Salmos · 19 de 66 · Antigo Testamento
Salmos — Resumo do livro

O livro de Salmos é o coração orante das Escrituras. Se nos demais livros Deus fala ao seu povo, aqui o povo fala a Deus — e o faz com todas as vozes possíveis: o grito do perseguido, o soluço do arrependido, a perplexidade de quem vê o ímpio prosperar, o júbilo da festa no templo, a confiança serena de quem descansa sob a proteção divina. Não há emoção humana legítima que não encontre lugar no Saltério. Calvino, no prefácio de seu comentário, chamou o livro de uma anatomia de todas as partes da alma; Lutero, no prefácio de 1528, de uma pequena Bíblia, pois nele se encontra, em forma de oração, o resumo de toda a Escritura.
São cento e cinquenta composições reunidas ao longo de séculos, cantadas no templo, recitadas no exílio, rezadas nas sinagogas, entoadas por Jesus e seus discípulos e, desde então, oradas pela Igreja em todas as épocas e línguas. É um livro que ensina não apenas o que crer, mas como falar com Deus em cada circunstância da vida. Seu eixo pode ser resumido numa tensão que o atravessa do primeiro ao último salmo: lamento e louvor — a passagem, nem sempre rápida, da queixa à confiança e da confiança à adoração, sob o governo do Deus que reina e do Rei que Ele ungiu.
1. Contexto e Autor
O título hebraico do livro é Tehillim, "louvores", palavra derivada da mesma raiz de hallelu-yah. O nome que chegou às línguas ocidentais vem do grego psalmoi, termo que designava cânticos acompanhados de instrumentos de corda, e que deu origem também a psaltērion, o saltério.
Salmos não é obra de um único autor, mas uma coletânea com muitas vozes. Os títulos preservados no texto hebraico atribuem 73 salmos a Davi, lembrado no fim de sua vida como o cantor dos salmos de Israel (2Sm 23.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), cuja habilidade musical é atestada desde a juventude (1Sm 16.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Outros nomes aparecem nos títulos: Asafe (Sl 50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 73–83), músico levita do tempo de Davi (1Cr 16.4-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); os filhos de Corá (Sl 42–49 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 84–85; 87–88), família levítica de cantores; Salomão (Sl 72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 127); Hemã (Sl 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e Etã (Sl 89 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), sábios mencionados em 1 Reis 4.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); e Moisés, a quem se atribui o Salmo 90 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o mais antigo segundo a tradição. Cerca de um terço dos salmos não traz qualquer atribuição. A expressão hebraica traduzida por "de Davi" (le-David) pode indicar autoria, mas também dedicação ou pertença a uma coleção davídica, e os estudiosos discutem seu sentido em cada caso; o Novo Testamento, porém, trata vários desses salmos como davídicos (Mc 12.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 2.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Rm 4.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A composição se estende por um período amplo. O núcleo davídico remonta ao século X a.C.; outros salmos refletem a monarquia posterior; alguns pressupõem claramente o exílio babilônico, como o Salmo 137 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que evoca os exilados junto aos rios da Babilônia, e o Salmo 126 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que celebra o retorno. A compilação final do Saltério na forma que conhecemos é geralmente situada no período pós-exílico, no contexto do segundo templo. Os Manuscritos do Mar Morto, especialmente o grande rolo de Salmos da caverna 11 (11QPsa), mostram que ainda circulavam, por volta do início da era cristã, coleções com ordem e conteúdo parcialmente diferentes.
O ambiente vital de muitos salmos foi o culto no templo de Jerusalém. As Crônicas registram a organização dos levitas cantores por Davi (1Cr 25.1-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e a ordem de Ezequias para que o louvor fosse feito com as palavras de Davi e de Asafe (2Cr 29.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Alguns títulos trazem indicações musicais e litúrgicas cujo sentido exato se perdeu, como instruções ao regente, nomes de melodias e instrumentos. O termo selah, que aparece cerca de setenta vezes no livro, provavelmente indicava uma pausa ou interlúdio musical, mas seu significado preciso é incerto.
Treze salmos trazem, no título, uma referência a episódios da vida de Davi: a fuga diante de Absalão (Sl 3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o momento em que se fingiu de louco diante de um rei filisteu (Sl 34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a visita do profeta Natã depois do pecado com Bate-Seba (Sl 51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o refúgio na caverna (Sl 57 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 142), entre outros. Esses títulos, embora provavelmente acrescentados na fase de compilação, funcionam como pontes entre a narrativa histórica e a oração: mostram que os salmos nasceram de vidas reais.
Há ainda diferenças de numeração que o leitor precisa conhecer. A tradução grega (Septuaginta) e a Vulgata latina uniram os salmos 9 e 10, bem como 114 e 115, e dividiram os salmos 116 e 147. Por isso, entre os salmos 10 e 147, a numeração dessas tradições — seguida em muitas edições católicas mais antigas e na liturgia ortodoxa — costuma estar um número abaixo da numeração hebraica, adotada neste estudo. A Septuaginta traz também um Salmo 151 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), breve composição sobre a vitória de Davi sobre Golias, reconhecido como canônico nas Igrejas Ortodoxas, mas não no cânon hebraico, nem no católico, nem no protestante.
O movimento geral do livro vai da instrução ao louvor: começa com a bem-aventurança de quem medita na lei do Senhor (Sl 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e termina convocando todo ser vivo a louvar a Deus (Sl 150 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Entre um extremo e outro, a jornada passa por muito lamento — e a proporção de lamentos é maior na primeira metade do livro, enquanto o louvor predomina na segunda.
2. Propósito e Mensagem Central
Salmos existe para ensinar o povo de Deus a orar e a adorar. É, ao mesmo tempo, hinário litúrgico, manual de oração pessoal e livro de sabedoria. Seu propósito não é apenas registrar o que Israel disse a Deus, mas oferecer palavras para que cada geração continue a dizê-lo. Atanásio de Alexandria, em sua Carta a Marcelino (século IV), observou que, enquanto os demais livros falam a nós, os Salmos falam por nós: o leitor os recebe como se fossem suas próprias palavras.
Teologicamente, o livro revela um Deus que reina sobre a criação, sobre as nações e sobre a história; que se liga ao seu povo por meio da aliança e se mostra fiel a ela com hesed — amor leal, misericórdia pactual, termo que ocorre mais de uma centena de vezes no Saltério —; que escolheu Sião como lugar de sua presença e Davi como seu rei ungido; e que ouve o clamor do aflito. Revela também o ser humano diante desse Deus: frágil, pecador, perseguido, mas convidado a derramar o coração em sua presença (Sl 62.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O problema que o livro enfrenta é a distância entre a promessa e a experiência. Deus prometeu proteger o justo, estabelecer o trono de Davi e fazer de Sião a alegria de toda a terra; mas o justo é perseguido, o ímpio prospera, o rei é derrotado, o templo é destruído. Os salmos não resolvem essa tensão com teoria: eles a levam a Deus em oração. O lamento é a fé que se recusa a desistir da promessa quando a realidade parece negá-la.
A estrutura do livro, lida em conjunto, conta também uma história. O Saltério começa sob o signo da aliança davídica (Sl 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), passa por sua aparente falência (Sl 89 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e responde a ela com a proclamação do reinado divino, YHWH malak, acima de todo trono humano (Sl 93 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 95–99), abrindo espaço para a esperança de um Rei futuro (Sl 110 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e culminando no louvor universal (Sl 146–150 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Gerald H. Wilson, em The Editing of the Hebrew Psalter (1985), demonstrou como a organização editorial dos cinco livros não é aleatória, mas conduz o leitor por esse percurso teológico.
Numa fórmula-linha: Torá e bem-aventurança → o Rei ungido → lamento e perseguição → confiança → falência aparente da monarquia → Deus é Rei → peregrinação e esperança messiânica → louvor universal.
3. Principais Temas
O reinado de Deus. A convicção mais fundamental dos Salmos é que Deus é Rei. Os chamados salmos de entronização (Sl 47 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 93; 95–99) celebram o Senhor como soberano sobre os deuses das nações, sobre o mar revolto e sobre toda a terra. Esse reinado não é abstrato: significa que Deus julgará o mundo com justiça e governará os povos com retidão (Sl 96.10-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 98.9). James L. Mays, em The Lord Reigns (1994), sustenta que essa afirmação é a metáfora-raiz que organiza toda a teologia do Saltério. Mesmo os lamentos pressupõem esse reinado: só se clama por justiça a quem tem autoridade para fazê-la.
O amor leal e a fidelidade de Deus. O par hesed e emunah (ou emet), amor fiel e fidelidade, é o fundamento da confiança do salmista. O Salmo 136 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) constrói toda a história — da criação ao êxodo e à posse da terra — sobre um refrão que repete, em cada um de seus 26 versículos, que o amor leal de Deus dura para sempre. Quando o salmista pede socorro, não apela ao próprio mérito, mas a esse amor pactual (Sl 6.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 51.1; 109.26).
A Torá como caminho de vida. Três salmos celebram de modo especial a lei de Deus: o Salmo 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que abre o livro; o Salmo 19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que coloca a revelação da lei ao lado da revelação dos céus; e o Salmo 119 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o mais longo capítulo da Bíblia, um acróstico de 176 versículos em que cada uma das 22 estrofes começa com uma letra do alfabeto hebraico e quase todos os versículos mencionam a palavra de Deus por algum de seus sinônimos. Torá aqui não significa legalismo, mas instrução amorosa, caminho que conduz à vida e fonte de alegria (Sl 19.7-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 119.97).
O Rei ungido e a aliança davídica. Deus prometeu a Davi uma dinastia eterna (2Sm 7.12-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e os salmos régios celebram essa promessa: a entronização do rei como filho de Deus (Sl 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), suas vitórias (Sl 18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 20; 21), seu casamento (Sl 45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), seu governo justo em favor dos pobres (Sl 72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a aliança jurada (Sl 89 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 132) e seu sacerdócio segundo a ordem de Melquisedeque (Sl 110 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Esses textos sempre excederam a realidade de qualquer rei histórico de Israel — e por isso, após o fim da monarquia, foram lidos como expectativa do Messias (mashiach, "ungido").
Sião e a presença de Deus. Jerusalém, o monte Sião e o templo ocupam lugar central. Os cânticos de Sião (Sl 46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 48; 76; 84; 87; 122) celebram a cidade como morada de Deus, refúgio inabalável e centro de onde a bênção se estende às nações. O Salmo 87 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) chega a imaginar povos estrangeiros registrados como nascidos em Sião. O anseio pela presença de Deus no templo é descrito com imagens de sede intensa (Sl 42.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 63.1; 84.1-2).
O justo e o ímpio. Desde o Salmo 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o livro divide a humanidade em dois caminhos. O justo não é o perfeito, mas aquele que confia em Deus e busca andar em seus caminhos; o ímpio é o que vive como se Deus não visse (Sl 10.4,11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 14.1). O escândalo da prosperidade dos ímpios é enfrentado de frente nos salmos sapienciais (Sl 37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 49; 73), cuja resposta é olhar para o fim: o sucesso do ímpio é passageiro, e a comunhão com Deus é o bem supremo (Sl 73.17,25-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O lamento como linguagem da fé. Os lamentos formam o grupo mais numeroso do Saltério. Eles seguem, com variações, um padrão: invocação, queixa, pedido, expressão de confiança e, muitas vezes, voto de louvor. Claus Westermann, em Praise and Lament in the Psalms, observou que quase todo lamento se inclina em direção ao louvor. Há uma exceção célebre: o Salmo 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que termina na escuridão, sem virada — e sua presença no cânon ensina que até a oração sem resposta imediata é oração legítima.
Pecado, perdão e arrependimento. A tradição cristã reuniu sete salmos penitenciais (Sl 6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 32; 38; 51; 102; 130; 143). Neles, o pecado é reconhecido como ofensa contra Deus, com efeitos no corpo e na alma (Sl 32.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 38.3-8), e o perdão é celebrado como felicidade suprema (Sl 32.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) vai à raiz: pede não apenas perdão, mas um coração novo, criado por Deus (Sl 51.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e reconhece que a oferta que Deus aceita é a humildade de quem se sabe quebrado diante dele (Sl 51.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A criação e as nações. Deus é louvado como Criador que sustenta a vida (Sl 8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 19; 104; 148), e o livro tem horizonte universal: as nações são chamadas a reconhecer o Senhor (Sl 67 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 96; 100; 117). O menor salmo, o 117, com apenas dois versículos, é inteiramente um convite a todos os povos para louvar o amor fiel de Deus.
4. Síntese Panorâmica do Saltério
Dada a natureza de coletânea, Salmos não se resume como uma narrativa. Sua síntese exige olhar para três dimensões: a arte poética, os tipos de composição e a arquitetura em cinco livros.
A arte da poesia hebraica
A poesia hebraica não se baseia em rima, mas em paralelismo: uma linha é seguida de outra que a repete, amplia, contrasta ou intensifica. Robert Lowth, em suas preleções de 1753, classificou o paralelismo em sinonímico, antitético e sintético. Estudos posteriores, como os de Robert Alter em The Art of Biblical Poetry (1985), mostraram que a segunda linha raramente é mera repetição: ela aprofunda, concretiza ou eleva a primeira. O Salmo 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é um exemplo de paralelismo antitético em escala ampla, contrastando o destino do justo, comparado a uma árvore junto às águas (Sl 1.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), com o do ímpio, comparado à palha que o vento leva (Sl 1.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Outros recursos incluem refrões (Sl 42–43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que talvez formassem originalmente um único poema, unidos por um refrão que se repete três vezes; Sl 46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 80 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), inclusões — o Salmo 8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) começa e termina com a mesma exclamação sobre a majestade do nome divino — e acrósticos, em que versículos ou estrofes seguem a ordem do alfabeto hebraico (Sl 9–10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 25; 34; 37; 111; 112; 119; 145). A imagética é concreta e vigorosa: Deus é rocha, fortaleza, escudo, pastor, luz, refúgio, torre; o inimigo é leão, touro, cão; a angústia é lodo profundo e águas que sobem até o pescoço (Sl 69.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
As muitas vozes do Saltério
Desde o trabalho pioneiro de Hermann Gunkel, no início do século XX, os estudiosos classificam os salmos por gêneros. Os principais são:
Os hinos celebram Deus por quem Ele é e pelo que faz na criação e na história (Sl 8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 29; 33; 100; 103; 104; 113; 145–150). Os lamentos individuais dão voz ao sofredor que enfrenta doença, inimigos ou culpa (Sl 3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 13; 22; 31; 42–43; 88). Os lamentos coletivos clamam em meio a calamidades nacionais (Sl 44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 74; 79; 80; 137). Os salmos de ação de graças agradecem uma libertação já experimentada (Sl 30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 32; 34; 116; 118). Os salmos de confiança expressam repouso sereno em Deus (Sl 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 23; 27; 62; 91; 121; 131). Os salmos régios tratam do rei davídico (Sl 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 18; 20; 21; 45; 72; 89; 101; 110; 132; 144). Os salmos sapienciais e da Torá refletem sobre os dois caminhos e sobre a palavra de Deus (Sl 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 19; 37; 49; 73; 112; 119; 127; 128). Os salmos históricos recontam a trajetória de Israel como lição de fé (Sl 78 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 105; 106; 135; 136).
Há ainda coleções litúrgicas específicas. Os cânticos de subida (shir ha-ma'alot, Sl 120–134 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) eram provavelmente entoados pelos peregrinos a caminho de Jerusalém para as festas. O Hallel egípcio (Sl 113–118 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) era cantado na Páscoa, e muitos intérpretes entendem que o hino cantado por Jesus e os discípulos após a última ceia (Mt 26.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 14.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) pertencia a essa sequência. E há os salmos imprecatórios, que pedem o juízo de Deus sobre os inimigos em linguagem por vezes chocante (Sl 35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 58; 69; 109; 137) — tema que será retomado adiante.
O pórtico duplo (Sl 1–2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))
Os dois primeiros salmos funcionam como porta de entrada do livro inteiro. Não têm título, e muitos estudiosos entendem que foram colocados deliberadamente na abertura. O Salmo 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) começa com a palavra ashre, "bem-aventurado" ou "feliz", e o Salmo 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) termina com a mesma palavra (Sl 2.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) — uma inclusão que os une. O primeiro apresenta o caminho da Torá; o segundo, o Rei ungido que Deus estabelece em Sião, apesar da revolta das nações. Lei e Messias, instrução e reino: essas duas colunas sustentam o Saltério.
Livro I — a voz de Davi perseguido (Sl 1–41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))
O primeiro livro é quase inteiramente atribuído a Davi e é dominado pelo lamento individual. O salmista enfrenta inimigos numerosos (Sl 3.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), doença (Sl 6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 38; 41), falsas acusações (Sl 7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 35) e a sensação de abandono divino (Sl 13.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A cada passo, porém, a confiança irrompe: Deus é escudo (Sl 3.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), refúgio (Sl 11.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), luz e salvação (Sl 27.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Em meio aos lamentos, surgem pérolas de outra natureza. O Salmo 8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) contempla a dignidade do ser humano, pequeno diante dos céus e, ainda assim, revestido de honra e posto como governante sobre as obras de Deus. O Salmo 19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) une a revelação silenciosa dos céus à revelação explícita da lei. O Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) conduz do grito de abandono mais profundo do Saltério até uma visão de louvor que alcança os confins da terra (Sl 22.27-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) apresenta o Senhor como pastor que guia, restaura e acompanha através do vale mais escuro até a mesa preparada e a casa onde se habita para sempre. O Salmo 32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) celebra a felicidade do perdão. O livro fecha com uma doxologia (Sl 41.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), fórmula de louvor que encerra cada uma das cinco seções.
Livro II — o anseio e a realeza (Sl 42–72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))
O segundo livro abre com os salmos dos filhos de Corá (Sl 42–49 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), marcados pelo anseio da presença de Deus: o salmista, longe do templo, compara o próprio anseio ao de um animal do campo que busca desesperadamente água (Sl 42.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em seguida vêm os cânticos que celebram Deus como refúgio e fortaleza em meio ao caos (Sl 46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e Sião como cidade do grande Rei (Sl 48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Esse livro faz parte do chamado Saltério eloísta (Sl 42–83 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), no qual o nome Elohim (Deus) é usado com muito mais frequência que YHWH, e alguns salmos aparecem em versões paralelas às do primeiro livro — o Salmo 53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), por exemplo, praticamente repete o Salmo 14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), trocando os nomes divinos. É aqui também que está o Salmo 51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), a grande oração penitencial de Davi. O livro culmina no Salmo 72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), oração pelo rei, pedindo que seu governo traga justiça aos pobres, prosperidade à terra e bênção a todas as nações (Sl 72.12-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Uma nota final declara encerradas as orações de Davi, filho de Jessé (Sl 72.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) — embora outros salmos davídicos apareçam adiante, indício de que coleções menores foram reunidas ao longo do tempo.
Livro III — a crise da fé e da aliança (Sl 73–89 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))
O terceiro livro é o mais sombrio. Abre com o Salmo 73 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em que Asafe confessa que quase tropeçou ao ver a prosperidade dos arrogantes, até entrar no santuário de Deus e compreender o fim deles (Sl 73.2-3,16-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Seguem-se lamentos coletivos pela destruição do santuário (Sl 74 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 79) e súplicas pela restauração do povo, com o refrão que pede que Deus faça resplandecer o seu rosto (Sl 80.3,7,19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O ponto mais agudo está nos dois salmos finais. O Salmo 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) termina em trevas, sem nenhuma palavra de consolo. O Salmo 89 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) começa celebrando com entusiasmo a aliança eterna de Deus com Davi (Sl 89.1-37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e, de repente, muda de tom: acusa Deus de ter rejeitado seu ungido, profanado a coroa e derrubado o trono (Sl 89.38-45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e pergunta onde estão as antigas misericórdias juradas a Davi (Sl 89.49 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É o lamento pelo colapso da monarquia davídica, provavelmente à luz do exílio. O livro termina aí, com a pergunta suspensa — seguida apenas da doxologia (Sl 89.52 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Livro IV — o trono que não cai (Sl 90–106 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))
O quarto livro responde à crise. Significativamente, começa com o único salmo atribuído a Moisés (Sl 90 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), como se, diante da queda da monarquia, o leitor fosse conduzido de volta a um tempo anterior aos reis, quando Israel não tinha trono nem templo, mas tinha a Deus como refúgio ao longo de todas as gerações (Sl 90.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 91 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) celebra a proteção de quem se abriga no Altíssimo.
Em seguida vem o bloco central dos salmos de entronização (Sl 93 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 95–99), que proclamam repetidamente o reinado do Senhor como Rei (YHWH malak). A resposta à falência do rei humano é a afirmação do Rei divino. Os salmos 100 a 104 ampliam o louvor, culminando no grande hino à criação (Sl 104 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em cujo fecho aparece, pela primeira vez no livro, a exclamação hallelu-yah (Sl 104.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O livro termina com dois salmos históricos (Sl 105 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 106): o primeiro reconta a fidelidade de Deus desde Abraão até a posse da terra; o segundo, a infidelidade de Israel ao longo da mesma história — e conclui com um pedido para que Deus reúna o povo dentre as nações (Sl 106.47 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), súplica que pressupõe a dispersão do exílio.
Livro V — peregrinação, Torá e louvor final (Sl 107–150 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))
O quinto livro abre com o Salmo 107 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que parece responder diretamente ao pedido que encerrou o livro anterior: celebra os remidos que Deus reuniu dos quatro cantos da terra, e descreve quatro grupos de aflitos — errantes no deserto, prisioneiros, enfermos e navegantes na tempestade — que clamaram e foram libertos.
Davi reaparece (Sl 108–110 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 138–145), mas agora num horizonte que aponta para o futuro. O Salmo 110 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), com o oráculo em que o Senhor convida o rei a sentar-se à sua direita e o declara sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedeque (Sl 110.1,4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), torna-se o texto do Antigo Testamento mais citado no Novo. Seguem-se o Hallel da Páscoa (Sl 113–118 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), culminando no Salmo 118 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), com a imagem da pedra descartada na construção que acaba ocupando o lugar principal do edifício (Sl 118.22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
No centro do livro ergue-se o monumental Salmo 119 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), meditação alfabética sobre a palavra de Deus. Depois dele vêm os quinze cânticos de subida (Sl 120–134 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), breves e afetuosos, que acompanham o peregrino desde o lugar distante onde vive entre inimigos (Sl 120.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) até a bênção final no templo (Sl 134 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 137 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) recorda com dor o exílio. Os salmos 138 a 145 formam a última coleção davídica, incluindo o Salmo 139 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), extraordinária meditação sobre o conhecimento e a presença de Deus, que formou o salmista no ventre materno e de cuja presença não há fuga possível.
O Saltério então se encerra com cinco salmos de aleluia (Sl 146–150 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), cada um começando e terminando com essa exclamação. O louvor se expande em círculos: o Deus que socorre o oprimido (Sl 146 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), que reconstrói Jerusalém e governa a natureza (Sl 147 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), que é louvado pelos céus, pela terra e por todas as criaturas (Sl 148 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), que se alegra em seu povo (Sl 149 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), até o Salmo 150 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), sem nenhuma queixa, nenhum pedido, nenhum inimigo — apenas a convocação de instrumentos, danças e de todos os viventes para o louvor. Walter Brueggemann, em The Message of the Psalms (1984), descreveu o percurso dos salmos como um movimento de orientação, desorientação e nova orientação; o Salmo 150 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o destino final desse caminho.
5. Conexão Cristocêntrica
Jesus mesmo estabeleceu o princípio de leitura: após a ressurreição, explicou aos discípulos que era necessário cumprir-se tudo o que estava escrito a seu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos (Lc 24.44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Saltério está entre os livros do Antigo Testamento mais citados no Novo, e as conexões são diretas, múltiplas e fundamentadas no próprio texto apostólico. Agostinho, em suas Enarrationes in Psalmos, desenvolveu a ideia do totus Christus, o Cristo total: nos salmos ouvimos ora a voz da Cabeça, ora a voz do Corpo, ora ambas unidas. Dietrich Bonhoeffer, em Os Salmos: o livro de oração da Bíblia (1940), retomou essa intuição ao afirmar que os salmos são, antes de tudo, a oração de Cristo, na qual a Igreja é incluída.
O Filho entronizado
O Salmo 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) descreve o rei de Sião a quem Deus declara seu Filho e a quem promete as nações como herança (Sl 2.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No Novo Testamento, a voz do Pai no batismo e na transfiguração ecoa esse salmo (Mc 1.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 9.7), e os apóstolos o aplicam diretamente a Cristo: à oposição dos poderosos contra Jesus (At 4.25-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), à ressurreição (At 13.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e à sua superioridade sobre os anjos (Hb 1.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 5.5). O Salmo 45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), cântico de casamento real, é citado em Hebreus 1.8-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) para afirmar a divindade do Filho e a eternidade do seu trono. O Salmo 72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), com seu rei justo que defende o pobre e em quem todas as nações são abençoadas, encontra seu cumprimento naquele que anunciou o Reino aos pobres (Lc 4.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O Senhor à direita de Deus e o Sacerdote eterno
O Salmo 110 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o texto-chave. Jesus o usou para mostrar que o Messias é mais que filho de Davi, pois o próprio Davi o chama de Senhor (Mt 22.41-45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pedro o citou em Pentecostes para proclamar a exaltação de Cristo (At 2.34-36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Carta aos Hebreus constrói toda a sua doutrina do sacerdócio de Cristo sobre o versículo que declara o rei sacerdote eterno segundo a ordem de Melquisedeque (Sl 110.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 5.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 7.17,21). E a imagem do assento à direita de Deus, repetida em todo o Novo Testamento (Ef 1.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Cl 3.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 1.3,13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Pe 3.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), vem desse salmo. Aqui se resolve a tensão deixada pelo Salmo 89 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): a aliança com Davi não fracassou; ela foi cumprida num Rei que reina para sempre porque venceu a morte.
O Justo sofredor e a paixão
Os salmos de lamento do justo perseguido forneceram aos evangelistas a linguagem para narrar a paixão. O Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o mais evidente: Jesus o recita na cruz, em aramaico, clamando pelo abandono de Deus (Mt 27.46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 15.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); os soldados repartem suas vestes e lançam sortes sobre sua túnica (Jo 19.23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 22.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); os passantes zombam meneando a cabeça (Mt 27.39,43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 22.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas o Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não termina no abandono: termina com louvor na grande assembleia e com as nações adorando — e Hebreus coloca na boca de Cristo justamente o voto de anunciar o nome de Deus aos irmãos, depois de ter passado pelo sofrimento (Hb 2.9-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 22.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O Salmo 69 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) aparece repetidamente: o zelo pela casa de Deus (Jo 2.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o ódio sem causa (Jo 15.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), os insultos que recaíram sobre ele (Rm 15.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o vinagre oferecido na sede (Jo 19.28-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 41.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), sobre o amigo íntimo que se volta contra o salmista, é aplicado por Jesus a Judas (Jo 13.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 34.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que fala da proteção dos ossos do justo, é visto por João como cumprido quando as pernas de Jesus não foram quebradas (Jo 19.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E as últimas palavras de Jesus segundo Lucas — a entrega do espírito nas mãos do Pai — vêm do Salmo 31.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (Lc 23.46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Isso revela algo profundo: Jesus orou os Salmos. Ele não apenas os cumpriu; fez deles sua própria oração, até o último suspiro. Aquele que era plenamente Justo tomou sobre si as palavras de todos os justos sofredores de Israel.
O Ressuscitado que não viu corrupção
O Salmo 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) expressa a confiança de que Deus não abandonará o seu santo à morte nem permitirá que ele veja corrupção (Sl 16.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pedro, em Pentecostes, argumenta que Davi morreu e foi sepultado, e seu túmulo ainda estava entre eles; logo, Davi falava profeticamente da ressurreição do Messias (At 2.25-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo faz o mesmo raciocínio em Antioquia da Pisídia (At 13.35-37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A pedra rejeitada do Salmo 118 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) torna-se, na pregação apostólica, a imagem do Cristo crucificado pelos líderes e exaltado por Deus como pedra angular (Mt 21.42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 4.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Pe 2.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O Filho do Homem coroado
O Salmo 8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) celebra a glória do ser humano, feito pouco menor que os seres celestiais e posto como governante sobre a criação. Hebreus reconhece que ainda não vemos todas as coisas sujeitas ao ser humano — mas vemos Jesus, que por um pouco foi feito menor e agora foi revestido de glória e dignidade por ter passado pela morte (Hb 2.6-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo aplica o mesmo salmo à vitória final de Cristo, quando todas as coisas lhe estarão sujeitas (1Co 15.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ef 1.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Cristo é o verdadeiro Homem, em quem a vocação humana perdida em Adão é plenamente restaurada.
O Bom Pastor e o Rei que reina
Quando Jesus se apresenta como o pastor que entrega a própria vida pelo rebanho (Jo 10.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e quando Hebreus o chama de grande Pastor (Hb 13.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a imagem do Salmo 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ganha rosto: o Senhor que pastoreia seu povo veio pessoalmente buscá-lo. De modo semelhante, os salmos de entronização, que proclamam o reinado de Deus e sua vinda para julgar a terra, encontram eco na proclamação de que o Reino de Deus chegou em Jesus (Mc 1.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e na visão final do Apocalipse, onde o louvor celestial celebra o reinado do Deus Todo-Poderoso (Ap 19.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A obediência encarnada
Hebreus coloca na boca de Cristo, ao entrar no mundo, as palavras do Salmo 40.6-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), segundo a versão grega: Deus não buscava ofertas rituais e, em lugar delas, formou-lhe um corpo, pronto para cumprir a vontade divina (Hb 10.5-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O homem bem-aventurado do Salmo 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), cujo prazer está na lei do Senhor, e o salmista do Salmo 119 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que ama a palavra de Deus acima de tudo, encontram em Jesus a única realização perfeita. Ele é o Justo cuja comida era fazer a vontade do Pai (Jo 4.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Os salmos imprecatórios à luz da cruz
Os salmos que pedem o juízo sobre os inimigos são um desafio para o leitor cristão. Três observações ajudam. Primeiro, eles entregam a vingança a Deus em vez de executá-la pelas próprias mãos, antecipando o princípio que Paulo reafirmará (Rm 12.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Segundo, expressam um clamor legítimo por justiça que o próprio Novo Testamento conserva, como no brado dos mártires sob o altar (Ap 6.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Terceiro, e decisivo, em Cristo a maldição encontra seu destino inesperado: Ele se fez maldição em nosso lugar (Gl 3.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e orou pelos que o crucificavam (Lc 23.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Novo Testamento chega a aplicar trechos imprecatórios a Judas (At 1.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 69.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 109.8), mostrando que o juízo é real — mas o caminho de Cristo transforma o crente de alguém que pede a destruição do inimigo em alguém que ora pela sua salvação (Mt 5.44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), sem deixar de confiar que Deus fará justiça.
6. Relação entre Antigo e Novo Testamento
Salmos é, em certo sentido, o Antigo Testamento em forma de oração. Ele pressupõe e reflete praticamente todos os grandes temas do cânon: a criação de Gênesis (Sl 8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 104), o êxodo e o deserto (Sl 78 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 105; 106; 114), a Lei do Sinai (Sl 19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 119), a aliança com Davi narrada em 2 Samuel 7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (Sl 89 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 132), o templo de Salomão (Sl 122 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o exílio (Sl 137 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e o retorno (Sl 126 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Alguns salmos aparecem em outros livros: o cântico de Davi em 2 Samuel 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é praticamente o Salmo 18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e 1 Crônicas 16.8-36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) reúne trechos dos Salmos 96 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), 105 e 106. Os profetas compartilham seu vocabulário, especialmente Isaías, com quem os salmos de entronização têm afinidade evidente (Is 52.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
No Novo Testamento, a presença do Saltério é imensa. Além das citações cristológicas já vistas, Paulo recorre aos salmos para fundamentar doutrinas centrais: a universalidade do pecado, reunindo trechos dos Salmos 14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), 5, 140, 10 e 36 (Rm 3.10-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); a justificação sem obras, com a bem-aventurança do perdão do Salmo 32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (Rm 4.6-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); a fidelidade de Deus mesmo diante da infidelidade humana, com o Salmo 51.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (Rm 3.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o sofrimento dos que pertencem a Cristo, com o Salmo 44.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (Rm 8.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); a inclusão dos gentios no louvor, com o Salmo 117.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (Rm 15.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Hebreus usa o Salmo 95 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) para exortar à perseverança e desenvolver a doutrina do descanso de Deus (Hb 3.7–4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).11). Efésios aplica o Salmo 68.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) à ascensão de Cristo e à distribuição dos dons (Ef 4.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Os salmos também moldaram a vida de oração da Igreja primitiva. Os discípulos oraram com o Salmo 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) diante da perseguição (At 4.24-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo e Silas cantavam hinos na prisão (At 16.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As cartas exortam os crentes a falar entre si com salmos, hinos e cânticos espirituais (Ef 5.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Cl 3.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Tiago recomenda que quem está alegre cante louvores (Tg 5.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Desde então, o Saltério foi o livro de oração das três grandes tradições cristãs: na liturgia das horas da Igreja Católica, nas vigílias e ofícios das Igrejas Ortodoxas, onde é recitado integralmente a cada semana nos mosteiros, e nos saltérios metrificados da Reforma, como o Saltério de Genebra, que fez dos salmos o hinário congregacional das igrejas reformadas.
Por fim, o Apocalipse conclui a Bíblia com uma liturgia celestial saturada da linguagem dos Salmos: o cântico novo (Ap 5.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 96.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), as nações que vêm adorar (Ap 15.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 86.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o aleluia que ressoa diante do trono (Ap 19.1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Saltério termina com todos os viventes louvando a Deus; a Escritura termina mostrando esse louvor realizado na nova criação.
7. Aplicação Espiritual e Teológica
Salmos ensina, antes de tudo, que a oração pode ser aprendida. Não nascemos sabendo falar com Deus; aprendemos, como uma criança aprende a língua materna, repetindo as palavras de quem sabe. Orar os salmos é deixar que a Palavra de Deus molde nossas palavras a Deus. Bonhoeffer observou que, se dependêssemos apenas do que brota espontaneamente do coração, nossa oração seria pobre; os salmos nos ensinam a orar segundo a Palavra, e não segundo a necessidade do momento. Quem ora apenas com as próprias palavras tende a repetir sempre os mesmos pedidos; quem ora com os salmos aprende a louvar, confessar, lamentar, agradecer e interceder.
O livro devolve à fé cristã a legitimidade do lamento. Muitas espiritualidades contemporâneas sugerem que a tristeza diante de Deus é sinal de fé fraca. O Saltério, onde os lamentos são maioria, diz o contrário: levar a dor, a dúvida e até a queixa diante de Deus é ato de fé, porque é recusar-se a dar as costas a Ele. Para quem atravessa o luto, a doença ou a injustiça, os salmos oferecem palavras quando as próprias faltam — e mostram que o lamento honesto costuma ser o caminho, não o obstáculo, para o louvor.
O Saltério também forma uma espiritualidade da confiança. Salmos como o 23, o 46, o 91 e o 121 não negam o perigo; afirmam a presença de Deus no meio dele. O vale escuro continua sendo vale, mas o Pastor caminha junto. Essa confiança não é otimismo psicológico: está ancorada no caráter de Deus, em seu hesed que dura para sempre, e na obra de Cristo, o Pastor que entregou a vida pelo rebanho.
Os salmos penitenciais ensinam o caminho do arrependimento verdadeiro: reconhecer o pecado sem desculpas, apelar à misericórdia e não ao mérito, e pedir não só perdão, mas transformação. Diante de uma cultura que tende a relativizar a culpa ou a esmagar sob ela, o Salmo 51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e o Salmo 32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) mostram um terceiro caminho: a confissão que conduz à alegria do perdão, possível porque o Cordeiro de Deus levou sobre si o pecado (Jo 1.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O livro chama ainda a uma fé com horizonte comunitário e universal. Muitos salmos foram feitos para serem cantados juntos, e sua perspectiva alcança todas as nações. Orar os salmos tira o crente do individualismo: ele ora com Israel, com a Igreja de todos os séculos e com o próprio Cristo, e aprende a desejar que todos os povos louvem ao Senhor.
Finalmente, o Saltério aponta para o destino da história: o louvor. A vida cristã pode passar por muitos salmos de lamento, mas caminha para o Salmo 150 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O sofrimento é real, mas não é o último capítulo; o último capítulo é a adoração plena na presença de Deus.
A grande mensagem de Salmos pode ser resumida assim: o Deus que é Rei ouve o clamor do seu povo e o conduz, através de todas as noites, até o louvor — e em Jesus, o Rei ungido que orou os salmos na cruz e ressuscitou para reinar à direita do Pai, toda lágrima levada a Deus encontra resposta, e todo lamento se converte, por fim, em aleluia.
Sabedoria para o Cotidiano
Os Salmos nos ensinam que nenhum sentimento precisa ser escondido de Deus: a alegria pode virar cântico, a culpa pode virar confissão, a angústia pode virar clamor, e o medo pode virar confiança. Quando faltarem palavras para orar, tome emprestadas as do Saltério, como fez o próprio Jesus — no dia bom, agradeça; no dia difícil, lamente sem medo; no dia de queda, peça um coração novo. E caminhe sabendo que, por mais longa que seja a noite, a história de quem pertence a Cristo termina como termina o livro: com toda a criação em louvor.