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Salmos · 19 de 66 · Antigo Testamento

Salmos — Capítulo 98

Infográfico de “Salmos 98 — Capítulo a capítulo”, gerado automaticamente a partir do estudo publicado, com 3 partes: O braço santo que trouxe a vitória; A terra inteira aclama o Rei; A criação inteira à espera do Juiz.

Título do capítulo: O braço santo e o cântico da terra
Gênero literário: Poesia/Salmo (hino do reinado do Senhor: o cântico novo pela vitória de Deus, a salvação revelada às nações, a aclamação de toda a terra diante do Rei e a criação que aplaude a vinda do Juiz; um dos salmos de entronização reunidos entre o Salmo 93 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e o Salmo 100 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))
Número de versículos: 9

Nota de precisão: a inscrição do Salmo 98 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é uma só palavra hebraica, mizmor, salmo, e, nas Bíblias em português, não é contada como versículo; no hebraico impresso ela faz parte do primeiro versículo, de modo que, neste salmo, os números coincidem. A antiga tradução grega, que junta os Salmos 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 10, conta-o como salmo noventa e sete e acrescenta à inscrição o nome de Davi, que não está no hebraico. O salmo é muito próximo do Salmo 96 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e de passagens da segunda parte de Isaías; os paralelos são indicados no lugar próprio.


🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural

O Salmo 98 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é um dos cânticos mais alegres do Saltério e um dos mais fáceis de reconhecer. Pertence ao grupo dos chamados salmos do reinado do Senhor, que se reúnem no quarto livro do Saltério, entre o Salmo 93 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e o Salmo 100 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Alguns desses salmos se abrem com a aclamação hebraica YHWH malak, que proclama o reinado do Senhor (Sl 93.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 97.1; 99.1); outros convidam a terra inteira a cantar diante dele (Sl 95 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 96; 100). O Salmo 98 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não usa a aclamação, mas no seu centro chama o Senhor de Rei (v. 6), e todo o seu movimento é o de uma festa de coroação: a vitória, o anúncio, a aclamação do povo, a música, e a chegada do soberano para governar.

Os estudiosos discutiram muito o lugar desses salmos no culto de Israel. No início do século XX, o norueguês Sigmund Mowinckel propôs que eles teriam sido cantados numa festa anual de entronização do Senhor, provavelmente ligada à festa do outono. A hipótese foi muito discutida e não há na Bíblia uma descrição dessa festa. O que se pode afirmar com segurança é que o Salmo 98 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é um hino litúrgico, feito para ser cantado pelo povo reunido com acompanhamento de instrumentos, e que celebra o Senhor como Rei vitorioso cujo governo alcança toda a terra.

A inscrição chama a atenção pela brevidade. Muitos comentaristas observam que este é o único salmo do Saltério cuja inscrição se resume à palavra mizmor, sem nome de autor, sem indicação de ocasião, sem termo musical. A palavra designa um cântico acompanhado de instrumentos de corda, e é exatamente o que o salmo descreve no v. 5.

O Salmo 98 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é quase um irmão gêmeo do Salmo 96 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Os dois começam com o convite a cantar ao Senhor um cântico novo (Sl 96.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 98.1), os dois falam da salvação de Deus e da sua glória diante das nações, os dois chamam o mar a bramir com tudo o que o enche (Sl 96.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 98.7), e os dois terminam com a mesma razão: o Senhor vem para julgar a terra, e o seu governo sobre o mundo e sobre os povos será reto (Sl 96.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 98.9). Há diferenças: o Salmo 96 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) combate mais diretamente os deuses das nações, enquanto o Salmo 98 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) se concentra no que o Senhor fez e na alegria que isso provoca. O Salmo 96 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), por sua vez, é retomado quase inteiro no cântico que as Crônicas põem no dia em que a arca chegou a Jerusalém (1Cr 16.23-33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O parentesco mais revelador, porém, é com a segunda parte do livro de Isaías. O v. 3 do salmo, ao dizer que as extremidades do mundo contemplaram o livramento operado pelo nosso Deus, usa quase as mesmas palavras de Is 52.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), onde o Senhor arregaça o braço santo à vista das nações. O braço que traz a vitória (v. 1) aparece em Is 59.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Is 63.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); o cântico novo que os confins da terra devem cantar, em Is 42.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); e os elementos da natureza que batem palmas, em Is 55.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Os estudiosos discutem se o salmo depende de Isaías ou se ambos bebem da mesma linguagem do culto do templo. Seja como for, o salmo ganha um horizonte claro: canta a salvação que Deus prometeu ao seu povo e que, segundo os profetas, seria vista por todas as nações.

O pano de fundo mais antigo é o cântico do mar, em Êxodo 15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Ali, depois da travessia, Moisés e o povo cantam a vitória do Senhor: a força majestosa da mão direita do Senhor (Ex 15.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), as maravilhas que ele faz (Ex 15.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a salvação que ele se tornou para o povo (Ex 15.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e, no fim, o reinado do Senhor para sempre (Ex 15.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 98 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) retoma esse vocabulário. Muitos intérpretes entendem que, para o povo que voltou do exílio na Babilônia, a libertação foi como um novo êxodo, e que o salmo canta essa nova saída com as palavras da primeira. O texto, porém, não menciona o exílio, e o salmo pode ser cantado em qualquer tempo em que Deus manifesta a sua salvação.


📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo

O salmo abre convidando a cantar ao Senhor uma canção que ainda não foi cantada, porque ele realizou feitos espantosos: com a própria mão direita e com o seu braço santo, ele venceu (v. 1). Deus deu a conhecer o livramento que operou e expôs a sua justiça diante dos olhos dos povos (v. 2). Fez isso porque não se esqueceu do amor leal e da fidelidade que devia a Israel, e até as extremidades do mundo puderam contemplar o que o nosso Deus fez para salvar (v. 3).

A segunda estrofe estende o convite a toda a terra: que ela levante o brado ao Senhor, rompa em festa, cante e toque (v. 4). O salmo nomeia os instrumentos: a lira, junto com a voz que canta (v. 5); as trombetas de metal e a trompa de chifre, tocadas na presença do Rei, o Senhor (v. 6).

A terceira estrofe convoca a própria criação. Que o mar ressoe com tudo o que vive nele, e o mundo, com os seus moradores (v. 7); que os rios aplaudam e os montes, em coro, gritem de alegria (v. 8), na presença do Senhor que está chegando para julgar a terra. O seu governo sobre o mundo será reto, e o seu trato com os povos, sem desvio nem favoritismo (v. 9).


🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)

Versículos 1-3 — O braço santo que trouxe a vitória
O salmo começa com um imperativo, shiru, cantai, e o objeto do canto é um shir ḥadash, um cântico novo. A expressão aparece em vários salmos (Sl 33.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 40.3; 96.1; 144.9; 149.1) e em Isaías (Is 42.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não significa apenas uma melodia que ainda não se conhecia. Na Bíblia, o cântico novo é a resposta a uma ação nova de Deus: quando ele salva, a gratidão exige palavras que antes não existiam. No Salmo 40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o cântico novo é posto na boca de quem foi tirado do poço (Sl 40.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No Apocalipse, o cântico novo é entoado diante do Cordeiro (Ap 5.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 14.3). O cântico novo é o canto de quem viu Deus agir.

O motivo vem em seguida: ki-nifla'ot 'asah, porque ele fez maravilhas. A palavra nifla'ot designa os atos extraordinários de Deus, sobretudo os do êxodo (Ex 3.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 15.11; Sl 78.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o verso continua com uma frase de grande força: a sua mão direita, yemino, e o seu braço santo, zeroa' qodsho, hoshi'ah-lo, lhe deram a vitória. O verbo é da raiz yasha', salvar, e pode ser traduzido como "trouxeram-lhe vitória" ou "obtiveram-lhe salvação". O ponto é que Deus não precisou de aliados. O braço que salva é o dele, e é santo, isto é, distinto, separado, inteiramente dele. Isaías usa a mesma imagem para dizer que o Senhor, sem encontrar quem interviesse, agiu sozinho e venceu com a força do próprio braço (Is 59.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 63.5).

O v. 2 diz o que Deus fez com essa vitória: hodi'a, tornou conhecida, a sua yeshu'ah, salvação, e gillah, revelou, a sua tsedaqah, justiça, le'enê haggoyim, aos olhos das nações. O paralelismo sinônimo junta salvação e justiça. Para o leitor moderno, justiça costuma soar como castigo; aqui, ela é a fidelidade de Deus em agir corretamente, cumprir as suas promessas e pôr as coisas no lugar. A justiça de Deus, neste verso, é salvadora. E ela não acontece às escondidas: é exposta diante das nações, como um espetáculo público.

O v. 3 explica a raiz dessa salvação: Deus zakhar, lembrou-se, do seu ḥesed, amor leal, e da sua 'emunah, fidelidade, leveit yisra'el, para com a casa de Israel. A memória de Deus, na Bíblia, nunca é mera lembrança mental; quando Deus se lembra, ele age. Lembrou-se de Noé, e as águas baixaram (Gn 8.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); lembrou-se da aliança com Abraão, e começou a libertação do Egito (Ex 2.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A salvação nasce da fidelidade de Deus à aliança, não de algum mérito do povo. E a segunda linha amplia de novo o alcance: as extremidades da terra, kol-'afsê-'arets, ra'u, contemplaram, a yeshu'at 'elohenu, o livramento do nosso Deus. A expressão final é quase idêntica a Is 52.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).

Há um detalhe notável nesta estrofe: a raiz yasha' aparece nos três versos (hoshi'ah no v. 1, yeshu'ato no v. 2, yeshu'at no v. 3). A salvação é o fio que une a estrofe. E o movimento é de dentro para fora: começa com o que Deus fez por si mesmo (v. 1), passa ao que ele mostrou às nações (v. 2) e chega aos confins da terra, que viram o que ele fez por Israel (v. 3). A eleição de Israel não é um privilégio fechado; é o caminho pelo qual a salvação chega ao mundo.

Versículos 4-6 — A terra inteira aclama o Rei
A segunda estrofe é uma explosão de verbos de alegria. O v. 4 chama kol-ha'arets, toda a terra, a hari'u, aclamar com gritos. O verbo pertence à mesma família da teru'ah, o brado de guerra e de festa, o grito com que o povo saudava o rei (1Sm 10.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Nm 23.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Seguem-se três imperativos, um atrás do outro: pitsḥu, irrompei, como algo que se rompe e transborda; rannenu, cantai com júbilo; zammeru, tocai, cantai com instrumentos. O verbo pitsḥu aparece na segunda parte de Isaías, onde os montes e a terra são chamados a irromper em cânticos pela redenção do povo (Is 44.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 49.13; 52.9). A acumulação dos verbos é intencional: não há uma palavra que baste para tanta alegria.

O v. 5 nomeia o instrumento: o kinnor, a lira, instrumento de cordas que Davi tocava (1Sm 16.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), com o qol zimrah, o som do canto. A repetição do verbo zammeru no começo do verso cria um efeito de eco, comum na poesia hebraica, em que cada linha retoma e alarga a anterior.

O v. 6 acrescenta os sopros. As ḥatsotserot eram as trombetas de metal, de uso sacerdotal, que a Lei mandava tocar nas festas e nos sacrifícios (Nm 10.1-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o shofar era a trompa feita de chifre de carneiro, usada para dar alarme, convocar o povo e anunciar momentos solenes. Juntos, os dois instrumentos cobrem o culto do templo e a vida do povo. E o shofar tinha uma ligação especial com a coroação: foi ao som dele que Salomão foi aclamado rei (1Rs 1.34, 39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e com ele se proclamou o reinado de Jeú (2Rs 9.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Por isso o verso termina dizendo onde toda essa música deve soar: lifnê hammelekh YHWH, diante do Rei, o Senhor. É o único lugar do salmo em que a palavra rei aparece, e ela está no centro do poema. Toda a festa é uma coroação.

É importante perceber quem é chamado a essa aclamação: não apenas Israel, mas toda a terra (v. 4). O salmo imagina as nações, que no v. 3 viram a salvação, juntando-se ao povo de Deus no culto. A alegria de Israel se torna a alegria do mundo.

Versículos 7-9 — A criação inteira à espera do Juiz
A terceira estrofe alarga o círculo uma última vez. Depois de Israel e das nações, é a criação inteira que é chamada a cantar. O v. 7 começa com o mar: yir'am hayyam umelo'o, brame o mar e o que o enche. Na poesia do antigo Oriente Próximo, o mar era muitas vezes símbolo do caos e das forças hostis; na Bíblia, ele também aparece assim (Sl 93.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aqui, porém, o mar não é inimigo: o seu rugido se torna parte do coro. A segunda linha acrescenta a tevel, o mundo habitado, e os yoshvê vah, os que nele habitam, numa expressão que lembra o Salmo 24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (Sl 24.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O v. 8 traz duas das imagens mais bonitas do Saltério. Os neharot, rios, yimḥa'u-khaf, batem palmas. O gesto era o de saudar o rei (2Rs 11.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os rios, com o barulho das suas águas, aplaudem a chegada do Senhor. E os harim, montes, yaḥad yerannenu, cantam juntos de alegria. Isaías usa uma imagem próxima ao anunciar a volta alegre dos redimidos, com as colinas cantando e as árvores aplaudindo à sua passagem (Is 55.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No Salmo 97 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), os montes se derretiam como cera diante do Senhor (Sl 97.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); aqui, eles cantam. Não há contradição: diante do Rei, a criação ou treme ou se alegra, e a mesma presença pode produzir os dois efeitos.

O v. 9 dá o motivo dessa alegria cósmica, e o motivo é surpreendente: ki ba' lishpot ha'arets, porque ele vem para julgar a terra. A criação se alegra com o juízo. Isso só faz sentido quando se entende o que significa julgar na Bíblia. O verbo shafat não designa apenas condenar; designa governar, pôr as coisas em ordem, fazer justiça aos oprimidos, restaurar o que estava torto. Os juízes de Israel eram libertadores (Jz 2.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Senhor vem julgar para endireitar o mundo. Por isso a segunda metade do verso diz como ele julgará: yishpot-tevel betsedeq, o mundo habitado será governado com justiça, we'ammim bemesharim, e os povos, com o que é reto. A palavra mesharim vem da raiz do que é reto, plano, nivelado. O governo do Senhor não terá favoritismo nem desvio.

O particípio ba' pode ser lido como "veio" ou "está vindo". O salmo celebra uma vinda que já se anuncia, mas ainda não se completou. A criação canta por antecipação. Paulo dirá que a criação inteira geme como mulher em trabalho de parto e espera, na ponta dos pés, o dia em que os filhos de Deus serão manifestados (Rm 8.19-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): o Salmo 98 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) a mostra no dia em que a espera termina.

Vista no conjunto, a estrutura do salmo é de três estrofes de três versos, num movimento de círculos que se alargam. A primeira olha para o passado: o que Deus fez, a vitória e a salvação para Israel, vista pelas nações. A segunda olha para o presente: a terra inteira chamada a aclamar o Rei. A terceira olha para o futuro: a criação inteira saudando o Juiz que vem. Israel, as nações, o cosmos; passado, presente, futuro. E a palavra tsedeq, justiça, aparece no começo (v. 2) e no fim (v. 9): a justiça que salvou Israel é a mesma que governará o mundo.


✨ 4. Versículos-Chave

Sl 98.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O cântico novo nasce das maravilhas de Deus. O verso ensina que o louvor bíblico não é um esforço de produzir sentimentos, mas a resposta a algo que Deus fez. O braço santo que trouxe a vitória é o tema que a segunda parte de Isaías desenvolve até chegar ao Servo do Senhor, quando o profeta se pergunta quem foi capaz de reconhecer o braço do Senhor naquele que via (Is 53.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O evangelho de João aplica essa pergunta à incredulidade diante dos sinais de Jesus (Jo 12.37-38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Para o leitor cristão, o braço santo de Deus tem nome.

Sl 98.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A salvação revelada à vista das nações e vista pelos confins da terra. No templo de Jerusalém, o velho Simeão tomou o menino Jesus nos braços e louvou a Deus porque pôde, enfim, ver com os próprios olhos o livramento preparado para todos os povos: uma luz que torna Deus conhecido entre os gentios e a honra maior de Israel (Lc 2.30-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O cântico de Simeão é quase uma releitura deste verso. E estudiosos como Richard B. Hays apontaram que, quando Paulo afirma que a justiça de Deus vem à luz no anúncio do evangelho (Rm 1.16-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), ele usa uma linguagem muito próxima da que este salmo tem na antiga tradução grega.

Sl 98.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Senhor vem julgar a terra, e a criação se alegra. O verso ensina que o juízo de Deus é boa notícia para um mundo ferido pela injustiça. O Novo Testamento afirma que esse juízo foi confiado ao Filho (Jo 5.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Paulo, falando aos atenienses, anuncia que Deus já marcou o dia de julgar o mundo com justiça pelas mãos de um homem que ele escolheu, e que a ressurreição desse homem é a garantia disso (At 17.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A formulação de Paulo ecoa a do salmo.


⛪ 5. Temas Teológicos Centrais

O cântico novo e a salvação de Deus. O salmo é um convite a cantar porque Deus salvou. A palavra salvação atravessa a primeira estrofe, e o seu conteúdo é a vitória de Deus sobre o que oprimia o seu povo. Na história bíblica, essa salvação tem muitos capítulos: o êxodo, a volta do exílio, os livramentos de cada geração. Todos eles apontam para a salvação definitiva, que o Novo Testamento anuncia em Cristo. O próprio nome de Jesus, em hebraico, é formado a partir da raiz yasha', salvar, e o anjo explica a José que o menino o recebe porque a sua missão será resgatar o seu povo do pecado (Mt 1.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O cântico novo que o Salmo 98 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) pede é, em última instância, o cântico da redenção em Cristo, que o Apocalipse mostra sendo entoado diante do Cordeiro (Ap 5.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A salvação de Israel para as nações. O salmo é profundamente missionário. A salvação começa com a fidelidade de Deus à casa de Israel (v. 3), mas não fica ali: é revelada às nações (v. 2), vista pelos confins da terra (v. 3), e toda a terra é chamada a aclamar o Rei (v. 4). É o caminho da promessa feita a Abraão, de que por meio dele a bênção alcançaria todos os clãs da terra (Gn 12.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e da missão do Servo, chamado a iluminar os povos e a levar o livramento de Deus aos extremos do mundo (Is 49.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo citará essa mesma passagem de Isaías para explicar por que levava o evangelho aos gentios (At 13.47 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O juízo como restauração. O salmo termina com o juízo de Deus, e esse juízo é motivo de festa. A Bíblia não esconde que o juízo significa condenação do mal; mas o seu primeiro sentido é o de pôr o mundo em ordem, fazer justiça aos que sofreram injustiça, restaurar a criação. Para os oprimidos, para a criação que geme, para os que clamaram durante gerações, a vinda do Juiz é a melhor notícia possível. O Apocalipse mostra os mártires perguntando até quando Deus esperaria para fazer justiça (Ap 6.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e termina com a nova criação, onde nada mais será amaldiçoado (Ap 22.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A criação que louva. O mar, os rios e os montes participam do louvor. A Bíblia apresenta a criação não como cenário neutro, mas como testemunha da glória de Deus (Sl 19.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 148) e como participante da esperança da redenção (Rm 8.19-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O pecado humano trouxe maldição sobre a terra (Gn 3.17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); a vinda do Rei traz alegria a ela. A salvação que o salmo celebra não é a fuga das almas para fora do mundo, mas a restauração do mundo inteiro.


✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo

6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?

O Salmo 98 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) abarca, nos seus nove versos, quase todo o arco da história bíblica. Olha para trás, para as maravilhas que Deus fez, e o leitor israelita pensava no êxodo e, talvez, na volta do exílio, os grandes momentos da Redenção em andamento. Olha para o presente da adoração, com a terra inteira chamada a aclamar o Rei. E olha para a frente, para a vinda do Juiz que porá o mundo em ordem, a Nova Criação. A Queda está implícita: se a criação precisa ser julgada com justiça e retidão, é porque ela está desordenada, e se o mar e os montes esperam a vinda do Rei para se alegrar, é porque ainda estão sob a maldição que o pecado trouxe (Gn 3.17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Redenção consumada em Cristo cumpre o salmo em duas etapas: na primeira vinda, a salvação foi revelada às nações; na segunda, o Juiz virá para julgar o mundo com justiça.

6.2 — O braço santo do Senhor tem um nome

O v. 1 diz que o braço santo do Senhor lhe trouxe a vitória. Na segunda parte do livro de Isaías, essa imagem ganha uma forma surpreendente. O profeta anuncia que o Senhor arregaçará o braço santo diante dos povos e que as extremidades do mundo verão o livramento de Deus (Is 52.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em termos quase iguais aos do v. 3 do salmo. Logo em seguida, começa o quarto cântico do Servo (Is 52.13–53.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o profeta se pergunta quem foi capaz de reconhecer o braço do Senhor naquilo que viu (Is 53.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A resposta é inesperada: o braço do Senhor é um Servo sem beleza que chamasse a atenção, rejeitado pelos homens, ferido por causa da culpa alheia, que toma sobre si o peso do pecado de muitos.

O evangelho de João aplica essa pergunta de Isaías à incredulidade dos que viram os sinais de Jesus e não creram nele (Jo 12.37-38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Para os evangelistas, o braço santo do Senhor, o instrumento da sua vitória, é Jesus. E a vitória que esse braço obtém não é a de um guerreiro que esmaga os inimigos, mas a de um Servo que entrega a vida. O cântico novo do Salmo 98 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é cantado, no Apocalipse, ao Cordeiro imolado, cujo sangue resgatou para Deus pessoas de toda origem, língua e nação (Ap 5.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A vitória do braço santo foi conquistada na cruz.

6.3 — A salvação vista pelas nações: o cântico de Simeão

O cumprimento mais comovente do salmo está no evangelho de Lucas. Quarenta dias depois do nascimento de Jesus, Maria e José o levam ao templo, e ali um homem idoso, Simeão, a quem o Espírito prometera que veria o Ungido antes de morrer, toma o menino nos braços. A sua oração (Lc 2.29-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) é uma releitura dos vv. 2-3 do Salmo 98 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e de Is 52.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): ele louva a Deus porque, enfim, pôde ver com os próprios olhos o livramento que Deus havia preparado para todos os povos: uma luz que torna Deus conhecido entre os gentios e a honra maior de Israel.

A correspondência é precisa. O salmo diz que Deus revelou a salvação aos olhos das nações (v. 2) e que se lembrou do seu amor leal para com Israel (v. 3); Simeão contempla essa salvação posta diante dos povos, iluminando os gentios e honrando Israel. E pouco antes, no mesmo evangelho, Maria cantara o Deus que veio em auxílio de Israel por não se esquecer da sua misericórdia (Lc 1.54-55 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Zacarias celebrara a fidelidade de Deus à aliança feita com os pais (Lc 1.72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A memória de Deus que o salmo celebra (v. 3) tem, para Lucas, um rosto concreto: o menino nascido em Belém.

Isso significa que, para os leitores do Novo Testamento, o Salmo 98 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não é apenas uma esperança. É um cântico que se pode cantar sabendo que a salvação já foi vista. O que o salmista contemplava de longe, Simeão segurou nos braços.

6.4 — O Rei que vem julgar com justiça

O salmo termina com a vinda do Senhor para julgar a terra. O Novo Testamento afirma que esse Juiz é Jesus. O próprio Jesus disse que o Pai entregou ao Filho a tarefa de julgar, para que o Filho recebesse a mesma honra que o Pai (Jo 5.22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele descreveu a sua vinda em glória, quando todas as nações serão reunidas diante dele (Mt 25.31-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E Paulo, em Atenas, anunciou que o dia desse julgamento justo já está marcado e que o homem por meio de quem Deus julgará foi confirmado diante de todos pela ressurreição (At 17.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O mais extraordinário é que o Juiz que vem é o mesmo braço santo que foi ferido. Quem julgará o mundo com retidão é aquele que, na cruz, recebeu sobre si o juízo do pecado. Por isso a vinda do Juiz pode ser motivo de alegria, e não de terror, para os que nele confiam: o tribunal está nas mãos daquele que deu a vida por eles (Rm 8.33-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E por isso a criação se alegra: Paulo diz que ela deixará de estar presa à decadência e terá parte na liberdade e na glória dos filhos de Deus (Rm 8.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os rios que batem palmas e os montes que cantam no v. 8 são a imagem poética dessa libertação.

6.5 — O Evangelho no capítulo

O Salmo 98 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) pode ser pregado como o evangelho em três tempos. No passado, Deus fez maravilhas: o seu braço santo obteve a vitória, e esse braço é Jesus, que venceu o pecado e a morte na cruz e na ressurreição. No presente, a salvação é anunciada a todas as nações, e todos, judeus e gentios, são chamados a aclamar o Rei com alegria; é o tempo da Igreja e da missão. No futuro, o Rei virá para julgar o mundo com justiça, e a criação inteira será libertada.

A boa notícia está em que ninguém precisa ficar de fora do coro. O salmo chama toda a terra, e a salvação foi revelada aos olhos das nações. Quem ainda não canta o cântico novo é convidado a olhar para o braço santo de Deus, estendido na cruz, e a receber a salvação que ele obteve. E quem já canta é lembrado de que a festa não está completa enquanto houver lugares do mundo que ainda não contemplaram o livramento do nosso Deus.


🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)


🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico

Cante porque Deus agiu. O louvor do Salmo 98 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não nasce do humor do dia, mas das maravilhas de Deus. Há dias em que o cristão não sente vontade de cantar, e o salmo não pede que ele finja alegria. Pede que ele se lembre do que Deus fez. O braço santo obteve a vitória na cruz e na ressurreição de Cristo, e isso continua verdadeiro em qualquer dia. O cântico novo é sempre a resposta a uma obra concreta de Deus, e a maior delas já foi realizada.

Lembre que a salvação é para as nações. O salmo não permite uma fé de gueto. A salvação foi revelada à vista das nações, e toda a terra é chamada a aclamar o Rei. A Igreja que canta o Salmo 98 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não pode ser indiferente à missão, nem tratar os de fora como inimigos. A alegria que recebemos de Cristo foi feita para transbordar até os confins da terra, e cada cristão participa disso pela oração, pelo testemunho e pelo serviço.

Deixe a criação lembrar você da esperança. O mar, os rios e os montes estão no salmo como participantes do louvor. Isso ensina a olhar para a criação com reverência e responsabilidade: ela não é matéria descartável, mas obra de Deus que espera a redenção. Cuidar dela é, de algum modo, antecipar o dia em que os rios baterão palmas. E contemplar a sua beleza, mesmo ferida, pode ser um exercício de esperança: o Rei vem, e a criação será libertada.

Espere o Juiz com alegria. Muitos pensam no juízo final apenas com medo. O salmo mostra que, para quem conhece o Rei, a sua vinda é a melhor notícia: o mundo será endireitado, as injustiças serão corrigidas, as lágrimas serão enxugadas. O cristão não espera o juízo com terror, porque o Juiz é o mesmo que morreu por ele. E essa esperança dá coragem para lutar pela justiça agora, sabendo que nenhum esforço feito em nome do Rei será perdido (1Co 15.58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).


🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo

  1. O salmo pede um cântico novo porque Deus fez maravilhas (v. 1). Que maravilhas Deus fez na sua vida que merecem um cântico novo? Por que o louvor bíblico começa pelo que Deus fez, e não pelo que sentimos?
  2. Os vv. 1-3 mostram a salvação de Israel sendo vista pelas nações. Como a eleição de Israel e a missão da Igreja se relacionam nesse movimento?
  3. Leia o cântico de Simeão (Lc 2.29-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) ao lado dos vv. 2-3 do salmo. O que muda quando se percebe que a salvação que o salmista esperava foi segurada nos braços de um velho no templo?
  4. Por que a vinda do Juiz (v. 9) é motivo de alegria no salmo? Que diferença faz saber que o Juiz é o mesmo que foi ferido na cruz?
  5. O mar, os rios e os montes são chamados a louvar (vv. 7-8). Como essa visão da criação influencia a maneira como o cristão trata o mundo natural?
  6. Para meditação e oração: cante ou leia em voz alta o salmo inteiro, devagar. Depois, agradeça a Deus pelo braço santo que trouxe a vitória em Cristo e ore por um povo ou lugar que ainda não conheceu o livramento que vem de Deus.

📚 10. Para Aprofundamento

Cristocêntrica / Teologia Bíblica:

  • Sidney Greidanus — Preaching Christ from the Old Testament (Eerdmans, 1999)
  • Christopher J. H. Wright — A missão de Deus (Vida Nova) / The Mission of God (IVP, 2006), sobre a salvação de Israel destinada às nações
  • Richard B. Hays — Echoes of Scripture in the Letters of Paul (Yale University Press, 1989)
  • Sigmund Mowinckel — The Psalms in Israel's Worship (Blackwell, 1962), para a discussão clássica sobre os salmos de entronização

Comentários dos Salmos:

  • Derek Kidner — Salmos 73–150 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
  • Marvin E. Tate — Psalms 51–100 (Word Biblical Commentary, 1990)
  • Nancy deClaissé-Walford, Rolf A. Jacobson e Beth LaNeel Tanner — The Book of Psalms (NICOT, Eerdmans, 2014)
  • Frank-Lothar Hossfeld e Erich Zenger — Psalms 2: A Commentary on Psalms 51–100 (Hermeneia, Fortress, 2005)
  • Agostinho — Comentário aos Salmos (Paulus, coleção Patrística)

Sabedoria para o Cotidiano
O cântico novo não nasce do esforço de se animar, mas da lembrança do que Deus fez: o seu braço santo obteve a vitória, e esse braço, estendido na cruz, tem o nome de Jesus. Cante, então, mesmo nos dias cinzentos, porque a salvação já foi vista; deixe que essa alegria chegue aos que ainda não a conhecem; e olhe para o mar e para os montes como quem espera a festa. O Juiz que vem endireitar o mundo é o mesmo que deu a vida por você, e por isso a sua vinda é motivo de canto, e não de medo.

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