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Lucas · 42 de 66 · Novo Testamento

Lucas — Bloco 11: A Paixão do Justo: Ceia, Getsêmani, Julgamentos e Cruz

Capítulos principais: Lucas 22:1–23:56 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).

Tema central do bloco: este é o momento para o qual todo o Evangelho caminhou. Desde que Jesus firmou o rosto em direção a Jerusalém (9:51), Lucas preparou o leitor para o "êxodo" que ele cumpriria na cidade (9:31). Agora esse êxodo acontece, e justamente no tempo da Páscoa, a festa que celebrava a libertação de Israel do Egito.

O bloco narra as últimas horas de Jesus em quatro movimentos.

  • A ceia (22:1-38): Judas combina a traição, e Jesus celebra a Páscoa com os apóstolos. Ele dá ao pão e ao cálice um novo sentido, o de seu corpo entregue e de seu sangue da nova aliança. Ensina que a grandeza está no serviço, ora por Pedro antes da queda e anuncia que será contado entre os transgressores, cumprindo Isaías 53:12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
  • O monte das Oliveiras (22:39-65): Jesus ora em agonia e se submete à vontade do Pai. É preso por um grupo guiado por Judas, cura a orelha do servo ferido e declara que aquela é a hora das trevas. No pátio do sumo sacerdote, Pedro o nega três vezes, até que o olhar do Senhor o encontra.
  • Os julgamentos (22:66–23:25): Jesus comparece diante do Sinédrio, de Pilatos e de Herodes. Afirma que o Filho do Homem se assentará à direita do poder de Deus. Pilatos o declara inocente três vezes, mas cede à pressão da multidão, solta Barrabás e entrega Jesus para ser crucificado.
  • A cruz e o sepultamento (23:26-56): Simão de Cirene carrega a cruz atrás de Jesus, e Jesus fala às mulheres que choram. Na cruz, intercede pelos que o crucificam, promete o paraíso a um malfeitor arrependido e entrega o espírito ao Pai. O centurião reconhece que ele era justo, e José de Arimateia o sepulta.

Lucas tem ênfases próprias na narrativa da paixão. A mais evidente é a inocência de Jesus, declarada por Pilatos três vezes (23:4, 14, 22), por Herodes (23:15), pelo malfeitor arrependido (23:41) e pelo centurião, que o chama de justo (23:47). Outra é o perdão, que Jesus oferece até na cruz. A terceira é a oração: Jesus ora por Pedro, ora no Getsêmani e morre orando um salmo. Por fim, o cumprimento: tudo acontece como estava escrito e determinado (22:22, 37). Jesus não é vítima de um acidente histórico. É o Servo justo que se entrega, conforme o plano de Deus, para cumprir a Páscoa definitiva.

Versículos-chave do Livro estudado:

Versículos relacionados em outros Livros da Bíblia:

Explicação teológica e bíblica:

A traição e a ceia da nova aliança (22:1-23)

Aproximava-se a festa dos Pães sem Fermento, chamada Páscoa (22:1). Os chefes dos sacerdotes e os escribas procuravam um modo de matar Jesus, mas temiam o povo (22:2). A Páscoa celebrava a noite em que Deus libertou Israel do Egito, quando o sangue do cordeiro nas portas protegeu as casas do juízo (Êx 12). Jerusalém se enchia de peregrinos, e o clima de expectativa de libertação tornava as autoridades romanas e judaicas especialmente atentas a qualquer agitação.

Lucas registra que Satanás entrou em Judas, chamado Iscariotes, um dos doze (22:3). A frase retoma a nota do fim da tentação no deserto, quando o diabo se afastou de Jesus até o momento oportuno (4:13). Esse momento chegou. Judas vai até os chefes dos sacerdotes e os comandantes da guarda do templo e combina como entregar Jesus. Eles se alegram e concordam em lhe dar dinheiro, e ele passa a procurar uma oportunidade de entregá-lo longe da multidão (22:4-6). Mateus especifica o valor de trinta moedas de prata, ligando-o a Zacarias 11:12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (Mt 26:15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Lucas, que já destacou os perigos do dinheiro ao longo do Evangelho, apenas registra que a traição foi feita por dinheiro. A presença de Satanás não elimina a responsabilidade de Judas. Lucas mostra a ação do mal por trás dos acontecimentos, mas Judas age por decisão própria.

No dia em que se sacrificava o cordeiro pascal, Jesus envia Pedro e João para preparar a refeição (22:7-8). Eles devem seguir um homem carregando um cântaro de água, algo incomum numa época em que essa tarefa cabia normalmente às mulheres, e pedir ao dono da casa a sala de hóspedes onde Jesus comeria a Páscoa com os discípulos (22:9-12). A palavra usada para a sala é katalyma, a mesma do nascimento, quando não havia lugar para eles (2:7). O Messias que nasceu sem lugar na sala de hóspedes faz sua última refeição numa sala de hóspedes emprestada.

Quando chega a hora, Jesus se reclina à mesa com os apóstolos (22:14). Ele declara que desejou intensamente comer aquela Páscoa com eles antes de sofrer. A expressão grega repete a ideia de desejo para intensificá-la, um modo semítico de falar. E afirma que não a comerá novamente até que ela se cumpra no reino de Deus (22:15-16). A Páscoa, que celebrava a libertação do Egito, aponta para um cumprimento maior, que Jesus está prestes a realizar.

Lucas é o único a mencionar dois cálices (22:17-20). A refeição pascal judaica incluía quatro cálices de vinho em momentos diferentes, e o primeiro cálice mencionado por Lucas corresponde provavelmente a um dos primeiros da refeição. Jesus o toma, dá graças e manda que os discípulos o repartam entre si, afirmando que não beberá mais do fruto da videira até que venha o reino de Deus.

Em seguida, Jesus toma o pão, dá graças (eucharistēsas, de onde vem "eucaristia"), parte-o e o dá aos discípulos. Ele identifica o pão com seu corpo, entregue em favor deles, e manda que façam isso em memória dele (anamnēsis). Depois da refeição, faz o mesmo com o cálice e o identifica com a nova aliança no seu sangue, derramado em favor deles.

Cada elemento tem raízes profundas no Antigo Testamento.

  • O corpo entregue: remete ao Servo de Isaías, que entregou a vida pelos pecados de muitos (Is 53:12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
  • A memória: em Israel, a Páscoa era uma memória (Êx 12:14), não no sentido de mera lembrança, mas de atualização. Cada geração celebrava a libertação como se ela própria tivesse saído do Egito.
  • A nova aliança: cumpre a promessa de Jeremias 31:31-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em que Deus escreveria sua Lei nos corações e perdoaria os pecados do povo.
  • O sangue da aliança: retoma o sangue aspergido sobre o povo no Sinai para selar a primeira aliança (Êx 24:8).

O relato de Lucas é muito próximo do que Paulo transmite em 1 Coríntios 11:23-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), provavelmente escrito antes de Lucas. Ambos incluem a ordem de fazer isso em memória de Jesus e a expressão "nova aliança". Isso indica uma tradição litúrgica antiga, já celebrada nas comunidades cristãs. Joachim Jeremias (As palavras eucarísticas de Jesus, 1966) estudou o contexto pascal da última ceia e mostrou como Jesus reinterpretou os elementos da refeição à luz de sua própria morte.

Há uma questão textual importante. Os versículos 19b e 20, desde a ordem de fazer isso em memória até o cálice da nova aliança, não aparecem no Códice de Beza nem em algumas antigas versões latinas. No século XIX, os estudiosos Westcott e Hort consideraram esses versículos um acréscimo posterior. Hoje, a grande maioria dos especialistas aceita o texto longo como original. Ele está presente nos manuscritos mais antigos e importantes, como o Papiro 75, o Códice Vaticano e o Códice Sinaítico, conforme registra Bruce Metzger (A Textual Commentary on the Greek New Testament).

As tradições cristãs compreendem de maneiras diferentes a relação entre o pão e o vinho e o corpo e o sangue de Cristo.

  • A tradição católica: fala em transubstanciação.
  • A tradição luterana: afirma a presença real de Cristo nos elementos.
  • A tradição reformada: fala de uma presença espiritual recebida pela fé.
  • Outras tradições evangélicas: enfatizam o caráter memorial.

Todas reconhecem na ceia uma celebração instituída por Jesus, que proclama sua morte e anuncia sua volta (1Co 11:26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A ceia é interrompida por um anúncio (22:21-23). A mão daquele que vai trair Jesus está com ele sobre a mesa. Comer juntos era um sinal de amizade e aliança, e a traição de alguém que partilha a mesa era especialmente grave, como lamenta o Salmo 41:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O Filho do Homem segue o caminho que foi determinado (hōrismenon), mas ai daquele por meio de quem ele é traído. O plano de Deus não diminui a culpa de Judas. Os discípulos começam a perguntar entre si qual deles faria aquilo.

A grandeza que serve e o reino prometido (22:24-30)

Logo depois do anúncio da traição, surge entre os discípulos uma discussão (philoneikia, "rivalidade") sobre qual deles seria considerado o maior (22:24). A cena é constrangedora. Na noite em que Jesus anuncia sua morte e institui a ceia da nova aliança, os discípulos disputam posição, repetindo a discussão de 9:46.

Jesus responde com um contraste (22:25-27). Os reis das nações dominam sobre elas, e os que exercem autoridade são chamados de "benfeitores" (euergetai). "Benfeitor" era um título oficial de reis e patronos do mundo helenístico, como o rei egípcio Ptolomeu III, chamado Euergetēs. Esses governantes faziam doações públicas e, em troca, exigiam honra e lealdade. A generosidade era uma forma de controle. Jesus diz que entre seus discípulos não deve ser assim. O maior deve ser como o mais novo, e quem lidera, como quem serve.

Jesus então pergunta quem é maior: quem está sentado à mesa ou quem serve? A resposta óbvia, no mundo antigo, é quem está à mesa. Mas Jesus declara que está no meio deles como aquele que serve (22:27). Esta frase, colocada justamente na última ceia, corresponde em Lucas ao gesto que João narra do lava-pés (Jo 13:1-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e à afirmação de Marcos de que o Filho do Homem veio para servir e dar a vida (Mc 10:45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que Jesus prometeu na parábola dos servos vigilantes, o senhor que se cinge e serve à mesa (12:37), ele já está fazendo.

Em seguida, Jesus reconhece a fidelidade dos discípulos, que permaneceram com ele em suas provações (22:28). Promete que, assim como o Pai lhe confiou um reino, ele também confia um reino a eles (22:29). O verbo diatithemai é da mesma raiz de diathēkē, "aliança": Jesus estabelece com eles uma aliança de reino. Eles comerão e beberão à sua mesa no seu Reino e se assentarão em tronos para julgar as doze tribos de Israel (22:30). A grandeza que buscavam lhes será dada, mas como dom, e no caminho do serviço.

A oração por Pedro e as duas espadas (22:31-38)

Jesus se dirige a Pedro chamando-o duas vezes pelo nome antigo, Simão (22:31-32). Satanás reclamou o direito de peneirar os discípulos como se peneira o trigo. O verbo exaiteomai significa "pedir com insistência", "exigir", e o pronome "vós" está no plural: todos os discípulos serão provados. A cena lembra o livro de Jó, em que Satanás pede permissão a Deus para provar Jó (Jó 1–2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas Jesus acrescenta, agora no singular, que orou por Pedro, para que sua fé não desfaleça. E quando ele se voltar (epistrepsas, "se converter", "retornar"), deve fortalecer os irmãos.

Jesus não diz que Pedro não cairá. Diz que sua fé não será destruída e que ele voltará. A oração de Jesus precede a queda de Pedro e garante sua restauração. Mais ainda, Jesus já confia a Pedro uma missão para depois da queda. Pedro, que vai negar Jesus, será aquele que fortalecerá os irmãos. Atos mostrará essa promessa cumprida quando Pedro pregar no Pentecostes (At 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e João narrará sua restauração junto ao lago (Jo 21:15-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Pedro responde com autoconfiança: está pronto para ir com Jesus à prisão e até à morte (22:33). Jesus anuncia que, antes que o galo cante naquele dia, Pedro negará três vezes que o conhece (22:34).

Jesus então lembra aos discípulos a missão em que os enviou sem bolsa, sem sacola e sem sandálias, e pergunta se lhes faltou alguma coisa. Eles respondem que nada (22:35). Mas agora o tempo é diferente (22:36-37). Quem tiver bolsa deve levá-la, e também a sacola, e quem não tiver espada deve vender a capa e comprar uma. A razão é que precisa se cumprir nele a Escritura que diz que foi contado entre os transgressores, e o que se refere a ele está chegando ao fim. É a única citação explícita de Isaías 53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) na boca de Jesus nos Evangelhos. Jesus se identifica com o Servo sofredor, que seria contado entre os criminosos, morreria entre eles e intercederia pelos transgressores (Is 53:12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Os discípulos respondem que há ali duas espadas, e Jesus diz que basta (hikanon estin) (22:38). A frase é difícil, e há várias interpretações.

  • Metafórica: a maioria dos intérpretes entende que Jesus fala de modo figurado sobre o tempo de hostilidade que se aproxima, em que os discípulos não poderão contar com a hospitalidade de antes. Os discípulos, porém, entendem literalmente, e o "basta" de Jesus encerra a conversa, como quem diz "chega disso".
  • O cumprimento da Escritura: outros sugerem que as duas espadas servem para que Jesus seja de fato "contado entre os transgressores", isto é, preso como alguém associado a homens armados.

Em todas as leituras, a cena seguinte deixa claro que Jesus não aprova a resistência armada. Quando um discípulo usa a espada, Jesus manda parar e cura o ferido (22:49-51).

A agonia no monte das Oliveiras (22:39-46)

Jesus sai e vai, como de costume, ao monte das Oliveiras, e os discípulos o seguem (22:39). Lucas não menciona o nome Getsêmani, usado por Marcos e Mateus, e destaca que Jesus ia ali com frequência (21:37). Judas conhecia o lugar. Ao chegar, Jesus orienta os discípulos a orarem para não caírem em tentação (22:40). Ele se afasta deles cerca de um arremesso de pedra, ajoelha-se e ora (22:41).

Na oração, Jesus pede ao Pai que, se for da sua vontade, afaste dele aquele cálice. Mas submete o pedido à vontade do Pai, e não à sua própria (22:42). O "cálice" é uma imagem do Antigo Testamento para a ira e o juízo de Deus sobre o pecado (Sl 75:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 51:17, 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 25:15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O sofrimento de Jesus não é apenas o medo da dor física e da morte. É a perspectiva de beber o cálice do juízo de Deus em lugar dos pecadores. A oração revela a verdadeira humanidade de Jesus, que sente o peso do que vai enfrentar e o expressa ao Pai com honestidade. Revela também sua plena obediência. Hebreus descreverá esse momento ao dizer que Cristo ofereceu orações com forte clamor e lágrimas e aprendeu a obediência pelo que sofreu (Hb 5:7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Os versículos 43 e 44 relatam que um anjo do céu apareceu para fortalecer Jesus e que, em agonia, ele orava ainda mais intensamente, e seu suor se tornou como gotas de sangue caindo no chão. Esses versículos apresentam uma questão textual. Eles não aparecem em alguns dos manuscritos mais antigos, como o Papiro 75 e o Códice Vaticano, mas estão presentes em outros, como o Códice Sinaítico em sua forma original e o Códice de Beza. Além disso, foram conhecidos e citados por autores do século II, como Justino Mártir e Irineu. Muitas edições modernas os colocam entre colchetes. Os estudiosos se dividem sobre sua autenticidade. Em favor de que pertençam a uma tradição muito antiga está a hipótese de que tenham sido omitidos por copistas que se incomodavam com a imagem de um Jesus tão fragilizado.

A palavra agōnia, que só aparece aqui no Novo Testamento, indica uma luta intensa, como a de um atleta. O texto diz que o suor era "como" gotas de sangue, uma comparação que pode descrever a abundância e o peso do suor. Alguns relacionam a descrição a um fenômeno médico raro, a hematidrose, em que vasos sanguíneos se rompem nas glândulas sudoríparas sob estresse extremo. Mas o texto não exige essa explicação.

Ao terminar a oração, Jesus se levanta e encontra os discípulos dormindo. Lucas, com delicadeza, explica que dormiam de tristeza (22:45). Jesus pergunta por que dormem e os manda levantar e orar, para não caírem em tentação (22:46). Lucas narra apenas uma oração de Jesus, e não três, como Marcos (Mc 14:32-42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O foco está na oração e na submissão do Filho, e não na fraqueza repetida dos discípulos.

A prisão e as negações de Pedro (22:47-65)

Enquanto Jesus ainda fala, chega uma multidão guiada por Judas, que se aproxima para beijá-lo (22:47). O beijo era a saudação habitual entre um discípulo e seu mestre. Jesus pergunta a Judas se é com um beijo que ele trai o Filho do Homem (22:48). O gesto de afeto se tornou o sinal da traição.

Os discípulos percebem o que vai acontecer e perguntam se devem usar a espada. Um deles fere o servo do sumo sacerdote e lhe corta a orelha direita (22:49-50). João identifica o discípulo como Pedro e o servo como Malco (Jo 18:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus intervém e manda parar; depois toca a orelha do servo e o cura (22:51). Só Lucas registra essa cura, que é o último milagre de Jesus antes da cruz. Ele cura um dos homens que vieram prendê-lo. Até no momento da prisão, Jesus pratica o amor aos inimigos que ensinou (6:27-28).

Jesus se dirige então aos chefes dos sacerdotes, aos comandantes da guarda do templo e aos anciãos (22:52-53). Pergunta se vieram com espadas e porretes como se ele fosse um bandido (lēstēs, palavra usada também para rebeldes armados). Todos os dias ele esteve com eles no templo, e não o prenderam. Mas aquela era a hora deles e do poder das trevas. Os líderes agem às escondidas, de noite, e Jesus revela que por trás deles está o poder do mal, que recebeu sua hora. Essa hora é breve e está dentro do plano de Deus.

Jesus é preso e levado à casa do sumo sacerdote, e Pedro o segue de longe (22:54). No pátio, acendem uma fogueira, e Pedro se senta entre os que estão ali (22:55). Seguem as três negações (22:56-60).

  1. A criada: observando-o à luz do fogo, ela afirma que ele também estava com Jesus. Pedro nega conhecê-lo.
  2. Outra pessoa: pouco depois, alguém o reconhece como um dos discípulos. Pedro nega ser um deles.
  3. A insistência: cerca de uma hora depois, outro insiste que ele certamente estava com Jesus, pois também era galileu, provavelmente reconhecido pelo sotaque. Pedro diz que não sabe do que estão falando.

Nesse momento, enquanto ele ainda fala, o galo canta.

Lucas acrescenta um detalhe que só ele registra: o Senhor se volta e olha para Pedro (22:61). O verbo emblepō indica um olhar direto e penetrante. Pedro se lembra da palavra de Jesus, sai e chora amargamente (22:62). O olhar de Jesus não é descrito como acusação. Diante da oração que Jesus havia feito por Pedro (22:32), pode ser entendido como um olhar que convida ao arrependimento. O choro de Pedro marca o início de sua volta.

Enquanto isso, os homens que guardavam Jesus zombam dele e o espancam (22:63-65). Cobrem seus olhos e mandam que ele profetize quem foi que bateu nele, insultando-o de muitas maneiras. A ironia é que, naquele mesmo momento, a profecia de Jesus sobre Pedro estava se cumprindo no pátio.

Os julgamentos: Sinédrio, Pilatos e Herodes (22:66–23:25)

Ao amanhecer, reúne-se o conselho dos anciãos do povo, chefes dos sacerdotes e escribas, e Jesus é levado diante do Sinédrio (22:66). Lucas narra uma sessão pela manhã, enquanto Marcos e Mateus descrevem também um interrogatório noturno. Os estudiosos discutem a legalidade do processo. A Mishná, codificada por volta de 200 d.C., proíbe julgamentos de pena capital à noite e na véspera de festas (Sanhedrin 4:1). Não se sabe, porém, se essas normas já estavam em vigor no tempo de Jesus. A sessão matinal de Lucas pode refletir a preocupação de dar forma oficial à decisão.

Os membros do conselho perguntam se ele é o Cristo (22:67-68). Jesus responde que, se lhes disser, não acreditarão, e, se ele perguntar, não responderão. Mas declara que, desde agora, o Filho do Homem estará sentado à direita do poder de Deus (22:69). A afirmação combina o Salmo 110:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que Jesus já citou no templo (20:42-43), com Daniel 7:13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Lucas omite a menção da vinda nas nuvens presente em Marcos. O foco está na exaltação que começa "desde agora": a cruz é o início da entronização.

Eles perguntam se ele é, então, o Filho de Deus. Jesus responde que eles mesmos estão dizendo que ele é (22:70). A expressão é uma forma afirmativa de responder, deixando a responsabilidade da declaração com quem pergunta. Os membros do conselho concluem que não precisam de mais testemunhas, pois ouviram da própria boca dele (22:71).

Todo o conselho leva Jesus a Pilatos (23:1). O governador romano era quem tinha autoridade para aplicar a pena de morte. Uma inscrição encontrada em Cesareia Marítima em 1961 confirma o nome e o cargo de Pôncio Pilatos como prefeito da Judeia. Diante de Pilatos, as acusações são reformuladas em termos políticos (23:2): Jesus estaria subvertendo a nação, proibindo o pagamento de tributo a César e dizendo ser o Cristo, um rei. A segunda acusação é falsa, pois Jesus havia mandado restituir a César o que é de César (20:25). A terceira é uma distorção: Jesus é o Cristo, mas não um rei que disputa o poder com Roma.

Pilatos pergunta se ele é o rei dos judeus, e Jesus responde que é Pilatos quem está dizendo isso (23:3). Pilatos declara aos chefes dos sacerdotes e à multidão que não encontra nenhum crime naquele homem (23:4). É a primeira de três declarações de inocência por parte de Pilatos. Os acusadores insistem que Jesus agita o povo com seu ensino por toda a Judeia, desde a Galileia até ali (23:5).

Ao ouvir falar da Galileia, Pilatos pergunta se o homem é galileu e, sabendo que estava sob a jurisdição de Herodes, o envia a ele, que também estava em Jerusalém naqueles dias (23:6-7). O episódio diante de Herodes é exclusivo de Lucas (23:8-12). Herodes Antipas fica muito contente ao ver Jesus. Havia muito tempo desejava vê-lo (9:9), porque ouvira falar dele e esperava vê-lo fazer algum sinal. Ele faz muitas perguntas, mas Jesus não lhe responde nada. O silêncio de Jesus lembra o Servo de Isaías, que não abriu a boca diante de seus acusadores (Is 53:7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Para quem queria um espetáculo, Jesus não tem nada a oferecer.

Os chefes dos sacerdotes e os escribas acusam Jesus com veemência. Herodes e seus soldados o tratam com desprezo e zombam dele, vestindo-o com uma roupa resplandecente, provavelmente uma imitação de traje real. Depois o mandam de volta a Pilatos. Lucas registra que naquele dia Herodes e Pilatos, que antes eram inimigos, se tornaram amigos. A rejeição de Jesus une adversários. Os apóstolos verão nesse episódio o cumprimento do Salmo 2:1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em que os reis da terra e os governantes se reúnem contra o Senhor e contra o seu Ungido, e citarão nominalmente Herodes e Pôncio Pilatos (At 4:25-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Pilatos reúne os chefes dos sacerdotes, os líderes e o povo (23:13-16). Declara que examinou Jesus diante deles e não encontrou nenhum dos crimes de que o acusam, e que Herodes também não. Jesus não fez nada que mereça a morte. Por isso, propõe castigá-lo, provavelmente com açoites, e depois soltá-lo. É a segunda declaração de inocência. O versículo 17, que menciona o costume de soltar um prisioneiro na festa, não aparece nos manuscritos mais antigos e foi provavelmente acrescentado a partir de Marcos e Mateus.

A multidão grita em uníssono que Jesus seja eliminado e que Barrabás seja solto (23:18). Lucas explica que Barrabás estava preso por causa de uma revolta ocorrida na cidade e por homicídio (23:19). Pilatos, querendo soltar Jesus, fala outra vez à multidão, mas eles gritam que o crucifique (23:20-21). Pela terceira vez, Pilatos pergunta que mal Jesus fez, afirma que não encontrou nele nenhum motivo para a morte e repete que vai castigá-lo e soltá-lo (23:22). Mas eles insistem com grandes gritos, pedindo a crucificação, e os gritos prevalecem (23:23). Pilatos decide atender ao pedido (23:24). Solta o homem preso por revolta e homicídio, que eles pediam, e entrega Jesus à vontade deles (23:25).

O nome Barrabás significa, em aramaico, "filho do pai". A ironia é profunda. O culpado, preso por revolta e homicídio, é solto, enquanto o inocente, o verdadeiro Filho do Pai, é condenado em seu lugar. Muitos intérpretes veem na cena uma imagem da substituição que está no centro da fé cristã: o justo morre pelos injustos (1Pe 3:18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A leitura é temática, porque Lucas não a desenvolve explicitamente. Mas ela é coerente com a declaração de que Jesus seria contado entre os transgressores (22:37).

A figura de Pilatos em Lucas é a de um governante que reconhece a inocência de Jesus, mas não tem coragem de agir de acordo com o que sabe. Filo de Alexandria e Flávio Josefo o descrevem como cruel e inflexível em outras situações. Diante da pressão da multidão e do risco político, porém, ele cede. Raymond E. Brown (The Death of the Messiah, 1994) observa que Lucas enfatiza a inocência de Jesus também para mostrar aos leitores do Império Romano que o cristianismo não era um movimento subversivo. A autoridade romana declarou três vezes que seu fundador não cometera crime algum.

O caminho da cruz e as filhas de Jerusalém (23:26-31)

Enquanto levam Jesus, os soldados obrigam um certo Simão, de Cirene, que voltava do campo, a carregar a cruz atrás de Jesus (23:26). Cirene era uma cidade no norte da África, no território da atual Líbia, com uma importante comunidade judaica. Marcos menciona que Simão era pai de Alexandre e Rufo (Mc 15:21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), provavelmente pessoas conhecidas na Igreja primitiva. Lucas destaca que ele carrega a cruz "atrás de Jesus". A expressão lembra as palavras de Jesus sobre o discipulado: quem quiser segui-lo deve tomar a sua cruz e ir atrás dele (9:23; 14:27). Simão, obrigado pelas circunstâncias, se torna a imagem do discípulo.

Uma grande multidão segue Jesus, incluindo mulheres que batiam no peito e lamentavam por ele (23:27). Jesus se volta para elas e as chama de filhas de Jerusalém (23:28-31). Não devem chorar por ele, mas por si mesmas e por seus filhos. Virão dias em que se dirá que são felizes as mulheres estéreis, que não geraram nem amamentaram. Naquele tempo, as pessoas pedirão aos montes que caiam sobre elas e às colinas que as cubram, retomando Oseias 10:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).

Jesus conclui com um provérbio: se fazem isso com a árvore verde, o que acontecerá com a seca? A árvore verde é o próprio Jesus, inocente e cheio de vida. A árvore seca é Jerusalém, que rejeitou o caminho da paz. Se o inocente sofre assim, o juízo sobre a cidade culpada será ainda mais terrível. Mesmo a caminho da cruz, Jesus pensa no sofrimento dos outros e renova a advertência sobre a destruição da cidade (19:41-44; 21:20-24).

As palavras na cruz, o malfeitor perdoado e a confissão do centurião (23:32-49)

Dois malfeitores (kakourgoi) são levados com Jesus para serem executados (23:32). Quando chegam ao lugar chamado Caveira, em aramaico Gólgota e em latim Calvário, crucificam Jesus e os dois malfeitores, um à direita e outro à esquerda (23:33). Cumpre-se literalmente a Escritura que Jesus havia citado: ele é contado entre os transgressores (22:37; Is 53:12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A crucificação era considerada no mundo romano a forma mais cruel e humilhante de execução, reservada a escravos, rebeldes e criminosos das classes mais baixas. O orador Cícero a chamou de o mais cruel e repugnante dos suplícios (Contra Verres 2.5.165). Martin Hengel (Crucifixion, 1977) mostrou como a simples menção da cruz causava repulsa no mundo antigo. Por isso, anunciar um Messias crucificado era um escândalo (1Co 1:23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os Evangelhos, porém, narram a crucificação com grande sobriedade, sem se deter nos detalhes do sofrimento físico.

Lucas registra três palavras de Jesus na cruz, todas exclusivas do seu Evangelho e todas dirigidas ou ao Pai ou a um pecador. A primeira vem logo depois da crucificação: Jesus intercede ao Pai pelo perdão dos que o crucificam, porque agem sem saber o que fazem (23:34). É o cumprimento do que ele ensinou sobre amar os inimigos e orar pelos que maltratam (6:27-28). É também o cumprimento de Isaías 53:12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que diz que o Servo intercedeu pelos transgressores. Essa oração também apresenta uma questão textual. Ela não está em alguns manuscritos antigos importantes, como o Papiro 75 e o Códice Vaticano, mas aparece em muitos outros, como o Sinaítico e o Alexandrino. Muitos especialistas a consideram uma tradição autêntica. Estêvão, o primeiro mártir, repetirá o gesto ao morrer, pedindo que o pecado de seus executores não lhes seja imputado (At 7:60 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Os soldados repartem as roupas de Jesus tirando sortes (23:34), como descrito no Salmo 22:18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O povo fica observando, e os líderes zombam dele (23:35). Ele salvou outros; que salve a si mesmo, se é o Cristo de Deus, o Escolhido. A palavra "Escolhido" é a mesma da voz do Pai na transfiguração (9:35). Os soldados também zombam, oferecendo-lhe vinagre (Sl 69:21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e dizendo que, se ele é o rei dos judeus, salve a si mesmo (23:36-37). Sobre a cruz está a inscrição que o identifica como rei dos judeus (23:38). A acusação escrita pelos romanos é, sem que eles saibam, a verdade.

As zombarias repetem três vezes a mesma proposta, a de salvar a si mesmo, e duas vezes em forma condicional, "se és". Elas ecoam as tentações do deserto, em que o diabo também começava suas propostas com "se és o Filho de Deus" (4:3, 9). Este é o "momento oportuno" para o qual o diabo havia se afastado (4:13). A tentação final é a mesma das primeiras: usar seu poder para se salvar, evitando a cruz. Jesus não responde, porque é justamente não salvando a si mesmo que ele salva os outros.

Um dos malfeitores crucificados também o insulta (23:39-41). Ele pergunta se Jesus não é o Cristo e o desafia a salvar a si mesmo e a eles. Mas o outro o repreende, perguntando se ele não teme a Deus, estando sob a mesma condenação. Os dois foram condenados com justiça e estão recebendo o que merecem por seus atos, mas aquele homem não fez nada de mal. O malfeitor reconhece sua culpa e a inocência de Jesus. Então pede a Jesus que se lembre dele quando entrar no seu Reino (23:42). O pedido lembra o de José ao copeiro do faraó, que pediu para ser lembrado quando o outro fosse restaurado (Gn 40:14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É uma confissão de fé surpreendente: aquele homem crucificado ao seu lado é um rei, e seu Reino virá.

A resposta de Jesus é a segunda palavra da cruz em Lucas. Ele promete solenemente ao malfeitor que, naquele mesmo dia, ele estaria com Jesus no paraíso (23:43). É o último "hoje" (sēmeron) do Evangelho de Lucas, que começou com o "hoje" do nascimento do Salvador (2:11). A palavra "paraíso" (paradeisos) vem do persa e significa "jardim". Na Septuaginta, ela designa o jardim do Éden (Gn 2:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e no Novo Testamento indica a presença de Deus (2Co 12:4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 2:7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O malfeitor, que perdeu a vida por seus crimes, recebe a promessa de estar com Cristo na presença de Deus.

Alguns grupos propõem outra pontuação para a frase, ligando o "hoje" ao verbo "digo", e não ao "estarás". Essa leitura não é adotada pela grande maioria dos tradutores e comentaristas, pois Lucas usa a palavra "hoje" ao longo do Evangelho para indicar a realização imediata da salvação. As tradições cristãs diferem sobre a natureza do estado dos mortos antes da ressurreição final, mas a promessa de comunhão com Cristo é clara.

A cena mostra o alcance da graça. A última pessoa salva por Jesus antes de morrer não fez nenhuma boa obra, não foi batizado, não participou da ceia e não teve tempo de mudar de vida. Ele apenas reconheceu sua culpa e confiou em Jesus. É a ilustração mais clara, no Evangelho, de que a salvação é pela graça, por meio da fé.

Por volta do meio-dia, chamado de hora sexta, as trevas cobrem toda a terra até as três da tarde, a hora nona (23:44). O sol deixa de brilhar (23:45). A palavra usada por Lucas pode sugerir um eclipse, mas a Páscoa era celebrada na lua cheia, quando um eclipse solar é astronomicamente impossível. O texto descreve, portanto, um fenômeno extraordinário, que os leitores das Escrituras associariam ao dia do Senhor, quando o sol se põe ao meio-dia (Am 8:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No mesmo momento, a cortina do santuário se rasga ao meio. Era o véu que separava o lugar santíssimo, onde só o sumo sacerdote podia entrar uma vez por ano. Hebreus interpretará esse fato: pelo sangue de Jesus, o caminho para a presença de Deus foi aberto (Hb 9:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 10:19-22).

Jesus então clama em alta voz e entrega seu espírito nas mãos do Pai, com as palavras do Salmo 31:5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (23:46). É a terceira palavra da cruz em Lucas. O Salmo 31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) era uma oração de confiança, e esse versículo era usado na oração da noite pelos judeus, antes de dormir. Jesus morre como viveu: orando e chamando Deus de Pai. Depois de dizer isso, expira. O verbo "entregar" (paratithēmi) indica confiar alguém aos cuidados de outro. A morte de Jesus não é uma derrota, mas um ato de entrega confiante. Estêvão, ao morrer, também entregará seu espírito, agora ao Senhor Jesus (At 7:59 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Lucas não registra o grito de abandono do Salmo 22:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), presente em Marcos e Mateus (Mc 15:34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 27:46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os quatro Evangelhos, juntos, preservam sete palavras de Jesus na cruz. Cada evangelista escolheu as que melhor expressavam sua compreensão da morte de Jesus. Lucas enfatiza o perdão, a salvação e a entrega confiante ao Pai.

O centurião que comandava a execução, ao ver o que aconteceu, glorifica a Deus e declara que aquele homem era realmente justo (23:47). Marcos registra a confissão do centurião como "Filho de Deus" (Mc 15:39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Lucas usa "justo" (dikaios), que tem dois sentidos. O primeiro é jurídico: Jesus era inocente, como Pilatos, Herodes e o malfeitor já haviam reconhecido. O segundo é teológico: Jesus é o Justo, o Servo justo de Isaías 53:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que justificará a muitos. Os leitores familiarizados com a tradição judaica também poderiam lembrar o livro da Sabedoria, um livro deuterocanônico, que descreve o justo perseguido e condenado pelos ímpios, que o provam para ver se Deus virá socorrê-lo (Sb 2:12-20). Um oficial romano, que acabara de executar Jesus, é o primeiro a confessá-lo depois de sua morte.

As multidões que vieram assistir ao espetáculo, ao verem o que aconteceu, voltam para casa batendo no peito (23:48), o mesmo gesto do publicano arrependido (18:13). Todos os conhecidos de Jesus, incluindo as mulheres que o haviam seguido desde a Galileia, ficam de longe, observando tudo (23:49). A cena lembra o salmista, cujos amigos e companheiros ficaram à distância diante de seu sofrimento (Sl 38:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As mulheres são as testemunhas fiéis da morte de Jesus, como serão do seu sepultamento e de sua ressurreição.

O sepultamento (23:50-56)

Havia um homem chamado José, membro do conselho, bom e justo, que não havia concordado com a decisão nem com a ação dos outros (23:50-51). Ele era de Arimateia, uma cidade da Judeia, e esperava o reino de Deus, como Simeão e Ana no início do Evangelho (2:25, 38). José vai até Pilatos e pede o corpo de Jesus (23:52). Era um gesto de coragem, porque o identificava publicamente com um condenado por sedição. A Lei determinava que o corpo de um executado não permanecesse exposto durante a noite (Dt 21:22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e os romanos muitas vezes deixavam os corpos dos crucificados sem sepultura.

José desce o corpo, o envolve num lençol de linho e o coloca num túmulo cavado na rocha, onde ninguém havia sido sepultado (23:53). O detalhe lembra o jumentinho em que ninguém havia montado (19:30): o que é usado por Jesus é separado para ele. O sepultamento num túmulo de um homem rico recorda Isaías 53:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que fala do Servo sepultado com o rico em sua morte.

Era o dia da preparação, e o sábado estava começando (23:54). As mulheres que tinham vindo da Galileia com Jesus seguem José, observam o túmulo e veem como o corpo foi colocado (23:55). Elas voltam para casa e preparam aromas e perfumes para ungir o corpo. No sábado, descansam, conforme o mandamento (23:56). O detalhe mostra a fidelidade delas à Lei e prepara a cena seguinte. Elas sabem exatamente onde o corpo foi colocado e voltarão ao túmulo no primeiro dia da semana. Não poderão dizer que se enganaram de lugar.

A contribuição do bloco para o livro e para a Bíblia

Este bloco é o cumprimento do que todo o Evangelho anunciou. O êxodo que Jesus deveria cumprir em Jerusalém (9:31) se realiza na Páscoa, com a entrega de seu corpo e o derramamento de seu sangue da nova aliança. Ele é contado entre os transgressores, como Isaías anunciou. Satanás, que se afastou "até o momento oportuno" (4:13), volta na traição de Judas e nas zombarias que repetem as tentações do deserto. Mas Jesus permanece fiel até o fim.

As ênfases de Lucas iluminam o significado da paixão.

  • A inocência de Jesus: declarada por todos os personagens, mostra que ele não morreu por seus próprios crimes.
  • O perdão oferecido na cruz: revela o coração de Deus.
  • A salvação do malfeitor: mostra que a graça alcança até o último momento.
  • A entrega ao Pai: revela a confiança do Filho.
  • A confissão do centurião: antecipa a fé dos gentios.

No quadro da Bíblia, o bloco cumpre a Páscoa do Êxodo, a nova aliança de Jeremias, o Servo sofredor de Isaías e os salmos do justo sofredor (Sl 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 31; 69). Ele é o centro da história da redenção. É para essa morte que apontam as Escrituras de Israel, e é dela que nasce a Igreja.

Visão cristocêntrica: este bloco é o coração da visão cristocêntrica de toda a Bíblia, e a conexão com Cristo é direta e explícita.

Jesus é o Cordeiro da nova Páscoa. Sua morte acontece no tempo da Páscoa, e ele dá ao pão e ao cálice o sentido de seu corpo entregue e de seu sangue derramado. Paulo dirá que Cristo, nosso cordeiro pascal, foi sacrificado (1Co 5:7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Como o sangue do cordeiro protegeu Israel do juízo no Egito, o sangue de Cristo estabelece a nova aliança e traz o perdão dos pecados prometido por Jeremias.

Jesus é o Servo sofredor de Isaías 53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e isso não é uma leitura posterior, mas afirmação explícita dele mesmo (22:37). Ele é contado entre os transgressores, permanece em silêncio diante dos acusadores, intercede pelos pecadores e é sepultado com o rico. É o Justo que justificará a muitos.

Jesus é o Filho obediente que, no monte das Oliveiras, submete sua vontade à do Pai e bebe o cálice do juízo em lugar dos pecadores. Hebreus verá nessa obediência a razão pela qual ele se tornou o autor da salvação eterna (Hb 5:8-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Jesus é o Filho do Homem exaltado à direita de Deus (22:69). No momento em que é condenado, ele anuncia sua entronização. A cruz é o caminho para o trono.

Jesus é o Rei dos judeus, como a inscrição da cruz declara (23:38). É o Rei que reina doando a vida, e não salvando a si mesmo.

Jesus é o intercessor. Ele ora por Pedro antes da queda (22:32) e pelos que o crucificam (23:34). Hebreus o apresentará como aquele que vive sempre para interceder pelos que se aproximam de Deus por meio dele (Hb 7:25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Jesus é o Salvador que, no último momento, abre o paraíso a um criminoso arrependido (23:43). De modo temático, alguns intérpretes veem na promessa do paraíso, o jardim, uma reversão da expulsão do Éden: o que foi fechado por causa do pecado de Adão é reaberto por meio do novo Adão. Essa leitura é sugestiva e coerente com a genealogia que chega a Adão (3:38), mas não é desenvolvida explicitamente por Lucas.

O véu rasgado (23:45) indica que, pela morte de Jesus, o acesso à presença de Deus foi aberto, como Hebreus desenvolverá (Hb 10:19-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A troca entre Jesus e Barrabás, o inocente condenado e o culpado libertado, oferece uma imagem temática da substituição: o justo morre pelos injustos (1Pe 3:18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Lucas não a explicita, mas ela é coerente com toda a narrativa.

Aplicações espirituais e práticas:

  1. A proximidade não garante fidelidade. Judas foi escolhido por Jesus, conviveu com ele, comeu à sua mesa e participou da missão. Ainda assim, o traiu por dinheiro. Estar perto das coisas de Deus, participar de uma comunidade ou exercer funções religiosas não substitui um coração entregue a Cristo. A história de Judas é uma advertência séria sobre o poder do dinheiro e sobre a importância de vigiar o próprio coração.

  2. A ceia como memória viva. Jesus deu aos discípulos uma refeição para lembrar sua morte. Participar da ceia do Senhor é proclamar sua morte até que ele venha (1Co 11:26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), renovar a aliança com ele e com os irmãos e receber a graça de seu sacrifício. É também um convite a examinar a si mesmo e a viver em comunhão com os outros que participam da mesma mesa.

  3. Liderança que serve. Na noite mais importante de sua vida, Jesus viu os discípulos disputando posição e lhes ensinou que o maior deve ser como quem serve. Os "benfeitores" do mundo usavam a generosidade para controlar e exigir honra. Para quem lidera empresas, equipes, instituições ou igrejas, o modelo de Jesus é exigente. A autoridade existe para servir as pessoas, e não para ser servida por elas. Jesus, o Senhor, está no meio dos seus como aquele que serve.

  4. Jesus ora por nós antes da nossa queda. Jesus sabia que Pedro o negaria e orou por ele antes disso, para que sua fé não desfalecesse. Também confiou a ele uma missão para depois da queda. Para quem falhou gravemente, essa é uma palavra de esperança: a falha não é o fim, e Jesus continua intercedendo. Quem foi restaurado é chamado a fortalecer os irmãos com a experiência da graça que recebeu.

  5. A oração honesta e submissa. No monte das Oliveiras, Jesus expressou ao Pai seu desejo de que o cálice fosse afastado, mas submeteu esse desejo à vontade do Pai. A oração cristã não precisa esconder a dor, o medo ou os desejos. Pode expressá-los com toda honestidade. Mas ela termina na entrega à vontade de Deus, confiando que ele sabe o que é melhor.

  6. Não responder à violência com violência. Quando um discípulo usou a espada, Jesus mandou parar e curou o homem ferido. Até no momento da prisão injusta, ele praticou o amor aos inimigos. Diante de injustiças e ofensas, a resposta cristã não é a retaliação, mas a firmeza na verdade unida à misericórdia.

  7. O olhar que restaura. Pedro, cheio de autoconfiança, negou Jesus três vezes. Mas o olhar de Jesus o encontrou, e ele chorou amargamente. A autoconfiança espiritual é perigosa: quem se julga forte demais para cair está mais exposto à queda. Ao mesmo tempo, o olhar de Jesus não é de condenação, mas de convite ao arrependimento. As lágrimas de Pedro foram o início da sua restauração.

  8. Fazer o que é certo sob pressão. Pilatos sabia que Jesus era inocente e o declarou três vezes, mas cedeu aos gritos da multidão e aos riscos políticos. A tentação de Pilatos é comum a juízes, advogados, gestores e líderes de todo tipo: saber o que é certo e, mesmo assim, ceder à pressão, ao medo de perder posição ou à conveniência. José de Arimateia, ao contrário, discordou da decisão dos colegas do conselho e teve coragem de se identificar com Jesus. A integridade exige coragem para agir de acordo com a verdade, mesmo quando isso custa.

  9. Curiosidade não é fé. Herodes queria ver Jesus havia muito tempo, mas apenas para assistir a um espetáculo. Diante dele, Jesus ficou em silêncio. Há quem se interesse por Jesus como tema de debate, de curiosidade ou de entretenimento, sem disposição para segui-lo. A esses, Jesus nada tem a mostrar.

  10. Carregar a cruz atrás de Jesus. Simão de Cirene não escolheu carregar a cruz; foi obrigado. Mas, ao fazê-lo, tornou-se a imagem do discípulo que segue Jesus levando a cruz. Muitas vezes, as cruzes da vida chegam sem que as escolhamos. A diferença está em carregá-las "atrás de Jesus", seguindo-o e confiando nele.

  11. Perdoar até os que nos ferem. Na cruz, Jesus intercedeu pelo perdão dos que o crucificavam. É a demonstração máxima do amor aos inimigos que ele ensinou. Perdoar quem nos feriu profundamente não é fácil, nem significa negar a gravidade da ofensa. Mas é possível pela graça de quem perdoou primeiro, e liberta quem perdoa do peso do ressentimento.

  12. Nunca é tarde demais. O malfeitor arrependido, nas últimas horas de vida, reconheceu sua culpa e confiou em Jesus, e recebeu a promessa do paraíso. Ninguém está tão longe que não possa ser alcançado pela graça. Para quem pensa que é tarde demais, por causa da idade, dos erros cometidos ou das circunstâncias, a cena é um convite claro: ainda é tempo de pedir a Jesus que se lembre de nós.

  13. Morrer entregando-se ao Pai. Jesus morreu orando um salmo de confiança e entregando seu espírito nas mãos do Pai. A morte cristã não precisa ser vivida com desespero, mas com a confiança de quem se entrega a Deus. Para quem enfrenta a morte de pessoas queridas ou a própria finitude, Jesus mostra o caminho da entrega confiante ao Pai.

  14. A fidelidade das testemunhas. As mulheres que seguiam Jesus desde a Galileia estiveram presentes na cruz, no sepultamento e, depois, no túmulo vazio. Quando os discípulos fugiram, elas permaneceram. Sua fidelidade silenciosa é um exemplo de discipulado que não se desfaz diante do sofrimento.

Sabedoria para o Cotidiano
Na noite em que foi traído, Jesus serviu à mesa os que o abandonariam, orou pelo discípulo que o negaria e curou a orelha de um dos que vieram prendê-lo. Na cruz, intercedeu pelos que o crucificavam, abriu o paraíso a um criminoso e entregou seu espírito ao Pai com as palavras de um salmo. O inocente foi condenado para que os culpados fossem libertados. Diante dessa cruz, ninguém está longe demais para ser alcançado e ninguém é bom demais para dispensar a graça. A resposta é bater no peito como o publicano, pedir como o malfeitor que ele se lembre de nós e, como Simão de Cirene, carregar a cruz atrás dele, confiando que a última palavra pertence ao Pai.

Interpretação e comentários da Bíblia, sob direção editorial de José Carlos Fortes. Conteúdo elaborado com apoio de inteligência artificial, sob curadoria e revisão editorial. Esta página não reproduz texto bíblico protegido: traz referência, interpretação e comentário.