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Salmos · 19 de 66 · Antigo Testamento

Salmos — Bloco 6: Clamor na Escuridão: Os Lamentos Individuais

Capítulos principais

Salmos e versículos: Salmo 3:1-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Salmo 13:1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Salmo 22:1-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Salmo 31:1-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Salmos 42:1-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 43:1-5; Salmo 88:1-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).

Tema central do bloco

Com este bloco, o estudo entra na fase que Walter Brueggemann chamou de desorientação: o momento em que a vida estável se quebra e o louvor dá lugar ao clamor. O lamento é a forma mais frequente do Saltério. Os lamentos, individuais e comunitários, somam cerca de um terço dos 150 salmos. Isso diz algo importante sobre a fé bíblica. O livro que a tradição judaica chamou de "Louvores" dedica mais espaço à dor do que a qualquer outra experiência.

Os lamentos individuais são orações de uma pessoa em angústia. Os motivos variam: perseguição, calúnia, doença grave, abandono dos amigos, proximidade da morte, sensação de que Deus se escondeu. O que os une não é a causa do sofrimento, e sim a direção da queixa. O salmista não fala sobre Deus aos outros, nem se fecha em silêncio amargo. Ele fala a Deus, e muitas vezes contra Deus, sem deixar de dirigir-se a ele.

Os salmos escolhidos cobrem o espectro inteiro dessa experiência. O Salmo 3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é a confiança serena de quem consegue dormir cercado de inimigos. O Salmo 13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o lamento curto e modelar, com seu repetido "até quando?". O Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) desce ao abandono mais profundo e sobe ao louvor universal. O Salmo 31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é a entrega confiante nas mãos de Deus. Os Salmos 42–43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) mostram a sede de Deus e o diálogo do salmista com a própria alma. O Salmo 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o mais escuro de toda a Bíblia, termina sem nenhuma resposta.

Este bloco mostra que a escuridão também é lugar de oração, e que Cristo desceu até ela. Dois destes salmos estiveram literalmente nos lábios de Jesus na cruz.

Versículos-chave do Livro estudado

Versículos relacionados em outros capítulos ou Livros da Bíblia

Explicação teológica e bíblica

A gramática do lamento. Hermann Gunkel e, depois, Claus Westermann identificaram a estrutura típica do lamento individual. Nem todos os salmos têm todos os elementos, nem sempre na mesma ordem, mas o padrão é reconhecível:

  1. Invocação: o salmista chama Deus pelo nome, muitas vezes com um título pessoal, como "meu Deus" ou "Deus da minha salvação".
  2. Queixa: a descrição da angústia. Westermann observou que ela se volta em três direções: contra Deus ("por que me abandonaste?"), contra os inimigos ("eles me cercam") e sobre o próprio eu ("minha força se esgotou").
  3. Confissão de confiança: a declaração, às vezes surpreendente no meio da dor, de que Deus é digno de confiança.
  4. Súplica: o pedido concreto: responde, levanta-te, salva, não te cales.
  5. Voto de louvor: a promessa de agradecer publicamente quando o livramento vier.

O traço mais intrigante do lamento é o que os estudiosos alemães chamaram de Stimmungsumschwung, a mudança de tom. De repente, o salmista passa da súplica para a certeza de ter sido ouvido (Sl 13:5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 22:21). Joachim Begrich propôs em 1934 que, no culto, um sacerdote pronunciava nesse momento um "oráculo de salvação", uma palavra de Deus garantindo o livramento, e que o salmo registra a reação do orante a essa palavra. A hipótese é plausível mas não comprovada. Outros veem na virada o fruto da própria oração: ao colocar a dor diante de Deus, a fé se reacende. Seja como for, o padrão ensina que o lamento bíblico não é um desabafo sem rumo. É um caminho que, na maioria das vezes, conduz ao louvor.

Brueggemann, no ensaio "The Costly Loss of Lament" (JSOT 36, 1986), advertiu que igrejas que só cantam louvor e perderam o lamento pagam um preço alto. Tornam-se incapazes de lidar honestamente com a dor, silenciam os que sofrem e deixam de questionar as injustiças. Os lamentos são, no Saltério, a garantia de que a verdade da experiência humana tem lugar na oração.

Uma palavra sobre os inimigos, tão presentes nesses salmos. Eles aparecem como caçadores, leões, touros, cães, caluniadores. A linguagem é estereotipada e metafórica, e isso é proposital. A pessoa que ora o salmo pode reconhecer nele seus próprios adversários, visíveis ou invisíveis: pessoas hostis, doenças, acusações, o próprio medo. Não é preciso identificar historicamente cada inimigo para que o salmo funcione como oração.

A confiança que dorme (Sl 3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O título associa o salmo à fuga de Davi diante do golpe de seu filho Absalão (2 Sm 15–18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), talvez o momento mais humilhante de sua vida: expulso de Jerusalém pelo próprio filho, subindo o monte das Oliveiras descalço e chorando (2 Sm 15:30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmo começa com números. Os adversários são muitos, e muitos dizem que não há salvação para ele em Deus. A acusação mais dolorosa não é a de que Davi perderá o trono, e sim a de que Deus o abandonou. A resposta vem em três imagens (v. 3): o Senhor é escudo ao redor, é a glória do rei destronado e é quem lhe ergue a cabeça, um gesto de restauração da dignidade. O ponto mais tocante é o versículo 5. Cercado de milhares, o salmista se deita, dorme e acorda, porque o Senhor o sustenta. O sono, para quem está em perigo, é o maior ato de confiança. A palavra selah aparece três vezes neste salmo curto, como pausas para respirar e meditar.

O "até quando?" (Sl 13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o lamento mais curto e mais completo, quase um modelo de ensino. Nos versículos 1-2, a pergunta 'ad-'anah, "até quando?", é repetida quatro vezes, cada vez com um objeto diferente. Até quando Deus o esquecerá? Até quando esconderá o rosto? Até quando o salmista terá de fazer planos na própria alma, com tristeza no coração o dia inteiro? Até quando o inimigo triunfará? A repetição transmite a experiência da espera prolongada, em que o problema não é só a dor, mas a sua duração.

Os versículos 3-4 trazem a súplica: que Deus o olhe, o responda e ilumine seus olhos, para que ele não durma o sono da morte. "Iluminar os olhos" é devolver o vigor a quem está esgotado (1 Sm 14:27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Então vem a virada, marcada pela conjunção adversativa: mas eu confio na tua misericórdia (chesed) (v. 5). A situação exterior não mudou. O que mudou foi a âncora. O salmo termina no tempo passado: o salmista cantará porque o Senhor lhe fez bem (v. 6). A fé antecipa o livramento como fato consumado.

Do abandono ao louvor universal (Sl 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o lamento mais profundo e, ao mesmo tempo, o que termina no louvor mais amplo. Seu título indica uma melodia, "a corça da aurora" ('ayyelet hashachar). O salmo tem duas partes muito desiguais em tom.

A primeira (vv. 1-21) é um mergulho na agonia, e sua estrutura alterna queixa e memória. O salmista grita que foi abandonado por Deus, que clama de dia e de noite sem resposta (vv. 1-2). Mas lembra: Deus é santo, entronizado sobre os louvores de Israel, e os pais confiaram nele e foram livrados (vv. 3-5). Volta à queixa: ele se sente um verme, desprezado pelo povo, alvo de zombaria de quem balança a cabeça e ironiza sua confiança em Deus (vv. 6-8). Lembra de novo: foi Deus quem o tirou do ventre materno e em quem confiou desde o seio da mãe (vv. 9-11). E então a descrição da agonia se torna física e terrível (vv. 12-18). Touros poderosos o cercam. Ele se sente derramado como água, com os ossos deslocados e o coração derretido como cera. A língua gruda no céu da boca. Cães o rodeiam. Suas mãos e seus pés são atingidos, ele pode contar os próprios ossos, e seus inimigos repartem suas vestes e lançam sortes sobre sua roupa.

O versículo 16 tem uma questão textual conhecida. O texto massorético traz ka'ari, que se lê "como leão": como um leão, as minhas mãos e os meus pés. A frase fica incompleta. A Septuaginta traduziu com um verbo que significa "perfurar" ou "cavar", e um manuscrito do deserto da Judeia (Nahal Hever, 5/6HevPs), anterior ao texto massorético, traz uma forma verbal (ka'aru) em vez do substantivo. Muitas traduções adotam "traspassaram as minhas mãos e os meus pés", apoiadas nessas testemunhas antigas. Outras seguem o texto massorético. O debate é real e deve ser reconhecido. A imagem geral de mãos e pés atacados pelo cerco dos inimigos, porém, permanece em qualquer leitura.

No versículo 21 acontece a virada mais abrupta do Saltério. No meio da súplica para ser livrado dos chifres dos bois selvagens, o texto hebraico diz simplesmente 'anitani, "tu me respondeste". Não há transição. Do grito passa-se à certeza.

A segunda parte (vv. 22-31) é um louvor que se expande em círculos concêntricos: os irmãos na assembleia (v. 22), toda a descendência de Jacó (v. 23), a grande congregação (v. 25), os pobres que comerão e se saciarão (v. 26), todos os confins da terra e todas as famílias das nações (v. 27), os que descem ao pó (v. 29) e as gerações ainda por nascer (vv. 30-31). O último versículo afirma que se anunciará a um povo futuro que Ele o fez ('asah). A obra está realizada. Nenhum lamento do Saltério termina com um horizonte tão amplo. O sofrimento de um único justo se torna o ponto de partida para o louvor do mundo inteiro, dos vivos e até dos mortos.

A entrega nas mãos de Deus (Sl 31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é marcado pela imagem das mãos. No versículo 5, o salmista entrega o próprio espírito (ruach) nas mãos de Deus. No contexto original, é uma entrega de confiança em vida, não uma oração de moribundo: ele se coloca sob a guarda de Deus porque este o resgatou. No versículo 15, confessa que os seus tempos, isto é, o curso e os momentos da sua vida, estão nas mãos de Deus, e pede para ser livrado das mãos dos inimigos. A oração se move entre mãos opostas e escolhe em qual delas repousar.

A descrição da angústia nos versículos 9-13 tem traços de doença e de rejeição social. Os olhos se consomem de tristeza, a vida se esvai em gemidos, os ossos se desgastam. Ele se tornou vergonha para os vizinhos e pavor para os conhecidos, esquecido como um morto e como um vaso quebrado. Ouve a difamação de muitos e se sente cercado de terror por todos os lados, magor missaviv, expressão que Jeremias usa várias vezes (Jr 6:25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 20:10; 46:5). O salmo termina com uma exortação à comunidade: amar o Senhor, ser forte e ter bom ânimo, porque ele guarda os fiéis (vv. 23-24). O orante que foi consolado passa a consolar.

A sede de Deus e o diálogo com a própria alma (Sl 42–43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os Salmos 42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 43 formam, quase certamente, um único poema. Eles compartilham o mesmo refrão, repetido três vezes (42:5, 11; 43:5), o Salmo 43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não tem título (algo raro no Livro II), e vários manuscritos hebraicos os apresentam unidos. O poema abre o Livro II e é atribuído aos filhos de Corá, os levitas cantores do templo.

A imagem inicial é uma das mais belas da Bíblia: uma corça que anseia por correntes de água, como a alma do salmista anseia por Deus. Ele tem sede do Deus vivo e pergunta quando poderá voltar a comparecer diante dele (vv. 1-2). O contexto é de distância geográfica e espiritual. O salmista está longe do templo, na região do Jordão e do Hermom, perto de um monte chamado Mizar (v. 6), o extremo norte da terra. Lá, as quedas d'água das nascentes do Jordão se tornam imagem de uma angústia que o afoga: um abismo chama outro abismo, e todas as ondas de Deus passam sobre ele (v. 7). Suas lágrimas são seu alimento dia e noite, enquanto lhe perguntam onde está o seu Deus (v. 3). A memória intensifica a dor. Ele se lembra de quando conduzia a multidão em festa à casa de Deus (v. 4).

O refrão é o centro do poema. O salmista não apenas fala com Deus: ele fala com a própria alma. Pergunta por que ela está abatida e inquieta, e a exorta a esperar em Deus, a quem ainda louvará como salvação da sua face. Martyn Lloyd-Jones, em Spiritual Depression (1965), fez desse refrão a chave de sua análise. Grande parte da infelicidade espiritual, dizia ele, vem de ficarmos ouvindo a nós mesmos em vez de falarmos a nós mesmos. O salmista não se deixa conduzir pelo que a alma lhe diz; ele diz à alma o que é verdade sobre Deus.

O Salmo 43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) acrescenta a súplica por justiça contra um povo infiel e um pedido luminoso: que Deus envie a sua luz e a sua verdade como guias para conduzi-lo de volta ao monte santo, ao altar e ao Deus que é sua alegria (43:3-4). O poema termina ainda na tensão do refrão. A esperança foi afirmada, mas o retorno ainda não aconteceu.

O salmo sem resposta (Sl 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é atribuído a Hemã, o ezraíta, e aos filhos de Corá. É o texto mais sombrio do Saltério e talvez de toda a Bíblia, e sua presença no cânon é teologicamente eloquente. Ao contrário de quase todos os lamentos, ele não tem virada. Não há confissão de confiança nem voto de louvor. O salmista clama dia e noite (v. 1) e diz que sua alma está farta de males, que sua vida chegou à beira do Sheol, que ele já é contado entre os que descem à cova, como um morto abandonado de quem Deus não se lembra mais (vv. 3-5). Ele atribui tudo a Deus: foi Deus quem o pôs na cova mais profunda, quem fez pesar sua ira sobre ele e quem afastou dele os amigos (vv. 6-8). Ele sofre desde a juventude (v. 15).

Nos versículos 10-12, o salmista faz perguntas retóricas que, na teologia do Antigo Testamento, esperam resposta negativa. Deus fará maravilhas para os mortos? Os mortos se levantarão para louvá-lo? A misericórdia e a fidelidade de Deus serão anunciadas no sepulcro, no Abaddon (lugar da destruição), na terra do esquecimento? O argumento é: se eu morrer, Deus perde alguém que o louva. O salmo termina com a palavra machshak, "escuridão". Em tradução literal, a escuridão é seu único conhecido, sua companhia.

E, no entanto, há um detalhe decisivo no primeiro versículo. O salmista chama Deus de "Deus da minha salvação". Mesmo sem ver saída, ele continua orando, e continua orando a esse Deus. A fé do Salmo 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não está no sentimento nem na resolução. Está no simples fato de que o salmista não parou de falar com Deus. A inclusão desse salmo nas Escrituras é uma forma de Deus dizer aos que vivem noites prolongadas que também elas cabem na oração.

A contribuição do bloco para o livro e para a Bíblia. Os lamentos individuais estabelecem que a honestidade diante de Deus faz parte da fé, e não é o seu oposto. Eles formam uma linha que atravessa a Escritura: Jó, as confissões de Jeremias, Lamentações, Habacuque, o Getsêmani e até os mártires do Apocalipse, que perguntam "até quando?" (Ap 6:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mostram também que Deus não exige que o sofredor finja força. Ele recebe o grito, a pergunta e até a acusação, desde que dirigidos a ele. E, no Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o lamento se torna a porta pela qual o sofrimento do Justo desemboca na salvação das nações.

Visão cristocêntrica

Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): conexão direta e profunda. Nenhum texto do Antigo Testamento está tão entrelaçado com a narrativa da Paixão.

Muitos intérpretes observam que, ao citar o primeiro versículo, Jesus evocava o salmo inteiro, pois era comum no judaísmo antigo referir-se a um texto pelo seu início. Isso sugere que ele tinha diante de si não apenas o abandono, mas também a resposta e o louvor universal que se seguem. Essa observação não suaviza o grito. O abandono foi real, e nele o Filho levou sobre si o peso do pecado (2 Co 5:21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gl 3:13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ela revela, porém, que a cruz era, desde o início, o caminho para a assembleia dos irmãos e para a conversão das nações. Muitos pregadores também relacionam o último versículo do salmo, que anuncia que a obra foi feita, com a palavra de Jesus de que tudo estava consumado (Jo 19:30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Essa é uma conexão temática, sem citação direta, mas harmoniosa com o sentido do salmo.

Salmo 31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): conexão direta. As últimas palavras de Jesus na cruz, segundo Lucas, são o versículo 5 do Salmo 31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): ele entrega o espírito nas mãos do Pai (Lc 23:46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O mesmo gesto que no salmo era entrega de confiança em vida torna-se, em Jesus, a entrega confiante na morte. Estêvão, o primeiro mártir, repete o gesto dirigindo-o ao próprio Senhor Jesus (At 7:59 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Desde então, incontáveis cristãos morreram orando essas palavras.

Salmos 42–43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): conexão alusiva. No Getsêmani, Jesus declara que sua alma está profundamente triste, até a morte (Mc 14:34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 26:38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A expressão grega corresponde à usada pela Septuaginta no refrão dos Salmos 42–43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e muitos comentaristas veem ali um eco intencional. Jesus fez sua a angústia do salmista. E ele é também a resposta à sede do salmo: quem tem sede é convidado a vir a ele e beber (Jo 7:37-38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e ele promete uma água que se torna fonte que jorra para a vida eterna (Jo 4:14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Essa última conexão é temática.

Os lamentos como oração de Cristo. Agostinho, nas Enarrationes in Psalmos, desenvolveu a ideia do Christus totus, o Cristo total, cabeça e corpo. Nos Salmos, às vezes fala Cristo, a cabeça, e às vezes fala a Igreja, o corpo, e às vezes os dois juntos. Os lamentos são, nessa perspectiva, orações que Cristo assumiu. Hebreus afirma que, nos dias de sua carne, Jesus ofereceu orações e súplicas com forte clamor e lágrimas (Hb 5:7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que, por ter sofrido, é capaz de se compadecer das nossas fraquezas (Hb 4:15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Salmo 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): conexão temática. O Novo Testamento não cita o Salmo 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Mas a tradição cristã o associou à descida de Cristo à morte, ao silêncio do sepulcro e ao Sábado Santo. As perguntas do salmista, sobre se Deus faria maravilhas para os mortos e se os mortos se levantariam para louvá-lo, recebem na ressurreição de Jesus uma resposta que o salmista não podia imaginar: sim. Aquele que desceu à cova mais profunda voltou dela com as chaves da morte (Ap 1:18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Por isso, quem hoje ora o Salmo 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não está sozinho na escuridão. Cristo esteve lá antes.

Aplicações espirituais e práticas

1. Receber a permissão bíblica para lamentar. Muitos cristãos acreditam que queixar-se diante de Deus é falta de fé. Os lamentos mostram o contrário: a falta de fé seria deixar de falar com Deus. Uma aplicação concreta é deixar de mascarar a dor na oração pessoal e nas conversas com irmãos de confiança. Para as igrejas, a aplicação é incluir o lamento no culto, com orações, cânticos e momentos de silêncio que acolham os que sofrem, em vez de exigir de todos uma alegria constante.

2. Usar a estrutura do lamento como mapa. A forma dos lamentos pode orientar a oração em tempos difíceis. Primeiro, chamar Deus pelo nome. Segundo, dizer com honestidade o que está acontecendo: o que Deus parece estar fazendo ou deixando de fazer, o que as pessoas fizeram, como está o coração. Terceiro, lembrar uma verdade sobre Deus ou um livramento do passado. Quarto, pedir algo concreto. Quinto, declarar a intenção de agradecer quando a resposta vier. Escrever a oração assim, num caderno, ajuda a dar forma ao caos interior.

3. Falar à própria alma. O refrão dos Salmos 42–43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ensina uma disciplina decisiva: não se deixar governar apenas pelos sentimentos. Quando a alma diz que tudo está perdido, que Deus se esqueceu, que não haverá saída, o crente pode responder com a verdade. Na prática, isso pode significar ter à mão alguns versículos de esperança, repeti-los em voz alta nos momentos de abatimento e lembrar-se deliberadamente dos atos de Deus no passado.

4. Dormir em meio à crise. O Salmo 3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) mostra que a confiança em Deus pode se manifestar de modo muito concreto: na capacidade de descansar. Em épocas de pressão, a insônia muitas vezes vem da tentativa de controlar o que não está em nossas mãos. Um hábito prático é encerrar o dia entregando a Deus, em oração, as preocupações específicas, e confiando a ele a noite, como o salmista fez.

5. Acompanhar os que sofrem sem respostas fáceis. O Salmo 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ensina que nem toda dor encontra solução imediata, e que a presença vale mais do que a explicação. Os amigos de Jó falharam por explicar demais. Diante de alguém em sofrimento prolongado, a aplicação é chorar com quem chora (Rm 12:15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), permanecer por perto, orar com a pessoa e às vezes por ela, quando ela mesma já não consegue.

6. Buscar ajuda quando a escuridão persiste. Os lamentos dão voz a estados que hoje reconhecemos também como sofrimento psíquico: tristeza profunda e prolongada, sensação de abandono, perda de esperança. A fé bíblica não se opõe ao cuidado profissional. Quando a escuridão é persistente, buscar o apoio de pastores, de pessoas de confiança e de profissionais de saúde mental é um ato de sabedoria e de cuidado com a vida que Deus deu, e não um sinal de fé fraca.

Mensagem de reflexão

Sabedoria para o Cotidiano
O Saltério não exige de você um sorriso quando a alma está em pedaços. Ele lhe oferece palavras para clamar, perguntar e até protestar, desde que o clamor continue dirigido a Deus. Na cruz, Jesus orou esses salmos por você: gritou o abandono que era nosso e entregou o espírito nas mãos do Pai. Por isso, mesmo na noite mais longa, você não ora sozinho. Diga à sua alma a verdade que ela esqueceu e espere, porque o grito do Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) terminou em louvor, e o túmulo de Cristo terminou vazio.

Interpretação e comentários da Bíblia, sob direção editorial de José Carlos Fortes. Conteúdo elaborado com apoio de inteligência artificial, sob curadoria e revisão editorial. Esta página não reproduz texto bíblico protegido: traz referência, interpretação e comentário.