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Salmos · 19 de 66 · Antigo Testamento

Salmos — Capítulo 87

Infográfico de “Salmos 87 — Capítulo a capítulo”, gerado automaticamente a partir do estudo publicado, com 3 partes: A cidade que Deus fundou e ama; O registro dos povos nascidos em Sião; Todas as fontes estão em ti.

Título do capítulo: Sião, a cidade onde os povos nascem
Gênero literário: Poesia/Salmo (cântico de Sião, breve e enigmático: o Senhor ama a cidade que fundou e inscreve nela, como filhos nativos, povos que eram estrangeiros e até inimigos de Israel)
Número de versículos: 7

Nota de precisão: a inscrição diz "dos filhos de Corá; salmo; cântico" e, nas Bíblias em português, não é contada como versículo; no hebraico impresso ela faz parte do primeiro versículo, de modo que, neste salmo, os números coincidem. Na antiga tradução grega, que junta os Salmos 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 10, este é o salmo oitenta e seis. O hebraico do Salmo 87 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é muito conciso, quase telegráfico, e vários versos admitem mais de uma leitura (sobretudo os vv. 1, 4, 5 e 7); alguns estudiosos chegaram a propor uma reordenação das linhas. O estudo segue a ordem do texto recebido e indica as leituras possíveis quando elas mudam o sentido.


🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural

O Salmo 87 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é um dos mais curtos do Saltério e, ao mesmo tempo, um dos de maior alcance. Pertence ao grupo dos chamados "cânticos de Sião", ao lado de salmos como o 46, o 48, o 76, o 84 e o 122, que celebram Jerusalém como a cidade escolhida pelo Senhor para pôr nela o seu nome e a sua morada. O que distingue este salmo dos outros é a sua surpresa: a glória de Sião, aqui, não está nos muros, nas torres ou na vitória sobre os reis inimigos, como no Salmo 48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (Sl 48.4-7, 12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas no fato de que povos estrangeiros são registrados como nascidos nela.

A inscrição o atribui aos filhos de Corá, uma família de levitas cantores. A Escritura lembra que Corá se rebelou contra Moisés e Arão e foi destruído (Nm 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas também registra que os seus filhos não morreram (Nm 26.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); os seus descendentes aparecem nas Crônicas como porteiros e cantores do templo (1Cr 9.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Cr 20.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No Saltério, onze salmos levam esse nome: os do bloco 42–49, no segundo livro, e os Salmos 84 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), 85, 87 e 88, no terceiro. Um salmo sobre estrangeiros que ganham cidadania em Sião foi cantado por descendentes de quem quase perdeu o lugar no povo.

A data do salmo é incerta. Os povos mencionados (Egito, Babilônia, Filístia, Tiro e Cuxe) foram vizinhos e adversários de Israel em várias épocas. A presença da Babilônia ao lado do Egito levou muitos estudiosos a situar o salmo depois do exílio, quando Judeus viviam espalhados pelo Egito e pela Mesopotâmia e Jerusalém, reconstruída, era um centro de peregrinação para eles; outros pensam numa época anterior, quando a Assíria e depois a Babilônia já eram potências no horizonte. O texto não dá elementos para decidir, e a mensagem do salmo não depende dessa decisão.

Um dado de vocabulário evita confusão. O primeiro nome da lista, Rahav, não é o da mulher de Jericó que escondeu os espias (Js 2.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), cujo nome em hebraico se escreve com outra letra. Aqui, Rahav é um nome poético do Egito, ligado a uma figura de monstro do caos, símbolo da arrogância e do tumulto. Isaías usa o nome para o Egito, que, segundo ele, é um poder que faz barulho e fica parado (Is 30.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o próprio Saltério, no salmo seguinte ao 88, celebra o Senhor que esmagou Raabe (Sl 89.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); cf. Is 51.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pôr Raabe na lista dos que nascem em Sião é como inscrever o antigo opressor do êxodo entre os filhos da cidade.

Cuxe é a região ao sul do Egito, ao longo do Nilo, que as fontes antigas e o Novo Testamento chamam de Etiópia (a Núbia, no atual Sudão, e não a Etiópia moderna). Tiro era a grande cidade comercial da Fenícia, rica e orgulhosa, alvo de oráculos proféticos (Is 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ez 26–28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Filístia era o inimigo tradicional dos tempos dos juízes e de Davi. A lista percorre, portanto, os quatro horizontes do mundo conhecido de Israel: o sul (Egito e Cuxe), o leste (Babilônia), o oeste (Filístia e Tiro). Não é uma lista de amigos.

Na história da interpretação cristã, o salmo foi muito amado. Agostinho o tinha diante dos olhos quando falou da cidade de Deus; e o hino de John Newton sobre as glórias de Sião (1779), cantado até hoje em muitas igrejas, foi composto a partir dele.


📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo

O salmo começa de modo abrupto: a fundação do Senhor está sobre os montes santos (v. 1). Entre todos os lugares onde a casa de Jacó habita, nenhum lhe é tão querido quanto as portas de Sião (v. 2). Sobre ela se pronunciam palavras de glória, porque é a cidade de Deus (v. 3).

Então o próprio Senhor toma a palavra. Ele vai citar Raabe e Babilônia entre os que o conhecem; e, apontando para a Filístia, Tiro e Cuxe, declara que também eles são naturais de Sião (v. 4). A respeito da cidade se dirá que gente de toda parte veio ao mundo dentro dela, e que o próprio Altíssimo lhe dará firmeza (v. 5). O Senhor, ao fazer o registro dos povos, anotará de cada um que é nascido lá (v. 6).

O salmo termina com uma cena de festa: cantores e dançarinos, ou tocadores de flauta, proclamam que todas as suas fontes estão em Sião (v. 7).


🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)

O poema tem três movimentos. Os vv. 1-3 celebram a cidade amada e fundada por Deus, e terminam com um selá. Os vv. 4-6 são o coração do salmo: o Senhor fala e faz o registro dos povos, com o refrão do nascimento no começo e no fim (vv. 4 e 6), o v. 5 no meio, e outro selá no fim. O v. 7 fecha com a música e a festa. A palavra que mais se repete no salmo é o verbo yullad, nasceu, que aparece três vezes (vv. 4, 5 e 6): é ela que dá ao poema o seu tema. O selá, palavra de sentido incerto, provavelmente uma indicação musical ou litúrgica (talvez uma pausa ou uma elevação do canto), marca aqui os dois pontos de maior densidade.

Versículos 1-3 — A cidade que Deus fundou e ama

O v. 1 começa sem sujeito explícito: yesudato beharere-qodesh, a sua fundação está nos montes santos. "A sua" de quem? O contexto e o v. 5 mostram que se trata da fundação do Senhor: Sião é a cidade que ele mesmo alicerçou. O salmo não começa com a história da cidade, com Davi conquistando a fortaleza dos jebuseus ou com Salomão construindo o templo; começa com Deus como fundador. O plural "montes santos" pode referir-se às colinas sobre as quais Jerusalém se assentava, ou ser um plural de majestade para o monte Sião. A cidade é santa porque Deus a escolheu, e não porque as suas pedras fossem diferentes das outras.

O v. 2 diz que o Senhor 'ohev, ama, as sha'are tsiyyon, as portas de Sião, mais do que todas as mishkenot ya'aqov, as moradas de Jacó. As portas, numa cidade antiga, eram o lugar da vida pública: ali se faziam negócios, se julgavam causas, se recebiam os visitantes; e, num salmo que falará de estrangeiros, as portas são também o lugar por onde se entra. A comparação com "as moradas de Jacó" não despreza as outras cidades de Israel, mas afirma a escolha: entre todos os lugares, Deus quis pôr ali o seu nome (Dt 12.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 78.68 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 132.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A eleição de Sião, como a eleição de Israel, nasce do amor de Deus, e não de mérito do lugar (Dt 7.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O v. 3 abre a cidade para o que vem: nikhbadot medubbar bakh: o particípio fala de palavras de glória pronunciadas a respeito da cidade, ou dentro dela, que é chamada 'ir ha'elohim, cidade de Deus. A forma do verbo deixa em aberto quem fala. Pode ser a voz dos profetas e dos cânticos, que celebram Sião; pode ser a própria fala de Deus, que vem em seguida. A segunda leitura é atraente, porque o v. 4 começa justamente com Deus dizendo algo novo e glorioso sobre a cidade. As "coisas gloriosas" não seriam, então, a beleza dos muros, mas o anúncio do registro dos povos. O selá deixa o leitor suspenso diante dessa expectativa.

Versículos 4-6 — O registro dos povos nascidos em Sião

O v. 4 é a grande surpresa do salmo. Deus diz: 'azkir rahav uvavel leyod'ay, mencionarei, farei lembrar, Raabe e Babilônia entre os que me conhecem. O verbo zakar no causativo pode ter sentido de registro oficial, de citação pública de um nome. E a expressão "os que me conhecem" é forte: no vocabulário bíblico, conhecer a Deus é ter uma relação de aliança com ele, não apenas saber que ele existe (Jr 31.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Os 6.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os dois maiores opressores da história de Israel, o Egito do êxodo e a Babilônia do exílio, são postos na lista dos que conhecem o Senhor.

A segunda linha continua com um hinneh, eis, como quem aponta com o dedo: eis a Filístia, e Tiro, com Cuxe. E conclui com a frase-refrão, zeh yullad-sham, que atribui a esse alguém o nascimento em Sião. O demonstrativo no singular pode referir-se a cada povo como um todo (o povo inteiro seria natural da cidade) ou a indivíduos de cada povo (esta pessoa, apontada, seria natural de lá). As duas leituras são possíveis, e a segunda é favorecida pelo v. 5.

Antes de seguir, é preciso registrar uma questão de interpretação séria. Alguns estudiosos entendem que os "nascidos" não são estrangeiros, mas judeus da diáspora, nascidos fisicamente no Egito, na Babilônia ou em Tiro, que o Senhor reconhece como filhos de Sião apesar de terem nascido longe. A leitura é possível e tem defensores respeitáveis. Mas a maioria dos intérpretes, antigos e modernos, entende que o salmo fala dos próprios povos estrangeiros, e há boas razões para isso: a lista nomeia os povos, e não as comunidades judaicas neles; a expressão "os que me conhecem" é mais surpreendente se aplicada a Raabe e Babilônia do que a judeus; e a mesma esperança aparece claramente nos profetas. Isaías anuncia um dia em que haverá um altar ao Senhor no Egito e em que Deus abençoará o Egito e a Assíria com títulos que antes eram só de Israel, chamando um de seu povo e outro de feitura sua, ao lado de Israel, a sua herança (Is 19.19-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E Isaías descreve estrangeiros que se unem ao Senhor e cujos sacrifícios são aceitos na casa de oração para todos os povos (Is 56.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 87 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) cabe nessa esperança.

O v. 5 amplia o refrão: de Sião se dirá 'ish we'ish yullad-bah: literalmente "homem e homem", um idiomatismo para cada um, um após o outro, foi gerado nela. A repetição sugere multidão e, ao mesmo tempo, atenção pessoal: não é uma anexação em massa, mas um registro de cada um. E a segunda linha garante a estabilidade: o próprio 'elyon, o Altíssimo, a firmará. A cidade que recebe tantos povos não perde a identidade, porque é Deus quem a sustenta.

A antiga tradução grega leu o começo do v. 5 de modo um pouco diferente, fazendo alguém chamar Sião de mãe. Mesmo sem essa leitura, a imagem materna está no próprio hebraico: se os povos "nasceram" em Sião, Sião é a mãe deles. Os profetas usaram a mesma imagem para a Jerusalém restaurada, que dá à luz filhos de repente e se espanta com a quantidade dos que a chamam de mãe (Is 54.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 66.7-8).

O v. 6 traz a cena do registro: yhwh yispor biktov 'ammim, o Senhor contará, ou fará a conta, ao inscrever os povos. A imagem é a de um censo, ou de um livro de cidadãos. Em Israel, depois do exílio, os registros genealógicos eram decisivos para saber quem pertencia ao povo e quem podia servir no templo; os que não encontravam o próprio nome nos registros ficavam excluídos (Ed 2.59-62 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ne 7.64 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Isaías fala dos que estão inscritos para a vida em Jerusalém (Is 4.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o próprio Moisés se referiu ao livro que Deus escreveu (Êx 32.32-33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No Salmo 87 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), é o Senhor quem segura a pena. E, contra todas as expectativas, ele escreve junto ao nome de cada estrangeiro a mesma nota do v. 4: natural de Sião. A cidadania em Sião não é adquirida, comprada ou conquistada; é atribuída por Deus como se fosse de nascença. O segundo selá sublinha o espanto.

Versículo 7 — Todas as fontes estão em ti

O último versículo é o mais difícil. O hebraico diz, literalmente, algo como: wesharim keḥolelim, kol-ma'yanay bakh, e cantores como dançarinos (ou tocadores de flauta): todas as minhas fontes em ti. A palavra ḥolelim pode vir de uma raiz que significa dançar em roda ou de outra que significa tocar flauta; as duas são festivas. O sentido geral é claro: uma procissão de cantores e dançarinos celebra Sião, e o refrão da festa é que todas as fontes estão nela.

Quem diz "minhas fontes"? Pode ser a voz dos cantores, isto é, dos povos que nasceram em Sião, que proclamam que tudo o que os vivifica vem dela; pode ser a voz de Deus, o que soaria estranho. A primeira leitura é a mais natural. A palavra ma'yan, fonte, nascente, é uma imagem de vida. Num país seco como a terra de Israel, a nascente era o que decidia se um lugar podia ser habitado. Sião, de fato, não tinha grandes rios; tinha a fonte de Giom, ao pé da cidade. Mas os salmos e os profetas falam de um rio que alegra a cidade de Deus (Sl 46.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), de águas que brotarão do templo e farão viver tudo por onde passarem (Ez 47.1-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), de uma fonte que sairá da casa do Senhor (Jl 3.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Zc 14.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o Salmo 36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) diz que em Deus está a fonte da vida (Sl 36.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os povos que nasceram em Sião confessam que ali, e não nas suas antigas fontes, está a origem da sua vida e da sua alegria. O Egito, que tinha o Nilo, e a Babilônia, que tinha o Eufrates, dizem agora que as suas fontes estão em Sião.


✨ 4. Versículos-Chave

Sl 87.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A cidade de Deus é objeto de palavras gloriosas. A tradição cristã leu este verso como declaração sobre a Igreja e sobre a cidade celestial, e não por acaso ele deu tema a hinos e a meditações sobre a cidade de Deus. O que torna Sião gloriosa não é a sua grandeza humana, mas aquilo que Deus diz e faz nela, e no v. 4 descobre-se o que é: ela é o lugar onde os inimigos de ontem nascem como filhos.

Sl 87.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O versículo mais surpreendente do salmo e um dos mais ousados do Antigo Testamento. Raabe (o Egito) e Babilônia, os opressores do êxodo e do exílio, aparecem entre os que conhecem o Senhor, e a Filístia, Tiro e Cuxe recebem a certidão de nascimento de Sião. É a promessa feita a Abraão, de que a bênção dada a ele alcançaria os clãs do mundo inteiro (Gn 12.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), contemplada com nomes concretos e incômodos.

Sl 87.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Senhor mesmo faz o registro dos povos. A cidadania na cidade de Deus é concedida por ele, pela sua palavra, e não pelo sangue ou pela origem. O Novo Testamento dirá que os crentes têm os nomes escritos nos céus (Lc 10.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que a sua cidadania está lá (Fp 3.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o Apocalipse falará do livro da vida do Cordeiro como o registro dos que entram na cidade (Ap 21.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).


⛪ 5. Temas Teológicos Centrais

A eleição como caminho para a inclusão. O salmo começa com a eleição: Deus fundou Sião e a ama mais que todas as outras moradas. Mas a eleição não termina em exclusão. A cidade escolhida é escolhida para receber. É a lógica de toda a Escritura: Deus escolhe Abraão para abençoar as nações (Gn 12.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), escolhe Israel para ser reino de sacerdotes no meio da terra (Êx 19.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), escolhe Sião para que dela saia a instrução e a palavra do Senhor para os povos (Is 2.2-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mq 4.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O amor particular de Deus é o caminho do seu amor universal, e não a sua negação.

O novo nascimento como fundamento da pertença. O verbo-chave do salmo é nascer. Os povos não são simplesmente aceitos como estrangeiros tolerados, nem naturalizados como cidadãos de segunda classe; são registrados como nativos, nascidos na cidade. A pertença ao povo de Deus é descrita como um nascimento, obra de Deus que dá uma nova origem. Esse é exatamente o vocabulário que Jesus usará com Nicodemos, um mestre de Israel, ao afirmar que só tem acesso ao Reino quem recebe um nascimento novo, vindo do alto, obra do Espírito (Jo 3.3-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 87 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) já sugere que a verdadeira certidão de nascimento é a que Deus escreve.

A cidade de Deus como mãe e fonte. Sião aparece no salmo como mãe dos povos (vv. 4-6) e como fonte da vida (v. 7). As duas imagens dizem que a vida dos povos não vem deles mesmos, mas da cidade que Deus fundou. Paulo retomará essa linguagem ao falar da Jerusalém de cima, a cidade livre que ele chama de mãe dos crentes (Gl 4.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em contraste com a Jerusalém terrena da sua época. E o Apocalipse mostrará a cidade santa, atravessada por um rio de vida que nasce do trono onde estão Deus e o Cordeiro (Ap 22.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).


✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo

6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?

O Salmo 87 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) olha da Redenção em andamento para a Nova Criação. A Queda está pressuposta nos nomes da lista: povos que se tornaram inimigos uns dos outros e de Deus, desde a dispersão de Babel, quando a humanidade foi espalhada e as línguas confundidas (Gn 11.1-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmo contempla o desfazer dessa dispersão: os povos voltam a se reunir, não numa torre construída pela arrogância humana, mas na cidade fundada por Deus. Há um jogo notável aqui: Babel, a cidade da dispersão, é a mesma Babilônia que o salmo inscreve como nascida em Sião. A Redenção consumada em Cristo abre a porta dessa cidade a todas as nações, e a Nova Criação a mostra completa, com os povos caminhando sob a sua luz e os governantes da terra levando para dentro dela o seu esplendor (Ap 21.24-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

6.2 — Sião e o Cristo: a cidade, o templo e o lugar do encontro

No Antigo Testamento, Sião é o lugar onde Deus pôs o seu nome, a sua morada, o seu rei e o seu altar. O Novo Testamento ensina que tudo isso converge em Jesus. Ele é o templo verdadeiro, o lugar onde Deus e os homens se encontram (Jo 2.19-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); ele disse à mulher samaritana que a adoração deixaria de estar presa a este ou àquele monte, porque o Pai busca adoradores movidos pelo Espírito e pela verdade (Jo 4.21-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); ele é o Rei que Deus entronizou no seu monte (Sl 2.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 13.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E Pedro, retomando Isaías, mostra que a pedra de esquina que Deus assentou em Sião é o próprio Cristo, e que os crentes, unidos a ele, são construídos como pedras que vivem, formando a casa onde Deus habita (1Pe 2.4-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 28.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A Sião do Salmo 87 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), portanto, é tipo. O seu cumprimento não é apenas uma cidade no mapa, mas a realidade nova que nasce em torno de Cristo: a Igreja como povo reunido por ele, aqui e agora, e a cidade celestial, a Jerusalém do alto, que será plenamente revelada no fim. Hebreus diz que os crentes, pela fé, já se aproximaram da Sião verdadeira: a Jerusalém do céu, onde Deus vive, a reunião festiva dos filhos com direito de primogenitura e nomes registrados lá em cima, e o próprio Jesus, mediador da nova aliança (Hb 12.22-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O registro do v. 6 é exatamente isso: nomes inscritos na cidade de Deus, e o mediador que torna isso possível.

6.3 — Os estrangeiros que nascem em Sião: a promessa cumprida no evangelho

O que o Salmo 87 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) viu de longe começou a acontecer depois da ressurreição de Jesus. No Pentecostes, em Jerusalém, a lista dos povos presentes que ouviram as maravilhas de Deus na própria língua inclui moradores da Mesopotâmia, onde ficava a Babilônia, e do Egito (At 2.9-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É como se a lista do salmo ganhasse rosto naquela manhã.

Pouco depois, Atos narra uma cena que parece ilustrar o salmo de modo particular. Filipe é enviado ao caminho que desce de Jerusalém para Gaza, uma das antigas cidades filisteias, e ali encontra um alto funcionário da rainha dos etíopes, isto é, um homem de Cuxe, que tinha ido a Jerusalém para adorar. Lendo Isaías, ele é levado a Jesus e batizado; e Filipe, depois, aparece em Azoto, outra antiga cidade da Filístia (At 8.26-40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A coincidência não deve ser transformada em profecia, mas é eloquente: o evangelho chega a Cuxe e à Filístia, e um cuxita volta para casa com a alegria de quem encontrou a fonte. Também Tiro aparece no ministério de Jesus: a mulher siro-fenícia da região de Tiro e Sidom recebe dele a cura da filha e o elogio da sua fé (Mc 7.24-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 15.21-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Paulo dá a teologia desse movimento. Os gentios viviam sem Messias, sem direito de cidade em Israel, alheios às alianças e às suas promessas; mas o sangue de Cristo os trouxe para perto, e a cruz pôs abaixo o muro que dividia os dois povos (Ef 2.12-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Por isso, deixaram de ser gente de fora, de passagem: agora têm a mesma cidadania do povo santo e pertencem à casa de Deus (Ef 2.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A expressão de Paulo é quase um comentário ao v. 4: o estrangeiro registrado como nativo. E o fundamento dessa cidadania é a cruz: é pelo sangue de Cristo que os de longe são trazidos para perto.

6.4 — O novo nascimento e a Jerusalém que é nossa mãe

O Salmo 87 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) insiste no nascimento. A cidadania em Sião não é por imigração, mas por natividade. No Novo Testamento, essa imagem se cumpre no novo nascimento. Jesus ensina que a entrada no Reino exige um nascimento que vem do alto, pelo Espírito (Jo 3.3-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o prólogo de João diz que todos os que acolhem Cristo e creem nele recebem de Deus a condição de filhos, numa geração que não procede da linhagem, nem do impulso da carne, nem da decisão de um homem, mas do próprio Deus (Jo 1.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O registro do v. 6 não depende da origem étnica, do sangue de Abraão ou da genealogia; depende de Deus, que faz nascer de novo.

Paulo, em Gálatas, usa a imagem materna que o salmo sugere: há duas Jerusaléns, a da terra, cujos filhos vivem como escravos, e a de cima, cidade livre, que é mãe de todos os que creem (Gl 4.25-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E cita logo a seguir a profecia de Isaías sobre a mulher estéril que teria mais filhos do que a casada (Gl 4.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 54.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os gentios que creem em Cristo são filhos dessa mãe. O Salmo 87 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o pano de fundo poético dessa doutrina: Sião, a mãe dos povos, que gera filhos vindos dos lugares mais improváveis.

Por fim, a fonte. Os povos do v. 7 confessam que todas as suas fontes estão em Sião. Jesus, no templo, no grande dia da festa das Tendas, chamou os sedentos para virem beber dele e prometeu que, de dentro de quem crê, brotariam correntes de água viva; o evangelista explica que ele falava do Espírito (Jo 7.37-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A fonte de Sião é Cristo, e o Espírito que ele dá.

6.5 — O Evangelho no capítulo

O Salmo 87 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) prega o evangelho a quem se sente estrangeiro, fora do povo de Deus, com um passado que parece desqualificá-lo. Raabe e Babilônia eram os piores nomes possíveis para uma lista de cidadãos de Sião; e, no entanto, ali estão. Pregá-lo cristocentricamente é anunciar que, em Cristo, Deus faz exatamente isso: toma pessoas que eram inimigas, estranhas, distantes, e as registra como filhos nascidos na sua cidade.

Esse registro não é uma tolerância nem uma cidadania de segunda classe. É um novo nascimento, obra do Espírito, fundada na cruz, onde Cristo derrubou o muro de separação e reconciliou com Deus judeus e gentios num só corpo (Ef 2.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O pregador pode perguntar ao ouvinte: o seu nome está nesse registro? E pode anunciar que a porta de Sião, que o Senhor ama, está aberta: quem vem a Cristo nasce ali, e encontra nele todas as suas fontes.


🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)


🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico

Ninguém está longe demais. A lista do v. 4 é a lista dos inimigos. Se Raabe e Babilônia podem nascer em Sião, não há passado que desqualifique alguém para a graça. Quem se sente indigno de pertencer ao povo de Deus, por causa do que fez ou de onde veio, pode ouvir neste salmo o convite do evangelho. Em Cristo, a certidão de nascimento é nova, e é Deus quem a escreve.

Veja os outros como possíveis irmãos. O salmo desafia também o povo de Deus. É fácil olhar para certos grupos, nações, culturas ou pessoas como inimigos irrecuperáveis. O Salmo 87 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) obriga a imaginá-los inscritos em Sião. A Igreja que conhece este salmo ora pelos povos que a perseguem, envia missionários aos lugares mais improváveis e recebe os estrangeiros sem desconfiança, porque sabe que o Senhor pode anotar junto ao nome de qualquer um a naturalidade de Sião.

A Igreja é lar, e não clube. Se a cidadania em Sião é por nascimento, ninguém na Igreja é membro de segunda classe: o recém-convertido de história difícil e o crente de muitas gerações nasceram do mesmo modo, pela graça de Cristo.

Procure as fontes no lugar certo. O salmo termina com a confissão de que todas as fontes estão em Sião. Cada um de nós tem as suas fontes: o trabalho, a família, o reconhecimento, o prazer. Elas não são más em si mesmas, mas não sustentam a vida. Os povos do salmo deixaram os seus rios para beber da fonte de Sião. Cristo continua chamando os sedentos para junto de si.


🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo

  1. Por que você acha que o salmista escolheu justamente Raabe (o Egito), Babilônia, a Filístia, Tiro e Cuxe para a lista do v. 4? O que esses nomes representavam para Israel?
  2. O salmo descreve a pertença a Sião como nascimento (vv. 4-6), e não como naturalização. Que diferença isso faz? Como a conversa de Jesus com Nicodemos (Jo 3.3-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) ilumina essa ideia?
  3. De que maneira a Igreja, hoje, pode ser vista como a "Sião" deste salmo? E de que maneira ela ainda aguarda a Jerusalém do alto (Hb 12.22-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 21.24-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))?
  4. Há pessoas, grupos ou povos que você tem dificuldade de imaginar "inscritos" no povo de Deus? O que o Salmo 87 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) diz a esse respeito?
  5. Quais são as "fontes" das quais você tem bebido para viver? Como a confissão do v. 7 pode reorientar essas fontes para Cristo?
  6. Para meditação e oração: agradeça a Deus porque, em Cristo, o seu nome foi escrito na cidade de Deus. Ore por um povo, uma cidade ou uma pessoa que hoje parece distante do Senhor, pedindo que também eles sejam registrados como nascidos em Sião.

📚 10. Para Aprofundamento

Cristocêntrica / Teologia Bíblica:

  • Christopher J. H. Wright — A missão de Deus (Vida Nova) / The Mission of God (IVP, 2006), sobre a eleição de Israel a serviço das nações
  • Sidney Greidanus — Preaching Christ from the Old Testament (Eerdmans, 1999)
  • T. Desmond Alexander — Do Éden à Nova Jerusalém (Vida Nova)

Comentários dos Salmos:

  • Derek Kidner — Salmos 73–150 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
  • Marvin E. Tate — Psalms 51–100 (Word Biblical Commentary, 1990)
  • Nancy deClaissé-Walford, Rolf A. Jacobson e Beth LaNeel Tanner — The Book of Psalms (NICOT, Eerdmans, 2014)
  • Frank-Lothar Hossfeld e Erich Zenger — Psalms 2: A Commentary on Psalms 51–100 (Hermeneia, Fortress, 2005)
  • Agostinho — Comentário aos Salmos (Paulus, coleção Patrística) e A Cidade de Deus

Sabedoria para o Cotidiano
Na cidade de Deus, os nomes mais improváveis aparecem no registro: o Egito do cativeiro, a Babilônia do exílio, os filisteus de sempre. Não porque tenham merecido, mas porque o Senhor mesmo segura a pena e escreve, junto a cada um, que é natural da cidade. Se você se sente estrangeiro diante de Deus, saiba que, em Cristo, a porta de Sião está aberta e o novo nascimento é dom dele; e, se você já pertence a essa cidade, olhe para os de fora como futuros irmãos e beba, com eles, da única fonte que não seca.

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