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Salmos · 19 de 66 · Antigo Testamento

Salmos — Capítulo 88

Infográfico de “Salmos 88 — Capítulo a capítulo”, gerado automaticamente a partir do estudo publicado, com 6 partes: O clamor ao Deus da salvação; À beira da cova, debaixo das ondas; Isolado e de mãos estendidas; As perguntas sobre os mortos; A oração da manhã e o rosto escondido; Os terrores de Deus e a companhia das trevas.

Título do capítulo: A oração que termina nas trevas
Gênero literário: Poesia/Salmo (lamento individual de um homem doente e isolado, à beira da morte; o único salmo de súplica que não chega a nenhuma virada de confiança ou de louvor, e termina com a palavra "trevas")
Número de versículos: 18

Nota de precisão: a inscrição é longa (um cântico, salmo dos filhos de Corá, ao regente do coro, sobre maḥalat le'annot, masquil de Hemã, o ezraíta) e, nas Bíblias em português, não é contada como versículo; no hebraico impresso ela forma o primeiro versículo, de modo que ali a numeração fica um número à frente da das Bíblias em português. Na antiga tradução grega, que junta os Salmos 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 10, este é o salmo oitenta e sete. O texto tem algumas palavras raras e de sentido incerto, sobretudo nos vv. 5, 15 e 18; quando isso afeta o sentido, o estudo indica as possibilidades.

Uma palavra pastoral: este salmo dá voz à angústia de quem se sente abandonado por Deus e pelas pessoas, e perto da morte. Se você está vivendo algo parecido, não fique sozinho: procure hoje mesmo uma pessoa de confiança, a sua igreja, um profissional de saúde. No Brasil, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, a qualquer hora.


🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural

O Salmo 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é a oração mais escura do Saltério. Quase todos os lamentos dos Salmos, mesmo os mais dolorosos, fazem em algum momento uma curva: o orante se lembra da fidelidade de Deus, declara a sua confiança, promete louvar, ou registra que foi ouvido. O Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) desce ao abandono e sobe ao louvor da grande assembleia (Sl 22.22-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o Salmo 13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) pergunta até quando e termina cantando (Sl 13.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o Salmo 77 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) se lembra das obras antigas do Senhor (Sl 77.11-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não faz essa curva. Começa com o orante clamando ao Deus da sua salvação e termina com a palavra maḥshakh, trevas, lugar escuro. Entre o começo e o fim, não há resposta.

Ele está no terceiro livro do Saltério (Sl 73–89 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o mais sombrio dos cinco, que reúne lamentos pela destruição do santuário (Sl 74 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), pela ruína de Jerusalém (Sl 79 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e pela aparente quebra das promessas a Davi (Sl 89.38-51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) dá a esse conjunto a sua nota mais funda, mas pessoal: não fala da nação, nem do templo, nem do rei, e sim de um homem doente, isolado e cercado pela morte.

A inscrição é das mais carregadas do livro, e tem uma peculiaridade: atribui o salmo, ao mesmo tempo, aos filhos de Corá, a família de levitas cantores responsável por outros salmos deste livro (Sl 84 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 85; 87), e a Hemã, o ezraíta. As duas indicações podem se harmonizar. As Crônicas mencionam um Hemã, levita, cantor, descendente de Coate e de Corá (1Cr 6.33-38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), um dos três chefes da música do templo no tempo de Davi, ao lado de Asafe e de Etã ou Jedutum (1Cr 15.17-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Cr 25.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); ali ele é chamado vidente do rei, e o texto registra que Deus lhe deu catorze filhos e três filhas (1Cr 25.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Há também um Hemã mencionado entre os sábios cuja fama a sabedoria de Salomão superou (1Rs 4.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e um Hemã na genealogia de Zerá, de Judá (1Cr 2.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O termo "ezraíta" talvez signifique "da família de Zerá", mas o sentido é discutido, e não se sabe com segurança se o Hemã levita e o Hemã sábio são a mesma pessoa. O Salmo 89 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que vem em seguida, é atribuído a Etã, também chamado ezraíta. O que se pode dizer com prudência é que a tradição ligou este salmo a um homem conhecido pela sabedoria e pelo serviço no culto. Se for o cantor das Crônicas, a lição é forte: o homem que conduzia o louvor no templo e que era lembrado como pai de uma família numerosa conheceu também esta noite.

Os termos técnicos da inscrição são obscuros. Maḥalat, que aparece também no título do Salmo 53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), pode ser o nome de uma melodia ou de um instrumento; alguns o ligam à raiz de "doença". Le'annot pode significar "para cantar" ou "para afligir, humilhar". Daí as propostas de tradução como "sobre a doença, para humilhar", que caberiam bem no conteúdo do salmo, mas que não passam de hipóteses. Maskil, palavra que encabeça treze salmos, vem de uma raiz ligada ao entendimento e à prudência, e é muitas vezes entendida como "poema de instrução" ou "poema hábil". Há algo de surpreendente em que a oração mais desolada do Saltério seja chamada de masquil: como se também ela tivesse algo a ensinar.

O salmo não diz qual era a doença do orante, e é melhor não inventá-la. Ele fala de uma aflição que vem desde a juventude (v. 15), de um isolamento que o afastou dos conhecidos (vv. 8 e 18), de uma sensação de prisão (v. 8). Alguns comentaristas pensaram numa doença de pele que obrigava ao isolamento, como a lepra dos tempos bíblicos; outros, numa enfermidade crônica qualquer. O texto deixa a pergunta em aberto, e talvez por isso tenha servido, ao longo dos séculos, de oração para tantos tipos de sofrimento prolongado: doenças crônicas, depressão, luto, solidão.

Na tradição cristã, o salmo foi associado à Paixão de Cristo. Na Liturgia das Horas da Igreja Católica, ele é rezado na oração da noite de sexta-feira, o dia que recorda a morte do Senhor, e muitos intérpretes, desde os pais da Igreja, ouviram nele a voz de Jesus no sepulcro.


📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo

O orante se dirige ao Senhor, Deus da sua salvação, contando que clama dia e noite diante dele (v. 1). Pede que a sua oração chegue à presença de Deus e que Deus incline o ouvido ao seu clamor (v. 2).

Ele descreve o seu estado. A sua alma está saturada de males, e a vida já encosta no Sheol (v. 3). Os outros o contam entre os que descem à cova; ele é como um homem sem forças (v. 4). Está largado entre os mortos, como os que tombaram e jazem na sepultura, de quem Deus já não se lembra e que foram separados da sua mão (v. 5). Deus o pôs na cova mais funda, em lugares escuros, nas profundezas (v. 6). A ira de Deus pesa sobre ele, e todas as ondas de Deus o afogam (v. 7).

Deus afastou dele os conhecidos e o tornou repugnante aos olhos deles; ele está preso e não consegue sair (v. 8). Os olhos se apagam de tanta aflição; todo dia ele invoca o Senhor e estende as mãos para ele (v. 9).

Então o orante faz perguntas. Deus fará maravilhas para os mortos? As sombras dos mortos se levantarão para louvá-lo (v. 10)? O amor leal de Deus será anunciado no sepulcro, e a sua fidelidade no lugar da destruição (v. 11)? As maravilhas de Deus serão conhecidas nas trevas, e a sua justiça na terra do esquecimento (v. 12)?

O orante insiste: ele clama ao Senhor, e de manhã a sua oração vai ao encontro de Deus (v. 13). Pergunta por que o Senhor rejeita a sua vida e esconde dele o rosto (v. 14). Desde a juventude ele está aflito e perto da morte; carrega os terrores de Deus e não sabe mais o que fazer (v. 15). O furor de Deus passou por cima dele, e os terrores divinos o destroem (v. 16); cercam-no como águas o dia todo, envolvem-no por todos os lados (v. 17). Deus afastou dele o amigo e o companheiro; a sua companhia são as trevas (v. 18).


🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)

O salmo se organiza em torno de três apelos, cada um marcado pelo nome do Senhor e por uma indicação de tempo: dia e noite (v. 1), todo dia (v. 9), de manhã (v. 13). Depois de cada apelo vem uma descrição do sofrimento. O efeito é o de uma oração que recomeça sempre, sem nunca chegar ao fim do túnel. O vocabulário da morte domina o poema: Sheol, cova, sepultura, mortos, sombras, lugar da destruição, terra do esquecimento, trevas. Duas vezes aparece o selá (vv. 7 e 10), talvez uma pausa musical, que aqui soa como um silêncio pesado. O paralelismo é em geral sinonímico, acumulando imagens da mesma realidade, como ondas que chegam uma atrás da outra.

Versículos 1-2 — O clamor ao Deus da salvação

O salmo abre com a única nota de luz explícita de todo o poema: o orante chama o Senhor de 'elohe yeshu'ati, Deus da minha salvação. É pouco, mas não é nada. No meio de tudo o que dirá, ele não abandona esse título. Continua falando com Deus, e com o Deus que ele chama de seu salvador. A fé, aqui, não aparece como sentimento de confiança, mas como persistência em dirigir-se a Deus.

O clamor é contínuo: de dia ele grita, tsa'aqti, e de noite está diante de Deus. A oração não tem horário; ocupa as horas em que se trabalha e as horas em que se deveria dormir. Quem conhece a insônia da dor reconhece a cena.

O v. 2 pede duas coisas: que a tefillah, a oração, chegue diante de Deus, e que Deus incline o ouvido à rinnah, palavra que costuma designar o grito de júbilo, mas aqui o grito de súplica. O orante não pede, por enquanto, cura ou livramento; pede apenas para ser ouvido. Há sofrimentos em que o primeiro desejo não é que a dor passe, mas que alguém a escute.

Versículos 3-7 — À beira da cova, debaixo das ondas

A primeira descrição do sofrimento começa com uma imagem de saturação: a nefesh, a vida, está save'ah, farta, saciada de males. A mesma palavra é usada para quem comeu até não caber mais. E a vida, ḥayyim, lish'ol higgi'u, chegou ao Sheol, encostou na morada dos mortos. No pensamento do Antigo Testamento, o Sheol não é ainda o inferno da teologia posterior, mas o lugar sombrio para onde descem todos os mortos, bons e maus, onde a vida se reduz a uma existência apagada (Jó 10.21-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ec 9.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O orante ainda respira, mas sente que já está na fronteira.

O v. 4 descreve como os outros o veem: neḥshavti 'im-yorde vor, fui contado entre os que descem à cova. As pessoas já o tratam como um caso perdido, alguém cuja morte é questão de tempo. E ele se sente kegever 'en-'eyal, como um homem, um varão, gever (palavra que sugere força e vigor), sem força alguma. A contradição é proposital: um homem forte sem forças.

O v. 5 é dos mais difíceis. O orante se diz bammetim ḥofshi, literalmente "entre os mortos, livre". A palavra ḥofshi é a do escravo libertado (Êx 21.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e é a mesma que designa a casa onde o rei Uzias, leproso, viveu isolado até a morte (2Rs 15.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Cr 26.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pode significar que ele foi dispensado da vida, como um escravo dispensado do serviço, ou que está largado, separado, à parte. Em qualquer leitura, a imagem é de abandono. Ele é como os ḥalalim, os mortos traspassados, caídos em batalha, que jazem na sepultura comum; e, o que é mais grave, como aqueles de quem Deus não se lembra mais e que foram miyyadekha nigzaru, cortados da tua mão. A maior dor não é a morte física; é a sensação de ter sido apagado da memória de Deus.

O v. 6 atribui a Deus a situação: shattani, tu me puseste, na bor taḥtiyyot, a cova mais profunda, em maḥashakkim, lugares tenebrosos, em metsolot, profundezas, palavra usada para o fundo do mar (Êx 15.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jn 2.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O orante não diz que o acaso ou os inimigos o puseram ali. Diz que foi Deus. Isso é, ao mesmo tempo, o mais duro e o mais teológico do salmo: ele não tira Deus da sua dor.

O v. 7 completa: a ira de Deus, ḥamatekha, samekhah, apoiou-se, pesou sobre ele; e Deus o afligiu com todos os seus mishbarim, as vagas que arrebentam. A imagem do mar aparece também no Salmo 42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), quando o orante sente as ondas de Deus passarem sobre ele (Sl 42.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e na oração de Jonas no ventre do peixe (Jn 2.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O orante não sabe por que Deus está irado. Não há confissão de pecado no salmo, ao contrário dos salmos penitenciais. Ele apenas sente o peso. E vem o primeiro selá: o silêncio depois da onda.

Versículos 8-9 — Isolado e de mãos estendidas

O v. 8 acrescenta uma dor que muitos sofredores conhecem: a solidão. Deus hirḥaqta, afastou, os meyuddaʿay, os conhecidos, os íntimos, do orante. Fez dele to'evot, uma abominação, algo repugnante, para eles. A palavra é forte: é a que se usa para aquilo que causa aversão. As pessoas evitam o doente, talvez por medo de contágio, talvez por desconforto diante do sofrimento, talvez por uma teologia que via na doença um castigo. O livro de Jó descreve o mesmo abandono: os parentes se afastam, os hóspedes o tratam como estranho, até o hálito causa repulsa (Jó 19.13-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o orante acrescenta: kalu' welo' 'etse', estou encerrado e não saio. Pode ser a prisão literal de uma quarentena, pode ser a prisão de uma condição que não tem saída. Muitos que vivem uma depressão profunda descrevem exatamente essa sensação.

O v. 9 retoma o apelo. Os olhos, 'eni, da'avah, definham, se apagam, minni 'oni, de aflição. Os olhos cansados de chorar e de não dormir são uma imagem frequente nos lamentos (Sl 6.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 31.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E, no entanto, ele continua: qera'tikha yhwh bekhol-yom, clamo a ti, Senhor, todo dia, e estende as palmas das mãos, o gesto da oração e da súplica. As mãos estendidas são a figura do salmo inteiro: um homem que não recebe nada e continua com as mãos abertas.

Versículos 10-12 — As perguntas sobre os mortos

No centro do salmo há uma série de seis perguntas retóricas, organizadas em três pares. Todas esperam a resposta "não". Deus fará pele', maravilha, para os metim, os mortos? Os refa'im, as sombras, os mortos enfraquecidos que habitam o Sheol (Is 14.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 26.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), se levantarão para louvar a Deus? (v. 10). O segundo selá marca esse ponto. O amor leal de Deus, ḥasdekha, será contado no qever, sepulcro, e a sua fidelidade, 'emunatekha, no 'abaddon, o lugar da destruição? (v. 11). As maravilhas de Deus serão conhecidas no ḥoshekh, nas trevas, e a sua justiça, tsidqatekha, na 'erets neshiyyah, a terra do esquecimento? (v. 12).

As perguntas não são especulação teórica sobre a vida depois da morte. São um argumento de oração, comum em outros salmos e em outros orantes do Antigo Testamento (Sl 6.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 30.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 115.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 38.18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O raciocínio é este: se eu morrer, deixarei de te louvar; o louvor acontece entre os vivos, no meio da assembleia; deixar-me morrer seria diminuir o número dos que proclamam o teu amor. O orante usa a própria glória de Deus como razão para ser salvo.

Há uma lista teológica preciosa nesses versículos: maravilhas, amor leal, fidelidade, justiça. São os grandes atributos que Israel celebrava no culto. O orante conhece bem esse vocabulário, provavelmente o cantou muitas vezes. E é exatamente a ausência dessas realidades que ele sente agora. Ele não deixou de crer que Deus é fiel e justo; ele sofre porque não vê essa fidelidade e essa justiça na própria vida.

Para o leitor cristão, essas perguntas têm uma ironia santa. O orante espera a resposta "não". A ressurreição de Cristo responderá "sim": Deus fará maravilhas para os mortos, e o seu amor leal será anunciado a partir de um sepulcro. Mas o salmo não sabe disso, e é importante deixá-lo dizer o que diz.

Versículos 13-14 — A oração da manhã e o rosto escondido

O terceiro apelo começa com wa'ani, mas eu, quanto a mim. Apesar de tudo, ele clama ao Senhor, shiwwa'ti, grito por socorro. E babboqer, de manhã, tefillati teqaddemekka, a minha oração vai à tua frente, chega antes de ti, te espera. A manhã, nos salmos, é muitas vezes o tempo da resposta de Deus, do livramento depois da noite (Sl 30.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 46.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 143.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O orante se levanta cedo para orar, esperando que este seja o dia. A imagem da oração que "vai ao encontro" de Deus sugere alguém que sai de casa de madrugada para esperar um visitante à porta.

O v. 14 traz as duas perguntas mais pungentes do salmo, introduzidas por lamah, por quê. Por que, Senhor, tiznaḥ, rejeitas, repeles a minha alma? Por que tastir panekha, escondes de mim o teu rosto? O rosto de Deus é, no Antigo Testamento, a presença, o favor, a bênção (Nm 6.25-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ter o rosto escondido é o maior desamparo. O mesmo lamento aparece em outros salmos (Sl 13.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 44.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 27.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O orante não acusa Deus de não existir; pergunta por que Deus, que existe e que ele chama de salvador, se esconde.

Versículos 15-18 — Os terrores de Deus e a companhia das trevas

O v. 15 abre uma janela para a história do orante: ele é 'ani, aflito, e gowea', moribundo, minno'ar, desde a juventude. O sofrimento não é recente: é a companhia de uma vida inteira. Ele carrega os 'emekha, os terrores que vêm de Deus, e diz 'afunah, palavra que só aparece aqui e cujo sentido é incerto: talvez "estou perplexo", "estou desamparado", "desfaleço". A própria obscuridade da palavra combina com o estado de quem já não sabe dar nome ao que sente.

O v. 16 volta às imagens de violência: o ḥaron, o ardor da ira de Deus, 'averu, passou por cima dele, como uma enchente; e os bi'utekha, os teus terrores, tsimmetutuni, me destruíram, me reduziram ao silêncio. O v. 17 retoma a imagem das águas: os terrores o cercam kammayim, como águas, o dia inteiro; hiqqifu 'alay yaḥad, juntos, me envolvem. É a sensação de afogamento, de não ter para onde fugir.

O v. 18 fecha o salmo voltando ao isolamento do v. 8: Deus afastou dele 'ohev wa-rea', quem o amava e o companheiro. E a última linha diz, literalmente, meyudda'ay maḥshakh: "os meus conhecidos, trevas". Pode significar que os seus conhecidos estão nas trevas, longe, inacessíveis; ou, como muitos preferem, que as trevas se tornaram a sua única companheira, a única "conhecida" que lhe restou. Em qualquer leitura, o salmo termina ali. A última palavra é escuridão.

Não há virada. Não há promessa de louvor. Não há registro de resposta. O salmo termina como uma porta que se fecha, e o leitor fica do lado de fora, no escuro, com o orante.


✨ 4. Versículos-Chave

Sl 88.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O título com que o orante invoca o Senhor, o Deus que o salva, é o fio de fé que atravessa o salmo inteiro. Tudo o que vem depois é escuro, mas o orante começa assim e continua falando com esse Deus até o fim. A fé, aqui, não é uma emoção de confiança, mas a decisão de continuar se dirigindo a Deus quando nada responde. Para a tradição cristã, esse versículo ensina que orar no escuro já é um ato de fé.

Sl 88.10-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — As perguntas sobre os mortos. O orante espera que a resposta seja negativa: os mortos não louvam, o amor de Deus não é anunciado no sepulcro. A ressurreição de Cristo virou essas perguntas do avesso. No sepulcro vazio, as maravilhas de Deus foram feitas para um morto, e desde então o amor leal de Deus é anunciado justamente a partir de uma sepultura (At 2.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Co 15.54-57 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Sl 88.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A pergunta do rosto escondido. É o centro do sofrimento do orante: não a doença em si, mas a ausência sentida de Deus. Ecoa o clamor do Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que Jesus levou à cruz (Sl 22.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 27.46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O versículo dá permissão ao crente para fazer a mesma pergunta, sem que isso seja falta de fé.

Sl 88.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A última palavra é trevas. O fato de esta oração ter sido conservada no livro de orações de Israel, sem correção, é uma das grandes lições do Saltério: Deus aceitou que esta oração fizesse parte da Escritura. O desespero honesto, dirigido a Deus, tem lugar na Bíblia.


⛪ 5. Temas Teológicos Centrais

A fé que persiste sem consolo. O Salmo 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) mostra uma fé reduzida ao mínimo: não há sentimento de paz, nem lembrança animadora, nem confiança declarada. Resta só a oração. E, no entanto, é fé. O orante continua chamando Deus de salvador, continua clamando todo dia, continua se levantando de manhã para orar. A Bíblia não mede a fé pela intensidade do sentimento, mas pela direção: a quem se dirige o clamor. Jó, no auge do sofrimento, também continuou a falar com Deus, e Deus disse, no fim, que Jó tinha falado dele com retidão, ao contrário dos amigos de discursos corretos (Jó 42.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A honestidade dirigida a Deus vale mais que a piedade que finge.

O lamento sem resolução como parte da Escritura. Por que este salmo está na Bíblia? Talvez porque há sofrimentos que não se resolvem nesta vida, ou que demoram muito a se resolver, e Deus quis que o seu povo tivesse palavras também para eles. O Salmo 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) impede que o povo de Deus transforme a fé numa fórmula de final feliz garantido. Ele ensina que há noites longas e que Deus está presente nelas, mesmo quando não é sentido. Os livros de Jó e de Lamentações fazem o mesmo, com outras vozes (Lm 3.1-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O lugar do salmo no Saltério também ensina: ele não é a última palavra do livro, que segue até o louvor do Salmo 150 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); mas ele está lá, inteiro, e não foi corrigido.

Deus soberano até sobre a escuridão. O orante atribui tudo a Deus: foi Deus que o pôs na cova (v. 6), foi a ira de Deus que pesou (v. 7), foi Deus que afastou os amigos (vv. 8 e 18). Isso pode parecer cruel, mas tem um avesso consolador: se tudo vem de Deus, então nada escapa de Deus. O salmo nunca imagina que haja um lugar onde Deus não governe. O Salmo 139 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) dirá que nem as trevas são escuras para Deus e que até no Sheol ele está presente (Sl 139.8, 11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O orante do Salmo 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ainda não vê isso; mas o fato de falar com Deus a partir do fundo da cova pressupõe que Deus pode ouvi-lo ali.

A morte como inimiga. O salmo não romantiza a morte. Ela é a cova, o esquecimento, a separação de Deus e dos outros. Essa visão é importante para entender o evangelho: a Bíblia trata a morte como inimiga, não como passagem natural. Paulo dirá que a morte é o inimigo derradeiro, o último que Cristo vai abolir (1Co 15.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) mostra o tamanho desse inimigo, e prepara o leitor para entender o tamanho da vitória de Cristo.


✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo

6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?

O Salmo 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o grito da Queda em estado bruto: a doença, o isolamento, a morte que se aproxima, a sensação de estar longe de Deus. É o mundo em que o ser humano, criado para viver diante do rosto de Deus (Gn 3.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), experimenta esse rosto como escondido. Na Redenção em andamento, o orante não vê saída; as perguntas dos vv. 10-12 ficam sem resposta. A Redenção consumada em Cristo responde a essas perguntas, não com uma explicação, mas com a história do Filho que desceu às trevas, à cova e à morte, e foi tirado de lá. E a Nova Criação é o lugar onde as trevas do v. 18 serão vencidas para sempre: a noite deixará de existir, a morte e o pranto ficarão no passado, e o próprio Deus, morando com o seu povo, secará cada lágrima (Ap 21.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 22.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

6.2 — Cristo, que desceu às trevas do Salmo 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)

O Novo Testamento não cita o Salmo 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) diretamente. Mas a Igreja, desde cedo, ouviu nele a voz de Jesus em sua Paixão, e há razões sólidas para isso, sem que seja preciso forçar o texto.

No Getsêmani, Jesus disse aos discípulos que a sua alma estava tomada de uma tristeza mortal, e pediu que vigiassem com ele (Mt 26.37-38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A alma saturada de males, perto da morte, do v. 3, encontra ali o seu eco. Hebreus resume os dias da vida terrena de Jesus como dias em que ele ofereceu orações e súplicas, com forte clamor e lágrimas, àquele que podia salvá-lo da morte (Hb 5.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É a figura do v. 1 e do v. 9: o clamor contínuo, as mãos estendidas.

O isolamento dos vv. 8 e 18 também tem o seu correspondente. Quando Jesus foi preso, os discípulos, sem exceção, o abandonaram e escaparam (Mt 26.56 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Pedro negou conhecê-lo (Mt 26.69-75 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E Lucas registra que, na crucificação, os que conheciam Jesus acompanharam tudo a distância (Lc 23.49 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), uma frase em que muitos estudiosos reconhecem o eco do v. 8 deste salmo e de outro lamento semelhante (Sl 38.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O homem que tinha amigos e companheiros ficou só.

O v. 4, que fala de ser contado entre os que descem à cova, lembra a profecia do Servo que seria posto na mesma conta dos malfeitores (Is 53.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), aplicada a Jesus (Lc 22.37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E as trevas do v. 18 têm uma correspondência que os evangelhos registram com sobriedade: do meio-dia às três da tarde, as trevas cobriram a terra, e foi no fim delas que Jesus deu o grito do abandono, tomando as palavras do início do Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (Mt 27.45-46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que o Salmo 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) descreve como sensação, o Filho viveu como realidade: ele carregou a ira de Deus contra o pecado (v. 7), não por culpa própria, mas em lugar de outros (2Co 5.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gl 3.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Por fim, ele foi posto na cova (v. 6). O corpo de Jesus foi depositado num túmulo cavado na rocha, e uma pedra fechou a entrada (Mt 27.59-60 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Credo Apostólico confessa que ele desceu à mansão dos mortos. As tradições cristãs interpretam essa afirmação de modos diversos: como a descida real ao lugar dos mortos, como proclamação da vitória ali (1Pe 3.18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), texto ele mesmo muito discutido), ou, como entendeu Calvino, como a angústia de quem experimentou na cruz o abandono reservado ao pecado. Em qualquer dessas leituras, o ponto é o mesmo: não há profundidade do Salmo 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) aonde Cristo não tenha ido.

6.3 — As perguntas do Salmo 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e a resposta da Páscoa

As perguntas dos vv. 10-12 esperavam um "não". Deus faz maravilhas para os mortos? As sombras se levantam para louvá-lo? O seu amor leal é anunciado no sepulcro?

A ressurreição de Jesus é a resposta de Deus a essas perguntas. Pedro anuncia que Deus desfez as amarras da morte e trouxe Jesus de volta, porque ela não tinha força para segurá-lo (At 2.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e aplica a ele a esperança do Salmo 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), de que o corpo do fiel de Deus não se desfaria no túmulo (At 2.27, 31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A maior de todas as maravilhas foi feita, sim, para um morto. E desde então o amor leal de Deus é anunciado, precisamente, a partir de um sepulcro, o sepulcro vazio. O Cristo ressuscitado se apresenta a João como aquele que passou pela morte e agora vive pelos séculos sem fim, e que segura nas mãos as chaves que abrem a morte e a morada dos mortos (Ap 1.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A terra do esquecimento já não é um lugar fora do alcance de Deus.

Jesus antecipou essa resposta no seu ministério: diante do túmulo de Lázaro, apresentou-se como aquele em quem a ressurreição e a vida se encontram (Jo 11.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e chamou o morto para fora (Jo 11.43-44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E anunciou um tempo em que a sua voz alcançaria os que estão nos sepulcros, e eles sairiam para a vida (Jo 5.25, 28-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As "sombras" do v. 10 se levantarão para louvar.

Isso não apaga o Salmo 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); ilumina-o. O orante não sabia da ressurreição, e o crente que hoje ora este salmo ainda pode estar no meio da noite. Mas ele ora sabendo que o Filho já atravessou essa noite e saiu dela vivo, e que a última palavra da história não será "trevas".

6.4 — Cristo, o companheiro que não se afasta

A dor mais funda do salmo é a solidão: os amigos afastados (vv. 8 e 18), o rosto de Deus escondido (v. 14). Em Cristo, essa dupla solidão é respondida de modo único. Ele mesmo provou o afastamento dos amigos e o grito do abandono, para que os seus nunca tivessem de enfrentar o abandono definitivo. Hebreus diz que o nosso sumo sacerdote sente conosco as nossas fraquezas, porque passou por todas as provas que nós passamos, sem cometer pecado (Hb 4.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); e lembra a promessa de que Deus não larga os seus em tempo algum (Hb 13.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Paulo, que conheceu provações a ponto de desesperar até da vida e de sentir dentro de si a sentença de morte (2Co 1.8-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), escreveu uma longa lista de poderes, a morte e a vida, as alturas e os abismos, as coisas de agora e as que virão, para concluir que nenhuma criatura consegue arrancar os crentes do amor que Deus lhes mostrou em Cristo (Rm 8.38-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As "profundezas" do v. 6 estão incluídas nessa lista. O crente que ora o Salmo 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) pode sentir que Deus está longe; mas, em Cristo, Deus não está. A sensação é real e deve ser levada a sério; a realidade, porém, é maior que a sensação.

Isso permite uma leitura do Salmo 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) como oração que Cristo ora com os seus. Dietrich Bonhoeffer, que escreveu sobre os Salmos como livro de oração de Jesus e da Igreja, ensinou que o cristão pode rezar salmos que não correspondem ao que ele sente naquele dia, porque os reza junto com Cristo e com a Igreja inteira. Quem não está no escuro reza este salmo por quem está. E quem está no escuro descobre que não o reza sozinho: o Filho que desceu às trevas ora com ele.

6.5 — O Evangelho no capítulo

Pregar o Salmo 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) cristocentricamente exige, antes de tudo, não se apressar para a Páscoa. O salmo precisa ser ouvido como é: uma oração que termina no escuro. Muitos ouvintes estão ali. Correr para o final feliz seria repetir o erro dos amigos de Jó, que tinham respostas certas para o homem errado, na hora errada.

Depois, é possível mostrar que esta escuridão foi visitada. O evangelho não diz que o sofrimento do Salmo 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é ilusão; diz que o Filho de Deus entrou nele. Ele conheceu a tristeza que esmaga até o limite da morte, os amigos que fugiram, as trevas ao meio-dia, a ira contra o pecado, o grito do abandono e a cova fechada por uma pedra. E foi tirado de lá ao terceiro dia.

Por isso, o evangelho deste salmo não é "não sofra", nem "tenha mais fé", mas: você não está sozinho no escuro, e o escuro não é eterno. O Deus que o orante invocava como seu salvador mostrou, em Cristo, que é exatamente isso. A última palavra do Salmo 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é trevas; a última palavra de Deus, em Cristo, é ressurreição.


🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)


🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico

Você pode orar assim. O Salmo 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é uma permissão. Muitos crentes acham que não podem dizer a Deus o que sentem quando o que sentem é escuro: abandono, raiva, desesperança. Este salmo mostra que podem. Deus pôs esta oração na Bíblia. Dizer a ele "não te vejo, não te sinto, por que te escondes?" não é falta de fé; é fé que continua falando. E quem ora assim ora com Cristo, que também clamou no escuro.

Sofrimento prolongado e depressão não são falta de fé. O orante do Salmo 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) era um homem de fé, talvez um líder do culto, e viveu esta noite desde a juventude. A depressão, a doença crônica, a dor persistente atingem crentes sinceros. Não devem ser tratadas como prova de pecado escondido ou de fé fraca. São parte do mundo caído que Cristo veio redimir. Procurar ajuda médica, psicológica e pastoral não contradiz a confiança em Deus; é uma das formas pelas quais Deus cuida. Pastores conhecidos, como Charles Spurgeon, falaram abertamente das suas longas crises de abatimento, e isso ajudou muitos a não se sentirem sozinhos.

Se houver desejo de morrer, fale hoje. O orante sentia-se já do lado da morte. Muitas pessoas hoje sentem algo parecido, e algumas pensam em tirar a própria vida. Esse pensamento não deve ser escondido nem enfrentado sozinho. Procure alguém de confiança, a sua igreja, um profissional de saúde. No Brasil, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, a qualquer hora. Buscar ajuda é um ato de coragem, e não de fraqueza.

Não seja um dos que se afastam. Uma das dores do salmo é o afastamento dos amigos (vv. 8 e 18). Quem convive com alguém em sofrimento prolongado tende, com o tempo, a se cansar e a sumir. O salmo chama o povo de Deus a fazer o oposto: ficar. Não com conselhos rápidos, citações apressadas ou explicações, mas com presença. Os amigos de Jó fizeram o melhor que fizeram quando ficaram sete dias em silêncio ao lado dele (Jó 2.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o pior veio quando começaram a explicar. Paulo pede que o povo de Deus partilhe o pranto de quem chora (Rm 12.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Cristo não se afasta; a Igreja, que é o seu corpo, também não deveria.

Continue estendendo as mãos. O orante não tinha nada além de oração. E continuou orando, dia e noite, todo dia, de manhã. Para quem está no escuro, às vezes a única coisa possível é continuar se dirigindo a Deus, mesmo sem sentir nada. Isso não é pouco. É a fé que sobrevive. E o crente pode fazê-lo sabendo que o Filho já atravessou a noite e saiu dela, e que a manhã da ressurreição é também a sua.


🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo

  1. O salmo começa invocando o Deus que salva o orante (v. 1) e termina com a palavra "trevas" (v. 18). O que significa continuar orando a Deus quando não se sente a sua presença? Isso é fé ou falta de fé?
  2. O orante atribui o seu sofrimento a Deus (vv. 6-8, 16-18). Como você lida com essa linguagem? O que ela revela sobre a convicção de que Deus governa tudo, até a escuridão?
  3. As perguntas dos vv. 10-12 esperam a resposta "não". Como a ressurreição de Jesus muda essas respostas? E por que é importante, mesmo assim, deixar o salmo dizer o que diz?
  4. Em que momentos da Paixão de Jesus (Mt 26.37-38, 56 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 23.49 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 27.45-46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) você reconhece ecos deste salmo? O que isso diz sobre a profundidade da sua identificação conosco?
  5. Que pessoas ao seu redor vivem um sofrimento prolongado? O que significaria, para você, não ser um dos que se afastam (vv. 8 e 18)?
  6. Para meditação e oração: se você está bem, ore este salmo em favor de alguém que está no escuro, pedindo que Cristo esteja presente com ele. Se você está no escuro, ore-o com as suas próprias palavras, sabendo que o Filho que desceu às trevas ora com você, e procure hoje mesmo alguém com quem falar.

📚 10. Para Aprofundamento

Cristocêntrica / Teologia Bíblica:

  • Dietrich Bonhoeffer — Psalms: The Prayer Book of the Bible (Augsburg, 1970), sobre os salmos como oração de Cristo com a Igreja
  • Sidney Greidanus — Preaching Christ from the Old Testament (Eerdmans, 1999)
  • Walter Brueggemann — The Message of the Psalms (Augsburg, 1984), sobre os salmos de desorientação

Sobre o lamento e o sofrimento:

  • Mark Vroegop — Dark Clouds, Deep Mercy: Discovering the Grace of Lament (Crossway, 2019)
  • Zack Eswine — Spurgeon's Sorrows: Realistic Hope for Those Who Suffer from Depression (Christian Focus, 2014)

Comentários dos Salmos:

  • Derek Kidner — Salmos 73–150 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
  • Marvin E. Tate — Psalms 51–100 (Word Biblical Commentary, 1990)
  • Nancy deClaissé-Walford, Rolf A. Jacobson e Beth LaNeel Tanner — The Book of Psalms (NICOT, Eerdmans, 2014)
  • Frank-Lothar Hossfeld e Erich Zenger — Psalms 2: A Commentary on Psalms 51–100 (Hermeneia, Fortress, 2005)

Sabedoria para o Cotidiano
Há noites em que a oração não recebe resposta e a única companhia parece ser a escuridão; o Salmo 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) está na Bíblia para que ninguém, nessas noites, pense que perdeu o direito de falar com Deus. Continue estendendo as mãos, mesmo sem sentir nada, e não carregue a noite sozinho: procure quem possa ficar ao seu lado. O Filho de Deus desceu a essas mesmas trevas, sentiu o abandono e foi posto na cova; e saiu dela vivo, para que a última palavra da sua história não seja escuridão, mas a manhã da ressurreição.

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