um coração sem firmeza.
Versículos 9-16 — Efraim que voltou atrás e as maravilhas esquecidas
O v. 9 é um dos enigmas do salmo. Nenhum texto bíblico narra uma derrota de arqueiros efraimitas nesses termos. Alguns pensam na falha de Efraim em expulsar os cananeus do seu território (Jz 1.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); outros na derrota de Afeque, quando a arca foi tomada (1Sm 4.1-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), que o próprio salmo narrará; outros leem o verso de modo figurado, antecipando toda a infidelidade do norte, que culminará na rejeição da tenda de José (v. 67). O mais prudente é reconhecer que não sabemos a que batalha o poeta alude. O sentido, porém, os vv. 10-11 explicam: a covardia diante do inimigo é sintoma de uma infidelidade anterior. Quem não guardou a aliança e esqueceu as maravilhas que viu não tem onde firmar os pés no dia do combate. Oseias usará a imagem do arco que falha para falar de Efraim (Os 7.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o salmo a retomará no v. 57.
Efraim, a tribo de Josué (Nm 13.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e a terra de Siló, deu nome ao reino do norte inteiro na boca dos profetas (Is 7.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Os 11.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A história que começa com Efraim recuando termina com Efraim preterido.
A acusação do v. 11 é a palavra-chave do salmo: esqueceram. O verbo shakaḥ e o seu oposto, zakhar, lembrar, são os eixos do poema (vv. 7, 11, 35, 39, 42). O pecado de Israel é, antes de tudo, um pecado de memória, e o salmo responde ao esquecimento contando de novo.
Os vv. 12-16 começam a contar. O Egito é evocado pelos campos de Zoã, cidade do delta oriental do Nilo, mais tarde chamada Tânis, que os profetas associam aos príncipes do faraó (Is 19.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ez 30.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): os prodígios aconteceram num lugar com nome. A travessia do mar (v. 13) usa a imagem do Cântico de Moisés, as águas de pé como um monte, ned (Ex 15.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A nuvem e o fogo (v. 14) retomam o Êxodo (Ex 13.21-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), com uma ênfase bonita na noite inteira: a guarda de Deus não cochila nas horas escuras. Os vv. 15-16 condensam os dois episódios da água tirada da rocha, em Refidim (Ex 17.1-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e em Cades (Nm 20.2-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), com uma hipérbole: Deus deu de beber como das tehomot, as águas abissais da criação (Gn 1.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 7.11). Do lugar mais seco brotou a água do lugar mais fundo. O retrato é deliberadamente generoso, porque o salmo vai mostrar a ingratidão que lhe respondeu.
Versículos 17-31 — A mesa no deserto: o maná, as codornizes e a cobiça
O v. 17 começa com a constatação mais amarga do salmo: o pecado continuou. Depois do mar, da nuvem e da água da rocha, a resposta foi mais rebeldia, lamrot, contra o Altíssimo, numa terra árida onde dependiam dele para tudo.
O v. 18 dá a forma desse pecado: puseram Deus à prova, nissah, no coração. Tentar a Deus é exigir que ele prove a sua bondade nos termos que nós escolhemos. Massá e Meribá ganharam o nome porque ali o povo desafiou o Senhor a mostrar se estava presente (Ex 17.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 95.8-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a lei proibiu repetir essa atitude (Dt 6.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que pediam não era pão para a fome, mas comida lenafsham, para o seu apetite.
Os vv. 19-20 dão voz à incredulidade com uma ironia terrível: o povo admite o milagre da rocha, mas o usa contra Deus, como se a água não provasse que ele também poderia dar pão e carne. A pergunta não nasce da falta de provas, mas da recusa em tirar delas a conclusão óbvia. Os vv. 21-22 dão a reação de Deus: o fogo que se acende contra Jacó lembra provavelmente o de Taberá (Nm 11.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o motivo é dito com todas as letras: não creram, lo' he'eminu, nem confiaram na sua yeshu'ah, salvação. É o verbo da fé de Abraão (Gn 15.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a carta aos Hebreus fará o mesmo diagnóstico do período (Hb 3.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Então vem a surpresa que marca o salmo. Nos vv. 23-25, o Deus irado é o mesmo que abre as portas do céu, as comportas por onde um dia desceu o dilúvio (Gn 7.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), agora abertas para chover comida. O maná é degan shamayim, o cereal do céu, como se houvesse no alto uma lavoura de Deus, e leḥem 'abbirim, o pão dos poderosos. A palavra 'abbir designa o forte, e uma forma próxima dela entra num título antigo de Deus, o Poderoso de Jacó (Gn 49.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O sentido mais provável é o alimento dos seres celestiais, a comida da corte de Deus servida a escravos fugidos; a antiga tradução grega falou de pão de anjos, e a poesia litúrgica cristã cantou a imagem durante séculos, como no conhecido hino de Tomás de Aquino para a festa do Corpo de Deus. E o salmista sublinha a fartura: provisão lasova', até a saciedade (Ex 16.16-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Os vv. 26-29 contam as codornizes. Deus conduz o vento leste e o vento sul, e as aves caem como pó, incontáveis como a areia, imagem que lembra a descendência prometida a Abraão (Gn 22.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), agora aplicada a pássaros. Comeram e se fartaram, e Deus lhes trouxe aquilo que desejavam, ta'avatam, a palavra que deu nome ao lugar da tragédia: Quibrote-Hataavá, os sepulcros da cobiça (Nm 11.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Os vv. 30-31 são de uma concisão gelada. A ira de Deus abate os mishmannehem, literalmente os mais gordos, e os jovens escolhidos; o relato de Números conta que a praga veio antes que terminassem de mastigar a carne (Nm 11.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Há uma lição dura: Deus às vezes castiga dando o que se exige. O Salmo 106 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) dirá que ele atendeu ao pedido e, ao mesmo tempo, os deixou definhar por dentro (Sl 106.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A satisfação da cobiça não satisfaz; consome.
Versículos 32-39 — O arrependimento de lábios e a compaixão que cobre a culpa
O v. 32 repete o padrão, e o v. 33 resume os quarenta anos de deserto: os dias acabaram bahevel, num sopro, e os anos babehalah, em sobressalto. O poeta pensa provavelmente na sentença de Cades, que condenou a geração incrédula a morrer no deserto (Nm 14.26-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Os vv. 34-35 descrevem algo que parece arrependimento. Quando Deus os feria, voltavam, shavu, e o buscavam com empenho, shiḥaru, verbo que sugere a procura ansiosa de quem sai cedo à busca. Lembravam-se de que Deus era a sua tsur, rocha, e o seu go'el, redentor, o parente que resgata (Lv 25.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As palavras eram as certas, como na confissão depois das serpentes (Nm 21.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 36 desmascara essa conversão: eles o yefattuhu, o adulavam, com a boca, e mentiam com a língua. Era um arrependimento de crise, que durava enquanto durava a dor. O v. 37 dá o diagnóstico repetindo o v. 8: o coração não estava nakhon, firme, e eles não foram ne'emanu, fiéis, à aliança. Oseias dirá algo parecido de Efraim, comparando a sua lealdade ao orvalho que se evapora assim que o sol sobe (Os 6.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
E então, no meio do salmo, o v. 38, talvez o verso mais importante do poema. Ele começa com wehu', "mas ele", que opõe a natureza de Deus à do povo. Deus é raḥum, compassivo, palavra da revelação do nome a Moisés (Ex 34.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), aparentada a reḥem, o ventre materno. Ele yekhapper, cobre, expia a culpa: kipper é o grande verbo do perdão sacrificial e do Dia da Expiação (Lv 16.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e aqui o próprio Deus é o sujeito, sem menção de sacrifício, por pura compaixão. Muitas vezes fez voltar a ira e não despertou todo o seu furor. O salmo não nega a ira de Deus, que acabou de descrever; afirma que ela nunca foi a última palavra.
O v. 39 dá o motivo: Deus se lembrava de que eram basar, carne, e ruaḥ, um sopro que vai e não volta. O povo se esquece de Deus (v. 11); Deus se lembra do povo (v. 39). E aquilo de que ele se lembra não é a dignidade do povo, mas a sua fragilidade. O Salmo 103 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) dirá o mesmo: Deus sabe de que matéria fomos feitos e não esquece que viemos do pó (Sl 103.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Versículos 40-55 — As pragas do Egito e o rebanho conduzido à herança
O segundo ciclo começa com um suspiro sobre a frequência das rebeliões (v. 40), e o verbo do segundo hemistíquio surpreende: eles o ya'atsivuhu, o magoaram. O Deus do salmo não é um soberano impassível que registra infrações; é alguém que se entristece. Isaías dirá que o povo entristeceu o Espírito Santo de Deus no deserto (Is 63.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O v. 41 usa um verbo raro, hitwu, de sentido discutido: afligir, provocar ou, numa leitura antiga e incerta, pôr limites, como quem traça até onde o Santo de Israel pode ir.
O v. 42 retoma o esquecimento do dia em que Deus os padah, resgatou, e os vv. 43-51 voltam ao Egito com as pragas. O salmo não as lista todas nem na ordem do Êxodo: o sangue nos rios (v. 44; Ex 7.17-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), as moscas e as rãs (v. 45; Ex 8.1-15, 20-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o gafanhoto (v. 46; Ex 10.12-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o granizo sobre as plantações e o gado (vv. 47-48; Ex 9.22-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e, como coroamento, a morte dos primogênitos (v. 51; Ex 12.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ficam de fora os piolhos, as úlceras e as trevas. Há palavras raras: ḥasil (v. 46), alguma espécie de gafanhoto ou larva devoradora, e ḥanamal (v. 47), que muitos entendem como geada, sem certeza. A liberdade de ordem e de seleção mostra que o poeta não faz crônica, mas prega.
O v. 49 é especialmente forte: Deus lança contra o Egito 'evrah, za'am e tsarah, indignação, furor e angústia, e uma mishlaḥat mal'akhe ra'im, uma comitiva de mensageiros de males. Não é preciso pensar em anjos malignos, mas em executores do juízo, como o destruidor da Páscoa (Ex 12.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O v. 50 diz que Deus abriu caminho para a sua ira, e o contraste com o v. 38 é exato: com Israel, ele muitas vezes conteve o furor; com o Egito opressor, deixou-o correr. O v. 51 chama os primogênitos de re'shit 'onim, as primícias do vigor, nas tendas de Cam, o antepassado dos egípcios segundo a tábua das nações (Gn 10.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Os vv. 52-53 mudam de tom com uma imagem pastoral: Deus tira o seu povo do Egito como um pastor tira as ovelhas do curral e o leva pelo deserto como rebanho, labetaḥ, em segurança, enquanto o mar cobre os inimigos. Os vv. 54-55 completam o ciclo com a entrada na terra. O monte que a destra de Deus adquiriu pode ser a região montanhosa de Canaã ou já Sião, como no Cântico do Mar, que fala do monte da herança onde Deus plantaria o seu povo e firmaria o seu santuário (Ex 15.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E a herança é repartida beḥevel, com o cordel de medir, como no livro de Josué (Js 13–19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O primeiro ciclo terminou com a compaixão que perdoa; o segundo, com a generosidade que cumpre a promessa. O povo, porém, ainda não mudou.
Versículos 56-64 — Siló abandonada
Os vv. 56-58 descrevem a infidelidade já dentro da terra, com o vocabulário do deserto: tentaram e provocaram o Altíssimo e não guardaram os seus 'edot, testemunhos, eco do 'edut do v. 5. O que deveria passar aos filhos foi abandonado pelos pais. O v. 57 compara o povo a um qeshet remiyyah, um arco enganoso, mal-acabado ou de corda frouxa, que dispara para o lado quando o arqueiro mais precisa dele. A imagem retoma com ironia os arqueiros do v. 9: quem foge do inimigo com o arco na mão é, ele mesmo, um arco que não acerta. O v. 58 dá a forma concreta da traição: os bamot, os altos, onde se misturava o culto ao Senhor com práticas cananeias, e os pesilim, imagens esculpidas, no ciclo de apostasia dos Juízes (Jz 2.11-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O verbo é qinne', provocar o ciúme, o mesmo do Cântico de Moisés (Dt 32.16, 21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): Deus é o esposo da aliança, que não divide o seu povo com outros deuses.
O v. 59 é o mais severo do salmo: Deus yim'as me'od, rejeitou com força, Israel. Não se trata de rejeição definitiva do povo inteiro, já que o salmo termina com a escolha de Judá e de Davi; mas o golpe foi real e se concentrou num lugar. O v. 60 o nomeia: Siló. Desde a conquista, a tenda do encontro estava ali, no território de Efraim (Js 18.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); ali Ana orou e Samuel cresceu (1Sm 1–3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmo chama aquele santuário de lugar onde Deus shikken, fizera morar a sua presença, no meio dos seres humanos; é o verbo de onde vem mishkan, tabernáculo. E Deus o yittosh, largou, como quem deixa um campo sem cultivo.
Os vv. 61-64 contam o desastre de 1Sm 4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) com sobriedade dolorosa. Deus entregou ao cativeiro o seu 'oz, força, e o seu tif'eret, esplendor, dois nomes para a arca, chamada noutro salmo a arca da força de Deus (Sl 132.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Levada como talismã para a batalha de Afeque, a arca foi tomada pelos filisteus (1Sm 4.3-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a nora de Eli, morrendo no parto, deu ao filho o nome de Icabode, um nome que lamentava a glória perdida por Israel (1Sm 4.19-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmo faz questão de dizer que foi Deus quem a entregou: não foi derrota dele, foi juízo dele. A presença de Deus não está à disposição do povo como um amuleto. O v. 63 tem uma imagem de grande tristeza: os jovens devorados pelo fogo, as moças sem cântico de núpcias, porque não havia noivos. O v. 64 lembra os sacerdotes Hofni e Fineias (1Sm 4.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e as viúvas que não puderam chorar, seja porque a catástrofe impediu os ritos de luto, seja numa alusão à viúva de Fineias, que morreu sem tempo de chorar o marido.
Samuel não narra a destruição da cidade, e os indícios arqueológicos são discutidos; mas Siló ficou na memória de Israel como aviso. Jeremias, à porta do templo, mandou o povo ir ver o que Deus fizera ao lugar onde antes pusera o seu nome, e ameaçou fazer o mesmo com Sião, se o templo fosse tratado como amuleto por gente que vivia na injustiça (Jr 7.12-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 26.6).
Versículos 65-72 — O Senhor desperta: Judá, Sião e o pastor Davi
A última perícope abre com uma das imagens mais ousadas do Saltério: o Senhor desperta como quem dormia, como um gibbor, um valente, que grita mitronen, aquecido pelo vinho (v. 65). O poeta sabe que fala de modo humano (Sl 121.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); mas, para o povo derrotado, Deus parecia adormecido, e outros salmos clamam para que ele acorde (Sl 44.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A comparação não sugere embriaguez, e sim o ímpeto de quem se levanta com toda a força. O silêncio de Deus em Siló não era fraqueza; era juízo. Cumprido o juízo, ele se levantou. O v. 66 alude provavelmente aos tumores que afligiram os filisteus enquanto a arca esteve nas suas cidades (1Sm 5.6-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), até que a devolveram (1Sm 6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e às vitórias posteriores de Davi (2Sm 5.17-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Os vv. 67-68 trazem o grande contraste do salmo: a tenda de José e a tribo de Efraim são postas de lado, e a escolha recai sobre Judá e sobre o monte Sião, 'asher 'ahev, que ele ama. Efraim recebera de Jacó a primazia de José (Gn 48.13-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Cr 5.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas o governo passou a Judá, como o testamento de Jacó deixara entrever (Gn 49.8-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmo não explica a escolha por méritos de Judá, que também não era santa; diz apenas que Deus ama Sião. A eleição, aqui como em toda a Bíblia, tem a sua razão no amor de Deus (Dt 7.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 69 descreve o santuário de Sião com comparações cósmicas: alto como os ramim, as alturas, firme como a terra fundada para sempre. A tenda de Siló pôde ser abandonada; o santuário de Sião tem a estabilidade da criação, na linha da promessa a Davi (2Sm 7.11-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas o terceiro livro mostrará esse templo incendiado (Sl 74.3-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e a casa de Davi humilhada (Sl 89.38-45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): a firmeza depende de Deus, não das pedras.
Os vv. 70-72 encerram com Davi. Deus o escolheu, wayyivḥar, o mesmo verbo dos vv. 67-68: Judá, Sião e Davi formam uma só eleição. Davi, 'avdo, seu servo, é tirado dos mikhle'ot tso'n, os currais. O caçula de Jessé estava com o rebanho quando foi chamado para ser ungido (1Sm 16.11-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Natã recorda que foi Deus quem o tirou do pasto para governar o seu povo (2Sm 7.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O v. 71 tem um detalhe delicado: Davi andava atrás das 'alot, as ovelhas que amamentam, as mais lentas e frágeis, que o pastor conduz com paciência. O ofício não mudou de natureza; mudou de rebanho.
O v. 72 é o contrário exato do começo. Davi apascentou o povo ketom levavo, na integridade do seu coração, e o guiou bitvunot kappav, com o discernimento das suas mãos. O coração instável dos pais (vv. 8, 37) encontra um coração íntegro, e a palavra tevunot pertence ao vocabulário da sabedoria que o maśkil da inscrição prometia. O próprio Deus diria que Davi andou diante dele com integridade (1Rs 9.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O retrato é idealizado (Davi pecou gravemente), mas, como figura do rei que Deus buscou para si (1Sm 13.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), Davi é a resposta do salmo à longa infidelidade: o povo que não soube ser rebanho recebe um pastor. E o salmo termina aí, sem doxologia, com a história em aberto. Resta saber se os pastores que vierem depois serão fiéis; o Salmo 89 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), no fim do mesmo livro, mostrará a dor dessa pergunta.
✨ 4. Versículos-Chave
Sl 78.4-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O programa pedagógico de Israel e uma das passagens mais claras da Escritura sobre a transmissão da fé entre gerações. Os pais não podem esconder dos filhos os feitos de Deus, e a finalidade é encadeada: memória, confiança, obediência. Antes de dizer à criança o que ela deve fazer, conta-se a ela o que Deus fez. Paulo seguirá esse caminho ao lembrar a Timóteo a fé recebida da avó e da mãe e as Escrituras conhecidas desde a infância (2Tm 1.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 3.15), e ao pedir-lhe que confie o que ouviu a pessoas fiéis, capazes de ensinar a outras (2Tm 2.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) — também ali há quatro elos na corrente.
Sl 78.24-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O maná como cereal do céu e pão dos poderosos. No salmo, mostram a generosidade de Deus que responde à incredulidade com fartura. Na leitura cristã, ganham peso enorme, porque a multidão de Cafarnaum os evoca para pedir um sinal a Jesus, e ele responde que o pão verdadeiro vem do Pai e é ele mesmo, que dá vida ao mundo (Jo 6.31-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Sl 78.38-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O coração teológico do salmo. Entre a rebeldia do povo e a ira justa de Deus, ergue-se a compaixão: Deus cobre a culpa, contém o furor e se lembra de que os seus são carne. A fé cristã reconhece nesse cobrir a sombra do que Deus fez plenamente em Cristo, cuja morte ele ofereceu como sacrifício de expiação (Rm 3.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e que assumiu a nossa fragilidade para ser um sumo sacerdote compassivo (Hb 2.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Sl 78.70-72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A escolha do pastor. Deus responde à infidelidade do rebanho dando-lhe um pastor de coração íntegro e mãos hábeis. O salmo para em Davi, mas abre uma expectativa que os profetas desenvolverão: um novo Davi, pastor único do povo reunido (Ez 34.23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), um governante saído de Belém que apascentará o rebanho na força do Senhor (Mq 5.2-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Novo Testamento a vê cumprida em Jesus, filho de Davi, nascido em Belém (Mt 2.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o pastor que entrega a própria vida pelo rebanho (Jo 10.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
⛪ 5. Temas Teológicos Centrais
A memória como forma de fidelidade. O salmo diagnostica o pecado de Israel como esquecimento e propõe como remédio a lembrança contada. Por isso a Bíblia está cheia de memoriais, das pedras do Jordão (Js 4.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) à Páscoa (Ex 12.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e por isso a geração que esquece é a que se desvia: morto Josué, cresceu em Israel uma geração que ignorava o Senhor e as suas obras (Jz 2.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus deu à sua Igreja uma memória desse tipo: na última ceia, pediu que os discípulos repetissem o gesto do pão e do cálice para se lembrarem dele (Lc 22.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Paulo explica que, a cada celebração, a Igreja proclama a morte do Senhor enquanto espera a sua volta (1Co 11.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A memória cristã não é nostalgia; é proclamação.
A paciência de Deus diante da rebeldia persistente. O povo vê, esquece, exige, murmura, se arrepende de fachada e volta a pecar; e contra esse fundo brilha a paciência de Deus. É o Deus que se revelou a Moisés pela compaixão, pela paciência que demora a se irar e pela lealdade abundante (Ex 34.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e que, em Oseias, recua diante da ideia de entregar Efraim, comovido nas entranhas (Os 11.8-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Novo Testamento leva isso ao extremo: a graça de Deus se mostra maior do que todo o pecado acumulado (Rm 5.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a infidelidade humana não anula a fidelidade de Cristo, que não pode desmentir a si mesmo (2Tm 2.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A fé que se recusa a crer. O pecado central do deserto não foi a fome nem a sede, mas a incredulidade (vv. 22, 32): cada milagre virava pretexto para outra dúvida. Hebreus faz desse período o grande exemplo de advertência: a geração que saiu do Egito ficou fora do descanso porque não creu, e a Igreja deve vigiar para que ninguém entre os seus endureça o coração na desconfiança e abandone o Deus vivo (Hb 3.12-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus enfrentou a mesma atitude: depois de multiplicar os pães, a multidão lhe pediu outro sinal (Jo 6.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e, depois do seu discurso sobre o pão vindo do céu, muitos dos que o seguiam se retiraram e o abandonaram (Jo 6.66 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O recuo de Efraim no dia da batalha (v. 9) tem ali um eco doloroso.
A eleição de Deus e o pastor que ele dá. O fim do salmo mostra que a história de Israel é governada pela escolha amorosa de Deus: ele deixa Siló e escolhe Sião, prefere Judá a Efraim e tira um menino dos currais para pastorear o seu povo. A eleição é a decisão de manter a promessa apesar do fracasso humano, e se concentra numa pessoa, o rei pastor. Essa expectativa atravessa as Escrituras, das denúncias contra os maus pastores (Jr 23.1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ez 34.1-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) à compaixão de Jesus pelas multidões que vagavam sem ninguém que as conduzisse (Mc 6.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo
6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?
O Salmo 78 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é um texto da Redenção em andamento: reconta o Êxodo, o deserto, a conquista, a queda de Siló e a escolha de Davi. Mas o que ele narra é sobretudo o drama da Queda dentro do povo redimido: gente resgatada do Egito que, mesmo alimentada pelo céu, insiste em esquecer, desconfiar e trair. Ao terminar com Davi, o salmo aponta para a solução que Deus prepara, um rei pastor de coração íntegro. A Redenção consumada vem quando o Filho de Davi assume ao mesmo tempo o lugar do pastor e o do rebanho: ele conduz o povo e é também o Israel fiel que, no deserto, não pôs Deus à prova. E a Nova Criação é o destino desse rebanho, quando o Cordeiro que reina será, ele mesmo, o pastor do seu povo e o levará às fontes que dão vida (Ap 7.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A história que o salmo deixa em aberto encontra ali o seu fim.
6.2 — Tipologias: a rocha, o pão do céu e o deserto
O próprio Novo Testamento lê esta história como figura de Cristo e da Igreja. O texto central é 1Co 10.1-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Paulo recorda que toda a geração do Êxodo passou sob a nuvem e através do mar, recebeu um alimento e uma bebida que vinham do Espírito, e que a fonte daquela água era uma rocha que seguia com eles, a qual o apóstolo identifica com Cristo (1Co 10.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em seguida lembra que, apesar disso, quase todos desagradaram a Deus e morreram pelo caminho, e que esses fatos foram registrados como aviso, para que a Igreja não se entregue à cobiça nem desafie o Senhor como eles fizeram (1Co 10.5-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É quase um comentário ao salmo: a nuvem (v. 14), o mar (v. 13), a rocha (vv. 15-16, 20), o maná (vv. 24-25), a cobiça (vv. 18, 29-30), a prova imposta a Deus (vv. 18, 41, 56) e os corpos caídos no deserto (vv. 31, 33). A tipologia da rocha é estabelecida pelo próprio apóstolo, não inventada pelo intérprete. E a água que corria da pedra como rios (v. 16) ganha sentido pleno quando Jesus, no dia mais solene da festa, chama os sedentos para junto de si e promete que quem crê nele se tornará fonte de correntes de água viva (Jo 7.37-38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O maná é o segundo tipo. Em Jo 6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), depois da multiplicação dos pães, a multidão pede a Jesus um sinal e lembra o maná dos pais, citando a Escritura numa forma que ecoa este salmo (v. 24) e o Êxodo (Ex 16.4, 15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus corrige a leitura em dois pontos. Primeiro, o doador do maná não foi Moisés, mas o Pai, que agora oferece o pão verdadeiro. Segundo, esse pão não é uma coisa, mas uma pessoa: o alimento que Deus manda do alto para dar vida à humanidade é o próprio Jesus (Jo 6.32-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E acrescenta um contraste que o salmo ilustra com crueza: a geração que comeu o maná acabou morrendo no deserto (Jo 6.49 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), como os robustos abatidos com a comida na boca (vv. 30-31); quem se alimenta de Cristo recebe uma vida que a morte não encerra (Jo 6.50-51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O terceiro tipo é o deserto como tempo de prova. Israel exigiu comida ao gosto da cobiça e duvidou da provisão de Deus (vv. 18-20). Jesus, levado pelo Espírito ao deserto, teve fome e foi tentado (Mt 4.1-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a primeira tentação é exatamente a do Salmo 78 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): transformar pedras em pão, exigir de Deus a comida no momento e do modo que se quer. Jesus responde com o Deuteronômio, lembrando que a vida humana depende da palavra de Deus, e não só do pão (Dt 8.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e na tentação seguinte recusa-se a pôr Deus à prova (Dt 6.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Onde Israel, o filho de Deus (Ex 4.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), falhou no deserto, Jesus, o Filho, permaneceu fiel. Ele é o Israel verdadeiro, que vive a obediência que o salmo lamenta não ter encontrado.
6.3 — As parábolas do Reino: o mestre que abre a boca
O Novo Testamento cita este salmo expressamente uma vez. Em Mt 13.34-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), depois de uma série de parábolas sobre o Reino, Mateus observa que todo o ensino de Jesus às multidões era feito por meio de parábolas e vê nisso o cumprimento de uma palavra profética. A palavra é o v. 2 deste salmo, citado de forma livre: o mestre que fala por figuras e traz à luz o que estava oculto desde o começo do mundo.
Que o salmista seja chamado de profeta não surpreende: as Crônicas chamam Asafe de vidente (2Cr 29.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Alguns manuscritos antigos de Mateus trazem ali o nome de Isaías, variante discutida já pelos autores antigos; a maior parte dos estudiosos entende que a leitura original não trazia nome algum. E, no segundo hemistíquio, Mateus estende a antiguidade de que o salmo fala até a própria origem da criação.
Mateus não diz que o salmo previa, em sentido estrito, que o Messias falaria por parábolas. Ele vê em Jesus a realização plena do que o salmista fez. Asafe contou a história de Israel como mashal, uma narrativa que esconde e revela, para que as gerações confiassem em Deus. Jesus conta as parábolas do Reino, que também escondem e revelam: abrem o mistério a quem ouve com fé e o fecham aos que endurecem o coração (Mt 13.10-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o que ele revela é o que a história de Israel preparava e agora chega na sua pessoa. O salmista olhava para trás e via enigmas no passado; Jesus está no centro da história e revela o que o passado escondia. Ele é, ao mesmo tempo, o mestre que conta e o conteúdo da história contada.
6.4 — Cristo, o Pastor de coração íntegro, a expiação e o santuário
O salmo termina com Davi tirado dos currais (vv. 70-72). Vendo os reis de Judá falharem um depois do outro, os profetas anunciaram que o próprio Deus buscaria as suas ovelhas e lhes daria um só pastor, o seu servo Davi (Ez 34.11-16, 23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Novo Testamento vê esse pastor em Jesus. Ele se apresenta como o pastor verdadeiro, que conhece cada ovelha e arrisca por elas a própria vida, ao contrário do empregado que abandona o rebanho quando o perigo chega (Jo 10.11-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Hebreus o chama de grande pastor, a quem Deus fez voltar dos mortos pelo sangue de uma aliança que não acaba (Hb 13.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Pedro o apresenta como o pastor-chefe, cuja vinda os presbíteros aguardam (1Pe 5.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O cuidado de Davi com as ovelhas que amamentavam (v. 71) ecoa na compaixão de Jesus por multidões exaustas e desamparadas (Mt 9.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Mas Davi não bastou. A sua integridade era real e limitada, os seus filhos foram menos fiéis que ele, e o Salmo 89 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) chora a coroa lançada por terra. Só Jesus apascenta sem falha, porque nele não houve pecado (1Pe 2.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e só ele conduz o rebanho para além da morte. No sermão de Antioquia da Pisídia, Paulo faz o percurso deste salmo — a escolha dos pais, a saída do Egito, o deserto, a conquista, os juízes, Saul e a escolha de Davi, o rei aprovado por Deus — para concluir que foi da família de Davi que Deus fez surgir para Israel o Salvador prometido, Jesus (At 13.17-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 78 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) para em Davi; a pregação apostólica continua até Cristo.
O v. 38 encontra em Cristo a sua expressão mais funda. No salmo, Deus cobre a culpa por compaixão e contém a ira. Paulo explica que Deus ofereceu Cristo, na sua morte, como sacrifício de expiação, e que isso revela por que Deus pôde, na sua paciência, adiar o castigo dos pecados do passado sem deixar de ser justo (Rm 3.25-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A paciência do v. 38 esperava um fundamento, e o fundamento é a cruz, onde o Filho enfrentou o juízo contra o pecado, para que a compaixão alcançasse os rebeldes sem negar a justiça. E o v. 39, que lembra que somos carne e sopro, ganha sentido novo quando o Filho de Deus assume essa mesma condição frágil, humana de verdade, a fim de tornar-se igual aos irmãos e servir-lhes como sumo sacerdote cheio de misericórdia (Hb 2.14-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Deus já não apenas se lembra da nossa fragilidade; em Cristo, ele a conhece por dentro.
Por fim, o santuário. O salmo mostra Deus deixando Siló (v. 60) e edificando em Sião um santuário firme (v. 69). Jesus retomou a advertência de Jeremias ao chorar sobre Jerusalém e anunciar o abandono da cidade (Mt 23.37-38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e a demolição completa do templo (Mc 13.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas falou também de outro santuário, o templo do seu corpo, que seria destruído e reerguido em três dias (Jo 2.19-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A presença de Deus, que morou em Siló e em Sião, fixou morada na humanidade de Jesus (Jo 1.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e esse santuário não pode ser capturado por inimigo algum. A arca levada ao cativeiro (v. 61) era a glória que se ia; em Cristo, a glória veio para ficar.
6.5 — O Evangelho no capítulo
Pregar o Salmo 78 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) cristocentricamente é contar a história de um povo que não conseguiu ser fiel, para mostrar que a fidelidade da história está do lado de Deus. O ouvinte se reconhece nos pais do deserto: na memória curta, na exigência de sinais, no arrependimento que dura enquanto dura a dor, no coração que não se firma. Mas o mesmo salmo mostra um Deus que abre os céus para alimentar ingratos, cobre a culpa por compaixão, se lembra de que somos pó e, depois de todos os fracassos, ainda escolhe um pastor para o seu povo.
O evangelho é a continuação dessa história. O pão enviado do alto se ofereceu como alimento; a rocha foi ferida, e dela brotou a água da vida; o pastor nascido em Belém entregou a vida pelo rebanho e voltou da morte; e a compaixão que cobria a culpa encontrou o seu fundamento na cruz. Quem ouve o salmo com fé não é chamado a ser melhor que os pais pelas próprias forças, mas a confiar no Pastor que é fiel por ele. E, tendo ouvido, a fazer o que o salmo pede desde o v. 4: contar aos filhos, e aos filhos dos filhos, os louvores do Senhor, agora com o nome de Jesus no centro da história.
🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)
- Dt 6.20-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ex 12.26-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Js 4.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a história contada às crianças quando elas perguntam: o modelo dos vv. 3-7.
- Dt 32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o Cântico de Moisés, parente próximo do salmo: Deus como Rocha, o povo ingrato, o ciúme provocado pelos ídolos e a compaixão no fim.
- Ex 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ex 17.1-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Nm 11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Nm 20.2-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o maná, a água da rocha e as codornizes de Quibrote-Hataavá, matéria dos vv. 15-31.
- Ex 7–12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — as pragas do Egito, recontadas com liberdade nos vv. 43-51.
- 1Sm 4–6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 7.12-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 26.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a arca tomada em Afeque, as pragas sobre os filisteus e Siló como advertência para o templo de Jerusalém.
- 1Sm 16.11-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Sm 7.8-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ez 34.23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mq 5.2-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Davi tirado do rebanho, a promessa da casa duradoura e o novo Davi pastor.
- Sl 105 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 106 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ne 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — outras releituras da história sagrada, cada uma com a sua ênfase.
- Mt 13.34-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o ensino de Jesus por parábolas como cumprimento do v. 2.
- Jo 6.30-51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o maná e o pão verdadeiro que vem do Pai.
- 1Co 10.1-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 3.7-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a geração do deserto como aviso para a Igreja; a rocha que era Cristo.
- At 13.17-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o sermão de Paulo que percorre o caminho do salmo, do Egito a Davi, e o leva até Jesus.
- Jo 10.11-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 13.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Pe 5.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Cristo, o pastor verdadeiro e supremo.
- Na história da Igreja, o salmo serviu à catequese pelo seu programa de transmissão da fé, e a expressão do v. 25 entrou na poesia litúrgica eucarística; na tradição judaica, o v. 38 abre a oração da tarde.
🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico
Conte a história de Deus aos que vêm depois. O salmo põe sobre os pais, e sobre toda a geração adulta da comunidade, a responsabilidade de não esconder dos filhos os feitos de Deus. Muitas vezes a transmissão da fé fica delegada à escola dominical, enquanto em casa não se conta nada. O salmo convida a contar aos filhos e aos netos o que Deus fez na história da salvação e na história da família, com Cristo no centro, e a deixar que as perguntas das crianças sejam ocasião de testemunho (Ef 6.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A fé que não é contada raramente é herdada.
Combata o esquecimento com memória ativa. O povo do deserto não pecou por falta de milagres, mas por memória curta. É fácil, depois de um livramento, voltar à ansiedade e à murmuração na primeira dificuldade. A Ceia do Senhor, o grande memorial cristão, é o lugar onde a Igreja recorda a obra de Cristo e renova a confiança; participar dela com atenção é remédio contra a amnésia espiritual.
Desconfie do arrependimento que só dura enquanto dura a crise. Os vv. 34-37 descrevem um padrão comum: na dor, a busca intensa de Deus e as promessas; passada a dor, a indiferença. O salmo chama isso de adulação. O remédio não é prometer mais, mas pedir a Deus um coração firme, coisa que só a graça dá. Em Cristo, Deus promete gravar a sua lei no coração dos seus (Hb 8.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e sustentá-los até o fim (1Co 1.8-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Não exija de Deus a mesa que a cobiça deseja. A tentação do deserto era impor a Deus os termos da provisão. O salmo mostra que, às vezes, receber o que se exige é o próprio castigo. Jesus, no deserto, recusou-se a transformar pedras em pão, confiando no Pai. Segui-lo é aprender a pedir o pão de cada dia sem fazer da satisfação imediata a medida da fidelidade de Deus.
Descanse no Pastor que Deus escolheu. O salmo não termina com um povo finalmente fiel, mas com um pastor dado por Deus. O consolo do crente não está na própria firmeza, mas na fidelidade de Cristo, que conhece as suas ovelhas e não perde nenhuma das que o Pai lhe deu (Jo 10.27-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quem se reconhece nos rebeldes do deserto é convidado a se abrigar no rebanho desse Pastor.
🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo
- O salmo se apresenta como parábola e enigma (v. 2), embora conte uma história conhecida. O que faz da história de Israel um enigma que pede discernimento? Como Mt 13.34-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) aplica essa ideia ao ensino de Jesus?
- Os vv. 5-7 descrevem uma corrente de quatro gerações. Quem contou a você a história de Deus? A quem você a está contando?
- Compare o arrependimento dos vv. 34-37 com a compaixão de Deus nos vv. 38-39. Que diferença o texto mostra entre o remorso da crise e a conversão verdadeira? Em que se apoia o perdão de Deus?
- A multidão de Jo 6.30-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) usa o maná para exigir de Jesus mais um sinal. Como a resposta de Jesus (Jo 6.32-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) muda a leitura dos vv. 23-25?
- Por que o salmo termina com Davi tirado do rebanho? Como Ez 34.23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Jo 10.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e At 13.17-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) levam esse final até Cristo?
- Para meditação e oração: leia devagar os vv. 38-39. Agradeça a Deus pelas vezes em que ele conteve a ira e se lembrou de que você é pó, e peça um coração firme, que não se esqueça das suas obras.
📚 10. Para Aprofundamento
Cristocêntrica / Teologia Bíblica:
- Sidney Greidanus — Preaching Christ from the Old Testament (Eerdmans, 1999)
- Christopher J. H. Wright — Conhecendo Jesus através do Antigo Testamento (Ultimato) / Knowing Jesus Through the Old Testament (IVP, 1992)
- Graeme Goldsworthy — Preaching the Whole Bible as Christian Scripture (Eerdmans, 2000)
Comentários dos Salmos:
- Derek Kidner — Salmos 73–150 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
- Marvin E. Tate — Psalms 51–100 (Word Biblical Commentary, 1990)
- Nancy deClaissé-Walford, Rolf A. Jacobson e Beth LaNeel Tanner — The Book of Psalms (NICOT, Eerdmans, 2014)
- Frank-Lothar Hossfeld e Erich Zenger — Psalms 2: A Commentary on Psalms 51–100 (Hermeneia, Fortress, 2005)
- João Calvino — O Livro dos Salmos, vol. 3 (Edições Paracletos)
- Agostinho — Comentário aos Salmos (Paulus, coleção Patrística)
Sobre o maná no Evangelho de João:
- D. A. Carson — O Comentário de João (Shedd Publicações), sobre Jo 6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)
Sabedoria para o Cotidiano
O Salmo 78 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) conta a história de um povo que viu o mar se abrir e o pão cair do céu e, mesmo assim, esqueceu, exigiu, prometeu e voltou atrás — e a de um Deus que cobriu a culpa, conteve a ira e, no fim, deu ao seu povo um pastor. Não confie na memória curta nem nas promessas feitas na hora da dor: conte e reconte o que Deus fez, à mesa de casa e à mesa do Senhor, até que os seus filhos saibam a história de cor. E, quando se descobrir entre os rebeldes do deserto, lembre-se de que o pão enviado do alto já foi dado, de que a rocha foi ferida em seu favor e de que o Pastor que Deus escolheu não perde nenhuma das suas ovelhas.
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