Salmos · 19 de 66 · Antigo Testamento
Salmos — Capítulo 79
Título do capítulo: Os mortos sem sepultura e o nome de Deus
Gênero literário: Poesia/Salmo (lamento coletivo pela Jerusalém profanada e em ruínas: a descrição da catástrofe, a pergunta "até quando", o pedido de juízo sobre as nações, a súplica de perdão por amor do nome de Deus e o voto final de louvor do rebanho)
Número de versículos: 13
Nota de precisão: a inscrição diz apenas "salmo de Asafe" e, nas Bíblias em português, não é contada como versículo; no hebraico impresso ela faz parte do primeiro versículo, de modo que, neste salmo, os números coincidem. Na antiga tradução grega, que junta os Salmos 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 10, este é o salmo setenta e oito. A ocasião mais provável é a destruição de Jerusalém pelos babilônios, mas o salmo não nomeia nenhum inimigo nem data, e há quem tenha pensado em outras épocas; as hipóteses são apresentadas como hipóteses. Os versos que pedem a ira de Deus sobre as nações (vv. 6, 10 e 12) são tratados com o cuidado que pedem, no lugar próprio e na seção 6.
🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural
O Salmo 79 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o irmão mais próximo do Salmo 74 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Os dois pertencem à coleção de Asafe (Sl 50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 73–83), os dois choram a profanação do lugar santo e os dois terminam lembrando a Deus que o povo é o rebanho do seu pasto (Sl 74.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 79.13). Há, porém, uma diferença de foco. O Salmo 74 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) olha sobretudo para o edifício: os machados nos entalhes, o fogo no santuário, os sinais dos inimigos levantados no lugar das assembleias. O Salmo 79 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) olha sobretudo para as pessoas: os cadáveres dos servos de Deus abandonados às aves e às feras, o sangue derramado como água ao redor da cidade, a vergonha diante dos vizinhos, os prisioneiros que gemem. Um lamenta a casa; o outro, a família que morava nela.
A catástrofe que melhor corresponde ao quadro é a queda de Jerusalém diante de Nabucodonosor, em 587 ou 586 a.C., segundo os diferentes cálculos dos historiadores. O livro dos Reis narra o cerco, a fome, a fuga e a captura do rei Zedequias, a morte dos seus filhos diante dos seus olhos, o incêndio do templo e das casas, a demolição das muralhas e a deportação (2Rs 25.1-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jeremias registra os mesmos fatos (Jr 39.1-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 52.4-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o livro de Lamentações dá voz ao luto da cidade com imagens que o salmo partilha: as crianças desfalecidas nas ruas, os sacerdotes e os anciãos mortos, a zombaria dos que passavam (Lm 2.11-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lm 4.1-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Alguns estudiosos, por outro lado, ligaram o salmo à perseguição de Antíoco IV Epífanes, no século II a.C., quando o templo foi profanado e muitos judeus fiéis foram mortos. O motivo é curioso: o primeiro livro dos Macabeus, ao contar o massacre de um grupo de fiéis chamados assideus, aplica ao episódio as palavras dos vv. 2-3 deste salmo, apresentando-as como algo já escrito. Isso mostra, contudo, o contrário do que parece: se o autor dos Macabeus cita o salmo como Escritura conhecida, o salmo é anterior aos fatos que ele narra. A maioria dos intérpretes prefere a data babilônica, e o paralelo com Lamentações e com Jeremias aponta na mesma direção.
Se a data babilônica estiver certa, a inscrição "de Asafe" não pode indicar o próprio levita do tempo de Davi, que vivera quatro séculos antes. Deve indicar a corporação de cantores que levava o seu nome. Os descendentes de Asafe continuaram servindo depois do exílio: cento e vinte e oito deles voltaram com os primeiros repatriados (Ed 2.41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e estavam presentes, com címbalos, quando os alicerces do novo templo foram lançados (Ed 3.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Gente dessa linhagem viu o santuário cair e cantou a sua queda. O salmo nasce, provavelmente, dentro do mesmo grupo que voltaria para cantar a reconstrução.
Há ainda um paralelo literário importante. Os vv. 6-7 deste salmo aparecem, quase com as mesmas palavras, no fim de uma oração de Jeremias (Jr 10.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não se sabe com certeza quem tomou de quem, ou se os dois beberam de uma fórmula de lamento já usada no culto. O que o paralelo mostra é que este pedido circulava como oração conhecida em Israel, nos anos em torno da queda de Jerusalém.
Por fim, o uso do salmo na fé de Israel. A tradição judaica o associou ao luto pela destruição dos dois templos, e os vv. 6-7 entraram na liturgia da ceia pascal, no momento em que, segundo o costume, se abre a porta da casa. É um dado que convém registrar com sobriedade: o pedido de juízo, que o leitor moderno estranha, foi rezado por gerações de um povo que conhecia de perto o massacre e a humilhação.
📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo
O salmo abre como um relatório entregue ao dono da casa: povos estrangeiros invadiram o que pertence a Deus, contaminaram o seu santuário e deixaram Jerusalém em escombros (v. 1). Os servos e os fiéis de Deus foram mortos, e os seus corpos ficaram expostos, entregues às aves e às feras (v. 2). O sangue deles correu em volta da cidade como se fosse água, e ninguém restou para enterrá-los (v. 3). Os povos vizinhos riem de Israel e fazem dele objeto de escárnio (v. 4).
A queixa vira pergunta: por quanto tempo durará a ira do Senhor? O seu zelo vai continuar queimando como fogo (v. 5)? O orante pede que essa ira se volte contra os povos e os reinos que não conhecem a Deus nem o invocam (v. 6), porque foram eles que consumiram Jacó e arrasaram o lugar onde ele vivia (v. 7).
O tom passa à confissão. O povo pede que Deus não lhe cobre as culpas acumuladas no passado e que a sua compaixão se apresse a socorrê-lo, porque chegou ao extremo da fraqueza (v. 8). Clama ao Deus que o salva por causa da honra do seu nome: que o livre e cubra os seus pecados por amor desse nome (v. 9). Não convém que as nações zombem perguntando pelo paradeiro do Deus de Israel; que elas vejam, diante dos olhos do povo, a justiça de Deus pelo sangue dos seus servos (v. 10).
O orante pede que Deus escute o gemido dos prisioneiros e que, com a força do seu braço, conserve vivos os que estão marcados para morrer (v. 11). Pede também que o desprezo lançado pelos vizinhos contra o Senhor volte sobre eles em medida plena, sete vezes (v. 12). E o salmo se fecha com um voto: o povo, que é o rebanho que Deus apascenta, lhe dará graças sem fim e transmitirá o seu louvor de uma geração a outra (v. 13).
🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)
Versículos 1-4 — A herança profanada e os mortos ao relento
O salmo abre com a palavra 'elohim, ó Deus, seguida de uma notícia que soa como denúncia: ba'u goyim, vieram nações. O lamento não começa por uma descrição neutra, mas por um relatório feito ao dono da casa. E o vocabulário deixa claro de quem é a casa: as nações entraram na naḥalatekha, a tua herança, profanaram o hekhal qodshekha, o teu templo santo, e fizeram de Jerusalém 'iyyim, montes de ruínas. A palavra 'iyyim aparece também no anúncio de Miqueias de que Sião seria arada como campo e Jerusalém viraria um amontoado de escombros (Mq 3.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), profecia que Jeremias recordou um século mais tarde (Jr 26.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmista vê cumprida diante dos olhos a advertência antiga.
A naḥalah, herança, é a palavra da partilha da terra entre as tribos e, mais fundo, a palavra que descreve Israel como propriedade do Senhor (Dt 32.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Dizer que as nações entraram na herança de Deus é dizer que o ataque não foi apenas contra um povo pequeno, mas contra o que Deus chamou de seu. É a primeira de várias vezes em que o salmo põe a honra de Deus no centro da queixa.
O v. 2 é de uma crueza que a poesia não suaviza. Os nivlah, os cadáveres, dos 'avadekha, os teus servos, foram dados como alimento ao 'of hashshamayim, às aves do céu, e a carne dos teus ḥasidim, os teus fiéis, aos animais da terra. A palavra ḥasidim vem de ḥesed, o amor leal da aliança: são os que vivem nesse amor. O texto não diz que os mortos eram todos santos, mas os chama pelo que eram diante de Deus: servos e fiéis dele. No mundo antigo, ficar sem sepultura era uma desgraça que ultrapassava a morte. Entre as maldições da aliança estava justamente essa: o cadáver do povo infiel serviria de comida às aves e aos animais, sem ninguém para espantá-los (Dt 28.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Jeremias repetiu a ameaça mais de uma vez (Jr 7.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 16.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmista vê a maldição realizada. E, no entanto, não chama os mortos de rebeldes; chama-os de servos de Deus. A tensão entre o juízo merecido e a dor pelos fiéis atravessa o salmo inteiro.
O v. 3 acrescenta o sangue, damam, derramado kammayim, como água, ao redor de Jerusalém. A comparação fala de quantidade e de desprezo: o sangue, que na Lei pertencia a Deus (Lv 17.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gn 9.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), correu como água de despejo. E a linha termina com um detalhe que corta: we'en qover, e não havia quem sepultasse. A ausência de sepultura é a última humilhação dos mortos e a ferida mais aberta dos vivos.
O v. 4 passa dos mortos para os sobreviventes. O povo se tornou ḥerpah, opróbrio, afronta, para os shekhenim, os vizinhos, e la'ag waqeles, zombaria e escárnio, para os que estão ao redor. Edom, Moabe e Amom aparecem nos profetas como espectadores satisfeitos da queda de Jerusalém (Ez 25.1-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lm 2.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) usa quase a mesma linguagem para falar de um povo que se tornou provérbio entre as nações (Sl 44.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A vergonha, no mundo antigo, não era um sentimento privado; era a perda pública da honra, e a honra de um povo estava ligada à honra do seu Deus.
Do ponto de vista poético, a perícope avança por pares de linhas que se completam: três ações no v. 1, um díptico sobre os mortos nos vv. 2-3 (os corpos e o sangue), três palavras de vergonha no v. 4. É um relatório de guerra escrito em versos, e por isso mesmo mais pesado.
Versículos 5-7 — A ira que não acaba e as nações sem Deus
A queixa vira pergunta. 'Ad-mah YHWH, até quando, Senhor? A pergunta "até quando" é a assinatura dos lamentos (Sl 13.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 74.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 89.46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hc 1.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e aqui ela vem com duas imagens. A primeira é a ira, te'enaf, que parece não ter fim, lanetsaḥ, para sempre. A segunda é o qin'ah, o zelo ou ciúme de Deus, que arde kemo-'esh, como fogo. O ciúme de Deus não é a mesquinharia humana; é o amor exclusivo de quem fez aliança e não aceita dividir o seu povo com outros deuses (Êx 20.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 4.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ao usar essa palavra, o salmista admite que a catástrofe tem a ver com a infidelidade de Israel: o fogo que queima é o do amor ferido. Mas pergunta se esse fogo não terá limite.
O v. 6 é o primeiro pedido de juízo sobre os inimigos. O verbo shefokh, derrama, é forte: é a imagem de um líquido despejado de uma vez. O orante pede que Deus derrame a sua ḥemah, o seu furor, sobre as goyim que não o conhecem e sobre os mamlakhot, os reinos, que não invocam o seu nome. Há um jogo silencioso com o v. 3: os inimigos derramaram o sangue dos servos de Deus como água; agora o salmista pede que Deus derrame sobre eles o seu furor. O pedido segue a lógica da justiça, não do capricho.
É importante notar como o salmo descreve as nações: não por crueldade ou por raça, mas pela ignorância de Deus e pela ausência de invocação. São povos que não conhecem o Senhor e não o chamam pelo nome. A frase traça uma fronteira teológica: de um lado, o povo que, apesar do pecado, invoca o nome; do outro, os que vivem sem ele. Os profetas, porém, anunciaram o dia em que nações invocariam o nome do Senhor (Sf 3.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 56.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a seção 6 voltará a isso.
O v. 7 justifica o pedido: as nações 'akhal, devoraram, Jacó, e devastaram o seu naweh. A palavra naweh pode significar morada, mas também pastagem, o lugar onde o rebanho descansa (2Sm 7.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 23.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A imagem antecipa o fim do salmo, em que o povo se chama de rebanho do pasto de Deus (v. 13). Os inimigos comportaram-se como feras no aprisco. O nome Jacó, por sua vez, evoca o patriarca e toda a história da eleição: devorar Jacó é atacar a promessa feita aos pais.
Como já se disse, esses dois versos aparecem com pequenas diferenças em Jr 10.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O profeta, que conhecia como ninguém o pecado de Judá, também pediu que Deus derramasse a sua ira sobre as nações que devoravam Jacó. Isso impede uma leitura ingênua do pedido como se fosse desculpa para o pecado do povo: Jeremias o fez logo depois de pedir que Deus o corrigisse com medida (Jr 10.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Juízo merecido sobre Israel e juízo sobre a crueldade dos invasores não se excluem; ambos pertencem ao Deus justo.
Versículos 8-10 — O perdão por amor do nome
O centro do salmo é uma súplica de perdão, e ela é notável. O v. 8 pede: 'al-tizkor-lanu 'awonot ri'shonim, não te lembres contra nós das iniquidades dos primeiros. A expressão é ambígua de propósito. Pode significar as culpas dos antepassados, que se acumularam até o juízo, ou as culpas antigas do próprio povo. As duas leituras se tocam. O livro dos Reis atribui a queda de Jerusalém a uma longa história de infidelidade, especialmente aos pecados de Manassés (2Rs 24.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Lamentações dá voz à mesma percepção: os pais pecaram e já não existem, e os filhos carregam as consequências (Lm 5.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ezequiel advertirá contra o uso fatalista dessa ideia, insistindo que cada geração responde diante de Deus (Ez 18.2-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmo não entra no debate; simplesmente pede que Deus não faça a conta.
E pede depressa: maher yeqaddemunu raḥameikha, que as tuas compaixões venham depressa ao nosso encontro. O verbo qiddem tem o sentido de adiantar-se, de vir ao encontro de alguém, como quem sai da casa para receber um viajante. A palavra raḥamim, compaixões, está ligada a reḥem, o ventre materno: é o amor visceral, o que se move por dentro. O motivo do pedido é a miséria do povo: dallonu me'od, fomos muito abatidos, reduzidos à fraqueza. A raiz dalal descreve o pobre, o que não tem forças. O salmo não alega nenhum mérito; alega a necessidade.
O v. 9 é um dos mais densos de todo o Saltério sobre o perdão. O povo invoca o 'elohe yish'enu, o Deus da nossa salvação, e pede ajuda 'al-devar kevod-shemekha, por causa da glória do teu nome. Em seguida pede duas coisas, livramento e perdão, e repete o motivo: lema'an shemekha, por amor do teu nome. O verbo usado para o perdão é kapper, cobrir, expiar, o mesmo verbo da expiação nos rituais do tabernáculo (Lv 16.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e do Dia da Expiação. É raro nos Salmos com Deus como sujeito direto (cf. Sl 65.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 78.38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O povo não tem sacrifício a oferecer, porque o altar está profanado; pede que o próprio Deus faça a cobertura dos pecados.
A razão alegada é a mais segura de todas. O salmista não diz que o povo merece, nem promete que vai melhorar; diz que o nome de Deus está em jogo. Deus se ligou a Israel diante das nações, e a destruição do povo parece, aos olhos delas, a derrota do seu Deus. Ezequiel desenvolverá esse argumento de maneira explícita: Deus restaurará Israel não por causa de Israel, mas pelo seu santo nome, profanado entre as nações (Ez 36.20-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Moisés já usara o mesmo apelo quando intercedeu pelo povo no deserto (Êx 32.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Nm 14.13-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 10 dá voz a essa preocupação. Lammah, por que diriam as nações: onde está o Deus deles? A pergunta zombeteira volta várias vezes na Escritura (Sl 42.3, 10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 115.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jl 2.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e é sempre uma afronta à fé: se o Deus de Israel existe, por que não age? O orante pede que se torne conhecida entre as nações, diante dos olhos do povo, a niqmat, a vingança, do dam-'avadekha hashshafukh, o sangue derramado dos teus servos.
A palavra vingança precisa ser entendida no seu sentido bíblico. Naqam, na Escritura, não é a explosão de raiva de quem foi ofendido, mas o ato judicial pelo qual a autoridade legítima restabelece a justiça violada. A Lei proibia a vingança pessoal (Lv 19.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e reservava a Deus a vingança definitiva (Dt 32.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O cântico de Moisés termina justamente com a promessa de que Deus vingará o sangue dos seus servos e fará expiação pela sua terra e pelo seu povo (Dt 32.43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmo 79 está pedindo que essa promessa se cumpra. Não pede para pegar em armas; pede que Deus aja, e que a sua ação seja vista. O alvo é a revelação de quem Deus é.
Versículos 11-12 — O gemido dos presos e a afronta devolvida
O v. 11 é dos mais comoventes do salmo. O orante pede que a 'enqat 'asir, o gemido do prisioneiro, chegue diante de Deus. A palavra 'enqah designa o gemido, o lamento sem palavras de quem sofre. O cenário é o dos deportados, amarrados nas colunas de prisioneiros que saíam de Jerusalém para a Babilônia, e dos que esperavam a execução. O pedido é que Deus, kegodel zero'akha, segundo a grandeza do teu braço, hoter, preserve, deixe sobrar, os bene temutah, literalmente os filhos da morte, os condenados a morrer.
O braço de Deus é a imagem do êxodo: o Senhor tirou Israel do Egito com mão forte e braço estendido (Êx 6.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 4.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmista pede um novo êxodo para os prisioneiros. A expressão bene temutah reaparece no Salmo 102 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que celebra o Deus que ouve o gemido dos presos e solta os condenados à morte (Sl 102.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O verbo hoter é o da sobra, do remanescente: o povo pede que Deus conserve uma parte, que nem todos morram. É a teologia do resto, tão cara aos profetas (Is 10.20-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 12 é o segundo pedido de juízo e o mais duro. O orante pede que Deus devolva aos vizinhos shiv'atayim, sete vezes, 'el-ḥeqam, no seu regaço, a afronta com que afrontaram o Senhor. O regaço era a dobra da veste usada como bolsa (Lc 6.38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Sete vezes é número de plenitude: uma retribuição completa, não necessariamente aritmética (Gn 4.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Pv 6.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Dois detalhes impedem que o verso seja lido como mero desejo de vingança. O primeiro está no fim da linha: a afronta que os vizinhos fizeram foi contra 'adonay, contra o Senhor. O orante não está pedindo reparação pela própria honra, mas pela de Deus. O segundo é a palavra usada: ḥerpah, opróbrio, a mesma do v. 4. Os vizinhos zombaram do povo, e com isso zombaram do Deus do povo. O salmista pede que o escárnio volte para quem o lançou. Mesmo assim, o verso é duro, e o leitor cristão não precisa fingir que não é. A seção 6 voltará a ele.
Versículo 13 — O rebanho que promete contar o louvor
O salmo termina com uma virada que é quase uma surpresa. Depois de tanta ruína, o povo se apresenta com um nome terno: 'ammekha wetso'n mar'itekha, o teu povo e o rebanho do teu pasto. A imagem retoma o naweh devastado do v. 7. O pasto foi destruído, mas o rebanho continua sendo de Deus, e o pastor continua sendo ele. A mesma expressão fecha o Salmo 74 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) em forma de pergunta (Sl 74.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e aparece em outros salmos como confissão alegre (Sl 95.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 100.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O voto é duplo: nodeh lekha le'olam, daremos graças a ti para sempre, e ledor wador nesapper tehillatekha, de geração em geração contaremos o teu louvor. O verbo sapper, contar, narrar, é o mesmo que fecha o Salmo 73 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (Sl 73.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O povo que agora só tem cadáveres para enterrar promete ter, um dia, uma história para contar, e uma história que passará de pais para filhos. É a fé que olha para além das ruínas e já começa a ensaiar o cântico da restauração.
Vista no conjunto, a estrutura do salmo é clara. A queixa (vv. 1-4) e o primeiro pedido contra as nações (vv. 5-7) formam a primeira metade; a súplica de perdão por amor do nome (vv. 8-10) é o centro; o segundo pedido, pelos presos e contra os vizinhos (vv. 11-12), espelha o primeiro; e o voto de louvor (v. 13) fecha o poema. O nome de Deus aparece no centro duas vezes (v. 9) e reaparece na pergunta das nações (v. 10): o salmo gira em torno da honra divina.
✨ 4. Versículos-Chave
Sl 79.8-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O coração teológico do salmo. Diante da catástrofe, o povo não apresenta méritos, não discute com Deus a justiça do castigo e não promete compensações; pede que as culpas antigas não sejam cobradas, que a compaixão venha depressa e que Deus cubra os pecados por amor do seu nome. O verbo da expiação, kapper, aparece aqui com Deus como sujeito, sem altar e sem sacrifício, porque o templo está profanado. A tradição cristã leu nesses versos a lógica de toda a graça: o perdão nasce de Deus e se apoia no que ele é. O Novo Testamento usa a mesma razão ao dizer aos crentes que os seus pecados foram perdoados por causa do nome de Cristo (1Jo 2.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Sl 79.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A pergunta das nações e o pedido de que o sangue dos servos seja vingado. O versículo une duas coisas que o leitor moderno costuma separar: a honra de Deus e a justiça devida às vítimas. As nações zombam da aparente ausência de Deus; o orante pede que Deus se mostre fazendo justiça. O Apocalipse retoma a mesma súplica na boca dos mártires, que perguntam até quando o Senhor deixará de julgar e de vingar o sangue deles (Ap 6.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e celebra mais tarde o juízo que vinga o sangue dos servos de Deus (Ap 19.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O clamor por justiça não foi abolido; foi entregue a Deus.
Sl 79.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O fim inesperado. Do meio das ruínas, o povo se chama rebanho do pasto de Deus e promete contar o seu louvor de geração em geração. A esperança não está nas muralhas, que caíram, mas no pastor, que permanece. Jesus olhou para as multidões abatidas e dispersas, como rebanho sem quem o guiasse, e se compadeceu delas (Mt 9.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e apresentou-se como o pastor que conhece as suas ovelhas e dá a vida por elas (Jo 10.14-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
⛪ 5. Temas Teológicos Centrais
A honra do nome de Deus. O argumento mais forte do salmo não é a dor do povo, mas o nome de Deus. A herança é dele (v. 1), os servos são dele (v. 2), o zelo é dele (v. 5), o nome é dele (vv. 6, 9), a afronta foi contra ele (v. 12). O salmista entende que a sorte de Israel está ligada à reputação de Deus no mundo, e por isso apela a essa reputação. Essa é uma das linhas mais profundas da teologia bíblica. Deus age por amor do seu nome no êxodo (Ez 20.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), no exílio (Ez 36.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e na restauração (Is 48.9-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus ensinou os discípulos a começar a oração pedindo que o nome do Pai seja santificado (Mt 6.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), antes de qualquer pedido de pão ou de perdão. E, na véspera da cruz, orou para que o Pai glorificasse o seu nome (Jo 12.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O perdão que não se apoia em mérito. O povo do Salmo 79 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) sabe que pecou. Não protesta inocência, como fazem outros lamentos (Sl 44.17-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); pede perdão. E o perdão é pedido sem condições, apoiado apenas na compaixão de Deus e no seu nome. É a mesma lógica da oração de Daniel, feita no fim do exílio, que pede misericórdia não por causa das justiças do povo, mas por causa das grandes compaixões de Deus e por amor do seu nome (Dn 9.18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A expiação, que a Lei ligava ao altar, aqui é pedida diretamente a Deus. A Escritura caminha, assim, para o ponto em que Deus mesmo providenciará a expiação, de uma vez por todas, em Cristo (Rm 3.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 9.11-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O clamor por justiça entregue a Deus. O salmo pede a ira de Deus sobre as nações (v. 6), a vingança do sangue (v. 10) e a afronta devolvida sete vezes (v. 12). São pedidos que incomodam, e é bom que incomodem. Mas é preciso ver o que eles são e o que não são. São o clamor de vítimas de massacre, que não têm mais nenhum poder, e que entregam a causa a Deus em vez de fazer justiça com as próprias mãos. São orações, não planos de ação. A Escritura inteira reserva a Deus a vingança (Dt 32.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Rm 12.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o salmista faz exatamente isso. O Novo Testamento não apaga esse clamor, como mostra o grito dos mártires no Apocalipse (Ap 6.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas o situa à luz da cruz, onde a justiça de Deus foi satisfeita, e do mandamento de Jesus de querer o bem dos inimigos e interceder pelos perseguidores (Mt 5.44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A sepultura e a dignidade dos mortos. O detalhe dos corpos sem sepultura (vv. 2-3) não é acessório. A Escritura trata os mortos com respeito: Abraão compra um túmulo para Sara (Gn 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), Rispa protege os corpos dos filhos contra as aves e as feras durante meses (2Sm 21.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e os homens de Jabes arriscam a vida para resgatar o corpo de Saul (1Sm 31.11-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O cuidado com os mortos é expressão da esperança de que o corpo humano importa para Deus. O salmo chora a profanação dessa dignidade, e o Novo Testamento a restaura na sepultura de Jesus e na promessa da ressurreição do corpo.
✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo
6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?
O Salmo 79 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) está no ponto mais baixo da Redenção em andamento no Antigo Testamento. A terra prometida foi invadida, o templo profanado, a cidade de Davi arrasada, o povo morto ou levado. Do ponto de vista humano, as promessas a Abraão e a Davi parecem ter fracassado. O salmo mostra as duas faces da Queda: a crueldade das nações, que derramam sangue como água, e o pecado do próprio povo, que precisa de expiação. Mas a oração não desiste da aliança: apela ao nome de Deus, à sua compaixão e ao rebanho que é dele. Na Redenção consumada, Cristo carrega o juízo merecido pelo pecado do povo e se torna, ele mesmo, a expiação que o salmista pedia sem altar. Na Nova Criação, a cidade santa desce do céu, nada impuro entra nela, e Deus seca o pranto do seu povo (Ap 21.2-4, 27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); ali, o voto do v. 13, de louvor para sempre, se torna a condição permanente do rebanho.
6.2 — Cristo, que chorou sobre Jerusalém e anunciou a sua ruína
Jesus conhecia o Salmo 79 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e conhecia a história que ele lamenta. Ao se aproximar de Jerusalém, chorou sobre a cidade e anunciou que dias viriam em que os inimigos a cercariam e a arrasariam por completo, porque ela não reconheceu o tempo em que foi visitada (Lc 19.41-44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No discurso sobre o fim, disse que Jerusalém seria pisada pelas nações até que se completassem os tempos delas (Lc 21.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), linguagem que lembra de perto o v. 1, em que as nações entram na herança de Deus. E lamentou a cidade que matava os profetas, desejando abrigá-la com o cuidado de uma ave que protege a ninhada, sem que ela o quisesse (Mt 23.37-38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Jesus, portanto, se coloca na linha dos que choraram Jerusalém. O choro de Asafe e de Jeremias continua no choro do Filho. Mas há uma diferença decisiva: Jesus não apenas chora a ruína; ele a carrega. A cidade que rejeitou o seu Messias seria destruída, e o próprio Messias seria morto fora dos muros dela. Ele entrou na história do juízo que o Salmo 79 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) lamenta e a levou até o fundo.
6.3 — Cristo, a expiação que o salmista pedia sem altar
O v. 9 pede que Deus cubra os pecados do povo por amor do seu nome. No momento em que o salmo foi escrito, o altar estava profanado, e não havia como oferecer os sacrifícios que a Lei previa. O pedido, por isso, é que o próprio Deus faça o que o culto já não podia fazer.
O Novo Testamento anuncia que foi exatamente isso que Deus fez em Cristo. Paulo diz que Deus expôs Jesus à vista de todos como o lugar da expiação, pelo seu sangue, recebido pela fé, e que assim demonstrou a sua justiça (Rm 3.25-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A palavra usada, hilastērion, é a mesma que a antiga tradução grega usa para a tampa da arca, onde o sangue era aspergido no Dia da Expiação. Hebreus explica que Cristo entrou uma só vez no santuário, levando não o sangue de animais, mas o seu, e conquistou um resgate que não tem fim (Hb 9.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E João diz aos crentes que os seus pecados estão perdoados por causa do nome dele (1Jo 2.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que o povo pedia no meio das ruínas, sem altar e sem sacerdote, Deus o deu pela entrega do Filho.
Há ainda uma ligação mais funda com o v. 8, que pede que Deus não se lembre das iniquidades antigas. A nova aliança prometida por Jeremias, contemporâneo deste salmo, termina com a promessa de que Deus perdoará o seu povo e apagará da memória as culpas dele (Jr 31.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Hebreus cita essa promessa e a aplica ao sacrifício de Cristo (Hb 8.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 10.17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O pedido do Salmo 79 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é respondido pela nova aliança no sangue de Jesus.
6.4 — O sangue dos servos e o sangue que fala melhor
O v. 10 pede a vingança do sangue derramado dos servos de Deus. A Escritura conhece o clamor do sangue desde o começo: o sangue de Abel clama da terra (Gn 4.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus recordou esse clamor quando falou de todo o sangue justo derramado sobre a terra, do sangue de Abel ao de Zacarias, assassinado entre o santuário e o altar (Mt 23.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Hebreus põe lado a lado o sangue de Abel e o sangue aspergido de Jesus: ambos têm voz, mas a do segundo diz algo superior (Hb 12.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O sangue de Abel pedia justiça; o de Cristo também a revela, porque nele o pecado foi julgado, mas acrescenta o que o de Abel não podia dar: perdão. Na cruz, Jesus intercedeu pelos que o crucificavam, alegando diante do Pai a ignorância deles (Lc 23.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Estêvão, o primeiro mártir, morreu pedindo que Deus não cobrasse aquele pecado dos seus assassinos (At 7.60 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Isso não quer dizer que o pedido do salmo estava errado e foi corrigido. Quer dizer que ele foi atendido de um modo que o salmista não podia imaginar. O juízo de Deus sobre o mal é real, e o Apocalipse mostra que ele virá (Ap 6.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 19.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas o mesmo Deus abriu, na cruz, uma porta para que os inimigos se tornem filhos. O cristão pode rezar o Salmo 79 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), entregando a Deus o clamor das vítimas, sem deixar de querer o bem dos inimigos e de interceder por eles (Mt 5.44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Rm 12.19-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As duas coisas cabem na mesma oração, porque cabem na cruz.
As nações que não conhecem a Deus e não invocam o seu nome (v. 6) ganham também um novo horizonte. Paulo lembra aos gentios que eles viviam longe de Cristo, estranhos às alianças, privados de esperança e afastados de Deus, e que o sangue de Cristo os trouxe para perto (Ef 2.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os reinos que devoraram Jacó são, no evangelho, chamados a invocar o nome do Senhor e ser salvos (Rm 10.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O juízo pedido pelo salmo permanece para os que endurecem o coração, mas a porta da graça se abriu para todos.
6.5 — O Evangelho no capítulo
O Salmo 79 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) prega o evangelho a quem está no meio da ruína. Pode ser a ruína causada pela crueldade dos outros, pode ser a causada pelo próprio pecado, e muitas vezes são as duas juntas, como no salmo. Pregá-lo cristocentricamente é, primeiro, não esconder o horror: os cadáveres, o sangue, a vergonha. Depois, é mostrar que o caminho de saída não passa por méritos nem por promessas, mas pelo nome de Deus. O pecador não tem nada a oferecer; pode apenas pedir que Deus o cubra por amor do seu nome. E o evangelho anuncia que Deus o fez em Jesus Cristo, que derramou o próprio sangue para expiar os pecados do seu povo e foi sepultado num túmulo que não era seu, ele que, em vida, não tivera casa própria onde descansar.
A sepultura de Jesus merece uma palavra. Os servos de Deus do Salmo 79 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ficaram sem quem os enterrasse. Jesus, condenado como malfeitor, teve o corpo pedido a Pilatos por José de Arimateia e colocado num túmulo novo (Mt 27.57-60 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), como Isaías previra que o servo sofredor seria sepultado junto a um rico (Is 53.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o túmulo ficou vazio ao terceiro dia. Por causa disso, os mortos que ficaram sem sepultura na Jerusalém arrasada, e todos os que morreram no Senhor, não estão esquecidos: Deus guarda os seus corpos para a ressurreição.
🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)
- Sl 74 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lm 1–5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o lamento irmão pelo santuário incendiado e o livro inteiro de lamentos pela queda de Jerusalém, com imagens partilhadas.
- 2Rs 25.1-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 39.1-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 52.4-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o relato histórico do cerco e da destruição da cidade.
- Jr 10.24-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o paralelo quase literal dos vv. 6-7, logo depois de um pedido de correção com medida.
- Dt 28.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 7.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a maldição dos corpos sem sepultura, que o salmo vê cumprida.
- Dt 32.35, 43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a vingança reservada a Deus e a promessa de que ele vingará o sangue dos seus servos.
- Ez 36.20-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dn 9.18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a restauração por amor do nome de Deus e a oração que apela às suas compaixões, não aos méritos do povo.
- Jr 31.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 8.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 10.17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a nova aliança, em que Deus não se lembra mais dos pecados, cumprida no sacrifício de Cristo.
- Lc 19.41-44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 21.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 23.37-38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus que chora Jerusalém e anuncia a sua queda diante das nações.
- Ap 6.9-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 19.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — os mártires que perguntam até quando e o juízo que vinga o sangue dos servos de Deus.
- Na história da fé, o salmo foi rezado pelo povo judeu no luto pelos templos destruídos, e a Igreja o rezou em tempos de perseguição e de guerra, sempre como oração dos que só têm o nome de Deus para invocar.
🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico
Leve a Deus a dor inteira, sem embelezá-la. O salmo descreve cadáveres, sangue e escárnio com uma franqueza que choca. Diante de Deus, pode-se dizer exatamente o que aconteceu. Quem passa por luto, por violência ou pela destruição do que amava não precisa fingir serenidade. Cristo, que chorou diante do túmulo de Lázaro (Jo 11.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e sobre Jerusalém, recebe essa oração.
Peça perdão sem negociar. O povo não oferece nada em troca do perdão; pede que Deus o conceda por amor do seu nome. Muitos cristãos, mesmo sabendo da graça, continuam tentando pagar o próprio perdão com promessas, sacrifícios e esforços. O salmo ensina a oração mais simples e mais difícil: reconhecer a culpa e descansar no nome de Deus, que em Cristo já providenciou a expiação.
Entregue a justiça a Deus. O mundo continua cheio de sangue derramado como água, e os cristãos não são chamados a fingir que não veem. O salmo ensina a transformar a indignação em oração, e não em vingança. Pedir que Deus faça justiça é um ato de fé: significa crer que ele vê e que agirá. E, à luz da cruz, essa oração pode conviver com o pedido de que os opressores se arrependam e sejam salvos, como Paulo, que antes perseguia a Igreja (1Tm 1.13-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Cuide da dignidade dos mortos e dos que choram. A dor do salmista pelos corpos sem sepultura lembra que a morte de cada pessoa importa para Deus. Acompanhar famílias enlutadas, honrar a memória dos que morreram, lutar para que vítimas de violência não sejam esquecidas: tudo isso é fruto da esperança cristã na ressurreição do corpo. Cristo foi sepultado e ressuscitou; por isso o cristão não trata os mortos como coisa descartável.
🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo
- Compare o Salmo 79 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) com o Salmo 74 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Um olha mais para o edifício; o outro, mais para as pessoas. O que cada um ensina sobre o modo de lamentar diante de Deus?
- O salmo chama de servos e fiéis de Deus os mortos de uma cidade que caiu sob juízo (v. 2). Como manter juntas a consciência do pecado coletivo e a compaixão pelas vítimas?
- Por que o salmista apela ao nome de Deus, e não aos méritos do povo, ao pedir perdão (v. 9)? Como Cristo responde a esse pedido (Rm 3.25-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Jo 2.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))?
- Como o cristão pode rezar os pedidos de juízo dos vv. 6, 10 e 12 à luz de Rm 12.19-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Lc 23.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Ap 6.9-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)?
- O salmo termina com louvor (v. 13), mas nada mudou nos fatos. O que permite ao povo fazer esse voto no meio das ruínas?
- Para meditação e oração: pense numa ruína da sua vida ou do mundo à sua volta. Apresente-a a Deus com as palavras do v. 8 e do v. 9, pedindo que ele a cubra por amor do nome de Cristo.
📚 10. Para Aprofundamento
Cristocêntrica / Teologia Bíblica:
- Sidney Greidanus — Preaching Christ from the Old Testament (Eerdmans, 1999)
- Christopher J. H. Wright — Conhecendo Jesus através do Antigo Testamento (Ultimato) / Knowing Jesus Through the Old Testament (IVP, 1992)
- Dietrich Bonhoeffer — Orando com os Salmos (sobre os salmos de vingança rezados à luz da cruz)
- John N. Day — Crying for Justice: What the Psalms Teach Us About Mercy and Vengeance in an Age of Terrorism (Kregel, 2005)
Comentários dos Salmos:
- Derek Kidner — Salmos 73–150 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
- Marvin E. Tate — Psalms 51–100 (Word Biblical Commentary, 1990)
- Nancy deClaissé-Walford, Rolf A. Jacobson e Beth LaNeel Tanner — The Book of Psalms (NICOT, Eerdmans, 2014)
- Frank-Lothar Hossfeld e Erich Zenger — Psalms 2: A Commentary on Psalms 51–100 (Hermeneia, Fortress, 2005)
- Agostinho — Comentário aos Salmos (Paulus, coleção Patrística)
Sabedoria para o Cotidiano
Há dias em que só se tem ruínas para mostrar a Deus, e o Salmo 79 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ensina a mostrá-las inteiras, sem enfeite, e a pedir o que não se pode merecer: que ele cubra os pecados por amor do seu nome. Em Cristo, esse pedido já foi atendido, porque o sangue dele fala de justiça e de perdão ao mesmo tempo. Entregue a Deus a causa das vítimas, recuse a vingança com as próprias mãos e continue contando aos que vêm depois que o pastor não abandonou o seu rebanho, nem mesmo entre os escombros.
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