Salmos · 19 de 66 · Antigo Testamento
Salmos — Bloco 5: O Rei Ungido e a Esperança Messiânica
Capítulos principais
Salmos e versículos: Salmo 18:1-50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Salmo 20:1-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Salmo 21:1-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Salmo 45:1-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Salmo 72:1-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Salmo 89:1-52 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Salmo 101:1-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Salmo 110:1-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Salmo 132:1-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
Tema central do bloco
O Bloco 4 celebrou o reinado do próprio Senhor. Este bloco trata do outro lado dessa moeda: o rei humano que Deus escolheu para exercer seu governo na terra, o Ungido (mashiach) da casa de Davi. É o desenvolvimento pleno da segunda porta do Saltério, o Salmo 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
Hermann Gunkel chamou esses poemas de salmos reais (Königspsalmen). Eles nasceram na corte e no templo de Jerusalém e acompanhavam momentos da vida do rei: a coroação, o casamento, a batalha, a vitória, a oração por um reinado justo, o compromisso com a integridade e a memória das promessas feitas a Davi.
Todos giram em torno de um fundamento: a aliança davídica (2 Sm 7:8-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Nela Deus prometeu a Davi uma dinastia perpétua, um trono estável e uma relação de pai e filho com seu descendente. Os salmos deste bloco percorrem o arco completo dessa promessa. Começam com a confiança do rei que vence pela força de Deus (Sl 18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 20; 21), passam pelo retrato do rei ideal, justo, protetor dos pobres e senhor das nações (Sl 45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 72; 101), chegam à crise dolorosa em que a promessa parece desmoronar (Sl 89 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e se abrem para uma esperança que ultrapassa qualquer rei histórico: o Rei-Sacerdote que se assenta à direita de Deus (Sl 110 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e o renovo que Deus fará brotar em Sião (Sl 132 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Nenhum rei de Judá correspondeu plenamente a esse retrato. Depois do exílio, quando já não havia rei, esses salmos continuaram a ser cantados como promessa à espera de cumprimento. É por isso que se tornaram, junto com o Salmo 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o núcleo da esperança messiânica de Israel e o conjunto de salmos mais citado pelo Novo Testamento para falar de Jesus.
Versículos-chave do Livro estudado
- Salmo 18:1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Davi declara seu amor ao Senhor e o descreve com uma sequência de imagens de proteção: rocha, fortaleza, libertador, escudo e alto refúgio.
- Salmo 18:6-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O clamor do rei na angústia é ouvido, e Deus desce numa teofania de tempestade para tirá-lo das muitas águas.
- Salmo 18:49-50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O rei promete louvar a Deus entre as nações, porque o Senhor dá grande livramento ao seu rei e é fiel ao seu ungido e à sua descendência para sempre.
- Salmo 20:1-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O povo ora pelo rei antes da batalha e declara que sua confiança não está nos carros e cavalos, e sim no nome do Senhor.
- Salmo 21:1-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Depois da vitória, o povo agradece: Deus deu ao rei o desejo do seu coração, a coroa, a vida longa e a glória, porque o rei confia no Altíssimo.
- Salmo 45:1-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O poeta canta o rei no dia do casamento: sua beleza, sua causa justa, seu trono eterno e seu cetro de retidão.
- Salmo 45:10-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A noiva é convidada a deixar a casa paterna e honrar o rei, e o nome dele será lembrado por todas as gerações.
- Salmo 72:1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A oração para que Deus conceda ao rei seu juízo e sua justiça, para que ele governe com retidão e defenda os pobres.
- Salmo 72:8-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O domínio do rei se estende de mar a mar, e reis de terras distantes lhe trazem tributos e presentes.
- Salmo 72:12-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O rei livra o necessitado que clama, e o sangue dos oprimidos é precioso aos seus olhos.
- Salmo 72:17-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O nome do rei permanece para sempre, todas as nações serão abençoadas nele, e o Livro II termina com uma doxologia e a nota do fim das orações de Davi.
- Salmo 89:1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O salmista celebra a misericórdia e a fidelidade do Senhor, e a aliança jurada a Davi.
- Salmo 89:19-37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A exposição poética da aliança davídica: a unção de Davi, a filiação, a primogenitura e o juramento que Deus não revogará.
- Salmo 89:38-51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A virada dolorosa: o ungido foi rejeitado, a coroa profanada, as muralhas derrubadas, e o salmista pergunta onde está a antiga misericórdia jurada a Davi.
- Salmo 101:1-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O compromisso do rei com a integridade em sua casa e em seu governo, afastando a perversidade e cercando-se de pessoas fiéis.
- Salmo 110:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O oráculo do Senhor ao senhor de Davi, convidando-o a sentar-se à sua direita até que os inimigos sejam postos como estrado de seus pés.
- Salmo 110:4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O juramento irrevogável que constitui o Rei como sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque.
- Salmo 132:11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O juramento de Deus a Davi sobre um descendente no trono, e a condição de fidelidade à aliança para seus filhos.
- Salmo 132:13-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus escolhe Sião como sua habitação e promete fazer brotar ali o poder de Davi e preparar uma lâmpada para o seu ungido.
Versículos relacionados em outros capítulos ou Livros da Bíblia
- 2 Samuel 7:8-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A promessa de Deus a Davi: casa, reino e trono estabelecidos para sempre, e a relação de pai e filho com seu descendente.
- 2 Samuel 22:1-51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O mesmo cântico do Salmo 18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), colocado no final da história de Davi.
- Deuteronômio 17:14-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A lei do rei: não multiplicar cavalos, mulheres e riquezas, e ler a Lei todos os dias.
- 1 Reis 3:9-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Salomão pede discernimento para julgar o povo, o mesmo pedido que abre o Salmo 72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Gênesis 14:18-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Melquisedeque, rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo, abençoa Abraão.
- Isaías 9:6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O menino que nasce e se assenta no trono de Davi, com um reinado de justiça e paz sem fim.
- Isaías 11:1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O rebento do tronco de Jessé, sobre quem repousa o Espírito, e que julga os pobres com justiça.
- Jeremias 23:5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Renovo justo que Deus fará brotar para Davi.
- Zacarias 9:9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O rei humilde que entra em Jerusalém montado num jumento, cujo domínio vai de mar a mar, em eco de Salmo 72:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Lucas 1:32-33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O anjo anuncia a Maria que seu filho receberá o trono de Davi e reinará para sempre.
- Mateus 2:1-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os magos do Oriente trazem presentes ao Rei recém-nascido, em eco temático do Salmo 72:10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Mateus 22:41-46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus usa Salmo 110:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) para mostrar que o Messias é mais do que filho de Davi: é seu Senhor.
- Atos 2:29-36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Pedro, no Pentecostes, afirma que Deus jurou a Davi colocar um descendente em seu trono e aplica o Salmo 110 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) à exaltação de Jesus.
- Atos 13:22-23, 34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Paulo lembra a escolha de Davi e anuncia Jesus como o Salvador que Deus trouxe da sua descendência, ressuscitado para não ver corrupção.
- Romanos 15:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Paulo cita Salmo 18:49 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) para mostrar que os gentios glorificam a Deus.
- Hebreus 1:8-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O autor aplica Salmo 45:6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ao Filho, cujo trono é eterno.
- Hebreus 1:13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 10:12-13 — Cristo, assentado à direita de Deus, aguarda que seus inimigos sejam postos como estrado de seus pés.
- Hebreus 5:5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 7:1-28 — O sacerdócio de Cristo segundo a ordem de Melquisedeque, fundamentado em Salmo 110:4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- 1 Coríntios 15:24-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Cristo reina até que todos os inimigos sejam vencidos, incluindo a morte.
- Efésios 5:25-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Apocalipse 19:7-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O casamento de Cristo com a Igreja, horizonte do cântico nupcial do Salmo 45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
Explicação teológica e bíblica
O que é um salmo real. No antigo Oriente, o rei era frequentemente apresentado como divino. No Egito, o faraó era considerado filho dos deuses por natureza. Em Israel, a teologia real era diferente e mais sóbria. O rei era ungido por Deus, adotado como filho no dia da entronização (Sl 2:7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e responsável diante dele como servo e representante. Seu poder era derivado e limitado pela Lei (Dt 17:14-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os salmos reais celebram esse rei, mas o fazem sempre em linguagem de dependência: ele vence porque confia (Sl 21:7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), é justo porque Deus lhe concede justiça (Sl 72:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e reina porque Deus jurou a Davi (Sl 89 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 132).
Gunkel incluiu nessa categoria os Salmos 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), 18, 20, 21, 45, 72, 89, 101, 110, 132 e 144. Os Salmos 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (Bloco 1) e 144 ficam fora deste bloco, mas pertencem à mesma família.
Depois do exílio, quando a monarquia desapareceu, esses salmos passaram por uma releitura messiânica. O próprio judaísmo antigo testemunha isso. O Targum dos Salmos, a paráfrase aramaica usada nas sinagogas, identifica expressamente o rei do Salmo 72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e o rei do Salmo 45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) com o "Rei Messias". A leitura cristã não inventou a dimensão messiânica desses textos. Ela encontrou em Jesus o cumprimento de uma esperança que Israel já lia neles.
O rei que vence pela força de Deus (Sl 18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 20; 21). O Salmo 18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é um longo cântico de ação de graças do rei. O título o situa no dia em que o Senhor livrou Davi de todos os seus inimigos e da mão de Saul, e o mesmo poema aparece, quase idêntico, em 2 Samuel 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), no fechamento da história de Davi. Abre com um acúmulo de imagens de proteção (v. 2): rocha, fortaleza, libertador, escudo, poder (qeren, literalmente "chifre", símbolo de força) de salvação e alto refúgio. O rei clama na angústia, e a resposta vem numa teofania grandiosa (vv. 7-15): a terra treme, os montes se abalam, Deus fende os céus e desce entre nuvens escuras, montado sobre um querubim, com relâmpagos e trovões, até tirar o rei das muitas águas.
O salmo termina de forma surpreendente. O rei promete louvar a Deus entre as nações (v. 49), e o último versículo amplia a perspectiva de Davi para a sua descendência para sempre (v. 50). A vitória de um rei aponta para uma bênção que alcançará os povos. Paulo cita exatamente esse versículo para fundamentar a inclusão dos gentios (Rm 15:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Os Salmos 20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 21 formam um par litúrgico. No Salmo 20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o povo ora pelo rei antes da batalha. Pede que Deus o responda no dia da angústia, aceite suas ofertas e realize seus planos. O centro está no versículo 7: outros confiam em carros de guerra e cavalos, mas Israel invoca o nome do Senhor. No Salmo 21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o povo agradece depois da vitória. Deus concedeu ao rei o desejo do seu coração, pôs em sua cabeça uma coroa de ouro puro e lhe deu vida longa, "para todo o sempre" (v. 4). A razão é explícita: o rei confia no Senhor (v. 7). Juntos, os dois salmos mostram uma comunidade que ora pelo seu governante e reconhece que toda vitória é dom de Deus.
O rei ideal: esplendor, justiça e integridade (Sl 45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 72; 101). O Salmo 45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o único cântico nupcial do Saltério, composto pelos filhos de Corá para o casamento de um rei. O poeta confessa que seu coração transborda de um bom tema (v. 1) e canta o noivo: o mais belo dos filhos dos homens, com graça nos lábios, cingido de espada, cavalgando pela causa da verdade, da mansidão e da justiça. O versículo 6 tem uma dificuldade célebre. O texto hebraico parece dirigir-se ao rei chamando-o de 'elohim, "Deus", ao falar de seu trono eterno. Há duas explicações principais. Alguns entendem que se trata de uma hipérbole da linguagem da corte, pois o termo 'elohim é aplicado em certos textos a autoridades humanas que representam Deus (Sl 82:6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Outros propõem outra construção gramatical, como "o teu trono é de Deus". A leitura vocativa é a mais natural no hebraico e é a que segue a Septuaginta e Hebreus 1:8-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
A segunda parte do salmo se dirige à noiva, filha de uma nação estrangeira. Ela é convidada a esquecer seu povo e a casa de seu pai e a se entregar ao rei (vv. 10-11). É descrita vestida de ouro, conduzida com alegria ao palácio. O salmo termina prometendo que os filhos do rei serão príncipes em toda a terra e que seu nome será lembrado por todas as gerações.
O Salmo 72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é atribuído a Salomão e encerra o Livro II. É uma oração pelo rei, e seu tema dominante é a justiça social. O primeiro pedido não é por vitória ou riqueza, e sim para que Deus dê ao rei os seus juízos e a sua justiça (v. 1), o mesmo que Salomão pediu em Gibeão (1 Rs 3:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O rei ideal julga os pobres com retidão, defende os filhos dos necessitados e esmaga o opressor (v. 4). Os versículos 12-14 afirmam que ele livra o necessitado que clama e o aflito que não tem quem o ajude, e que o sangue desses é precioso aos seus olhos. A medida do rei é o modo como trata os mais fracos.
Por causa dessa justiça, seu reinado é descrito como chuva sobre a relva cortada (v. 6), sua duração se estende enquanto houver sol e lua (v. 5), e seu domínio vai de mar a mar e do rio até os confins da terra (v. 8). Os reis de Társis e das ilhas, de Sabá e de Seba, trazem-lhe presentes (v. 10), e todas as nações serão abençoadas nele (v. 17), numa retomada evidente da promessa a Abraão (Gn 12:3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 22:18). O Livro II termina com uma doxologia (vv. 18-19) e com a nota de que ali se encerram as orações de Davi (v. 20). A oração pelo rei ideal é o ponto final das orações davídicas dessa coleção.
O Salmo 101 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o compromisso do rei consigo mesmo. É uma espécie de programa de governo em primeira pessoa. O rei promete andar com integridade dentro de sua casa (v. 2), não pôr diante dos olhos coisa vil (v. 3), afastar o coração perverso, silenciar quem calunia o próximo em segredo e não tolerar o arrogante (vv. 4-5). Seus olhos buscarão os fiéis da terra para que habitem com ele, e só quem anda em integridade o servirá (v. 6). Martinho Lutero escreveu uma exposição do Salmo 101 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (1534-1535) dirigida aos governantes do seu tempo e tratou o salmo como um verdadeiro espelho para príncipes. O salmo mostra que o governo justo começa na integridade pessoal e na escolha de colaboradores.
A crise da promessa (Sl 89 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 89 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), atribuído a Etã, o ezraíta, encerra o Livro III e é o salmo mais dramático do bloco. Sua primeira parte (vv. 1-37) é um hino à misericórdia (chesed) e à fidelidade ('emunah) de Deus, palavras que se repetem ao longo do poema como um refrão. O centro é a exposição poética da aliança davídica (vv. 19-37). Deus encontrou Davi, ungiu-o com óleo santo, fez dele o seu primogênito, o mais elevado dos reis da terra, e jurou por sua santidade que não mentiria a Davi. Mesmo que os filhos de Davi abandonassem a Lei e fossem disciplinados, Deus não retiraria sua misericórdia nem quebraria a aliança. A descendência de Davi duraria como o sol e a lua.
Então vem uma das viradas mais violentas da Bíblia (v. 38). O salmista acusa Deus de ter rejeitado e repudiado o seu ungido, de ter anulado a aliança, de ter profanado a coroa lançando-a por terra, de ter derrubado as muralhas e encurtado os dias da juventude do rei (vv. 38-45). A cena corresponde muito provavelmente à queda de Jerusalém e ao exílio de 586 a.C., quando o último rei davídico foi levado cativo. O salmo termina com as perguntas do lamento: até quando Deus se esconderá? Onde estão as antigas misericórdias juradas a Davi? (vv. 46-51). O Livro III se fecha com essa pergunta sem resposta, seguida apenas pela doxologia (v. 52).
Gerald Wilson mostrou que essa pergunta é a dobradiça editorial do Saltério. O Livro IV responde, como se viu no Bloco 4, voltando-se para o reinado do próprio Deus. Mas a pergunta sobre a promessa a Davi continua aberta e prepara o terreno para os salmos que projetam o Rei no futuro.
O Rei-Sacerdote e o renovo de Davi (Sl 110 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 132). O Salmo 110 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o texto do Antigo Testamento mais citado e aludido no Novo. David M. Hay, em Glory at the Right Hand: Psalm 110 in Early Christianity (1973), contou 33 citações e alusões a ele no Novo Testamento. O salmo começa com uma fórmula profética, ne'um YHWH, "oráculo do Senhor", dirigida ao 'adoni, "meu senhor", o que torna o salmo, na sua abertura, uma profecia e não apenas uma oração. O senhor de Davi é convidado a sentar-se à direita de Deus, a posição de honra e autoridade delegada, até que seus inimigos sejam postos como estrado de seus pés, uma imagem de vitória completa (Js 10:24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Deus estenderá seu cetro a partir de Sião. Seu povo se oferecerá voluntariamente (nedavot, "ofertas voluntárias") no dia do seu poder (v. 3).
O versículo 4 é único em todo o Antigo Testamento. Deus jura, e não se arrependerá, que esse Rei é sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque. Em Israel, as funções de rei (da tribo de Judá) e de sacerdote (da tribo de Levi, família de Arão) eram separadas, e reis que tentaram usurpar funções sacerdotais foram punidos (2 Cr 26:16-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Melquisedeque, porém, era ao mesmo tempo rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo (Gn 14:18-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), anterior a Arão e ao próprio Levi. O salmo anuncia um Rei que une as duas funções num sacerdócio de outra ordem, mais antigo e mais elevado. Os versículos finais descrevem o Rei julgando as nações e, numa imagem enigmática, bebendo do ribeiro no caminho e erguendo a cabeça (v. 7), o que sugere renovação de forças e vitória.
O Salmo 132 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é um cântico de peregrinação (pertence aos Cânticos dos Degraus) e ao mesmo tempo um salmo real. Em sua primeira parte (vv. 1-10), recorda o juramento de Davi de não descansar até encontrar um lugar para a arca do Senhor (2 Sm 6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Na segunda (vv. 11-18), recorda o juramento inverso: Deus jurou a Davi, com fidelidade, colocar um descendente em seu trono. Para os filhos, há uma condição: guardar a aliança. Deus escolheu Sião como seu lugar de repouso para sempre. O salmo termina com promessas que ultrapassam o horizonte histórico. Ali Deus fará brotar (tsamach) o poder de Davi e preparará uma lâmpada para o seu ungido (v. 17). O verbo tsamach é a raiz do título messiânico Tsemach, "Renovo", usado pelos profetas para o descendente de Davi que Deus suscitaria (Jr 23:5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 33:15; Zc 3:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 6:12).
A contribuição do bloco para o livro e para a Bíblia. Os salmos reais fazem a ponte entre a história de Davi, narrada em Samuel e Reis, e a esperança profética de um Messias, expressa em Isaías, Jeremias, Ezequiel e Zacarias. Eles mostram que a promessa de Deus a Davi não era apenas a continuidade de uma dinastia política. Apontava para um Rei que seria justo de modo perfeito (Sl 72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), eterno (Sl 21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 45; 89), universal (Sl 72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 110), Filho de Deus (Sl 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 89), Senhor do próprio Davi e sacerdote para sempre (Sl 110 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Nenhum rei histórico preencheu esse retrato. A crise do Salmo 89 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) torna isso dolorosamente evidente. O Saltério termina a sua parte davídica com uma pergunta, e o Novo Testamento abre com uma resposta: a genealogia de Jesus, filho de Davi (Mt 1:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Visão cristocêntrica
Este é o bloco do Saltério em que a conexão com Cristo é mais direta e abundante.
Salmo 110 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Jesus usou o salmo para desafiar os fariseus: se Davi, inspirado pelo Espírito, chama o Messias de "meu senhor", como pode o Messias ser apenas seu filho? (Mt 22:41-46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 12:35-37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 20:41-44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A pergunta revela que o Messias é mais do que um descendente humano de Davi. No julgamento, Jesus declarou que o veriam sentado à direita do Poder (Mc 14:62 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pedro anunciou no Pentecostes que Jesus ressuscitado foi exaltado à direita de Deus em cumprimento desse salmo (At 2:34-36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo o usou para descrever o reinado de Cristo até a vitória final sobre a morte (1 Co 15:25-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e sua exaltação acima de todo poder (Ef 1:20-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Carta aos Hebreus o torna eixo de toda a sua cristologia. Cristo se assentou à direita da Majestade após realizar a purificação dos pecados (Hb 1:3, 13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 10:12-13). E ele é sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedeque, constituído por juramento, com um sacerdócio que não passa, e por isso é capaz de salvar perfeitamente os que por ele se aproximam de Deus (Hb 5:6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 6:20; 7:1-28).
Salmo 45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Hebreus 1:8-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) aplica ao Filho as palavras sobre o trono eterno e o cetro de justiça, reconhecendo nele aquele a quem o salmo chama de Deus. O tema nupcial encontra seu cumprimento no casamento de Cristo com a Igreja (Ef 5:25-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), consumado nas bodas do Cordeiro (Ap 19:7-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Essa última conexão é temática: o Novo Testamento não cita o Salmo 45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) nessas passagens, mas desenvolve a mesma imagem.
Salmos 89 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 132. Paulo, em Antioquia da Pisídia, combina as palavras de Salmo 89:20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) com 1 Samuel 13:14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) para falar da escolha de Davi, e anuncia que da descendência dele Deus trouxe Jesus como Salvador (At 13:22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pedro afirma que Davi sabia que Deus lhe havia jurado colocar um descendente em seu trono (At 2:30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em alusão a Salmo 132:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 89:3-4. O anjo Gabriel anuncia a Maria que seu filho receberá o trono de Davi e seu reino não terá fim (Lc 1:32-33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É a resposta direta à pergunta angustiada do Salmo 89 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). A aliança não foi anulada: foi cumprida de uma forma que ninguém esperava. O Ungido rejeitado, cuja coroa foi lançada ao pó, é Jesus, coroado de espinhos, crucificado e ressuscitado. A ressurreição é a garantia de que as misericórdias prometidas a Davi são firmes (At 13:34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), citando Is 55:3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Salmo 18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Paulo cita Salmo 18:49 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) para mostrar que os gentios foram incluídos no louvor por meio de Cristo (Rm 15:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O rei que louva a Deus entre as nações é lido na boca do Messias.
Salmos 72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), 20, 21 e 101 (conexões temáticas). O Novo Testamento não cita o Salmo 72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), mas o retrato que ele traça corresponde a Jesus: o Rei que anuncia boas-novas aos pobres (Lc 4:18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), para quem os pequenos e desprezados têm valor infinito (Mt 25:40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e diante de quem os magos do Oriente trazem ouro, incenso e mirra (Mt 2:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em eco temático de Salmo 72:10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Isaías 60:6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). A vida longa "para todo o sempre" pedida para o rei no Salmo 21:4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) só se cumpre literalmente no Rei ressuscitado, que vive pelos séculos dos séculos (Ap 1:18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o programa de integridade do Salmo 101 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que nenhum rei cumpriu, foi vivido sem falha por aquele que não cometeu pecado (1 Pe 2:22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Aplicações espirituais e práticas
1. Medir a liderança pelo cuidado com os mais fracos. O Salmo 72 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) oferece um critério radical para avaliar qualquer autoridade: não o crescimento, a fama ou o poder, e sim o modo como são tratados os que não têm voz. Isso vale para governantes e também para empresários, gestores, advogados, professores e pais. Na prática, é uma pergunta constante: nas minhas decisões, quem é o "necessitado que não tem quem o ajude"? O colaborador mais simples, o cliente mais vulnerável, a parte mais fraca de uma negociação? O sangue deles é precioso aos olhos do Rei a quem sirvo.
2. Governar primeiro a própria casa e escolher bem os colaboradores. O Salmo 101 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ensina que a integridade pública começa na integridade privada. O rei começa por sua casa e pelo que admite diante dos olhos. Depois vem a escolha de quem estará por perto. Em linguagem atual: cuidar do que se consome e se tolera no ambiente pessoal, recusar a cultura da fofoca e da calúnia nas equipes, e dar peso à confiabilidade e ao caráter, e não apenas à competência, ao selecionar sócios, conselheiros e colaboradores.
3. Orar pelos que governam. Os Salmos 20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 21 mostram o povo orando pelo rei antes e depois da batalha. O Novo Testamento renova essa prática ao pedir orações por todos os que estão em autoridade (1 Tm 2:1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Orar pelos governantes, inclusive por aqueles de quem se discorda, não é apoio político. É reconhecimento de que toda autoridade está sob Deus e depende dele para governar com justiça. Essa prática também purifica a própria atitude diante da política, substituindo a amargura pela intercessão.
4. Levar à oração as promessas que parecem ter falhado. O Salmo 89 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é um modelo de honestidade diante de Deus. O salmista não nega a promessa nem esconde a realidade: coloca uma ao lado da outra e pergunta. Há momentos em que a vida parece contradizer o que Deus prometeu: uma família que se desfaz, um projeto de anos que desmorona, uma oração que parece sem resposta. O salmo autoriza o crente a lamentar usando a própria linguagem das promessas de Deus. E a história do Salmo 89 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ensina que Deus cumpre suas promessas de maneiras mais profundas do que imaginamos, como na cruz e na ressurreição de Cristo.
5. Servir ao Rei-Sacerdote com disposição voluntária. O Salmo 110 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) descreve um povo que se oferece voluntariamente no dia do poder do Rei. O serviço cristão não é recrutamento forçado, e sim resposta livre e alegre a quem reina e intercede por nós. Ao mesmo tempo, o sacerdócio eterno de Cristo é consolo para quem se sente inadequado. Aquele que está à direita de Deus não apenas governa, mas intercede, e por isso é possível aproximar-se de Deus com confiança (Hb 4:14-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 7:25).
6. Viver a devoção da noiva. O Salmo 45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), lido à luz do Novo Testamento, convida a Igreja e cada crente a uma devoção exclusiva e alegre a Cristo, o noivo. Isso significa deixar para trás lealdades que competem com ele e encontrar nele não um peso, mas uma alegria. A fé cristã não é apenas obediência a um soberano: é amor a um noivo.
Mensagem de reflexão
Sabedoria para o Cotidiano
Os reis de Israel passaram, as coroas caíram no pó e as promessas pareceram esquecidas. Mas Deus não mentiu a Davi: do tronco cortado brotou o Rei que se assenta à direita do Pai, intercede por nós e governa com justiça para os pobres. Quando uma promessa de Deus parecer em ruínas na sua vida, lembre-se da cruz e do túmulo vazio, onde a aliança que parecia desfeita foi cumprida. E onde você tiver alguma autoridade, por menor que seja, exerça-a como esse Rei: com integridade, em serviço, e com olhos atentos para os que ninguém defende.